Introvertendo 317 – Autismo e Perfeccionismo

O perfeccionismo é um velho conhecido de muitos neurodivergentes e muitas vezes, no Introvertendo, já falamos sobre o assunto. Mas como encontrar o caminho do meio e escolher o “bom o suficiente”? Neste episódio, nossos podcasters falam como esse tema aparece em suas vidas e as estratégias não somente para lidar com ele, mas entender que de fato o perfeccionismo é um problema. Participam: Bruno Frederico Müller, Izabella Pavetits, João Victor Ramos e Kaoma Aleixo.

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Transcrição do episódio

Izabella: Olá, pessoal. Meu nome é Izabella. Está começando mais um episódio do Introvertendo. E hoje nós vamos falar sobre como o perfeccionismo pode afetar pessoas autistas.

Kaoma: Meu nome é Kaoma, sou psicóloga, especialista em análise do comportamento. Já dizia Avril Lavigne, “nobody is perfect”.

Bruno: Meu nome é Bruno, sou historiador e sou um perfeccionista em reabilitação.

João Victor: Olá a todos. Sou João Victor Ramos, escritor, poeta. E se esse episódio não ficar perfeito, digo, muito bom na gravação, eu vou ficar muito chateado.

Izabella: Queria te convidar para acompanhar a gente nas redes sociais. É @introvertendo no Instagram, Facebook, Twitter e TikTok. Nós também temos o nosso site, www.introvertendo.com.br. Caso você esteja acompanhando pelo YouTube, não deixa de se inscrever no canal do NAIA Autismo.

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[Vinheta de abertura]

Izabella: Definir o que é perfeccionismo é uma tarefa muito difícil porque ele tem várias facetas, se expressa de formas particulares em cada pessoa. E ele pode ser tanto autodirigido quanto você pensar, cobrar perfeccionismo dos outros e você achar que os outros estão cobrando de você.

Então, ele pode aparecer em várias áreas da sua vida em diferentes formas, mas as pesquisas mais recentes costumam convergir em um ponto de que a pessoa perfeccionista estabelece padrões de qualidade extremamente rígidos e inflexíveis que geralmente provocam autocrítica severa e punitiva. Medo de fracasso e várias outras consequências que nós vamos debater ao longo desse episódio. E aí, o que acontece? Fala em padrão, a nossa desaplaudida rigidez cognitiva vai lá e acha ótimo.

Então, o perfeccionismo atinge todo tipo de pessoa, mas talvez seja mais difícil para os autistas porque a gente já tem essa tendência a achar padrões rígidos e ficar preso a eles. Na visão de vocês, o que é o perfeccionismo? Na visão e na experiência do dia a dia? 

João Victor: Nada está tão bom que não possa melhorar. Assim como tem o seu oposto, que é um ditado mais famoso, nada está tão ruim que não possa piorar. A gente acaba levando o polo positivo desse ditado a um extremo que beira, senão passa, a ser de fato completamente inalcançável.

E como a Izabella muito bem pontuou, a partir do momento em que a gente estabelece o que é o perfeito e se ancora nisso, enquanto não chegarmos nesse resultado para uma atividade, para um ofício em específico, seja desenho, seja desempenho acadêmico, seja escrita, seja uma atuação numa peça de teatro, você pode ter ido absurdamente bem, mas nunca vai ser o suficiente e você vai se condenar, você vai se machucar, você vai se martirizar achando que você é um derrotado, que você é uma causa perdida, que você não deveria estar naquela posição, que você não deveria estar fazendo o que você se propõe a fazer.

Izabella: Muito se fala que às vezes o perfeccionismo talvez seja positivo. É um clássico de entrevista de emprego, “ah, porque eu sou muito perfeccionista, não paro até o trabalho ficar perfeito para mim”. Eu não sei, sinceramente, na minha opinião, até nos casos em que talvez atue como uma alavanca para te motivar a ir mais longe no seu trabalho ou na sua vida pessoal, em qualquer esfera que seja, vem com custo, porque você sempre vai estar querendo melhorar e querendo melhorar e querendo melhorar.

Então, por mais que nesse aspecto que costuma ser apontado como “ah, porque te ajuda a alcançar a excelência”, primeiro, o que é excelência? O que é esse ponto inalcançável que você vai chegar, se esforçar tanto e encontrar o “nossa, agora eu venci na vida”. Você não tem esse ponto. Então, meio que você se leva a essa busca pelo perfeito e se perde, prende muito nisso.

E eu acho que o grande problema que é aliado a isso, a sociedade tende a romantizar a dedicação excessiva. Então, se você quer ser o melhor em alguma coisa, você está abrindo mão da sua vida pessoal, você está indo além dos seus limites físicos, dos seus limites psicológicos, as pessoas não vão pensar nisso. Elas vão pensar: “cara, como ele é esforçado”. Isso aí é o sucesso.

O que é ruim para todos os envolvidos, é ruim para quem está fazendo o esforço, porque ele vai pensar que o alto valor dele só está atrelado enquanto ele tiver esse “dito” sucesso. E para quem está de fora também é horrível, porque você fica vendo o cara, “nossa, aparece a reportagem lá, fulaninho dorme duas horas por dia e ganha um milhão de reais”. Aí você pensa: “nossa, sou um fracassado, né? Se eu dormir duas horas por dia, eu não vou ganhar um milhão de reais, porque o fulaninho está fazendo isso”. Então, é uma coisa que no meu ponto de vista, acaba sendo tóxica em vários aspectos, até no positivo, que eles costumam dizer.

Por exemplo, no contexto social, às vezes você está se cobrando, nós autistas, nos cobramos muito, talvez, performar, falar coisas adequadas no social, por experiências passadas de trauma. A gente, às vezes, criou a ideia de ter que agir de determinada forma, ou não sabe como agir, mas sabe que tem um perfeito para você ser bem-sucedido. O que acontece? Isso pode acabar afastando o autista, isso acontece comigo, de situações sociais.

Porque você pensa: “cara, toda vez que eu me junto com, sei lá, uma mesa que tem muitas pessoas, podem ser conhecidas minhas ou não, eu travo. Então, eu nunca mais vou, porque se eu ficar lá sem contribuir com nada para o que está sendo conversado, vou ficar com a cabeça parecendo um ventilador, olhando só para um lado, para o outro, para um lado, para o outro”. Eu fico me cobrando isso de: “eu não acrescentei nada”. Porque na minha cabeça, eu criei esse padrão de: “ai, porque para você ser convidado, as pessoas têm que gostar de você”. E eu fico: “mas como alguém vai gostar de mim se eu não consigo abrir a boca para falar nada?”.

João Victor: Eu me sinto a mesma coisa, tipo, se eu não teci algum grau de contribuição mínima para uma conversa a qual gentilmente me cederam algum lugar, a frustração quando eu volto para casa é tão gigante, e isso tende a piorar pela seguinte questão.

Às vezes, eu já cheguei no limiar de ou a perfeição ou nada. Eu acho que isso é o que mais afeta o autista que é vítima desse dilema, porque ou você desempenha uma habilidade num nível inalcançavelmente perfeito, ou é melhor você nem desenvolver essa habilidade, é você tentar qualquer outra coisa, sabe?

Eu lembro que eu traçava objetivos, o pequeno JV, né? Traçava objetivos muito impossíveis, assim. Se não for para ser aquilo, é melhor não ser, tá ligado? O exemplo mais recente, entre aspas, antes da pandemia da Covid, eu treinei boxe por três anos. Três longos anos. E meu mestre ia me preparar para subir no ringue, só que aí veio a Covid, por opção, para poupar minha família, que é de risco, eu pensei “não, não vou subir no ringue”.

Aí depois minguou o sonho e já tinha outras vontades, outras aspirações, outras inclinações. Mas eu lembro categoricamente que meu nível de competição estava tão alto, que eu falava para mim mesmo: “ou eu subo na porra de um pódio olímpico, caralho, ou eu prefiro nem subir na merda da minha academia para treinar”. Era nesse nível a parada de tão fanático e hiperfocado que eu estava pelo esporte. 

Kaoma: Mas essa questão desse padrão, ela funciona muito nesse tudo ou nada, né? Ou você consegue fazer o seu melhor, ou você desiste e não quer iniciar ali a atividade. Isso acaba mantendo também o padrão de perfeccionismo. Se eu for fazer alguma coisa, obviamente eu vou me frustrar, porque nunca vai ser perfeito. E aí é melhor eu não fazer, é melhor eu não desenvolver nenhuma habilidade que seja importante, do que eu lidar com essa frustração.

Então o perfeccionismo é uma coisa que vai minguando, vai diminuindo a gente se expor às coisas e vai dificultando cada vez mais você ir melhorando, porque o progresso é gradual. Eu não sei se vocês tiveram isso também, mas: “ah, eu vou começar a estudar alemão, eu vou ter muita facilidade em fazer isso”. E às vezes não, às vezes é uma língua difícil mesmo (risos). Mas sentar, estudar e entrar em contato vai ficando mais fácil.

Mas a gente entra nesse padrão de perfeccionismo. E aí a Bella estava falando desses padrões positivos. Teoricamente assim, dentro da psicologia, se a gente tem associado a um padrão de metas muito ambiciosas, vamos colocar assim. Mas quando a gente tem associado às vezes a uma flexibilidade cognitiva maior, então tipo: “ah, eu quero alcançar o máximo de perfeccionismo possível, mas eu entendo que isso não vai ser possível”. Nesse quesito, o perfeccionismo pode ser um direcionamento muito positivo, como se fosse uma ambição positiva (risos). Mas de forma geral ele é uma questão que traz muitos malefícios, como a Bella falou. 

Bruno: Eu pego pela minha experiência pessoal. Bom, eu sempre escrevi, né? Desde muito jovem. Mas eu sempre tive um padrão muito alto de exigência para que me permitisse expor aquilo que eu escrevia. Eu só consegui atravessar essa barreira através da pressão.

Chegou uma situação em particular, na época eu estava envolvido em ativismo vegano e aconteceu um assunto que estava em voga na comunidade, um processo que estava sofrendo uma ONG. E eu tinha muito a comentar sobre esse assunto, mas eu não me sentia preparado para mostrar aquilo que eu pensava e aquilo que eu havia escrito. Até que alguém falou para mim: “olha, nós podemos publicar o seu texto na internet, no nosso site”. E eu tinha que dizer sim ou não para aquela oportunidade que foi aberta.

E eu poderia ter sido tão perfeccionista, tão exigente a ponto de dizer não, mas eu percebi que naquele momento, se eu queria que o meu trabalho frutificasse, tanto do ponto de vista pessoal, quanto do ponto de vista da causa que eu defendo, eu tinha que fazer alguma coisa, eu tinha que sair do imobilismo. E eu disse que sim, então.

Publiquei não só esse texto, como comecei a publicar com regularidade outros textos, mas todo o texto que eu publicava era sempre o mesmo nível de exigência, a mesma cobrança de que não ficou bom o suficiente, de que as pessoas iam achar meu texto ruim, iam achar meu texto risível, que eu ia passar vergonha. E um nível de exigência até mesmo, como é que eu posso dizer, ilusório, digamos assim, porque mesmo que não estivesse perfeito, não estava risível, não estava ridículo. Estava bom e o feedback que eu recebia era sempre muito positivo.

E eu levava isso, é claro, também para o meu trabalho acadêmico. Eu constato na minha vida, na minha vida profissional e pessoal, ele chega a ser uma forma de auto-sabotagem. Ele é um defeito muito sério. Ao mesmo tempo que eu constato que no senso comum ainda muita gente, geralmente não perfeccionistas, obviamente, mas às vezes até perfeccionistas, veem como uma qualidade. E quando você confronta essa questão de que o perfeccionismo leva a pessoa à paralisia e a nunca levar um projeto a termo, as pessoas não aceitam, não concordam, acham que ele é bom, porque sem perfeccionismo as pessoas estariam fazendo trabalhos muito ruins. É um trabalho mesmo de educação do público dos aspectos mais destrutivos do perfeccionismo.

Izabella: Teve uma coisa que você falou que eu achei interessante, que quando você mencionou que os feedbacks que você tinha dos seus textos eram positivos, mas você nunca achou que estava bom. Um dos reflexos do perfeccionismo é que acaba que nós somos os nossos maiores críticos.

Eu também tenho muito isso, eu sou jornalista, então eu estou sempre escrevendo texto, eu nunca estou satisfeita com nada do que eu entrego. Não tem um texto, uma vez que eu entreguei lá no trabalho, que eu sei lá, fiz alguma coisa, pensei: “não, isso aí eu mandei bem, ficou legal”.

E é complicado, porque é diferente de você querer se esforçar sempre, estar se aprimorando. Isso é legal, é saudável, as pessoas têm que se esforçar para melhorar. O problema é quando você faz isso de uma forma compulsiva e super rígida e cruel consigo mesma, e você nunca está satisfeito com nada, você não acha que as coisas são boas.

Eu dei esse exemplo do trabalho, outro exemplo é aqui, o próprio Introvertendo. Eu sempre pego o tema, estudo antes, não sei o quê, e penso: “eu tenho vários tópicos para abordar”. E chega que eu acho que não falo nem meio do que eu me preparei, saio daqui pensando: “é agora que eu saio do Introvertendo, eu não estou acrescentando nada à equipe”.

E assim, eu dependo muito de validação externa, porque a minha opinião sempre vai ser negativa, eu sempre vou sair daqui pensando: “é rapaz, rendi nada, vou me embora, esconder embaixo de uma pedra”. Então, muitas vezes, quando bate essa autocrítica de: “por que você está gravando um podcast? Você está fazendo as pessoas perderem o tempo delas, você está passando vergonha”, eu tenho o hábito perigoso de dar uma olhada nos comentários para ver o que o pessoal está achando.

Eu ainda não tive, graças a Deus, o caso de você chegar lá e ter um hater me xingando nos comentários, que aí realmente todos os comentários positivos que eu já vi, iam assim, sei lá, para o beleléu, e eu ia, sei lá, imprimir esse comentário negativo, botar assim do lado da minha cama e falar: “está vendo? É uma fracassada mesmo, não adianta nada você estudar, não adianta nada você querer contribuir”. Porque eu sempre fico achando, eu coloco esse padrão do que seria um rendimento perfeito num episódio do Introvertendo, e eu nunca alcanço esse padrão e saio daqui pensando: “é, não deu não”.

Kaoma: A Patrícia é muito chata.

Izabella: Exatamente (risos). O que a Kaoma mencionou é que a minha psicóloga, eu tenho um problema muito sério com esse monólogo interior. Minha voz, a voz que está dentro da minha cabeça, ela é muito cruel, ela é muito crítica, ela é terrível, então minha psicóloga deu a sugestão de toda vez que eu começar a pensar esse tipo de coisa, eu falar: “não, essa não é a Izabella, essa é a…” Aí ela falou para eu escolher o nome. Aí eu escolhi Patrícia, porque todas as que eu conheci eram terríveis. Desculpa, se você chama Patrícia, você é legal, eu te amo. 

Kaoma: Acabou de surgir a primeira crítica (risos).

Izabella: (Risos)

João Victor: Nossa Senhora! 

Izabella: É… Às vezes tem certas coisas que eu penso> “olha, ficou uma bosta, mas eu entreguei, vamos lá, né? Ok, beleza”. Mas tem hora que não, que está mais pesado que eu acho que talvez quando eu estou mais instável mentalmente, digamos assim, que aí vai, né? Vai descendo a lenha em cima de mim mesmo e tal, falando que: “ah, vou ser uma fracassada, nunca vai conseguir nada, nem começa, você não vai ser perfeito nunca, então por que você vai se dar o trabalho de começar?”

João Victor: Eu acho que essa segunda coisa mais perigosa na questão do perfeccionismo, atrai somente daquele extremo de ou o perfeito ou nada, que é a questão de você começar uma prática de algum ofício e se você não tiver um aprendizado constante, consistente, rápido, se você não for o famoso, aqui coloquem muitas aspas, “prodígio”, você não vai pra frente, você tem que parar, você tem que desistir, você tem que pular pra outra iniciativa.

E na questão da escrita, perfeccionismo define esse que vos fala, eu também só estou nessa iniciativa da escrita por pura pressão, não só na questão da escrita, mas também na minha maneira de expor isso ao mundo, sabe? Porque eu crio diversas formas na minha cabeça, assim, de edições de como mostrar um determinado poema de uma maneira minimamente apresentável nas redes sociais. Aí eu arquivo tudo depois, aí depois eu desarquivo o poema pra ele ficar visível e depois eu arquivo de novo e fica aquele pingue-pongue ridículo, tá ligado? Apaga, volta, apaga, volta, apaga, volta.

E eu já fiz isso com diversas postagens minhas, com diversas edições que eu faço, é um perfeccionismo mais fútil, mais ridículo, mas é o que ocorre porque por mais que eu seja rígido com a minha escrita, eu tenho uma certa confiança na minha habilidade porque eu treinei muito ela. Isso porque eu ainda lapido bastante. Em que sentido?

Se eu escrevo um poema X, eu coloco a data de início da escrita desse poema e às vezes a data da atualização mais recente é quatro anos depois de tanto que eu mexi nele ao longo desse hiato, sabe? Eu só comecei a publicar poema meu no Instagram ainda com muitas ressalvas e receber feedback positivo também, infelizmente, por pressão de amigos.

Eu prefiro não ser perfeccionista e ser mais gentil comigo mesmo no ato de: “ah, João, pode melhorar um pouco ou se não puder melhorar mais, tudo bem” do que ser perfeccionista de fato. Eu tô cansado, brother.

O perfeccionismo também grita muito aqui no Introvertendo mesmo. Tem horas que eu falo pra mim mesmo: “cara, que desempenho caótico, meu amigo. João, você foi um energúmeno. João, você falou cada abobrinha, brother, cada impropério. Meu amigo, falta quanto pra você lançar uma heresia nesse microfone? Pelo amor de Deus”. Aí lá vinha eu, principalmente nos primeiros meses, falo mesmo. “Tiago. Tiago, meu lindo, vem cá”. 

Izabella: Tiago, o nosso diretor, tá, gente?

Tiago: “Eu fui bem neste episódio, Tiago? Fala pra mim, fala o que tá faltando, Tiago? O que tá faltando, cara?”. “Não, João Victor, não é bem por aí. Vamos lá, vamos conversar”. Ele com toda a calma, paciência e gentileza do mundo, nosso querido fundador e diretor geral, fala: “não, João Victor, não é bem por aí, que não sei o que, que não sei o que lá”. Cara, eu nunca me dava por satisfeito. Agora, de uns nove meses pra cá que eu tô melhorando essa porra. De uns nove meses pra cá que eu tô parando de perturbar o homem com isso.

Bruno: É, vocês estão descrevendo o processo mental de todo perfeccionista. E é muito cansativo e muito destrutivo. Eu também passei por esse tipo de situação, enfim, é… Até hoje eu não consigo reler meus textos. Muitos deles eu já perdi, aliás, perdi em HDs que foram perdidos e eu não tinha backup. Outros foram apagados dos sites onde estavam hospedados.

Quando eu publiquei meu primeiro romance, eu tive uma certa lua de mel, mas assim, o orgulho de ter alcançado, atingido uma meta, né, um projeto ao qual eu me dediquei por quase um ano, mesmo assim eu demorei… pra escrever mesmo, eu demorei uns nove meses. Depois, acho que um ano, revisando o texto, aperfeiçoando o texto, cortando muita coisa. A versão original em Word tinha acho que umas 320 páginas, por aí. A versão final ficou com 250, ou seja, eu cortei umas 70 páginas, 70, 80 páginas. Aí, quando eu consegui publicar, eu consegui vivenciar o prazer de ter concluído um projeto e receber algumas críticas positivas. Mas mesmo nesse caso, depois acho que de um ano ou dois, eu nunca mais voltei a reler o texto e quando eu abri de novo, eu não gostei do que eu li.

Vocês também mencionaram o fato de aprender coisas novas, né? Eu acho que o perfeccionismo é um dos motivos pelos quais eu nunca progredi no estudo de música, porque passar dessa fase em que você ainda precisa de muita prática e muito aperfeiçoamento e você não vai soar maravilhosamente bem nos primeiros meses que você está tocando um instrumento e aguentar essa frustração. Eu nunca consegui passar dessa fase. Então, eu fico meses, às vezes anos, sem tocar no instrumento. Aí, quando eu pego ele de volta, eu fico bastante tempo para recuperar aquilo que eu havia perdido e começar a fazer um progresso e aí eu acabo parando de novo. Então, eu nunca consegui ter uma fluência no instrumento por ser perfeccionista.

O perfeccionismo não me levou a me tornar melhor em nada. Pelo contrário, ele me ajudou a ou ficar estagnado num estágio primordial, que seria o caso da música, ou pensar mil vezes antes de tocar um novo projeto literário, acadêmico, alguma coisa do tipo. 

Kaoma: Uma das coisas que eu tenho trabalhado com a minha terapia é eu ter entendido alguns padrões. E eu percebo muito que, muitas vezes, na faculdade, óbvio que tinha também outras comorbidades, TDAH, eu não era diagnosticada na época, mas eu percebia como eu fazia, às vezes, assim, deixava sempre as coisas para a última hora, mesmo estando consciente, eu podia me organizar, eu podia fazer alguma coisa. Por quê? Porque se eu fizesse e não desse certo, não era porque eu não era competente, não era porque eu não consegui, é porque não deu tempo.

Então, eu fui criando ali um mecanismo de auto-sabotagem, basicamente, no qual eu ficava procrastinando para iniciar, para fazer, e eu deixava assim, para os últimos momentos. E aí, se eu tirasse 8, que não era a nota que eu queria, ou uma nota entre muitas notas mais baixas, eu tinha uma desculpa, porque fiz de última hora, se eu tivesse mais tempo, eu ia conseguir fazer melhor.

Isso foi criando uma bola de neve, assim, muito difícil, um padrão muito difícil de romper, porque o perfeccionismo, o pior dele, é que ele vai se auto alimentar. Então, eu não inicio nada, se eu não faço nada, além de depressão, que eu vou desenvolver, eu não tenho que lidar com essa frustração, não tenho que lidar com isso, mas ao mesmo tempo, eu não ganho as coisas que eu poderia ganhar. Por exemplo, eu não aprendo a falar um idioma novo, eu não aprendo a escrever de um jeito diferente, eu não aprendo a fazer o conteúdo ali, então, eu vou perdendo coisas que seriam importantes para mim.

E aí, hoje, inclusive, na minha sessão de terapia, o tópico foi muito sobre competência social e habilidades sociais, porque a gente, às vezes, fica: “nossa, eu tenho que adquirir habilidades sociais naquele contexto”, mas às vezes a gente tem, tipo: ah, eu acho que, né, espero que todo mundo aqui saiba que você tem que chegar, você tem que cumprimentar as pessoas. Mas a competência de que você vai fazer isso vai dependendo de muitas coisas. Então, às vezes, você pode chegar e ficar mais triste e dar um “oi”, mas capengue, mas ainda assim, é uma habilidade que você tem.

O perfeccionista, ele acaba dificultando muito isso, porque você vai criando essa noção, tipo: “se eu não conseguir ser o melhor, mais competente em um contexto específico, quer dizer que eu não tenho isso, quer dizer que eu não sou isso”, e não é verdade. A gente tem variações, até mesmo, tipo, entre coisas que a gente consegue fazer. E olhar para as outras pessoas é meio, em relação a essa questão de perfeccionismo, é muito ruim para a gente, dessa comparação, tipo: “ah, fulano consegue, por que eu não consigo?”. Porque eu não sou fulano. Às vezes eu tenho dificuldades que essa pessoa não vai ter e vice-versa. Então, são muitas coisas que acho que envolvem o perfeccionismo, que vão dificultando, no meu caso em específico, essa questão da procrastinação. Acho que eu, atualmente, o padrão que tem mais me atrapalhado (risos).

Izabella: Aproveitando o gancho da autossabotagem que vocês falaram, eu queria indicar o episódio do Introvertendo do Antigo Testamento, número 27, Perfeccionismo e Autossabotagem, de 2018. Toma cuidado que a introdução ainda é aquela barulhenta e tal, para quem lembra, mas, enfim, é legal, vai lá conferir.

João Victor: Eu acho que quando o assunto é perfeccionismo e autossabotagem, é incrível que toda vez que o perfeccionista se compara com uma outra pessoa, o perfeccionista sempre fica abaixo de todo mundo, segundo o próprio pensamento dele, segundo o que ele pensa. É como se fosse uma corrida em que ele sempre estivesse em último lugar, e isso só prolonga o sofrimento, só prolonga a sua frustração, só aumenta a pressa dele. É como se a frustração fosse um muro e ele corresse e batesse de testa contra esse muro de concreto da frustração, de modo que o impacto seja maior e ele acabe desistindo mais rápido.

Bruno: Eu queria também abordar um aspecto do perfeccionismo que é, além da severa autocrítica, que é a dificuldade de lidar com críticas. Porque, assim, como eu mencionei, quando eu comecei a publicar meus textos e quando eu publiquei meu primeiro romance, eu recebi muitos feedbacks positivos.

Agora, houve um momento na minha trajetória que eu tive que aprender a lidar com as críticas. Às vezes as críticas não são nada construtivas, às vezes elas não são nada delicadas, e você precisa criar uma casca para conseguir absorver essas críticas. E isso é um aprendizado muito difícil. Quando você é muito crítico de si mesmo, você também, eu acho, pelo menos na minha experiência foi assim, tem uma dificuldade de aceitar críticas que vêm dos outros. Porque se o seu nível de exigência é tão alto, qualquer crítica que você recebe faz desmoronar o seu castelo de cartas. 

João Victor: A perspectiva é quase daquela maneira: “Nossa, eu já me critico demais, não precisa vir mais… não precisa vir crítica de uma outra pessoa para acrescentar. Eu já sou o suficiente para criticar a mim mesmo”.

Bruno: Nossa, eu escrevi um texto e eu tentei cobrir todas as críticas possíveis que poderiam ser feitas à ideia central do texto. Aí chega alguém e coloca uma crítica que eu não havia pensado, a qual eu não havia me antecipado.

João Victor: Acabou com o Bruno.

Bruno: Acabou. Meu mundo caiu.

Izabella: Uma coisa que eu fico pensando muito é de onde pode ter vindo esse traço de perfeccionismo em mim mesma, nas outras pessoas, porque ninguém nasce: “Ah, eu tenho o gene do perfeccionismo e é isso, estou condenado”. E nem necessariamente tem a ver com o autismo. O autismo acaba impulsionando essa tendência para ser perfeccionista pela questão do padrão rígido de comportamento. Mas não é relacionado a isso. Falar assim: “Ah, não, vocês estão falando que só autista é perfeccionista agora”. Não, não é isso.

Mas eu fico refletindo sobre de onde veio isso no meu caso, porque às vezes tem gente que fala: “Ah, não, veio porque minha família me cobrava muito”. E não é o meu caso. Minha família nunca foi de cobrar muito em sentido nenhum, inclusive é uma memória muito forte que eu tenho de ir em reunião com o professor, não sei o quê, e eles falarem: “Olha, a Izabella se cobra demais, o que está acontecendo? São vocês que cobram e tal?”. Isso comigo do lado. E eles falam: “Não, mas a gente não está cobrando que ela se esforce dessa forma”. Porque os professores perceberam que estava passando do ponto, que não era tipo “Ah, que aluna dedicada”. Era tipo: “Ela precisa de ajuda, se forem vocês que estão cobrando, vamos diminuir aí três tons?”. Mas não era.

O que eu acho que aconteceu no meu caso? Eu tenho autoestima baixa, sempre tive autoestima baixa, e aí era a forma que eu tinha. O único contexto que eu achava que eu estava mandando bem era no acadêmico, então eu tinha essa validação externa. E aí era sempre aquela coisa: “Ah, como ela é inteligente, não sei o quê, como ela é uma boa aluna, como ela é uma filha tão quietinha e tal”. E assim, era como se fosse o joinha de: “Beleza, você não é uma fracassada, então você precisa manter isso, custe o que custar”.

Então eu acho que no meu caso, veio mais dessa necessidade de ter a validação dos outros e no contexto, sei lá, produtivo, digamos assim (risos). Aí no contexto pessoal, eu acho que pode ter vindo numa forma de me proteger também, né? Porque eu tentava agir de determinada forma e tinha consequências negativas. Eu falava assim: “Então tá bom, eu vou estudar como o fulaninho está se comportando e eu tenho que chegar neste nível aqui de desenvoltura social, porque senão eu vou ser uma pária. E aí eu nunca vou chegar nesse contexto de desenvoltura social porque eu não sou fulaninha e porque eu sou autista”.

É complicado, né? Porque a gente fica nessa de querer estabelecer metas que não são atingíveis e não sei o quê. Aí se por um acaso você faz uma coisa que é muito legal, eu não sei se vocês passam por isso, tipo, sei lá, fala: “Ah, não, você ganhou um prêmio”. Eu não vou conseguir pensar: “Não, beleza, agora eu fiz uma coisa legal”. Eu vou pensar: “não fez mais, sou obrigação. Você tá achando o quê? Que você fez uma grande coisa?”. E é difícil quando você é perfeccionista. Além de tudo isso, você tem muita dificuldade de reconhecer os seus próprios feitos e as coisas boas, sejam elas grandes ou pequenas. Vocês conseguem pensar assim na história de cada um? Talvez de onde tenha vindo esse padrão de comportamento, essa cobrança tão intensa?

João Victor: Eu era sempre muito elogiado pelo meu desempenho escolar. E apesar disso, meus pais nunca me cobraram para ser o número um da sala, pra ser o bambambam da sala. Tipo, não de jeito maneira. Mas eu também me cobrava muito nesse sentido, porque como essa qualidade era deveras realçada, eu pensava mais ou menos assim: “Cara, eu preciso continuar sendo esse excelente aluno, porque talvez se em algum momento as minhas notas decaírem, se em algum momento eu deixar a desejar nesse sentido, talvez eu compense o fato de ser problemático”. Eu era um aluno extremamente problemático nas relações com os meus colegas e amigos. Eu era muito brigão, arranjava pretexto pra sair na mão com vários deles direto, semanalmente. Então, assim, se eu não tirar essas notas boas, pelo menos eu não vou estar em apuros tão grandes em termos escolares, tá ligado? 

Kaoma: No meu caso, a Bella falou que no caso dela, a família dela não cobrava, a minha cobrava bastante. Eu lembro que eu passei em primeiro lugar na UFG, para Psicologia. E, assim, é um feito bem considerável. E eu lembro que quando eu fui contar pro meu pai, ele falou assim: “Óbvio que você passou em primeiro lugar, a gente pagou escolas boas pra você. Como você não teria?”.

Então, eu sinto que tipo, o ambiente familiar era um ambiente que me cobrava muito, mas eu tinha muito isso também, de sentir tipo: “eu sou tão ruim em tantas coisas, eu tenho tantas coisas que eu não tenho competência nenhuma. Então, as coisas que eu consigo fazer, as coisas que eu tenho mais facilidade, ou que eu tenho mais habilidade, eu preciso ser muito boa. Eu preciso compensar tudo que eu não consigo através disso”.

De novo, aquele mecanismo, né, de tudo ou nada. Pode ser que eu tenha algumas dificuldades sociais, pode ser que eu tenha algumas dificuldades de estudar, tipo, matemática, etc. Mas eu tenho coisas que vão ali, como… me salvar. Vão fazer com que eu não seja, tipo, pior do que a mosca do cocô do cavalo. Então, pra mim, foi muito desenvolvendo assim.

Bruno: Eu não acho que tenha um responsável. Eu sou perfeccionista desde que eu me entendo por gente. E é claro que havia muita expectativa dos meus pais, da minha família, em relação a mim, porque eu sempre fui considerado muito inteligente. Mas eu não acho que houve uma cobrança excessiva ou algum tipo de atitude da parte deles que tenha me tornado perfeccionista. Inclusive, eu acho que eu sou perfeccionista para além do aspecto intelectual, acadêmico. Eu sempre quis ser muito perfeito em tudo.

Vou dar um exemplo aqui da minha infância. O João Victor mencionou que ele era brigão. Eu fui envolvido em algumas situações de violência na infância e eu não revidava. Eu não revidava não porque eu achasse que era inútil, ou porque eu me considerasse fraco, porque eu considerava errado usar da violência em qualquer situação. Mesmo que tivesse cinco moleques se juntando pra me dar porrada, eu achava que eu não tinha o direito de me defender, nem de me defender.

Então, assim, em todos os aspectos da minha vida, eu queria ser a minha melhor versão, a minha mais perfeita versão. E eu acho que é uma característica da minha personalidade. Não consigo pensar em outra explicação. Agora, eu queria dar um exemplo de tudo isso que a gente está debatendo aqui através de uma figura publicamente conhecida, né? Para mostrar como a nossa ideia de perfeccionismo pode ser falsa e ilusória.

Tem o cineasta Stanley Kubrick, que é um célebre perfeccionista. E as pessoas podem usar do exemplo dele, né? Pô, se o Stanley Kubrick, que é considerado um dos maiores cineastas da história e era perfeccionista, chegou nesse nível, então perfeccionismo não deve ter atrapalhado em nada a carreira dele, né? Na verdade, ele só conseguiu dirigir 13 filmes ao longo de toda a sua vida, que foi uma vida relativamente longeva. E ele levava anos para concluir cada projeto no qual ele punha as mãos.

Ele abandonou vários desses projetos, né? Um deles foi retomado pelo Steven Spielberg depois, o filme Inteligência Artificial. Ele se envolvia em brigas com os produtores, com os atores e as atrizes. A maioria tem uma visão positiva da figura dele, mas assim, falavam como ele era basicamente um carrasco no set de filmagens. E ele só conseguiu os projetos que ele concluiu, ele só conseguiu concluir porque ele era tão valorizado pelo estúdio que ele era basicamente subsidiado pelo estúdio.

Se todos os cineastas tivessem as mesmas características que o Stanley Kubrick, a indústria cinematográfica já teria falido. E quando a gente ouve histórias de sucesso de perfeccionistas nas diferentes carreiras, a gente deve levar em consideração que é exceção e não a regra. 

Izabella: Eu queria muito poder encerrar esse episódio falando, então é isso galera, abracem a imperfeição, segurem nas mãos e pronto, estão curados. Mas não dá, né? Infelizmente, eu acho que a gente precisa desenvolver estratégias para poder lidar com ele e não deixar que ele cause tanto sofrimento. E assim, no meu caso, além da terapia, eu acho fundamental você estar com a terapia em dia.

Uma coisa que me ajuda muito na hora, por exemplo, destravar a procrastinação, seja em tarefas ou até, sei lá, procrastinando para convidar alguém para sair, porque eu acho que eu nunca vou ser a companhia perfeita. Eu tenho um mantra que eu roubei do post-it do quarto de uma amiga, estava em inglês, mas eu guardei em português. Eu fico assim: “não, feito é melhor que perfeito. Eu vou conseguir, vamos lá. Não vai ficar perfeito, mas eu fiz. Então, vamos lá”.

Então, é uma coisa que quando eu vejo que o trem está pesando, aí minha cabeça fica: “não, vamos lá, feito é melhor que perfeito. Você entregou”.

Bruno: Eu acho que a primeira coisa é que a gente tem que definitivamente entender que o perfeccionismo não é uma boa qualidade. E uma coisa que a gente tem que ter sempre em mente é que todo mundo que é saudável tem dúvidas. Não é saudável quem se deixa paralisar pelas suas dúvidas ou quem realmente se considera perfeito, que aí não é o caso exatamente do perfeccionista, né, é daquela pessoa que não tem autocrítica nenhuma, que acha que tudo que ela faz é maravilhoso, aí está mais para a narcisista.

Izabella: E você, como é que você lida com o perfeccionismo na sua vida? Você acredita em terra plana? Quer dizer, se o perfeccionismo é bom, você acha que ele é ruim? Conta aí pra gente nos comentários e a gente se vê no próximo episódio.

[Vinheta de encerramento]

[TURURU TURURU-RU TURURU RURU]

[Beep]

Izabella: Como forma de combater isso, eu dependo muito da validação externa, que é um pouco disfuncional se a gente for parar pra analisar, mas nós não vamos parar pra analisar. Então, eu tenho…

(Risos)

[Beep]

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian