Introvertendo 282 – Seletividade Alimentar

Uma das características mais frequentes em autistas, a seletividade alimentar afeta a saúde física e também a vida social de pessoas autistas e outros indivíduos de sua rede de apoio. Pensando mais globalmente sobre os desafios nutricionais de autistas, Bruno Frederico Müller, Gustavo Borges e Izabella Pavetits recebem a nutricionista Ana Júlia de Assis, que tirou todas as dúvidas em relação a este tema.

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Transcrição do episódio

Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo. Eu sou o Gustavo Borges, falando diretamente da terra do pequi, sem jamais ser colocado na boca.

Bruno: Olá, eu sou o Bruno e eu tenho inúmeras seletividades alimentares.

Izabella: Oi, eu sou a Izabella e apenas os alimentos mais seletos entram na minha boca.

Gustavo: E hoje, para poder falar sobre seletividade alimentar, trouxemos uma convidada muito especial que não vai falar abobrinha como o resto de nós. Por favor, se apresente.

Ana Júlia: Meu nome é Ana Júlia, sou nutricionista e trabalho com seletividade alimentar. E batata não é salada.

Gustavo: Você pode comer o seu alimento preferido enquanto escuta esse podcast, desde que você siga nossas redes sociais como @introvertendo no Instagram, no antigo Twitter, no Facebook e no TikTok. Aproveite também para poder acessar o nosso site introvertendo.com.br.

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[Vinheta de abertura]

Gustavo: Eu não falo muito sobre isso, mas eu me considero vegetariano porque eu parei de comer carne com 4 anos de idade. Não posso nem falar que é questão de política, de amor aos bichos, de nada. Por mais que eu tenha uma simpatia por esses assuntos, na verdade é que eu não como carne porque eu não gosto de carne.

E aí tem algumas aspas nisso, como ter descoberto que nuggets era carne só com 8 anos de idade, mas… só depois de muito, muito tempo eu fui ter essa noção, anos depois do diagnóstico eu fui parar pra pensar que a questão de eu não comer carne é uma seletividade alimentar do autismo.

Porque eu não gosto da textura da carne. Já tentaram me fazer comer carne de soja uma vez e eu achei meio parecido com carne moída e também não gostei. Então depois de muita, muita briga, deixando sempre no canto do prato, falando “não quero, não quero, não quero”, desistiram.

Ana Júlia: Eu achei legal você falar isso da textura porque uma das causas da seletividade alimentar é justamente essa questão sensorial. A gente tem vários aspectos que a gente usa para avaliar essa sensibilidade, essa seletividade. Dentro delas tem causas orgânicas, que pode ser que tem autistas na realidade, que vão ter ali, por exemplo, problema com refluxo, esofagite, são pessoas que têm uma predisposição a apresentarem esses problemas. Mas as causas sensoriais são as que a gente mais vê. Então questão de textura, cheiro, cor é muito comum. E isso da carne, até… manusear a carne crua, o cheiro dela, por ser um alimento com cheiro mais forte, também incomoda, né?

Gustavo: Eu não acho bonito.

Ana Júlia: Então assim, já vai gerando uma resistência maior com esse grupo alimentar.

Izabella: Você podia explicar pra gente o que é essa seletividade alimentar, aproveitar a sua expertise aqui no episódio de hoje?

Ana Júlia: Claro. A seletividade alimentar, na realidade, a gente divide ela em dois grupos, né? Tem a seletividade alimentar e tem a dificuldade alimentar. Aí a dificuldade alimentar é quando o indivíduo come, na realidade, menos que 15 alimentos. Não são nem grupos alimentares, são alimentos mesmo. São pessoas que vão apresentar ali até um sentimento de fuga e… incômodo físico, às vezes, com esse alimento estando presente na mesa, próximo dele. A dificuldade, então, ali é um caso mais extremo.

A seletividade que a gente acaba usando ali pra discutir esse tema é quando o indivíduo come mais que 15 alimentos, geralmente come um alimento de cada grupo alimentar, que é carboidrato, proteína, gordura e verduras, e geralmente não apresenta esse sentimento ali de recusa extrema, muito incômodo com esses alimentos específicos.

Por ser a forma que a gente conhece mais socialmente, a gente usa seletividade alimentar em tudo, né? Pra poder discutir esse tema. Mas as causas da seletividade são diversas, ela é multifatorial, tem as causas orgânicas, que é essa que eu tinha comentado, são pessoas que podem apresentar, por exemplo, refluxo, esofagite, alguma alergia ou intolerância. Então, tem uma causa física ali pra essa intolerância.

Tem causas relacionadas ao desenvolvimento da face, desenvolvimento da parte motora da boca, que alguém tem hipotonia, desenvolvimento da parte motora aqui mais fraco, às vezes não consegue segurar direito o garfinho, que a gente vê muito em criança com hipotonia.

Tem a parte sensorial, que envolve todos os nossos sentidos, né? Desde visão, audição, olfato, o paladar e o tato. Crianças e adultos que ficam incomodados com as cores dos alimentos que são mais extravagantes, então geralmente eles vão recusar ali verduras e frutas. Cheiro de alimentos, desde a parte da cocção até a parte que é servido, cheiro se for mais forte já vai incomodar. E também as causas ambientais e comportamentais. Tem criança ali que se passar, ou adulto, né? Se passar ali por um evento muito traumático, ela já vai recusar um grupo específico, ou algum alimento específico, né? A gente também vê isso na prática clínica.

Gustavo: Bruno, você é vegano, você não é nem vegetariano, é vegano. Isso aí, como é que começou? É uma questão mais ligada ao autismo? É uma questão mais ligada à visão de mundo?

Bruno: Sou vegano por questões éticas. Mas eu admito que a minha seletividade alimentar, nesse caso, foi um contribuidor. Me ajudou a me tornar vegano e a me manter vegano. Porque eu sempre tive também uma certa aversão à carne. Tenho também seletividade com outros alimentos, como por exemplo a cebola, não suporto a textura, nem o cheiro.

Gustavo: Você não tá perdendo muito. 

Bruno: Isso, tem uma convergência aí. 

Gustavo: Pra alguns seria um tremendo sacrifício, mas pra você é mais fácil.

Bruno: Exatamente, pra mim foi fácil abrir mão da carne, foi mais difícil abrir mão dos derivados de leite.

Ana Júlia: O ovo também te incomoda?

Bruno: O ovo me incomoda, começou a me incomodar principalmente depois que eu me tornei vegano. O cheiro do ovo muito forte também me causa náuseas.

Gustavo: Mas, Ana Júlia, você que está do outro lado como autista nutricionista, você também está deste lado como autista com seletividade alimentar?

Ana Júlia: Sim, mas eu acabei superando muitas coisas na faculdade de nutrição.

Eu entrei na faculdade, eu era muito seletiva, eu não comia fruta direito, eu não comia salada direito. Aí, chegando lá, eu ia atender um paciente, falar sobre alimentação saudável, eu comecei a ver a hipocrisia daquilo. “Não, você tem que comer mais salada, tem que comer mais fruta, pelos benefícios das vitaminas e tal”, e eu lá não comia nada. Durante esse período ali, eu fui meio que fazendo uma introdução com alguns grupos e… superando essas dificuldades, sabe? 

Gustavo: Você está naquela fase de crescimento, de desenvolvimento pessoal, criando sua personalidade ali, já como uma jovem adulta, na verdade, você está mais aberto a experimentar outras coisas.

Ana Júlia: É, e assim, acaba que como eu cozinhava, eu conseguia experimentar também de uma forma mais tranquila. Porque aí, eu fazia a preparação do jeito que eu estava mais confortável. Se eu não aguentasse aquela textura ou sabor, eu só deixava ele de lado e pesquisava outra coisa. Então, facilitou, sabe? Eu fazer isso agora como adulta. 

Gustavo: Eu comecei a provar mais coisas depois que eu efetivamente entrei na faculdade, voltei a morar em Goiânia, sem parentes, então aquela coisa de “minhas opções estão limitadas ao que tem na minha casa” passaram a ser limitadas as opções que tem no restaurante. Eu sou um péssimo cozinheiro, péssimo mesmo, mas eu realmente acho que eu como mais salada longe da minha mãe do que perto dela.

Ana Júlia: (Risos).

Gustavo: Foi na faculdade que eu fui dar uma chance pra ervilha, pra abóbora, pra, sei lá, uva passa, repolho, coisas assim que não pareciam muito boas e eu não ia. Mas eu acho que eu ainda não escutei do que você não gosta, Izabella. 

Izabella: Então, eu tive uma experiência diferente da Ana Júlia. Tem coisas que eu não gosto desde a infância e que eu tentei durante a vida introduzir na minha alimentação, principalmente por conta da diabetes. Eu sempre fui a nutricionista. Aí muitas nutricionistas, endócrinos falavam: “Ah, mas você não come nenhuma fruta, tem que ir atrás das frutas, não sei o quê”. Aí eu tentava sempre falar, mas doutora, eu não dou conta, não consigo. Eu coloco a fruta na boca, é como se fosse, sei lá, um monte de papel toalha molhado. A textura me dá ânsia de vômito. É um negócio muito forte e… me acompanha isso desde a infância.

Então, eu tentei várias vezes, porque muitos profissionais insistiram comigo que eu precisava, que era importante, blá, blá, blá. Mas não funciona. E a questão eu sei, eu tenho certeza que é a textura, porque eu tomo suco. Então, assim, eu gosto do sabor do suco, mas a fruta não dá. Então, a única fruta que na verdade eu consigo comer é a banana. E ela tem que estar num ponto muito específico!

Gustavo: A minha esposa também tem essa questão com frutas. O suco pode até ser a fruta, não o doce da fruta, não. Mas só o gostinho ali no suco vai. Eu também como só meia dúzia de frutas. Só me aparecem umas coisas assim, muito… Para mim, fruta parece uma coisa quase alienígena. Não é tipo… maçã, banana, é ingá.

Ana Júlia: Pitaya.

Gustavo: Pitaya, carambola. Carambola! Você olha pra carambola, não parece apetitoso. Tem um formato muito específico.

Ana Júlia: Acho bonitinho, parece uma estrela, sabe? Mas realmente ela é estranha.

Gustavo: Ótimo, vou usar de decoração. Não colocar no meu prato. 

(Risos)

Ana Júlia: Mas isso que você falou foi uma coisa que me chamou a atenção. Você ia em nutricionista endócrino, já adulta? 

Izabella: Eu fui a partir da adolescência, né, por causa da diabetes, até agora adulta, então… Quando eu era criança, eu não fui muito. Na verdade, eu não fui quando eu era criança. Porque o que acontece? Eu até conversei com a minha mãe antes de vir gravar o episódio para saber se ela tinha alguma história, alguma coisa específica que chamou a atenção. Aí ela me respondeu o seguinte. “Você e os seus irmãos”, é porque eu tenho dois irmãos e a gente tem tipo um ano de diferença. “Eu tinha três filhos pequenos. Eu estava basicamente fazendo três introduções alimentares ao mesmo tempo. Eu já estava achando que um estava imitando o comportamento do outro. Não comeu, não comeu, bola pra frente! Então, eu não fiquei muito prestando atenção nisso, não sei quem comia o quê. Então, não consigo te falar especificamente. Eu consigo te falar, por exemplo, que nenhum de vocês comia fruta”. Mas, hoje, meus irmãos comem fruta. E eu continuo sem comer fruta.  Então… 

Gustavo: Ganhou deles!

(Risos)

Izabella: Respondendo a sua pergunta, eu comecei a ir em nutricionista mais ou menos ali na época da adolescência, por causa da diabetes. Eu estava com as questões de peso também. E foi aí que começaram a insistir nessa de “ah, mas você tem que comer fruta, você tem que comer mais folhas e não sei o quê”. Porque eu só como alface americana e repolho roxo. Eu não como nenhuma outra folha. Eu como alguns vegetais. 

Gustavo: Mas folha também é complicado. Vamos combinar entre nós aqui. Não, você não precisa ter nenhuma seletividade alimentar. Você coloca no prato, porque você sabe que faz bem pra saúde. Gostoso, gostoso não é, gente. Pera lá.

Izabella: É, e não é uma coisa assim, que eu acho que as pessoas confundem muito. Eu fico irritada, porque é um discurso que eu vejo demais na internet. Aquela coisa, tipo, “ah, se você tem 30 anos e não come X, Y e Z, é porque você tem paladar infantil e você tem que crescer”. Gente não é, sabe?

Tem coisas, tem alimentos que só de sentir o cheiro, me dá vontade de vomitar, sabe? Então, não é questão de “ai, que frescura, vamos desenvolver esse paladar infantil”. E não é assim. Tem muitas coisas envolvidas, como a Ana Júlia falou, é… questão de textura, temperatura, às vezes. Então, várias outras coisas e eu acho que falta um pouco de pensar fora da sua própria cabeça, que não é todo mundo que é só “ai, eu não como porque eu não gosto”.

Tem gente que não aguenta ficar nem perto, que já começa a sentir mal. Eu sou que nem o Gustavo, do pequi. Às vezes o pessoal leva o pequi, quando começa a época do pequi, o pessoal começa a levar pequi no trabalho. Só de entrar o pequi na sala, eu começo com dor de cabeça. Aí eu peço pra ir embora, gente, não dá.

Gustavo: Eu lembro de horrores da infância, que o pessoal queria fazer reunião, casa de avós, com tios, tias, primos, mãe. E aí aquela coisa, “ah, vamos fazer arroz com pequi”. “O Gustavo não come”. “Ah, não, mas é só tirar o pequi”. “O Gustavo não comerá deste prato”. E as brigas que isso gerava, de “não, mas que eu te servi”… “Eu não vou comer!”.

E aí gera briga, e aí tem parente que quer forçar, e parente que quer defender, então come só feijão com farinha, beleza. Mas assim, fizeram uma vez, teve um combo. Era arroz, galinha e pequi no mesmo prato. Gente, eu não joguei a panela no chão. Tá todo mundo no lucro, aceitem. 

Ana Júlia: Mas sabe uma coisa que eu acho que as pessoas ignoram muito? Estão falando mais de seletividade agora, só que uma ainda é pessoa seletiva, principalmente parente, né, gente. Tem o costume de falar “ah, não, a criança é fresca”, ou “ah, é mimada”. Então ali vem um julgamento para criança e vem um julgamento para família.

Mas a questão no autismo também, é porque a forma que a gente vai interpretar esses estímulos, ela é diferente. Então, esse que você falou ali, que a textura da fruta, ela te causa um incômodo físico, gente, é realmente isso, sabe? Você tentar obrigar essa pessoa a comer esse alimento que ela tem essa aversão, o que você vai estar fazendo é piorando essa experiência dela, porque a sensação física, ela é realmente muito extrema. Ela tá interpretando esses sinais de uma forma diferente, sabe? Não é frescura.

E a pessoa seletiva, claro, vai ser ali uma criança seletiva, mas ela vai crescer, então vai ser um adulto ali com autismo, tem alguns outros transtornos também, que a pessoa pode apresentar essa seletividade. Mas lembrar que essa pessoa cresceu, que ela vai continuar apresentando essa seletividade, que é um problema real. E respeitar, sabe? Eu vejo que as pessoas têm muito julgamento, elas reduzem muito o tema a só frescura. Se você não consegue comer, vai lá, se force e é isso. 

Bruno: Elas se acham superiores porque comem de tudo.

Gustavo: Nossa, que grande superpoder você tem, cara. Parabéns.

Bruno: (Risos)

Ana Júlia: Eu acho que elas não têm essa dificuldade, justamente porque, como eu falei, o cérebro dessa pessoa vai interpretar esses sinais de uma forma diferente. Como o delas lida tranquilo, falta essa empatia de entender essa condição real e que esse indivíduo ali realmente tá apresentando uma dificuldade, sabe? Seu julgamento não vai ajudar, ele vai, inclusive, atrapalhar. É muito mais difícil superar isso com esses julgamentos. 

Gustavo: Ana Júlia, você acha válido a pessoa dar mais uma tentativa para o alimento? Já que estamos falando de autistas, porque às vezes você não tá num dia bom ou o preparo daquele alimento não tá a seu gosto.

Eu tenho isso, sei lá, com cenoura. Eu não gosto de cenoura refogada e eu odeio cenoura ralada. Na verdade, eu não gosto de comida ralada. Qualquer que seja a folha e o produto. Mas ela cortadinha em cubinhos, em rodelinhas, em tudo, é muito mais fácil de comer e acho que mais gostoso, pelo menos pra mim, né.

Eu acho que deve ter outros alimentos. A Izabella acabou de falar aqui, toma o suco, mas não come a fruta. Acho que tem outras formas de tentar aproveitar os nutrientes daquele alimento sem ser esse preparo específico aqui desse jeito. 

Ana Júlia: Sim, uma coisa que eu tô achando muito legal naquela oficina culinária que o NAIA tá propondo é isso. Pra todo mundo conseguir ver o quão interessante é entrar na cozinha e testar esses modos de preparo. Você não gosta dela ralada, mas gosta em cubinho. Então é uma ótima estratégia pra conseguir testar ela também em outros formatos. Já tá aceitando a cenoura também de uma forma mais ampla. Vai pra um alimento mais semelhante, às vezes uma abóbora que também é docinho.

E aí você vai fazendo esse esticamento alimentar, sabe? Vai aproveitando essa oportunidade que é um alimento que você já tem, uma familiaridade, trabalhando com ele, com a forma que você prepara ele e aumentando essa oferta, sabe? Incluindo outros alimentos. Não gostou dele refogado? Gente, testa assado, testa cozido. Testa com o alimento que você tem mais facilidade. Às vezes gosta de arroz? Testa a cenoura no arroz, sabe?

Precisa insistir. E a gente como adulto agora, nível 1 de suporte, tem essa facilidade de fazer essas escolhas de forma consciente… Então é mais fácil. E a gente também como adulto tem a opção de recusar. Chegou ali no seu limite? Para.

Gustavo: Aproveitando o gancho pra quem não é de Goiânia, Ana Júlia, fala um pouquinho da cozinha do NAIA, por favor.

Ana Júlia: É um projeto muito interessante que o NAIA tá fazendo ali em parceria com a UFG. Vários autistas, nível 1 de suporte, entram no laboratório de alimentação e tecnologia ali da UFG e tem várias bancadas onde a gente faz diversas receitas com apoio de professores e monitores, pra gente experimentar de uma forma mais controlada. E faz diversas receitas ao longo de duas horas e no final a gente experimenta todas elas.

E aí avalia a questão de sensibilidade de textura, cheiro, tudo mais. A gente tem esse momento de discussão depois da preparação das receitas. Então… é focado só em adultos, o que é muito interessante, porque tem poucas oficinas focadas nesse grupo. E focado também nesse projeto ali, nessa tentativa de aproximar esse grupo de receitas e alimentos novos.

Gustavo: Nossa, bem legal isso. Com toda essa sua explicação, você me convenceu a dar uma chance pra pêra. É um alimento que eu sempre achei que era uma maçã muito esquisita. 

Ana Júlia: Ela tem um gosto diferente, mas vale a pena. Se você já aceita maçã, testa a pera também. Às vezes cortadinha, uma salada de fruta com uma fruta que você já tem preferência, compensa.

Bruno: A maçã era uma fruta que eu não tinha boa aceitação quando eu era mais novo. Parece borracha.

Gustavo: Mas era maçã grande ou maçã pequena? Porque a maçã grande é ruim, tem que ser maçã pequenininha, que faz croque. 

Ana Júlia: A Fuji, que é aquela petitinha. 

Izabella: Então, uma das minhas frustrações com a maçã, quando eu tentei, é que você nunca sabe o que ela vai fazer. Às vezes você morde ela, ela faz croque. Às vezes ela faz “fué”. Aí você pensa “Meu Deus, eu nunca mais vou comer isso”! É tipo, é só não saber como vai estar o ponto da maçã. 

Gustavo: A pequenininha. Procure a menor maçã que você conseguir. 

Izabella: Não, eu não vou procurar mais maçã nenhuma.Tá cancelada a maçã na minha vida! (risos).

Gustavo: Eu vou trazer uma maçã apropriada para você.

Izabella: Tá bom, muito obrigada.

Ana Júlia: Mas isso é verdade. Mas gente, isso também é um dos motivos de resistência de autistas com um grupo de frutas, verduras e hortaliças. Porque você não sabe o que esperar, né? É uma surpresa. Industrializadas, ali, vem num saquinho, se você conservar da forma ok, não vai mudar a textura, aparência, nada, né? Fruta, muda.

Igual você comprar ali aquela maçã argentina, que é aquela maçã da bruxa, a maiorzona, ela faz esse “fué” que você falou. Você morde ela, ela é meio borrachuda. Agora, a maçã fuji, ela é crocante, ela é mais gostosinha. Então, assim, imagina para uma criança que já tem problema com textura, já tem problema com fruta, tá esperando ali a maçã que ela gosta, vem esse negócio com a textura, sabor diferente, olha o susto?!

Bruno: O que a gente faz quando a seletividade mental começa a afetar a saúde da pessoa?

Ana Júlia: O primeiro passo é começar a trabalhar essa introdução. A gente vai trabalhar essa aceitação para tentar esticar, aumentar esse seu repertório, né? Então, a gente vai ter que tentar introduzir novos alimentos, mas de uma forma ali mais tranquila. E aí, se tá demorando, ou se ele tá apresentando uma resistência, fazer a suplementação até você conseguir comer essas vitaminas e minerais que você precisa, sabe?

Geralmente, se a seletividade for muito extrema, vai comer pouca fibra, já afeta o intestino, a saúde. Então, a seletividade apresenta, sim, esses sintomas físicos, né? Então, a primeira coisa que precisa fazer é tentar esticar esse ali, fazer esse esticamento alimentar, aumentar seu repertório.

Bruno: Quando a gente tem seletividade alimentar, uma das coisas que a gente mais escuta é isso, que a gente vai ficar doente. Eu queria saber quanto é que isso é comum, de a pessoa que tem seletividade alimentar apresentar algum problema de saúde. 

Ana Júlia: Infelizmente, é muito comum, né? É uma consequência dessa seletividade alimentar. Quanto mais seletiva essa pessoa for, mais problemas ela vai apresentar. Porque a gente precisa ter uma alimentação diversa pra ter acesso a várias vitaminas, minerais. Salada traz fibra também, então já ajuda ali com o nosso intestino.

Então, a seletividade vai sim trazer essas consequências à saúde. A gente vê resultados em exames bioquímicos, o colesterol dessa pessoa pode ser um pouco mais alto. A questão com o carboidrato. Pessoas autistas costumam ter uma preferência por carboidratos simples. Então, assim, macarrão, pão.

E no autismo isso é ainda mais grave, porque a gente tem uma prevalência… A seletividade alimentar, ela não é exclusiva de indivíduos com autismo, mas a prevalência é maior nesse grupo. Tem uma pesquisa, se eu não me engano, é de 2015. A prevalência ali em crianças neurotípicas era tipo de 29 a 31. Em crianças neuroatípicas chegava a quase 89. Justamente por causa dessas questões sensoriais, né?

Bruno: Mas aí como fica o limite entre respeitar a individualidade daquela pessoa, tentar fazer com que ela amplie o seu repertório de alimentos? 

Ana Júlia: Eu acho que essa pergunta é excelente. Eu acho que é tentar fazer essa aproximação de uma forma respeitosa. Eu falei que com adultos é mais fácil, porque a gente consegue ir impondo um controle, né? Impondo o nosso limite. Então, se chegar ali um adolescente, uma criança, um autista nível 3 de suporte independente da idade, é ir ouvindo os sinais deles. Então, você vai sim tentar aumentar o repertório alimentar dessa pessoa pela questão da saúde, principalmente, mas de uma forma tranquila.

O que eu vejo muito de pais e até pessoas inconvenientes comentando é “Ai, tá seletiva, deixa passar fome que uma hora ela come” ou obrigar a comer. Isso é extremamente nocivo, porque você vai criando ali uma experiência muito ruim da criança com esses alimentos, com a cozinha em si.

A virtude, né, que vai guiar tudo é a paciência. Tanto dos pais, quanto dos profissionais, para fazer esse processo respeitando esse indivíduo, sabe? Ele vai comunicar se tiver ali alguma dificuldade. Se você tá tentando fazer a aproximação ali da pêra, por exemplo, se a criança tá tendo uma rejeição muito grande, se ela não consegue nem ficar na frente de uma pêra, eu não vou fazer ela passar por esse sofrimento, sabe? Eu vou começar por uma coisa que ela já tem facilidade.

Izabella: Agora eu vou fazer um adendo, não é todo profissional que tem esse preparo. Eu já falei algumas vezes sobre a importância de profissionais preparados para lidar com o autismo. Porque, como eu falei, eu tenho vivência de ter passado por vários nutricionistas. E o padrão geralmente é “você não come fruta, problema seu, vai comer sim”.

Então, eu sou meio que viciada em agradar as pessoas. Então eu saía de lá com essa orientação, saía do consultório, né, com o que a nutricionista tinha falado. Aí eu ia lá, Izabella, na feira, comprava frutas. E acabava que eu tentava comer as frutas, vomitava e perdia a fruta. O que é péssimo, porque além de desperdiçar comida, desperdiçava dinheiro, né? Que eu gastei na feira.

Ana Júlia: E a frustração também, né, Izabella? 

Izabella: Exatamente, porque eu já vim com essa noção de “eu tenho obrigação de comer a fruta, então vai ter que dar certo, eu querendo ou não”. Então eu acho que é muito importante ter esses profissionais que são mais compreensivos mesmo, especializados, porque não é todo mundo que é assim, não é todo mundo que é tão compreensivo. E… eu acho interessante você falar também sobre o ponto de não insistir, que um dos lados que eu achei positivos, quando minha mãe me contou a história, “ah, eu não tinha tempo de ficar insistindo, não comeu, bola pra frente”, foi que ela não insistia mesmo.

Então, acho que se ela às vezes tivesse ficado, “não, eles não estão comendo fruta, então eu vou fazer Deus e o mundo aqui, fazer o que der pra não comer… fruta”. Porque como eu tenho essa rejeição tão grande, eu acredito que teria sido péssimo. Mas, óbvio que também tinha seus problemas. Teve uma época que a gente cismou que era uma ideia excelente comer miojo cru. Aí… chegava no jantar, separava o miojo como se fosse um biscoitinho e os três lá comendo, assim, como se tivessem arrasando. Aí ela só olhava e ficava: “é, eu vou escolher minhas batalhas, deixa…” . Então tem o ônus e o bônus.

Gustavo: Bom, vocês livraram ela de cozinhar à noite, sucesso.

(Risos)

Izabella: Exatamente, olha só, não estou precisando cozinhar o miojo, eles estão comendo cru! Olha que maravilha! 

(Risos)

Ana Júlia: É bom que já não coloca o pózinho… (risos). 

Gustavo: Vocês vão sair vivos! 

Ana Júlia:  Mas isso que você falou também, a insistência, ela faz parte, né? Tanto dos pais quanto dos profissionais que forem trabalhar com isso, você precisa ter a paciência e insistir mesmo. Mas igual eu falei, não com esses grupos que causam uma versão muito extrema pra não gerar trauma.

Mas uma coisa que eu fico pensando também, uma mãe com três crianças pequenas, as três seletivas, imagina o desgaste ali dessa mãe que trabalha e tem que chegar em casa e fazer tudo isso.

É por isso que eu acho interessante agora que a seletividade alimentar está sendo mais discutida e tem mais profissionais capacitando para inclusive dar suporte a essas mães e a esses pais que têm essas crianças em casa ou esses adultos que vivenciam essa seletividade. Porque é algo sofrido, né?

Gustavo: Vamos aproveitar pra poder nos livrarmos de alguns mitos desnecessários. Dá pra poder ser vegano e saudável, correto?

Ana Júlia: Correto. Vegano, vegetarianismo, a gente tem umas pesquisas muito legais abordando esse estilo de vida e esse tipo de dieta com redução de colesterol, glicemia. Então, assim, quando bem feito de uma forma diversa, você tem bons resultados. Dá pra manter esse estilo de vida.

Bruno: E qual é o impacto da seletividade alimentar na vida social da pessoa? 

Ana Júlia: Absurdo! A gente vê que é, na realidade, uma das partes mais tristes da seletividade alimentar que eu vejo, né? Focando agora na parte infantil. Uma criança muito seletiva porque comer é um momento muito social, né? A comida é muito social. Você sai com amigos pra comer, eventos festivos como Natal ao redor de uma ceia.

E aí, por exemplo, uma criança seletiva. Tem um pacientezinho que só comia caldo de feijão. Os pais vão sair ali com a família, vão pra casa da família, vão ter que levar esse alimento. A criança aceita esse alimento. Se levar numa marmitinha, vai ter que fazer lá. Como que é? Então, além de impactar a vida social dessa criança, vai impactar a da família.

E, focando no autismo, um dos critérios do diagnóstico é justamente esse déficit social. Então, para um indivíduo que já tem essa parte social ali impactada, a seletividade alimentar chegar ali e impactar ainda mais, atrapalhar ainda mais essa socialização, imagina o dano, né?

Em um autista adulto com seletividade alimentar, a gente vê muitas vezes o sentimento de vergonha de participar de uma reunião com amigos ou de ir em uma reunião familiar justamente para evitar esse julgamento. Porque aí chega ali parente, que tem muito parente inconveniente, né? Chega ali e vai falar “não, mas é frescura” ou “é só comer” e, gente, não é.

Gustavo: Essa questão de ser um adulto e ser social, hoje eu ainda posso falar que deu uma grande melhorada aqui em Goiânia. Hoje você pode ir e você vai ter, tipo, uma opção vegetariana. Uma a mais do que tinha antes. Porque… 

Izabella: Aumento de 100%! (risos).

Gustavo: É! 10, 15 anos atrás, quando, por algum acaso, com uma grande sorte, alguém me chamava pra ir num x-salada, comer um lanche, alguma coisa, a quantidade de vezes que eu comi exclusivamente batata frita, me chamaram no Burger King, eu nem sabia

o que era o Burger King. Eu realmente comprei refrigerante, batata frita. E batata frita não me encheu, alguém ficou com dó, me deu a batata frita dele também… Porque não tinha nada.

O McDonald’s tentou ter um lanche vegetariano e desistiu, não sei por quê. Volte McDonald’s. O Burger King, aparentemente, pelo que eu entendi agora, ele está com uma opção vegetariana, mas ele tinha duas! Eu tinha duas opções de hambúrguer vegetariano pra escolher lá. Olha que maravilha! Você ainda pode escolher. Parece até que eu sou uma pessoa normal olhando pro cardápio.

(Risos)

Bruno: Olha, eu ainda sou escravo da batata frita, viu?

Izabella: Ah, mas batata frita é uma delícia!

Gustavo: Mas precisa de grande quantidade, porque ele é vegano, tem que ser o mais específico. É difícil se livrar de leite e ovos.

Izabella: É, brincadeira, gente. Eu concordo. Pode continuar, Bruno.

Bruno: Não, batata frita é uma delícia, mas em grandes quantidades também é complicado, né? 

Ana Júlia: Justamente por causa da fritura. Mas essa inclusão que vocês falaram da parte do veganismo e do vegetarianismo também está vindo a passos lentos, né? Realmente são poucos estabelecimentos agora que têm pelo menos uma opção. O que eu mais vejo é a criação de estabelecimentos voltados integralmente para esse assunto. Então, assim, restaurante vegano, vegetariano…

Gustavo: O que também é um problema social, porque você vai chamar os seus amigos e:  “aí, vegano!”… 

Bruno: Seus amigos não vão querer ir com você pra lá.

Gustavo: Eu já tenho toda uma questão em casa, porque eu sou casado, muito feliz. Oi, moça bonita. E ela é onívora. A quantidade de vezes que ela teve que mudar alguma

coisa na forma como ela cozinha (eu sou só lavador de prato, gente) pra poder me agradar… é gigantesca. “Ah, vai fazer o macarrão”. Ela tem que fazer a carne separada pra poder colocar no prato dela no final, as almôndegas, o que for.

E aí também, com muito amor e esforço, eu passei a ceder e… Quem quiser falar que eu não sou vegetariano, fique à vontade, mas, ocasionalmente, uma vez no mês, sei lá, eu como pizza que tem pepperoni. Não acho a última maravilha do universo, mas é um treco tão industrializado, tão artificial, que eu consigo lá e comer no meio. A pizza com quatro queijos continua sendo superior, com toda certeza, mas é preciso fazer algumas concessões pelo bem do casamento.

Ana Júlia: Sim! (risos).

Izabella: Essa parte que você falou que a sua esposa faz adaptações pra te ajudar, né, no fato de você ser vegetariano, eu acho que em momentos assim que você avalia quem que vale a pena você tentar conviver.

Porque é óbvio que a gente perde um pouco do social, porque quando você é adulto e tem questões alimentares, você é o chato. Mas as pessoas que realmente gostam de você, elas vão, por exemplo, pensar “Gustavo é vegetariano, deixa eu dar uma olhada no cardápio antes, vai ter alguma coisa pra ele comer”.

Eu tenho uma amiga vegetariana, se não tiver alguma coisa além de batata frita ou sanduíche, cujo recheio é queijo empanado, que ela é revoltada, a gente não vai. Então, eu acho que é importante também a gente procurar pessoas que apoiam as nossas particularidades e eu achei muito bacana.

Gustavo: Eu entendo, eu tenho toda uma questão com parentes, hoje eu até convivo pouco com eles e tal, mas eu passei a vida muito mais em parentes do que com amizades, o que fosse. E lá é “come arroz com feijão”. “E esteja feliz, porque a gente não colocou galinha e pequi no arroz”, então arroz com feijão.

E eu assustei, eu tive todo um estranhamento quando eu comecei a ter algumas amizades, aí as pessoas estarem preocupadas, mas tem alguma coisa pra você poder comer aqui? Você tá preocupado com o que eu como? Nossa, mas que diferente, que inusitado. Chegou ao ponto em que eu fui a um casamento de amigos e eles falaram, a gente colocou que um prato aqui é vegetariano por você. E eu achei isso muito legal, muito bonito. Aí eu falei, “ah, vamos olhar no cardápio do restaurante, se tem alguma coisa lá que você não quer comer, você pode falar não, se não a gente pode ir nesse outro lugar que é quase igual, a gente vai comer do mesmo jeito e ainda tem um pra você”. É legal essa preocupação, esse esforço para poder contornar o social.

Chegamos ao final de mais um episódio e eu gostaria muito de agradecer a participação de todos aqui presentes, especialmente você, Ana Júlia, que veio hoje como nossa convidada e como especialista. Por favor, a casa é sua, fique à vontade para poder regressar e despeça-se do pessoal de casa.

Ana Júlia: Queria agradecer o convite, foi muito especial, eu acompanho o Introvertendo há muito tempo, e a gente recebeu o diagnóstico. E foi muito interessante poder conversar com vocês sobre esse tema que eu gosto bastante. E eu vou deixar aqui meu Instagram, que é @nutrianajuliadeassis e quem quiser saber mais sobre o assunto, também entra lá. 

Gustavo: Marcar umas consultas virtuais. 

Ana Júlia: Exato. Eu atendo online justamente por causa do público (risos). 

Gustavo: Agradeço a você também que assistiu esse episódio no YouTube, ou ouviu o podcast, que é a forma como eu mesmo faço. Espero que você tenha apreciado essa conversa, que ela tenha tido um tempero interessante na sua vida, e nos vemos no próximo episódio.

Você pode colaborar com o tempero deste podcast através das nossas plataformas de financiamento coletivo. A sua ajuda vai ser útil. Você pode sempre apoiar pelo Apoia-se, Catarse ou Patreon. Lembrando que o Introvertendo é um podcast feito inteiramente por autistas, com apoio do NAIA Autismo. Até a próxima!

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: João Victor Ramos