Nem sempre é fácil tirar uma carteira de motorista e muito menos dirigir numa cidade cheia de imprevisibilidade e motoristas caóticos. Neste episódio, gravado ao vivo na Tecar Fiat em Aparecida de Goiânia, nossos podcasters dizem o que amam e o que odeiam em dirigir veículos, questões sensoriais, uso de mapas e muito mais. Participam: Deco Machado, Izabella Pavetits e Marx Osório.
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Transcrição do episódio
Marx: Muito boa tarde meus queridos, tudo bem com vocês? Sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo. A Tecar Jeep, que nos convidou, aqui a gente agradece imensamente o espaço à oportunidade. O meu nome é Marx Osório, eu sou farmacêutico e hoje apresentador do podcast Introvertendo.
E o nosso tema de hoje é autistas ao volante, histórias envolvendo autismo, direção, experiências que a gente teve com carros e direção de modo geral, um episódio especial com a parceria com a Tecar, que tem feito um trabalho na venda de carros com desconto a pessoas com deficiência, muito legal. A gente gostaria de deixar isso registrado aqui. E sejam muito bem-vindos também, meus queridos.
Deco: E aí, gente, tudo bom? Eu sou o Deco, e aí? Eu sou comediante e eu tenho CNH, é isso (risos).
Marx: É, eu também tenho CNH, esqueci de falar, mas eu também tenho. Não sabia que ia ser relevante, mas é sim.
Deco: Estamos aqui com a…
Izabella: Oi, boa tarde, eu sou Izabella, eu não gosto de dirigir nem no Mario Kart.
Marx: Bom, e se você ainda não conhece o Introvertendo, nós estamos nas redes sociais, no Instagram @introvertendo, no Facebook, no X. E nós também temos plataforma de apoio financeiro, se você tem interesse de contribuir financeiramente com o podcast, que é o Apoia-se, Catarse e Patreon. O Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção do NAIA Autismo.
[Vinheta de abertura]
Marx: Vamos começar dos primórdios do começo, né? Como é que foi o processo de tirar a carteira de habilitação de vocês? Eu tirei a minha habilitação no ano de 2014, na época eu tinha acabado de completar a maioridade, e o meu processo já foi um pouquinho chato, assim, na época de fazer o tal do psicotécnico lá, porque aquele teste de fazer aqueles pauzinhos lá é a coisa mais aterrorizante do mundo, eu não entendi o porquê eu não conseguia fazer, e gerava mais ansiedade, muitas histórias envolvendo, né? E como é que foi o processo para vocês?
Deco: Você fez eu lembrar que quando foi fazer o teste dos pauzinhos eu não tinha entendido o enunciado, então eu fiz errado. Aí mandaram eu refazer, porque tinha dado muito mal. E aí me deram uma segunda chance pra fazer me explicando melhor, aí eu consegui fazer e passei.
Pra mim, pra tirar assim, não sei, eu tava animado, nunca tinha dirigido mesmo, né? Quando eu fiz, foi em 2014, fiz 18 anos, e aí já fui tirar a carteira lá em São Paulo, e pra mim foi tranquilo, assim. Não sei, como eu queria, era uma coisa que eu tava animado, eu acho que eu estudei demais também, sabe? Então acabei indo bem, assim, naquelas provas teóricas era muito fácil também, né? E na prova prática também, assim, passei de primeira, sabe?
Foi uma coisa que eu tive muita facilidade, muito mais do que o esperado pras pessoas, assim. Falaram: “não, você ia ter que pagar pra passar”, e eu nem sabia que tinha que pagar, e passei mesmo assim (risos). Então, pra mim teve uma facilidade, sabe? Tipo, depois eu quero falar um pouco mais sobre a experiência de dirigir, mas pra mim, a princípio, foi como eu queria muito, foi uma coisa que eu me dediquei muito também, então tive uma facilidade aí nesse aspecto.
Marx: Você passou na baliza de primeira?
Deco: Passei. Não, eu sou melhor fazer baliza do que estacionar de lado (risos). Do que só entrar, eu sou pior do que fazer a baliza.
Izabella: Então, o processo pra mim já não foi tão legal assim, foi… Desde a parte do psicotécnico, eu também tive que repetir o teste do pauzinho (risos). E foi engraçado, porque eu tava fazendo, pra quem não sabe, é um teste que você tem que ir fazendo tracinhos até o final da folha, e tipo, o tracinho… Eu não sabia, porque a moça não falou: “faça tracinhos até o final da folha e vai preenchendo”. Só que eu fiquei tipo: “tá, mas é importante o tracinho ser do mesmo tamanho? Tem que ter o mesmo espaçamento e tem que ter a mesma quantidade de tracinhos em cada folha?”.
Aí eu tava lá fazendo meus tracinhos na maior paz do mundo, aí eu olhava e tava todo mundo lá virando a folha, eu assim: “gente, que isso? Produção escala de tracinhos, eu tô aqui, né, apanhando”. Aí a mulher olhou, pegou e falou assim: “olha, eu vou deixar você refazer”. Aí eu fiquei tipo: “mas por que eu preciso refazer?”. Ela: “não, tenta outra vez”.
Aí eu fui lá, fiz outra vez, baseado no que eu vi os outros usando mais velocidade, eu resolvi fazer mais rápido. Aí eu terminei e tal, ela pegou, olhou o papel, ela ficou assim: “é, tá, pode passar, pode passar”. Aí beleza, tem os outros testes no psicotécnico, e aí eu fiz vários, eles fazem várias perguntas e não sei o quê. Aí no final eu peguei, ela falou assim: “não, tá aprovado”. Eu falei: “tá, mas qual foi o resultado?” Aí ela: “o resultado é que você tá aprovado”. Eu: “não, mas eu fiz vários testes, eu quero ver os resultados dos testes”.
Deco: Qual nota que eu tirei? (risos).
Izabella: Exatamente, eu quero saber o que cada um avalia.
Deco: Meu desempenho.
Izabella: Aham (risos). É, tô contratada como motorista. Aí a mulher ficou tipo: “não, mas não tem como”. “Mas eu quero ver o resultado”. Ela: “não tem resultado, o resultado é que você tá aprovada”. Aí eu fiquei um pouco incomodada com isso, né, mas beleza.
E aí na hora de tirar a carteira em si, na época que eu tirei, você tinha que fazer ainda um milhão de aulas, né, com autoescola e tal. E eu peguei um motorista, ele era muito machista, muito machista. Eu sei que isso não é coisa da minha cabeça, porque tipo, era sempre assim, um outro aluno te pegava onde você tava, e você pegava o volante, e deixava o outro aluno em um lugar, e depois você ia lá fazer os exerciciozinhos que tinha que fazer, né. Nossa, ele não deixava… Eu via o jeito que ele falava com homens, né, que ele pegava no carro depois e tal. E o jeito que ele falava comigo, ele era muito desagradável. Então assim, isso já foi ruim. Meu irmão fez aula com ele na mesma época, e eu chegava em casa e falava: “nossa, o fulano é uma pessoa terrível, né, como ele é grosso”. E meu irmão ficava assim: “nossa, mas ele é tão de boa comigo”.
E além disso, eu tinha problema que… Uma coisa engraçada. A primeira situação foi o pare, né, na rua. Porque na minha cabeça, a placa tá “pare”, você faz o quê? Você para. Aí na primeira vez que eu fui tipo pra rua, pra rua mesmo, aí eu parei num pare e o cara ficou tão bravo, tão bravo. Ele: “não, você não pode parar assim, não sei o quê, vão bater em você”. Eu fiquei: “mas, meu senhor, tá escrito ‘pare'”. Aí ele: “não, mas você tem que ler a situação, prestar atenção no trânsito, como é que tá, porque se não vão bater em você”. Aí eu fiquei: “mas por que tá uma placa que tá escrito ‘pare’, eu paro e você tá brigando comigo?”
Marx: Essa coisa do pare, ela entra muito na questão da rigidez cognitiva do autismo. Porque na vida real, no trânsito da vida real, as pessoas não respeitam o pare como é na lei, como manda, de fato, né. E isso é uma coisa que quando eu mudei pra Goiânia, eu fiquei extremamente incomodado, porque…
Deco: Goiano dirige mal.
Marx: Porque o povo é extremamente sem educação na questão da preferencial, né.
Deco: Sim.
Marx: Na hora de parar na rotatória, esquina, o povo já entra avançando. Aí você tá na sua, a preferência é sua, a pessoa entra. E você tem que reduzir pra uma pessoa que tá errada que entrou lá. Aí vem aquela coisa: “nossa, ele tá errado, que absurdo, tá furando”, não sei o quê. E até acostumar com isso, e esse é o modus operandi da cidade. É uma coisa que gerou muito sofrimento interno. E em alguns momentos, certas buzinações aí na orelha de alguns.
E eu demorei também pra entender que você não pode buzinar de qualquer jeito. Porque as pessoas aqui, elas interpretam buzina como ofensa pessoal. Aí a pessoa, ela quer tirar satisfação, ela vai te xingar. “Como assim, você tá buzinando pra mim? Você tá querendo briga, sabe?”. É um negócio bizarro, assim. E aí, quando eu vejo isso, eu só fingo que não é comigo, ó. Tchau.
Izabella: Não, mas essa coisa da buzinada é séria. Porque já morreu gente por causa de briga de trânsito e tal. Então assim, eu, quando eu tô dirigindo, pra buzinar, é porque realmente tá numa situação que se eu não buzinar, ia acontecer uma tragédia. Porque via de regra, né. Você nunca sabe quando o maluco vai estar com a arma ali no carro.
Marx: Sim! O volante, ele revela o caráter das pessoas. Eu aprendi isso. Hoje em dia, eu só buzino pra sinalizar alguma coisa que for estritamente necessária, eu não fico buzinando…
Deco: É, pra mim é só, ó, o sinal abriu, dá aquela buzininha, tipo…
Marx: É, ou de repente, você tá, a pessoa talvez não tá te vendo. Você tá chegando numa rua, assim, que você tá indo em velocidade, o cara tá entrando lá e não te viu pra sinalizar que você tá entrando e tal. É aquele toquinho na buzinha de nada, mas se você fazer “péééééé”, aí a pessoa entendeu: “está tentando me ofender, tá me ofendendo”.
Deco: Parece que você tá xingando mesmo, né.
Marx: É pior do que xingar. Se você xingar, o cara não fica com tanta raiva do que se você buzinar. Aqui em Goiânia, é assim.
Izabella: Pois é, e assim, essa coisa das regras começou a me pegar na época que eu ainda estava tirando carteira, porque teve esse pare. Aí tem a coisa da seta, não sei o quê. E assim, em Goiânia, qualquer regra, qualquer lei de trânsito é só uma sugestão, se você for maluco, o suficiente. E eles ficam… Tem gente que fica brava se você faz do jeito que é pra ser feito. Então assim, isso já foi me pegando e tal.
E aí, o instrutor falou na época: “Olha, tem coisa que a gente te ensina pra você passar na prova, no dia a dia é de outra forma, você não precisa seguir essa lei do jeito que está escrito”. E aí, eu fiquei muito… Nossa, como assim? E aí, a literalidade também me pegou, por exemplo, na hora de aprender o momento que você mudar a marcha. Aí, ao invés de ele me explicar os critérios objetivos, lá do painel, das rotações, ele… “Ah, você vai sentir o carro pedindo uma marcha”. Aí eu vou sentir o quê?
(Risos)
Izabella: Ele: “Ah, o carro sente, você sente o carro”. “Tá, mas eu vou sentir o quê?”.
Deco: Eu não sei nem meus sentimentos direito, moço. Eu vou sentir o do…
Izabella: É, eu tenho que me conectar.
Deco: Eu vou sentir os do carro agora.
(Risos)
Izabella: Nossa, eu lembro que eu fiquei muito assim… E talvez além do fato de eu ser mulher, isso tenha incomodado ele. Porque eu acho que ele estava tão acostumado, né, de todo mundo só aceitar. E tudo, eu perguntava: “como assim, sente o carro?”. Ele: “Você vai ver, você vai sentir”. Eu “tá, mas eu vou sentir ele vibrando? Eu vou sentir ele…”. “Você vai sentir que se você não trocar a marcha, ele vai morrer”. Aí eu: “ah, ok”.
Deco: Eu tive também essa… Aqui em Goiânia, como eu dirigi em São Paulo e vim pra cá, não que lá seja bom, mas aqui é mais perigoso porque o pessoal é mais doido mesmo, assim, no trânsito, né. E nessa de seguir regra, eu acho que eu tive sorte com o meu instrutor. Porque eu acho que ele notou que eu era meio mais lerdinho. Tinha mais dificuldades, assim, do que os outros nessas questões assim mais literais mesmo. E eu acho que ele, pelo menos, percebeu isso em mim. E não… conduziu, sabe? Eu acho que eu tive bons instrutores, também pode ter me dado sorte, assim, na hora de fazer o curso, de fazer tudo, né.
Eu sou muito chato com quem vai entrar no meu carro… Cara, tem que usar cinto de segurança, não importa se você tá atrás ou não, sabe? Eu já parei na marginal, lá em São Paulo, falando: “Não vou seguir até vocês colocarem o cinto”. Tipo assim, pra amigo meu, falando. “Vocês não vão andar sem cinto, porque, cara… Se a gente dá uma freada errada, você morre”.
Marx: Isso é o básico, né, velho? No meu caso, os instrutores que eu… Eu tive um instrutor, na verdade, quando eu tava tirando carteira na época que eu estava fazendo a CNH, né. E a reclamação desse instrutor, ela era muito diferente. E é porque ele queria que eu andasse só de segunda marcha.
A gente, tipo, a cidade lá interior, né. E é aquela cidade tinha aqueles calçamentos de pedra. E, assim, quando eu peguei o carro pra dirigir a primeira vez, eu já entendi como é que funcionava as marchas e a embreagem lá de primeira. E aí, eu queria andar normal, tipo assim. A via é 40, eu queria andar 35, 40. Eu queria fazer tudo que eu entendi.
Aí ele falou: “Não, você não pode andar rápido desse jeito, que você tá aprendendo ainda. Se tiver qualquer coisa na frente, você não vai saber como reagir”. E carro de autoescola, ele tem aqueles pedais que… Ele te bloqueia se você fizer alguma coisa errada, né. E aí, toda vez que eu passava de 30 por hora, ele ia lá e parava. Falava: “Não, você só vai andar 20 por hora”. E eu ficava puto, falava: “Mas por quê? Não tem nada aqui, um descampado desses”.
A primeira vez que eu dirigi, antes de fazer aula mesmo pra tirar carteira, foi com meu pai e foi uma experiência horrível, porque ele queria ficar me tolhindo de fazer o que eu sabia. E ficava nervoso e ficava me xingando, porque queria que eu fizesse do jeito dele. Se não fosse do jeito dele, ficava falando que: “Ah, é que é perigoso e não sei o quê”. E aí, eu ficava puto e falava: “Ah, mas eu sei o que eu tô fazendo”. E ficava batendo boca. Então, foi duas aulas, eu já disse “Não quero mais aprender com você”. Insuportável, não quis mais, né. E na autoescola, o instrutor também ficou me enchendo o saco. Falei: “Talvez eu esteja errado em algum ponto”.
Deco: Talvez?
Izabella: Talvez!
Marx: Mas assim, quando eu fui fazer a prova de verdade, eu não reprovei na prova de rua, eu reprovei na baliza, que é uma coisa que ele ficou me elogiando, o instrutor, que é o que a gente tava conversando hoje no caminho que a gente veio. Eles ensinam você a fazer baliza decorando a posição e não aprendendo a dimensionar uma vaga de tamanho diferente, carros de tamanho diferente. E aí, você aprende pra poder passar na prova, você passa na prova, aí você vai pro trânsito e fica com medo de fazer baliza, porque no trânsito as vagas variam, né.
Deco: Não, não, eu vou defender, porque hoje eu só uso a teoria, até hoje, para fazer baliza. E pra mim, serve em tudo.
Marx: Então, você aprendeu de um jeito que funciona pra qualquer vaga, né.
Deco: É, tipo, você vê o início do outro carro, o final do que tá de trás, e você consegue calcular, tipo, vai seguindo: “Ah, o retrovisor até tal ponto”.
Marx: Mas e se o carro for comprido e for uma perua, um carro maior?
Deco: Aí, tu calcula.
Marx: Não, é porque você calcula, você sabe calcular.
Deco: Sou especial (risos).
Marx: Mas é porque existe uma diferença de você decorar o passo a passo e você bater o olho numa vaga e conseguir calcular mentalmente que o carro vai caber lá e qual é o movimento que você tem que fazer pra entrar lá. É diferente.
Izabella: Pois é, o problema é esse, que na autoescola eles não te ensinam a dirigir,
eles te ensinam a passar na prova do Detran.
Deco: Sim.
Marx: Exatamente.
Izabella: Então, por exemplo, a baliza, você treina com um cone e com um pauzinho pra cima. Aí eu aprendi a fazer, tipo: “Ah, não, você vai olhando no retrovisor, aí quando o pauzinho estiver aqui, você faz tal coisa. Aí quando estiver em tal ponto, aí você já vira de novo”. Cadê o pauzinho na vida real? Não tem pauzinho na hora de estacionar. Então, eu acho que o processo mesmo, na época que eu tirei pelo menos a carteira, tem tempo isso…
Deco: É que o pauzinho é a vértice do carro.
Marx: É a frente do outro carro, né.
Deco: É isso (risos).
Marx: O cone é a traseira e o pauzinho é a frente do outro carro. Aí você bate no outro carro… Só a prova da baliza eu reprovei duas vezes. Por quê? Porque eles ensinaram a fazer decorando e no dia lá o carro era um pouquinho maior do que o carro que eu fiz aula. Não era o mesmo carro. E eu entendi errado a posição lá do retrovisor em relação ao outro carro e passei por cima do cone.
(Risos)
Deco: Simples.
Marx: Sabe onde que eu aprendi a fazer baliza? No trânsito de Goiânia, dirigindo na vida real, praticando, entendendo como funciona e fui pegando o jeito. E falando um pouquinho sobre companhia, eu citei um exemplo aqui de uma companhia desagradável para dirigir junto. E ele era extremamente ruim de volante também, eu odiava isso. Mas tem as pessoas que a gente gosta de andar que são legais para bater papo e não ficar sendo aquela pessoa desesperada no trânsito ou que fica igual a mulher do GPS, né. Ah, o sinal abriu, vira à direita, não sei aonde.
Deco: Sim.
Marx: Sempre tem esse maluco que vai no banco da frente para querer andar de GPS e eu particularmente não gosto disso.
Deco: Eu viajei com muitas pessoas diferentes já, porque como eu fazia comédia lá em São Paulo, às vezes você dirige para shows no interior, né. E eu quando era comediante, iniciante, você era meio contratado para ser motorista dos grandes, assim, e fazer o show. Então eu sempre dirigi com muita gente, assim, e pegava muita estrada, né.
Eu sempre notei que eu fico mais nervoso na cidade quando tem gente comigo, mas eu fico mais calmo na estrada quando tem gente também. Eu morava com um amigo meu que era o Vina, e ele já sabia que quando eu ia fazer baliza ou estacionar, ele não podia estar prestando atenção. Ele tinha que estar mexendo no celular, porque senão eu ficava nervoso com ele vendo eu estacionar, sabe? E aí eu errava.
Tipo assim, eu estaciono o baliza super bem, se tá alguém olhando eu erro. Mas ao mesmo tempo eu tenho medo de pegar a estrada, então quando tem alguém para ficar conversando com você, me deixava mais calmo na estrada, por exemplo, sabe? Então pra mim sempre teve essa dualidade, assim, da companhia e tal. Mas é questão de trabalho também, né.
Izabella: Eu já prefiro dirigir sem companhia, porque pra dirigir você precisa de muita atenção, né. Tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, não tem previsibilidade nenhuma. Mesmo que você esteja com o GPS, você nunca sabe se vai chegar na rua, ela vai estar bloqueada. Então é uma coisa que me estressa muito, é muito estímulo ao mesmo tempo, né. Eu tenho TDAH também, então assim, é difícil.
Eu dirijo super tensa, assim, já me falaram várias vezes. “Tipo, você não precisa segurar o volante com tanta intensidade, ele não vai fugir”. Eu até na hora de posicionar o banco, eu fico um pouco mais perto do volante do que o provavelmente necessário, porque eu me sinto mais segura se eu estiver perto do volante, o que não faz sentido nenhum. Mas é assim que eu…
Deco: Eu sou exatamente assim também, eu tô soltando isso agora por dirigir mais, assim, mas sempre fui mais…
Izabella: Nossa, eu conheço gente que dirige assim, parece que tá num carro de Fórmula 1…
Deco: É eu não consigo…
Izabella: Que o braço fica longe. Enfim, aí como eu tenho muita dificuldade, tem muita coisa pra prestar atenção, se tiver alguém no carro, me distrai. Às vezes a pessoa quer conversar, e eu tenho que prestar atenção. Aí eu já vou ter que falar: “não, calma que eu tenho que ver não sei o quê”. Mas ao mesmo tempo eu já fico: “putz, essa pessoa que tá…”. Porque eu não dou carona pra desconhecidos, né. Então assim, poxa, se meu amigo, minha mãe, meu irmão, alguém quer conversar e eu vou ter que falar: “será que você poderia não falar nesse momento?”. O que é de boa, mas eu me sinto mal. Fora isso, eu fico pensando que se por um acaso eu estiver dirigindo e me envolvendo no acidente, eu corro risco de matar a pessoa que tá dentro do carro (risos).
Deco: A gente tem que pensar isso.
Marx: E quem tá fora também.
Izabella: É um medo comum.
Marx: Quem tá dentro e quem tá fora, né.
Izabella: É, fora do carro eu não tenho como garantir. Se eu pudesse andar com a rua só vazia, seria delícia, eu não posso. Mas assim, eu faço o que dá, eu dirijo com cuidado e tal. Mas aí eu fico pensando: “não, se acontecer um acidente e eu estiver dirigindo e alguém morrer, eu posso não ter nada a ver com a culpa. Eu vou achar que a culpa foi minha”. Então, toda vez que alguém entrava no carro comigo dirigindo eu já ficava assim: “rapaz, será que é hoje que eu vou acabar com a minha vida? Porque eu vou matar alguém, não sei o quê, e essa pessoa tá no carro…”.
Deco: Eu tenho a mesma coisa, que é por isso que eu falo: “Pô, tem que usar o cinto de segurança, porque não vai morrer no meu turno”. Tá ligado? Na minha vez, não.
Izabella: (Risos)
Deco: Eu tenho muito isso, e o que você falou de pedir silêncio também. Eu tenho esses momentos também, eu já falo, ó… Eu fico meio tenso dirigindo, tipo assim, eu sou muito paz. Então, eu sou muito de boa em trânsito, não brigo, deixo passar, sabe?
Mas quando vai pegar a estrada eu fico tenso por causa disso, né? Vai que um errinho ali, tu mata alguém. Então, tem momentos que eu já falava: “ó, gente, às vezes eu vou estar muito tenso”, porque você tá muito estimulado, eu falo: “gente, vamos fazer silêncio agora? Só deixa eu concentrar nesse tempo aqui que eu tô ultrapassando alguém, ultrapassando o caminhão, sabe?”. Nesses momentos, você precisa de mais atenção, eu peço, tipo: “silêncio”, ou aviso o que eu vou fazer pras pessoas meio que já estarem cientes também, né?
Porque a gente precisa… A gente tem mais essas dificuldades, né? Já é difícil pra pessoa dirigir na estrada, tipo. Tem que prestar atenção, tem que ter habilidade, querendo ou não. A gente ainda vai estar escutando o caminhão lá, tipo, o barulho dele. O barulho das pessoas conversando, o barulho do ar condicionado. Então tem muito mais coisas pra gente, sabe? Então, pelo menos pedir esse respeito de silêncio, eu sempre fiz. E sempre funcionou, sim. Mentira! Sempre não, algumas… Aí, ninguém é perfeito.
Izabella: (Risos)
Marx: É interessante, né? Porque eu vejo que muitos autistas relatam que dirigir é uma atividade cansativa, estressante. Que às vezes a pessoa faz porque é obrigada a fazer. Ou envolve muita tensão, muita imprevisibilidade, como você relatou da questão da rodovia aí.
E pra mim, sempre foi uma coisa que eu gosto muito. E, inclusive, dirigir na estrada, pra mim, é uma atividade onde eu entro num mood reflitão sobre a vida, assim, né? Principalmente se tiver só eu ou eu e mais uma pessoa do lado só pra ter aqueles momentos de silêncio, assim. Pra ficar olhando pro nada, assim. E eu consigo me desligar dos pensamentos da vida. E realmente entrar num mood reflitão que pouquíssimas coisas conseguem fazer eu chegar nesse estado.
E isso é uma coisa que tem muito a ver também com dois hiperfocos que eu tenho muito, que é o hiperfoco em conhecer lugares diferentes, em paisagens de natureza, geografia, relevo, essas coisas. E o próprio hiperfoco em dirigir mesmo em carro e dirigir.
Então, por exemplo, eu acho que a experiência de dirigir com alguém que deixa esse espaço e que não fica te transmitindo nervosismo, no meu caso, torna a experiência mais legal do ponto de vista de ser uma atividade relaxante, né? E pra uma pessoa que é muito sensível à ansiedade, é um respeito pra não deixar o motorista ansioso, que é o caso que você trouxe.
Deco: Eu também gosto muito de dirigir, assim. É uma coisa que também é meio terapêutica pra mim. Você está ali num momento que você só precisa concentrar naquilo, sabe? Não tem mais nada que você precisa fazer. Às vezes tá escutando uma música boa. Às vezes eu gosto de dirigir também sozinho na estrada e tal. Mas pra mim foi muito… Pra estrada principalmente. Já tive crises de pânico, de tipo… Cancelei show porque ia sozinho na estrada. Quando eu entrei na estrada, eu falei: “Não, não consigo”. Tava novo ainda em dirigir estrada e tal. E falei: “Galera, não vou”. Inventei que bati o carro. Estão descobrindo agora (risos).
Marx: (Risos).
Deco: Mas falei que não ia porque de crise, assim. De tipo, falar: “Não, não consigo”, sabe? Só que aí eu fui trabalhando isso. Hoje, prefiro com gente, mas às vezes vou pra Brasília, que é meio perto… Três horas não é perto, mas é uma reta só. Que eu tenho esses momentos também de contemplar a natureza. De tipo: nossa, só vão ser esses pensamentos. Que pra mim é realmente um momento relaxante, assim. Mas aí tem que passar um caminhão, aí eu fico tenso.
Marx: Mas daqui pra Brasília é pista dupla, né?
Deco: É, tem isso. Não, quando eu vou viajar, eu prefiro pegar mais estrada em pista dupla do que cortar caminho em pista simples. Pista simples, eu não dirijo bem. Tipo, não dirijo calmo. É pavor, é pavor. É silêncio do início ao fim, é pavor. É tipo assim: “galera, tô aqui” assim, parece um velho dirigindo.
Marx: É com os valentes, né.
Izabella: Eu dirijo assim o tempo inteiro. Mas uma coisa que me veio aqui agora… Vocês estão falando, né, que gostam de dirigir. Que às vezes é uma experiência que ajuda a distrair a cabeça, que você fica focado em outra coisa. Tipo assim, tem uma situação específica que eu gosto, que é se você estiver numa rodovia vazia. Aí é legal, né, você vai vendo a paisagem. Se não tiver cheio de caminhão em volta, sei o quê, é legal. Mas assim, via de regra é uma coisa que me estressa muito.
Eu, quando preciso ir pros lugares dirigindo… Tem bastante tempo que eu não dirijo, ainda bem. Mas eu já chego muito desregulada, sabe? Porque eu venho tensa. Tipo, pode ser um caminho que eu faço todos os dias, que eu já tô acostumada, eu já chego… Eu dirijo, você brincou, né, que dirige quando a pista é simples, todo tenso. Eu acho que eu dirijo assim em qualquer circunstância. Então, eu sempre chego muito tensa. E eu acho que é uma experiência bem oposta.
E eu pensei em outra coisa agora, que eu não tinha pensado antes. A gente tá falando de companhia, eu queria fazer uma observação. O Marx falou, né, de companhia que fica falando: “Ah, agora você faz isso, agora faz aquilo, sei o quê”. Na minha experiência, eu acho que outras mulheres vão se identificar… Geralmente, quando você é mulher e tem um homem do seu lado, ele acha que tem que te falar pra fazer tudo, e é muito irritante.
Então, assim, a companhia é legal nos casos, geralmente, que é uma mulher ou que não é um homem nesse padrão porque acontece muito, muito, muito. Aconteceu comigo, tipo, eu tô dirigindo. Eu sei o que eu estou fazendo, aí a pessoa: “Agora você vira ali”. “Agora você faz aqui”. “Por que você não fez tal coisa?” “Tá aqui não sei o quê”. Nossa, é muito irritante!
Deco: Quando a pessoa quer dirigir por você, né?
Izabella: É, e tipo assim, eu já vi… Por exemplo, eu estava com um homem em questão no carro, depois eu vi esse homem em questão no carro com outra pessoa. Ele só faz isso comigo. Então, assim, né…
Deco: Sim.
Izabella: Eu acho que… E é uma coisa que eu já conversei com outras amigas minhas, mulheres, e elas também reparam esse padrão de… Quando é uma mulher dirigindo, o homem sempre vai ficar… “Ai, não, porque agora é isso, agora é aquilo”. “Ah, é porque você tá na via assim, assado”. Tipo, meu querido.
Deco: O pior é que eu fico… Quando eu vou pegar Uber, eu prefiro muito mais Uber mulher, porque eu sei que não vai correr. Tá ligado?
Izabella: Aham (risos).
Deco: Eu sei que não vai acelerar, eu sei que vai seguir mais as regras. Eu fico muito mais tranquilo com uma mulher no volante nesse caso do que um homem. Nossa, tanto Uber, táxi, assim, que a gente vai pegar assim… Como eu viajo muito, vai pegar em cidade de interior, que tem essas rodovias. 60 por hora, ele tá 120. Eu tô, tipo, num pavor, assim. E quando é mulher, é mó de boa, assim.
Izabella: Ela vai tranquila. Eu dirijo bem devagar mesmo. Tem gente que fala que a Izabella dirige que nem uma vovozinha. Mas eu sinto mais segura.
Deco: Eu prefiro chegar devagar do que não chegar (risos).
Izabella: Exatamente!
Marx: Você tem um ponto muito importante.
Deco: Eu sempre falo isso, gente. Quando eu também ia fazer essas viagens de estrada, eu falava: “Gente, eu dirijo devagar na estrada, tá? Não vou passar o limite, vou estar ali de boa, porque… Vamos chegar”.
Marx: Com relação ao tal do GPS, eu sei que ele é o melhor amigo dos TDAH, principalmente. Mas tem muitos autistas também que não vivem sem ele. E na época do Google Maps, que o Google Maps não era tão acessível quanto é hoje, essas pessoas, elas deveriam sofrer absurdamente.
A minha experiência com o GPS é que eu tive a fase de entrar em negação do GPS, de querer memorizar todos os caminhos, de não querer usar. E de me perder em alguns momentos. E a fase de usá-lo quando eu realmente preciso. Porque eu entendo também que você memorizar caminhos é um exercício para o cérebro. Dizem até que pode prevenir Alzheimer, tem essas coisas aí.
Deco: Fazer caminhos diferentes para os mesmos lugares.
Marx: É, para exercitar a memória. Mas hoje em dia eu uso principalmente para lugares que eu nunca fui, para não ficar perdendo tempo também. O mais importante hoje em dia é chegar nos lugares, ao invés de ficar provando que dá conta de chegar sem olhar no mapa. Isso eu vejo como ridículo, mas eu tinha uma rigidez com isso antigamente. Como é que é para você a experiência do GPS?
Izabella: Ah, eu não vivo sem GPS. Se não tivesse essa invenção, eu não dirigiria. Sempre que uma pessoa mais velha vem: “ai, porque na minha época você teria que saber não sei o quê, não sei o quê”. Gente, na sua época, então eu não dirigiria. Porque eu não consigo. Só se for um trajeto da minha casa para o trabalho, que eu faço todo santo dia. Mas aí se chegar uma rua estar interrompida, aconteceu um acidente, não sei o quê, lascou-se. Eu não vou saber mais. Porque eu tenho muita dificuldade com mapas, com direção, essas coisas.
Então, eu sempre morei em Goiânia, não é nem isso. “Você mudou de cidade”, não sei o quê. Sempre foi aqui. O máximo que muda é, tipo, a direção das vias, alguma coisa assim. Mas eu não sei o que é. Eu tenho muita dificuldade com essa orientação espacial, com memória, com atenção.
Então, sempre que eu estou dirigindo, eu coloco o GPS, mesmo nesses trajetos que eu faço o tempo inteiro. Porque acaba que se você colocar no Waze, por exemplo, avisa lá, tipo: “acidente, não sei o quê e tal”. Então, é uma coisa que me ajuda a conseguir dirigir. Sem isso, eu não conseguiria. Com isso, já é bem sofrido. Sem isso, não aconteceria (risos).
Deco: É, não, eu tenho uma boa relação. Eu sou que nem, quando precisa, eu uso. Quando precisa, sim, eu não uso. Geralmente precisa. Mas tem caminhos assim, que você já faz tanto recorrente, que às vezes você acaba decorando também, sabe? Pra mim, a melhor coisa é que ele avisa quanto tempo vai durar, né? A viagem, avisa que vai ter trânsito ou não.
Marx: Dá aquela previsibilidade maravilhosa, né? Você gosta de usar com a bússola virada de cabeça pra baixo ou pra cima?
Deco: Como assim?
Marx: É porque o GPS tem a opção de te dar o trajeto como você vê na rua e tem a opção da bússola ficar apontada pro norte e ficar o mapa. E ele te dá o mapa como ele é na vida real, né? Que no meu caso, eu gosto de seguir a bússola. Porque eu tenho o mapa na minha cabeça como ele é. E hiperfoco em geografia e é isso aí.
Deco: Ah, não, eu sou normal (risos).
(Risos)
Marx: Tem gente que detesta!
Deco: Eu sou normal, eu só decorei espécie de pato.
(Risos)
Izabella: Eu acho que acaba ajudando porque é uma forma de ter o mínimo de previsibilidade possível ali nesse negócio do GPS. Mas eu também sou que nem o Deco, eu uso o mais simples possível. Porque se tiver muita coisa, muito cacareco piscando, aí eu vou me distrair com o GPS.
Deco: No simples eu erro também o caminho, porque eu uso o GPS, mas vira e mexe quando eu tenho aquelas entradas ali, eu não sei onde vai, eu sempre erro.
Marx: Tem as trifurcações, né?
Deco: É, então, isso daí eu…
Marx: Parece que é uma coisa, quando você vai virar é outra.
Deco: Exatamente.
Izabella: É, não tem até como você mudar o iconezinho. Ah, você quer um carro azul, você quer botar uma baleia dirigindo, uma coisa assim ou não. Não pode ficar inventando demais não, porque a cabeça vai longe.
Marx: E com relação ao barulho, eu vi que você comentou no começo aí, falando sobre como os barulhos, principalmente na rodovia, te atrapalham, né? Barulho de ar-condicionado, de buzina.
Eu conheço alguns autistas do NAIA, inclusive, que já relatou em um grupo que o simples fato de levar uma buzinada faz ele travar ou desregular no meio do trânsito. Fica parado, não consegue e começa a dar crise de choro, porque a sensibilidade auditiva é tão alta e o susto, né? Que a pessoa não consegue voltar, ela tem que ficar um tempo ali.
E isso é uma coisa que muitas vezes é pouco falado, né? A maioria dos barulhos em trânsito eu sou acostumado já, não me incomoda. Agora, levar uma buzinada muito alta, de um volume muito alto, de repente, me assusta e eu fico meio, uns 5 minutos assim, meio com ansiedade assim, até voltar ao normal. E aquelas motos que dão aquelas aceleradas super altas assim, que tem aquele escapamento de barulho, aquelas motos de corrida que passam do seu lado assim, você não tá esperando. E que, dependendo do barulho, dói aqui, parecendo que bateu dentro do ouvido, sabe? É muito dolorido.
Deco: Uma coisa que me ajuda muito é colocar música. Então, às vezes, quando eu vejo que eu tô com muito irritado, eu coloco a música mais alta também, sabe? E vidro fechado sempre também.
Izabella: Ai, mas barulho é uma grande questão pra mim também, porque eu tenho muita sensibilidade auditiva no geral. Então, você tá no trânsito lá, nesse momento, toda tensa, prestando atenção, aí do nada, uma buzinona na sua cabeça.
E tipo, não tem como você controlar o seu reflexo, né? O meu reflexo pra barulho é sempre vir e tampar a orelha, né? Tipo, as duas. Aí você tá dirigindo, aí do nada… Aí você taca a mão na orelha e nessa você atropelou e matou alguém. Então, é bem complicado esse ponto das motos que você mencionou, Marx. Eu não sei se fazem isso em outros lugares do país, mas em São Paulo, as motos ficam buzinando, tipo… Eu não sei por quê que…
Deco: Para corredor.
Izabella: É, pra avisar…
Deco: Fica “pem, pem, pem”. Não, isso daí é horrível.
Izabella: É o tempo inteiro, a moto “pem, pem, pem”. A primeira vez que eu vi isso, eu fiquei, gente, não é possível. Como que essas pessoas vivem?
Deco: É que isso é muito lá na hora do rush, principalmente. Aí eu tinha vantagem que meus horários de trabalho eram fora da hora do rush, né. Então pra mim, não tinha tanto isso. Mas quando pega trânsito, você tá parado, é o tempo todo, moto passando.
Izabella: Nossa, é muito chato! Então assim, ainda bem que não fazem isso em Goiânia. Os motoqueiros daqui são bem criativos com coisas horríveis pra fazer. Mas essa não chegou aos ouvidos deles.
Marx: É porque eles colocam escapamento, você ouve eles chegando a 10 quilômetros de distância. Aí não precisa buzinar, você já viu a moto chegando, né.
Izabella: É isso que tem escapamento. Nem sei se é escapamento, mas assim, tem barulho de carro, que é barulho, sei lá, normal. E tem aqueles carros que são modificados especificamente para fazer mais barulho.
Marx: Nossa, que inferno!
Izabella: Nossa, terrível!
Marx: E aí, falando sobre situações estressantes no trânsito, todo motorista já deu pelo menos uma encostadinha na traseira do outro carro. Já encostou na calçada, já bateu num poste, já se envolveu em algum incidente. Isso é normal, isso pode acontecer com qualquer um, né. Nem todo mundo vai capotar e dar perda total, mas acidentes pequenos vão acontecer.
No meu caso, até hoje, eu tive incidentes muito pequenos, de encostar numa lateral, de encostar num toco, numa calçada que eu não vi. Quando eu tava voltando a dirigir, depois de muito tempo, aqui em Goiânia, eu encostei na traseira de um carro, mas só deu uma leve amassada, enfim. Vocês já se envolveram em acidente de trânsito?
Deco: Já, de… Quando eu tava começando a dirigir aqui em Goiânia, eu tava dirigindo, aí caiu uma coisa no banco do lado, aí você vai ver e você bate no carro da frente, tá ligado? Eu já fiz isso, de tipo: “ah, caiu uma coisa, vai pegar assim, só pra não derrubar”. E daquela encostadinha, mas não deu nada também. Mas todo acidente que eu me envolvi real, foi gente batendo em mim. Foi eu parado e a pessoa vinha atrás e batia, e sempre se resolveu ok. Eu sempre me preocupo mais com a pessoa do que com o meu carro, né. Eu fico muito em paz em momentos desesperadores.
Marx: Muito bom.
Izabella: Eu já me envolvi em três, assim, não foi nada: “ai, nossa, um acidente”. Foi, assim, batidas. Duas foram por tonguice minha e outra foi realmente o motoqueiro que tava errado. As que foram por tonguice uma eu tava numa rampa, e aí tinha um sinal, não sei o quê, aí na hora de abrir o sinal, outra coisa que o instrutor não me ensinou direito é fazer rampa. Aí ele entrou nessa de novo: “ai, sente o carro”, não sei o quê. Eu tinha acabado de tirar a carteira, aí eu tava ali tentando sentir o carro, só que eu senti o carro errado, ele foi um pouco rápido demais e bateu atrás do motorista da frente. E essa foi uma.
A outra foi que eu tenho uma noção péssima de espaço. Então, assim, você tem que saber, né. É importante pra dirigir, você saber… Até pra estacionar, pra dirigir mesmo, pra ver na hora da rotatória. Você pensa: “ah, vai dar tempo de passar, não vai dar tempo de passar”. Tipo, isso já envolve noção de tempo e espaço, e eu sou péssima em ambas. Aí numa dessas também, eu tava num… Não era rotatória não. Eu não lembro exatamente o detalhe da pista, mas era uma coisa que eu tinha que pensar se ia dar tempo ou não de passar. Eu achei que dava, e não dava, e eu bati no carro.
E a que bateram em mim foi uma coisa, acho que é mais clássica de trânsito. O sinal tava aberto pra mim, tava fechado pra outra pessoa que estava cruzando, né, só que era de madrugada. E aí, eu acho que a pessoa foi nessa de: “ai, de madrugada, não precisa”, só que toda vez que eu vou passar esse sinal de madrugada… Aliás, passou de 11 horas, eu faço isso. Estando aberto ou não, pra mim, eu sempre pisco o farol. Só que não adiantou nada, né.
Aí eu passei, o cara tava vindo do outro lado, era uma moto. Aí bateu assim em cheio na minha porta, e deu uma estragada, assim. O moço caiu, não sei o quê. Eu perguntei se ele queria que chamasse a ambulância e tal, só que ele não quis, não. Foram essas, assim.
Eu já passei muito apuro de quase batidas, né. Eu acho que a minha lista de quase batidas é maior do que a de batidas, né, tem três. É muita coisa, assim, nessa de… Eu faço o máximo pra conseguir prestar atenção, mas não é sempre que dá certo, né. Então, nessa de estar prestando atenção, às vezes eu vou trocar a música do rádio, aí eu acabo, eu tô na pista, eu vou dar uma virada assim, vou num canteiro, assim, da rua. Mas nunca cheguei a atropelar, enfim (risos).
Deco: Não que você viu (risos).
Izabella: É, nunca foi assim. Nessa da música, acho que foi a que eu fiquei mais assustada.
Porque foi coisa assim, na minha cabeça foi tão rápido, que eu olhei pro rádio, né, e a coisa assim… Quando eu vi, o carro já tava super virado pro outro lado, em rumo a uma casa.
Aí percebi a tempo, deu pra parar e tal.
Mas assim, análogos a esse, já teve tipo… O carro tá na distância tal, aí eu acho que se eu pisar no freio com tal intensidade, vai dar tempo, não sei o quê. Aí eu vejo o carro tá tipo… O meu carro tá quase beijando o outro, aí eu tenho que parar do nada, sabe? Isso aconteceu algumas vezes.
Marx: Isso remete muito às situações tanto de desatenção, quanto situações em que a gente acaba reagindo à falta de educação de algumas pessoas também no trânsito, né.
Para mim, a principal marca do trânsito de Goiânia é a falta de educação das pessoas. Pessoas que não respeitam a faixa de pedestre, que não respeitam o sinal vermelho, que não respeitam pare, que acham ruim quando desrespeitam uma regra que claramente está colocando em risco a minha integridade e eu buzinho e a pessoa, olha feio pra mim, como se ela tivesse certo e eu tivesse errado. Isso me irrita profundamente, eu fico extremamente estressado com isso, mas eu não procuro confusão com ninguém, eu sigo minha vida.
Eu entendo que não vale a pena, porque é perigoso, porque tem muita gente ruim no mundo, e porque você não pode deixar com uma pessoa que você não conhece acabar com o seu dia por causa de uma coisa que ela tá errada e você tá certo. E também ter humildade de pedir desculpa quando você tá errado, né, porque às vezes a gente vai errar também, nós somos seres humanos.
Izabella: Tem uma coisa que você falou, isso de as pessoas quando estarem dirigindo, elas ficarem mais agressivas. Quando eu fiz aula teórica da autoescola, tinha um filmezinho que era tipo um clássico, todo mundo aqui que eu comentava, falava assim: “Ah, é o filmezinho do Pateta”, que é tipo o Pateta pedestre, o Pateta motorista.
Deco: Ah, sim, sim.
Izabella: É. Que aí, tipo, o Pateta pedestre, ele é super de boa, não sei o quê, amigo da galera. Aí ele entra no carro, ele vira um serial killer maluco, que ia atropelar todo mundo (risos). Já acha que tá num videogame. E eu acho que assim, acaba que isso é muito real, sabe? As pessoas fazem umas coisas no trânsito, que se elas estivessem assim, andando, elas não fariam.
Deco: Sim.
Izabella: Não sei se elas pegam no carro e sentem: “Não, agora eu estou em posse de uma máquina mortífera, nada irá me parar”. Mas é muito bizarro isso, esse comportamento.
Deco: É, então, eu evito ao máximo qualquer briga, conflito. “Ah, tô certo, tô errado, não me importo”. Não me importo, segue, entendeu. Tipo, não para pra brigar, segue, deixa a pessoa passar mesmo ela estando errada, tudo bem. Eu sou muito paz, assim, no trânsito, porque é aquilo que a gente falou, tem uma responsabilidade tão grande, e eu tenho uma consciência que os outros não têm essa responsabilidade, que eu tento ter pelos outros também. Então, cara, vai sair assim, estacionar, eu paro. Sai do estacionamento, segue sua vida. É 10 segundinhos ali que a gente perde pra deixar o outro passar. E tem gente que fica puta, sabe?
Izabella: Não, tem gente que fica muito irritada com as coisas. Parece, sei lá, que você tá cuspindo na mãe dele, aí eles te dão uma buzinada assim, ferrenha. Eu já estive, tipo, com pessoas no carro que buzinam assim, de uma forma completamente desproporcional. Aí eu pego e falo assim: “Mas não precisava, né? Calma”. É perigoso você fazer essas coisas. Fala: “Ah, não, mas é porque eu tava estressada, não sei o quê, queria descontar”. No trânsito? Você coloca a própria vida em risco, coloca a vida dos outros. De repente, tem um autista dirigindo, aí buzina, você assusta, aí ela perde o volante. Então, acho que falta muito esse autocontrole, de forma geral, das pessoas no trânsito, porque o motorista é muito agressivo, né?
Deco: Sim.
Marx: Para o autista, conseguir dirigir, conseguir ter esse nível de autonomia, de ir pra um lugar, pro outro, com o próprio veículo, é uma conquista enorme pra gente, é muito… Faz uma diferença enorme. Acaba sendo uma espécie de suporte pra nós em alguns momentos, porque dependendo do lugar que você mora, de como é o transporte público de onde você mora, da acessibilidade, da distância, muitas vezes você ter que ir pra algum lugar no transporte público, ou pegando carona, ou o que quer que seja, já é uma fonte de sobrecarga e de desregulação a depender, né? O veículo próprio já evita muita coisa que talvez possa ser fonte de gatilho de desregulação em algum momento.
Deco: Sim.
Marx: Então eu vejo como uma conquista importante. A gente sabe que tem várias pessoas do espectro que não vão conseguir por N dificuldades, né? Que dirigir é uma atividade complexa, que envolve muitas habilidades funcionais, executivas, cognitivas, atenção. Tem gente que nem autista é, que não consegue dirigir por causa da dificuldade com a atenção, com o foco, e com a própria noção de espaço mesmo. Então não é exclusividade nossa, mas é uma coisa importante, porque te dá uma opção a mais de autonomia e de conseguir se virar um pouco.
Deco: Eu acho que é um suporte assim mesmo, que nem você falou. Faz parte de um suporte, né? Por isso que é tão bom ter uma acessibilidade a mais nessas coisas de desconto, nessas coisas de tipo… Principalmente a gente falou aqui da autoescola, de ter também uma autoescola mais preparada para pessoas neurodivergentes, ou até PCDs assim. Porque tem gente que é PCD, por exemplo, de deficiência física, que tendo um carro adaptado consegue dirigir também. A gente não sabe como que é o ensino para essas pessoas na hora de dirigir também, sabe? Eu acho engraçado que eu tenho mais facilidade em dirigir do que lavar louça, sabe? Tipo, tem essas… Essas… Coisas intrigantes da vida (risos).
Marx: É, porque por incrível que pareça, exige habilidades diferentes em algumas coisas.
Deco: Mas a louça é muito mais cotidiano pra todo mundo fazer do que dirigir, né?
Izabella: Eu acho que você tocou num ponto fundamental agora, isso da questão de ser uma forma de suporte, porque é um discurso que a gente vê muito. “Ah, mas pra que autista precisa de isenção de imposto para comprar veículo? Vocês só tão querendo um privilégio, não sei o quê”. E não é sobre isso, né?
É uma questão até de acessibilidade, porque pode ser não ser o próprio autista dirigindo, pode ser outra pessoa, crianças têm esse direito também, em qualquer idade, não tem isso. Porque, assim, você pegar um transporte público, você ter que usar de outras formas, é muito difícil, desregula por um milhão de fatores. Então, é uma forma de você diminuir o estresse diário daquela pessoa, do autista. E que não é só: “ai, nossa, porque você tá querendo um luxo de forma mais barata”. É uma questão de realmente dar apoio para essas pessoas. Pode fazer a diferença entre alguém conseguir ir ou não em algum ambiente.
Tem pesquisas recentes que mostram a taxa de pessoas diagnosticadas com autismo e… Pessoas que usaram desse benefício do carro, não é como se fosse assim: “ah, não, agora um carro para cada um que frequenta o NAIA, um carro pra vocês também que seguem Introvertendo”. É um processo complicado. É caro ter carro, gasolina é cara. Então, não é exatamente uma coisa super acessível. Na verdade, não é acessível, ponto.
Mas é um instrumento, digamos assim, que pode ajudar muitas famílias. Por exemplo, famílias de crianças que têm que fazer muitas terapias em vários lugares. Então, ajuda nesse deslocamento também, além de ajudar o próprio bem-estar da criança. Então, acho que esse é um ponto que a gente tem que focar bastante. Porque teve até discussões recentes no Supremo sobre isso, se tiraria ou não dos autistas de nível 1. Porque nós três somos nível 1 de suporte. Então: “ah, mas por que vocês precisam?”. A gente também precisa, sabe? Não é besteira, não é privilégio. É realmente uma forma de acessibilidade.
Marx: É quando você para pra pensar que vai muito além do carro em si, né? Toda dificuldade que a pessoa autista já tem para conseguir ascender socialmente, ascender financeiramente, permanecer num ambiente de trabalho, conseguir gerenciar o próprio dinheiro. Tem muita coisa. E tudo isso vai influenciar na capacidade de um autista de conseguir acessar um veículo.
Sobre as políticas de isenção de imposto de carro, a gente sabe que tem várias, né? E tem uma galera do Direito aí que está se mergulhando bastante nesse assunto. Tem muitos advogados especializados no assunto que estão trabalhando nesse aspecto. E procurem orientação jurídica, quem estiver interessado.Tem muitas concessionárias aí que trabalham com isso, a lei preconiza. E eu acho que os direitos existem para a gente ir atrás deles, porque é importante.
Deco: Sim.
Marx: Nós estamos chegando ao final do nosso bate-papo aqui. Mais uma vez, eu gostaria de agradecer a presença ilustre. Eu fico muito feliz de estar aqui hoje e de falar sobre esse assunto, que é um dos assuntos que eu mais gosto na vida. Então está sendo uma honra gigantesca. E muitíssimo obrigado a todo mundo que se dispôs a vir aqui. E apreciem o que tiver ainda disponível por aqui hoje. Muito obrigado. Nos sigam nas redes sociais e assistam nossos episódios. O Introvertendo está no YouTube do NAIA e nas redes sociais. Obrigado.
[Vinheta de encerramento]
Marx: Só que lembre-se que dirigir devagar demais na estrada significa correr o risco de uma carreta passar por cima de você.
Deco: Minha regra comigo mesmo é que eu sempre ando a 10 a menos que o limite.
Marx: Você está na rodovia, que está lá a placa, 80. E aí tem um monte de carreta lá andando a 90. Você vai andar a 80? Você vai ser esmagado.
Deco: Não, a carreta passa.
Marx: Não.
Deco: Passa.
Marx: O seu veículo é mais leve. Você tem que andar mais rápido que a carreta até porque você tem que manter distância dela. Veículo pesado, ele não vai sofrer nada, entendeu? Quem vai se lascar é você.
Deco: Vou comprar uma carreta. Pronto.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de gravação: Marcelo Oliveira | Fotografia: Tiago Abreu | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

