Introvertendo 313 – Autismo e Família: O Lado Ruim – parte 2

Reinterpretar um passado familiar cheio de negligências e conflitos sendo autista é um grande desafio. Na segunda parte desta discussão, Gustavo Borges, João Victor Ramos e Marx Osório, com participação de Nicolas Melo, falam sobre o sentimento de insuficiência, as expectativas dos pais, brigas e o que não levar para suas novas famílias que estão sendo construídas.

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Transcrição do episódio

[Vinheta de abertura]

João Victor: Quando essas relações ficam desprovidas dessa via de mão dupla, sobretudo quando nós procuramos e somos a única mão da relação, digamos assim, bate uma sensação muito chata e incômoda que eu particularmente tenho 24 horas por dia, 7 dias por semana, que é de se sentir insuficiente.

Eu me sinto insuficiente, sério mesmo, assim, porque eu vou ter que falar um pouco de mim agora. Eu me sinto insuficiente enquanto filho, eu me sinto insuficiente enquanto irmão, sabe? E porque eu sempre tento ser o melhor que eu posso ser para os três, pai, mãe, irmã mais nova.

E sabe quando você acha que a coisa não tá fluindo? A coisa não tá fluindo no sentido de tipo, quando meus pais voltam do trabalho, aí eu cumprimento eles e tal, recebo todo amor e carinho, aí minha mãe já vem brigando comigo por algum motivo que ela tira, sabe, sei lá de onde, do abismo, que é muito normal para uma pessoa, com perdão no termo, estressada como ela é. Aí eu devolvo: “nossa, boa noite pra senhora também, mãe”, sabe?

Marx: (Risos)

João Victor: Na delicadeza mesmo, assim, porque, cara, eu sinto que sempre tá faltando alguma coisa pra eles, sempre tá faltando alguma coisa que eu posso fazer que eu nunca sei o que é porque eles não falam, às vezes mais de uma coisa, tá ligado? Não sei, eu acho que essa é uma das consequências mais frustrantes das relações conturbadas que eu tenho com os três, apesar dos pesares.

Marx: Você sente que eles têm uma cobrança em cima de você que parece que você sente que é maior do que deveria ter, né? 

João Victor: É, isso implantou em mim um senso de que eu devo ser sempre um cara grandioso. Minha mãe chegava pra mim e falava “meu filho, eu não quero que você seja o número um da sala, não, tirando na média tudo certo”, mas quando o trem apertava o discurso era outro, completamente oposto. Tá ligado? Isso é só um dos exemplos.

E quando eu não rendia no trabalho e queria compartilhar com ela: “ah mãe, não tô bem no meu serviço por causa disso, disso, daquilo, outro, tô meio depressivo, não tô conseguindo atender certas demandas com a certa consistência”, eu desabafava isso pra ela.

“Mas pelo amor de Deus, já veio gente perguntando pra mim, por você ser autista, se eu não ia aposentar você, para com isso, seja um pouco mais otimista, se esforça mais um pouco”, mais do que eu já tô me esforçando. 

Gustavo: Como se os neurotípicos não tivessem dificuldades no trabalho, é exclusividade nossa. 

João Victor: Exatamente! Exatamente! É dai para baixo.

Marx: É a incapacidade de oferecer apoio emocional, cara. Isso é uma característica muito marcante das famílias atípicas, que não têm diagnóstico nenhum. 

João Victor: Ou quando é tardio. 

Marx: Ou das famílias que não tiveram uma estrutura emocional boa lá no passado, tiveram criações duras demais, e isso gera um prejuízo para o desenvolvimento do autista, muito grande, porque a dificuldade emocional já é notória. Aí você tem uma galera que tudo que você vai tentar falar de cunho mais íntimo, ou a pessoa tenta dar alguma solução prática imediata, ou ela fica julgando a sua dificuldade com a ótica dela, né. Isso é muito paia. 

Gustavo: Cara, e nisso aí que você falou, que vocês já falaram antes, “ah, antigamente não tinha terapia”, eu pego, por exemplo, a situação da minha avó. Ela teve uma vida duríssima, ela teve uma vida, assim, bem pesada, não vou entrar nos detalhes, mas isso a transformou numa pessoa triste, amarga. Eu não sentia empatia, amor, aquele carinho vindo dela em raros momentos para qualquer pessoa que fosse. E aí fica aquela questão. Eu também vi muito audiovisual como você, Nicolas, a figura da avó é sempre a figura mais fofa, é sempre a figura mais carinhosa. E aí a minha não tinha nada disso.

João Victor: A mais sábia também, tá ligado? 

Gustavo: É, e não vinha nada disso. E aí, hoje, com mais de 30 anos, eu entendo porque ela era assim, pelo que a vida fez com ela. Mas eu nunca consegui ter uma proximidade real com ela. Eu tive um pouco com meu avô e tudo, mas a coisa mais próxima dessa figura de avó carinhosa que eu tive foi uma tia-avó.

E isso o que a gente estava falando, cara, uma das poucas pessoas que me mandava um áudio de WhatsApp, de vez em quando, eu não sou nem fã de áudio de WhatsApp, mas pessoas idosas estão totalmente perdoadas, que mandavam um áudio de dois minutos, e cara, era quase sempre o mesmo áudio do mesmo jeito, mas ela era o jeito dela, mantendo o contato, tudo, que ela era carinhosa e tinha um monte de neto e ainda assim lembrava de mim.

A gente sente essa diferença de quando a pessoa quer ter o contato, independente da vida ruim que ela levou, porque essa minha tia-avó, ela também contava, assim, coisas horrorosas, de que o pai a tratava muito mal, e depois o marido a tratava muito mal, que o marido ela sequer escolheu, mas assim, que ela fala que só foi feliz de verdade depois que virou viúva. Felizmente ela ficou viúva cedo, ela teve uma longa vida, até falecer alguns meses atrás, assim. Essa pessoa que também teve toda uma vida problemática, essa era a pessoa que me demonstrava mais carinho, assim.

Nicolas: E também o jeito de acabar que, igual o João Victor falou, que ele ficava frustrado de não ser suficiente. Todos os pais, familiares, têm uma expectativa sobre você que eles construíram desde que você nasceu. Desde que você nasceu, eles imaginaram uma vida inteira pela frente, e qualquer coisa que desvia um pouco dessa expectativa, dessa imagem, eles se frustram muito. E o jeito deles de lidar com essa frustração não é o ideal, então eles acabam descontando em cima de você.

Por isso que vem muito desse sentimento de ser insuficiente, de estar fazendo algo errado, mesmo não estando fazendo nada que você não poderia fazer, sabe? Mesmo sendo você mesmo. O jeito que eles lidam com essa frustração é jogando pra cima de você.

E quando você tenta entender, tenta perguntar: “tá, o que vocês queriam que eu fosse? O que vocês imaginam que eu fosse?”. Eles, ao mesmo tempo, não querem jogar em cima de você essa expectativa, não querem dar essa pressão pra você.

Gustavo: Pior ainda. A expectativa eles querem que você adivinhe.

Nicolas: Que venha de você, exatamente.

João Victor: Você disse tudo, Gustavo, você disse tudo. Quer que a gente tenha bola de cristal, velho.

Marx: Porque na verdade é a frustração de ver a limitação do autismo ali, né? E de ver que você não vai corresponder a expectativas que foram criadas numa lógica típica. 

Nicolas: É, até porque quando você nasceu eles não sabiam. Por exemplo, quem tem um diagnóstico tardio demorou muito pra saber o que é autismo.

Marx: Você passou uma vida inteira tentando correr atrás da expectativa de ser uma pessoa típica e todo mundo esperando isso, você não correspondendo. Galera não percebeu o que é por causa da limitação do autismo e achava que era qualquer outra coisa.

E fica aquela sensação: “nunca vou ser suficiente, nunca vou conseguir”. Por quê? Porque o autismo continua ali emocionalmente sendo expressado de um jeito muito errado. E quando é que você vai conseguir se livrar disso de fato? No dia que você não precisar ficar convivendo com esse tipo de coisa mais. 

Nicolas: Tem uma certa libertação em sair de casa. 

Marx: Nesse aspecto sim, porque a estrutura familiar que funciona, que as pessoas se comprometem com ela é muito bom, tem muita vantagem. Te ajuda a ter mais tempo pra se organizar, a ter um porto seguro. Mas tem essa desvantagem aí que é o fato de que a sua saúde mental, pelas pessoas não terem essa noção do que que machuca, do que que não machuca em alguns comportamentos, você vai vivendo como se você não estivesse 100% em paz, nunca.

E se você vive numa casa onde você nunca tá em paz nunca, tá o tempo todo tentando provar alguma coisa, você tá vivendo num ambiente tóxico. Mesmo que não seja de caso pensado, mesmo que as pessoas lá, elas te amem, te respeitem, gostem de você, você está vivendo num ambiente ruim.

João Victor: Brother, tem dias que eu prefiro ficar na minha sala de trabalho do que no meu próprio quarto. É nesse nível.

Nicolas: É porque você nunca tá realmente descansando, nunca é um ambiente de descanso, é sempre um pisar de ovos, é sempre um ambiente hostil.

Gustavo: Porque dos três aqui, você é o que mora com os pais no momento e a gente sabe o quanto você… Porque cara, eu, com várias aspas, saí de casa com 17 anos. Eu fui morar numa pensão bancada pela minha mãe pra poder estudar aqui em Goiânia e daí fui seguindo com a minha vida. E como tudo fica mais leve, tudo fica mais tranquilo quando você tá por conta, quando você tem esse distanciamento. 

João Victor: É isso que eu estou querendo experimentar. Desculpa te interromper. Essa leveza de saber que, mesmo que você precise estar um pouco em alerta por ser só você e você naquele ambiente, ao mesmo tempo você tem a tranquilidade de falar: “cara, eu posso fazer as coisas do meu jeito, de uma maneira que possa ser funcional com as habilidades que eu demorei uma vida inteira para desenvolver”. E através disso, conseguir constatar pra mim mesmo que, apesar do autismo, a gente dá conta. 

Nicolas: Claro que tem o lado ruim também que é…

João Victor: Não, lógico, não é negando. 

Nicolas: A gente também às vezes esquece de comer, esquece de limpar a casa. 

Marx: Tem a questão do suporte, né? 

Gustavo: É, mas vale tudo a pena, gente.

Marx: Quando você não tem dinheiro, se torna mais difícil ainda. Porque foi bom você ter tocado nesse ponto aí, que é a questão de que a gente carrega algumas crenças também sobre como se deve viver quando você sai de casa, que com o tempo você vai vendo que não faz sentido. Porque só a rigidez estava postergando aquilo ali na sua cabeça.

Como por exemplo, eu tinha muito isso também, a crença de que você tem que dar conta de fazer tudo dentro de casa quando você mora sozinho. O tempo todo. E se você não se dá conta é porque você não dá conta de viver sozinho. Você é incompetente, você é preguiçoso, você é desleixado. E na verdade não.

Todo neurodivergente tem um nível de disfunção executiva que vai aparecer em alguma área. Seja em questão de organização, limpeza, autocuidado. E o que precisa? De suporte. De suporte e de acompanhamento em maior ou menor grau. E muitas vezes o que você vai precisar? Você vai ter que contratar pessoas para fazer algumas coisas.

Se você é uma pessoa que trabalha, que estuda, que tem uma vida ativa, que tem uma vida social, gasta energia do caramba. Vai sobrar energia para você ficar fazendo faxina muitas vezes toda semana na sua casa? Não vai, cara. Vai ter época que você vai conseguir, vai ter época que não. E antigamente eu ficava sofrendo com isso, falando: “meu Deus, eu sou uma pessoa desleixada”.

João Victor: Que enquanto não for o dono de casa mais completo do mundo, tá lascado.

Nicolas: Isso aí vem dos pais, inclusive. Vem dessa pressão.

João Victor: Sim, pra caralho!

Marx: E hoje em dia eu falo: “véi, hoje eu vou conseguir arrumar isso aqui”. 

João Victor: O que já é uma vitória gigantesca. 

Marx: Se eu tentar fazer mais do que isso aqui, eu vou entrar em crise. Isso aqui eu vou pagar alguém para fazer. “Ah, eu não consigo pagar”, então eu vou fazer depois. É assim que eu faço, sabe por quê? Porque senão eu fico lá morrendo. “Meu Deus, a vida não faz sentido. Eu sou um merda, eu sou um fracassado. Meu, o que eu tô fazendo?”. Aí começa a vir a ruminação e aí é uma desgraça. 

João Victor: Sim, perdi a conta de quantas vezes fiquei assim, bicho. 

Marx: E você também se permitir não querer dar conta de tudo o tempo todo é se cuidar também. É se respeitar também enquanto ser humano que tem as suas limitações, né? Tem toda essa questão envolvida. E a família original muitas vezes não entende isso e contribui para o nosso sofrimento nesse ponto.

João Victor: Sim.

Gustavo: Vocês acham que apesar de tudo que a gente acabou de despejar aqui ainda dá para poder delimitar limites e ter um contato que seja minimamente saudável com parentes, com quem vocês queiram assim, dessa família original?

João Victor: No meu caso, com certeza. Mas… Muita coisa vai precisar mudar.

Marx: Aí eu vou falar sobre isso porque como eu já tive a experiência de ter que fazer isso, tem uma vivência prática em relação. Eu acho que depende muito de como as pessoas que receberam esse limite vão lidar com isso. Porque tem gente que realmente não aceita.

Se ela não tiver esse papel problemático na sua vida e você falar: “você só vai até aqui”, ela não quer saber de você. E com a maioria de muita gente foi assim. A pessoa: “ah, então se for para ser assim também não quer saber não”.

Mas as pessoas que realmente amam a gente, elas vão continuar querendo estar com a gente mesmo que você estabeleça limites de convivência e limites de comportamento também. Que é o mais difícil, você continua convivendo, a pessoa quer continuar tendo comportamentos ruins, você vai lá e corrige e a pessoa não entende ou finge não entender. E existem maneiras de você enxergar quando a pessoa finge não entender. É muito claro, hoje eu consigo perceber em alguns momentos.

E nesse caso, você tem que fazer um exercício de: “essa pessoa realmente pode vir até aqui?” Ou “essa pessoa nesse contexto ela não pode vir, mas em outro contexto sim?”. E eu tenho tentado exercitar isso, né. Porque eu vejo que tem algumas pessoas que para convivência ocasional, para convivência de ver de vez em quando, é muito bom. Mas que para conviver de maneira mais frequente é uma bosta.

Eu não vou citar nomes, mas tem vários casos de pessoas parentes muito próximas de família que é assim. E quem vai estabelecer isso sou eu, né. Cada um de nós tem que saber até onde vale a pena. O que não pode é você fazer isso sem querer, só para agradar aos outros. Isso aí é um erro clássico. 

Gustavo: Sim, cara. Eu tive umas experiências nesse sentido de tentar agradar, tentar manter esse contato. E nunca dava muito certo quando eu tentava mostrar qualquer coisa de mim. Enquanto eu estava caladinho, era aceito. Quanto mais eu tento mostrar quem eu sou, eu tô errado. Seja de aparência. Cara, eu tô usando um coque, porque eu comecei agora com isso. Mas tipo, o dia que eu comecei a deixar a barba, eu já tava errado.

O dia que você… “Ah, por que você só usa essas camisetas de anime?” “Por que você só usa…” Nem foi falar anime, mas tipo… “Por que você anda assim?” Tudo aquilo que… “Por que você não faz exatamente como a gente?” Era um problema.

E aí, passou a ter também uma praga chamada grupo de família no WhatsApp. E aí, eu caí no grande problema de tentar interagir. Eles mandavam um monte de mensagem de “bom dia” e de absurdos/fake news. E aí, eu comecei a responder. “Gente, desculpa, isso aqui que vocês estão falando não tem nenhum sentido”.

Marx: Ai, ai (risos).

Gustavo: Isso aqui é mentira, por isso, por isso e por aquilo. E aí, eu que já não era uma pessoa bem quista, eu passei a ser o caçador de briga. Que eu só aparecia lá pra poder causar problemas. E falaram isso abertamente. “Você só aparece aqui pra poder encher o saco, pra poder atrapalhar, pra encher o saco”.

Uma parente que era muito querida por mim e dizia que gostava muito de mim, que queria ter sido minha madrinha e tudo mais pra ter mais proximidade ainda, ela me adorava. Até eu falar que ela estava errada em alguma coisa.

E de novo, eu não estou falando a forma como você vive é errado. É só falar: “tia, esse negócio que mandaram pra senhora é mentira”. O cantar parabéns e falar “ratimbum”, você não está invocando um demônio na vida da pessoa.

João Victor: Puta que pariu.

Gustavo: Sim, esse foi um dos primeiros. Era uma… “tia, não, não tem como isso”. É só uma palavra sem nada, isso não é uma invocação de demônio do Oriente Médio, não. E daí pra frente foi virando uma série de problemas que eu passei a não ver mais o grupo de família. Eu passei a não negoçar, a não interagir. E isso foi dando uma melhora, mas de vez em quando o que eu vi ainda tinha algum desgosto.

E cara, a paz foi quando houve uma grande briga. Eu pude falar umas verdades para alguns poucos. Vários saíram de lá sem receber as devidas verdades. E aí o grupo foi desfeito. Eu tenho certeza que foi refeito depois um sem mim e sem minha mãe também, mas tipo assim, há paz. E inclusive eu posso falar isso. A minha mãe ter sido afastada desses parentes por eles, por várias questões aí da vida, fez a minha mãe estar um pouco melhor enquanto pessoa.

Marx: Pois é, né. Então você chegou na chave da questão. Tem gente que acha que tem direito de ser deselegante, de ser escroto, de ser chato. Porque se uma pessoa, ela acha que tem direito de criticar a roupa que você veste, o cabelo que você usa, a barba que você usa, essa pessoa é insuportável, essa pessoa não deveria estar fazendo parte da sua vida. Ela não deveria estar sendo alguém que você procura para trocar uma ideia.

Mas a gente é ensinado que tem que aguentar essas coisas, porque é seu parente, porque é seu tio, porque é sua mãe, porque não sei quem, não sei quem. E aí a paz vem quando você entende: eu não tenho obrigação nenhuma de ficar interagindo com esse cidadão chato e insuportável.

Se a origem do que é ruim são essas pessoas que você está falando, e a partir do momento que você se posiciona, você é tolhido, então é porque você está começando a enxergar o que está errado e começou a agir diferente. E a fonte da poluição emocional que a sua mãe tinha era esse povo.

A grande questão que fica é, por que a gente continua insistindo em aguentar gente que não só não acrescenta nada na nossa vida, como são pessoas que nos desrespeitam ativamente, achando que tem direito de fazer isso? Por que a gente continua se preocupando com o que esse povo vai achar ou deixar de achar? Porque a gente foi ensinado e intensamente manipulado emocionalmente a fazer isso.

João Victor: E até a gente sair dessa bolha, é que é um esforço tão gigantesco, porque é uma soma de fatores. É a questão cultural, como você falou, a questão da falta de repertório desses próprios parentes, porque eles não tiveram acesso à terapia como nós temos hoje, tá ligado?

E, cara, eu acho que se dispor a mudar pode ser mais pesado pra eles às vezes. Tipo, dá o benefício da dúvida de tipo: “Nossa, será que eu tô errando com o meu filho? Será que eu tô errando com o meu neto? Será que eu tô errando com o meu sobrinho? Será que eu tô errando com o meu irmão?.” E: “Onde é que eu tô errando?” Porque é um orgulho tão absurdo, que não cabe no planeta, assim, de tão grande que é!

Gustavo: Eu entendo o que você tá falando de dar uma chance, mas é aquilo. A gente dá uma chance, e a pessoa pode só não aproveitar essa chance, não tá vendo a chance, nada.

João Victor: Ou vê e não quer.

Gustavo: Sim, o que a gente pode mudar, somos nós mesmos. E pra poder, pra gente encerrar isso aqui, vocês acham assim que, com tudo aquilo que a gente viveu, agora que a gente tá mais adulto, que a gente tá numa fase mais próxima de constituir a própria família, de levar pra frente. Eu sou casado, tenho meus bichos, não pretendo ter filhos humanos. O Marx aqui já é casado, já tem filho. Você, acho que quem mais pode falar daquilo que você viu e falou: “Tá, eu vi o bastante pra saber que isso ou não eu vou levar pra frente, e isso eu vou”.

Marx: Ah, com certeza. Eu diria que a maioria das coisas eu não vou levar pra frente. Eu quero levar só aquilo que foi bom de fato.

Gustavo: Você citou o seu avô no episódio passado também, como exemplo muito positivo do que você quer fazer.

Marx: É, e assim, hoje eu tenho a consciência de que os pais, eles não podem ficar nesse lugar de achar que o filho tem que ser extensão de quem o pai é. Os filhos são seres humanos individuais que vão seguir caminhos diversos. E a diversidade que um filho pode apresentar em relação àquilo que eu penso, àquilo que eu quero, ela não pode ser uma questão para definir se o meu relacionamento com ele vai ser bom ou não.

Eu querer que o meu relacionamento com meu filho seja bom é uma decisão minha, é um escolha que eu tenho que tomar ativamente, que eu tenho que procurar durante uma vida inteira fazer de maneira espontânea, de maneira que seja uma coisa de vontade própria. Que não é fácil, que é difícil, porque o filho, às vezes ele não vai entender, vai ter imaturidade.

O próprio desenvolvimento de uma criança é muito duro, porque vai ativar gatilhos antigos nossos, porque vai ferir a nossa criança que vai estar ali, querendo tomar o lugar, que vai exigir um controle emocional enorme, que vai, muitas vezes, exigir que a gente lide com a decepção que é inerente à relação humana e não é diferente à relação com o filho.

Porque também pode acontecer de mesmo você dando o seu melhor como pai, tentando ser uma pessoa que oferece o máximo de afeto possível, de carinho, de ser uma pessoa legal pro seu filho, ele pode escolher ir por um caminho que você vê claramente que vai ser ruim pra ele, que vai ser dolorido de ver e não tem o que fazer em relação a isso.

Mas nunca desistir de ser pai, de ser mãe. Porque eu acho que a grande verdade é que a coisa mais dura que eu presenciei não é o fato das relações parentais terem sido complicadas, de terem tido comportamentos ruins, de terem tido situações de conflito, é o fato dos genitores, do pai ou da mãe, desistir do filho em algum momento. Por não querer deixar o seu narcisismo de lado, o seu ego, a sua vaidade de lado, pra continuar amando e demonstrando afeto pelo filho.

E o que o meu avô fez no final da vida dele foi exatamente não desistir, que é o que eu admiro nele, que é o que faz eu ter um carinho gigantesco por ele, porque apesar dele ter sido péssimo em alguns comportamentos, ele não desistiu. E a gente vê que tem certos pais por aí que desistiram. 

João Victor: Porque afeto não é sobre troca, muitas vezes. É sobre você amar aquele filho, aquela filha, aquele irmão, aquela mãe, aquele pai, incondicionalmente fazer de tudo pra que você possa ser uma boa presença na vida dessa pessoa, e através disso, fazer com que a vida desse mesmo parente seja melhor, independente do aspecto, independente do grau, sabe? Eu acho que, na essência, foi isso que o Marx quis transmitir. 

Marx: E a gente tem que procurar se cuidar e se amar mais, né? A gente foi ensinado a se odiar.

João Victor: Com certeza. 

Nicolas: Só dá pra amar alguém se amando, né?

Marx: Mas não é um processo fácil.

Nicolas: Não.

Marx: A família original, muitas vezes, ensina a gente a se odiar. Amar eles e se odiar. E é contra isso que a gente tá lutando hoje.

Nicolas: É, eu acho que, assim, eu não tenho expectativa de criar uma família do modo tradicional. Eu não sou nem pai de pet, nem pai de planta.

(Risos)

Nicolas: Mas eu vejo que… até o lado ruim da família é positivo para você mesmo, porque te constrói. É o que te forma. Tanto as experiências boas quanto as ruins te moldam como ser individual, te moldam como ser humano. Então, mesmo que eu não vá construir uma família, eu tenho consciência das coisas que aconteceram, eu tenho consciência de quem são minhas famílias, de quem é parente, quem é familiar. E eu tenho consciência de não errar o que erraram comigo. E isso eu acho que é o mais importante. Então, eu tô preparado pra esse período político. Não vou me estressar, vai ficar tudo certo.

João Victor: É, às vezes, as influências dos afetos ou da falta deles, quando mais precisamos, pegar muito também, cara. Porque em diversas situações, eu só recebo um afeto num grau maior da minha família quando eu tô passando por um aperto muito grande. Um aperto muito grande mesmo, um problema muito grave.

E eu fico tipo: “Nossa, por que eu não recebo mais disso no cotidiano? Me faria tão bem, seria tão construtivo, seria tão… Potencialmente… Algo que amplia a minha qualidade de vida e o meu conforto dentro da minha própria casa, que às vezes eu não sinto”, como já relatei aqui pra vocês.

Por que eu só recebo um determinado tipo de afeto, um determinado tipo de demonstração de amor e carinho quando eu tô no fundo do poço, no Vale da Sombra da Morte, tá ligado? Isso me pega muito.

Gustavo: É quando eles acham que você tá precisando ou quando eles conseguem ver que você tá precisando.

João Victor: Pois é. 

Gustavo: Mas é difícil pedir um pouco de carinho quando você não tá nessa situação. Eu acredito que eu tive ótimos exemplos do que não fazer. Alguns eu aprendi direto a seguir, outros não. Eu tô com a mesma mulher há quase 14 anos. E nesse momento, ao longo do tempo, na verdade, eu fui vendo em mim os erros que minha mãe e meu padrasto cometiam um com o outro, ou que cometiam com antes de si, e fui tentando mudar. Tipo, ficar calado durante uma discussão, não falar nada.

Eu gastei muito tempo e muita terapia para poder perceber que essa era a forma como meu padrasto lidava com os problemas. Você vai vendo o que eles faziam pra você tentar não errar. Você vai vendo que é preciso ter terapia em determinados momentos da vida, pelo menos, para você se entender, ver o que realmente tá pegando pra você e progredir nisso, pra fazer diferente.

E aí sim, ter uma vida que seja saudável com a família que todo mundo acaba montando de uma forma ou de outra. Seja uma pessoa que você ama e tem um casamento, seja um grupo muito específico de amigos que se dão apoio e suporte com frequência, mas pra você construir suas relações.

O Nicolas falou aqui, querendo ou não é o que construiu a gente. E agora, com isso aí, o que a gente constrói daqui pra frente? A gente já foi construído, agora é nossa hora de construir alguma coisa.

Eu recomendo, e sugiro a todos que deixem nos comentários vivências, relatos, momentos que vocês passaram relativos a isso. Acho que vai ser um episódio bem produtivo nesse sentido.

Então, resumindo, esse episódio foi tão pesado que não vai ter nem episódio na sexta-feira que vem, pra todo mundo conseguir digerir e respirar depois de tudo isso. Então, daqui uns 14 dias a gente volta para um próximo episódio. Falou, por favor, lembre de deixar seus comentários. Eu não vejo sempre os comentários, mas esse eu vou ver e vou dar umas interações lá. Falou, pessoal.

[Vinheta de encerramento]

João Victor: A minha escolha é não ter filhos e não construir família nenhuma. Sei lá, família no máximo, minha futura digníssima esposa, se um dia eu tiver, e se não tiver, foda-se também.

Nicolas: Solteiro disponível!

João Victor: Quieto, Nicolas.

Marx: (Risos)

Nicolas: Instagram, @… Qual é?

Marx: (Risos)

João Victor: Corta, Adriano!

[Beep]

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de estúdio: Marcelo Oliveira | Fotografia: Tiago Abreu | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian