Em abril, o NAIA Autismo promoveu o Fórum de Conscientização do Autismo juntamente com a Prefeitura de Israelândia, no interior de Goiás. Na ocasião, Marx Osório protagonizou uma mesa-redonda com o integrante Bruno Frederico Müller e a neuropsicóloga Neila Sobrinho com base no tema nacional do mês da conscientização do autismo de 2026, Autonomia se constrói com apoio. Agora, essa discussão está disponível no Introvertendo.
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Transcrição do episódio
Adriano: Esse episódio do Introvertendo foi gravado no Fórum de Conscientização do Autismo em Israelândia, interior de Goiás, onde Marx Osório mediou uma mesa redonda com a participação da neuropsicóloga Neila Sobrinho e o doutor em História, Bruno Frederico Müller. Foi debatido o tema “Autonomia se constrói com apoio”.
[Vinheta de abertura]
Marx: E aí meus queridos, boa tarde, tudo bem com vocês? Nós vamos bater um papo aqui com a senhorita Neila Sobrinho e o senhor Bruno Frederico Müller sobre “Autonomia se constrói com apoio”.
Autonomia é um tema muito importante dentro do espectro do autismo, porque, como foi falado aqui mais cedo, o espectro é muito diverso, então diferentes níveis de autonomia podem ser alcançados dentro da vivência autista. Níveis de autonomia que podem ou não chegar ao nível de um adulto que funcione na vida profissional, na vida produtiva, mesmo que as dificuldades permaneçam no dia a dia, boa parte de nós pode chegar a ter vidas profissionais plenas com o suporte e o acompanhamento terapêutico adequado.
Então, para a gente começar o nosso bate-papo, eu gostaria que a Neila falasse um pouquinho a respeito sobre o conceito de autonomia dentro do universo do autismo e como você enxerga essa questão dentro dos seus atendimentos, dos pacientes que você atendeu ao longo da vida e atende.
Neila: Boa tarde. Quando a gente fala em autonomia, em autonomia autista, nós pensamos o quê? Muitas vezes a gente tem aquela leve ação, a gente começa a agir como se a gente precisasse proteger, infantilizar o autista. Vamos pensar no autista adulto. E, na verdade, não é bem assim. Ele precisa de ajuda, sim, ele precisa desenvolver essa autonomia, mas a gente tem que estar orientado, a gente tem que ter um mínimo de compreensão das dificuldades do autista para poder ajudar ele a desenvolver essa autonomia.
Porque muitas vezes a limitação não é falta de capacidade, a maioria das vezes. Vamos falar de nível 1 de suporte. A pessoa nível 1 de suporte, a gente entende-se que tem o cognitivo preservado. Mas, na verdade, a gente entende que o impacto é tão grande quanto em qualquer pessoa que tem nível 1, nível 2 ou nível 3, porque o impacto ali, ele é muito, ele está oculto. A gente não consegue visualizar, porque quando você tem uma pessoa que você precisa ajudar ele a caminhar, ajudar ele a expressar, falar por ele, fazer por ele, é uma coisa. Quando você encontra um autista adulto que ele consegue, ele faz tudo isso, e as pessoas olham e pensam que não tem, não tem dificuldade porque ela não está visível. E aí, entende-se que essa pessoa tem autonomia, que ela está pronta.
E a autonomia vem de onde, gente? Vem da gente ajudar essa pessoa, falar com mais clareza com ela, observar essa pessoa de uma forma que você está ali por ela, mas você não vai fazer por ela. Você vai ajudá-la, você vai observar as dificuldades, as limitações que estão acontecendo no momento, porque existe, tá? E a gente tem que pensar, porque existe a questão sensorial que eu falo, e muitas vezes ela é descartada por várias pessoas, porque eles acreditam que esse impacto sensorial é frescura.
Marx: Muitas pessoas não entendem que as questões sensoriais para nós, elas trazem um cansaço que muitas vezes acaba prejudicando o desenvolvimento de algumas atividades, acaba dificultando a constância em algumas atividades, né?
Um exemplo, se eu vou num lugar onde tem muito barulho de gente conversando ao mesmo tempo, onde tem uma sobrecarga luminosa muito pesada, há chances de eu me esgotar com menos tempo e não conseguir ser mais produtivo por mais tempo, permanecer naquele lugar por mais tempo e acabar tendo que sair “antes da” hora, pode acontecer, já aconteceu várias vezes, e é uma coisa que traz um prejuízo enorme, porque às vezes são demandas importantes, são coisas que têm que ser feitas naquele momento.
Isso é só um exemplo de muitas coisas que podem acontecer por conta de adaptações que a gente precisa, que às vezes ninguém enxerga a importância delas, mas que fazem toda a diferença não só no ambiente de trabalho, mas na escola também, no caso de autistas que estão na idade escolar, a necessidade às vezes de sair da sala pra respirar um pouco, ter intervalo de ficar sozinho. Ficar sozinho pra nós é extremamente importante.
E pensando nessas adaptações menos faladas, você, Bruno, como é que você tem vivido essas questões na sua vida prática? Você consegue enxergar essas adaptações nos lugares onde você tem passado? Como é que tem sido isso? Porque eu sei que na maioria dos lugares a gente tem que…
Bruno: Na maioria dos lugares não tem adaptação para pessoas autistas. É bastante desgastante. Às vezes uma tarefa simples como ir ao supermercado é bastante desgastante. Envolve uma preparação prévia. E chegando lá, fazer tudo correndo pra sair do lugar o mais rápido possível, acho que supermercado é um dos ambientes mais desgastantes para autistas.
E eu uso muito no dia a dia o protetor auricular, que é para abafar ruído. Eu tenho abafador também, mas às vezes ele cobre o ouvido todo e aquece. Eu também tenho sensibilidade ao calor. Então eu acabo optando por usar o protetor intra auricular mais pro tempo.
Marx: E quando a gente fala de autonomia, a gente fala também de suporte. Você comentou que os níveis de suporte, eles têm diferentes necessidades de suporte, mas também podem atingir diferentes tipos de autonomia.
Como é que você enxerga a autonomia para uma pessoa que muitas vezes não vai conseguir chegar no nível de estar num ambiente profissional, que às vezes vai necessitar de um suporte muito maior?
E a importância disso, porque às vezes se observa muito a autonomia nos lugares onde é visto, onde as pessoas estão vendo aquilo que a gente chama de autista de alto funcionamento, que todo mundo vê a parte produtiva, a parte que se destaca, mas tem aqueles autistas que às vezes a autonomia para eles vão ser coisas mais pessoais e que para eles, para a família, é uma coisa gigantesca.
Neila: Tem muita gente que tem autonomia, que é autista e tem autonomia, mas o desgaste para ele manter essa autonomia, às vezes ele é avassalador. Não é verdade? Eu tenho a impressão que é isso.
Porque é muito difícil, às vezes, quando um autista de nível 1, ele tem que lutar para manter ali aquele funcionamento social, emocional, se adequar àquelas situações. Então isso, essa autonomia que a gente pensa que ele tem, é um impacto muito grande pra ele no sentido emocional.
Então quando a gente pensa em autonomia, é importante você conhecer a pessoa e conversar com ela de uma forma que tente resgatar e compreender qual que é, de fato, a necessidade de autonomia dele. Porque a gente percebe o quê? Às vezes a pessoa não é, ele não tem uma autonomia funcional das necessidades básicas. E não é porque essa pessoa não tem, ele não está funcional no momento, com autocuidado, e ele precisa de mediação, ele precisa de alguém estar ali com ele pra poder ajudar ele a caminhar, pra ele enquadrar num processo de maior independência.
E pensem em autonomia no sentido de quê? Às vezes a gente tem que pensar que quando você vai conquistar, ou desenvolver, ou colocar funcional essa autonomia, a gente tem que entender também qual que é a necessidade da pessoa, porque às vezes o autista tem dificuldade de entender que ele não tá conseguindo fazer alguma coisa.
Marx: Que é a própria falta de autopercepção do próprio autista em relação às suas limitações e a própria confusão que se faz de inteligência versus funcionamento. Que na verdade volta àquela minha pergunta lá de: o autista que tem o cognitivo preservado, que tem uma inteligência alta, ou que tem uma inteligência alta, ele vai ser extremamente acima da média em muita coisa, mas às vezes ele não vai funcionar no básico, isso foi comentado por Beatriz aqui de manhã.
E tem aquele autista que tem um cognitivo que não é acima, ou que têm deficiência intelectual, e muita gente acha que autonomia é uma palavra que não se aplica a essa pessoa.
E nesse sentido, eu faço aquela pergunta, até onde esse autista ele pode ser autônomo na sua vida pessoal, e para quem é mais importante isso? Para a sociedade que esperava que ele fosse uma coisa e ele não conseguiu chegar lá, ou pra ele ter uma qualidade de vida, ter uma dignidade e se sentir uma pessoa que consegue fazer alguma coisa por si e pelos outros, né? E fazer a família entender também qual é a real importância disso, porque eu vejo que há muita confusão.
Neila: É uma pergunta bem complexa, e a gente tem que pensar o seguinte: muitas vezes você tem a necessidade que aquela pessoa que tá ali com você funcione de uma forma, mas será que você parou pra perguntar pra ele que ele tá pronto pra funcionar daquela forma? Da forma que a sociedade espera?
Mas é importante também a gente que está do lado de cá tentar entender qual é a necessidade dessa pessoa. Será que ele está percebendo que tipo de autonomia que ele tem que ter no momento? Então isso tem que ser trabalhado, a gente tem que buscar naquele autista a compreensão dele de que estágio que ele tá e o que ele precisa melhorar ou evoluir. Por ele, não por nós.
Marx: Pensando na importância do papel da família, né? Porque você fala assim, o autista tem que melhorar por si, o autista tem que se perceber, isso é importante, mas o papel da família em ser esse suporte, em serem as pessoas que vão fazer ele conseguir se desenvolver não pode ser ignorado, é super fundamental e muitos de nós muitas vezes não teve a oportunidade de ter uma família que realmente se dispôs a pagar o preço e ir até o final pra conseguir melhorar o nível de autonomia do autista, e eu sei que você deve lutar muito com esse tipo de coisa nas suas vivências como terapeuta. Mas eu queria que você Bruno falasse um pouquinho sobre isso também. Como você vê a importância da família no desenvolvimento da autonomia de um autista?
Bruno: O apoio familiar é fundamental. Se a família não tem consciência, não estimula a autonomia do autista, essa autonomia não vai se desenvolver. Você pode ter aquela família que nega, rejeita que o filho, no caso, seja autista, e isso vai ser prejudicial para ele, mas você também pode ter aquela família que super protege o autista, e aí essa superproteção também é prejudicial. Então tem que encontrar um equilíbrio entre essas duas posições, a negação e a superproteção.
Marx: Bom, e pensando na questão da autonomia para a vida diária, você trouxe esse assunto, eu vejo que a disfunção executiva, que é o que causa muitas vezes a dificuldade do autista de conseguir fazer as atividades de vida diária, de conseguir se cuidar, de conseguir cuidar da própria casa, de conseguir constituir uma família própria, de conseguir sair de casa pra viver a própria vida. Até que ponto você vê que é possível chegar nesse ponto? Pelas experiências de pessoas que você atendeu ao longo da vida.
Neila: Como terapeuta e como pessoa também, eu não acredito que as coisas são impossíveis. Às vezes o impossível é alcançar algo que a sua capacidade às vezes não atinge por questões que não é por falta de capacidade, mas é por falta de, como o Marx mesmo falou, vamos pensar nas funções, nas disfunções executivas. Uma pessoa que não consegue planejar, organizar e visualizar às vezes algo por falta de experiência ou de vivência.
Porque como o Bruno falou, é importante o papel da família, mas às vezes a família ou ela segura demais ou ela joga ao vento. Vai lá, faz, tá, mas como que eu vou fazer? Eu preciso de um passo a passo, eu preciso de uma orientação, eu preciso de um norte.
Então às vezes na própria sala de aula, ou em outros, na terapia, e dentro do contexto familiar também, a gente precisa que as pessoas que estão do nosso lado, o autista precisa, a pessoa que está do lado dele, que ela consiga visualizar isso e ajudar ele. E muitas vezes essa pessoa não consegue. Por quê? Porque é difícil pra ela entender, ela não pensa como autista. Ela não vê como ele, então não tem sentido pra ela. Assim como para o autista também não tem sentido, certas exigências que a sociedade faz, que é imposta para ele, que não tá tendo sentido ali.
E a gente vai pensar no quê? É muito importante a gente entender que o autista que tá não conseguindo enquadrar dentro dos padrões, desses cuidados pessoais, da situação de AVD mesmo, ele não tá regulado, ele está desregulado. E pode ser outras questões que aconteceram, que estão acontecendo em volta, e que atrapalham e afetam muito nas disfunções executivas e nas funções também.
Então assim, a gente vai pensar o quê? Essa pessoa precisa, por mais que ela seja capaz e cognitivamente, ela tem as cognições preservadas, mas ela também precisa naquele momento se auto-organizar. Eu acho que é super possível. Só que a gente tem que entender o que tá acontecendo, que tá levando aquela pessoa a não chegar a essa autonomia básica que todo mundo cobra.
Marx: Quando a gente fala de diagnóstico tardio, acaba que isso se torna ainda mais uma realidade. Eu tive diagnóstico com 28 anos já, tem uns 3 anos mais ou menos. Uma das razões pelas quais a família muitas vezes não entende que a dificuldade do autista, que não tem um diagnóstico ainda, que oficialmente não é autista, ele não conseguir avançar na vida, ele não conseguir subir as escadinhas da vida, não conseguir estar fazendo as coisas no ritmo que a maioria tá fazendo. As dificuldades sociais, a dificuldade de ter sucesso na vida pessoal, na vida amorosa, no trabalho, etc. Muitas vezes algumas famílias tomam a decisão de jogar a pessoa ao léu, igual você falou, para que ela meio que vire normal.
Acaba tendo essa impressão errada de que é porque a pessoa não quer, porque ela é medrosa, porque ela não quer enfrentar a vida, porque ela quer ficar vivendo dependendo da família a vida toda. E muitas vezes é porque ele precisa de ferramentas, precisa de um suporte para passar por essa transição de entrar na vida adulta.
Muitas das necessidades que são específicas do autista adulto, de nível de suporte 1, elas ainda são tratadas como coisas desnecessárias, como coisas que não são importantes, como coisas simples, dá-se uma simplicidade excessiva a certas dificuldades que a gente tem. Mas são exatamente essas dificuldades que fazem a gente não conseguir viver com qualidade e não conseguir atingir os objetivos no tempo, e entre essas tá atrasado em relação à maioria. Porque nós temos o nosso próprio relógio também de funcionamento das coisas. Às vezes a capacidade tá aqui, mas a velocidade, o ritmo de fazer as coisas tá aqui. E aí nesse ritmo mais devagar, porque o processamento é mais lento, comigo acontece assim também. A gente vai chegar lá, só que num tempo diferente. E muita gente não entende, acha que não consegue entender por que que acontece.
É porque o autismo prejudica áreas do cérebro relacionadas com a função executiva, com você conseguir pegar o que tá aqui e colocar em prática, em fazer as coisas, ter a iniciativa de fazer as coisas. Tudo isso em maior ou menor grau acaba sendo prejudicado. E quantas vezes nós não nos pegamos sendo questionados por aí por conta disso?
Uma das nossas lutas atualmente na divulgação do conhecimento sobre autismo na vida adulta é justamente a galera entender que a gente vai conseguir ter autonomia, vai conseguir fazer muita coisa, vai conseguir fazer coisas interessantíssimas, mas se o básico, a dificuldade do básico não for respeitada, se a limitação da coisa que é aparentemente muito banal não for respeitada, a gente não vai conseguir. E é papel da sociedade entender isso e dos profissionais também que atendem o autista adulto. Entender a necessidade do adulto muitas vezes ela vai estar lá no feijão com arroz bem feito da vida e a compreensão de coisas que são muito mais triviais ou automáticas para as pessoas típicas.
Você já se pegou muitas vezes sendo cobrado por coisas que são triviais para as pessoas típicas e muitas vezes se sentir culpado por não conseguir, mesmo sabendo o que tem que fazer, mas o corpo não vai, que é a limitação que a gente tem?
Bruno: É um problema recorrente, acho que para toda pessoa autista, essa de ter que lidar com a pressão e com a expectativa dos outros, principalmente da família, de performar, digamos assim, de alcançar todas as metas no tempo certo, nem sempre acontece.
No meu caso, eu tive uma vida acadêmica brilhante, mas o resto da vida não acompanhou, pessoal, profissional. As pessoas perguntavam para mim “mas se você é tão capaz, por que você não consegue?” E eu não sabia responder, eu também não tinha diagnóstico ainda. Eu achava que era porque eu tinha depressão ou porque eu tinha algum transtorno de personalidade. Até que uma pessoa falou para mim que talvez eu tivesse autismo e foi aí que eu fui pesquisar a respeito e eu vi que muita coisa batia.
E aí a gente tem que ainda passar depois pela rejeição das pessoas que estão acostumadas com um determinado perfil de autista e quando você chega para elas e mostra o seu laudo dizendo que você é autista, elas vão dizer: “ah, mas você não é autista, esse seu diagnóstico foi feito errado”.
E vem gente falar para você que o autista nível 1 só sofre com um pouco de ansiedade social, não é um caso que demanda muito suporte ou então é porque são pessoas que estão atrás dos benefícios e aí vão atrás do diagnóstico de autismo e aí seria por isso que o autismo nível 1 está crescendo tanto na sociedade e entre pessoas adultas. Na verdade é porque o conhecimento sobre autismo avançou bastante e pessoas que antes não recebiam diagnóstico agora estão recebendo.
Neila: Aproveitando que o Bruno pontuou essa questão da luta do diagnóstico tardio, gente, você vê quantas coisas que foram, porque ele faz um tratamento desde cedo, Bruno, que você busca ajuda. Porque para algumas coisas ele era perfeito, brilhante, e para outras coisas, coisas básicas da vida, não era.
E por que que a gente, vamos pensar assim, pensa nesse autista criança que não era olhado como autista. Aí vem um ambiente familiar, pode ser que tenha uma mãe controladora, uma mãe muito cuidadosa, uma casa que cuida muito, que faz tudo, impede essa criança às vezes de criar ferramentas, gente, para poder chegar nessa fase, ele poder amenizar o impacto.
Então as pessoas que acham “ah, a terapia ela vai ajudar”, né, ela vai ajudar, mas ela não vai, não tem cura. Existe uma busca de funcionalidade onde vai diminuir o sofrimento por certas coisas, e tem momento que, mesmo eles tendo as ferramentas, vai ser muito difícil para eles, porque é um desgaste muito grande. Quando a gente pensa isso, nesse funcionamento neural de um autista, tudo dele é 10, 15, 100 vezes maior do que é para nós, em várias áreas. Tem áreas específicas aqui que o impacto de certas coisas são muito maiores.
Pega um autista com hiperfoco, o rendimento dele é maravilhoso, não é meninos? Quando vocês estão no… é totalmente diferente, por isso que eles têm sucesso em muitas coisas. Então a gente tem que ter cuidado e observar que essa pessoa, ele precisa ser ajudado e orientado, não porque ele não é capaz, mas é porque ele precisa, às vezes ele não desenvolveu. Todo mundo fala que autista é ingênuo, pode ser que ele demora um pouco mais para pegar algumas coisas que a gente pega com muito mais rapidez, e pode ser que você precisa mostrar isso para ele. Mas isso não é falta de capacidade.
Marx: Às vezes é falta de repertório, né?
Neila: Isso mesmo, falta de repertório, por quê, né Marx?
Marx: Porque como ele não consegue se integrar socialmente, ele demora muito mais para conseguir aprender os repertórios sociais de quem já está integrado em grupo desde cedo.
Neila: A construção, gente, de vivência, ela vem de experiências. E muitas vezes é negado para aquela criança autista, porque mesmo que não seja autista diagnosticado pequenininho, mas ele vai. Ele é muito mais lento, você percebe ali a lentidão de certos contatos, tipo de interação. “Ah não, mas ele só não funciona na escola, lá com o coleguinha ele funciona bem, ele vai na festa de aniversário, ele brinca”. Ele brinca, ele brinca com quem? Quem que buscou ele para brincar? Porque às vezes a gente pega um padrão ali e faz aquele tipo, “não, mas fulano não parece autista, como os meninos mesmos falam pra mim, que eles querem morrer.” E às vezes as pessoas viram pra eles e falam assim: “você não tem cara de autista”. E autista tem cara?
Marx: Aproveitando até o gancho da fala do Bruno sobre essa coisa que viralizou na internet sobre falar que autista fica querendo se fazer de autista para conseguir benefícios, regalias, como se os direitos da pessoa com deficiência fossem benefícios e não direitos fundamentais garantidos na constituição brasileira e que são importantíssimos para dar condições daquela pessoa conseguir viver com qualidade.
Todos os direitos que a gente tem na lei Berenice Piana que equipara o autismo à deficiência são para permitir que a gente consiga viver em sociedade, são as adaptações para que a gente consiga acompanhar o que a sociedade quer que a gente faça e pra dar um pouco de dignidade pra nós e pras pessoas com deficiência em geral. Mas o capacitismo já começa justamente quando você quer questionar um direito que uma pessoa tem baseado no que você acha que deveria ser a deficiência e você não tá vendo.
O autismo é uma deficiência invisível e então a maioria dos prejuízos que a gente apresenta vai aparecer na convivência, na intimidade ou num contexto onde a gente vai ser exigido socialmente mais e vai ficar difícil de forçar um mascaramento social ou até mesmo a sobrecarga, o cansaço acaba trazendo as limitações de um jeito mais visível.
Um autista sobrecarregado todo mundo percebe, só que muitas vezes quando é uma criança de nível de suporte maior, a desregulação dela é ficar gritando, é ficar batendo a cabeça na parede, é ficar correndo pra lá e pra cá. Às vezes o do adulto é se fechar, é ficar sem conseguir se comunicar com ninguém, é falar coisas muito agressivas, é ser muito sem filtro.
Nas crises de meltdown às vezes falar demais, falar o que não deve e aí às vezes a pessoa vai levar pro coração achando que “ai, essa pessoa fala que é autista, mas ele falou isso, isso aí é uma pessoa ruim, é uma pessoa maldosa, é uma pessoa sem educação”. E na verdade ele só tá desregulado. E quando ele não está desregulado, ele tá em condições normais de temperatura e pressão, ele é uma pessoa tranquila, uma pessoa legalzinha que não fica arrumando confusão.
Então saibam identificar quando um autista está desregulado, porque quando um autista está desregulado, não vai ser bonitinho, não vai ser legalzinho, vai ser ruim. Assim como a crise do autista que não é verbal vai ser uma coisa mais física, porque como ele não consegue se expressar verbalmente, ele vai se expressar através do corpo, ele vai usar o corpo para se expressar. E tudo isso é expressão de quê? De energia que tá ali acumulada e precisa ser descarregada em algum lugar, de sobrecarga, ele chegou no limite.
Neila: Muitas vezes não é só nessa ação de às vezes gritar ou se esconder ou se esquivar das coisas, não. Vamos pensar, praticamente todos nós também isso acontece. Um autista que de repente ele começa a não ter cuidado pessoal, ele começa a não escovar o dente, não começa a tomar banho, ele não começa a se alimentar direito, ele passa do tempo ali e aí as pessoas falam: “ah, ele tá com preguiça”, “ah, ela tá descuidada”, “ah, tá com depressão”, às vezes ele tá numa sobrecarga mesmo. Então tem vários sinais.
A gente tem que lembrar que quando a gente fala em autismo, a gente fala de transtorno do neurodesenvolvimento. E quando a gente pensa, a gente tem que entender que são vários, tá dentro do quê? É o espectro, são várias coisas, não existe uma definição única. Porque muitas vezes o diagnóstico do autista, ele não vem dos testes que nós aplicamos, não. Ele vem dessa correlação de vida dele, de comportamento que ele tá tendo, de testemunho da família, de experiências não vividas, de queixas. E você vai fazer uma análise clínica.
Uma das coisas que os meninos reclamam muito, tem gente que tem medo. Até ontem foi, essa discussão fez palco ontem, ela tava na roda de conversa ontem dos meninos, com os autistas adultos, que o quê? Muitas vezes as pessoas não querem contato com o autista, ele incomoda. Por que ele incomoda? Porque você não sabe que tipo de reação que ele vai ter. E o conhecimento básico que tem é que autista desregula, que autista só grita, que autista vai dar… Isso acontece. E as pessoas têm medo. Então não é só autista que tem medo do novo, não. Nós também temos, né? Todo mundo tem.
Marx: Então eu gostaria de agradecer a atenção dos senhores. A gente fica muito feliz de estar aqui hoje, compartilhar um pouquinho das nossas vivências aí na comunidade do autismo e na vida em geral. Como bem disse a Neila, o conhecimento é o que vai nos fazer conseguir lidar com o autismo de uma maneira menos sofrida, de uma maneira mais funcional e mais leve. Entendendo que nós temos as nossas limitações e nunca vamos ser como o mundo gostaria que a gente fosse, mas a gente pode ser melhor, funcionar melhor do que a gente já foi um dia. E é sobre isso. Muito obrigado.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Geraldo Neto | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

