Uma carreira profissional, um relacionamento com alguém que faça sentido, quem nunca teve escolhas que determinaram grande parte da vida? No último episódio deste semestre do Introvertendo, o apresentador Marx Osório se junta a Bruno Frederico Müller e Izabella Pavetits, e ao lado do convidado Ágabo Carvalho, discute sobre os impactos de escolhas da vida sendo autista.
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Transcrição do episódio
Marx: E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e esse é o podcast Introvertendo, um podcast feito por autistas, e o tema de hoje é escolhas da vida.
Bruno: Eu sou Bruno Frederico Müller, sou historiador e tenho péssimo histórico em escolhas da vida.
Ágabo: Eu sou o Ágabo, arquiteto e professor.
Izabella: Eu sou a Izabella e escolher o que eu vou falar no início do episódio é sempre muito difícil.
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[Vinheta de abertura]
Marx: Escolhas são importantíssimas na vida de todos nós. A nossa vida é basicamente pautada em escolhas desde o começo até o final. E à medida que nós vamos crescendo e nos tornando adultos e ganhando mais responsabilidades, as consequências das escolhas que fazemos têm um impacto ainda maior em cima das nossas vidas.
E pra gente começar o nosso bate-papo de hoje, eu gostaria de lançar a pergunta número um da nossa discussão, que é sobre quando a gente começa a perceber o impacto das escolhas na nossa vida. Em que momento o peso das escolhas começa realmente a tomar uma proporção real nas nossas vidas? Em que momento a responsabilidade das escolhas começou a aparecer para os senhores?
Bruno: Eu acho que o peso da responsabilidade das escolhas da vida começa a aparecer quando aparecem os cabelos brancos. É que você percebe que aquilo que você fez no passado não necessariamente você vai ter a oportunidade de repetir no futuro.
E que o futuro é cada vez mais estreito, né? Porque as etapas da vida vão passando, a morte vai se aproximando e não vai dar tempo de fazer tudo aquilo que você gostaria de fazer. E às vezes alguma coisa que você gostaria de fazer requeria um esforço, uma dedicação que você já deveria ter empenhado e que você não fez. Então são coisas que você vai ter que deixar de lado e se concentrar em novos objetivos, novas metas.
Marx: E pensando em escolhas que podem definir toda a sua vida para sempre, né? Por exemplo, a escolha de qual carreira seguir, qual faculdade fazer. Em que momento vocês estiveram diante de escolhas como essa? Que eu vejo que a sociedade muitas vezes coloca um peso muito grande em cima disso para pessoas muito jovens, às vezes antes dos 18 anos, de ter que escolher uma profissão, ter que escolher uma faculdade. E muitas vezes o peso de não poder errar, de ter que acertar obrigatoriamente, isso é uma coisa muito, eu pelo menos acho muito ruim. Como é que foi isso para vocês?
Izabella: Eu acho que a forma com que nós, de maneira geral, somos ensinados a lidar com as escolhas contribui bastante com o fato de muita gente não saber fazê-las e não saber lidar com as consequências. Porque pelo menos no meu ponto de vista, você faz uma escolha e você tem que lidar com a responsabilidade da sua escolha necessariamente.
Às vezes falta muito preparar desde a infância mesmo, porque eu, por exemplo, tive muita dificuldade de fazer escolhas desde que eu era pequenininha. “Ah, mas que escolha você tinha que fazer?” Quando eu era criança, beleza, eram escolhas bestas, mas mesmo nessas coisas, tipo: “ah, você quer comer feijão ou você quer comer macarrão?”. Eu não conseguia escolher qual dos dois eu queria e eu ficava tão ansiosa a ponto de entrar em crise porque eu não conseguia escolher o que eu queria comer.
Então eu acho que às vezes se tivesse, por exemplo, meus pais ou alguém que tivesse ele responsável, pudesse falar assim: “calma, se você escolher alguma coisa agora e não gostar, depois da próxima vez você escolhe melhor, você fez o seu melhor nesse determinado ponto”. “Ah, beleza, mas isso é pra feijão ou macarrão?”. Mas você pode tentar, você ensina pra criança, ela vai aprendendo um mecanismo para enxergar melhor como lidar com essas questões conforme ela vai crescendo.
A gente coloca muito essa pressão que você mencionou nos adolescentes, até um pouco antes hoje em dia do ensino médio: “ah, mas qual profissão que você quer?”. Isso em mim já caía como: “cara, eu preciso escolher isso e eu não vou poder trocar nunca se eu fizer uma decisão errada de qual faculdade, eu vou ser uma fracassada e vou ter que ficar trabalhando com isso pro resto da minha vida porque foi o que eu escolhi”. E não é assim, sabe? Não é porque eu escolhi errado uma vez que eu não posso ir lá e refazer essa escolha.
Beleza, tem escolhas, realmente, você errou na escolha, às vezes você descobre isso pelas consequências, às vezes pensando, às vezes em terapia só, mas tem certas escolhas que você pode fazer de novo. Você não precisa ficar se cobrando e se martirizando pra sempre. Eu acho que até as escolhas que você vê que foram erradas depois, é preciso que cada um faça esse processo de autorreflexão porque às vezes foi o que você conseguiu na época.
Você não fez isso por incapacidade, sei lá, porque você é uma falha de caráter, você é um covarde ou o quê, sei lá, às vezes você leu a situação errada e bem de muito cedo isso poderia ser trabalhado, sabe? Tipo, você tem um caminho A, um caminho B, às vezes inúmeros caminhos e eles cada um levam para um resultado diferente.
E pra mim isso sempre foi um motivo de ansiedade muito grande, sabe? De você ter um milhão de resultados possíveis. Tem gente que fala: “Ah, não, isso é bom porque você pode ter uma gama de opções para escolher”. Mas, se você me der mais opções, eu vou ficar mais nervosa e mais difícil vai ser.
Marx: Eu vejo assim que a partir do momento que isso se torna uma fonte de sofrimento, é porque houve algum tipo de introdução errada desse tipo de coisa por parte das pessoas que nos criaram, do contexto familiar. Porque, como eu falei naquela hora, o peso que é colocado em cima disso por algumas culturas familiares é um negócio muito absurdo.
Porque da onde vem essa coisa de que eu preciso acertar na minha escolha, eu não posso errar, eu não posso escolher errado porque eu vou estar perdendo tempo, porque eu vou estar gastando dinheiro à toa, porque tá sendo investido, porque vai fazer uma faculdade e desistir.
Eu tô falando isso aqui porque eu passei pela experiência de desistir de três faculdades por não conseguir me adaptar a elas. E eu não tinha diagnóstico de autismo ainda, tinha uma dificuldade social enorme e achavam na época que era simplesmente porque eu não queria realmente fazer as coisas, porque eu não tava me forçando a fazer.
E na verdade é porque eu precisava de um suporte, de um acompanhamento que não tava tendo. E também porque, imagina, você terminou o ensino médio, você tá ali com 16, 17 anos. A galera quer que você faça a escolha da sua vida com 16 anos. Qual é a maturidade que uma pessoa de 16 anos tem pra escolher uma carreira? E por que não ter o direito de errar na escolha e rever a rota? Eu vejo que essa pressão social é uma pressão social muito desproporcional, muitas vezes, diante da pessoa jovem.
Mas para além dessas escolhas da vida profissional e da vida mais pública, existem escolhas que são relacionadas também com coisas que a gente faz com a gente mesmo. Escolha de que tipo de pessoas conviver, escolher muitas vezes começar a usar algum tipo de substância que vai te gerar um vício, na adolescência isso pode acontecer, para poder se enturmar em certos tipos de rolê e se sentir pertencente. E é uma escolha que muitas vezes você vai ter uma consequência que não vai ter como reverter depois.
No contexto do autismo, eu vejo que isso acaba ganhando um impacto ainda maior pela falta de percepção que o autista tem de enxergar a real consequência das escolhas ou de não escolher nada, ou da própria omissão, né? E pensando que esse embate entre a vida real e o que acontece aqui dentro e as expectativas que a gente cria em relação ao que pode acontecer e a própria imprevisibilidade do que pode acontecer por boas escolhas e más escolhas, né? Quem nunca se perguntou assim: “e se eu tivesse feito diferente aquilo?” E ficar se culpando e se martirizando por isso? Se vocês têm escolhas que vocês fizeram das quais vocês se arrependem?
Bruno: A escolha profissional, eu acho que… Assim, eu não me arrependo do ponto de vista da afinidade intelectual com aquilo que eu me formei, que é o curso de História. Porém, em termos de opções profissionais, eu sinto que foi uma escolha muito errada. Como historiador, eu tinha a opção de seguir a vida acadêmica, que era a minha ambição, ou então ser professor.
Depois, com o tempo, eu fui percebendo que as duas possibilidades na minha condição de autista não eram as mais favoráveis, porque mesmo na academia, onde você supostamente vai dedicar muito tempo escrevendo e estudando, pra você galgar espaço na academia, você tem que ter muito traquejo social.
Marx: Sim.
Bruno: Então, por esse motivo, eu não digo que eu me arrependo, mas eu acho que foi uma escolha não muito favorável.
Marx: E quais foram as dificuldades que você sentiu quando você tentou a carreira acadêmica e viu que não funcionou, além da dificuldade de fazer o networking, do social?
Bruno: Eu senti falta de uma orientação mesmo, porque eu não tinha ideia do quão importante era esse traquejo social para seguir a carreira acadêmica, e ninguém me falou isso. Embora eu também seja bastante teimoso, isso também é uma característica do autismo. E, nessa minha teimosia, eu não sei se eu iria escutar alguma pessoa que tentasse me aconselhar.
Marx: Naquela época, né?
Bruno: Isso.
Marx: E a tal da rigidez, ela é punk, porque às vezes aparecem pessoas na nossa vida que tentam nos ajudar a tomar boas escolhas, né? São mais experientes, que realmente estão vendo que você tá indo por um caminho que vai ser mais difícil, mas a gente não consegue ouvir.
Eu me lembro de várias pessoas que eu conheci que tentavam me mostrar o caminho das pedras, mas eu simplesmente não queria escutar, falar: “não, você tá errado, isso não tem nada a ver”. “Eu quero fazer do meu jeito, isso aí”, “ah, por que eu tenho que fazer assim? Por que todo mundo tem que fazer assim?” E tal, e isso é uma coisa que fecha portas, né? E o tempo vai passando.
E aí a gente tem um outro lado da moeda, que é se uma pressão excessiva para o jovem escolher algumas coisas muito cedo é exagerada, essa negação de querer seguir o fluxo das coisas também, ficar postergando muito ou simplesmente não aproveitar algumas oportunidades que a vida coloca pra gente é uma coisa que traz um atraso também, que é um prejuízo que o autismo me trouxe, né?
Eu demorei muito pra conseguir enxergar o que eu precisava fazer pra conseguir alavancar na vida profissional, e talvez um dos maiores prejuízos do autismo na minha vida foi justamente nesse ponto. A experiência social é muito mais importante do que a gente achava, né? Como foi as experiências sociais no começo da trajetória profissional ou estudantil de vocês? E como elas influenciaram nas escolhas que vocês fizeram?
Ágabo: No meu contexto, na minha vivência, ter recebido o diagnóstico tão tardiamente me fez questionar até mesmo a espontaneidade das escolhas que eu fiz na minha vida frente a essa necessidade de performar uma expectativa de outras pessoas e saber diferenciar aquilo que de fato eu queria ou se eu queria aquilo, porque outras pessoas também queriam aquilo.
Eu tô nessa fase agora, com 31 anos, em que eu tô questionando todas as escolhas que eu fiz até hoje e todas as relações sociais que eu construí até hoje, se elas de fato partiram de uma coisa muito de mim ou se elas partiram dessa necessidade de performar diante de uma coisa que eu sabia que era diferente, mas que eu não conhecia, né?
Marx: E essa crise dos 30, eu tô passando um pouco por ela também.
(Risos)
Marx: A gente tem a mesma idade, né? Então volta e meia eu me pego pensando também nestas coisas sobre: “Ah, se eu tivesse feito assim, teria sido melhor”, porque a gente fica julgando o nosso eu lá de 10 anos atrás com a nossa experiência, a cabeça de hoje.
Inclusive a minha psicóloga, ela vive brigando comigo por causa disso, falando: “Você não pode julgar o Marx de 2015 com a cabeça do Marx de 2026”, porque ele não tinha vivido as coisas que você viveu e as más escolhas que você tomou influenciaram na visão que você tem hoje.
A própria experiência, ela é resultado de más escolhas também. Então acaba que essa vontade de querer fazer tudo certinho, perfeito, bonitinho, de maneira retrospectiva acaba também sendo uma fonte de sofrimento psicológico para o autista no momento atual, né?
Izabella: Pois é, eu também tenho 31 anos e passo, mas não só desde a crise dos 30, desde sempre. Tem essa questão de ficar reavaliando todas as escolhas que eu fiz, depois que eu fiz, e geralmente causa sofrimento mesmo. Tem poucas escolhas que eu tomo que depois eu falo: “Não, isso aí foi legal, massa”. A maioria fica: “Ah, mas será que era isso que eu queria? Será que eu deveria ter feito outra coisa? Será que era o que eu queria ou foi o que os outros falaram que eu deveria fazer? Será que esses outros realmente estavam pensando em mim e não neles mesmos?”.
Então é complicado esse autojulgamento, porque eu sou da mesma opinião que a sua psicóloga. Não adianta nada eu ficar julgando a Izabella de 16 anos que foi fazer Direito mesmo já sabendo que ela ia odiar, que ela não queria fazer Direito, mas ela foi porque ela não conseguia escolher outra coisa. Ela sabia que ela não era de biológicas nem de exatas, e quando você é de humanas e você não sabe o que você quer da vida, ou você faz Direito ou Administração. Eu, números, não.
Então acabei fazendo Direito. Mas nessa época eu já sabia que eu não queria fazer Direito. Então eu acabei não escolhendo não escolher, o que também, omissão também é uma escolha. E foi péssimo, porque eu odiei a faculdade desde o primeiro momento, conforme eu já esperava e depois de… Fiquei lá dois anos ainda, porque eu teimei de ficar lá, eu falei assim: “Não, eu escolhi ficar aqui, agora eu vou ficar aqui”.
Então não consegui nem naquela época me perdoar. “Você fez essa… Tomou essa decisão questionável, agora viva com ela”, como se eu não pudesse trocar de faculdade. Mas lá em casa essa indecisão, principalmente no campo profissional, é tão grande que meu irmão, meu irmão mais velho, eu tenho três, não, nós somos três, eu tenho um mais velho e um mais novo. O mais velho não conseguiu escolher, então ele entrou em duas faculdades ao mesmo tempo, uma na PUC e outra na UFG, e eu acabei trocando e meu irmão mais novo acabou trocando também, então é todo mundo meio bitolado na hora de escolher as coisas (risos).
Mas eu acho que a gente precisa ter um pouco mais de empatia com nós mesmos, porque era o que dava na hora, sabe? Não necessariamente você tem que ficar julgando tanto as coisas que se passaram, porque hoje eu sei que se eu tivesse feito diferente… Mas às vezes, se eu tivesse ido direto pro Jornalismo, por exemplo, que eu saí do Direito e fui pro Jornalismo, eu também não acho que jornalismo foi uma boa escolha.
Eu acabei dando certo profissionalmente por um acaso assim, mas tipo, se eu precisasse fazer entrevistas como eu fiz várias, eu ia continuar sendo reprovada, porque o jornalismo tem a mesma questão, só que de outra forma que o Bruno mencionou, do relacionamento social, você fazer networking, ter contato com as pessoas e saber onde buscar informação, e eu não tenho essas habilidades.
E pra você ser um profissional, pelo menos na minha cabeça, no nível profissional que eu gostaria de chegar, necessitaria de habilidades que eu acho que eu não consigo desenvolver. Porque a gente pode ir desenvolvendo algumas coisas com terapia e tal, mas autista é autista, não tem como eu simplesmente criar uma nova personalidade para ser a Izabella jornalista.
Marx: É, então a falta de experiência pesa bastante nas escolhas que hoje podemos considerar como escolhas ruins. Mas eu vejo que o autismo também contribui em algumas questões. E a junção dessas duas coisas acaba gerando essa sensação de que poderia ter sido diferente.
Ao mesmo tempo, a gente também tomou decisões boas, né? Nem todas as decisões da nossa vida também foi tudo ruim, foi tudo uma merda. E eu acho que a gente também precisa pensar um pouquinho nas decisões que foram boas, né?
E pensando nisso, eu me recordo quando eu fui fazer a minha terceira graduação, que é a graduação que eu concluí, que é Farmácia. Depois de desistir de duas graduações, eu cheguei à conclusão de que eu tinha que escolher alguma coisa que me desse a possibilidade de me encontrar lá dentro e não precisar mudar de novo. Que fosse mais amplo, e Farmácia é uma área muito ampla, né?
E foi uma decisão boa, porque eu consegui encontrar o meu lugar dentro do curso e muita gente faz isso. Lá eu descobri que muitas pessoas vão pra lá por estarem indecisas e por terem que estar fazendo alguma coisa. E essa pressão de estar fazendo alguma coisa, ela é muito da nossa cultura produtivista que a gente tem na sociedade, né? Que você precisa estar… O jovem tem que estar desempenhando alguma coisa, tem que estar trabalhando, tem que estar estudando. Se ele tá parado, tá errado.
Logicamente que você estar parado sem perspectiva não é bom, principalmente se você tem condições de estar fazendo alguma coisa. É bom pra sociedade, é bom pra saúde mental, para saúde física. Mas você estar fazendo só por estar fazendo, sem ter convicção, sem ter uma preparação, sem ter suporte…
Aí você imagina, você fazer uma graduação na UFG sem ter diagnóstico, com dificuldades sociais absurdas, arrumando problema com um monte de gente, tem dificuldade de permanecer nas aulas e ainda assim achar que você precisa performar e ter um desempenho que seria compatível com uma pessoa típica, né? Então pensar nessa pressão psicológica e nesse mundaréu de dificuldades que a gente enfrentou, vocês têm decisões boas que vocês tomaram, que vocês se orgulham delas?
Ágabo: Eu tenho. Eu acho que assim, a gente, enquanto autista, acho que não só enquanto autista, mas enfim, enquanto pessoas, a gente precisa entender que nossas escolhas nem sempre, elas, mesmo as melhores escolhas, elas nem sempre vão preencher todas as nossas expectativas. E aí cabe a gente filtrar aquilo que é bom, daquilo que é ruim e ver como a gente se vê nesse meio.
E entender que muitas dessas escolhas são escolhas de sobrevivência. São escolhas que vão permitir a nossa autonomia e a nossa sobrevivência e que, mesmo que elas não tenham sido tomadas com a maturidade necessária para você ter tomado ela naquele momento, elas te permitem ter algum ganho. Então no meu caso, eu tinha essa necessidade muito grande de ter autonomia. Eu queria muito fugir desse controle familiar, de ser independente.
Então mesmo que hoje eu esteja questionando tudo que eu fiz na minha vida, eu tô tirando de bom que essas escolhas, elas me permitiram ter a minha casa. Porque minha mãe falava para mim que uma pessoa solteira, ela não tinha motivos para poder morar sozinho. Então na cabeça dela, se eu fosse ser solteiro, se eu escolhesse não me relacionar, eu ia ter que continuar morando com ela.
Então assim, essa escolha pela independência, ela foi proporcionada pelas escolhas que eu fiz, de fazer Arquitetura, depois de fazer especializações, fazer um concurso e traçar essa trajetória que me permitiu. Mesmo que hoje eu esteja revendo aquilo que eu gostaria de ter mais compatibilidade com o que eu gosto, com o que me faz bem.
Bruno: Me parece que as escolhas que eu fiz na vida foram todas desse tipo que você mencionou, escolhas de sobrevivência. E aí eu acho que elas tiveram um prazo de validade curto, né?
Porque eu saí do Rio de Janeiro, fui para São Sebastião no momento que a minha mãe tinha morrido, fui viver com uma pessoa, mas quando o relacionamento não deu certo mais eu não tinha para onde ir. Aí eu vim para Goiânia.
Em Goiânia eu tive a sorte de conhecer o NAIA, mas eu tenho uma dificuldade enorme de adaptação aqui por causa do clima, por causa da cultura, por causa do tamanho da cidade. Eu me desacostumei de cidade grande depois de ter morado seis anos numa cidade pequena. Então foram escolhas de sobrevivência. Eu tinha que fazer alguma coisa e eu seguia a primeira oportunidade que apareceu.
Uma escolha que também tem efeito ambíguo sobre mim foi a escolha do doutorado. Eu tenho muito orgulho de ter feito doutorado, para mim foi a principal realização da minha vida, porém em termos profissionais acabou que não me acrescentou em nada. Isso causa uma frustração na minha pessoa.
Marx: Você fala que não acrescentou nada porque você não consegue usar isso para tentar entrar em cargos mais altos ou porque você não quer mais trabalhar na área?
Bruno: Eu falo que não me acrescentou em nada porque a carreira que eu escolhi eu não consigo exercer, que é de historiador.
Marx: Mas o doutorado é para fazer pesquisa científica, né?
Bruno: Sim, mas aí seria para eu poder dar aula como um professor universitário, seria um pré-requisito.
Marx: Sim, eu falo assim porque eu terminei o doutorado agora também. Às vezes a galera não tem a dimensão de que um doutorado ele te credencia a ser um pesquisador profissional em vários contextos, não só dentro da universidade.
É verdade que o Brasil não tem muita valorização e oportunidade para cientista que quer ser só cientista, né? Tem lugares muito específicos, mas é uma formação que te abre umas portas interessantes, dependendo do que você vai fazer.
Bruno: Sim, mas aí entra a questão que eu mencionei no início, que é a do traquejo social.
Marx: Aham, sim.
Bruno: Eu não tenho os contatos para o networking para entrar nesses lugares.
Marx: Então você considera que o doutorado foi uma escolha boa, mas que você não consegue aproveitar por conta da questão do autismo, então?
Bruno: Eu acho que sim.
Izabella: Antes de responder a minha escolha positiva, eu queria só falar que acho interessante esse ponto que vocês trouxeram da escolha de sobrevivência, porque é importante a gente desmontar o mito do livre-arbítrio também. Tem muita gente que fala assim: “ah, mas todo mundo tem o poder de escolher”. Isso não é verdade. Não é todo mundo que tem esse livre-arbítrio nessa grande instituição que as pessoas acham que existe, que parte do pressuposto que todo mundo pode escolher o que achar, individualmente achar que é melhor em qualquer contexto. Isso não é verdade.
Às vezes você sabe que uma escolha não é o que você merece, não é necessariamente a melhor, mas é o que você pode tomar naquele momento. Então achei muito interessante esse ponto que vocês levantaram. Agora em relação à minha escolha, é engraçado porque a maioria que eu poderia falar assim: “não, essa aí foi boa”. Talvez não necessariamente foi por iniciativa minha mesmo. Inclusive essa que eu vou falar agora não foi exatamente.
Eu sou concursada, né? Quando o concurso que eu passei saiu, eu ainda estava na faculdade, eu estava no último período e estava fazendo o meu TCC. Nessa época eu fazia estágio num órgão público, que eu também passei por prova porque eu nunca passei na entrevista. Daí o meu chefe pegou e falou: “ah, você viu que saiu o edital tal, não sei o quê, por que você não tenta?”. Aí eu falei pra ele: “olha, eu nem terminei a faculdade, eu nunca nem peguei pra estudar nada de concurso público. Esse pessoal que faz concurso estuda anos para passar, eu não vou passar”.
Aí ele ficou, tipo, abriu a inscrição, ele ficou umas duas semanas, sei lá, não duas semanas, ele ficou um tempão na minha cabeça: “faz, faz, faz”. E eu: “eu não vou fazer, eu não vou gastar meu tempo, eu não vou gastar meu dinheiro, eu não vou passar nesse trem. Eu tô escrevendo TCC”. Ele: “não, você vai fazer, não sei o quê”. Eu fiquei: “gente, que cara chato, eu vou fazer então, mas se é pra fazer, eu vou fazer direito”. Direito no sentido de fazer conforme deve ser feito.
Aí eu tava com mais uma disciplina, tinha TCC e mais uma. Aí eu tranquei o TCC, eu falei: “não, vou atrasar minha formatura em seis meses, vou ficar só com essa disciplina pra eu não perder meu estágio e vou parar minha vida, vou estudar, eu vou só estudar pra esse concurso”. Achava que eu ia passar? Eu não achava, mas eu falei: “não, então tá bom, já que é pra fazer ele parar de encher meu saco, eu vou fazer direito”.
Daí fiz isso, né? Tranquei o TCC, fiquei só com a disciplina e aí eu entrei num rateio lá pra comprar material e tinha videoaula. Pra vocês terem ideia do nível de surto que eu entrei, eu escutava videoaula tomando banho, eu colocava videoaula antes de dormir, eu escutava videoaula no trajeto entre os lugares. Foi no final do ano, tipo, aí pegou Natal, Ano Novo, essas coisas, eu sei lá, teve a ceia, não sei o quê, aí eu comia e já voltava pra um canto pra ficar estudando.
E acabou que deu certo, né? Eu passei e foi uma escolha positiva ter resolvido fazer isso, o que foi mais no sentido de: “o meu chefe não para de encher meu saco, ele tá vendo potencial onde não existe potencial. Mas já que ele tá insistindo tanto, farei”. E acabou que deu um resultado bem positivo, porque eu acho que se eu tô empregada hoje, e eu tô bem empregada, foi por causa dessa escolha de ter resolvido escutar ele.
Marx: Como eu tinha falado naquela hora, minha melhor escolha na vida foi ter feito Farmácia, então eu vou reiterar isso de novo, porque me permitiu conhecer pessoas que me ajudaram a conseguir fazer um doutorado direto, e acelerar a formação acadêmica. E também enxergar possibilidades de trabalho que eu não conseguia ver antes, em áreas que hoje eu gosto bastante.
Tem muitas escolhas que a gente faz muitas vezes que não são tão boas assim, e que são aquelas escolhas que… Tem as escolhas que são escolhas que não são tão boas, sei lá, podia ter se… Tem aquela escolha que se eu pudesse eu não faria de jeito nenhum, que eu me arrependo assim amargamente, e que jamais eu faria aquilo se eu tivesse que escolher hoje.
No meu caso, foi ter feito uma faculdade de Direito por um ano. E eu entrei nessa história de fazer Direito porque a minha mãe ficou no meu pé pra eu fazer na época, e eu me arrependi amargamente porque foi um ano perdido, porque eu odiava, porque não tem nada a ver comigo, e foi uma das épocas em que eu mais fiquei estressado e sem perspectiva das coisas.
Depois que eu desisti do Direito eu fiquei quase dois anos parado, sem conseguir sair do lugar, em estado de negação profunda da vida, assim, de fuga das coisas, porque eu fiquei traumatizado. Até eu conseguir escolher uma área de novo e ter vontade de fazer graduação demorou um tempinho, mas depois disso eu consegui me encontrar. Qual foi a escolha mais desgraçada da vida dos senhores que vocês consideram assim, que vocês não fariam de jeito nenhum?
Ágabo: Talvez eu tenha subestimado um pouco assim, a mim mesmo, na questão de ser independente financeiramente e achar que eu só teria isso se eu fizesse um concurso, sendo que eu já era independente antes de passar num concurso. E aí eu subestimei muito essa capacidade de adaptação em outro contexto, e aí eu entendi o que você falou sobre essa dificuldade de adaptação.
Quando eu fiz um concurso para uma cidade que tinha tudo que eu não gostava, assim, mas que entre a escolha da liberdade financeira e de me forçar a me adaptar no lugar, eu acho que trouxe as maiores consequências da minha vida para a minha saúde, eu fiquei dois anos literalmente doente, então não tem como eu falar que eu não me arrependo dessa escolha.
Então eu me arrependo muito dessa escolha de ter feito um concurso num lugar que eu não consegui me adaptar e de não ter conseguido me desprender disso, ter essa rigidez que me condicionava a achar que eu só teria essa autonomia ali, sendo que hoje eu consigo ver que não, mas isso depois de muita terapia, assim, né? Então esse é o meu maior arrependimento, assim.
Bruno: A minha relação com as minhas escolhas é ambígua, né? Eu penso também que o doutorado foi um investimento muito longo, sem retorno, e isso me faz muitas vezes me arrepender de ter investido nesse caminho.
Assim, eu tenho orgulho de ter concluído um doutorado, porque é uma coisa muito difícil, é uma coisa que hoje em dia não mais, né? Mas assim, meio que coroa uma trajetória acadêmica. Nesse sentido eu tenho orgulho, mas eu também tenho arrependimento de ter investido nessa carreira acadêmica sem saber que eu não iria continuar nesse caminho e, como eu falei no início, às vezes você só se dá conta que você precisava daquele tempo para investir em outra coisa depois que esse tempo já passou.
Então assim, eu vi vocês aí falando sobre a escolha da juventude e tal, e eu entendo que com 16, 17 anos muita gente é muito jovem, mas de qualquer forma, que não seja aos 16, 17, né? Que seja aos 20 e poucos, você ter escolhido uma carreira é fundamental para a sua vida, porque você vai investir naquela carreira enquanto você viver. E eu perdi um tempo precioso investindo numa carreira que eu não tinha, não digo vocação, mas assim, não tinha adequação neurológica.
Marx: Você não tinha suporte, né? Você precisava de um suporte para conseguir funcionar que não tinha.
Ágabo: Adaptação, né?
Marx: Adaptações.
Ágabo: Para tornar mais compatível essas escolhas, assim.
Izabella: Eu tô num momento que eu, retroativamente, eu tento pensar, me perdoar pelas escolhas que eu me arrependo, mas tem uma em específico que eu posso compartilhar, que não tem nada que vai me fazer sentir melhor por isso, que foi quando eu adotei minha cachorrinha, Lilo.
Eu nunca tinha tido nenhum cachorro, então eu não sabia muito bem como lidar com as coisas, principalmente em questão de saúde, né? E quando a gente pegou ela, ela veio com vários problemas de saúde, várias questões, então logo ela ainda era bem filhotinha, com uns três meses, já vivíamos na clínica veterinária, não sei o quê, e aí nós, como não tínhamos nenhuma experiência com veterinário, a gente simplesmente confiou em tudo que foram falando.
Teve uma questão que eu não vou entrar em detalhes, que o veterinário ficou falando que não tinha como resolver, que era um problema crônico dela, que não sei o quê, ela tinha seis meses, e ele falou que não tinha como resolver, que a única solução era eutanasiar ela. E só que a gente ficou muito: “não, não vamos eutanasiar ela por causa desse problema, ela tá com qualidade de vida, só que não vai ter como resolver esse problema, a questão é que o problema ele é ‘inconveniente’, só que ela não vai perder a qualidade de vida por causa disso”. Então a gente falou “não, se a sua solução é eutanasiar, um beijo pra você”.
Só que nisso a gente perdeu vários meses lá, tentando fazer tratamento, ela passando por um sofrimento desnecessário. Só que aí meio que acreditamos nele cegamente, a gente se resignou: “não, então se não tem solução, vamos manter, vamos ficar aqui com ela, cuidando, à medida que ela tiver ainda uma qualidade de vida”.
Daí teve um dia que ela tava lá na pet shop, né, tomando banho, não sei o quê, toda vez que a gente levava na pet shop tinha que falar: “toma cuidado com tal problema específico”, não sei o quê, ela fica irritada. Daí a gente tava lá esperando, veio a veterinária do pet shop e falou: “não, mas que problema é esse?”.
A gente foi conversar com ela, explicou: “vocês me permitem dar uma olhada, dar uma examinada?”. Aí examinando ela, não sei o quê, depois a gente descobriu que não era um problema que ela nasceu assim, foi alguma coisa que o pessoal, o primeiro veterinário que pegou ela fez nela. Então assim, foi um problema que eles causaram.
Na primeira clínica eles falaram pra gente: “não, isso aí não tem como, vamos eutanasiar”. E a gente acreditou neles, sabe? Foi uma escolha talvez por ingenuidade, por acreditar demais nos outros. Mas enfim, foi uma escolha que na minha casa todo mundo acreditou e etc, e essa eu não consigo me perdoar porque fez com que ela passasse por um sofrimento desnecessário.
Aceitar a sugestão de eutanásia nunca passou pela minha cabeça, mas de qualquer forma ela passou alguns meses lá com esses açougueiros e assim, ainda bem que a gente não escutou eles, porque a Lilo vai fazer 13 anos este ano, então enfim, essa é uma escolha que pra mim teve um impacto bem negativo, mas que no final das contas acabou dando certo, mas eu não consigo me perdoar por causa disso.
Marx: É, mas isso aí foi por falta de conhecimento, não tinha como saber, né?
Izabella: Então, mas o que que acontece? Teve um efeito contrário que talvez seja até positivo hoje em dia, porque eu acreditei nele, nem passou pela minha cabeça olhar, sei lá, no Google pra ver se ele tava certo. Hoje em dia eu não acredito 100% em nenhum veterinário, tudo que eles falam eu procuro outra opinião.
Ano passado ela… Ela teve um problema de saúde bem sério, ela tava passando muito mal, aí eu levei no pronto socorro, aí o primeiro veterinário que atendeu ela falou: “ah, mas isso aqui não é nada, volta pra casa”, aí eu fiquei tipo: “não, você não tá vendo que ela não tá bem?”.
Aí tipo, eu não acredito mais nos veterinários em geral, aí eu insisti tanto que ele falou: “não, então tá bom, vou deixá-la internada aqui de um dia pro outro só pra você ficar mais tranquilo”. Só que ela estava com um problema na vesícula, que se ela tivesse voltado pra casa ela ia morrer durante a noite e a gente não ia nem saber o que aconteceu. Então o efeito foi que agora eu sou uma desconfiada crônica, mas dependendo do seu ponto de vista também é um efeito positivo.
Marx: Bom pessoal, então a gente encerra o nosso episódio por aqui. Escolhas são importantes, mas elas não definem quem você é e sempre há tempo pra repensar e questionar a rigidez cognitiva, que nos aprisiona muitas vezes em decisões que podem fazer sentido em algum momento e em outro momento não.
Eu vejo que a vida é muito dinâmica nesse sentido, mas não dá pra negar que o peso de algumas escolhas na nossa vida é permanente e faz parte de amadurecer, lidar com essas consequências. Eu agradeço a audiência e a paciência dos senhores. Esse foi o nosso último episódio do semestre. O Introvertendo vai entrar num período de férias agora, nesses próximos meses. Em breve voltaremos com tudo e continuem nos acompanhando, até mais.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Tiago Abreu | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

