Introvertendo 298 – Autistas e Experiências Religiosas – parte 1

Muitas pessoas autistas viveram coisas boas e ruins em ambientes religiosos, e possuem ideias definidas em relação a suas crenças. Neste episódio, Bruno Frederico Müller, João Victor Ramos e Marx Osório se juntam com Deco Machado, para falar sobre seus históricos com religiões, suas crenças atuais e como questões do autismo se entrelaçam com a experiência religiosa.

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Transcrição do episódio

Marx: E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e hoje nós vamos falar sobre autistas e experiências religiosas. Esse é o podcast Introvertendo, e nós temos hoje a participação especial do nosso convidado ilustríssimo Deco Machado.

Deco: E aí, gente, sou crente, tá? E aí, brincadeira, Deus me livre.

Marx: Misericórdia (risos).

Deco: E aí, gente, eu sou o Deco, sou comediante, sou umbandista, sou autista, e vários istas aí (risos).

Bruno: Eu sou o Bruno, sou historiador, sou ateu, é isso.

João Victor: Olá a todos, sou João Victor Ramos, escritor, poeta, autista, ex-agnóstico e talvez um espiritualista. Talvez, só um talvez mesmo. O resto eu conto no decorrer do episódio.

Marx: E se você ainda não conhece as nossas redes sociais, o Introvertendo está no Instagram, no Facebook, no X, @introvertendo. Nós também temos o nosso site, www.introvertendo.com.br. O Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção do NAIA Autismo. E se você deseja ser um colaborador financeiro do podcast, nos ajudar financeiramente, nós temos as plataformas digitais de apoio, o Apoia-se, o Patreon e o Catarse.

[Vinheta de abertura]

Marx: Hoje nós temos aqui um ateu, um agnóstico, um religioso e um quase…

Deco: Indeciso.

Marx: E um indeciso. Os indecisos existem, a gente sabe disso. Mas nós vamos falar aqui hoje sobre termos ligados à experiência religiosa. Eu fui um cristão protestante durante quase 10 anos da minha vida, mesmo tendo nascido num lar onde as pessoas não tinham religião definida. A minha experiência na igreja evangélica foi extremamente importante, tanto para o bem quanto para o mal na minha vida.

E hoje nós vamos falar um pouquinho sobre isso e como o autismo, principalmente o autismo sem diagnóstico, ele me levou a viver experiências religiosas que contribuíram para a minha formação, mas também contribuíram para gerar vários traumas que até hoje eu luto contra eles.

E pensando nessa questão, eu gostaria que a gente começasse nossa discussão contando um pouquinho sobre a experiência de cada um com a espiritualidade e com a religião. Pra vocês falarem um pouquinho a respeito de como foi a vivência disso ao longo da vida. E como vocês enxergam a contribuição disso para a vida de vocês até hoje?

Bruno: Eu costumo dizer que eu sou um ateu orgânico. Eu fui batizado porque eu não tive escolha, mas quando eu fiz nove anos, a minha mãe perguntou para mim se eu queria fazer a primeira comunhão. Eu disse que não. Com dez anos, ela era espírita, ela me deu um livro em espírita. Eu li o primeiro conto, achei detestável e devolvi o livro para ela.

Depois disso, eu passei muito tempo sem nenhuma vivência, nem convivência. Eu fui algumas vezes com ela no centro, também detestei, no centro espírita. Achava as pessoas muito presunçosas, que tinham uma gana de demonstrar que elas eram evoluídas, como se costuma falar no meio espírita.

Com 13 anos, abriu um centro budista em frente à minha escola, a escola onde eu estudava. Eu fiquei curioso, mas fiquei curioso mais do ponto de vista antropológico. Eu queria saber o que o budismo falava, quais eram os fundamentos do budismo. Eu entrei lá, pedi a indicação de um livro. A pessoa disse para mim que o livro era muito denso, que era melhor eu ir em uma reunião.

Aí, eu fui na reunião budista, cheguei lá, o pessoal já estava na oração. Meia hora depois que a oração terminou, o cara falou assim: “Nossa, você chegou na melhor hora”. Eu pensei comigo mesmo: “Tem certeza que foi a melhor hora para eu chegar?” 

Deco: Essa é a melhor hora?

Marx: (Risos).

Bruno: Aí, fui a duas, três reuniões dos budistas. Fiquei com a impressão de que eles eram muito parecidos com evangélicos, porque ficavam invocando providência divina a todo momento. Cheguei à conclusão que também não tinha nada a ver comigo.

Foi mais ou menos com 14 anos que eu estava andando pela rua e me veio aquela mensagem na cabeça: “Deus não existe”. E quando essa mensagem veio, eu me senti bem. Eu não senti nenhuma forma de desespero, nenhuma forma de desalento. Eu senti que se Deus não existe, então eu sou livre.

Marx: Essa mensagem veio de onde mesmo?

João Victor: Eu ia perguntar isso agora.

Deco: (Risos).

Bruno: Da minha cabeça, da minha cabeça.

Deco: Ou foi um sinal de Deus? E você não tá…

João Victor: “Tá tudo bem não acreditar em mim, filho. Siga seu caminho, tá tudo bem”.

Deco: Deus com certeza faria isso.

João Victor: Eu não tenho a menor dúvida, Deco.

Marx: Do jeito que a coisa tá hoje eu acho que até Deus deve estar querendo que a gente não acredite nele. Para ver se a religião para de usar o nome dele pra fazer o que não deve.

João Victor: Em vão, tá ligado?

Bruno: Depois disso, quando a minha mãe morreu, eu tinha um amigo que era espírita fervoroso e ele queria me levar para o centro espírita. Mas o pessoal foi mais grosso do que eu comigo, com o meu luto, com a minha dor. Falando: “Ó, sua mãe morreu na hora certa”. “As pessoas já nascem com o tempo delas estipulado”. “Não tem que ficar alimentando luto, porque prejudica a evolução dela, prejudica a sua também, vai gerar uma obsessão”. Eu: “tá bom, né?”.

E quando eu mudei para Goiânia, eu também estava muito deprimido. Aí eu fiz mais uma tentativa na Igreja Espírita. Também achei eles grossos pra caramba. Fui na Umbanda. Na Umbanda eu fui super bem acolhido. É a religião que eu mais respeito atualmente. Porque todo mundo me tratou bem. Todo mundo entendeu o meu sofrimento. Ninguém pediu pra eu continuar frequentando. Eu fui lá mais por uma questão de apoio psicológico mesmo. E quando eu achei que eu estava melhor, eu parei de ir.

Marx: E lá sempre tem umas farofas, né? O povo gosta de comida.

João Victor: Verdade.

Deco: Franguinho, franguinho, cachaça pra quem gosta.

Marx: É, a África é maravilhosa. O que seria do Brasil se não fosse os indígenas e os africanos, né?

Deco: É, não seria Brasil.

Marx: É interessante que você teve muitas experiências religiosas diversas, né? A minha história já foi um pouquinho menos interessante. Meus pais, eles vêm de formação cristã, só que nenhum deles é frequentador de religião nenhuma atualmente. E a minha mãe chegou a me levar na Igreja Católica algumas vezes quando eu era criança.

Mas a primeira vez eu achei interessante aquela missa, tudo certinho, passo a passo, né? Aqueles folhetinhos, coisa muito metódica. Pra mim foi uma coisa legal. Na segunda vez eu vi que era a mesma coisa, na terceira, na quarta, aí eu enjoei e não quis ir mais. Porque não tem nenhuma novidade, é sempre a mesma coisa. E música de igreja católica tradicional é sempre a mesma coisa. Aí eu já não gostei.

Mas eu tive a experiência de virar evangélico ali por volta de 2010 por ocasião de uma situação que eu passei na minha adolescência que eu me envolvi com uma pessoa abusiva que fez eu ir ao fundo do poço, resumidamente. E aí algumas pessoas me orientaram a procurar a igreja como um lugar de acolhimento para encontrar um sentido e para encontrar Deus, porque eles sempre achavam que era a falta de Deus as coisas que eu estava passando. Não era o autismo lá gritando, as dificuldades sociais, problemas emocionais absurdos que eu tinha.

Mas a igreja teve esse papel importante no começo, porque lá eu me envolvi com música, aprendi algumas coisas que eu não sabia de música, tive a oportunidade de começar a tocar em grupo, de subir em palco, de ter um lugarzinho de destaque que eu nunca tinha em lugar nenhum, né?

Mas ainda assim foi um lugar onde eu ainda sofri um certo bullying de algumas pessoas em alguns momentos. E onde eu passei a acreditar em algumas coisas que hoje eu me envergonho profundamente relacionado com preconceito, com homofobia, com visões de mundo elitista que a galera tem, com a dificuldade de respeitar a diversidade religiosa.

Porque na igreja evangélica eles acreditam abertamente que a religião de matriz africana é do diabo e fica condenando e acha que só Jesus é o caminho e que o resto tá tudo errado. E que as outras 10 mil religiões que existem no mundo é tudo do mal e só Jesus é do bem. Essas visões que eu demorei muitos anos pra conseguir me desvencilhar e começar a questionar, né? E hoje em dia eu me considero agnóstico, eu não me considero ateu, eu realmente acredito que existe um ser superior que governa o universo.

Bruno: Então você não é agnóstico, você é deísta. 

Marx: Eu sou agnóstico.

Bruno: Não, agnóstico é aquele que não tem certeza.

Marx: Eu não tenho certeza, mas eu também…

Bruno: Você disse que realmente acredita.

Marx: Eu falo assim, no sentido de que eu não tenho certeza se esse ser superior é definido. Eu sei que existe alguma coisa superior que pode ser um Deus, pode ser uma força, pode não ser.

Algo pode ser só algo abstrato, mas eu não acredito em um Deus definido. Porque o deísta acredita que há um Deus definido que governa o universo, uma entidade, uma instituição. No meu caso eu acho que o universo tem uma ordem, ele tem uma organização que obedece a alguma coisa que definiu essa organização lá no começo.

Bruno: Então você é espinosista. 

Marx: O espinosista seria uma espécie de agnóstico deísta, então?

Bruno: É mais ou menos isso, ele diz que Deus é a natureza.

Marx: Não, aí eu já acho que é meio abstrato demais, né? Mas eu tô nesse limiar.

João Victor: Eu nasci em um lar católico, batizado ainda com um ano de idade, pais católicos, avós católicos, cresci em colégio católico a maior parte do meu começo de trajetória, fiz primeira comunhão. E assim, eu falava que era católico, apesar de todos esses fatores, mas por convenção social. Porque eu questionava muito, mas eu guardava esses questionamentos pra mim mesmo, porque eu já percebia que se eu fizesse esses questionamentos a público, eu ia ser rechaçado, eu ia ser questionado, eu ia ser repreendido, eu ia ser, enfim, vítima de algum tipo de proselitismo gratuito que fosse encher meu saco. Eu já tinha esse tipo de percepção desde muito novo.

Eu olhava pras aulinhas de religião com aqueles livretos que parafraseiam alguns versículos bíblicos, aquelas ilustrações infantis de Cristo crucificado, nascimento dele, última ceia, olhava para aquilo e achava tudo tão supérfluo, sabe? Não desmerecendo a teologia, a filosofia e quanto isso influenciou a história humana para bem ou para mal, porque a partir daí já há uma profundidade maior. Mas eu não me contentava somente com o que era ensinado daquela maneira, eu já queria ler a bíblia de cabo a rabo, tá ligado?

Eu me afirmei ateu a partir dos 13 anos, mas nunca fui ateu de fato, foi só uma revolta momentânea de adolescente que amava ouvir heavy metal, amo ouvir heavy metal até hoje (risos). E diante de várias desgraças que estavam acontecendo na minha família, seja no âmbito pessoal, seja no âmbito financeiro, seja em todas as áreas possíveis que vocês imaginarem, eles resolveram recorrer a centros espíritas, porque minha mãe tinha um pouquinho de inclinação ao espiritismo. Porque o brasileiro é assim, é um católico ali, mas com um pezinho em outra religião, geralmente espiritismo quando é catolicismo primeiro.

Aí a gente foi pro centro espírita, beleza. Eu gostei bastante de início, não foi a mesma experiência que o Bruno teve, porque assim, cara, finalmente algo que, até certo nível pelo menos, contrapõe tudo aquilo que eu já estava vendo de errado no catolicismo, no cristianismo no geral.

Mas aquilo começou a deixar de me satisfazer e eu comecei a frequentar vários e vários outros centros espíritas e outras casas espiritualistas e também terreiros de Umbanda. E cara, eu tive a mesma experiência positiva do Bruno do quão sensacional foi o acolhimento da Umbanda. Eles não pregavam: “é isso” e acabou. “Você é livre, tá tudo bem meu filho. A gente anda com você e você não precisa necessariamente acreditar. Se quiser chamar a gente, pode chamar, mas se não quiser, a gente tá aqui pra ajudar do mesmo jeito”. Então, realmente foi uma experiência muito boa, além da comida do terreiro. A comida do terreiro é maravilhosa.

Deco: Abençoada. 

João Victor: Abençoada, literalmente. Muito melhor que hóstia, desculpa, católicos. E atualmente eu me encontro num posicionamento mais inclinado ao que o Marx disse, e o Bruno prontamente explicou. Tanto é que eu não tenho uma religião definida, mas sim posso considerar que acredito em Deus, apesar de não considerar que eu tenho alguma aptidão mínima para defini-lo de maneira empírica. E tenho pesquisado sobre o ocultismo, magia, espiritualidade alternativa, religiões de matriz afro, e vendo no que que isso vai dar.

Deco: Eu nasci no espiritismo, minha família toda foi espírita, inclusive meu nome vem do espiritismo, André Luiz. E até os 16 anos eu participava bastante, desde criança, desde que eu me lembro, de criancinha mesmo, 3, 4 anos eu ia no centro, até os 16, 17, participei de centro espírita, trabalhava lá, inclusive eu dava aula de espiritismo para as crianças, o básico do básico e tal.

Até teve um momento que eu notei exatamente isso que o Bruno falou, que as pessoas tinham muito essa questão de tentar ser mais evoluídas, tentar buscar para mim uma evolução por troca e não por bem, sabe? Tipo, por: “Ah, se eu fizer isso, eu vou estar melhor que o outro”, sabe? Então, isso foi me afastando muito, até teve um momento que com 16, 17 anos eu saí da religião.

Eu na época me definia como ateu, mas hoje eu vejo que era bem isso, eu nunca deixei de acreditar na espiritualidade, eu deixei de acreditar na religião em si. E foi assim durante 4 anos, até que estava muito mal assim na minha vida, e uma amiga minha era da Umbanda, ela falou: “Ah, vai lá no terreiro para conhecer”.

Eu fui com, cara, fui com, sinceramente, pensando em nada, assim, tipo: “Ah, vou lá só para… Já tentei tudo, né? Então, só mais uma coisinha aí para tentar”. E aí eu lembro quando deu a primeira batida assim no atabaque, eu já falei: “Ah, tá, é aqui”. Já senti assim naquele momento: “Não, é aqui, gostei”. Eu tive exatamente essa experiência que vocês falaram, as pessoas foram muito receptivas, não foram pessoas que tentavam me forçar qualquer coisa ali, que tentavam… “Ah, fica, você tem que vir sempre, senão vai acontecer tal coisa”. Não, era só tipo “Seja bem-vindo, espero que tenha gostado, volte quando quiser”, sabe?

E aí aconteceu que eu fui voltando quando eu queria, que foi toda semana. Comecei a frequentar, hoje frequento há mais de 10 anos. E já trabalhei, agora eu tô sem terreiro porque, né, tô viajando muito, então não consigo ter uma frequência como eu gostaria, então resolvi não me comprometer por enquanto.

Mas a Umbanda, para mim, embora seja também uma religião, eu não gosto muito de definir, de estar dentro, assim, de uma religião. Para mim, eu sou muito mais espiritualizado, espiritualista, mas a Umbanda tem uma filosofia que se enquadra muito mais na minha visão de vida. Dessa questão de o nosso Deus ser a natureza, né? Então, Deus, para mim, é só o poder da vida, o poder da nossa continuidade, da vida, dessa conexão que a gente tem.

Enfim, aí a religião vem para a gente nomear coisas ali, né? Mas hoje, principalmente sem terreiro, eu vejo mais como uma prática minha, da minha própria fé, eu comigo mesmo, e quando eu quero, eu vou ali no terreiro só para ter um trabalho mais próximo, assim, das entidades, né? Mas foi exatamente esse lugar onde falaram assim: “Ó, você tem que se aceitar do jeito que você é”. “Ah, mas eu erro”, mas todo mundo erra, você tem que aceitar que você erra.

Marx: E é interessante que todas essas vivências que a gente falou aqui, elas são muito atravessadas pelo autismo também, né?

Deco: Sim.

Marx: Eu lembro que quando eu comecei na igreja, eu tive muita dificuldade de interação social, principalmente, porque muitas vezes eu falava algumas coisas que soavam meio rude, as pessoas não entendiam, achavam estranho. E na minha cabeça eu não conseguia entender por que existia uma reprovação tão grande em algumas coisas que eu falava, ou de alguns comportamentos que eu tinha.

Então, houve uma certa rejeição, uma certa dificuldade de compreensão de alguns em relação a comportamentos que são do autismo, que eu sei que são do autismo hoje, mas na época eu não sabia. E isso me dava uma sensação de que eu tinha que estar o tempo todo me provando capaz de estar ali. E aí, ali eu falo ambiente de banda, né? Ministério de louvor, eu era tecladista de banda de igreja durante muito tempo.

Mas, ao mesmo tempo, a dificuldade absurda de conseguir criar relações realmente mais profundas, e mesmo estando no lugar de destaque, porque na igreja quem toca é visado, né? Eu não conseguia entrar em relacionamento amoroso, eu não conseguia fazer muitas amizades, era mais superficial.

E eu acho que a religião, o ambiente religioso, pra mim, contribuiu positivamente, a igreja contribuiu positivamente no sentido de me dar a oportunidade de entrar em círculos sociais que eu não estava acostumado a frequentar, e que em outros contextos muitas vezes eu não conseguia, porque a música fez essa ponte, né? De me dar demandas sociais novas, de me mostrar coisas que eu precisava melhorar em mim, pra melhorar uma questão social. Algumas eu consegui melhorar sozinho, outras não, eu não aceitava, eu achava que é porque tava todo mundo errado e eu tava certo. E a rigidez do caramba, pegando, né?

Mas teve uma contribuição negativa que foi que eu foquei todas as minhas energias, todo o meu tempo, todo o meu propósito de vida durante oito anos somente naquilo. E isso me atrasou o meu desenvolvimento sócio-emocional para outras coisas. E eu deixei de frequentar outros lugares durante esse período porque eu considerava que lá não era lugar pra mim, porque todo lugar que não era dentro da casa de Deus era lugar que ia me levar pro caminho das trevas, o caminho largo do inferno e etc.

E eu realmente só consegui começar a me desvencilhar disso e enxergar outras possibilidades e ficar à vontade em lugares que tinham outras manifestações culturais e outras manifestações religiosas quando eu entrei na Universidade Federal de Goiás. Que lá eu tive a oportunidade de conhecer galera de todas as tribos, né? E comecei realmente a enxergar que o mundo era muito maior, a diversidade cultural é muito maior do que a igreja muitas vezes tenta colocar pra gente. E isso infelizmente é um defeito das religiões cristãs, né? De querer ser o único lugar possível e ter um exclusivismo muito grande.

Eu não acho que o cristianismo essencialmente seja ruim. Eu acho que Jesus Cristo tem uma contribuição positiva para humanidade absurda, absurda, absurda. Mas a igreja cristã, eu acho que ela faz muita coisa na cabeça das pessoas que atrapalha o desenvolvimento da sociedade. A igreja católica mandou no mundo mais de mil anos, atrasou o desenvolvimento científico da Europa mais de mil anos em nome de monopolizar o conhecimento e de que Deus queria que fosse assim. E muita gente acreditava nisso porque não tinha outra coisa, né?

Como vocês veem o autismo de vocês nesses contextos religiosos? Quanto a religião influenciou positivamente ou negativamente na relação de vocês com as dificuldades do autismo e como o autismo ajudou, atrapalhou na experiência religiosa e espiritual?

João Victor: A minha última tentativa de aderir ao catolicismo foi durante um breve afastamento que eu tive do centro espírita que eu mais estava frequentando, ou seja, eu busquei fazer catequese de crisma, foi a última esperança da minha família de que eu aderisse ao catolicismo e deu muito errado.

Eu fiz um ano e seis meses do curso, ou seja, pulei fora no meio do caminho porque eu não estava mais aguentando aquilo, eu batia boca com catequista, questionava tudo e até consegui fazer algumas amizades, só que elas chegaram naquele nível de fanatismo que pareciam que tinham pegado um aspirador de pó, sugado tudo que estava no cérebro delas e colocado uma bíblia e um catecismo da igreja católica no lugar, tá ligado? Proselitismo puro.

E às vezes numa linguagem passivo-agressiva, tipo assim: “tudo bem se você não acreditar, você só vai queimar no fogo do inferno pela eternidade”. Assim, aí tive que me afastar dessas pessoas e mentalmente, psicologicamente, bate um medo de: “se eu estiver errado, bicho, Luci tá me esperando lá embaixo”. É, agora…

Deco: Eu já vou de qualquer jeito, então agora é aproveitar.

(Risos)

Deco: Eu já vou de qualquer jeito, agora é aproveitar, então é, falando. Então eu vou. 

João Victor: Pois é, pois é. Assim, bate um medo de estar errado muito brutal, assim, talvez seja uma rigidez no sentido negativo da coisa. “Por favor, João Victor, não esteja errado, por favor, João Victor, não esteja errado”. Mas se eu tiver errado, caralho, não, você não tá errado. Luci não vai te receber com fogo e enxofre num lago com tridente apontado pra sua bunda. Vai dar tudo certo quando você morrer, meu querido. Só isso.

Marx: Isso foi muito específico. 

(Risos)

Deco: Eu acho que, pelo menos na… Hoje eu percebo, assim, que a minha busca de religião… Não a busca, né, mas eu gostava tanto de frequentar um ambiente religioso, tem muito a ver também com regras, assim. Porque eu, como autista, eu gosto muito de seguir regras, né. Então, se alguém me dá um manual: “ah, aqui você tem que fazer o certinho desse jeito”, eu: “ah, é só fazer assim? Então é só seguir isso?” Então, isso, os ambientes religiosos, os lugares religiosos, eu acho que tem uma tração, porque a gente, querendo ou não, tem uma necessidade de saber o que fazer, né.

Então, lá na Umbanda, por exemplo, tem que sair do terreiro de costas, é uma regrinha que, pra mim, era ótima, assim. Tipo, “ah, legal, aqui sai de costas, aqui não sai de costas”. Eu não preciso pensar como tem que sair, porque é de costas, sabe? Então, tinha alguns momentos ali, “ah, tem que fazer isso aqui, todo mundo faz isso aqui”. Então, eu acho que isso é uma coisa que deixa, assim, pelo menos pra mim, deixa a experiência mais divertida de frequentar.

Mas, ao mesmo tempo, é essa questão da religião também, a gente buscar razão, né. E a religião não é uma razão, né. A religião é muito mais… É fé, né. Querendo ou não, é fé. Então, eu acho que também é muito frequente autistas questionarem, exatamente como você falou, questionar por que é essa regra.

Eu lembro que eu tinha muito isso, só que aí é exatamente essa coisa. Quando estava no Espiritismo, é porque é desse jeito, tem que ser desse jeito. Senão: “ah, as pessoas ruins estão aí, as pessoas que fizeram coisa má, estão sofrendo, então tem que deixar elas sofrerem”. E na Umbanda era tipo… Perguntei coisas pro pai de santo, ele falou: “ó, filho, não sei, vou pesquisar”. Foi o primeiro lugar religioso que o dirigente falou: “não sei”. “Não sei por que é desse jeito, vamos ver”.

Ou quando eu perguntava, ele falava: “não, é desse jeito, por causa desse fundamento aqui”. Então, dava uma razão. Poucas vezes foi um lugar onde não tinha uma razão de algumas coisas que pra mim serviam. Então, eu acho que, além também do que você falou, é um ambiente social de um tema só. Então, se a gente domina esse tema, a gente pode falar… E é um lugar onde a gente vai falar só desse tema com todo mundo ali.

Então, eu acho que isso também ajudava na minha socialização ali dentro do terreiro, embora tivesse exatamente a mesma experiência. Não era visto como uma pessoa sociável, embora socialize. Era tipo: “ah, o cara é estranho”. Basicamente, me zoavam muito, assim. Sempre teve isso, que eu era muito quieto, que eu não gostava de fazer várias coisas ali de atividades, porque como eu tocava atabaque, e geralmente eu já era mais velho, já tava com mais de 20 anos, e quem tocava ali era adolescente junto comigo. Então, eles faziam umas brincadeiras que pra mim já estavam de muito saco cheio. Então, era muito chato, assim. E eu não entrava, e tinha adultos que entravam nas brincadeiras e ficavam: “ah, que saco”, assim, tipo, “cresce”.

Marx: (Risos).

Deco: Mas aí, tinha muitas dessas coisas. Mas eu ainda acho que o lugar religioso, querendo ou não, ele tem pontos que atraem realmente pessoas, que gostam de uma doutrina, que gostam de regras, que querem… Pô, eu foquei muito na Umbanda. Tinha pessoas para conversar sobre religião, pra eu aprender mais. Então, aprendi muito, porque eu era muito fixado, assim, nisso, sabe?

Marx: É, tem aquela coisa do ambiente estruturado do autismo, e às vezes, para muitos de nós, é o único lugar que tem uma estrutura realmente fixa, né, principalmente quem vem de contextos muito caóticos, de lares muito instáveis, né.

Bruno: É, eu acho que, no meu caso, a primeira coisa que me afastou da religião foi minha aversão à multidão. Então, essa coisa de estar num ambiente com várias outras pessoas, reunidas para orar, celebrar, louvar, seja lá como se queira definir, aquilo não me atrai.

E a segunda coisa é que eu acho que a religião é bem o que o Deco falou, assim, né. Eu sou muito questionador. Então, eu quero saber o sentido das coisas, a razão das coisas, e… A religião não tem respostas, realmente, né. Ela oferece respostas prontas para quem já está disposto a comprar o seu conjunto de pressupostos que são baseados na fé. Então, assim, é uma coisa que pra uma pessoa como eu, que está sempre procurando a origem dos problemas, a raiz dos problemas, não satisfaz. 

Marx: E aí, o que você disse aí faz um paralelo direto com o que a gente chama de pensamento concreto dentro do autismo. Num passado não muito distante, o Introvertendo, a formação antiga do Introvertendo, gravou um episódio sobre autistas ateus, né, que teve uma discussão interessante sobre a principal razão que leva muitos autistas a se tornarem ateus, que é o pensamento concreto, que é querer procurar a razão lógica das coisas o tempo todo.

E a religião, por ela ser uma coisa mais abstrata, espiritual, e que vai tentar explicar as coisas baseadas em experiências que muitas vezes não são factíveis, não dá pra você comprovar de maneira concreta como a ciência pede, isso acaba deixando uma interrogação gigante na cabeça do autista. Isso remete ao que eu falei lá no começo também, sobre a origem de tudo.

A própria ciência não conseguiu chegar a uma resposta 100% definitiva sobre a origem exata do universo. Existe uma teoria de que o universo surgiu a partir de uma grande explosão, o Big Bang, de uma união de elementos químicos, mas o que veio antes disso não tem como saber. E a religião, ela também não consegue explicar. E eu acho que isso acaba obrigando a gente a aceitar a nossa condição de ignorantes em relação à origem das coisas. O ser humano tem uma dificuldade de vestir o chinelinho da humildade, de falar assim: “eu não sei, não vou saber, vou viver em paz com isso não sabendo”. Por que a gente tem que saber tudo? 

Bruno: Eu já coloquei pra mim várias vezes, várias questões, também já vi todo tipo de pregador falando, tentando explicar, vender a versão deles da existência de Deus, da existência de vida após a morte, etc e tal. E eu sempre chego à conclusão de que não faz o menor sentido.

Mesmo que tenham alguma origem, eu seria espinosista, porque é um Deus que não interfere nas coisas, é um Deus que só criou o universo e depois que você morrer não existe mais nada. Porque seria a única versão plausível de Deus dentro da configuração do universo que nós temos.

João Victor: É uma questão complicada, porque, não discordando de você, Bruno, porque às vezes as pessoas religiosas, sobretudo quem está num pé mais de fanatismo, ou com os dois pés no fanatismo, tentam às vezes encaixotar a própria ciência, alguns conceitos científicos muito específicos na caixinha da espiritualidade, na caixinha da religião, tipo assim, “ó, tá vendo? Isso vai de encontro com o que certa diretriz, de certa doutrina de minha religião prega. Tá vendo como a gente desse grupo aqui tá certo?” Isso também é muito perigoso, sabe? Sobretudo nesta era do charlatanismo quântico, da espiritualidade alternativa quântica, se você não sabe explicar…

(Risos)

Bruno: Aquela que você tá com os dois pés…

João Victor: Não, nada a ver. Nada a ver. Você me respeita, tá ligado?

Marx: Você pergunta um conceito de quântica pra essa pessoa, ele vai passar o resto da vida tentando explicar e vai chegar em lugar nenhum. 

João Victor: Nem os físicos que fazem doutorado afirmam que sabem com toda convicção o que é física quântica. Quem dirá que não pegou um livro de quântica na vida, filhote?

Marx: Bom, meus queridos, então esse episódio ficou um pouquinho mais longo do que o habitual. Por esse motivo nós teremos uma parte 2 na próxima semana e episódios bons sempre rendem bastante discussão, então não perca a nossa parte 2 em breve.

*

Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Deco Machado e Tiago Abreu | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

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