Muitas pessoas autistas viveram coisas boas e ruins em ambientes religiosos, e possuem ideias definidas em relação a suas crenças. Na segunda parte do episódio, que conta também com Bruno Frederico Müller, João Victor Ramos e Marx Osório ao lado de Deco Machado, abordam sobre coisas negativas que passaram em ambientes religiosos, os valores que deixaram de compartilhar, mas também coisas boas e inclusivas que observaram em ambientes religiosos e que fez diferença em suas vidas.
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Notícias, artigos e materiais citados ou relacionados a este episódio:
- Fé no espectro — Autistas desenvolvem encontros e desencontros com práticas religiosas
- 89% dos brasileiros dizem acreditar em Deus, indica pesquisa
- Deco Machado no Instagram
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Transcrição do episódio
[Vinheta de abertura]
Marx: A grande pergunta de um milhão de dólares que a gente tem é se a religião não consegue explicar a origem das coisas, o autista precisa muito de explicação para tudo para ter uma previsibilidade. O autista vai para uma religião, por exemplo, que acredita num monte de coisa que a ciência já refutou, inclusive, que é o cristianismo. A própria existência do período dos dinossauros, do paleozoico, das glaciações, vai completamente contra a cronologia bíblica.
Tem várias coisas do começo da Bíblia que não tem nenhuma evidência arqueológica que existiu, como o Jardim do Éden, Moisés, escravidão dos hebreus, etc. E tem um par de gente que acredita nisso até hoje. A gente sente que isso é um sintoma de como o letramento científico da maioria da população é inexistente ainda e a religião contribui para criar uma resistência das pessoas ao conhecimento. E esse, para mim, é o maior ponto negativo da religião depois das guerras que a religião causa no mundo. Que, para mim, a pior coisa são as guerras.
E o segundo ponto é esse, é criar uma aversão das pessoas ao conhecimento por associar o conhecimento com rebeldia, com heresia, com ódio contra Deus, com uma coisa maligna. E adivinha só um período que isso era oficialmente encorajado. Na Idade Média, na famosa Idade das Trevas, onde a igreja era dona de tudo e sociedades que se recusaram a seguir as coisas dessa forma desenvolveram cientificamente muito mais do que a Europa.
Como a própria China, Oriente Médio, os caras estavam lá estudando matemática, astronomia, botânica. Os gregos antigos também lá, muito antes, já estudavam e tinham essa preocupação de estudar, de tentar comprovar as coisas através de fatos e eles não deixavam de praticar a religião deles por conta disso. Porque os gregos eram cheios de mitologia, cheios de crenças, mas eles eram científicos pra caramba. E a religião cristã fez um movimento contrário a isso, na tentativa de sustentar a sua autoridade. Aí chega uma autista na religião e começa a questionar isso de maneira natural. Foi o caso que você falou aí. A gente questiona essas coisas de uma naturalidade impressionante.
Deco: Pra gente não é um crime questionar isso. Não é um questionamento pra negar, é pra aceitar. É literalmente, pra mim pelo menos, é tipo, eu não tô questionando pra ir contra você, eu tô questionando porque eu quero estar mais com você. Eu quero entender melhor o seu lado. Só que aí a pessoa não consegue explicar o lado dela, sabe, de uma maneira concreta, né, que nem você falou. Aí eu fico…
João Victor: E às vezes através dessa troca de saberes, construir um laço de amizade ou reforçar o laço de amizade pré-existente, tá ligado? E tá tudo certo, pra nós é natural mesmo.
Marx: Só que aí o que acontece? Isso desafia hierarquias, autoridades. E aí é onde vem uma questão importante a gente pensar aqui, que é sobre… Beleza, o autista tá lá na igreja, tá lá no centro de Umbanda, tá lá no centro espírita, tá lá em qualquer lugar religioso, né? Ele chega lá, ele vai ter uma necessidade de suporte. Porque pra gente permanecer nos lugares, a gente precisa de suporte.
A religião pode oferecer algum tipo de acessibilidade para o autista, se ela assim quiser, se ela tiver afim de fazer isso, para que o autista tenha direito de frequentar. E pensando nessas coisas eu fico relembrando, por exemplo, uma coisa que é muito comum da igreja em si, que é a necessidade que a igreja tem das pessoas ficarem lá sentadinhas, bonitinhas, meia hora, uma hora, vendo uma pessoa pregar e ser muito mal visto uma pessoa ficar, por exemplo, saindo, entrando, andando, por causa da questão do tempo de espera, né? Eu tinha uma dificuldade muito grande com isso, porque às vezes o pregador, ele era muito chato. Ele era muito chato.
E aí você só via eu saindo pela porta três, quatro vezes, e aí falava: “nossa, isso aí é uma estrelinha, né? Só quer vir aqui tocar e aí não quer prestar atenção na palavra de Deus. Quando ele tá lá tocando, tá todo mundo sentado bonitinho. Aí quando o pregador está pregando, aí vai lá, vai lá fora ficar fofocando, vai beber água, nunca mais vai ter uma pedra no rim na vida desse cidadão, né?”. E tinha um pastor que ficava em cima do público ironizando as pessoas que faziam isso.
Como se você ficar sentado com a bunda na cadeira, se for só na prestar atenção numa coisa que não era boa, fosse um critério de você ser fiel, de você ser espiritual e tal. No autismo isso é pior ainda. E hoje, por exemplo, eu já vejo que em algumas igrejas já têm crianças com diagnóstico formal desde cedo, já tem autistas que são assumidamente autistas no contexto em que eles dão a liberdade da criança ficar andando pra se regular, não fica pegando no pé porque a pessoa sai e entra.
E aí eu vejo que aos poucos algumas instituições estão começando a olhar pra isso com mais carinho porque senão as pessoas vão começar a deixar de ir, eles estão perdendo também seguidores. O que a Igreja Católica perdeu de seguidor nos últimos anos da década é um negócio bizarro. Por quê? Porque ninguém aguenta mais ficar encalacrado numa coisa que é a mesma coisa desde mil anos atrás.
Bruno: Mas a religião está caindo em todo o mundo ocidental. Isso eu acho que a gente tem que voltar ao Nietzsche, filósofo, e entender que a ciência refuta as mitologias religiosas. E quanto mais a ciência avança, mais a religião se retrai.
E outra questão é que o próprio desenvolvimento econômico e social tira da religião um dos seus grandes apelos, que é o do conforto diante da realidade desalentadora do mundo. Então quanto mais próspera a sociedade, quanto mais livre a sociedade, mais tênue é a sua ligação com a religião.
E nesse aspecto só os Estados Unidos e o Brasil são exceção, que tem uma taxa de crença em Deus altíssima. O Brasil acho que até mais do que os Estados Unidos. O Brasil é tipo 94% da população acredita em Deus. É uma taxa que você só vê na África subsaariana.
Marx: E isso tem a ver com a religião como um lugar que as pessoas buscam para tentar achar um caminho, uma saída pro buraco em que elas estão, o buraco socioeconômico.
Bruno: E aqui no Brasil as igrejas substituíram o Estado em vários serviços sociais. O estado de bem-estar social que existe no Brasil é a igreja. Então a pessoa que está desempregada, vai na igreja não só para ouvir uma palavra de conforto, mas também para encontrar um apoio, uma cesta básica, ou até mesmo encontrar um emprego, porque elas formam redes sociais de apoio mútuo.
Deco: E a religião, exatamente, como o Brasil é um país ainda pobre, tem muita gente ainda em questão de pobreza, a religião, não só as igrejas, mas eu acho que qualquer religião tem uma caridade, tem uma questão de ajuda social muito forte.
Não é à toa que a gente vê pessoas com dependência química indo pra igreja, indo pro terreiro e sendo tratadas ali de uma maneira ou de outra, tendo apoio para tratar um pouco dessa dependência química, pessoas que estão com fome, que vão, pelo menos, pegando o meu exemplo de terreiro, a gente tinha uma vez por mês, a gente fazia marmitas, 200 marmitas e entregava na rua, sem falar da religião nada, mas pra entregar porque a gente sabia que tem pessoas ali com fome. Querendo ou não, as pessoas perguntavam: “ah, é ali no terreiro, quando você quiser é só passar lá que a gente sempre vai ter uma marmita pra você”.
A religião hoje no Brasil, não posso falar no resto do mundo, mas pelo que eu conheço aqui no Brasil, ela tem exatamente essa função que o Estado deveria ter, de ajudar pessoas em vulnerabilidade, independente de qual seja.
Bruno: Mas isso é extremamente perverso, porque, tudo bem, no seu caso não havia proselitismo, mas em muitos casos há. Então você tá desrespeitando a liberdade de consciência do outro, fazendo uma chantagem, na verdade: “olha, nós te ajudamos materialmente, mas você entrega sua consciência para nós”.
Marx: O autista, às vezes, não vai se dar conta desse fato que você falou agora, logo de cara, né?
Bruno: No meu caso, acho que foi o contrário, porque as situações que eu tive de vulnerabilidade, eu não aceitei ajuda de religião, porque eu não aceitei violar a minha liberdade de consciência.
João Victor: Mas eu acho que isso foi um caso à parte, Bruno, porque na minha última tentativa de adesão ao catolicismo na Catequese de Crisma, eu fiz uma última… Sabe quando você nutre uma última inspiração, tipo assim, “tem um jeito de crer nisso daqui sem necessariamente aquele proselitismo todo? Deve haver alguma saída, deve haver alguma vertente doutrinária dentro da igreja que possa me dar essa… Me dar não, manter essa liberdade de consciência”, quando eu vi que não era por aí, bicho, eu pulei fora o mais rápido que eu pude. Sério mesmo.
E, cara, liberdade de consciência, você disse tudo. Tem muita religião, em destaque às cristãs, que não respeitam isso de maneira alguma. Acho que se isso fosse mais respeitado, o mundo seria um lugar melhor de um tanto, cara, porque frase clichê do podcast do episódio de hoje, eu sei, mas isso faria com que os atos caritativos mencionados por você e pelo Deco fossem totalmente despretensiosos e com muito mais chances de serem ampliados e aceitos, sem nenhuma chance de que: “olha, você tem que aceitar esse prato de comida, mas aceita Jesus aí véi, não sei o quê, não sei o quê, é ridículo”.
Deco: Não, é, você vai ganhar o prato de comida, mas você tem que vir à missa.
João Victor: Pois é!
Deco: Mas, cara, não tem sentido.
Marx: Eu já vi muito isso.
Deco: Não, mas agora que ele falou que eu lembrei mesmo, porque faz tanto tempo que eu não participo desses rolês assim mais de igreja e tal, tô no terreiro há tanto tempo. Cara, a gente nem falava, porque às vezes se a gente falasse que era esse terreiro, o pessoal não aceitava. Então, a gente não aceitava a nossa ajuda. Então, a gente nem falava, “ah, não, a gente faz um trabalho aqui da ONG”, que era uma ONG mesmo, né, que a gente tinha. Então, era… É, realmente, assim, eu tinha até parado de pensar nisso, que tem essa barganha.
Marx: E se a gente for discutir aqui sobre essas questões, a gente vai ter muito pano pra manga aí. Porque aí já vai entrar na questão do racismo religioso, que a religião afro, o pessoal está em preconceito porque tem uma coisa racista envolvida nisso, né? E a própria Igreja Católica, inclusive, ela perseguiu oficialmente as religiões afro no Brasil durante séculos, né?
Mas com relação à vivência autista no meio disso tudo, eu chego à conclusão que nós somos uma parcela da população muito vulnerável ao fanatismo religioso. Eu estive lá. O lugar de fanatismo religioso é um lugar muito triste, você briga com a família, você perde amizade, você não consegue entrar em relacionamento, você se torna uma pessoa chata. Eu me tornei uma pessoa chata, uma pessoa difícil de conviver, uma pessoa que não abria a cabeça para ver outros pontos de vista. Isso reforçou a minha rigidez de uma maneira muito absurda.
Deco: Eu ia perguntar exatamente isso, porque eu acho que, ao mesmo tempo que a gente questiona muito, se a gente for pego por aquilo, a gente vai ficar só naquilo também, né? A gente vai ficar: “não, mas é isso, porque tem que ser isso”, e a gente não questiona mais.
Marx: E por que? Porque eu estava num momento da vida que eu estava procurando um lugar seguro, porque eu não tinha um lugar seguro.
Bruno: E como é que você saiu?
Marx: 2020, pandemia, pós-2018, vocês sabem muito bem o que aconteceu na política brasileira. A igreja se prostituiu para extrema-direita, né? E eu não aguentei. Eu presenciei coisas absurdas de promoção de politicagem em cima de púlpito, de levar políticos que são abertamente fascistas pra cima de púlpito, e coagir as pessoas a votar nesses políticos, fazer proselitismo político dentro da igreja, ficar tentando criminalizar as pessoas que não apoiavam aquilo, que tinham uma visão diferente.
Então assim, eu saí por conta da prostituição política, que é a instituição que eu participava, que é uma instituição extremamente ligada à extrema-direita aqui em Goiânia, inclusive. E depois eu fui refletindo fora daquele ambiente outras coisas, revendo a minha visão em relação à própria espiritualidade, à própria religião, e fazendo um apanhado das coisas que eu vivi, e fazendo terapia também, né? Eu entrei no processo terapêutico para tentar identificar o que foi violência, o que foi legal, o que não foi, e aí eu fui me tornando mais cético um pouco em relação a algumas coisas. E eu realmente entendi que algumas coisas eram abuso psicológico, era prisão, eram coisas que eu ficava me culpando.
Eu comecei a me aceitar mais como eu sou, em algumas coisas que eu ficava achando que era errado, que Deus não se agradava, e na verdade era só a imposição religiosa pra me controlar, para me manter no cabresto ali, e pra não deixar eu pensar por conta própria. Eu acho que tolher a liberdade de pensamento e fazer com que você se enquadre numa caixinha, que tem que ser aquela caixinha.
E o cristianismo, ele é uma religião que vem de uma cultura totalmente diferente da nossa, que vem de um outro contexto, que muitas vezes não se enquadra na nossa realidade. É um desrespeito assim enorme às realidades que a gente vive aqui no Brasil, e muita coisa errada, muita coisa errada em nome da fé, muito abuso de poder, muitas pessoas narcisistas ganhando palanque nesses lugares e prejudicando as pessoas, escravizando as pessoas. E muitas pessoas boas, de boa índole, de coração bom, que estão só procurando sentido pra vida nesses lugares que eu conheci, várias pessoas humildes, pessoas que realmente só querem ter certeza de que estão vivendo certo, e que são muitas vezes exploradas e manipuladas por esses canalhas aí, líderes da fé, sabe? Eu descrencei muito por conta disso também.
Deco: Eu também, quando eu tava nessa época de ateu, também fui à igreja, mas bem pouca, fui uma ou duas vezes, falei: “não é aqui”. Mas foi exatamente vendo muito disso que eu também já tinha visto no espiritismo, que é, as pessoas querem tomar conta das outras, em vez de estar num lugar de se apoiar, estar muito mais num lugar de ego, de controlar mesmo…
Marx: De julgamento.
Deco: …de julgamento, exato. E isso era uma coisa que eu não gostava dentro da… Ainda não gosto, até no meu terreiro tem, né? Todo lugar vai ter isso, porque somos seres humanos, né? Mas, pelo menos na minha experiência, pelo menos no terreiro foi um lugar ali que, tipo, pra mim foi: “não precisa acreditar, não precisa acreditar, mas se te faz bem, pronto”.
João Victor: Isso é libertador de um tanto, Deco.
Deco: É, tipo assim, vai no terreiro que eu participava ia ateu, gente que falava ateu, mas: “não acredito que aqui tá um espírito, mas eu acredito nos ensinamentos que estão me passando, não acredito que tem uma entidade aqui na minha frente, mas eu acredito na experiência, nas coisas que estão me passando aqui, estão me fazendo bem”.
Então, continua vindo, porque é um lugar que ninguém vai te julgar se você tá acreditando ou não, se tá te ajudando, se você tá ali de boa ajudando os outros também, pô. Eu saí por causa de… Eu já saí de terreiro por causa de Pai de Santo, que também foi assim, para política, antivacina, essas coisas.
João Victor: Nossa…
Deco: Não, na pandemia, continuou, não quis fechar o terreiro, assim. Então, aí eu saí.
Marx: Mostra que negacionista tem em todo lugar, né?
Deco: Não importa a religião, é isso.
Marx: Ainda falando sobre o tema da acessibilidade dentro do contexto religioso, e pensando também nas pessoas que, eventualmente, a gente conheceu que poderiam se enquadrar dentro de uma deficiência, eu conheci várias, e curiosamente, eram as pessoas com quem eu tinha mais afinidade, né? Por que será?
Deco: (Risos).
Marx: Então, eu conheci pessoas que tinham características autísticas muito fortes, TDAH, pessoas com deficiência intelectual que não sabia que tinham, né? Além disso, eu vi muito capacitismo, eu vi muito bullying com essas pessoas, eu vi muita exclusão. Mas eu também vi muita gente se ajudando, eu vi muita gente que tentava ajudar essas pessoas de alguma forma, que compreendia, que tentava dar espaço, que tentava ensinar algumas coisas, que tentava colocar pra fazer alguma coisa. Eu vi de tudo.
Então, assim, uma das acessibilidades que eu acho mais importantes pra gente pensar no contexto religioso por ser um ambiente coletivo é que a instituição religiosa permita com que a pessoa autista, a pessoa com deficiência, ela possa expressar quem ela é, ter a liberdade de poder se regular, ter a liberdade de poder transitar pelo ambiente, que não vai atrapalhar ninguém, claro, né? Mas que ela tenha a liberdade de não precisar ficar reprimindo a sua condição, o papo de se encaixar ali. Que ela possa ser quem ela é, do ponto de vista, assim, o autista faz estereotipia e as pessoas não ficam querendo reprimir, achando que isso é uma coisa errada. Isso é um primeiro ponto. O segundo ponto é que muita igreja tem problema com a poluição sonora, com o som alto. Isso é um problemaço. E o autista sofre com isso. Eu sofri muito com isso em algumas igrejas. Nossa. E aí você vai reclamar…
Bruno: Eu sofro muito com o meu vizinho de igreja.
(Risos)
Marx: Aí você vai reclamar, o povo acha que você é chato e que não tem nada a ver. Tem gente sem noção, nesse naipe, assim. O que vocês diriam de mais coisas que seria interessante nessa experiência?
Deco: Então, eu acho que o que falta realmente, assim, o pessoal pensar muito nessa questão de inclusão, tava até… Antes de eu ter o diagnóstico eu já frequentava o terreiro, antes de saber que eu era autista, e já tinha no meu terreiro, eu já tinha, como fala, tradutor de libras. Porque tinha uma pessoa lá, uma pessoa que precisava de assistência no terreiro, que ela era surda, só conversava com libras. Então, no terreiro vem a entidade, né? E lá da entidade tem o cambono, que é a pessoa que auxilia nessa comunicação, ajuda ali nos trabalhos, etc. É o estagiário, assim, né? Do terreiro. E aí o cambono sabia libras para poder traduzir o que a entidade falava pra pessoa e traduzir o que a pessoa falava pra entidade. Então, isso já era uma inclusão simples, assim, sabe?
Também, quando minha amiga que frequentava o terreiro teve diagnóstico primeiro do que eu, né? Eu tive por causa dela, inclusive. As pessoas já entenderam que a gente precisava de… Eu tive crise no terreiro uma vez. O pai de santo pegou a sala dele e falou: “ó, você vai ficar aqui, fica aqui o tempo que você quiser”. Tipo, eu fiquei horas lá e me esperaram porque sabia que precisava, assim, sabe? Então, isso fez eu entender que ele era um espaço muito mais acolhedor.
É que pra mim, o atabaque não tem problema, porque pra mim é um som organizado. Quando ficava muito barulho na sala, o pai de santo sabia que eu ia sair, porque eu não estava aguentando o barulho. Então, eu só ia ficar lá fora porque tava muita gente conversando, assim, antes da gira, antes de acontecer as coisas. Então, eles entendiam que eu ia ficar ali fora, sabe? Então, eu não sei como que é nas outras religiões, mas a gente pensa… Só de entender as dificuldades das pessoas e ver como você pode mudar o ambiente para acolher todo mundo… Porque assim, diminuir o volume não vai atrapalhar ninguém, sabe? Deus vai estar escutando também.
João Victor: Escuta a beça.
Deco: Pô, escuta a beça, pô (risos). Então, é meio… E são coisas que, às vezes, não falando no lugar religioso, mas na vida mesmo, as pessoas falam “mas tem que fazer tudo”. Mas não vai atrapalhar. Tipo assim, todo mundo ainda vai aproveitar o som, só vai diminuir um pouco. “Ah, mas aí é tudo pra você”. Mas, gente, é uma coisa tão simples, sabe? São coisas tão simples que podem ajudar.
Lá no meu terreiro também tem crianças autistas. Durante a gira, todo mundo fica sentado, durante o atendimento e tal, esperando a sua vez. E as crianças ficam correndo e ninguém briga, porque sabem que são crianças que precisam se regular se movimentando ali na sala, sabe?
Então, são essas coisas de só empatia e entendimento que já ajudam muito o ambiente religioso. Porque é um ambiente que tem muitos estímulos. E que muitos estímulos fazem mal pra gente e vocês sabem disso, sabe? Então, ter um acolhimento da religião perante a isso também é uma maneira de mostrar que ali é um lugar para todos, né?
Bruno: Tem uma responsabilidade também, das lideranças religiosas, do padre, do pastor, enfim, de outras religiões também, que levam a sério o que acreditam e que não estão ali para julgar e sim para acolher. E é uma maneira também de conhecer minimamente o que é o autismo, porque eles estão num ambiente de multidão. Fatalmente vai ter um autista ali e é preciso saber pra não ficar na pior das hipóteses dizendo que é o demônio. Ou na melhor das hipóteses achando que é, sei lá…
João Victor: Falta de Deus.
Bruno: Rebelde, falta de Deus, sabe? Encontrar um meio de detectar essas pessoas e acolher dentro da sua diversidade.
Deco: E é exatamente isso, de entender o que é, né? Porque senão fica nessa de: “não, isso aí é energia ruim, isso aí é falta de Deus, isso aí é coisa do demônio”. Não, vamos curar seu autismo. Muitas vezes a gente vai à igreja, né?
João Victor: Nossa…
Deco: Vamos curar seu autismo. Pelo menos nas religiões mais espíritas, na espiritismo e na Umbanda, tem muito do autista ser um ser evoluído. Então ele aí veio, ele encarnou aqui pra ensinar.
João Victor: Eu tenho uma história com isso. A criança índigo, tá ligado? A criança da aura azul clara.
Deco: O anjo azul.
João Victor: Exatamente, é literalmente o anjo azul sendo aplicado numa espiritualidade. Pois é, velho. Eu lembro que já queriam me colocar pra incorporar espírito na primeira reunião mediúnica, que eu fiz parte. E eu era um garoto inocente de 16 anos, que sequer diagnóstico tinha. E eu morrendo de medo de um outro cidadão entrar no meu corpo, no caso um espírito, tá ligado? Tipo assim, “ai, meu Deus, eu vou ser possuído!”
(Risos)
João Victor: “Eu não vou ter mais controle sobre o meu corpo!”.
Deco: Bom demais, quem me dera.
João Victor: Ou seja, eu tive uma crise de ansiedade ali mesmo. E cadê que me ajudaram? Não ajudaram em porra nenhuma. Falaram que eu tinha algum distúrbio, que era por conta de alguma existência passada, que em decorrência disso fez você nascer meio problemático, assim, nesse sentido, sabe?
Deco: Às vezes é uma falta de respeito, né? Falar que tipo…
João Victor: Brutal, Deco!
Deco: “Ah, não, a sua consciência, as dificuldades que você sente hoje, você merece porque você fez isso em outra vida”, sabe?
João Victor: Cara, isso é uma afronta! É muito ruim. Isso é de uma indelicadeza gritante! Cara, mais pela forma como dizem isso no tom de superioridade que o Deco e o Bruno muito realçaram. E tipo assim: “tá vendo como eu sou esse médium, assim, deveras controlado?”. Usam até essa voz de Cid Moreira. Esse médium que trabalha, porque se não trabalha no espiritismo pelo amor, trabalha pela dor. Ah, pra puta que pariu, desculpa.
Marx: E vocês levantaram uma questão extremamente delicada e polêmica, e agora com relação principalmente ao cristianismo, né?
Deco: O que? (risos)
Marx: Cristianismo ter uma cultura muito capacitista.
Deco: Sim, sim.
Marx: Os milagres de Jesus lá curando o paraplégico, lá curando a aleijada, o negócio que falavam. Existe uma visão sobre deficiência dentro do contexto bíblico muito complicada, e a nossa existência dentro do contexto religioso confronta essa lógica, muitas vezes, que principalmente a galera das antigas tinha, de considerar a deficiência como algo a ser consertado por Deus.
Deco: Porque deficiência não é perfeita, né? E a gente é a semelhança de Deus, e Deus é perfeito, então você precisa… Então você não pode ser deficiente.
João Victor: Ou seja, eles usam o conceito de Deus para respaldar algum tipo de perfeição, e através dos próprios versículos bíblicos, eles buscam algum tipo de respaldo espiritual para promover a tal da cura autista, tá ligado? Como foi mencionado aqui.
Marx: Mas só pra gente chegar num consenso aqui, eu não estou dizendo que todos os cristãos, que todas as igrejas são capacitistas, que é todo um bando de filho de uma égua, não, não tô falando isso. Eu estou dizendo que há uma cultura capacitista introjetada dentro da maioria das religiões, porque elas são doutrinas muito antigas, lá de mil, dois mil anos atrás, onde deficiência era sim uma coisa mal vista.
E que se as lideranças religiosas não tivessem essa capacidade de contextualizar isso, e de entender que são outros tempos, e que a deficiência, ela não deve ser tratada como uma coisa que não deveria existir, como uma falha, como um erro, uma consequência do pecado de Adão e Eva, e coisas do tipo. E tratar como uma coisa que faz parte da humanidade, faz parte de quem a gente é, e aceitar isso como uma coisa que faz parte da sociedade, aí nós vamos começar a ter ambientes religiosos menos ruins para pessoas com deficiência do que a gente tem observado ao longo da história.
Deco: E só pra fazer um ponto, que como eu lido com muita gente assim na internet, e principalmente pessoas religiosas, eu sei que vai… muita gente, principalmente quem fala muito mal da religião, de alguns aspectos da religião cristã, né. Gente, a gente tá falando de experiências nossas: “ah, mas eu não sou desse jeito, minha igreja não é desse jeito”. Mas não significa que as outras pessoas não são, e não significa que elas também não representam a religião de vocês.
Porque muitas pessoas falam assim: “ah, mas esse daí não é um católico de verdade”. Mas ainda é um católico, está representando o catolicismo. E está fazendo mal. Então você, em vez de rebater a gente por estar falando das coisas que a gente vive com o catolicismo, por exemplo, rebate seu irmão católico, tá ligado? Que está fazendo isso, pra gente não ter essa visão ruim.
Porque isso aqui, pelo menos eu acho que ninguém aqui está trazendo devaneios na cabeça, que foram coisas que a gente viu e viveu, sabe. E eu entendo que muita gente é aquilo, cara, a religião, tem muita gente legal que tá ali pela caridade, que tá ali pela bondade ao outro, para se evoluir mesmo, a gente sabe disso, mas tem muita gente que tá fazendo muito mal, alguém que também quer ter essa ajuda, que também quer ser ajudado pela religião.
Eu falo isso também como responsabilidade dentro do terreiro, tem muito Pai de Santo que faz trabalhos que eu sou contra e etc. Se a gente não lutar dentro da nossa própria religião com os preconceituosos, a gente não vai conseguir expandir a própria religião nesse sentido. Não que precise expandir ou não, né, mas de ser um lugar acolhedor. Porque o problema pra mim não é existir religião ou não, é não ser acolhedora pra todo mundo, não ser um lugar positivo, sabe. E muitas vezes, pra muitas pessoas não é.
Marx: Bom, meus queridos, então nós chegamos ao final do nosso episódio. Eu gostaria de agradecer mais uma vez ao nosso querido Deco Machado, nosso convidado de hoje.
Deco: Eu vim obrigado, brincadeira, não (risos).
Marx: É sempre um prazer.
Deco: Ó, eu agradeço muito aqui o espaço mais uma vez, adoro estar aqui. Se você não me conhece, segue lá nas redes sociais @odecomachado, eu falo sobre Umbanda e Autismo. Tem o meu show de Umbanda, Testemunha de Oxalá, se você quer conhecer um pouco mais da Umbanda, sem preconceito, é um show onde eu falo de todas as religiões, como todas as religiões são unidas numa força só. Então é um show que eu falo das semelhanças das religiões, puxando mais a sardinha pro meu lado, né, então venha se converter pra Umbanda. E também tô com o meu show Transtorno, começando agora na turnê, que é um show somente sobre autismo.
Então ainda tem um pouco de… tem da minha vida, né, então tem um pouco de religião também. Mas é um show focado muito mais em falar da minha experiência como pessoal autista.
Marx: E é isso, Introvertendo é um podcast feito por autistas, gravado no escritório do NAIA. E até a próxima. Muito obrigado.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: João Victor Ramos e Tiago Abreu | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

