Autistas que falam sobre seus interesses o tempo todo, autistas que fazem movimentos de regulação em público, autistas que simplesmente existem… qual o limiar entre ser uma pessoa chata aos olhares dos outros? Neste episódio, nossos podcasters exploram o que faz pessoas autistas serem vistas socialmente de forma negativa e os elementos sociais que podem estar relacionados a isso. Participam: Bruno Frederico Müller, João Victor Ramos e Marx Osório.
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Transcrição do episódio
Marx: E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e esse é o podcast Introvertendo, um podcast onde autistas conversam.
Bruno: Eu sou o Bruno Frederico Müller, sou historiador e vim aqui pra defender as pessoas chatas.
Marx: (Risos)
João: Olá a todos, sou João Victor Ramos, poeta e sem licença poética: autistas são pessoas chatas sim. Acabou o episódio, pronto, podemos ir embora. Não, não, podem ficar, podem ficar, é brincadeira, podem ficar.
Marx: Hoje nós vamos bater um papo aqui sobre tema espinhoso/cancelável. Autistas são pessoas chatas? Sob a perspectiva dos autistas e sob a perspectiva dos não autistas, né? Porque como diria aquela piada infame antiga, existem dois tipos de pessoas no mundo, navegantes e não navegantes, de acordo com quem? Com os navegantes.
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[Vinheta de abertura]
Marx: E pra gente começar aqui o nosso bate-papo, eu acho que vale a pena falar sobre o conceito de chatice, porque o conceito de chatice é bem relativo, mas há um consenso universal que acho que a gente não pode negar: o chato é aquilo que incomoda. E se incomoda, alguma coisa precisa ser feita a respeito, mas nem sempre é possível. Então, eu gostaria de saber dos senhores qual é a percepção de vocês a respeito do que é chatice, do que vocês consideram chatice, de modo geral.
Bruno: É que o que incomoda é subjetivo, né? O que incomoda a mim pode não incomodar você, pode não incomodar ele e vice-versa. Eu acho que uma pessoa chata é uma pessoa inconveniente, que não percebe a sua inconveniência e que não faz nada para resolver esse problema. Essa é a minha definição de chatice.
João: Vamos lá, é… Me sinto de mãos atadas, pois o Bruno roubou a minha definição. Brincadeira, Bruno. Mas em termos muito específicos, eu não ia fugir muito desse padrão. Pessoas chatas são pessoas que são inconvenientes, que não fazem nada a respeito para pararem com determinadas atitudes que geram essa inconveniência. E por tabela, às vezes fazem até de propósito, sabendo que são inconvenientes, sabendo que vão causar mal-estar, desconforto. Tudo pra ver a cara de bunda de quem está sendo incomodado. Com toda a razão de quem está com cara de bunda.
Marx: Eu vejo que no universo dos neurotípicos existem convenções implícitas, normas sociais a respeito do que é ser chato e do que é ser agradável. No universo autista, isso me parece destoar um pouquinho. Não só pelo fato de a gente ser diferente e fazer coisas que muitas vezes na normativa típica não seria esperado, mas pela própria dificuldade de perceber quando está incomodando as pessoas.
E uma das características do autismo é a dificuldade na reciprocidade socioemocional, isso inclui dificuldade de perceber quando está passando o ponto. E talvez seja uma das coisas que eu mais sofri ao longo da minha vida e que trouxe dificuldades para eu conseguir estabelecer boas relações durante muito tempo, que é não entender quando as pessoas se incomodavam mas nem sempre a pessoa vai falar diretamente que você está incomodando. Vai deixar um sinal, vai jogar uma indireta. E às vezes se a pessoa fala direto é porque já chegou num nível assim estrambólico de incômodo, né?
Mas há uma pergunta polêmica que precisa ser feita. Até que ponto as características do autismo, como os padrões de comportamento repetitivo, a insistência nas mesmas coisas, a rigidez, ela é taxada como chatice pura por algumas pessoas. Eu acho que para quem não tem muito conhecimento sobre autismo e não tem muita vivência com adultos que tiveram diagnóstico tardio, muitas vezes vai soar como deselegância, falta de educação, grosseria, como uma coisa de caso pensado. Mas muitas vezes é o comportamento que foi reforçado pela rigidez, que não teve nenhum tipo de acompanhamento terapêutico.
E sim, tem pessoas que não são autistas que também tem questões que fazem elas serem chatas e se não for trabalhada, se ela não quiser trabalhar, também vai incomodar. Mas falando especificamente do autismo, né? Vocês acham que as características inerentes do transtorno, elas sempre vão ser taxadas de chatice ou depende?
Bruno: Eu acho que depende. Eu acho que existe aí um certo capacitismo de que todas as pessoas têm que se comportar de uma determinada maneira. É claro que o autista também tem que ter a noção de quando ele ficar falando do seu hiperfoco, já deu, né? Tem que passar a palavra para outra pessoa, esse tipo de coisa.
Eu posso até dar um exemplo da minha vida, que eu estava uma vez numa roda de amigos de uma amiga, não eram meus amigos. Era uma roda de bar e tal, né? E pediram uma pizza e tal, eu não como porque eu sou vegano. Aí quando eu falei isso, começou a chover pergunta para mim sobre o veganismo. Eu fui respondendo, respondendo, respondendo. Assim, em minha defesa, eu não estava fazendo proselitismo de nada, eu só estava respondendo as perguntas deles.
Mas depois a minha amiga chegou para mim e falou assim “porra, mas você é chato, hein cara! Ficou lá perturbando as pessoas com o seu veganismo”, porque chegou um momento que talvez o mais indicado seria dizer assim: “não gente, vamos mudar de assunto, vamos falar de outra coisa”, entendeu? Para não monopolizar a conversa.
Mas enfim, eu não tive essa sensibilidade naquele momento. E eu percebo que é uma falta de sensibilidade comum em autistas. Eles se empolgam tanto com seus hiperfocos, que eles não sabem o momento em que realmente já está chato, está na hora de partir para outra.
João: A multiplicidade das possibilidades é imensa. Como o Bruno disse, a amiga dele o chamou de chato e não aturava ouvir mais ele falando sobre veganismo. Mas em contrapartida…
Bruno: Em contrapartida as outras pessoas também eram chatas, me fazendo uma montoeira de perguntas, fazendo interrogatório, como se eu tivesse que me defender de uma acusação grave.
João: Entendi, entendi. Mas é aquele negócio Bruno, nessa situação você estava certo. As pessoas faziam as perguntas, você respondia educadamente e não teve como você perceber que a sua amiga estava incomodada e tudo bem. Mas tem horas que o autista às vezes insiste em falar do seu hiperfoco, mesmo tendo a impressão de que está chato, tá ligado? Tanto é que, parafraseando o próprio Marx Osório, num trecho do episódio 265, temos que normalizar o autista que não quer ouvir o hiperfoco do outro autista.
Marx: É, porque às vezes não é só os neurotípicos que se cansam, não. Tem uns autistas que também cansam os outros autistas, sim.
João: E com toda a razão de ser.
Marx: Mas aí é que entra o ponto que eu acho que a gente entra num limiar difícil de separar o que é realmente a dificuldade do autismo e o que é um aprendizado ruim a respeito da interação social que às vezes a pessoa carrega, né? Porque eu sei que tem coisas que são possíveis de ser trabalhadas em terapia, que você vai aprendendo com a experiência de vida, você vai ficando ressabiado, né? Mas tem coisa que realmente você vai chegar no limite.
João: Claro.
Marx: Cada autista tem o seu limite, até onde ele consegue melhorar algumas coisas. E aí é onde entra a empatia das pessoas. Porque, por exemplo, ninguém vai ficar questionando um autista não verbal por ele não estar falando.
João: Claro.
Marx: Mas às vezes um autista de nível 1 que tem um hiperfoco muito profundo e que muitas vezes vai ser a única coisa que ele vai ter conteúdo pra conversar e ele não vai conseguir falar sobre mais nada, você vai perguntar sobre outros assuntos e ele não vai saber nada. Você vai ficar julgando: “ah, é que essa pessoa é desinteressante, que ela não se interessa por nada”. Às vezes ele não dá conta. Aquilo não tem nenhuma motivação pra ele. Às vezes o nível de intencionalidade dele pra coisas que não são do interesse dele é tão baixo que ele não vai conseguir, ele vai precisar de um suporte pra aquilo, né?
Logicamente que uma pessoa que não tem conhecimento disso, ela não vai ter a obrigação de saber que aquilo é necessário. Então, há essa faca de dois gumes aí também no processo. Vocês já vivenciaram alguma situação que foram vistas como chatos por algo inerente ao autismo? Você deu um exemplo do hiperfoco, né? Eu já vivi inúmeras situações em que eu fui taxado de chato por conta da rigidez cognitiva e por conta do hiperfoco. Hiperfoco em política, por exemplo, que eu tenho bastante. Quantas confusões eu já não arrumei, quantos lugares eu já fui excluído por querer ficar brigando, discutindo com os outros porque tinham uma opinião diferente da minha e eu queria enfiar de qualquer maneira, achava que aquilo estava errado, porque não fazia sentido, porque não tem que ser assim. E seja pro lado A ou B, porque eu já fui de A e de B em várias coisas ao longo da vida. Eu mudei de opinião várias vezes, né?
Eu não tinha aquele entendimento assim de que às vezes você tá numa roda de pessoas, você falar sobre coisas banais da vida, você falar sobre fofoca, que ali é um lugar pra relaxar, é muito melhor do que você ficar tentando provar um ponto e aquela coisa insistente. Eu acho que um bom sintoma de que você tá sendo chato nos lugares é quando você começa a deixar de ser chamado pras coisas, você começa a… as pessoas que por algum acaso te chamaram, começam a não chamar mais, você começa a ficar de fora, você começa a ser excluído. Às vezes tem a ver com isso também, porque existe o ponto em que a pessoa não te aguenta mesmo, o povo fala assim: “ah, não quero ter que lidar com ele, não tô afim”, né? Porque tem níveis de chatice que são bem estrambólicos, sim.
João: Às vezes o medo de ser chato te torna chato. Muitas vezes eu tento iniciar uma conversa com uma pessoa, temo estar incomodando essa pessoa, seja amigo, colega, e essa mera insegurança uma vez exposta, e eu exponho isso de uma maneira muito crua e sincera, por exemplo: “Oi, Marx, tudo bem? Estou incomodando você pra te dar oi, tudo bem?”.
É bem nesse nível, cara, não necessariamente com esse jogo de palavras e frases, mas é bem nesse nível, tipo assim: “olha, desculpa incomodar, desculpa incomodar, desculpa incomodar”, mas é o que ocorre. Outra questão que aconteceu por um número incontável de vezes, nos corredores dos ambientes de trabalho em que eu já estive, tinha vários bancos pras pessoas se sentarem e tal, trocaram uma ideia, e eu ali só andando, andando, andando, andando e dando voltas, pra me regular.
Sem isso, eu fico muito ruim, eu fico muito ruim, tipo assim, as pernas começam a tremer, as mãos começam, sabe? Eu preciso desse movimento, há uma necessidade de movimento muito grande. Aí sempre tinha um inconveniente chegando pra mim e falando assim: “nossa, João, para de andar, cara, tá muito chato, que agonia de ver você andando por aí pelos corredores, pelas salas”. E elas não percebiam que eu não fazia isso por maldade, era porque realmente havia uma necessidade muito grande de me controlar, de me regular, de me manter nos eixos, percebe?
Bruno: Mas olha o que que acontece, será que a gente também não tem que questionar esse hábito das pessoas de rotular como chato outras pessoas que estão simplesmente existindo? Você andando de um lado pro outro, você não está atrapalhando ninguém, você só está existindo. Por que as pessoas não podem ter um pouco mais de empatia, como disse o Marx, de respeitar essa sua característica, essa sua peculiaridade? Existem momentos em que a gente atravessa a fronteira e invade o espaço do outro, mas existem outros momentos em que a gente está só na nossa.
João: Perfeito.
Bruno: E é chato. Tá, mas então se eu sou chato só por existir, o que eu posso fazer para agradar a vossa excelência? Desaparecer da face da Terra?
João: E isso entra naquilo de pedir desculpa por tudo, como falei antes, e ficar com medo de fazer qualquer coisa temendo incomodar e virar uma ameba no mundo, só existir, ficar em cima de uma cama mofando, tá ligado? Isso é combustível para a depressão de muita autista.
Marx: Nesse caso, a pessoa que faz esse tipo de comentário, essa pessoa é chata, que fica criticando estereotipia de autista, né? Já que não está incomodando em nada, não está fazendo mal a ninguém, essa pessoa está sendo inconveniente com você. E aí a gente entra no ponto de quando os típicos ou outras pessoas, de modo geral, elas começam a ser chatas com o autista por ele ser autista e por não estar performando aquilo que se esperaria que ele esperaria que você performasse. E a gente tem que aprender a perceber isso, começar a perceber isso para ficar longe desse tipo de pessoa, sabe?
João: É o mínimo.
Marx: Eu antigamente tinha a impressão de que todo mundo era assim, eu achava que todo mundo era assim, porque todo lugar que eu ia, eu era criticado por alguma coisa de característica minha. Quando eu comecei a andar com outras pessoas, comecei a me afastar desse tipo de gente tóxica, que fica… que não me respeita, eu comecei a perceber que não, não é todo mundo que é assim, porque eu estava andando com as pessoas erradas, com gente chata, com gente capacitista e que fazia eu me sentir mal por eu ser quem eu sou sem nenhuma razão assim que justificasse, né?
E aí a pergunta difícil que fica para a gente pensar é qual é a linha que divide a chatice do autista e o capacitismo do típico. O que que diferencia o que a gente está fazendo de ser uma chatice que precisa melhorar e o que que é o neurotípico sendo capacitista e não respeitando o nosso espaço? Eu acho muito difícil essa resposta a essa pergunta.
João: É muito tênue, cara. É muito tênue.
Bruno: Eu acho que é aquilo que eu já falei, é saber se o que você está fazendo está sendo inconveniente para as outras pessoas. Agora, se é uma questão sua, como é o caso lá do João, andando de um lado para o outro, é uma questão dele que não tem nada a ver com os outros. Ele poderia estar sendo inconveniente se de repente ele está fazendo isso num lugar de passagem, atrapalhando a passagem de várias pessoas. Mas digamos que seja lá num canto onde ninguém está passando. Ele está na dele. Tem que respeitar o momento dele.
João: Eu acho que quando o Marx faz esse questionamento para a gente, Bruno, é porque muitas vezes o autista acaba sendo chato por algum comportamento autístico sem ter a intenção de ser chato. Inconveniente sem querer ser inconveniente.
Bruno: Não, entendo perfeitamente. O cara que também fica meia hora falando dos hiperfocos dele, ele não tem noção de que ele está sendo inconveniente. Então, cabe a nós chegar e falar “fulano” ou “fulana”, “pode dar espaço para as outras pessoas falarem?”. Ou uma coisa que eu costumo dizer, em vez de falar do seu hiperfoco, pergunte sobre o hiperfoco do outro.
João: Ótimo.
Marx: Ou pergunte o que está acontecendo no BBB também, que é um assunto que todo mundo está vendo (risos).
João: A não ser que o hiperfoco da pessoa seja esse. Aí fodeu tudo.
Marx: Lascou. Mas é porque em roda de autistas isso não vai funcionar, cada um vai querer falar daquilo que é o hiperfoco e a maioria dos hiperfocos dos autistas é coisa não convencional. Autista que tem hiperfoco em coisa convencional não é a maioria. Na roda de típicos, você puxa um assunto que está no hype e realmente funciona. Eu faço isso às vezes. Você vai falar do Donald Trump lá querendo destruir o Irã, que é um trem que está em voga. Às vezes você nem tem hiperfoco em política, mas está todo mundo falando disso, porque está todo mundo com medo que o mundo vai acabar. E isso é um assunto aí, corriqueiro e por aí vai.
E quando o autista chato do seu círculo social não é você mesmo? O que fazer? Eu acho que o Bruno já respondeu a essa pergunta, que é você tentar dar uns toques na pessoa.
Bruno: Eu acho que pelo menos uma vez você tem que dar um toque na pessoa. Geralmente mais de uma. O que acontece é que às vezes as pessoas são muito rápidas em excluir. Isso eu não concordo. Você tem que dar uma chance da pessoa entender que ela está com um comportamento inconveniente.
João: Inadequado.
Bruno: Inadequado. Exatamente.
Marx: Eu estava pensando aqui, e isso é até um grifo meu, que nem seria da pauta do episódio, que é o que muitas vezes, e eu passei por isso, tá? Do autista que espelha os comportamentos ruins que ele vê em casa, na família. Às vezes ele também não tem onde aprender a ser uma pessoa legal se ele convive só com gente que tem comportamentos que são socialmente ruins, em alguns contextos. E aí ele acaba espelhando alguém que muitas vezes não é uma pessoa agradável, sem nem perceber.
E aí ele acha que tá certo e quando houve uma crítica ele fala “ai, por quê? Ninguém entende. Por que tá todo mundo contra mim? Por que ninguém me respeita?”. Aí você vai ver a pessoa, ela só fala coisa inconveniente, ela fica criticando tudo, o tempo todo. Fica às vezes atropelando o fluxo da conversa. Ou é aquela pessoa que nunca gosta de nada, né? Tá falando do assunto: “ah, não gosto disso, ah, não sei o que”. A pessoa que também não consegue ter um repertório mínimo de o que está acontecendo no mundo, ela vai ter mais dificuldade social, naturalmente. E aí, às vezes, trabalhar a questão do interesse por outras coisas pode ajudar também a pessoa a se virar melhor um pouquinho no contexto social.
Sobre a diferença do que é considerado chatice no ambiente social para o ambiente familiar, para o ambiente de trabalho. Porque eu vejo também que para o autista transicionar entre lugares e ter que performar os papéis diferentes é meio complicado, né? Eu comecei a viver essa experiência quando eu entrei nos grupos de adultos lá do NAIA. Você tá só no meio de autista, que não tá nem aí se você faz estereotipia, se você fala de um assunto só, é totalmente diferente, é uma cobrança social muito menor do que você tá no lugar onde se você falar uma coisa fora de contexto, fica todo mundo olhando esquisito.
Hoje em dia, vocês conseguem fazer essa transição com mais facilidade ou ainda é uma questão de sentir a diferença dos lugares e conseguir se virar bem neles?
Bruno: Para mim, pelo menos, o segredo é saber a hora de calar a boca. Em qualquer situação. E saber a hora de falar também e o que falar. Essa preocupação, por exemplo, de falar sobre os meus hiperfocos, eu já não tenho mais. Eu já aprendi a deixar os outros falarem mais do que eu mesmo, entendeu? Então, é uma situação a menos para você ser acusado de chatice.
João: Quando eu transiciono para o ambiente de trabalho, eu me sinto condicionado a adotar certos padrões de comportamento que em casa ou no próprio NAIA eu não tenho. Eu fico bem mais encolhido, retraído, num estado de alerta constante. Sempre que eu não bato alguma meta ou acabo não logrando êxito em expressar alguma dúvida, em expressar alguma solicitação…
Marx: No final das contas, você consegue transicionar então, dos ambientes?
João: É algo gradativo. Nos primeiros meses é meio foda, sabe? É algo que eu precisei ensinar a mim mesmo a duras penas. Não é automático, bate e pronto. Sobretudo quando há mudança de sala, mudança de ambiente, no sentido de tipo: “ah, troca o computador, troca o armário, troca a função, troca o procedimento que você vai ter que fazer para alcançar determinado objetivo”. Aí lá vai eu ter que fazer três mil perguntas para os coordenadores quando não estou entendendo bosta nenhuma. E medo de parecer chato por não estar entendendo nada ou complicado, sei lá.
Marx: E tem aquela questão também de que a velocidade de comunicação dos típicos às vezes não é fácil de acompanhar. Eu acho muito paradoxal porque a velocidade de comunicação e entendimento deles às vezes é mais rápida do que a própria complexidade do que está sendo falado. Então não é uma dificuldade às vezes cognitiva de entender o que está rolando, mas é a falta de acompanhar o nível de diálogo mesmo. E é uma coisa que eu faço muito, é ficar observando como eles conversam para ter uma previsibilidade do que esperar quando você vê eles interagem entre si ou quando vier falar alguma coisa com você.
Porque tem muita coisa que é imprevisível e tem coisa que é código implícito da própria cultura daquelas pessoas que estão ali, né. Tem coisa que varia de ambiente para ambiente, mas tem algumas que eu vejo que é comum das pessoas típicas, pelo menos no Brasil, porque eu nunca saí do Brasil, que é comum de pessoas típicas quando vão interagir, que no autismo não se observa. Que é meio, parece que tem um buraco ali, sabe? Um vácuo de comunicação.
João: Pois é, é como se você estivesse se sentindo na obrigação de aprender um determinado conjunto de habilidades, condicionar essas habilidades a algumas regras para aplicá-las da melhor forma e ainda assim sentir que está correndo um grande risco de fazer tudo errado.
Marx: É, o importante é você conseguir entender o máximo que você der conta.
João: Claro.
Marx: Mas também não esquecer que você não pode se cobrar além do que você consegue.
João: Ah, uma tarefa difícil.
Marx: Voltando ao que eu falei lá no começo, cada autista tem o seu limite. E se as pessoas sabem que você é autista, elas têm que saber que você tem um limite até onde você vai. O meu limite no contexto de trabalho é com a permanência social. Então eu sou aquela pessoa que eu converso, interajo ali de boa, mas quando eu canso eu viro as costas e saio. Eu não fico. Às vezes a galera fica lá duas horas falando sobre algum assunto lá, está achando mó legal, às vezes eu comento alguma coisa e tal, tal. Eu cansei, eu saio de fininho e vou pro meu canto. E você não vê as pessoas típicas fazendo isso. Às vezes a pessoa emenda o assunto no outro.
João: E fica aquele caldeirão, tá ligado? E você fica boiando no meio daquela mistura.
Marx: E às vezes eu nem fico boiando, mas é porque eu canso mesmo, sabe?
João: Entendi.
Marx: E aí entra a questão da permanência social também, que às vezes você tá entendendo, às vezes é até interessante o que eles estão falando. Mas aí a bateria faz isso aqui.
João: Queda livre.
Marx: E aí você não vai ser o chato que vai chegar e vai falar “nossa, eu estou cansado,
esse assunto tá muito pesado”. Não, você simplesmente se retira, vai fazer outra coisa.
Bruno: Mas o simples fato de você vazar, outra pessoa pode achar você chato.
Marx: Aí vai depender…
João: E é o que já aconteceu, perdão, Marx, demais comigo. Demais. E nessas horas eu faço questão de ser chato mesmo, porque essa é uma das únicas situações em que eu não me importo se eu tô sendo chato ou não. Eu só aviso, dou um beijinho, um beijinho, tchau, tchau, abraço e partiu casa. Porque nessas horas é quando a bateria tá beirando 0% e eu entro no modo alerta para recarregar.
Marx: E aí vai depender de como as pessoas lidam com você.
João: Basicamente.
Bruno: No seu trabalho todo mundo sabe que você é autista.
João: Sim.
Bruno: E aí já existe um respeito maior com relação a esse tipo de situação?
Marx: É, a galera meio que já sabe que em alguns momentos eu não vou conseguir agir e permanecer como eles. E é isso. Teve uma confraternização da firma lá no final de dezembro. Eles colocaram um monte de gente dentro de uma cantina, que não era um espaço tão grande, um monte de mesa. Eu acho que tinha mais de 50 pessoas num ambiente que foi projetado pra ter 20. Um barulho ensurdecedor de gente conversando alto e aquela algazarra de gente e tal.
E lá começou de manhã, umas 11 horas mais ou menos. E aí foi dando meio dia, uma hora, um e meia e nada de sair o almoço. E eu com a viagem pra fazer pra ir lá pro Rio Quente. E eles tinham servido só as entradas e eu já incomodado com o barulho. E é aquela coisa, se eu boto um abafador eu não consigo conversar com ninguém. E eu tava numa mesa lá com a galera, que é mais chegada. Aí toda hora eu ficava saindo, pra fugir do barulho, aí entrava, saia, entrava. E chegou um ponto que eu não aguentei mais. Eu falei: “Beatriz, vambora”. Ela tava lá comigo. E aí a galera entendeu. “Ah, não vai esperar o almoço?”. Eu falei “Não, eu não tô aguentando mais o barulho”. “Ah, é verdade”. “Vou viajar”, não sei o que e tal.
Então assim, também tem essas particularidades. E você não precisa ser aquela pessoa que também fica criando uma justificativa homérica pra tudo que você vai fazer. Se você tá com alguém que não entende, que você não tá sentindo bem num lugar, que é que tá te fazendo mal, que fica te cobrando por isso, aquela pessoa é chata.
Bruno: O chato é ela.
Marx: O chato é ela. Então, pessoas que entendem também as suas limitações são pessoas pra você ter um pouquinho mais de apreço. E gente que só sabe reclamar é chato. E é sobre isso.
João: Chatice independe de autismo, tropinha. Que fique claro.
Marx: É, o autismo só piora a chatice (risos).
João: Realça bastante. Bastante.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Tiago Abreu

