A pandemia de COVID-19 deixou marcas profundas em muitas pessoas e, no Introvertendo, não só passamos por ela como falamos dela em muitos episódios da formação anterior. Cinco anos após o início desse período, fizemos uma retrospectiva do que mudou para sempre em nossas vidas e como tem sido a vida nesse mundo pós-pandêmico. Participam: Bruno Frederico Müller, Gustavo Borges e Maysa Antunes.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam. Eu sou o Gustavo Borges e eu higienizo minhas mãos com mais frequência usando álcool em gel do que água e sabão.
Bruno: Eu sou o Bruno e eu demorei muito tempo pra me desapegar das máscaras.
Maysa: Eu sou a Maysa e o período da pandemia pra mim foi bem caótico e de descobertas.
Gustavo: Você que está nos vendo e você que está apenas nos ouvindo, aproveite para poder seguir o @introvertendo em todas as redes sociais. Estamos no Instagram, no Facebook e no eterno Twitter. Acesse também o nosso site introvertendo.com.br. Lembrando que o Introvertendo é um podcast feito inteiramente por autistas e produzido pelo NAIA Autismo.
[Vinheta de abertura]
Gustavo: No começo de 2020, mentiram pra gente que teríamos que ficar três meses em casa. Eu devo ter passado pelo menos uns três anos. Queria ter passado seis. Como é que está a vida após a OMS declarar oficialmente o fim da pandemia?
Bruno: Eu levei muito tempo pra sair do modo pandemia também. Só depois que eu tomei a última dose da vacina que eu abri mão da máscara, que eu voltei a sair de casa com mais frequência. Não confiava nos prognósticos das pessoas de que já era seguro sair de casa.
Gustavo: Ah, então você fez muito bem, porque eu tomei três doses da vacina, indo pra quarta, já tomei a quarta na verdade, e continuei usando máscara assim para além.
Maysa: Eu ainda tenho um estoque de máscaras, umas 80 máscaras ainda. álcool em gel também, continuei ainda com essa mania, né, assim, entre aspas, o hábito de ficar utilizando o álcool em gel. É bem frequente, eu tenho álcool em gel no meu carro, ando com um pequenininho, no guarda-roupa, então assim… Nos lugares, assim que eu, por exemplo, vou apertar o elevador, aí eu vou já com o dedo assim, sem querer muito tocar, né, e já passou álcool em gel depois. Então, acho que são rotinas, né, que a gente demora um pouco para desapegar.
Gustavo: Ah, eu não tenho nem intenção de desapegar não, eu continuo apertando o elevador, ou com o cotovelo, ou com a chave do carro…
Maysa: Sim!
Gustavo: Qualquer coisa pra não tocar em nada. Virei Monk: Um detetive diferente.
Bruno: É, eu acho interessante que muita gente que já possuíam essa germofobia, só piorou depois da pandemia, né.
Gustavo: É porque eles finalmente tiveram um motivo plausível.
Bruno: Depois que eu tirei a máscara, eu acho que eu voltei a levar a vida normalmente.
Eu desapeguei do álcool em gel também. Agora eu já me sinto mais seguro na rua, não tenho… Só no ônibus, assim, quando eu pego o ônibus lotado, eu sinto um certo incômodo. Às vezes dá saudade da máscara. Mas, como eu não ando com máscara no bolso, então…
Gustavo: Ah, um ali no fundo da mochila, pra de vez em quando é legal.
Bruno: É, verdade.
Gustavo: Eu já não me aproximava tanto das pessoas fisicamente, eu acho que eu mantive isso, só que ficou mais fácil. Está socialmente mais aceito hoje no Brasil você acenar pra pessoa do que apertar a mão dela.
Bruno: É verdade, apertar a mão foi um longo processo para voltar a praticar esse ato. A pandemia, pra mim, na verdade, ela não afetou muito o meu cotidiano, porque eu já era meio recluso mesmo, então eu apenas mantive a minha rotina na época. Eu morava só eu, com a minha namorada e o filho dela. E eu fazia trabalho só de revisão na época também, então eu não interagia muito com as pessoas. E nesse sentido, eu não senti muita diferença assim… Muita mudança no meu cotidiano.
Gustavo: Você tinha a alegria de trabalhar remotamente desde aquela época, porque a gente teve um boom forçado de pessoas trabalhando remotamente. E estão até hoje se esforçando muito pra poder enfiar todo mundo de volta nos escritórios superlotados de regiões de difícil acesso na cidade. É um problema porque pra mim, pelo menos, era muito conveniente trabalhar na minha casa. Então eu já tive trabalho remoto, eu já tive freelance remoto, eu já tive desemprego remoto, tudo remoto era melhor pra mim. Vocês têm essa preferência clara por trabalhar remotamente? Vocês são indiferentes? Vocês aproveitaram? Vocês estão sentindo falta?
Maysa: É meu sonho (risos), eu queria. Mas assim, eu não cheguei a trabalhar remotamente. Eu estava trabalhando normal no período da pandemia, não parei de trabalhar. Pelo contrário, na época aumentou o meu serviço na área de avaliação de imóveis. Então é uma parte do serviço em campo, de ir nos imóveis, fazer vistorias, e uma parte no computador, fazer os laudos, os relatórios. E nessa época aumentou bastante o meu serviço, o que foi uma situação estressante. Eu ficava naquele meio de muito estresse, de muito medo de ficar exposta. E também: “nossa, eu preciso ser grata porque eu tô tendo trabalho”. Muita gente fez foi perder o emprego e tal. Aconteceram muitas mudanças em um curto período. Eu mudei de casa duas vezes nesse período. Teve essa questão do trabalho.
Na época eu entrei no mestrado, e aí o que que acontece? Eu estava fazendo um curso de inglês, terminando uma especialização, e aí iniciei o mestrado. E aí eu tava assim: “nossa, eu não vou conseguir fazer esse mestrado, vou desistir”. Só que aí veio a pandemia, aí: “ah, o mestrado vai ser online”. Aí eu: “ah, então eu vou conseguir, vai ser tranquilo”. Doce ilusão. Foi muito estressante. Eu hiperfoquei na minha pesquisa, aí eu peguei ranço porque eu entrei num cansaço muito grande. Aí eu troquei de tema no meio do mestrado. Hiperfoquei de novo, foi muito estressante mesmo. E eu perdi duas pessoas bem próximas a mim, da minha convivência. Então, muita coisa, sabe? Num curto período.
E a relação com o autismo, a questão dessas mudanças, a dificuldade que a gente tem de lidar com a mudança de rotina, essa rigidez cognitiva. E todo esse estresse perdurou por muito tempo. Eu ainda tenho vestígios ainda desse estresse, por exemplo, em relação ao mestrado. Que depois eu entrei numa exaustão mental tão grande que eu não aguentei mais ver minha pesquisa de mestrado. E nem tentar atuar na área do mestrado que eu fiz até hoje. Então é algo ainda difícil para eu lidar, difícil. Porque quando a gente hiperfoca em algo relacionado a trabalho ou estudos, acaba que vem o burnout depois. Então, é bem complicado. Então isso ainda é difícil para mim.
Gustavo: Todo mundo acha que vai ser mais fácil o mestrado quando está em casa. Minha esposa também passou por isso. Ela conseguiu terminar o mestrado com muita raiva também. Já completamos cinco anos da data em que houve o início formal, oficial da pandemia. Até pessoas consideradas neurotípicas, totalmente padrão, falam que hoje é mais difícil se comunicar ou interagir, conhecer pessoas, toda essa questão. Para a gente que já tinha essa dificuldade antes, tão tradicional do autismo, mudou alguma coisa? Está exatamente igual? Está ainda pior? Ou está mais fácil agora que as pessoas têm um pouco mais de limite?
Bruno: Para mim, eu não vejo diferença não. Porque já era difícil antes e eu não vejo como ficar mais difícil do que já é.
Gustavo: Está no mesmo grau de dificuldade?
Bruno: Está no mesmo grau de dificuldade.
Maysa: Eu tive fobia social de lidar com as coisas online. Eu não esperava que isso iria acontecer. Porque a fobia social, pessoalmente, alguma ansiedade, você fazer alguma apresentação no auditório, algo assim, ok. Já havia acontecido comigo. Mas nesse período, eu fazendo mestrado online, eu tinha que fazer as apresentações ligando a câmera e tal.
Eu passei a ter uma fobia social tão grande, uma ansiedade tão grande, de… nossa, horrível.
Bruno: De expor publicamente?
Maysa: De expor, de ligar a câmera, falar. Eu fiquei sem entender. “Mas como assim, é online. É mais fácil. Por que eu estou desse jeito?” Eu me isolei muito, mais ainda do que eu já estava. Fiquei muito isolada, até por questão de hiperfocos também na época. E isso demorou um pouco para melhorar essa questão em mim, dessa fobia social.
Gustavo: Olha, o Altay de Souza, do podcast Naruhodo, ele é psicólogo, acadêmico, eu não sei no que é o doutorado dele, mas ele é da área da psicologia. E ele falou de estudo, falando dessa questão de tantas reuniões no Zoom e tudo mais, que se você for observar proporcionalmente, os rostos estão muito próximos de você. Você não está acostumado a ver, não sei, 5 rostos a 1 metro, 30 centímetros, 40 centímetros de distância, e numa proporção que eles estariam maiores se eles estivessem pela proximidade com a câmera, eles parecem tudo muito grandes. Então é normal as pessoas já saírem mais exaustas de uma reunião por Zoom do que de uma reunião normal, porque está tudo muito perto de você. Então isso provavelmente teve a ver com essa fobia, esse pânico que você estava tendo antes de começar, de ter que pensar, ter tanta gente que você vê bem colada na sua cara.
Maysa: É, umas 20 pessoas numa aula, por exemplo, faz sentido mesmo. Nossa, eu ficava muito exausta, muito difícil.
Bruno: Eu também senti uma diferença na exposição de falar em público. Porque eu venho da área acadêmica, eu sou professor e tal, então assim, eu estou acostumado a falar em público, mas eu percebo que depois da pandemia eu acho que eu desacostumei. E pra mim é mais difícil participar de dar uma palestra, participar de um colóquio, alguma coisa assim.
Maysa: Eu me senti bem travada em relação a isso, de como lidar com o público presencialmente. Porque eu tive esse problema online e eu fiquei assim: “Nossa, como que eu vou conseguir fazer isso presencialmente?”. Então eu fiquei bem travada em relação a isso.
Gustavo: Eu tinha, na verdade, conseguido outro emprego, não que eu estava na época, mas como publicitário a minha vida é bem de escritório. Então são aquelas mesmas pessoas, daquele mesmo grupinho, que você tem convivência diária ali. E você conviver com eles no auge da pandemia e ver todo mundo ficando mais tranquilo, aproximando mais, tirando a máscara pra comer o negócio. Tudo isso já foi assim, um tanto agonizante pra mim. “Para, para, estava bom antes, todo mundo longe, pra que vocês querem fazer isso?”
Como era uma empresa velha e grande, meio que estava cada um na própria sala, e quiseram deixar mais pessoas mais próximas, mais juntas. Fui totalmente contra, foi horrível (risos). Todo mundo teve que fazer um monte de reunião por Zoom de trabalho, mas e com família? Vocês continuaram a falar por vídeo com alguém?
Bruno: A minha convivência na época era realmente só dentro de casa. Eu já perdi meus pais, tenho uma irmã distante, então, como eu falei, eu fiquei muito fechado no meu mundinho. E até já estava fechado antes da pandemia chegar. Então a pandemia, ela, pra mim, não foi um choque tão grande quanto eu percebo que foi para outras pessoas. Eu não sei como é que seria isso hoje, porque hoje eu moro sozinho. Então eu dependo muito de estar na rua agora pra socializar. Aí já não sei se eu me adaptaria tão fácil.
Gustavo: Você falou que no começo da pandemia você morava com sua namorada e o filho dela, e que agora você está morando sozinho. Como é que foi esse desafio de fazer uma mudança na pandemia, o que não é fácil, a Maysa já falou que fez duas, então piorou.
Mas você agora mudou o status de como você vive, de com outras pessoas para completamente sozinho.
Bruno: Então, eu me mudei já no finalzinho da pandemia. Muita gente já não estava mais andando de máscara e tal. Foi, se não me engano, julho de 2022. E eu só fui tirar a máscara mesmo, acho que janeiro de 2023, quando eu tomei a última dose da vacina. Eu viajei de máscara, mudei de cidade, né? Eu viajei de máscara e nas ruas continuei andando de máscara, mas fora isso não teve nada muito digno de nota não, porque já estava bem mais tranquilo. Se fosse no início, lá no auge da pandemia, eu estaria bem nervoso.
Gustavo: De estar tendo que passar por tudo isso e sozinho indo por cima.
Bruno: Exatamente. Eu sou grato de, na verdade, durante a pandemia, eu ter podido viver na minha bolha, entendeu? Sem me expor muito. Porque para sair de casa, eu sentia uma apreensão muito grande.
Gustavo: Eu tive a sorte de mudar de endereço em 2019, então assim, tranquilíssimo. Nem sonhávamos com esse tipo de problema e estou no mesmo endereço até hoje, o que facilita muito.
De relação com família, eu não tenho uma proximidade tão grande com muitos deles, alguns ficaram ainda mais distantes, aquele parente que você via três vezes no ano, você passou a ver uma vez por ano. Porque era aniversário, porque alguma data que não tem como escapar ali. Teve um momento de chamadas de vídeo, não durou muito na minha família, mas as chamadas por voz ficaram mais frequentes.
E a minha sogra, especificamente, até hoje só liga para a filha dela por vídeo. Se fala numa base quase diária e sempre por vídeo. Se estiver escuro, vendo filme ou alguma coisa, tem que acender a luz. Ela quer ver a gente agora e fazer parte e saber como está. Mesmo a gente indo lá agora, a cada 15 dias praticamente, ainda continua tendo essa questão de quero ver, quero vídeo. Essa parte da chamada de vídeo parece que não morreu por lá.
Bruno: E vocês tiveram alguma dificuldade para começar a usar máscara? Porque muita gente fala que o autista não consegue, não conseguiria usar máscara. Inclusive, teve uma polêmica na época que era se a gente deveria aceitar que os autistas andassem sem máscara nas ruas. O que para mim soa meio eugenista.
Gustavo: Eu me lembro de um ainda mais desagradável, que eram pessoas forjando laudo de autista com médicos questionáveis para poder andar sem máscara. Eu não sou obrigado a usar máscara, eu sou autista. Eu lembro de ver isso, horrível. Não tive dificuldade, felizmente. Na verdade, a única dificuldade que eu tive foi encontrar uma máscara nas primeiras semanas. Depois que a gente acha a última farmácia distante que não vendeu o último pacote de máscaras, a gente encomendou umas da internet e ficou tudo fácil. Eu entendo que é colocar algo novo na rotina e é estranho sim. Várias vezes você abre a porta da frente e percebe “nossa, não coloquei a máscara”. Fecha, bate a porta, volta e coloca. Mas por ser uma coisa muito lógica: “olha, tem uma doença letal lá fora, coloque isso para se proteger”, eu acho que ficou mais fácil para os autistas em geral aceitarem.
Maysa: Também não tive dificuldades, não. É claro que tinha máscaras que ficavam mais ajustáveis, confortáveis. Ao longo do tempo foram surgindo vários modelos de máscaras, mas eu acho que o medo acima de tudo… nossa, eu colocava até uma máscara em cima da outra. Então o medo passava por cima do desconforto.
E nessa época eu não tinha ainda o diagnóstico. Eu tinha desconfianças. Antes da pandemia eu ficava pesquisando bastante, colecionei alguns livros de psicologia, ficava lendo. Me perguntava: O que eu tenho? Sempre ali naquela tentativa de descobrir por que eu me sentia diferente. E aí no período da pandemia eu conheci minha psicóloga, que eu permaneço com ela até hoje. Conheci ela fazendo as sessões online. E aí ela, especialista em neurodivergência, já começou a suspeitar.
Então meu diagnóstico foi fechado no começo de 2024, começo do ano passado. Mas nesse período a gente já estava investigando. E também comecei a procurar também mais na internet, no YouTube. E aí nessa época também eu conheci o Introvertendo. E eu me sentia amparada à distância. “Nossa, tem pessoas parecidas comigo”. Eu estava tão isolada. Então eu busquei esse apoio na internet, o que foi a parte boa. É o que eu falei no começo, que eu tive descobertas nesse período, que foi isso, eu começar a pesquisar, começar a ver depoimentos de autistas adultos na internet. Então teve essa parte da descoberta nesse período.
Gustavo: Olha Maysa, você trouxe uma questão de grande relevância, que foi a alta no número de diagnósticos de autismo durante a pandemia. Eu não acho que nenhum autista ficou mais autista durante esse período. Mas depois que passou aquele momento de “vamos todos morrer” para o momento de “muita gente vai morrer” e todo mundo ficando exaurido, começou a ter mais um debate social mesmo sobre saúde mental, sobre se cuidar. E eu acho que isso foi meio que geral. O pessoal passou a perceber que muitas pessoas, por passarem quatro meses inteiros sem fazer nada mais longe do que levar o lixo para fora, estavam sendo prejudicadas e o número de pessoas que entraram em depressão por isso, por essa falta de interação, pela nova realidade que estavam enfrentando, cresceu muito.
E com isso veio toda essa busca a mais, com pessoas indo atrás de tratamentos, com pessoas indo atrás de diagnósticos, para entender o que são ou porque estão se sentindo dessa forma. E eu acho que nisso veio muito mais gente descobrindo ser autista,
porque buscou e depois foi atrás de um profissional, ou porque achou que estava muito deprimido e foi atrás disso, e no meio desse caos todo se descobriu autista com profissionais. Acho que teve esse aumento real por causa disso.
Por um acaso, eu fui formalmente diagnosticado durante a pandemia, mas foi mais uma questão de ter conseguido um dinheiro e uma oportunidade, porque eu já era considerado autista por pessoas ao meu redor. Então eu já… Informalmente eu já estava bem, mas eu consegui um papelzinho bonito com isso.
Bruno: Eu fui diagnosticado um ano antes da pandemia, em 2019. O que acontece é que muita gente, durante a pandemia, pela primeira vez ficou diante de um psicoterapeuta ou de um psiquiatra, né? Assim, mesmo que seja à distância, mas…
Gustavo: Teve uma conversa direta e privativa com o profissional da área.
Bruno: Exatamente. Consultou um profissional da área. E aí, isso provavelmente ajudou a dar uma espiralada no número de diagnósticos.
Maysa: É, porque muitas pessoas tiveram depressão, ansiedade nesse período. Eu mesma, o nível de ansiedade aumentou muito, assim. Eu estava tomando três medicamentos só pra ansiedade e depressão nessa época. Mas o que que estava por trás? O que que tem por trás disso? E as questões sensoriais, outras questões das nossas dificuldades que estressam, né? Então, foi importante perceber isso nesse período.
Bruno: Vale destacar que o preconceito com quem frequenta terapia, psicoterapia, psiquiatra, ainda é muito grande no nosso país. Então, realmente tem gente que provavelmente não teve diagnóstico antes, porque nunca tinha passado pela sua cabeça consultar um desses profissionais.
Gustavo: Ah, o preconceito com certeza continua grande. Isso vale não só para nós, neurodivergentes, mas para sociedade em geral. Só que aquela pessoa que tinha uma opinião meio neutra, de “psicólogo não é uma coisa ruim, só não é pra mim”, ela se abriu um pouco mais a essa possibilidade nisso aí que ela foi descoberta, nisso aí que ela foi diagnosticada. Hoje é mais tranquilo você falar pra pessoa que tá fazendo acompanhamento com psiquiatra, é mais tranquilo você falar no trabalho que um dia da semana você precisa chegar um pouco mais tarde ou sair um pouco mais cedo porque você tem consulta com o psicólogo. As pessoas não te olham mais feio como você falava isso em 2018.
Maysa: Eu vejo assim que acabou se tornando mais prático essa questão das terapias online. Antes da pandemia eu tentava fazer terapia, ia lá, até tive encaminhamento para neuropsicóloga para investigar, mas eu faltava muito porque eu passava muito estresse no trânsito, para estacionar quando eu chegava lá e tal. Então assim, online ficou mais prático, então eu fiquei mais frequente nas terapias online, fazendo direitinho, semanalmente e tal. Então acredito que muitas pessoas também devem ter feito terapias mais frequentes nesse período.
Gustavo: Com certeza, eu me recordo dessa discussão em algum episódio com a formação original do Introvertendo, onde falavam da questão de escassez de profissionais e escassez geolocalizada de profissionais. Pessoal que mora nos interiores, pessoal que às vezes mora numa cidade de médio porte, mas que não é tão bem desenvolvida, que até tem um psiquiatra, mas como ele é sozinho na cidade, ele atende muito caro, ficou muito mais fácil pra você conseguir um profissional de outro lugar, porque se antes era uma coisa inconcebível você fazer uma consulta por vídeo, hoje tem gente que pode ir até o dermatologista por vídeo.
Maysa: Eu faço isso.
Gustavo: Viu? Ficou mais comum, ficou mais aceitável. Então um pessoal que não tinha como se deslocar até um psiquiatra, um pessoal que até tinha, mas o percurso era muito estressante, ou simplesmente uma pessoa que não tinha pensado nessas possibilidades antes, agora passa a pensar, passa a ser algo que existe, já que existe, vou fazer isso. E aí, mais descobertas. Mais laudos.
Maysa: É a questão da necessidade, mesmo que haja pessoas que falam: “ah, eu prefiro a consulta presencial, cara a cara”, mas a questão é a necessidade, o sofrimento na época. “Independente de ser online, vou buscar ajuda”.
Gustavo: Com toda certeza, você pode preferir a consulta presencial, mas o especialista mais próximo de você está a 411km, como você faz? Inclusive, eu acredito que esse episódio seja de número 125, Autistas em Cidades do Interior. Já passou muito tempo, mas eu tenho certeza que pontos estratégicos ali continuam atuais.
[Transição]
Gustavo: Interrompemos rapidamente esse episódio para levar até você a palavra da Revista Autismo, a maior publicação sobre o tema em língua portuguesa do mundo. A revista existe em edição impressa, publicada regularmente, que aqui em Goiânia você pode encontrar na sede do NAIA.
Se você preferir, você pode ler tudo digitalmente pelo canalautismo.com.br. Lá houveram inúmeras reportagens falando especificamente da pandemia, sobre como a pandemia afetou grupos autistas, como pessoas autistas contornaram suas limitações durante o período da pandemia, e como isso afetou a socialização de cada um de nós.
[Transição]
Gustavo: Todos nós tínhamos algum plano no começo de 2020, seja para curto prazo, seja para longo prazo, o que projetava para o próprio futuro. E aí a gente viu que todos os planos foram por água abaixo, e a gente ainda sabe que deve vir outra pandemia mais forte ou mais fraca, num futuro distante, não tão distante assim. Como vocês lidam com planejar o futuro hoje? Vocês tentam planejar mais? Vocês tentam planejar menos? É plano B, C, D, E, F?
Bruno: Depois da pandemia deu uma bugada comigo.
Maysa: É, também. Até assim, por exemplo, viagem, que na época ficou completamente bagunçado nessa questão. Eu tentava viajar pelo menos um pouquinho no final do ano, né? E aí nesse período não teve como. E aí, quando você pensa em planejar uma viagem com mais antecedência, aí vem aquela bugada assim: “nossa, mas será?”
Gustavo: Eu tenho duas viagens marcadas para esse ano e eu não gostei disso. Agora terei mais uma coisa para poder pensar.
Maysa: Não, é no meu caso eu fico meio assim. Porque realmente impactou bastante esse período para mim. Como eu falei, foram muitas mudanças, muita coisa que mudou muito rápido, em várias áreas da minha vida. Então fica aquela bugada ainda para planejar as coisas, sabe?
Gustavo: Mas você voltou a viajar no final do ano como você gosta? Você deixa para marcar muito em cima? Você só vai, nem vai?
Maysa: Não, ainda estou bagunçada em relação a isso.
Bruno: O que pega para mim mais é o planejamento de vida mesmo. Porque também, junto com a depressão, é uma situação um pouco complicada na minha vida atualmente.
Maysa: É, também. Me identifico isso também.
Gustavo: Ah, eu acho que projetos do tipo: “ah, em cinco anos eu pretendo ter mudado para outro endereço, eu pretendo ter subido na minha carreira, me desenvolvido e conseguido tal coisa”, fica meio que incerto. Até no sonho você está incerto, porque você fala: “não, em algum ponto, em alguma hora eu vou conseguir”. Hoje é tudo tão impreciso que eu não sei mais se… Poxa, eu quero daqui a uns três anos estar em outro lugar, mas… Será mesmo que eu vou conseguir? Será que daqui a dois anos não vai ter outro negócio que muda tudo e vale a pena planejar? Então… Sonho mais baixo, eu acho. Sonho querendo que aconteça, mas já estou mais preparado ainda para poder dar errado.
Maysa: Sim, exatamente. Quando eu falei sobre bugação, que ficou bugado, foi nesse sentido, assim, de incerto. Essa é a palavra certa, como você falou.
Gustavo: E, me perdoem por constatar o óbvio, os autistas não gostam do incerto.
Maysa: É, exatamente (risos). Fica muito estranho, né, assim…
Gustavo: Bom, gente, nesse mundo de incertezas, a gente nunca sabe se na próxima semana vai ser anunciada uma nova pandemia global. O importante é que, mesmo assim, teremos um novo episódio do Introvertendo na próxima sexta. Então, espero ver vocês lá. O Introvertendo é um podcast feito inteiramente por autistas, produzido pelo grupo NAIA Autismo e gravado aqui na Faculdade Realiza.
[Música de encerramento]
Gustavo: E vocês, gente? Como é que tá a vida após o autismo? Nossa… (risos) Desculpa!
Maysa: Tô meio bugado aqui.
Gustavo: Você quer falar primeiro?
Maysa: Não, tô falando pra você. Deixa você falar primeiro. Tô bugada.
Gustavo: Tá…
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Tiago Abreu | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian

