Durante a vida inteira, autistas vivem com aquela sensação de não conseguirem se encaixar. Um dos motivos é justamente a dificuldade de entender o que é esperado em situações sociais, e pequenas atitudes consideradas inadequadas podem comprometer a socialização. Neste episódio, nossos podcasters revistam as regras sociais que mais detestam ou comprometem sua vida, e como essas regras estão dissolvidas em relações de trabalho, relações de amizade e outros contextos de interação. Participam: Brendaly Januário, Izabella Pavetits, João Victor Ramos e Maysa Antunes.
Links e informações úteis
Agradecemos a todas as pessoas que apoiam o Introvertendo no Apoia-se, Catarse ou Patreon neste momento: Aline de Queiroz Silva, August Resende, Fernando Silva de Oliveira, Luciano Queiroz e Luiz Anísio.
Acompanhe-nos nas plataformas: O Introvertendo está disponível nas seguintes plataformas: Spotify | Apple Podcasts | Deezer | CastBox | Amazon Music | Podcast Addict e outras. Siga o nosso perfil no Spotify e acompanhe as nossas playlists com episódios de podcasts.
*
Transcrição do episódio
Brendaly: Olá você que está ouvindo ou assistindo o podcast Introvertendo. Eu sou a Brendaly Januário e hoje vamos falar de um assunto que todo mundo diz que é importante, mas que muitas vezes nós nos sentimos cansados, irritados ou até mesmo com a sensação de que estamos errados: as famosas regras sociais.
Maysa: Olá, me chamo Maysa, tenho 34 anos e sou mestre em fingir que eu entendi algumas piadinhas.
Izabella: Oi, tudo bem? Meu nome é Izabella e eu descobri da pior maneira possível que ninguém quer que você responda essa pergunta sinceramente.
João Victor: Olá a todos, sou João Victor Ramos. Regras sociais? Que preguiça. Na boa.
Brendaly: O Introvertendo está sendo produzido pelo NAIA Autismo. Quero aproveitar para te fazer um convite, nos siga nas nossas redes sociais pelo @introvertendo. Nós estamos presentes no Instagram, Facebook, Twitter, TikTok e você também pode nos encontrar no nosso site, introvertendo.com.br. Se você quiser apoiar o nosso trabalho, nós temos o Catarse, Apoia-se e o Patreon. Toda ajuda é muito bem-vinda. O Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção do NAIA Autismo.
[Vinheta de abertura]
Brendaly: Então, pessoal, eu queria fazer uma pergunta um tanto inusitada aqui. Se as regras sociais fossem um tabuleiro, vocês seriam as pessoas que leriam os manuais ou que foda-se tudo e depois ao final descobriria que fez tudo errado? Qual desses dois vocês seriam?
João Victor: Eu leria os manuais, sem sombra de dúvida, porque ninguém aqui tem bola de cristal, que fique claro e cristalino esse fato. Regras sociais, a meu ver, é o fator externo que mais complica a comunicação dos autistas, tanto entre si, quanto com qualquer outra pessoa, seja outros neurodivergentes, seja neurotípicos, qualquer pessoa, qualquer pessoa. Porque tem que ficar adivinhando o que a outra pessoa espera que você fale num determinado contexto. Cara, como assim?
Já aconteceu de eu estar um pouco cansado, aconteceu demais, então não tem como fazer uma única citação em específico. Uma pessoa chegar pra mim e falar: “Oi, João Victor, tudo bem com você?”. Eu estava do lado de um amigo ou colega e eu respondia a pessoa que me deu o “Oi João Victor, tudo bem com você?”. Logo, eu trazia de volta, “Estou bem, obrigado”. Aí, o amigo que estava previamente ao meu lado aparecia para mim e dizia: “João Victor, nessas horas, a gente tem que retribuir também a parte de se tá tudo bem. Porque ele perguntou se você tá bem”.
Eu fiquei acanhado naquele momento, nos vários momentos, na verdade. E como é que eu ia adivinhar que eu tinha que obrigatoriamente falar assim: “Tô bem. E você?”. Cara, cadê o protocolo? Cadê a regra? Cadê a cláusula contratual? Alguém diz pra mim, diz pra mim, o que eu já sei. Não, não sei não, não sei.
Maysa: Eu não sei vocês, mas eu acho tão estranho a pessoa não ir direto ao assunto, né? No WhatsApp, em alguma rede social e vir “oi, tudo bem?” para depois falar o assunto.
Brendaly: Não, tem casos piores. Tem gente que fala assim, “Oi”, aí você fala “Oi”. Aí “Tudo bem?”. Aí você fala “tudo e você?”. Ah, pelo amor de Deus, eu não tenho paciência.
Maysa: O que é que você precisa? Vamos ao assunto. Eu acho muito estranho isso. Ainda mais assim, se eu não estiver bem, eu entendo literal mesmo essa pergunta e eu fico com raiva. Por que que essa pessoa que nem me conhece, desconhecida, tá perguntando se eu tô bem? Eu não quero falar se eu tô bem! Sabe, dá uma raiva até de responder. Mas assim, claro que eu entendo que é uma questão de costume social. Antes de ir direto ao assunto, mandar esse tipo de mensagem, “Oi, tudo bem?” e depois ir ao assunto, né? Mas gente, eu acho desnecessário.
Izabella: É, eu aprendi, meus pais me ensinaram que tinha que sempre devolver a pergunta quando me faziam. Só que eu achava que você tinha que responder como você realmente estava se sentindo.
Maysa: Exatamente (risos).
Izabella: Exatamente. Aí, né? Eu, é muito difícil, porque eu já começava assim, a pessoa: “Ah, tudo bem?”. Aí eu fiquei, o que é estar bem?
(Risos)
João Victor: Melhor questionamento do mundo, cara. Você lavou minha alma agora, Izabella. Na boa.
Izabella: Porque, né, desde pequena eu sempre fui esse perfil da pessoa de humanas, né? Eu ficava assim: mas o que é estar bem? Nunca nada, nunca tudo vai estar bem.
Maysa: É uma pergunta subjetiva, eu acho.
Izabella: Exatamente! Aí eu fiquei assim, cara, primeiro, um, o que é estar bem? Dois, se eu não estiver bem, eu posso responder não?
(Risos)
Brendaly: Pois é, mas aí você responde não e a pessoa tá, foda-se. Aí ela fica te olhando com a cara de paisagem assim, cara, eu já me meti em cada situação que a pessoa, nossa, como é que você tá? Eu falei assim, não tá nada bem que não sei o que e começo a contar a minha vida, a pessoa fica assim, falo gente, eu falei demais de novo, cara.
João Victor: E isso gera a seguinte dúvida: a pessoa queria saber da minha vida sim ou não?
Izabella: Pois é, porque eu também não consigo saber se é sincero ou não. Aí, né, eu sempre fico com a, eu não gosto de mentir. Será que eu posso falar para a pessoa: “Ah, não, não tô legal, mas não quero falar sobre isso”, ou às vezes ela só fez a pergunta social? É muito difícil pra mim.
João Victor: Exato. Por exemplo, eu não conheço a Brendaly. Supondo que eu não conheça a Brendaly, ela chega para mim e fala assim: “Oi, João, bom dia. Você tá bom?”. Eu: “Não, tá tudo muito ruim”. Aí a Brendaly fica tipo, a reação da pessoa não condiz com a atitude inicial dela. Essa conta não fecha, filho.
Brendaly: Respondendo aquela pergunta, eu seria a pessoa que leria o manual de instruções e mesmo assim ao final, descobriria, mesmo lendo o manual, que eu faço tudo errado, cara. Eu não me dou conta assim. Por exemplo, a conversa que a gente teve, esse, esses tempos, conversas de bastidores, a gente conversou, tal, você elaborou a pauta, aí você falou assim: “E tá tudo bem com você?”. E eu achei o máximo que a Izabella falou assim: “Não é mera formalidade, quero saber mesmo”. Eu falei: “Cara, isso é genial, genial”.
João Victor: Brilhante.
Izabella: É que pra mim vai muito nessa coisa das pessoas virem perguntar: “É, ah, e aí, como é que você tá?” e elas não querem saber. Então eu não sou tipo, geralmente, dependendo do contexto, na verdade, se eu estiver num que as pessoas realmente perguntam se está tudo bem socialmente, eu pergunto. Mas tipo assim, com pessoas que eu tenho mais proximidade, se eu pergunto é o que eu quero saber. E eu sei que tipo, dependendo da pessoa, ela vai achar que eu tô perguntando socialmente. Então eu faço questão de falar, por favor, seja sincero, eu estou interessado na sua vida, eu quero saber se você tá bem mesmo.
Mas eu também, eu acho que eu seria tipo você, né, se tivesse um manual escrito de regras sociais, eu ia querer ler cada cláusula, cada coisa pra conhecer, pra depois eu pensar, ok, agora eu vou ver o que faz sentido e o que não faz sentido, porque tipo, eu gosto de conhecer as regras pra depois saber o que eu vou adaptar, o que não vai adaptar.
Por exemplo, tem um jogo que eu gosto muito de jogar com os meus amigos chamado Uno, não sei se vocês conhecem, de carta. Aí, por exemplo, tem uma coisa que a gente faz no jogo que não está nas regras, mas a gente se acostumou a fazer essa coisa. Aí toda vez que vem uma pessoa de fora jogar, alguém fala: “mas isso não está nas regras”. A gente fala: “mas a gente adora fazer”. Então assim, meio que foda-se as regras. Então acho que eu teria um perfil parecido, uma coisa assim, mas seria muito útil um manual, dito isso.
Maysa: É, eu acho que para todos nós, assim, seria mais cômodo, né, realmente ler o manual, né? Eu também faria como vocês.
Brendaly: Só que eu acho que a gente faria tudo errado, cara, mesmo assim.
João Victor: Mas a gente teria noção! A gente teria noção do erro em questão. Em regras sociais, a gente não sabe onde tá errando nunca. A não ser que vem uma pessoa nos puxar pelos cabelos ou pelas mãos e falar assim: “João Víctor, vai com calma que não é assim que você tem que se comportar, irmão!”.
Maysa: Além de ler o manual, eu iria tentar copiar mesmo as pessoas (risos). Sabe? Porque muitas vezes assim, em jogo mesmo, jogo de tabuleiro, às vezes eu não, eu não entendi. Eu li lá e falei: “Não, vamos jogando que eu vou vendo como vai ser isso”, né? E vou literalmente copiando, sabe? Em muitas situações sociais, isso acontece.
Eu nunca gosto de ser a primeira a ir lá, por exemplo, em um evento social de servir o buffet, eu nunca quero ser a primeira a ir lá servir. Eu nunca quero ser a primeira a entrar num palco de formatura, por exemplo, sabe? Então assim, eu prefiro que outras pessoas vão, que eu vou observar e vou copiando, sabe? Então isso me ajuda bastante, vendo como que a pessoa tá fazendo, como que ela tá servindo, se ela tá, como que ela tá cumprimentando, sabe? Assim, essa observação ajuda bastante.
Brendaly: E uma outra regra social que me incomoda bastante é a questão do cumprimento, gente, assim. Porque o que acontece quando a gente tem intimidade com a pessoa, eu sou super tranquila, sabe? Abraço, a gente se abraça direto, a gente é amigo mesmo e tal.
Só que assim, cara, aí vem gente dar beijinho no meu rosto, me abraçar, assim, mulheres até tolero, mas homens… vai, vamos à misandria aqui, bora! (risos). Não dá, cara, eu fico desconfortável, porque, ai, um cara que você nunca viu na vida, aí tem aqueles negócios, aí você não sabe se você tá flertando com você, se tá querendo alguma coisa, ou se… sabe assim, é chato, é muito chato. Eu acho muito chato, que aí vem, te abraça, aí dá um beijinho no seu rosto, que eu não sei para que isso, desnecessário quando você não conhece a pessoa.
Então eu adotei uma estratégia. E quando eu chego assim, eu vejo, aí eu fico observando, a pessoa tá ali, tá dando beijinho, abraço em todo mundo, eu já faço assim, porque evita, cara, evita. É, não, pelo amor de Deus, não fica me tocando assim, a torto e a direita, não. Respeita o meu [espaço], a minha privacidade. Isso não é para vocês, tá, gente? (risos).
Maysa: Não, mas eu tenho agonia desse contato físico, principalmente com pessoas desconhecidas. E o que eu acho mais complicado é quando em um evento social, na despedida, sabe? Eu tô já exausta ali, doida para ir embora e por que é que eu não posso dar um tchau bem geralzão, sabe? Tchau, gente! (risos). Tchau. Eu tento, eu tento fazer isso, eu realmente eu tento, mas tem gente que aí já vem assim, ah, e abraçando e tal, aí você abraça um e fala, ai, mas você abraçou ela. Aí você acaba falando, nossa, vou ter que abraçar todo mundo agora, cumprimentar um por um para ir embora.
João Victor: Pois é. Um dos únicos locais que eu me sinto minimamente, minimamente não, consideravelmente confortável para dar esse tchau geralzão é o próprio espaço do NAIA. Ali eu aceno e todo mundo acena de volta. Sossegado, sossegado. E sem querer parecer que tô jogando em time contrário, eu também não gosto disso do beijinho não, de jeito nenhum. Da minha parte, eu nunca iniciei, não que eu lembre pelo menos.
Izabella: E essa coisa do cumprimento também é muito contextual, que pra mim é uma grande dificuldade, porque a regra social muda dependendo do contexto. Então, por exemplo, você chega num ambiente de trabalho, aí você tem que sair dando bom dia para todo mundo, você tipo, se for numa sala com várias pessoas, você pode só falar um bom dia ou você tem que, em cada baia de pessoas, que é onde eu trabalho, são baias, né, então são várias mesas, você tem que bom dia, bom dia, bom dia, bom dia. Tipo, se eu pular uma pessoa, essa pessoa vai ficar ofendida comigo, ou não? Aí na hora de ir embora, eu preciso dar tchau pra todo mundo também? Aí muda para um ambiente social. Aí eu também tenho essa questão de, poxa, quem que eu preciso abraçar, quem eu não quero abraçar.
Eu tenho uma relação meio complicada com o toque. Tem dia que para mim tá tudo bem, tem dia que não quero nem que a minha mãe me encoste. Então, varia muito, sabe? E às vezes as pessoas também não entendem. Por exemplo, tenho amigos, né? Ah, eh, como eu tenho essa questão, não é muito, não é fixo o meu relacionamento com o toque, aí eu falo, né, às vezes eu pego para um amigo e falo assim: “não, hoje eu não tô bem, não me encosta”. Aí ele entende que eu não quero que me encoste nunca. Aí eu nunca mais ganhei um abraço. Aí eu fico assim, pô, e também não, né? Aí eu fico, fico triste e tal.
Então tem muito essa coisa do contexto que muda a regra e eu fico mais perdida ainda. Porque entender a regra, em primeiro lugar, já é difícil. Aí quando muda o contexto já é outra regra, eu fico, mas, né, eu tinha aprendido que era assim, mas agora é de outro jeito é, né?
Brendaly: Pois é, porque tem nas regras sociais, tem a regra e tem a exceção à regra, assim, parece que pra tudo, cara, assim, desde cumprimentar uma pessoa, desde que, ah, tá tudo bem. E você, aí quando você é um amigo, tem uma relação de amizade, aí você pode já falar como é que tá. Mas aí dependendo do contexto, mesmo com esse amigo, que a pessoa tá ali correndo, aí não, aí já muda porque na verdade é uma pergunta ali mais geralzona. E para vocês assim, também? Como é que é?
João Victor: Sim, positivo. E, justamente por essa dificuldade em identificar tanto as regras quanto suas respectivas exceções, que eu já gastei muita, mas muita, mas muita energia mesmo pra tentar identificar como as pessoas se comportam e imitá-las. Eu já falei isso em episódios iniciais aqui dessa nova temporada, não vou entrar no termo, porque é uma outra pauta, outro assunto, não vou desviar aqui. Mas acho que incentiva muito a tentativa de cumprir as regras e suas respectivas exceções, incentiva muito o tal do masking. Não vou me aprofundar, porque isso é uma outra coisa.
Brendaly: Mas vai ser pauta.
João Victor: É, um dia. Mas enfim.
Brendaly: Não, vai ser pauta neste episódio. Você não leu a pauta não, ô criatura?
João Victor: Eu li a pauta sim, gata. Eu só não quero focalizar excessivamente.
Brendaly: Tá tudo bem, tá tudo bem.
Maysa: Igual a frase que eu falei no começo aqui, que eu sou mestre em fingir que eu entendi algumas piadinhas, assim. Porque é uma forma de mascarar isso, sabe? Assim, estar em uma conversa ali e alguém faz alguma gracinha e tal. Muitas vezes eu fico assim, ai, eu não vou mais falar de novo que eu não entendi e tal. Eu acabo rindo também junto ali e tal, né, como se eu tivesse entendido.
Izabella: Eu faço essa mesma coisa que você mencionou das piadas, de quando eu não entendo, simplesmente rio. E já aconteceu mais de uma vez a situação completamente mortificante de alguém pegar e falar: “Ah, você entendeu?”. Aí, aí você tem que falar: “É, não” (risos).
Maysa: É no meu caso eu não consigo-
João Victor: E você continua rindo.
Brendaly: É porque os neurotípicos percebem, a gente não dá conta de disfarçar assim, porque, é porque a nossa risada, assim, é uma risada tipo: “Aham, tá, tá engraçado”. Só que eles, é, eles percebem que a gente não entendeu.
João Victor: É uma risada que entrega a gente. É uma risada que entrega muito. E já aconteceu uma situação um pouco contrária. É, sempre tem aquele professor engraçadinho de escola que fica mais fazendo piada do que dando aula, né? Já aconteceu comigo. E eu era o único que não conseguia rir de absolutamente nada do que ele dizia.
Aí veio um colega mais próximo de mim, chegou pra mim e falou assim: “Pô, João Victor, você não ri de nada, cara, bicho sério”. Eu não entendi naquele momento que havia algo implícito para que eu desse uma risada. Isso me gerou até uma reflexão. Será que outras pessoas ali presentes também fingiram? Eu não percebi que elas fingiram? Isso aumentou o meu constrangimento?
Izabella: Nesse caso específico, acho que eu teria me forçado a rir, porque eu ia pensar, ele tá dando as minhas notas. Se ele ficar bravo comigo, vai ser bem ruim. Então…
João Victor: Ótimo ponto, ótimo argumento.
Izabella: Sou mais acostumada, tipo, ah, eu não concordo com essa regra, eu não entendo essa regra, eu não sei o porquê ela é aplicada, mas eu vou segui-la mesmo assim. Porque vou ser julgada e não vou ser aceita no ambiente, não sei o quê. Então eu tendo mais pro lado do masking mesmo, do, ah, isso não faz sentido para mim, tá me deixando desconfortável, tá me gastando muita energia, mas eu vou fazer porque senão eu vou ser a esquisita do rolê, a esquisita do trabalho, não sei o quê. Então, eu vou me obrigar a caber neste cubinho que foi feito, sei lá.
João Victor: A autoconfiança exige, a meu ver, não uma erradicação do filtro do que deve ser feito e do que deve ser dito, mas uma diminuição do crivo. Você não vai ser o completo foda-se tudo, foda-se o mundo, mas você vai se preocupar muitíssimo menos com o que vai ser dito pelas outras pessoas a partir de determinadas falas e comportamentos seus, do autista. E é como a gente tem que se portar mesmo, não sendo mal educado.
Aí vem a pergunta: o que é ser mal educado? Entendem? E a questão do masking, masking Brendaly. Eu já falei isso, mas eu vou dar uma pequena palhinha. Eu me mascarei tanto que às vezes eu me confundia com a minha própria máscara.
[Transição]
João Victor: Olá pessoal, João Victor Ramos aqui para apresentar as camisas do Introvertendo. Olha que estampas mais lindas e essa aqui feita pelo nosso amigo, pelo nosso diretor, pelo nosso fundador, pai, sabe-se lá mais o quê, Tiago Abreu. E sim, ele é muito fã de Windows Vista, faz parte. Com o “não é bug, é feature”, “feature”, “feat”, a critério porque eu não sou americano.
O resto das referências, a tirar pelo infinito colorido, eu não sei porque o Tiago quis botar, mas eu não tô me importando porque o hiperfoco é dele e não meu, então dane-se. Tiago, abraço, meu lindo. Tem outras estampas de camisas do Introvertendo à disposição para que sejam comercializadas de modo que nos ajudem nessa produção, que nos ajudem nessa iniciativa, nessa segunda temporada de podcast. Agradeço desde já. Beijos do trovador.
[Transição]
Maysa: Um ambiente que impacta bastante é o ambiente de trabalho. Comecei a trabalhar muito nova. Espera-se num ambiente de trabalho, geralmente que as pessoas se enturmam, façam amizade e tal. E na minha cabeça era assim, eu tô ali pra trabalhar. Sabe? Então, bem literal assim. Então, pegava e ia embora. Dava horário do lanche, eu pego o meu lanche ali, lancho no meu canto. E tá tudo certo pra mim. Mas aí as pessoas começam a te julgar. “Nossa, ó lá, fica só lá no cantinho”, ah, “não enturma”. “Ah, vamos fazer um almoço em um lugar diferente”, assim, assim, assado. Aí eu, “ah, não, eu não vou poder ir” e tal.
Aí entra também outra questão da regra social das desculpas, né? Em muitos contextos, as pessoas esperam que você não minta, mas também não espera tanta sinceridade. Por exemplo, a pessoa te chama para ir num café mais tarde. Mas aí ao longo do dia acontecem coisas e você, às vezes, fica exausto, fica cansado e você não tem mais vontade de ir. E aí você vai falar com a pessoa. Aí vem toda aquela questão: “Nossa, o que que eu vou falar? O que que eu vou amenizar, né, essa informação para a pessoa?”. Porque você, se você falar simplesmente “Eu não quero mais ir”, perdi a vontade de ir, não quero mais ir. A pessoa: “nossa”, né? Tem gente que nunca mais olha na sua cara, né? Tipo assim, “nossa, que grossa” e tal.
Izabella: Sobre o que a Maysa falou, eu queria comentar duas coisas, uma sobre cada ponto que ela levantou. Uma do ambiente de trabalho, que no primeiro trabalho que eu tive, eu me senti também bem inadequada porque no ambiente de trabalho tem uma “instituição” que é a mesa do café. Que chega um determinado momento que todo mundo levanta e vai para a mesa do café e vai ficar lá fofocando, tomar um cafezinho, não sei o quê.
Só que assim, eu não tinha interesse em socializar com aquelas pessoas. Eu percebi que eram de, sei lá, sabe quando, você vê que, ah, eu não quero fazer amizade com eles não. Eu tô aqui para trabalhar, porque, né, a gente tá no sistema capitalista, eu preciso de um trabalho. Então eu não tinha interesse em socializar e eu lanchava na minha mesa mesmo. Eu pegava o café e voltava para a minha mesa. Até que um dia o meu chefe chegou e falou: “Olha, você não está se integrando com a equipe, né? Você não está demonstrando interesse”. Eu fiquei, como assim eu não tô demonstrando interesse? Eu tô fazendo o meu trabalho.
Maysa: É um lanche.
Izabella: Exatamente. Aí ele pegou e falou, é, tipo, na hora do lanche, você nunca vai sentar com o pessoal.
Brendaly: Nossa, mas é obrigado?
Izabella: Aí eu fiquei, tipo, ué…
Brendaly: Mas você tá fazendo o seu trabalho, uai.
Izabella: Exatamente
Maysa: Pois é. Passei muito por isso, aí que eu percebi muito assim, nossa, que diferente.
Izabella: Aí nesse primeiro ambiente eu já tive essa chulapada na cara. Aí nos próximos, eu já, quando eu percebo que a galera tá levantando, que já tem um ou outro, eu penso, não, aquele ali, nos outros ambientes eu já fiz amigos, eu falei, não, aquele ali é meu amigo, eu vou. Aquele lá é menos pior, eu vou. Porque tem gente que é intragável, não dá.
João Victor: Tem um acontecimento no meu trabalho. Muito recente, muito recente mesmo, mas me adiantando e respondendo sua pergunta, Brendaly. Desde pequeno também, mas eu vou acessar uma resposta recente sobre o cumprimento ou descumprimento de regra social que na verdade eu nem sei como pode ser configurado. Explico se seria um cumprimento excessivo ou um descumprimento informal. Fez sentido? Fará agora.
Basicamente eu tenho que bater ponto quatro vezes no meu trabalho atual. 8h que é a chegada, 12h que é o horário de almoço, 13h quando o horário de almoço termina e 18h para sinalizar que eu estou indo embora. Faço isso sempre, até que meu coordenador fala com seus colegas enquanto eu passo do lado “Gente, eu acho inacreditável: a folha-ponto do João é impecável”. E eu: “Ãh?!” Mas é a minha obrigação, bater às 8h, 12h, 13h…
Maysa: Em ponto, né?
João Victor: Exato! Cara, como assim? Ninguém mais faz isso além de mim, meu Deus do céu. O correto é se atrasar?
Brendaly: Geralmente o povo se atrasa, né? (risos).
João Victor: O correto é se atrasar? Alguém me explica! Eu não acho justo eu ser um destaque por causa de folha ponto. Vocês acham? É, é obrigação, brother. Estar lá às 8h, eu tenho que bater 8h.
Brendaly: Mas é aquele negócio, né? Se todo mundo faz errado e você é exceção, você vira destaque.
Izabella: Sim.
Brendaly: É isso (risos).
João Victor: Esquisito, mas tudo bem. Esquisito.
Maysa: Me remete à questão da rigidez cognitiva, né? Tipo assim, eu tenho que bater 8 horas, 8h01min não. Aí se for, se for para 8h01min, você já fica agoniado, fala: “Nossa”.
João Victor: E pior que eu fico mesmo, tá? Pior que eu fico mesmo, tá! Tá lá 8h é 8h, meu Deus do céu, me ajuda.
Maysa: Uma coisa que eu acho muito estranha e agoniante assim, em eventos sociais que se atrasam muito, sabe? Igual por exemplo, casamento, aniversários que, 20 horas, aí canta o parabéns 22 horas e eu fico assim agoniada, eu, gente, já tá na hora de eu ir embora e ainda, aí eu quero ir embora, aí, não, mas não pode ir embora, nem cantou parabéns. E eu, meu Deus do céu, mas já passou 2 horas.
Brendaly: E assim, tem muito uma coisa cultural do Brasil, né, assim.
Maysa: Principalmente essa questão do casamento.
Brendaly: É, porque tipo, dependendo do lugar no Brasil, por exemplo, se você marca às 8h na casa de alguém, se você aparecer literalmente às 8h, a pessoa vai falar: “Ué, mas eu nem, não tô pronta ainda”.
Maysa: Uhum.
Brendaly: Você marcou 8 para começar às 9, gente. Eu acho assim, é impressionante.
João Victor: É absurdo! É revoltante, cara. Se marcou às 8, por que uma hora depois ficar pronto, velho? A conta não fecha.
Brendaly: Aí eu, eu assim, antes eu chegava sempre no horário nos locais. Aí agora eu falo assim: como não vai começar às oito, eu vou chegar às nove porque eu fico menos tempo, eu vou me sobrecarregar menos e aí eu vou embora talvez até um pouquinho mais cedo, se der, né? Porque, ai, se for, por exemplo, parabéns, tem que cortar o bolo. Se for casamento, tem que esperar o jantar, o almoço, sei lá. Então assim, é chato. Eu acho-
Izabella: E é uma regra social também, né?
Brendaly: Que é outra regra social.
Maysa: Tem que esperar algumas coisas e cansa a gente. Eu tenho uma bateria social muito baixa, é muito difícil, sabe? Ficar, nossa, para mim 2 horas em um evento social já, sabe, já é um tempo assim, muito complicado.
Izabella: Não, mas essa coisa do horário, é engraçado porque tipo, é um exemplo pra mostrar que regra social é uma coisa contextual. Tipo, não é só do horário, qualquer regra social é contextual, porque por exemplo, no Brasil, se você chegar exatamente 8h num compromisso social, vai todo mundo ficar tipo, seu esquisito, ninguém chega às 8h, pelo amor de Deus.
Na Inglaterra, se você chegar 5 minutos atrasado, você já é o, né, ou em outros lugares, eu falei Inglaterra porque eu conheço pessoas lá e aí, né, eu sei que eles são bem restritos com o horário. Por exemplo, aí em outro país já é outra coisa. Então assim, vai muito da cultura, da sociedade, não sei o quê. Aí eu, em situações sociais, quando é o meu grupo de amigos mais antigo, que eu sei que ninguém chega no horário, eu também, tipo, a gente marca às 8h, eu já fico assim, beleza, 9h elas estão saindo de casa.
Maysa: Nossa! (risos).
Izabella: Por exemplo, se eu já combinou de sair com meus amigos da faculdade, que é o, o Tiago Abreu, que é da geração antiga e a Letícia, eu já sei que pelo menos o Tiago vai estar lá no horário, aí eu falo, não, então tá bom, dessa vez vai dar para estar lá realmente às 8 horas.
Regra social é, é complicado também porque, além de tudo é muito cultural, é muito da sociedade, né? E às vezes eu entro muito nessas coisas de ficar pensando: ah, mas o que que é uma regra? O que que faz sentido? O que que foi criado para questão de educação e outra, né, por que que isso foi criado? Mas também o que é ser educado? Aí às vezes eu entro nessas, nessas linhas de raciocínio, né? Aí não chega a lugar nenhum, mas é, é aí um ponto pra gente estar pensando também.
João Victor: Não, é algo a se considerar, até porque, foi bom você ter citado a Inglaterra porque tem um fator extra. Não ironicamente, o fato de eu bater o ponto nos horários específicos os quais me foram designados, me rendeu um apelido para quase todo o bloco, britânico.
(Risos)
João Victor: Eu tô falando sério. Eu tô falando sério, britânico. A que ponto chegamos, cara.
Izabella: Na época da escola, algumas pessoas, não, não diretamente, era aquele bullying velado, eu era o general, porque eu sempre fui muito assim com as regras também, né? Tipo, de entregar as coisas, fazer tudo no horário, não sei o quê. Aí ficava tipo: “Ah, ó lá, o general, enchendo o saco, não sei o quê”. Tipo, eu estava fazendo o que era esperado de mim, eu era uma estudante e você tem que estudar. Aí eu queria cumprir com meu papel e ficava tipo: “Ah, não, mas ela é chata, ai, ela é general, ai, que não sei o quê” e tal. Então é, é um saco.
Brendaly: Então é isso, pessoal. Esse episódio não tem uma solução, porque, enfim, são muitas regras sociais e aí, aqui na mesa, a gente tá tentando entender como funciona. Então é isso, é quase que um contentamento (risos).
Mas, você que está nos assistindo pelo YouTube do NAIA Autismo, aproveita, segue lá o nosso canal, ativa o sininho, curta, compartilhe. A sua opinião é muito importante para nós. O Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção do NAIA Autismo e está sendo gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.
*
Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Alexandre Stacciarini | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Ana Julia Sena | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian

