Dos likes até o match, são muitas opções de amor na internet e também fora dela. E conquistar alguém exige habilidade, malemolência, praticamente uma arte propriamente dita. Neste episódio, apresentado por Brendaly Januário e com João Victor Ramos e Maysa Antunes, recebemos Ana Julia Sena, para falar sobre as experiências autistas com flerte e paquera.
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Transcrição do episódio
Brendaly: Olá, você que está ouvindo o podcast Introvertendo, eu sou a Brendaly, eu sou autista, doutoranda em Antropologia Social na UFG, e o tema do nosso episódio hoje é flerte e paquera sendo autista.
Ana Julia: Bom, gente, é, eu sou a Ana Julia, eu sou estudante de jornalismo da Universidade Federal de Goiás e eu tenho 22 anos.
Maysa: Olá, meu nome é Maysa, tenho 34 anos, sou arquiteta e urbanista, e eu sou uma sonsidão em pessoa em flerte… (risos)
João Victor: Olá a todos, meu nome é João Victor Ramos, tenho 24 anos, sou autista e pra mim, flertar é mais difícil do que fazer faculdade. Palavras de quem já fez duas e cancelou a matrícula no primeiro período em ambas as ocasiões!
Brendaly: Quero aproveitar pra fazer um convite, nos siga nas nossas redes sociais. O nosso site é introvertendo.com.br e você pode nos encontrar nas redes pelo @introvertendo. O Introvertendo é um podcast feito por autistas em parceria com o NAIA Autismo.
[Vinheta de abertura]
Brendaly: Na minha experiência pessoal, flertar é muito difícil. Porque envolve inúmeras regras. Você precisa olhar nos olhos, né, fazer o contato visual, tem o posicionamento corporal, a forma de chegar na pessoa. E aí junta tudo isso, o nervosismo da paquera, pra mim é um caos. E eu queria saber, na experiência de vocês, vocês conseguem flertar, tem algum tipo de estratégia? Como que é pra vocês?
João Victor: Uma coisa é flertar, outra coisa é tentar flertar e falhar miseravelmente no processo, diga-se de passagem. Porque como você disse, Brendaly, tem todo um conjunto de coisas que precisamos fazer até consumar o ato de flertar. Consumar o ato de, falando… linguagem popular, jogar verde para talvez colher maduro, né? Talvez, muito talvez, porque aquele outro ditado, o não você já tem, mas vai que o sim aparece. E tipo assim, eu não me atento tanto, quando é presencial pelo menos, a fazer uma certa expressão corporal. Não tenho a menor noção de como desempenha uma expressão corporal, uma linguagem corporal própria para flertes, isso não entra na minha cabeça de jeito nenhum. Não que eu não consiga entender o conceito, mas reproduzir isso eu mesmo, não me vem, sabe?
Outra coisa: o nervosismo atrapalha tudo, sempre atrapalha. Não tem como, mesmo que minimamente, mesmo que você tente ignorar, o negócio é enfrentar mesmo, não tem muita alternativa. E digo mais, vem a gagueira, né? Eu começo a respirar de maneira mais ofegante e o mero ato de disfarçar isso faz com que essa gagueira se amplie, sabe? Já chegou um ponto em que eu tive que apertar a minha própria mão, discretamente, não como eu tô fazendo agora, pra ver se eu regulava minha ansiedade pra tomar alguma iniciativa. E quando a iniciativa acontecia, tá, já deu certo, mas…
Por exemplo, eu elogiava a pessoa, falava que ela era bonita, assim, não do nada, tentava criar um contexto prévio. Mas mesmo esse contexto prévio, até chegar nele, gastava uma energia, menina. Nossa (risos). Eu nunca sei quando é a melhor hora de pedir número, nunca sei, sabe? Algumas preferem que seja imediatamente, outras preferem que seja… após alguns dias. Situação hipotética, você encontra com alguém em alguma resenha, é um amigo em comum, ou uma amiga em comum a uma pessoa que você já conhece há mais tempo, aí você tenta conseguir através desse intermédio, mas, sabe? Complicado.
Maysa: Essa questão do nervosismo… nossa, atrapalha bastante, assim. No meu caso, eu disfarço rindo, sabe? Então eu fico rindo, assim, não faço nada, né? E aí a pessoa fica olhando assim pra mim sem entender. Eu tenho uma dificuldade de entender as expressões, se alguém tá sinalizando pra mim de longe, eu fico assim, né…. Sem entender, sem entender até se é comigo, né? Ou se é com a pessoa de trás, ou uma pessoa próxima, então eu tenho essa dificuldade de entender mesmo, e também de demonstrar.
João Victor: O pior, Maysa, é quando essa dificuldade não só aparece como também quando a pessoa que realiza essas expressões pressupõe que você vai adivinhar logo de cara, e que você vai conseguir corresponder, seja pra bem ou para não, seja pra dar um fora ou pra acontecer alguma coisa, e quando ambas entram num consenso tipo: “ninguém entendeu mais nada nessa história” (risos), já fica tipo: “ok, e agora, o que a gente faz com isso?” Sabe, fica aquele clima desconfortável, famosa torta de climão, tá ligado? (risos)
Maysa: É, eu só sei rir, só isso.
João Victor: Eu não consigo nem rir, velho.
Maysa: Não, não, eu aprendi a fazer esse disfarce (risos).
João Victor: É mais fácil a pessoa rir da minha cara e eu continuar congelado, desconfortável, com uma cara de bunda, do que rir de mim mesmo, sinceramente!
Ana Julia: No meu caso, eu confesso que eu não sou muito de flertar. Antes de eu começar a namorar, eu era uma pessoa que já não gostava muito de ter um contato ali com as pessoas. Flertavam comigo, e aí eu não percebia. Eu tinha essa dificuldade de perceber que a pessoa estava me dando uma cantada, falando umas coisas ali, querendo algo comigo, e eu nunca percebia. Eu era meio a sonsa ali do rolê. E aí, as minhas amigas, então, antes de eu começar a namorar, as minhas amigas, elas sempre falavam: “Ana Julia, você não tá percebendo que aquela pessoa ali tá dando em cima de você?”. “Amiga, pelo amor de Deus, pega o número daquela pessoa (risos), a pessoa tá quase implorando e você tá aí, ó”.
Brendaly: Eu e a Ana Julia, a gente conversou nos bastidores, você comentou que você até questionou a sua sexualidade, porque você não sentia esse interesse, ou então os caras chegavam em você e você dava um fora neles. E aí, só uma observação aqui, da equipe, tem várias meninas, e… de todas as meninas, Ana Julia é a única mulher hétero, né? (risos).
Ana Julia: Sim.
Brendaly: Assim, nada contra héteros, eu tenho até amigos que são, mas eu queria que você comentasse um pouquinho sobre isso. João Victor é hétero (risos).
Ana Julia: Sim, então, quando eu estava na minha adolescência, as minhas amigas, todas da minha idade, na época da escola, elas sempre estavam interessadas em algum menino. Então, elas sempre comentavam: “ai, eu tô apaixonada pelo fulano de tal, e que não sei o quê, eu quero namorar aquela pessoa, nossa, como é bonito, né?”.
E aí, foi quando eu comecei, como a Brendaly falou, quando eu comecei a questionar a minha sexualidade, né, eu pensei assim: “Nossa, será que eu não gosto de mulheres também? Ou será que eu não sou lésbica, né?” Eu pensei: “ou sou bissexual, ou sou lésbica, né?” Aí eu comecei a pensar: “não, acho que eu devo ser lésbica, não é possível, eu não consigo sentir nada por esses meninos, não querem nada com a vida, feios, ai!”. Umas coisas meio assim. Aí eu não sentia nada assim, nenhum interesse, aí eu começava a olhar pras meninas e eu pensava: “nossa, elas são bonitas e mais interessantes do que eles”.
Mas quando aí foi um passar dos tempos, entrei na faculdade, recebo muita cantada de mulher, recebi muita durante a faculdade, mas eu me vejo como hétero. Apesar dessa desconfiança minha durante a adolescência, eu percebi que era um sentimento, na verdade, de que eu nunca tinha me apaixonado por ninguém, por nenhum menino, não tinha, nunca. Só que aí entrei na faculdade e percebi: “não, eu sou hétero, infelizmente”.
(Risos)
Maysa: Eu me identifiquei com essa fala dela, né, durante o período da adolescência,
nossa, identifiquei totalmente, assim. Eu cheguei a achar que eu fosse assexual ou arromântica, aquela pessoa que não se apaixona. Minha vida amorosa, sim, ela foi dar andamento dos 19 e 20 pra frente. A parte do flerte em si, assim, é muito complicada, muito complexo, assim. Principalmente essa questão que ela falou de não perceber. Isso aí também aconteceu muito comigo, de não perceber e as pessoas falarem: “ó, fulano tá afim de você, fulana, tal”. E eu não percebo, assim, pra mim funciona mais a pessoa sendo literal mesmo, sabe, falar: “eu estou interessada em você” .
Então, os relacionamentos que eu tive funcionaram dessa forma, que aí a pessoa falava literal mesmo, depois de um tempo, ali, às vezes tentando me dar dicas e eu não captava. E eu estava interessada, mas não demonstrava. E aí, depois disso que eu conseguia ter uma atitude de conversar com a pessoa mesmo, de tentar até beijar a pessoa.
João Victor: E isso me gera uma série de questionamentos, sabe, tipo assim: o que que custa falar logo, fazer logo essa demonstração de interesse? Não é muito mais fácil, sabe?
Maysa: É, exatamente.
João Victor: Não é muito mais fácil mostrar o que genuinamente tá no seu coração nesse exato momento? E tipo assim, porque pra nós essa questão da comunicação já é complicado. E por tabela isso dificulta muito a questão do flerte. E veja, quando falamos de interesse por alguém, quando falamos de querer namorar alguém ou querer somente ficar por ficar com alguém, em qualquer ocasião, dentro desse contexto, pra mim é difícil.
Pra mim é difícil, porque às vezes quando a gente é sincero, a gente assusta. Às vezes quando a gente quer falar sobre o interesse e partir para outra etapa… Por exemplo, eu confesso que estou interessado por uma pessoa. Não me fornece o “não”, ela me fornece o “sim”. Tipo, OK, legal, mas e agora? O que eu faço? Como eu dou prosseguimento a isso? Ou seja, mesmo depois em que eu recebo a abertura pro flerte, eu acabo tendo uma dificuldade de prosseguir, de manter, certo?
Como flertar depois do “sim”? Como mostrar, numa certa constância, o meu interesse para alimentar um possível relacionamento, alimentar uma possível, sei lá, amizade colorida (risos). Fica aí a critério, né?
Brendaly: E aí eu percebo a diferença entre flertar pessoalmente e flertar por aplicativo. Eu, por exemplo, eu sou uma mulher lésbica. Eu gosto de me apresentar como sapatão pelo peso político que esse termo representa. Só que a minha saída do armário (a gente fala saída do armário, pessoas LGBTs), é recente. Então, eu comecei a ficar com mulheres não tem muito tempo.
Então, quando eu chegava, eu chegava… Eu não sei o que eu aprontava. Eu chegava nas mulheres, eu cheguei em várias mulheres, cheguei em balada, cheguei em barzinho, e eu sempre levava um fora, era sempre. Aí eu, na minha cabeça: ou eu sou muito feia, ou eu não sei fazer isso aqui. E por aplicativo eu conseguia. Ou então, quando eu começava a conversar com uma menina, e sem algum interesse, conversando normal, e aí, naquela conversa, aí a pessoa se interessava por mim. Porque eu não chegava ali, porque eu não sei flertar, gente. Eu não consigo flertar.
E aí, por aplicativo, qual é a vantagem? A vantagem é que você sabe que a pessoa tem interesse. Então, ela te deu um like, você deu um like, né? Deu um match. Então, você já sabe que tem um interesse. Então, facilita já muito a vida. E aí, eu queria saber de vocês, assim, qual a experiência de vocês com o aplicativo, e se vocês percebem essa diferença de flertar pessoalmente e flertar por aplicativo de relacionamento.
João Victor: É uma diferença gritante, mas mesmo eu, no Tinder, tenho dificuldade. Parece contraditório, mas faz sentido. Por mais que haja um interesse mútuo constatado durante um match, eu dou like numa pessoa x, e x dá like em mim, dar prosseguimento a isso, como eu falei no raciocínio anterior, é muito complicado ainda.
Por exemplo, se eu quero tecer um elogio, se eu quero tecer um elogio, obviamente, cordial, respeitoso, fazer o famoso, entre muitas aspas, “cortejo”, porque eu gosto desse lance do cavalheirismo e tal, que é interligado a flerte de certa forma. Será que… eu falo que o cabelo da pessoa é muito bonito? Será que eu falo que os olhos dela são muito bonitos? Que ela tem um olhar assim, sabe? Se eu acho… Claro que eu não falo isso imediatamente, né? Que fique claro e cristalino esse fato!
(Risos)
Mas eu fico na dúvida no tangente as possibilidades de como iniciar um flerte, nas possibilidades de como iniciar, e a partir do momento em que eu inicio, a partir de uma escolha, como prosseguir? É como se fosse uma rede, uma rede de escolhas, uma rede de possibilidades, e a depender de qual ponto eu escolho, de qual intersecção eu seleciono, eu posso botar tudo a perder.
Brendaly: Mas até por aplicativo? Porque por aplicativo você sabe que tem o interesse.
João Victor: Até por aplicativo.
Brendaly: Mas aí você vai conversando com a pessoa. Mas mesmo assim você tem dificuldade?
João Victor: Tenho porque a minha pergunta que eu faço sempre: até que ponto chega esse interesse? Porque interesse vai e vem, ele pode ser dissolvido, mesmo que sutilmente, dependendo de alguma coisa que eu fale, alguma coisa que eu diga, alguma coisa que eu faça, ou deixe de fazer, a depender de como estão os trâmites da coisa toda, sabe, Brendaly?
Eu uso Tinder por livre e espontânea pressão, inicialmente, dos meus amigos e colegas de trabalho, e eu fui tentando, tentando, tentando, desinstala, instala, desinstala, instala, porque acontece muito, não só comigo, é complicado mesmo assim. Porque tem uma hora que você cansa, você se frustra com os flertes que dão certo, mas que depois de dar certo, você congela no meio do caminho. Porque não é porque você conseguiu flertar uma vez, não é porque você conseguiu prosseguir em certa etapa do caminho que você vai dar conta de ir até o final e chegar a um date, por exemplo, ou mesmo durante o date, conseguir se manter ali focado na pessoa, focado em como manter a conversa, como manter o encontro minimamente atrativo para essa pessoa.
Eu penso em todas as possibilidades de como o encontro pode melhorar, de como a convivência pode melhorar, de como a conversa, no panorama geral, pode melhorar, menos no agora. E não é algo que eu escolho, percebe? É quase mecânico na minha cabeça, é como o processador aqui funciona.
Maysa: Eu acho que você fica ansioso, no caso.
João Victor: Muito.
Maysa: A ansiedade é muito grande, né?
João Victor: Demais, demais. Ainda mais pra quem nunca namorou!
Brendaly: E são muitas opções, né? São muitas opções (risos). Eu vou conversar, vou chamar pra sair, aí chama pra sair. Vai sair… Pra sair onde? É no shopping? É no parque? Então são muitas opções, aí a cabeça acho que entra meio que em parafuso. Eu acredito que é isso (risos).
João Victor: E depende, inclusive, dos gostos da pessoa. Por exemplo, se ela fala que gosta de chocolates. E já aconteceu de, por exemplo, eu tentar adivinhar qual é o chocolate que ela mais gosta porque ela não me falava a sua preferência. Eu quase compro umas cinco barras meio amargo na ocasião, sabe? Cara, essa história foi muito engraçada.
Tipo assim, uma pessoa que eu gosto muito estava fazendo aniversário e eu cogitei visitá-la dando chocolates e um buquê de flores porque a coisa estava começando a ficar séria, sabe? Estava começando a ficar séria. Acabou que não deu pra entregar o buquê e nem os chocolates. Mas eu fiquei muito triste na situação porque eu adivinhei qual era o sabor do chocolate que ela gostava. O que eu fiz? Não consegui encontrar mais ela depois por conta de alguns desentendimentos. E lá vai eu comer.
Maysa: Nossa, coitado! (risos).
João Victor: Coitado de mim! (risos).
Brendaly: É de você mesmo (risos).
João Victor: Ah tá, menos mal, né?
Maysa: Comendo chocolate.
Brendaly: Nossa.
João Victor: Pelo menos tava gostoso, vai. Pelo menos tava gostoso (risos).
Maysa: Lembrando ela ainda (risos).
Brendaly: Olhando pras rosas! (risos).
Maysa: Eu tive experiência com aplicativos há… 10, não… Há… 12… 14 anos atrás.
Brendaly: Tem tempinho (risos).
João Victor: Nossa… (risos).
Maysa: Eu tenho 34, então assim, foi com uns 20 e poucos, né?
João Victor: Entendi.
Maysa: Então, nessa época dos meus 20 anos, eu via as pessoas saindo, balada e tal. E eu: nossa, vou tentar fazer isso, tentar ser igual, se a maioria das pessoas estão fazendo isso e tal. Sair né? E aí, eu… conheci algumas boates, né? E eu queria, assim, eu era muito sozinha. Eu ia pra boate sozinha, pra conhecer boate, pensa! (risos)
João Victor: Coragem… Coragem!
Maysa: Super coragem. A pessoa chegando lá, do nada, todo mundo de turminha. Aí eu lá sozinha na fila lá da boate pra entrar. Acabava assim, que era legal, porque acabava assim, que as pessoas, não sei se por dó, sei lá… Vinham conversar comigo (risos).
João Victor: Por dó!
Maysa: Aí vinham as turminhas, né? “Ah, chega aqui”, tal, né. E…
João Victor: Acontecia?
Maysa: Acontecia.
João Victor: Menos mal, né?
Maysa: Aí eu fazia amizade, tentava me enturmar. E aí, eu tenho uma bateria social muito baixa, né? E hipersensibilidade a barulho, algumas luzes e tal. Então, o que que eu fazia? Eu tinha que beber, que aí estende um pouco esse prazo, sabe? Da minha bateria social. Então, toda vez, assim, que eu ia em ambiente assim, eu tinha que beber. Só que estende, mas também nunca consegui virar a noite em lugar assim.
Então, meia noite, uma hora da manhã, já estava esgotada, já tinha que ir embora, né. E às vezes era o momento que o lugar tava ficando mais animado, mais gente chegando e tal. E a hora que eu já tava assim: “Nossa, eu tenho que ir embora, não dou conta mais disso”.
João Victor: Eu também não daria conta de jeito nenhum, velho.
Maysa: Então, assim, nessa época também que eu tava querendo conhecer mais sobre a minha sexualidade. Mas eu não tinha ficado ainda com mulher, então eu queria fazer amizade com pessoas LGBT, né? Eu queria estar nesse meio, assim. Eu não tinha amizade com ninguém, bem sozinha e tal. E aí eu tentei frequentar esses lugares. E aí, a sobrecarga vinha, não conseguia ficar muito tempo.
E também, sobre flerte, né? Quando a pessoa ia ali, fazia algum sinal pra mim e tal, eu não entendia. Muitas vezes eu só fazia um gesto assim, né? Tipo assim: “O que você tá falando?” e tal. Então era muito difícil. E aí eu não conseguia. Aí eu fiquei assim: “Nossa, não dá. Não vou ficar me forçando a ficar aí nesses lugares, não”. Aí eu peguei e fui pro aplicativo. Aí eu instalei o Tinder na época e tinha o Brenda, que era um aplicativo de mulheres, né? E aí…
Brendaly: Quase o meu nome, gente.
(Risos)
Brendaly: Eu tinha que ser lésbica mesmo.
Maysa: Só que, era um aplicativo tão ruim, ele travava tanto no celular que ele, eu acho que ele mal durou, assim. Não vejo as pessoas comentando dele, acho que não tem mais.
Brendaly: Hoje é o Zoe.
Maysa: Ah, tá.
Brendaly: Hoje é o Zoe.
(Risos)
Maysa: Hoje eu tô por fora disso, assim. E aí foi. Eu achava mais fácil aplicativos para conversar, pra ter iniciativa de conversar, né? Eu não estaria morrendo de vergonha rindo na frente da pessoa. Então… é mais tranquilo, eu considero, assim, aplicativo. Aí eu até vi minha ex no Tinder, na época, no Brenda. Aí eu peguei e fui olhar, futricar em todas as redes sociais dela, procurar ali, Facebook e tudo, olhar. Mas assim, eu fiquei um curto tempo, assim, em aplicativo, porque eu fui ficando impaciente, assim, sabe? Parecendo que ficava repetitivo as conversas, né, assim…
João Victor: Tem esse detalhe mesmo das conversas repetitivas. E eu confesso que, assim, a parte de iniciar a conversa pra depois chegar na etapa do flerte, já é outra parada que desgasta muito!
Porque eu penso nas possibilidades e na maioria dos casos, eu confesso pra vocês que eu desisto e só fico no famoso: “olá, tudo bem?”, a não ser que tenha algo muito chamativo na bio da pessoa com quem eu dei match que possa me servir de gancho pra que eu tente fazer alguma outra… apresentação, digamos assim, tipo: “olá, tudo bem?” e algo mais. Um gosto muito semelhante, uma curiosidade que tenha me despertado ali, algum interesse mais acentuado, né? Mas, dito isso, eu só fico no: “oi, tudo bem?”. E dentro desse roteiro, eu começo a perguntar: “Me conte mais sobre você!” (risos).
Maysa: Pois é, parece que fica repetitivo, é a mesma coisa, assim. E às vezes a conversa não flui também, aí você fica assim, “ah, tá, vou tentar conversar com outra pessoa”. Aí vai indo, vai indo, vai cansando, assim. Foi só essa época que eu utilizei, bem pouco, assim.
João Victor: E tem gente que acha a pergunta vaga. Confesso que é mesmo, às vezes, tipo assim, muitas vezes eu já recebi a seguinte resposta: “Você quer saber mais o quê, exatamente?” Tipo, aí lá vai eu, tendo que ter todo o trabalho de responder, “ah, o que você faz da vida?”. Eu não uso essas palavras, obviamente, eu tento ser um pouco mais polido, vai. Eu não sou indelicado, assim (risos): “o que você faz da vida?”. Estudos: “o que faz no tempo livre?” – Hobbies, gostos, música, sabe? Me vem um monte de coisa ali pra eu ir puxando, pra que eu, através disso, consiga ter algum… material, algum repertório pra chegar no bendito do flerte. E mesmo adquirindo toda essa pequena bagagem, esse pequeno panorama, dá ruim. E muito. Faz parte.
Maysa: É, não, essas… questão de conversa repetitiva, assim, tinha meninas que de cara já perguntavam assim, “você é passiva, ativa, tal?” – E eu ficava assim: “eu não sei, eu nunca fiquei com mulher, eu não sei!” (risos).
Brendaly: Bem isso, bem isso (risos).
Maysa: Eu estava ali com o objetivo principal de fazer amizade, de conhecer pessoas do meio LGBT, né, primeiro. Aí vinha, assim, umas perguntas, e era muito repetitivo isso. Eu ficava assim: “nossa!”.
Ana Julia: Bom, eu vou deixar um pouco vocês na mão, né? Porque eu nunca usei aplicativo de relacionamento, gente. Eu tenho uma amiga que é casada, e que ela conheceu o marido dela pelo Tinder. E eu acho que é uma boa alternativa, não só para nós autistas, mas para outras pessoas também conhecer alguém. E eu acho, assim, que o aplicativo de relacionamento, para nós pessoas que somos autistas, ou pessoas introvertidas, às vezes não é nem autista, mas tem ali uma introversão, é muito melhor do que você flertar pessoalmente com a pessoa. Porque você tá conversando ali online, você não fica… Eu acho que a pessoa não fica tão nervosa assim. Você tem, às vezes, pensa mais no que falar primeiro, pensa mais no que agir. O que você vai falar pra ela?
Igual o João contou, né? As experiências dele, mas eu acho que é uma boa alternativa. Eu nunca tive interesse em usar, igual eu falei. Eu era adolescente ali, e a pessoa que não tinha interesse em ninguém. Então, pra mim, aplicativo de relacionamento era uma coisa que nem passava pela minha cabeça. Mas eu acho que é uma boa, uma alternativa muito boa.
João Victor: Eu estava refletindo sobre o seguinte. Quando vocês, Maysa e Brendaly, usaram os seus aplicativos de relacionamento, tipo, vocês se assumiram como TEA na ocasião?
Brendaly: Eu entrei no aplicativo pra ficar com mulheres. Então, não tinha interesse nenhum em homens. Aí, foi no Tinder. O Tinder, para quem quer ficar com mulher, é horrível. Aparece um monte de homens. Eu colocava “lésbica”, mesmo pensando que eu era bissexual, e aparecia um monte de homens. Mas, gente, mas por quê, assim? Você perde tempo ali, aquele tanto de homem e tal. Aí, depois, eu fui pro Bumble. O Bumble já filtrou um pouquinho mais, assim. Aparece um ou outro, mas é exceção.
Aí, no Zoe. Aí, no Zoe, eu entrei, porque eu falei assim: “Gente, será que não tem nenhum aplicativo para mulheres sáficas?” Explicando o termo “sáfica”. Sáficas é um termo guarda-chuva que se refere a mulheres lésbicas, bissexuais e pansexuais. A gente usa esse termo pra não falar “ah, lésbica”. Aí você estaria excluindo mulheres bissexuais e pansexuais. Aí, eu entrei no Zoe. Só que assim, quando eu entrei, eu entrei… E aí, dois minutos, eu tive um match. Uma pessoa me curtiu que hoje, a minha namorada (risos).
João Victor: Meus parabéns! Meus parabéns!
Brendaly: E assim, aí eu comecei a conversar com ela. Então, eu saí só com uma pessoa, que foi em outra cidade, em Fortaleza, e eu falei que eu era autista só no dia, porque a gente quase não teve troca. E essa, que é a minha namorada, só que aí na conversa, no próprio aplicativo, eu falei assim, “olha, eu sou autista”. Ela: “não, tudo bem, eu não tenho muito estudo sobre isso, mas, assim, vamos conversando”. E ela é bibliotecária, gente, então ela estuda muito, então, quando a gente começou a conversar, e dar certo, se encontrar, então ela começou a estudar sobre.
Então, deu certo, pelo menos comigo, falar de começo que eu era autista, mas, assim, muita coincidência, né? Bibliotecária e tal, que já tem uma cabeça aberta, eu não sei se… Eu não posso falar isso, se pra todo mundo daria esse efeito positivo. Porque tem muita gente que, enfim, é ignorante e quer permanecer ignorante no assunto.
João Victor: Sem dúvida, é porque, assim, casos e casos, como você mesma disse, porque muitas vezes, na minha bio, eu já evidencio que sou TEA, mesmo sabendo que vou ter uma quantidade de matches muitíssimo menor. Por que eu faço isso? Não só para evitar falas de preconceito gratuito, falas de capacitismo gratuito, falas inconvenientes gratuitas, vai, no geral, mas também para criar um campo facilitador pro flerte.
Tipo assim, eu vou lá, flerto, ou pelo menos tento flertar com a garota. Ela já sabendo previamente que eu sou TEA e tendo meus problemas na comunicação, ela pode fazer uma ponderação, tipo: “Hum, o que esse cara falou pode não ter sido o melhor momento, mas talvez eu entenda”, digamos assim. Se criar esse campo é prudente, se vale a pena, se é algo limitador até demais, ou se insinua que autistas são limitados além da conta, não sei. Mas preciso confessar que já recorri a esse subterfúgio para facilitar a minha situação. Às vezes deu certo, às vezes não muito. Fica um experimento de laboratório, vai.
Brendaly: É, no meu caso eu não fiz isso porque eu tava saindo do armário, tava doida pra ficar com mulher. Eu falo assim: “Se eu coloco o TEA, gente…” (risos).
João Victor: Não, claro, claro, lógico! Não ia dar certo.
Brendaly: Eu falei: “não, não vou colocar aqui”. Mas, assim, aí eu queria perguntar pra vocês, assim, também, eu queria perguntar pra Maysa, em relação aos papéis de gênero, assim, porque a gente sabe que tem muito. O homem, o homem que corteja, né? Até uma fala sua… o homem que toma iniciativa. A mulher tem que ser delicada, tem que esperar. E aí, por exemplo, você é bissexual, você percebe essa diferença com homem e com mulher, por exemplo?
Maysa: Assim, nessa questão de flerte, a minha opinião é que, assim, não tem que ter essa coisa, assim, de, por exemplo, se for homem, “Ah, vou esperar o homem chegar e tal”. Não, sabe? Quem tiver interesse, fala, sabe?
Brendaly: Mas com mulher você percebe diferença? Porque, por exemplo, assim, eu percebo muita diferença, porque aí não tem esse jogo, sabe? Que, “ah, o homem a gente tem que esperar”. Então, assim, é de ambas as partes. Eu não sei se com você, se você percebe, assim, essa diferença. Porque eu já me relacionei com homem, gente. Um homem. Mas hoje eu me considero sapatão. Parece que tem, tipo, uma espécie de jogo ali, assim, né? O homem, ele… Aí você fica esperando, aí, mas, assim, aí você toma iniciativa. Quando você toma iniciativa, você fica receosa do cara achar que você é dada, que não sei o quê. E com mulher não tem isso. Você concorda?
Maysa: Sim. Com mulher não tem esse joguinho, assim, né? Uma ou outra chega, assim. Eu percebo que é mais tranquilo, né?
João Victor: A respeito…
Brendaly: Pode falar! Agora a gente vai ouvir os héteros (risos).
Ana Julia: Tem que ter a cota hétero, né, gente?
Brendaly: Tem que ter a cota hétero! (risos)
João Victor: Importante, não? Importante! Essa questão dos joguinhos, cara… Falar a real, eu acho… Não é que eu ache ridículo, quer dizer, também, vai. Mas eu acho estranho no sentido de não enxergar a necessidade da sua existência. Quer flertar? Flerta. O problema é saber como. Simples assim, sabe? Eu vou muito na filosofia da tentativa e erro.
Não que eu vá falar qualquer merda que se passe pela minha cabeça, porque eu tenho o meu filtro. Tenho que manter uma classe, um cavalheirismo, um cortejo, digamos assim, né? Mas sempre buscando alcançar o meu objetivo ao mesmo tempo em que eu tento ser o mais claro e cristalino possível a respeito dos meus interesses.
Com a questão do jogo, eu até entendo quando a pessoa fala de jogo a respeito de outras camadas. Quais camadas, você me pergunta? – “Ah, será que se eu falo que tô gostando agora da pessoa, ela vai achar que eu tô muito apressado, muito emocionado?”.
Aí, nesse quesito específico, talvez a questão do jogo seja até válido. Mas fingir desinteresse total… perdão, fingir desinteresse total e completo é de foder. Pra pessoa correr atrás de você, não, desculpa.
Maysa: Essa questão do joguinho não tem muito a ver com a questão da orientação sexual.
Acho que, de modo geral, é mais normal que as pessoas esperem não a sinceridade já de cara, sabe? Não a literalidade já de cara. Espera assim que fique aquela coisa assim de ficar dando dica, sabe? De ficar insinuando assim né?
João Victor: Essa é a minha dúvida…
Maysa: Que é o que a gente tem dificuldade.
João Victor: Essa é a minha dúvida. Pra quê? Pra quê insinuar? Pra quê criar essa atmosfera? Eu suponho que seja pra facilitar um processo de confissão do interesse real.
Nesse caso, eu acho até, a depender do contexto, obviamente, justificável, tipo assim. Porque se você falar no meio de uma conversa qualquer, por um assunto qualquer que não tem nada a ver com questão de flerte e relacionamento, com uma pessoa que você se interessa… Eu suponho que para um neurotípico, ele queira criar essa atmosfera justamente para facilitar a situação toda.
Mas o problema é que, além de não compreendermos isso, nós autistas não compreendermos isso, a gente fica à mercê de como a outra pessoa vai conduzir a conversa para que a mera possibilidade de haver um consenso, de haver uma constatação mútua existir.
Ana Julia: A sociedade, ela coloca, ela impõe pra gente que nós, mulheres, a gente tem que performar feminilidade, que a gente tem que agir de uma forma, igual você falou, de forma mais delicada. – “Ai, não dê em cima do cara ou não tome a iniciativa porque ele vai achar que você é muito pra frente. Você é aquela pessoa rodada, digamos assim.
Quando eu conheci o meu namorado, eu tomei muito a iniciativa no nosso relacionamento. Ele também é autista, só que quando a gente se conheceu, eu não tinha contado pra ele do meu autismo, do meu diagnóstico, ele também não havia me contado dele. Só que eu percebi.
E aí quando a gente se conheceu, a gente se conheceu pelo Instagram, começamos a conversar e tudo mais, eu percebi que ele tinha um jeito, assim, muito retraído. A gente só trocava curtida no Instagram e tudo mais, eu falei assim: “Toma, meu filho, meu número aí de contato, de telefone, já que você não me pede! Você não me chama pra sair assim no Instagram e o número de WhatsApp, e o número, não vai passar?”. Gente, é sério!
Brendaly: É conhecido aqui em Goiânia como o famoso pamonha, né? Desculpa! (risos)
Ana Julia: Não, mas é isso, eu falei isso, inclusive. Por quê? A gente só trocava curtida no Instagram, aí uma vez eu criei coragem pra responder uma coisa que ele postou sobre psicologia, ele adora essas coisas de psicologia. E aí, eu lembro que isso foi num sábado, e quando foi na segunda-feira, ele me mandou uma mensagem no Instagram:
— “Oi, tudo bem? Vamos sair hoje?”
Aí eu: “Como assim? Você nunca conversou comigo!”
Aí um amigo meu gay falou assim:
— “Amiga, manda mensagem porque ele achou que você deu um fora nele.” Aí eu, “Tá bom, já que ele é muito pamonha, muito lerdo…”
Maysa: Autista né?
(Risos)
Ana Julia: Eu não sabia, eu não sabia! Aí, já que ele não faz nada, eu vou jogar meu número de WhatsApp aqui, ó. “Oi, tudo bem? Eu ainda quero te conhecer, sair com você e tudo mais, né? Me chama no WhatsApp”. Aí eu nem deixei de responder, só joguei o número lá, “toma”, e aí ele me chamou. E aí, eu tomei atitude em outras coisas também, assim, no nosso relacionamento. Porque eu achava ele muito devagar.
E ele é policial. E aí, policial tem uma questão de que as pessoas acham que todo policial tem aquela fama de machão, né? De performar aquela masculinidade, então você tem que agir de tal forma. E eu falava para as minhas amigas: “amiga, mas esse homem é muito lerdo!”. E que não sei o que, eu falava, falei pra minha mãe, eu ainda falei: “nossa, eu acho que ele é autista.”
Tomei a atitude em algumas coisas, às vezes é eu que chamei ele pra sair, algumas vezes: “não, vamos combinar, né, de sair e tudo mais…”. E aí, foi isso, assim, eu acho que nós, mulheres, a gente não precisa se prender a esse papel que a sociedade impõe pra gente de que: “ai, mulher não pode fazer isso, ai, de que homem não pode fazer aquilo”. Eu acho que a gente tem que fazer, sabe? A única coisa que eu vou concordar um pouco é que eu acho que o homem que tem que pedir em namoro e em casamento. Num relacionamento hétero, gente.
Brendaly: É, porque entre duas mulheres, quem é que vai pedir? (risos).
Ana Julia: É, no relacionamento hétero, eu concordo com essa questão.
Brendaly: João Victor discorda! Vai, dê a sua opinião, por favor.
João Victor: Não, eu só deixei em aberto, eu só deixei em aberto. Essas mãos não significam muita coisa.
Brendaly: Por hoje é só, pessoal. Queria agradecer a você que ficou até o final desse episódio. Na semana que vem, teremos uma nova temática com uma nova formação. Lembrando que o podcast Introvertendo é um podcast feito por autistas, produzido pelo NAIA Autismo e está sendo gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Poliana Dourado | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Brendaly Januário | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: João Victor Ramos

