Introvertendo 278 – Animais de Estimação

Cuidar de um animal não é fácil. Tem gastos financeiros, de tempo, mas quem tem um pet e é autista pode ter vários ganhos e um suporte emocional indispensável. Neste episódio, Gustavo Borges, João Victor Ramos e Maysa Antunes se juntam com Any Serpa Borges para falar sobre seus animais de estimação, como eles se relacionam com a vivência autista, além dos ganhos e desafios em ter esses bichinhos.

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Transcrição do episódio

Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam com os seus animais. Eu sou o Gustavo Borges e na minha casa tem três animais de suporte emocional, contando comigo.

Maysa: Olá, meu nome é Maysa, tenho 34 anos e eu tenho um gato e um jabuti.

João Victor Ramos: Olá, eu sou o João Victor Ramos, tenho 25 anos e tá tudo bem ser pai de pet, só não seja pai de planta, por favor.

Any: Olá, meu nome é Any, eu tenho dois pets e tentei ser mãe de planta, mas não deu certo.

Gustavo: Hoje nós vamos falar de um assunto muito querido e peludo, que são os animais de apoio emocional. Que ajudam a gente a passar pelo dia a dia, por situações difíceis, por crises de choro, por momentos de alegria. E tomam 10% de tudo aquilo que a gente quer comer.

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[Vinheta de abertura]

Gustavo: Então, gente, para poder começar essa conversa tão maravilhosa, eu gostaria de apresentar para vocês Banguela Bonita Borges e Kiwi Kiwi Kawaii Serpa Borges. Eles são meus animais e me dão suporte de vez em quando. Na prática, eles dão muito mais suporte pra minha esposa, mas isso aí é outra conversa. Ela suborna eles com comida, mas o amor é real e dá pra sentir que eles amam a gente de volta, é bonito.

A Banguela, ela já tá pra poder completar nove anos de idade. Ela é extremamente dócil e ela é maravilhosa com tudo e todo mundo. E eu tenho certeza que uma das razões do meu casamento estar firme e forte até hoje é porque ela tava lá lambendo os momentos difíceis como se fossem cola.

E tem menos de um ano que o senhor Kiwi Kiwi entrou em nossas vidas. Porque já era a hora da gente ter mais um bichinho. Ele era o pet do pet e minha esposa também queria esse pet. Ela teve um outro porquinho da Índia no passado chamado Kurt, que foi muito legal. Mas os pais dela basicamente falaram “você leva a minha filha caçula da minha casa. Mas o porquinho da Índia fica”. E aí, a gente tem esse bichinho, a gente ficou preocupado como ia ser a interação dos dois e tá tranquilo, como vocês podem ver pela foto. Daqui a pouco, ele vai tentar puxar um fio de cabelo dela, ela vai dar um rosnado. Ele vai sair pulando de alegria e fica por isso mesmo.

Any: A Banguela e o Kiwi também são meus. Eu brinco lá em casa que eu tenho mamíferos de suporte, porque eu conto com o Gustavo. Então eu tenho três mamíferos de suporte emocional. A Banguela meu xodó, assim. E a gente parece muito, é assustador. Então eu sou mais lenta, eu sou mais preguiçosa, eu sou mais de ficar… E quando eu tô mais feliz, ela também tá. Mas assim, eu nunca tive um banheiro de porta fechada por causa dela. Então quando eu também tô naquele nível mais depressivo, quando eu tô mais ansiosa, que eu quero ficar sozinha, que eu me tranco, ela fica louca e ela quer abrir a porta e ela quer ficar… Então, assim, eu não tenho mais esse momento sem Banguela.

Gustavo: Literalmente, lambe suas lágrimas.

Any: Ela é meu suporte emocional. E o Kiwi é o novato. Eu já tive um porquinho muito criança, aí eu tive outro porquinho. Esse é o terceiro que eu tô tendo. E ele é uma graça, assim. Ele é mais temperamental, assim.

Gustavo: Demora um pouco mais pra demonstrar o amor. Mas quando demonstra, é muito bonito. Ele demorou mais tempo para poder se acostumar com a casa, com a rotina. E teve uma situação onde ele ficou muito tempo sem ver a Any, infelizmente. E quando a viu, ele pegou a mãozinha dele, segurou, assim, um dedo dela. Foi tudo que ele conseguiu com essa patinha minúscula. E prendeu, tipo, não me solta. Foi muito bonito.

Any: E assim, é incrível o quanto esses bichos conseguem me estabilizar. Quando eu tô mais caótica, assim. Ou quando mesmo eu chego do trabalho, assim. Eu trabalho com criança. Tem dia que quase todos os dias eu chego morta. E eles me estabilizam. Então, eu não sei hoje como é viver mais sem eles. E é uma coisa que eu não gosto de pensar muito. Mas quando a Banguela for, realmente eu não sei como que eu vou ficar.

João Victor: Gente, essa é a Theresa. Theresa Ramos. Tereza com “TH” e “SA” no final. Detalhe importantíssimo. Ela está na minha vida há exatos 3 anos, 6 meses e 22 dias. E cara, que ser extraordinário. Não vou dizer que ela é um anjo em forma de animal. Seria muito clichê, ainda mais no contexto em que estamos conversando.

Foi uma virada de chave tremenda a adoção desse bichinho na minha vida. Porque quando ela, ainda neném, filhote, começou a andar pelo meu quarto, eu fiquei tipo, “OK, não é uma vida humana, mas não deixa de ser uma vida. Agora eu tenho uma responsabilidade”. Minha nossa! Ela é mais do que um suporte. Ela foi um animal, está sendo um animal que me propulsionou a outro patamar de desenvolvimento. Assim, literalmente, ela fez eu começar a sair mais de casa, seja quando ela estava doente, seja quando ela precisava fazer algum outro tipo de exame, seja quando ela precisava ser vacinada, seja quando eu precisava, e continuo precisando, obviamente, comprar ração, comprar brinquedo, comprar areia.

E, por tabela, isso pavimentou o caminho para que eu conseguisse apenas, “apenas”, ir para outros locais, sozinho. Eu comecei a pegar Uber sozinho pela primeira vez, beirando os 22 anos. Antes eu não dava conta. Razão, Theresa. Eu comecei também a ter coragem de ir para outros locais que não têm nada a ver com o contexto animal, tudo isso porque eu fui incentivado pelas ações que eu precisei realizar, pelos hábitos que eu precisei cultivar em prol dos cuidados da Theresa.

Nessa brincadeira de pegar Uber, eu comecei a pegar Uber sozinho para ir na psiquiatra, para ir na psicóloga, para ir para o hospital quando necessário. Ela foi a mola propulsora, porque antes sempre tinha que ter a minha mãe ou minha irmã caçula por perto.

Maysa: Tenho dois pets, o jabuti e o gato.

Gustavo: Não, não, para lá. O jabuti tem nome, tem uma história, queremos saber dele. 

João Victor: Por favor, por gentileza.

Maysa: O jabuti, o nome dele é Tomate. Por que o nome dele é Tomate? Eu ganhei ele quando eu estava trabalhando, fazendo vistorias em uns lotes, lá em Goianápolis. E aí, eu fotografando esses lotes, e aí eu vi os jabutis adultos, e fiquei encantada e pedi para o dono, “Nossa, eu posso tirar foto deles?” E aí ele “Ah, tem um filhotinho deles aqui, você quer?” E assim, era um sonho de infância ter um jabuti, e minha mãe nunca deixou. E aí, eu ganhei ele dessa forma.

Então, Goianápolis, a cidade do Tomate, coloquei o nome dele de Tomate. Não dá ainda para saber o sexo dele, só quando ele tiver maiorzinho, em torno de uns 10 anos, ele deve ter em torno de uns 3 a 4 anos. E aí, eu também tenho um gato. Enfim, o nome dele ia ser outro, mas fui chamando de Bebezão, e é Bebezão. Ele tem em torno de uns 10 anos, e dá para ver que ele é super sociável (risos).

João Victor: Comunicativo.

Maysa: Comunicativo, assim, é curioso que ele não é um gato que gosta de contato físico, ele não gosta mesmo de contato.

Gustavo: Seu gato é autista?

Maysa: Totalmente autista (risos). Quando alguém se aproxima, ele realmente, ele faz essa cara de onça, porque ele não gosta de contato mesmo, né? Uma vez ou outra, ele passa ali na perna de alguém que ele gosta muito e tal.

Mas, o curioso é que, assim, quando eu estou triste, eu demoro a levantar da cama, alguma coisa assim, ele vai lá para perto, fica miando, sabe? Então, assim, ele dá um conforto emocional à distância, mas, assim, é perceptível a preocupação dele comigo, com a minha mãe também. Ele não interage bem com outros bichos, então, eu até queria ter mais gatos. Meu sonho também é ter um coelho.

Gustavo: Ele se dá bem com o Tomate?

Maysa: Sim, ele aceitou muito bem o Tomate, só o Tomate, assim. Outro gato que passa lá em casa, ele corre atrás para brigar. Uma vez entrou um cachorro sem querer também, lá na garagem, ele foi atrás e, nossa.

Gustavo: É um treco impressionante de como a gente entende a língua deles, e eles entendem a nossa. É mais fácil mesmo para a gente, porque a linguagem deles é mais simplificada ou mais direta, entender o que nossos bichos querem?

Maysa: Sim, e assim, eu pensei também na questão de que os animais, eles não usam de figuras de linguagem como sarcasmo, ironia, para ficar lidando com a gente, pelo menos eu nunca percebi. Como os humanos fazem, né? Então, fica uma comunicação mais fácil de entender, e de interagir com eles também.

João Victor: E adianto, eles conseguem ser muito diretos, de uma maneira tão sincericida quanto nós. Vale destacar, não só quando eles têm sede, não só quando eles têm fome. Às vezes eu tomo banho num horário em que estou sozinho em casa, alguém da minha família precisa abrir a porta e está sem a chave, o que ocorre? “João Victor, João Victor, João Victor”, minha mãe gritando, para que a porta fosse aberta, e eu sem escutar nada, porque eu costumo tomar banho ouvindo um metal pesadíssimo.

O que Theresa faz? Ela vai até o portão, recebe minha mãe, e depois sai correndo até o banheiro e começa… Literalmente, tipo assim, “papai, sai logo daí, velho”. Ela já fez isso umas cinco vezes nesses últimos meses. Não estou zoando. Ou seja, quer objetividade maior que essa? E não é desejo de ração, não é desejo de água, é literalmente ela se comportando mediante um contexto específico. Vocês têm algum exemplo assim também?

Any: Sim, sim, a Banguela é muito objetiva, por exemplo, quando ela quer o tempo dela, ela vai deitar sozinha, ela quer ficar sozinha, então ela vai, e a gente deixa o tempinho dela, ou mesmo quando a gente está vendo alguma coisa, ela tem um espaço próprio dela deitar, que ela gosta de deitar entre as pernas. Então ela fica basicamente em cima e já fala, “eu quero deitar, você pode bater aqui”, e ela não deita, ela quer o espaço dela.

João Victor: Ou seja, às vezes ela é um não me toque, que nem um Bebezão da Maysa…

Any: É.

João Victor: Em outros momentos, ela separa um espaço específico pra se deitar. 

Any: Sim. Com a gente.

João Victor: Ah, tá.

Any:  Então ela tem muito isso. Mas essa questão de acordar, ela não acorda pra abrir a porta, né? Ela dorme.

Gustavo: Não, eu saio tarde das gravações do podcast, chego em casa, destranco a porta, entro no quarto. E aí, de repente, talvez ela comece a pensar em acordar, e perceber que eu tô ali. Aí ela fica alegre, pula e me recebe, mas assim, péssima cão de guarda. Ainda bem que eu não peguei pra isso.

Any: Se eu sair do quarto, ela acorda e me segue. Mas enquanto eu estiver no quarto, ela tá no sono, assim, pesadíssimo. Assim, não me preocupa, ela tá aqui.

Gustavo: Não, mas ela sabe os dias da semana.

Any: É.

João Victor: Por favor, explique, por gentileza.

Gustavo: Eu tenho o hábito de levá-la pra passear às terças e quintas. Até vou ter que mudar isso pra segunda e quarta, por questões do podcast. Ela sabe quando é terça-feira e quando é quinta-feira. Porque ela vai me receber quando eu chego todos os dias do trabalho. Mas quando é terça e quinta, ela fica agitada.

Se é uma segunda-feira e eu chego do trabalho, ela chega, me recebe e vai pro sofá, esperando que eu vá no sofá fazer carinho nela. Se é uma terça ou quinta-feira, dia dela passear, ela fica sambando ali na frente da porta, porque ela sabe que é dia de levar ela pra sair.

Any: Ela não deixa nem o Gustavo entrar.

Maysa: Ela adaptou a rotina, né? Eu queria acrescentar sobre o jabuti, porque eu falei, né, do conforto emocional que o Bebezão me traz. Muita gente acha assim “ah, mas o jabuti não interage e tal”. Gente, interage, sabe. Assim, por exemplo, eu vou lá no quintal, ele já vem na minha direção, já chega perto. Ele levanta a cabecinha pra fazer carinho, sabe, é muito bonitinho. E eu acho ele um bicho muito previsível. Além da questão da alimentação, que tudo que o jabuti pode comer, de verduras, legumes, alimentação natural, ele come, né, assim. E a previsibilidade com ele é muito nítida, assim.

Por exemplo, ele está vindo na direção do seu pé, ele vai morder o seu pé (risos). Então, assim, ele não vai ser um bicho que vai ficar rodeando, sabe. Levantar a cabecinha e recuar, não, ele vai morder. Ele tá indo na direção, ele é curioso de morder coisas diferentes. Então, se ele ver um pé lá, alguma coisa no quintal, assim, ele vai ver o que é. Então, ele vai pra cima. Então, é interessante essa questão da previsibilidade dele em relação a outros animais, que eu acho. E traz esse conforto também, essa interação dele,  de certa forma traz um conforto, uma companhia também, como os outros animais. O gato, o cachorro e tudo mais, né. Mesmo que do jeitinho dele, às vezes mais lento.

João Victor: Gustavo, Any, Maysa, quando eu perguntei sobre histórias que vão, além de comportamentos tidos como padrões entre pets, animais de estimação no geral, eu queria fazer uma observação. Suporte é inegável que precisamos, é indiscutível. E como esses animais fornecem isso pra gente com muita facilidade, com muita…

Gustavo: Maestria.

João Victor: Boa. Eu queria destacar um ponto também, que é o seguinte. Animais de suporte emocional. Esse tema foi usado no começo do episódio. E eu lembro que, literalmente, dá pra solicitar isso de maneira formal, por escrito, com um profissional da saúde, analisando se é necessário para a pessoa no espectro autista ou com outros transtornos, pós-traumático, ansiedade generalizada. Eles analisam a questão, veem se um animal não tem um histórico de agressividade, assinam a punho, carimbam, e isso permite que bichanos belíssimos como esses aí possam estar conosco a todo momento, basicamente. Viagem de ônibus, viagem de avião. Vocês já pensaram em fazer algo a esse respeito com os seus animais? Você, Maysa, já pensou em fazer algo a respeito com o Bebezão?

Maysa: Sobre o que você comentou da questão terapêutica, eu queria comentar sobre isso, porque eu vi algumas reportagens que retratam sobre a zooterapia. Tem o ZooFoz, lá em São Paulo, e aí tem os animais lá que tem essa linhagem terapêutica para pessoas autistas e síndrome de Down. Então, assim, achei interessante ver essas reportagens, lá surgiu em 2018, mas a zooterapia desde o século passado já tem essa ideia, e é muito interessante, porque realmente ajuda muito na questão psicológica, na regulação do humor, sintomas de ansiedade, depressão. Também tem outro termo que fala “terapia assistida por animais”.

João Victor: Sim, sim, perfeito.

Maysa: Então eles atendem muitas pessoas lá, e aí você agenda pelo site e tal, achei bem interessante. Não sei se tem em outros lugares aqui, mas em São Paulo, se eu não me engano, é o mais conhecido, assim, o ZooFoz de São Paulo.

João Victor: Certo, certo. E com vocês dois?

Any: Assim, a gente passou por um episódio… A Banguela, ela não tem essa liberação, mas assim, é muito fácil de conseguir, por causa do meu neuro e psiquiatra, mas a gente passou por uma situação que eu fiquei quase um mês internada. E assim, eu tava morrendo por causa desses bichos.

E meu médico, foi quando meu médico me liberou, eles não podiam entrar no hospital, porque pra poder entrar tem que ter toda uma adaptação do próprio hospital, mas que eu pudesse ir lá fora e ver os bichos. Então foi feita essa liberação, pra eu ter esse pequeno conforto de vê-los durante essa…

Gustavo: Durante dez minutos ali na calçada.

Any: E isso fez maravilhas, assim. Porque eles já estavam numa situação punk, assim, pra mim, e eu ainda tava longe deles. Eles só não foram mais porque eles foram pra minha mãe, minha mãe já morava um pouco longe e tal. Mas se eles estivessem ali por perto, eles iriam todo dia. Então, ajuda muito, ajuda muito.

Gustavo: O período que ela passou dentro do hospital foi mais leve após a visita deles.

Any: É.

João Victor: Foi o que quis dizer mesmo.

Any: Sim, sim.

Maysa: Interessante.

Any: Então, assim, eu ir lá, saber que eles estão bem. Acalmou a Banguela, porque a Banguela também tava assim…

Maysa: Eles sentem, né?

Any: É, então foi bom, porque eu tinha passado… Já tinha uns dez dias que eu estava sem vê-los ali. Então, no meio ali eu consegui passar um tempinho com eles. Então, ajudou muito, ajudou muito.

Gustavo: Eu acho que é muito importante. Nenhum de nós quatro aqui tem essa questão que você acabou de falar de levar o animal de apoio emocional para viajar. Mas eu acho muito relevante. Primeiro, quando a gente viaja, a gente vai pra casa de parente. Então, não tem que ter liberação nenhuma. Se não liberar meu bicho, eu também não entro. Mas a questão é autismo, rotina, estabilidade. O momento que a gente tá com mais fatores caóticos, que a gente não consegue controlar é quando a gente tá na rua. É quando o mundo tá acontecendo inteiro ao nosso redor.

Então, uma coisa é você sair de casa pra poder trabalhar e voltar cansado no final do dia se o bicho tá ali pra poder te ajudar e te recuperar. Outra é quando você fala que vai passar seis dias em outra cidade, em outro estado. Quem que vai te ajudar nesse período? Então, é muito importante eles estarem lá. Tem autistas que têm dificuldade em entrar dentro de um avião e turbina e tudo mais. Mas ter aquele bichinho ali no colo faz toda a diferença.

Teve um caso vergonhoso, terrível. Acho que tem pouco mais de um ano isso virou notícia. Tinha uma família com uma criança autista saindo do Brasil. Eles estavam indo morar na Irlanda, se eu não me engano. E a criança tinha um animal de apoio emocional e a aviação aérea não quis deixar entrar. Sendo que já tinha sido negociado e conversado no dia. E assim, já tava pago, resolvido, negociado.

Porque uma coisa é o capitalismo forçar, você vai ter que pagar um assento pro seu bicho. Outra é você falar que o bicho não vai. E assim, eles tiveram que cancelar a viagem, eles não foram, eles não entraram no avião. Entraram na justiça, advogado, assim… Tiveram que passar não sei quantos dias a mais no Brasil, foram com outra companhia. Um estresse, um gasto, um desespero porque não deixaram a criança entrar com um animal de apoio emocional. Que devo acrescentar, estava em uma gaiola. Pra quem tava com qualquer preocupação de que esse bicho vai sair correndo de poltrona em poltrona, o animal estava numa gaiola, de onde ele é capaz de exercer plenamente suas funções de acalmar a criança.

Any: Sim, tem a questão assim, de um avião, de uma fila, de um… Você tá com o seu pet ali, seu cachorro, gato, galinha, o que seja. Te tira daquele desconforto, sabe?

Gustavo: Inclusive galinha é um animal muito importante pra nossa equipe de produção. Obrigado por ter lembrado de incluí-los.

Any: Ah, tá… Te tira daquele desconforto que você começa a ter. Então você fica mais abraçado ali, pelo seu bichinho. Vai te acalmando ali.

Gustavo: Shopping passou a ser um lugar menos odiável depois que minha cachorra passou a ir.

Maysa: É, até estava conversando com uma amiga minha autista. E aí, ela me falou que muitas vezes ela não conseguia pegar Uber sozinha. E aí a cachorrinha dela ajudava muito. Porque aí ela ia com a cachorrinha no colo, né? Muitos momentos de regulação emocional, ela melhorava passando a mão, sentindo o pelo da cachorra, ajudava ela na regulação emocional.

E teve uma coisa bem interessante que ela me falou, que ela treinava olhar nos olhos com a cachorrinha. Achei muito interessante isso, sabe? Porque, pois, nunca tinha pensado nisso. Porque eu tenho dificuldade também com essa questão de olhar nos olhos. E aí ela me relatou isso, sabe? Achei bem interessante. E também o fato de ela conversar com a cachorra e a cachorra não julgar ela ou não ter nenhuma reação social de rejeição com ela, sabe? Achei bem interessante isso.

João Victor: Treinando a própria comunicação também, no caso?

Maysa: Sim, é, ajuda nas habilidades sociais, nesse caso. Comunicação e habilidades sociais.

João Victor: Interessante, porque é como se a tutora em questão simulasse que estivesse conversando com um ser humano, só pra ter certeza.

Maysa: É, sim!

Gustavo: Ela sente que tá conversando, não importa com quem. 

João Victor: Ah, tá.

Maysa: É, porque, por exemplo, ajuda na companhia, em relação à solidão, eu mesma, criança, eu tive muitos amigos imaginários. Se eu tivesse um bichinho, talvez teria ajudado muito nessa questão, sabe?

Eu lembro que eu tive um pastor alemão, que era meio ursão, assim, ele foi roubado, enfim, eu fiquei muito triste, muito mal mesmo com isso. E aí, depois, nem tivemos mais cachorros e gatos. Só que gato, morando em casa, mesmo castrado, tem uns que fogem, eles são muito curiosos e somem, enfim. E aí, por isso que eu tinha um sonho de ter um jabuti, porque eu acho que pela expectativa de vida dele, que é alta, né?

Gustavo: Achei que você ia falar pela incapacidade de fuga.

Maysa: Não, porque esse aí já fugiu, você acredita? (risos).

Gustavo: O quê?

Maysa: Ele já fugiu, quando ele era bem pequenininho, ele ia passar pelo friso do portão, e eu fiquei doida atrás dele.

João Victor: Uau!

Maysa: Mas aí, depois, eu coloquei o cercadinho, né, tudo direitinho, e foi só uma vez esse susto.

Any: Essa questão da interação social, pra mim, assim, em convivência com a Banguela, questão de mascaramento mesmo. Então, quando eu tô com ela, eu não preciso ficar com o masking, sabe? Eu consigo…

Maysa: Ser você!

Any: Ser eu, então… Eu canto, se eu tô com o cabelo mais alto, eu tô mais suja, se eu tô… Eu não preciso do masking, eu tô com ela, e ela… tá tudo bem com ela.

Maysa: E ela não vai ser irônica com você, nem sarcástica (risos).

Gustavo: E ela te força a sair na rua, e te força a interagir com pessoas.

Any: Ah, isso eu não gosto, Gustavo.

Gustavo: Não importa, as pessoas… Se uma pessoa vier perguntar pra você as horas, se você tiver sem a Banguela, você foge. Se uma pessoa vier fazer um carinho na Banguela e perguntar, você fala: “ah, são 10 e 15, tenha um bom dia”. E fala “ela é linda mesmo, pode passar a mão”.

Any: Fato.

Maysa: É, eu vejo muito isso em parques, né? As pessoas que vão com os cachorros, assim… As pessoas chegam pra conversar, e pra passar a mão no cachorro, acaba forçando mesmo a interação social, assim, entre os humanos mesmo.

Deve acontecer com vocês também, de vir pessoas aproximando, querendo conversar sobre os bichos, sobre os cachorros, e assim… Acaba sendo um hiperfoco nosso também, né? Falar dos nossos pets, né? Curiosidades, enfim, cuidados, dar dicas. Então, assim, aí acaba interagindo também dessa forma. Que é um assunto legal pra gente.

Gustavo: O Kiwi sai pouco, mas já pediram pra passar a mão dele na rua. E também já veio…

Maysa: Ah, eu ia pedir, com certeza!

Gustavo: E assim, você fazendo carinho no lugar certo, dá super certo. E ele é tranquilo no lugar. Você fazendo carinho na parte que ele gosta… Fala “ó, já faz carinho aqui”. E dá certo, e é tranquilo. E ele não, ele é agitado, mas tipo, é tranquilo fazer carinho nele quando ele tá bem disposto.

E ele também ensina do jeito dele a dar o tempo. Ele é muito assustado, então você tem que falar antes de se aproximar dele pra ele saber que é você se aproximando e não se esconder. Mas tem vezes que ele começa a se esconder e ele volta, ele dá ré, tipo… Olha, ele quer interagir, ele quer brincar, quer ter esse momento aqui agora.

Então a gente vai, ele vai pra casa de parente, puxa, pega. E é muito mais do que gerar um assunto. A pessoa estar confortável com os seus bichos, meio que automaticamente, por associação, torna ela mais confortável com você, e você com ela.

João Victor: Com a Theresa, é o extremo oposto, infelizmente. Nesse sentido, porque é basicamente o seguinte, Theresa é extremamente arisca com os outros. Quando eu falo com os outros, é qualquer um que não seja eu, meus pais e minha irmã. Ela sai correndo e vai pra debaixo da cama do quarto da minha irmã, ou pro guarda-roupa da minha irmã, ela é muito apegada no quarto da minha irmã.

Enfim, pra você ter uma ideia, quando eu fui levá-la pro veterinário pela primeiríssima vez, ela devia ter uns dois meses de vida, né? E como a mãe biológica dela e os seus quatro irmãos, que moram com ela, os quatro irmãozinhos da Theresa ficaram juntos ali, a Theresa foi a única que foi adotada…

Gustavo: Que foi pra você, claro.

João Victor: Isso. Eu fui levá-la para um reencontro, achando que ia ser a coisa mais emocionante e divertida do mundo. Ledo engano, ela virou uma onça pra cima de todo mundo.

Gustavo: Não reconheceu eles.

João Victor: Não reconheceu. É chocante.

Gustavo: Gente, só pra gente não parecer que tudo são flores, tudo é maravilhoso, eu acho que a gente tinha que falar também das dificuldades e do trabalho que dá ter um animal de apoio emocional, especialmente quando você é um adulto e você cuida dele. Adeus orçamento, seu orçamento vai pra eles, pra comprar a melhor ração, uma caminha, uma mantinha, um agrado, um petisco.

Tem toda essa questão financeira, tem a questão que você vai ter que gastar tempo com eles. Não é só eles que estão a seu serviço, você também acaba estando a serviço deles. Você tem que dar atenção, você tem que alimentar nas horas corretas, você tem que cuidar, ele pode sumir, você tem que colocar a tela na grade. Então por favor, falem um pouquinho da dificuldade de estar com esses bichos.

Maysa: É, além do que você falou, da questão financeira, os custos quando você leva no veterinário, que é bem puxado, se o bichinho precisar ficar internado, enfim, é um custo alto. Então a gente tem que ver essa questão. E também assim, olhando pelo lado do autismo, cada autista é diferente. Tem que analisar o que vai ser melhor para sua convivência. Por exemplo, um animal muito agitado pode ter aquela desvantagem de aumentar até a sua ansiedade, você começar a ficar muito ansioso, agitado também como o bicho, sabe? Ou então, por um lado, ser uma boa interação, de você brincar mais com ele.

Igual também, outra amiga minha autista falou que a cachorrinha dela acaba, como se diz, dando energia pra ela, sabe? Tirando o sorriso dela, por ela ser muito agitadinha e tal. Então assim, é uma análise que tem que fazer.

João Victor: Tem que ser uma combinação muito boa de gestão de tempo e dinheiro. Digo porque quando Theresa adoeceu, nas poucas vezes que ela adoeceu de maneira muito séria, para evitar uma internação, onde os custos seriam muitíssimo mais altos do que já foram, toda a família precisou fazer uma força-tarefa para medicá-la nos horários certos, com as vitaminas certas, vigiá-la 24 horas pra ver se ela não vomitava, pra ver se ela não desmaiava, pra ver se ela conseguia andar, chegou nesse nível a parada. E digo mais, gente, vacinação, detalhe importante, castração, pelo menos pra gato, a partir do sexto mês.

Por mais que haja uma quebra inicial muito acentuada da rotina, a partir do momento em que o animal entra na nossa casa, eu creio que a rigidez consegue se tornar um pouco flexível, aos pouquinhos, não é algo imediato.

Gustavo: Mas a gente se abre para eles nesse sentido.

João Victor: Dá o benefício da dúvida, tipo assim, “nossa, que legal, tem um bicho aqui”.

Gustavo: Para eles vale a pena.

Maysa: É uma nova rotina.

João Victor: Para todos nós. 

Maysa: Além da sua, tem a rotina do animal também.

Any: Essa quebra do que é esperado, essa quebra da rotina. Porque a gente cria essa rotina, a gente cria o que é esperado. Aí esse bichinho chega e… “não vou fazer assim”. Então, te quebra inteira. A Banguela, a gente pegou a Banguela bebê, então… A Banguela foi crescendo com a gente, teve dia que eu chorava. Eu falava, “o que eu faço com ela? Ela não para de morder, ela não para de…”

Gustavo: Ela não dorme, não acalma.

Any: É, até você se acostumar com aquele novo serzinho que estava ali. Eu chorei muito, eu tive muita crise de ansiedade com a Banguela bebê porque ela era muito danada. Mas eu fui me acostumando com ela, e ela foi se acostumando com a casa. Eu acho que é um tempo.

Gustavo: Gente, eu fico muito feliz de poder exaltar o amor pelos bichos que a gente tem aqui. De fazer quase essa trapaça pra poder colocar nossos pets na pauta. Mas eu sei que é um assunto real, e que é muito relevante pra vida de vários autistas. E eu espero que com a devida responsabilidade e o cuidado, pessoas que estão ouvindo esse podcast, adotem animais. Que estejam de acordo com suas necessidades. Como você bem falou, pra poder cuidar e ser cuidado. Porque é uma relação de parceria maravilhosa, linda, amorosa e especial.

Então, esse podcast, eu não dedico aos nossos bichos. Eu dedico a todos os bichos que ajudam todas as pessoas neurodivergentes que tanto estão precisando por aí.

*

Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Any Serpa, João Victor Ramos e Maysa Antunes | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian

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