Introvertendo 276 – Desregulação Emocional, Sensorial e Crises

Pequenas coisas no dia a dia, juntas, podem desencadear crises. Por isso, muitos autistas podem ter reações aparentemente desproporcionais, mas questões de interação social e questões sensoriais podem explicar o resultado de tanta desregulação. Neste episódio, nossos podcasters trazem os seus desafios diários e o que fazem para identificar e contornar crises. Participam: Gustavo Borges, Izabella Pavetits, Marx Osório e Maysa Antunes.

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Transcrição do episódio

Marx: E aí meus queridos, tudo bem com vocês? Esse é o podcast Introvertendo, um podcast feito por autistas, com produção do NAIA Autismo. E eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e hoje nós vamos falar sobre desregulações, crises e tudo o mais, que há de ruim ou de bom nisso.

Maysa: Olá. Meu nome é Maysa, tenho 34 anos, vim um pouco exausta, sobrecarregada do serviço pra gravar esse episódio e é isso.

Izabella: Meu nome é Izabella, eu tenho TDAH, TEA e o dobro de motivos pra entrar em crise.

Gustavo: Eu sou o Gustavo Borges e “palma palma, não priemos cânico”.

Marx: Você que nos acompanha aqui pelo YouTube, nós também estamos nas redes sociais, no nosso Instagram é @introvertendo, também no Twitter, no Facebook e também nós temos o site www.introvertendo.com.br. O Introvertendo é um podcast feito por autistas e gravado nas instalações da Faculdade Realiza.

Gustavo: Para participar dos bastidores, trocar mensagem com os membros e ter diversas outras recompensas, considere ser um apoiador do projeto através do Apoia.se, Patreon ou Catarse, vale a pena. E a melhor parte é que você pode até dar sugestões de pauta pra gente. Eu não garanto que eu vá seguir, mas você com certeza vai poder sugerir.

[Vinheta de abertura]

Marx: Quando a gente fala sobre crises, desregulações e coisas relacionadas dentro do universo do autismo, eu vejo que existem muitas confusões, muitas misturas em relação aos conceitos, né? Mas o fato é que o prejuízo que isso causa na nossa vida cotidiana é muito intenso, ele é inevitável. E, muitas vezes, mesmo com o processo terapêutico em dia e com todo o esforço que a gente faz pra tentar manter a saúde e a tranquilidade, o próprio fato do mundo nos sobrecarregar é uma coisa inevitável.

Então pra gente começar esse nosso bate-papo aqui eu gostaria de trazer à mesa sobre experiências relacionadas com desregulações e com crises. Eu não sei se o conceito de desregulação e crise é uma unanimidade pra todo mundo, mas eu vejo que a desregulação pode levar a uma crise, mas nem sempre uma crise leva a uma desregulação, isso varia muito. Mas, como estamos, né, na nossa vida atual em relação a isso?

Izabella: Eu tenho questões sensoriais que são complicadas pra mim, que são um gatilho grande pra crise, as coisas que mais me pegam… Eu não sei, é uma questão tátil, então assim, o calor me deixa muito… Eu não sei a palavra muito bem pra explicar, mas assim, eu fico muito desregulada quando tá muito quente porque eu transpiro muito, aí essa questão tátil pega pra mim. Eu fico porque né, fica suada e pegajosa né, quando eu fico com muito calor, geralmente é o momento que eu tenho mais aquelas crises explosivas, de começar, tipo, eu dou uns gritos tipo: “Ai eu não aguento mais, tá muito quente” e eu fico completamente surtada, né, quando é essa questão do calor, o que é um problema bem grande porque eu moro em Goiânia, pra quem não sabe é uma cidade bem quente.

Gustavo: Menos hoje.

Marx: (Risos)

Izabella: É, então é um desafio diário, tem poucas épocas do ano que isso não é um problema, mas assim, na maior parte do ano é um problema. E outra coisa que varia muito assim, o sonoro mexe muito comigo. Eu não sei se eu já mencionei isso em algum episódio, eu acho que não, mas eu tenho uma deficiência auditiva, eu sou usuária de aparelho auditivo. Então assim, os ambientes em que o som tá muito alto tipo supermercado também e às vezes as pessoas ficam confusas quando eu falo isso porque elas falam assim: “Ué, mas você não escuta direito e o som tá te incomodando?”.

Mas é comum pras pessoas que têm alguma questão de deficiência auditiva terem mais essa sensibilidade. Principalmente quando você usa o aparelho e aí ele dá uma aumentada no volume, então junta isso com a minha sensibilidade do autismo e dá um problema. Essas crises mais ligadas ao sensorial costumam ser crises mais explosivas. Tipo, quando eu tô num lugar, que tá muito estímulo, muita gente perto de mim, tipo, eu falei lá da questão do suor, mas por exemplo, se eu tô num lugar muito lotado e fica muita gente perto eu tenho questão com tato também, de pessoas desconhecidas me encostando. Até, dependendo do dia, até pessoas que eu conheço me encostando.

Mas, assim, quando o gatilho é mais emocional, uma coisa ligada mais a excesso de demandas do dia a dia, por exemplo, aí tende a ser mais na questão do shutdown, que é uma crise mais voltada, tipo, que aí eu travo e não consigo fazer nada, não falo com ninguém e, às vezes, no meio da situação ali que eu chego no meu limite e é isso. Não tem nada que me faça voltar.

Às vezes tem uma crise e depois tem a ressaca da crise, aí eu passo tipo, tem o momento que aconteceu, que é bem ruim e depois eu passo dias tentando me recuperar. Então assim, eu tenho vários gatilhos pra ter crise. E percebi essas coisas, que quando é mais ligada ao sensorial, ela tende a ser explosiva, e quando ela está ligada a questões mais emocionais e de sobrecargas da vida no geral, ela está mais ligada a reações auto direcionadas.

Marx: Isso é muito interessante. Porque pelo seu relato eu percebo que no seu caso crise e desregulação é uma coisa só. Mas a natureza do que vai causar muda qual vai ser a crise. E isso é uma coisa que pra mim é novidade. Eu nunca tinha ouvido a experiência de que uma crise sensorial poderia levar a um meltdown e uma crise emocional a um shutdown.

No meu caso, acontece um pouquinho das duas coisas. As sobrecargas sensoriais nem sempre chegam a levar a crise. Mas as questões emocionais minhas, elas costumam levar a crise, isso varia muito de autista pra autista.

Maysa: É, assim, a minha situação é um pouco parecida com a Izabella em relação à temperatura, só que ao contrário. No meu caso é em relação ao frio. Eu tenho hipersensibilidade ao frio então…

Gustavo: Mora no lugar certo.

Maysa: Ainda bem, porque eu fui lá pro Sul e quase morri lá. E também em questão de barulho. O ambiente mais problemático pra mim é o ambiente de rodízio, no qual as pessoas costumam comemorar aniversários. Nossa, muitos estímulos de barulhos diferentes, talheres, as pessoas conversando, as pessoas batendo palma porque tá cantando um parabéns na mesa do lado e a outra mesa do fundo também começa e aí…

Gustavo: Sempre tem aqui em Goiás, pelo menos…

Maysa: Sempre.

Gustavo: Aquela pessoa desagradabilíssima que começa a gritar nome de um time de futebol altíssimo e vem mais dois e grita e pra nada, para nada.

Marx: Protesto! Protesto! Protesto!

Gustavo: Vai pro estádio, quer gritar isso vai pro estádio!

Marx: O Vila é gigante. O Vila é gigante, desculpa.

Maysa: Então assim, ambientes assim propiciam ter uma sobrecarga, uma crise se eu não sair desse ambiente e as interações sociais também. Às vezes eu canso de conversar muito tempo, com uma pessoa, até em rede social, no WhatsApp.

Marx: Identificar uma crise nem sempre é uma tarefa fácil. E eu vejo que depois do diagnóstico, uma das habilidades que eu ganhei, que eu aprendi, é justamente começar a identificar quando uma crise está por vir. E normalmente a crise vem depois de uma série de sobrecargas, sejam elas quais forem, que em algum momento vai culminar em uma crise. E muitas vezes a crise vai ter repercussões às vezes dias.

Eu já tive crise de ficar cinco dias desmotivado, de tudo, sem querer fazer nada, completamente esgotado, exausto e, muitas vezes sem nem saber o porquê. E aí depois eu ia parar e refletir que na verdade, é porque eu tive uma sobrecarga, seja social ou até mesmo emocional mesmo, por alguma questão mais delicada. E eu entrei em crise, comecei a entrar no mood catastrófico, de ver só o lado ruim das coisas, eu tava entrando em crise. E até eu conseguir perceber que isso era uma crise, que não, eu não estava ficando depressivo, era só uma crise do autismo mesmo, demorou muito.

Pensando nisso vale a pena a gente também falar um pouquinho sobre as diferenças de lidar com isso antes e depois do diagnóstico. Porque no meu caso, pelo menos, melhorou absurdamente, tanto identificar quanto lidar com a crise. E normalmente a melhor maneira de lidar com a crise é ficar em off, é descansar, é sair da fonte causadora.

Maysa: Entrar numa caverna, se pudesse (risos), isolamento.

Marx: Nem sempre isso é possível, né?

Gustavo: Sim, você falou de perceber os primeiros sinais. Os primeiros sinais é um bom momento pra se você conseguir, você cortar o que tá vindo, o fluxo, mudar de ambiente, de postura, do que foi e te ajuda a ter esse controle. Aí você vai sofrer um pouquinho ao invés de sofrer bastante por cinco dias seguidos. Até esse brinquedinho que tá aí na sua mão, ele é um token que te ajuda, te prende na realidade, no momento, te dando uma coisa para poder focar que não seja aquele estímulo externo que tá te prejudicando.

Marx: É, nesse caso aqui é mais pra eu descarregar a hiperatividade mesmo, porque desconectar da realidade não é uma coisa que eu sei o que é (risos).

Gustavo: Não, eu disse que ele serve pra isso, não que você usa.

Marx: É, tem gente que usa pra isso, né? Tem gente que usa pra descarregar a energia mental, porque às vezes ela extravasa.

Maysa: Antes do diagnóstico do TEA e TDAH, eu tive diagnóstico do Transtorno de Ansiedade Generalizada. Então as minhas crises, eu não entendia, eu achava que era tudo da ansiedade e pronto. Eu não conseguia impor limites em mim mesma em relação aos ambientes, em relação ao que poderia causar a crise. E hoje eu entendo bem melhor isso, depois que eu tive o diagnóstico, passei a entender mais. 

E aí, melhora bastante, né? A gente se autoconhecer e ajudar a não chegar nesse ponto. É claro que não tem como evitar as crises. A gente vai ter, porque tem situações inesperadas que acontecem, que desregulam a gente.

Marx: Uma coisa que eu vejo que acontece principalmente no ambiente de trabalho, às vezes uma sobrecarga de qualquer natureza que eu vou ter lá, eu só vou ter a crise causada por isso depois, que é a tal das crises tardias. Eu não sei como é que acontece com vocês, mas a crise tardia, no meu caso, algumas vêm dois, três dias depois. E antigamente eu ficava maluco, assim, pensando da onde, por que eu tô sentindo isso.

Maysa: Porque vem bem depois, né?

Marx: O que tá acontecendo? E aí, muitas vezes é por causa de um barulho, por causa de uma luz que não devia ter, por causa de que eu socializei demais com os neurotípicos e não percebi que eu tava indo além do meu limite.

Gustavo: As minhas são à vista, na hora assim, veio e já me afetou. Eu tô numa situação que o emprego atual, o pessoal já tem um pouco de noção, então tem dias que eu trabalho com um clipe de óculos de sol, pra eu poder encaixar, aumento o brilho da tela do monitor e vou, porque o dia tá muito iluminado e eu tento fechar meia cortina todo dia quando eu tô lá, porque antes eu tentava fechar a cortina e teve sempre alguém que levantava depois.

Tô tentando sofrer pouco pra poder ver se sofro menos (risos). Mas a luz me incomoda porque se soma com o fato de eu ser bem míope, então atrapalha. A miopia me deixa mais agoniado ainda e eu trabalho numa sala relativamente pequena, com, sei lá, treze a quinze pessoas, varia um pouco, então, tipo, eu não consigo fechar meus ouvidos e eu queria muito.

Eu escuto muito. Tem hora que o pessoal já assustou comigo. O pessoal falou que não pode falar absolutamente nada quando eu estiver na sala porque eu escuto. Recentemente, uma pessoa que tava na outra ponta da sala perguntou: “Ou, você sabe se tá sobrando algum mousepad aqui? O meu tá ruim” e falou: “Ah cara, não sei, mas com certeza tem”, eu vi que eles não iam fazer nada, eu levantei, eu sabia onde tinha, peguei e levei lá. Ele falou: “Cara, muito obrigado, mas eu não sei como você escutou isso”. Então, se tem uma pessoa falando aqui e outra pessoa aqui, às vezes colocam música também, vira muita coisa. E aí eu vou e coloco o fone, eu coloco loop de 10 horas da mesma música, porque me dá barulho e previsibilidade.

Porque se vem alguém e coloca uma playlist que não é minha, eu não sei qual é a próxima música que vem. E toda hora eu vou parar e prestar atenção em qual é a música, e pior ainda, me interessar pela música em vez de fazer o que eu devia tá fazendo. É bem complicado entregar todas as demandas que eu tenho que entregar no dia com um milhão de coisas acontecendo ao redor. Pros outros nada, tá tudo normal, tudo tranquilo, mas pra mim um milhão de coisas.

Maysa: Eu passo por isso também que você relatou e ainda mais, do lado da minha sala de trabalho, que é também em torno de umas quatorze a vinte pessoas que ficam na sala, tem um auditório, um lindo auditório do lado da minha sala e direto tem evento.

Gustavo: Sem isolamento acústico?

Maysa: Sim, direto tem evento lá, então assim, é muito… Às vezes é muito barulho, muitos sons. E nem sempre eu posso colocar o abafador interno. Uso o interno, mas eu tenho que ficar atenta também em algumas reuniões, algumas falas das pessoas no meu departamento, então assim, aí vai chegando no final do dia, eu fico bem exausta, de ficar paralisada um tempo assim, olhando assim pro carro, pensando que horas eu vou dirigir…

Izabella: Essa questão do trabalho, eu acho que dá pra puxar muito na discussão sobre a questão da acessibilidade espacial mesmo. Porque ficam pensando: “Ah não, mas autista não precisa de acessibilidade em termos do espaço” e isso não é verdade.

Eu também já fiz que nem o Gustavo, vira e mexe eu trabalho… O meu óculos não tem clipe, então eu trabalho com óculos escuros mesmo. Aí, das primeiras vezes que eu fiz isso, ficou todo mundo fazendo gracinha: “Hahaha, tá de ressaca, ah ela tá chapada, nossa”.

Marx: (Risos)

Maysa: É uma hipersensibilidade à luz que vocês têm, no caso?

Izabella: Isso. Assim, não é sempre não, mas quando eu tô muito mal, parece que eu fico mais sensível a tudo, sabe? Eu fico mais sensível no sensorial, fico mais sensível no emocional, eu fico mais sensível em todos os aspectos possíveis em que dá pra ficar mais sensível. 

Da primeira vez que isso aconteceu, que eu tava nesse local de trabalho, aí eu fui com um óculos escuro, e eu fiquei. Da primeira vez, todo mundo brincando: “Hahaha, a Izabella veio bêbada, veio virada da balada” e eu ficava tipo assim, gente, não, eu sou autista. Aí, depois de umas duas, três vezes, acho que eles viram que eu não tava achando graça e pararam.

Mas, por exemplo, essa questão da luz poderia ser trabalhada, né? Precisa de uma luz branca que cega todo mundo? Se tipo, um funcionário autista, você não pode colocar ele num local com uma luz mais quente, que a luz amarela é muito, amarela ó, desculpa, a luz branca agride mais os olhos. Então poderia ser uma luz menor, um ambiente com uma cortina, com menos colegas dentro da sala. E recentemente tive um problema no meu ambiente de trabalho que eu sentava naquele esquema, que são várias mesas, um do lado do outro, e eles enfiam um monte de gente na mesma sala. Então é tipo, sei lá, umas vinte pessoas de um lado, depois mais umas vinte do outro, porque fica a equipe de jornalismo e a de publicidade juntas.

Aí eu sentava no meio de uma galera que começou a falar muito alto, muito alto e muito alto e a minha chefe sabe que eu tenho essas questões. Na intenção de ajudar, ela deu um grito no meio da sala e falou assim: “Vocês tão falando muito alto! Olha a Izabella, vocês têm que tomar cuidado com ela”. E foi muito constrangedor.

Gustavo: Porque aí vira o coitadismo.

Izabella: Exatamente. Porque, ao invés de ser “a Izabella precisa de adaptação”, vira “a Izabella é a chatonilda que não tá deixando ninguém conversar”.

Gustavo: Pior, é aquela que não consegue fazer o que os outros fazem, então você fica menosprezado no trabalho.

Izabella: Exatamente. Então assim, na questão de eu trabalhar de óculos escuros, eu coloco fone de ouvido também por cima, por causa do aparelho auditivo. Mas eu também não posso colocar dos dois lados, porque às vezes falam comigo, aí eu não vou escutar nada. Então tem que ser sempre assim: eu posso colocar o fone, mas um dos ouvidos tem que estar livre.

Gustavo: Se ajuda, coloca nos dois e deixa que o povo te avise, te cutuque, acene, na empresa a gente tem muito isso: tipo, você está de costas pra quem tá falando, mas quem tá vendo acena assim e você sabe que “ah, sou eu”. Aí tira o fone e olha.

Marx: Mas eu boto fé que pode ser pela mesma razão que eu não posso usar abafador também no meu ambiente de trabalho, porque eu trabalho atendendo pessoas também, além de fazer coisas.

Gustavo: É, isso é mais complicado.

Marx: Porque lá na farmácia onde eu trabalho, do lado dela tem uma internação de cachorro. Então tem dia que tá super tranquilo, tem os cachorrinhos lá de boa. Mas tem dia que tem uns cachorros berrando, alto, latindo alto, gritando, e são aqueles gritos estridentes, sabe?

E eu não posso colocar abafador, porque toda hora chega um abençoadinho: “Me dá isso, me dá aquilo, pega não sei o quê, faz não sei o quê, prescreve não sei o quê”, porque eu atendo o hospital inteiro, a gente fornece medicamento, material para o hospital inteiro.

Então, muitas vezes, quando tá muito ruim, eu saio, vou lá pra fora, fico uns dez minutos. Lá fora tem uma areazona de gramado assim, aí eu dou uma descansada, volto e vou fazendo assim. Quando eu sinto que tá começando a sobrecarregar, eu saio e volto. E assim, às vezes eu nem falo pra ninguém que é porque tá me incomodando, mas todo mundo sabe que é, porque o pessoal lá sabe que eu sou autista e tenho sensibilidade auditiva muito grande.

Uma outra coisa também que eu fiz lá, que no começo o povo estranhou, mas depois meio que tacaram o foda-se: eu botei luz noturna em todas as telas de computador, da farmácia (risos). Porque eu tinha muita sobrecarga visual por conta de tela branca. Meu celular é com tela noturna também, com aquela luz amarela, né? Melhorou absurdamente.

Gustavo: Mas tipo, nas telas que você via, mesmo não sendo as que você usa?

Marx: É porque lá tem dois computadores. Só um tem impressora, então o que eu fico mais não tem impressora. Quando eu preciso imprimir alguma coisa, eu tenho que ir pro outro.

Gustavo: Ah.

Marx: Aí o outro tem duas telas, porque ele é o computador que a outra farmacêutica lá usa pra fazer compras. Ela precisa das duas telas. Aí uma tem luz branca e a outra tem luz amarela porque eu coloquei. Aí eu desligo a tela que tem a luz branca quando eu vou usar, aí toda vez ela vai lá e liga de novo. No começo eles ficavam bravos, falavam: “Ah, por que que tá desligando?”. Aí depois eu falei: “Não, é porque eu tenho sensibilidade visual e eu não vou botar a luz amarela nas duas telas, porque não precisa, eu só preciso dessa aqui”.

Gustavo: Eu acho que você devia colocar nas duas em vez de ficar desligando. Facilita pra ela e você tá ajudando a visão dela também.

Marx: Mas ela desliga e liga na hora. Não demora pra ligar e desligar, monitor é de boa, né?

Maysa: Nossa, vendo o relato de vocês em relação a luzes, que, em relação a luzes pra mim é tranquilo de lidar, e aí comparando, enquanto isso eu fico sofrendo em relação ao ar-condicionado da minha sala de trabalho (risos). Eu vou lá e viro a paletinha dele pra longe de mim. Eu fico sofrendo com isso enquanto vocês sofrem com essa questão de luzes, né?

Gustavo: Não, que isso, eu sofri muito com o ar-condicionado no ano passado. Passou tipo uma semana com ele quebrado na empresa e meses sem funcionar direito.

(Risos)

Maysa: Ah, tá.

Marx: Bom galera, e como um adendo comercial, merchandising aqui no meio do nosso caminho. O Introvertendo lançou aqui algumas camisetas, como essa: “Sou autista e me vacino”, né? E eu espero que todo mundo aqui se vacine. 

Gustavo: Não estaria nessa sala se tivesse algum antivacina.

Marx: Sim, os antivacinas são a ameaça do mundo. Inclusive nós vamos gravar um episódio sobre isso em algum momento. Chore quem não gostar, mas dê o like ou dislike nisso. Essa camiseta, a arte dela foi feita por membros da formação anterior do Introvertendo. E, se você quiser adquirir essa e outras camisetas que serão apresentadas e vendidas lá, você pode acessar o nosso site e as nossas redes que têm mais informações a respeito.

Izabella: Mas aqui estão, assim, não é nem, por exemplo, ah então a crise são, esses, aspas enormes, “pequenos incômodos do dia a dia”. Eu acho que é justamente a questão que o Marx falou, né, que vai empilhando né, tipo, a sobrecarga, são muitas sobrecargas em várias áreas da vida.

Gustavo: Não é um, é a soma.

Izabella: É, não é tipo: “Ah, então, você entrou em crise porque você tem sensibilidade à luz?”. Não, não é só isso, sabe? É tudo, sabe?

Maysa: É uma junção de coisas, né?

Izabella: É e não só da sensorial, junta as questões emocionais também, junta disfunção executiva e vai juntando tudo isso e chega no ápice que é a crise, né? Você vai ficando cada vez mais…

Gustavo: Sim. É uma coisa que você não tá tão confortável em fazer, um problema que, tipo, às vezes, não é nem dali, daquele ambiente, mas ele tá lá martelando no fundo da sua cabeça e quando vem com isso já soma e facilita a ter uma crise, porque uma coisa pequena aconteceu, mas somada ao que já tá tendo, vai piorando.

Izabella: Pois é, eu às vezes até reconheço os gatilhos de que eu tô indo ali pro caminho, aí por exemplo, se eu tiver no ambiente de trabalho, eu tento fazer que nem o Marx falou: “Vou dar uma andadinha, ver se melhora e tal”. E se não melhorar, eu escondo no banheiro pra dar aquela choradinha remunerada. Mas, tipo, às vezes, não tem como, depois que começou o processo não é simplesmente: “Ah não, eu vou vir aqui fazer uma técnica de respiração, cinco coisas que eu posso ver, duas que eu posso, sei lá, tocar”, enfim, nem sempre isso funciona, pelo menos não comigo. 

Então, eu acho que depois do diagnóstico, o importante foi que eu comecei a aprender, com a terapia, mais técnicas pra conseguir identificar isso e pra lidar com a crise, tentar desescalar e lidar com o depois também, porque depois, óbvio, principalmente quando são crises explosivas, eu fico: “Gente, pelo amor de Deus, eu gritei com meus amigos, gritei com a minha mãe porque eu tava com calor”, sabe? Então não é tipo: “Ai, nossa, eu tô com muito calor”. 

Vocês não tão entendendo, é um negócio que é grosseria mesmo, de ficar me sentindo mal das coisas que aconteceram. Então, se for um caso de uma crise mais, de shutdown, de não ter dado conta de fazer as coisas, então assim, antes de ser diagnosticada, quando eu tinha esse tipo de crise, eu achava só que era tipo: “Ah, é porque eu sou uma pessoa horrível, né? Eu não tô vendo ninguém tendo, dando chilique porque tá com calor”, então, né, isso depois do diagnóstico ajudou bastante. 

Foi um dos vários aspectos em que eu fiquei: “Ah, entendi, não é porque eu sou péssima, tem motivo”. Então, além do diagnóstico, além dessa questão de aprender a lidar, evitar, depois remediar quando já foi, tem isso do auto perdão, que não é um processo automático, né, óbvio, ainda tenho anos desse pensamento programado de tipo: “Ah, se você teve crise é porque você falhou como ser humano”, mas agora eu já tenho ferramentas para ter uma vozinha na minha cabeça falando: “Calma, não é assim”. Então vamos aprendendo com calma e…

Gustavo: Acho que pra gente poder só separar, que a gente tá falando muito de estímulo, estímulo, estímulo, no meu emprego anterior eu tava sozinho numa sala. Teve períodos que dividi com um colega, mas eu passava meses tendo a sala só pra mim e mesmo ali eu conseguia surtar, estar insatisfeito com aquilo que eu tava fazendo, o que me levava a falar: “Ah, mas eu não quero fazer isso, aí eu tenho que fazer isso” e frustração geral da vida e aí depois eu fico pior ainda de: “Cara, olha o tempo que eu perdi, eu passei, sei lá, a última hora e meia sem entregar nada e agora eu tenho que correr para poder entregar isso, vai ficar pior ainda”, e saber que eu vou ter que correr pra poder entregar piora mais ainda. 

Foi uma coisa que eu demorei muito pra aprender a lidar e especialmente, como acabei de falar, de se dar um desconto, se dar um perdão, por saber que você não fez por mal,você não teve qualquer intenção disso e, infelizmente, tentar corrigir depois qualquer coisa que tiver causado nesse período.

Izabella: É, não, porque acabou que a gente conduziu o que falamos até agora mais pra questão dos estímulos, do sensorial, mas o lado emocional também é muito pesado, nessa questão da autocobrança, de não conseguir render às vezes, então não necessariamente você ficar numa sala isolado quer dizer: “Ah não, então tá tudo certo, vai ficar tudo bem”. Minha psicóloga fala, inclusive, que eu tenho, eu não faço home office, eu trabalho 100% presencial, mas eu tenho vontade de ir atrás e de conseguir home office. 

Mas ela defende muito, falando: “Não, não acho que você tem que ficar em home office, você tem que ficar em híbrido, porque se você se isolar também não é bom, porque né, esse contato com os outros é importante, por mais que seja desafiador pra você, como autista, socializar, não sei o quê e ter o retorno dos colegas é importante”. Então, também não acredito que: “Ah não, então beleza, o nosso trabalhador é autista, ok, vou pegar ele e colocar ali, isolado da equipe inteira”, sabe, também não acho que seja a solução.

Marx: E eu vejo também que o processo terapêutico é importante pra nos treinar, pra lidar melhor também com esse ambiente. Porque eu entendo que o nível de compreensão das pessoas que trabalham com a gente ele é importante pra que o ambiente seja menos estressor, menos cobrança e que seja menos gatilho de crise. Eu não ignoro a importância dos colegas de trabalho pra gente ir bem no trabalho, mas eu volto a dizer: a nossa responsabilidade também de tentar compreender o que que tá causando o nosso problema de convivência é importante e tem que ser colocado na mesa da terapia também.

Porque muitas vezes, tem pessoas que vão achar que a gente não quer melhorar socialmente porque a gente tem preguiça das pessoas. Isso é uma característica que o autista é o tempo todo colocado em xeque. Todos nós aqui já ouvimos pelo menos uma vez que a gente não tinha interesse de melhorar socialmente, e não é. 

Depois do diagnóstico, eu acredito que isso não seja a verdade pra ninguém aqui. Mas eu vejo também que existe a questão da dificuldade de cada um de identificar o que que precisa melhorar também socialmente, e até mesmo identificar quem são as pessoas que têm condições de nos ajudar com isso e quem são as pessoas que só vão nos gerar estresse e crise. Isso também é uma habilidade social.

Gustavo: Saber separar e distanciar é ótimo, mas isso que você fala de tentar melhorar é importante e é fundamental. É, tem uma pessoa com quem eu convivi um pouco, uns sei lá, doze anos atrás, parei de conviver com essa pessoa, ela parou de jogar e calhou da gente começar a trabalhar no mesmo lugar ano passado. Ou eu trabalhei e ela já tava lá. E deu pra notar que ela tinha uma certa aversão à minha presença ali, de: “Nossa, como é chato, como é desagradável estar perto dessa pessoa, essa pessoa não se controla, ela não cala a boca, ou ela fala de coisa que ninguém quer falar”.

E isso mudou completamente, ele percebeu que eu melhorei, que eu trabalhei a mim mesmo, que eu não era mais aquela pessoa que eu era antes. E ele mesmo fala o quanto é mais tranquilo conviver e interagir comigo agora. Mas porque foram alguns anos de terapia e, no meio disso, um laudo e outras coisas.

Marx: E essas próprias situações, eu vejo que são um gatilho de crise também. Então, o próprio fato de você não estar mais tendo problema de convivência como você tinha antes diminui a quantidade de crises que você vai ter. 

Por que? Por causa da questão emocional, a questão da rejeição, a questão de ser criticado às vezes, se sentir injustiçado, e a própria questão de não ser compreendido e não compreender os outros. Porque a maioria, eu tenho certeza que a maioria dos problemas sociais que, pelo menos na minha experiência, foi assim, que eu tive, foi por eu não entender o que as pessoas esperavam de mim nos lugares e isso é uma coisa seríssima pra nós.

Gustavo: É tudo muito implícito, tudo muito subentendido. E aí, te falaram que a regra social é uma, só que não é verdade, a regra social é outra, então você tá jogando exatamente com o que te deram mas não era isso.

Marx: É que cada grupo tem sua regra, e também aprender que não é todo lugar que vai ser do mesmo jeito. No ambiente de trabalho tem uma regra, no ambiente casual tem uma regra, na faculdade não tem regra nenhuma, cada um tem sua tribo e por aí vai. 

Bom, nós estamos caminhando então para o nosso encerramento. Eu acredito que vocês acabaram falando um pouquinho sobre como lidar, mesmo que de uma maneira distribuída nas falas aí, a gente falou sobre várias maneiras de como lidar com as crises e como prevenir as crises também. Eu acho que ficou bem contemplado e eu acredito que autistas que não dão crise nunca, nunca vai existir. Mas esse caminho de chegar num ponto de conseguir reconhecer a crise já é uma coisa que ajuda no pós e também diminuir o dano que isso causa pra nós e pras pessoas que convivem com a gente.

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Tiago Abreu | Técnico de som: Marx Osório | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: August Resende