Equilibrar vida pessoal e profissional pode ser difícil, e quando o autismo faz parte dessa equação, o cansaço e esgotamento parece ser um grande obstáculo. Neste episódio, os três apresentadores do Introvertendo se reúnem para falar sobre as dificuldades que estão passando, como fazem para estruturar uma rotina e o que tem dado certo e errado nessa tentativa. Participam: Brendaly Januário, Gustavo Borges e Marx Osório.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam, lavam a louça, varrem o chão, preparam o almoço, fazem a janta, dão banho no cachorro, levam a esposa pra passear, trabalham, estudam, revisam o trabalho dos coleguinhas e ainda vem gravar o podcast. Eu sou Gustavo Borges e aqui comigo hoje estão…
Marx: Marx Osório, 30 anos, farmacêutico, pai de família, casado na prática e com a cabeça lotada, lotada, lotada, lotada.
Brendaly: Eu sou a Brendaly, faço doutorado em antropologia social, estou ajudando na UFG a formar um coletivo autista, tenho um namoro à distância, 130 quilômetros e mais um monte de coisas (risos).
Gustavo: Hoje vamos falar sobre as dificuldades que é levar uma vida plena sendo autista, que tem que fazer um monte de coisas que outras pessoas neurotípicas já tem dificuldade em fazer e pra gente é mais complicado ainda.
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[Vinheta de abertura]
Gustavo: Então gente, eu acordei 6 horas da manhã, eu lavei a louça, eu fui trabalhar, eu ajudei a minha sogra a resolver um problema de documentação, eu tive que acudir minha esposa que teve uma pequena crise hoje, precisava de 10 minutos de alguém acalmando ela pelo telefone. Eu vim pra cá, eu vou chegar em casa por volta de 22h30min da noite, vou jantar, dormir e amanhã começa tudo de novo. E vocês?
Marx: Bom, eu acordei 7 horas da manhã com a criança pequena chorando porque ela acorda todo dia 7 horas da manhã.
Gustavo: Que sorte, minha cachorra me acorda às 6.
Marx: Às vezes ele acorda mais cedo também, mas hoje ele resolveu acordar às 7, levei ele na terapia, levei ele pra tomar 3 vacinas.
Gustavo: Muito importante.
Marx: E à tarde eu fui participar de um evento obrigatório da UFG lá do meu trabalho, umas palestras lá maravilhosas, sobre umas coisas burocráticas que eu queria morrer, mas é obrigatório e depois eu vim pra cá e cá estamos. Então foi um dia um pouco diferente da maioria, mas no geral a minha rotina semanal gira em torno de levar o meu filho para os lugares que eu tenho que levar ele, as terapias que ele faz, trabalhar, fazer o doutorado, continuar escrevendo a minha tese quando eu consigo, que por sinal tá bem enrolado por causa disso (risos). E nem sempre eu consigo organizar as coisas do jeito que eu quero na minha casa porque tá uma loucura esse mês.
Gustavo: Ah, que bom que é só esse mês.
Marx: É porque esse mês tá pior do que nos outros anteriores, né? E como uma pessoa autista, às vezes…
Gustavo: Que aparentemente tem um filho autista pelas terapias que tem que levá-lo.
Marx: Provavelmente, né? Ele não tem nem 2 anos ainda, mas já tem que fazer um monte de terapia já, por causa dos atrasos do desenvolvimento. Eu tenho tido muita dificuldade de fazer tudo aquilo que eu gostaria de fazer, tanto de afazeres domésticos quanto de coisas minhas mesmo, por conta do excesso de demandas externas. Pensar que o doutorado tá tão perto de terminar e falta só realmente terminar o trabalho escrito e qualificar e defender, eu estou…
Gustavo: Mixaria.
Marx: Eu estou muito… Achando que tá muito lento o processo porque eu não tô conseguindo dedicar o tempo que eu gostaria. E por ser uma coisa que só de pensar já me cansa, eu às vezes sinto que eu não vou dar conta. Às vezes eu tenho essa sensação.
E também, claro, as sobrecargas de energia durante o dia. Tem alguns finais de semana que eu simplesmente não tenho energia pra nada, por conta da semana ter sido muito corrida. Muitas vezes eu realmente preciso parar pra dar uma respirada, pra não surtar. Nem sempre eu consigo, então às vezes eu dou pequenas surtadas, assim, e infelizmente. Mas a gente tá trabalhando pra melhorar isso.
Gustavo: Vejo que pelo lado bom do doutorado tem fim.
Marx: É, tomara que não seja o meu fim!
(Risos)
Brendaly: Então, olha, hoje foi relativamente mais tranquilo hoje (risos). Eu já começo assim que eu não dormi bem à noite. Então quando… Porque eu fico assim, de Goiânia, né, para Morrinhos, cidade da minha namorada. Então eu fico uma semana lá, uma semana aqui.
Quando eu tô aqui eu não durmo direito, assim. Não consigo dormir, eu durmo mais ou menos meia-noite, uma hora da manhã. E demoro, deitar, né? Eu demoro acordar, demoro dormir. E aí eu tento compensar um pouquinho acordando um pouquinho mais tarde. Então 9 horas, 8h30min, mais ou menos, pra tentar compensar. Porque eu acordo a noite inteira. Começa por aí. E aí eu acordei com demandas do doutorado. Porque a gente tá fundando um coletivo autista lá dentro da UFG. Então já correndo, falando com outro e atendendo essas demandas que a gente tá com o coletivo.
Fui pra terapia também. Porque assim, se eu não… Eu comecei a fazer terapia há pouco tempo. Com tudo que tá acontecendo na minha vida, se eu não fizer terapia, eu vou surtar. Assim, já surtar, eu já tô surtando (risos). Mas assim, tentar minimizar os danos, sabe? Eu acho que eu tô mais na terapia com esse sentido, assim. Tentar minimizar os danos que ocorrem todos os dias. Aí não consegui ir pra academia, que eu tento ir assim pra tentar ajudar na saúde mental também. E vim pra cá, pra gravar. E aí basicamente hoje foi isso. Hoje foi bem tranquilo, assim. Com comparação com os outros dias (risos).
Marx: É, o bom é que aqui também ajuda na saúde mental. Porque a gente fala um monte de bobagem antes de gravar.
Brendaly: Nossa, ajuda demais!
Marx: Troca umas experiências, eu tô gostando demais também.
Brendaly: Eu também gosto, porque assim, por mais que seja uma demanda também, né?
Mas assim, a gente conversa entre a gente, a gente entende as coisas.
Marx: Podemos dizer que a nossa mesa de boteco é isso aqui, né? (risos).
Brendaly: Sim! Então eu acho que é terapêutico. Isso aqui também eu trato muito como uma parte terapêutica, né? Ainda mais agora que eu tô aqui nessa função, né? Você que tá na função de apresentador (risos).
Gustavo: Ah, tranquilo.
Brendaly: Então assim, a demanda fica mais pra você. Eu vou ficar aqui só falando bobagem (risos).
Gustavo: Pera, apresentador não pode falar bobagem? Vamos ter que voltar para o começo, gente.
(Risos)
Gustavo: Aí eu acho que é um ponto legal pra gente poder começar. Até a diversão ocupa tempo. Até a diversão você tem que ter aquele horário agendado pra poder conseguir, pra poder fazer. Primeiro porque se você não colocar na sua agenda, você não vai ter tempo nenhum pra poder fazer. Você já não tem que colocar na sua agenda, imagina se não colocar. Segundo, é mais uma obrigação. É tipo um investimento a longo prazo pra você não surtar completamente. Mais um compromisso na agenda.
Marx: Se você vê a diversão como uma obrigação, é porque a sua vida tá caminhando de um jeito meio… Forçado. Pelo menos eu vejo dessa forma. Porque tem pessoas, e isso é uma constatação que eu faço observando algumas pessoas que eu convivo mais atualmente, que parece que tem uma necessidade incessante de ocupar o tempo com afazeres. E a sensação que eu tenho em relação à minha rotina é que eu gostaria de ter menos coisas pra preocupar do que eu tenho. Mas eu não posso porque as responsabilidades que eu assumi exigem uma dedicação muito grande atualmente. Algumas delas são responsabilidades temporárias e outras não.
Gustavo: Ah, que isso, um dia seu filho vai se formar na faculdade e vai seguir com a própria vida.
Marx: Sim, mas até lá, muitas…
Gustavo: 20 aninhos fácil, claro.
Marx: Não, eu não faço planejamento tão longe assim, porque a gente não sabe nem se tá vivo daqui até lá. O futuro distante assim é meio complicado. Mas eu penso que… se a gente ficar nessa noia de achar que se divertir é uma coisa que exige todo um planejamento minucioso, quando sobrar um tempo mágico diante das um milhão de coisas que eu tenho que fazer porque eu tenho que ocupar o meu tempo com um monte de coisa, a vida passa a ser uma vida robotizada, sem ter espaço pra você simplesmente viver o descompromisso e o ócio. Porque o descompromisso eu vejo que é uma coisa, que é uma palavra que parece que o povo tem alergia hoje em dia.
Gustavo: Atchim!
Brendaly: Mas você não acha que tipo assim, a gente tem muitas coisas, muitas demandas. Tanto eu, você, o Gustavo. Se a gente não coloca tempo livre, né? Assim, vou fazer uma caminhada no parque, ou vou sair pra tomar um café. Não sobra tempo, cara! Não sobra, assim. Pelo menos comigo é assim, não sobra. Se eu não colocar ali, tá o horário, eu vou fazer, né? Pra me divertir. Não sobra tempo. Pelo menos comigo é assim.
Aí eu vou indo o dia inteiro fazendo coisa, apagando fogo aqui, fazendo isso, fazendo aquilo. E aí, ao final, eu só estou estressada, não tive tempo pra mim. Basicamente comigo é assim. Não sei se é com vocês.
Gustavo: Não é uma questão de “ah, sou forçado a tirar esse momento”. Não, mas é que você só não quer que esse momento precioso para você seja atropelado. Você quer tentar repousar o mínimo, aproveitar o mínimo. Cara, a rotina é tão intensa que eu fico brigando pelo meu horário de almoço. Eu já reduzo meu horário de almoço pra poder dar conta de todas as demandas que eu tenho no trabalho. Mas eu faço questão. Todo horário de almoço eu assisto alguma coisa, eu jogo um pouquinho, eu leio uns capítulos, eu faço qualquer coisa. Porque esse momento tão curto eu tenho que aproveitar, eu tenho que desopilar e é com o horário marcado. Então, poderia ser melhor? Poderia ser melhor. Mas é melhor eu fazer isso do que não fazer nada? É melhor eu fazer isso do que não fazer nada.
Marx: Ou de repente usar o horário de almoço pra almoçar também, né? Pra conversar com pessoas…
Gustavo: Eca!
(Risos)
Marx: É…
Gustavo: Desculpa, tô brincando.
Marx: É… Eu acho que eu dei uma cutucada meio profunda na nossa classe autista aí, mas tudo bem. Vou deixar isso como uma cobrança pra mim também, nesse ponto. Mas uma coisa que me incomoda às vezes é pensar que eu deito, às vezes cansado, eu chego em casa, eu deito na minha cama, fico olhando pra cima. E teve momentos na minha vida em que eu deitava para descansar e eu realmente ficava no ócio sem me preocupar com nada.
Mas quando eu deito e fico pensando que eu tenho que entregar uma tese de doutorado, que o meu filho precisa fazer não sei quantas coisas na semana que vem, porque eu tenho que organizar não sei o quê, aí o meu cérebro começa a entrar num modo de não estar descansando, mas está em modo de sobrevivência. E esse é um exercício que eu tô tentando fazer nos últimos tempos, de me permitir realmente ficar sem me preocupar com nada, pelo menos uns 10 minutos por dia.
Gustavo: Isso tudo?
Marx: Pois é, extremamente difícil para mentes aceleradas e vorazes como as nossas, né? E aí fica aquele pensamento: será que a gente não consegue desligar da preocupação e realmente se permitir ficar à toa, de verdade, fazendo uma coisa à toa com a sensação de eu estou, eu não preciso me preocupar com nada, eu não tenho que me preocupar com nada. Porque a sensação de não ter que se preocupar com nada é maravilhosa, não sei se você já sentiu, mas quando eu sinto isso eu fico numa paz de espírito, você não tem noção. Não se preocupar com absolutamente nenhum problema é muito bom.
Brendaly: Olha, parabéns, porque eu não consigo. Eu não consigo não me preocupar com nada, não dá. Porque hoje eu parei assim, nossa, vou tirar um tempinho e vou ficar quieta. Aí na minha cabeça, eu tenho que escrever um artigo até dia 20 de junho, e hoje é que dia? Dia 27. Então, gente, o artigo, meu Deus, eu tenho que falar com fulano, eu tenho que pesquisar isso, eu tenho que… Não dá, gente. E eu não tive tempo até agora pra escrever esse artigo. Então, quando eu parei, eu falei assim, “não, vou ficar quietinha”. Aí na minha cabeça eu tenho um monte de coisa pra fazer, então eu… Olha, parabéns pra você que consegue tirar 10 minutos, eu não consigo nem tirar 10 minutos (risos).
Marx: Só que a sensação de culpa depois vem forte.
Brendaly: Aí, tá vendo?
Gustavo: Eu tento limitar. Já me preocupei bastante por hoje. Já resolvi, sei lá, três problemas. Tem 10 na fila? Tem 10 na fila, mas não vou resolver mais um hoje não, amanhã eu volto com isso. Nunca vão acabar, então, se eu não parar, de alguma forma, pra mim, eles vão ficar lá, eu vou ficar, trabalho, trabalho, problema, trabalho, problema, problema no trabalho, problema fora do trabalho, eu vou ficar resolvendo tudo e, sei lá, no final eu desmaio.
Marx: E aí entra muito aquela questão de você levar trabalho pra casa, né? Que é uma coisa que eu quero abolir da minha vida, e eu vou conseguir fazer isso em breve. E eu sei que tem profissões que não é possível fazer isso, né?
Gustavo: Sim.
Marx: Porque tem o tal do home office, porque às vezes você tem que produzir coisas pra levar ao trabalho. Igual professor, que às vezes tem que levar trabalho pra casa porque tem que montar aula, estudar, escrever. E uma das razões pelas quais eu resolvi seguir a carreira de técnico-administrativo e não de professor foi essa. Chegar a um ponto da minha vida em que eu não vou precisar, quando eu sair do meu local de trabalho, eu vou poder simplesmente esquecer que aquele lugar existe e preocupar só com as minhas coisas de casa, outros tipos de problemas e de soluções.
Gustavo: Fez bem.
Marx: Mas eu entendo que nesse momento o doutorado é uma coisa que tem me consumido, que tem ocupado esse lugar, e isso me deixa extremamente chateado às vezes, porque eu não queria ficar me torturando mentalmente por conta disso.
Gustavo: Eu tô prestes a terminar uma pós-graduação na ESPM. Eu fiz o último módulo, agora é só o trabalho, que infelizmente tem que ser feito em grupo, mas esse aí é um trabalho à parte. Tô lidando com as pessoas lá, poderia ser pior. Mas eu tive discussões e problemas em casa, porque eu não tava parando lá, porque eu tava sem tempo pra poder dar, de fato, atenção pra minha família, porque pós-graduação, sexta-feira à noite, sábado, manhã e tarde. E agora tá um pouco melhor, a gente tá resolvendo isso, mas eu fiz assim, arredondando um pouco, 100 horas extras em seis meses.
Eu tava muito sem hora pra poder voltar pra casa, eu tava… eu deveria sair, sei lá, às 18 horas, eu tava saindo 20, 20h30min, uma vez cheguei às 22h, e tipo, não só é tarde, não só é menos tempo, como quebra totalmente a rotina que eu tenho estabelecido com a minha esposa. E a gente sabe que a rotina é um elemento interessante pra gente, então a gente chega na hora certa, se é o dia certo, eu levo a cachorra pra poder passear, que inclusive eu tive que mudar, a data de levar a minha cachorra pra passear por causa do podcast, ela tava perdendo muitas terças-feiras por isso.
E a gente chega e conversa rapidamente, e sei lá, toma um banho, e janta assistindo alguma coisa na TV. Então as séries estão bem atrasadas por conta disso tudo, ainda tô tentando correr atrás disso. E era um hábito que a gente tinha, era uma rotina nossa, e já era difícil, porque tem essa rotina de fazer isso, não tá fazendo, agora eu chego, ela já tá quase indo dormir. Tô melhorando isso esses meses, tô resolvendo coisas no trabalho para poder funcionar melhor assim, mas é quebrado totalmente a rotina. Ou ter uma rotina mais ocupada não vale como substituto da rotina anterior, não tem dado certo.
E eu gostaria de já emendar isso no próximo assunto, que é a questão de o que é pior? Você ter uma rotina muito ocupada, já que a gente gosta de rotina, mas ter muita coisa nela prejudica, ou ter obrigações que surgem do nada e te roubam da sua rotina?
Marx: Deus me livre, a segunda opção aí é terror completo! Eu acho que ter uma rotina fixa para nós é o mundo ideal. É o que satisfaz o valor de X para o autista, né? Mas aí eu devolvo a sua pergunta com outra pergunta. Você está falando de rotina pessoal ou tá falando de rotina de trabalho? Porque pelo que você tá falando aí, você tava trabalhando demais fora de casa, e isso estava prejudicando a rotina de casa.
Gustavo: Sim, o trabalho tava prejudicando a rotina em casa, e o estudo estava prejudicando a rotina em casa, e outras obrigações menores estavam prejudicando a rotina em casa. Só que aí vem a questão: Tá tirando coisa da minha rotina, sendo que gosto muito da minha querida rotina, mas o problema é realmente, as horas que eu dedicaria aquilo não estou podendo dedicar aquela outra rotina dentro de casa.
Então mesmo que fosse uma rotina, não, sei lá, se eu resolvesse em cima de tudo isso, fazer academia, praticar um esporte, já tem o podcast que a gente tá começando, então… Preciso ter o tempo dentro de casa também.
Marx: Eu vou estender essa pergunta pra todo mundo aqui, porque eu também trouxe isso aqui um pouquinho agora, porque, por exemplo, eu estou atualmente com muitas demandas que estão fazendo eu não dedicar mais algumas questões de casa, e eu estou chateado com isso, porque eu gostaria de estar dedicando mais a minha casa do que eu estou dedicando atualmente.
No caso de vocês, vocês também estão com essa sensação, ou vocês estão achando o máximo só ficar trabalhando fora igual maluco, e é o cônjuge, às vezes a mãe ou o pai, que está cobrando que vocês dediquem mais em casa?
Gustavo: É tudo falta da mega sena acumulada.
Marx: Ou é a necessidade de sobreviver, né?
Brendaly: No meu caso é nenhum nem outro, porque, por exemplo, eu namoro a distância, 130 quilômetros, vou pra lá, a última vez eu fiquei 10 dias lá, eu vim agora no sábado, fiquei 10 dias, aí vim embora. Aí lá eu tenho uma rotina, quando eu chego aqui é outra coisa. E muda tudo, gente, muda. Desde a alimentação, desde como é o funcionamento da casa, tudo, muda tudo. Então lá, por exemplo, ela vai pro trabalho, e eu fico fazendo minhas coisas do doutorado.
Ela vai mais ou menos na parte da manhã, aí a gente lancha tudo, faz o almoço e tal, ela já vai, leva o almoço, e eu fico fazendo as coisas do doutorado. Aí chega, geralmente descansa um pouco, vai pra academia, aí chega, aí a gente tem um tempo nosso e tal. Aí é isso. E a alimentação lá é totalmente saudável, porque ela é fitness.
Aí aqui, gente, é um caos. Em Goiânia é um caos, porque aí a família tá aqui. Aí já aparece um monte de coisas, aí às vezes, né, coisas, aí já entra o podcast, porque quando eu tô aqui, o podcast, aí já entra o podcast. Quando eu tô lá, é só coisas assim, né, pontuais, converso com o Tiago e tal, pra alinhar. Mas aqui, aí já tem o podcast, aí tem família, aí tem um monte de coisa. Então assim, quando eu chego aqui, a minha cabeça fica doida, assim, porque além de mudar o ambiente, mudar, mudar tudo, ainda tem as demandas que vêm em Goiânia. Então assim, como que eu vou fazer isso? Eu não sei até agora (risos)!
É bom que a gente conversa pra ver se a solução é tal, porque eu ainda não encontrei. Porque não tem jeito, assim. É um relacionamento à distância, tem que ir pra lá e vem pra cá, aí eu não durmo direito, porque tenho muita ansiedade aqui em Goiânia, tem muita coisa. Então, a rotina, pra mim, é uma loucura dependendo de onde eu estou, entendeu? Então, lá é mais tranquilo, lá eu fico mais tranquila, consigo resolver minhas coisas. Aqui, não.
Gustavo: Mas pelo que você acabou de descrever, você não tem um problema com alternância de rotinas?
Brendaly: Tenho também!
Gustavo: Já tá pré-estabelecida qual é a rotina lá, qual é a rotina… O problema é que a rotina aqui está ruim.
Brendaly: Tenho também, porque aqui muda tudo, gente! Aí o que eu tô fazendo? Muda tudo, desde a alimentação, a casa, tudo, muda tudo. Então, no começo, pra mim, foi muito difícil, porque como muda tudo, eu falo, gente, eu ficava muito cansada, sabe?
Eu chegava aqui, já chegava, ficava muito cansada. Aí o que eu tô fazendo? Tentando trazer a rotina de lá pra cá. Só que ela é sugada pelo tanto de demandas que têm em Goiânia. Então, assim, está funcionando? Não. Eu surto toda semana? Praticamente! Mas assim, a terapia tem dia. Pelo menos agora eu tô fazendo terapia e tem ajudado, mas…
Marx: O problema, então, é o ambiente estruturado, né?
Brendaly: Pode ser.
Marx: Porque lá me parece ser um ambiente estruturado, e aqui parece que não é tão estruturado assim.
Brendaly: Exatamente.
Marx: Eu falo do lugar de uma pessoa que é casada com uma pessoa TDAH, muito TDAH, né? E a grande questão que eu sempre tenho que lidar desde o começo é com a questão do ambiente estruturado. Com uma pessoa que tem muita dificuldade com organização pessoal e com o ambiente estruturado. E eu tenho muita necessidade disso. Então, acaba que você tentar trazer a estruturação de um lugar onde tem pessoas que fazem a estruturação acontecer para um outro lugar onde isso não acontece, na tentativa de fazer com que você tenha aquilo que você considera ideal, pode ser frustrante. E pode, muitas vezes, soar que você está rejeitando a estrutura original de onde você veio. Ou de onde você já estava antes, né? Ou não. Aí depende muito da interpretação de quem vê.
Mas eu vejo que, no meu caso, algumas coisas pontuais ainda seguem longe do que eu gostaria, mas muita coisa já melhorou. Eu também estou trabalhando a questão da flexibilidade, entender algumas coisas que é importante, em algum momento, também, fugir um pouquinho da rotina. Porque a vida tem muitas caixinhas de surpresa, às vezes, e ferramentas pra não surtar, pra não ficar desregulando por causa disso o tempo todo.
Gustavo: Tá, não. Mas pera aí, Marx. Pera aí só um instantinho. Vamos tentar organizar, porque você está falando de uma pessoa que te ajuda e te atrapalha. Fica complicado isso, cara.
Marx: Mas é, ué. Quando você casou com a sua mulher, também não teve coisa que ela te ajudou e teve coisa que você precisou ajudar ela?
Gustavo: Sim.
Marx: Então acaba que fica essa dinâmica, principalmente no começo, até acertar o timing, demora. E demora mesmo.
Gustavo: Demora.
Marx: Porque tem coisa que é óbvia pra mim. Porque vem da minha criação. Da onde eu vim, é uma coisa que a minha mãe fazia ou falava. É uma coisa que não podia acontecer. E, às vezes, na criação dela, não. Às vezes é uma coisa que pra ela não faz a menor diferença. E pra mim é uma coisa que não é possível que a pessoa não esteja vendo isso.
Gustavo: Cara, mas aí eu acho que você tá falando da questão de… A gente gosta de ordem. E ela é desorganizada por natureza. Aí você tenta organizar e ela desorganiza de volta. E isso acaba gerando algum estresse, algum desgaste a mais. E não estou dizendo pra separar. Não estou dizendo que não dê pra poder conviver com isso.
(Risos)
Marx: Não, tipo assim… A minha questão não é com a pessoa desorganizar o que eu organizei. Eu não tenho problema com isso. A questão é ela não…
Gustavo: É até divertido, né? Mais uma coisa pra você organizar. Ei! Tem quem goste.
Marx: A questão é a pessoa não conseguir organizar o que eu esperava que ela organizasse. Entendeu? Ela não tem a iniciativa de organizar o que eu considero que deveria ser organizado. E que, às vezes, eu não dou conta de organizar porque eu só sou um. E aí tem que ficar falando, tem que ficar cobrando.
E com certeza eu devo ter questões de rigidez também que às vezes pega pra ela. Por exemplo, ela querer fazer uma coisa em cima da hora e não poder. Porque eu fico com raiva, porque eu vou xingar, porque eu vou falar um monte de coisa. E às vezes ter que brecar um insight criativo porque sabe que eu vou precisar de tempo para digerir aquilo. Enfim, são coisas que no final das contas a gente não pode ignorar também no processo de organização e de chegar num consenso do que funciona melhor pras pessoas envolvidas. Porque também não adianta nada você criar um ambiente estruturado e você não dar conta de estruturar e nem a pessoa que tá com você também dar conta de estruturar. Não vai vir uma força da natureza estruturar aquilo do além pra você.
Gustavo: Poxa…
Brendaly: Então, no meu caso, no meu relacionamento…
Gustavo: Brendaly, muito legal sua namorada, mas eu acho que você devia falar da sua família. Porque parece que lá em Morrinhos tá tudo certo e a gente tem que resolver em Goiânia.
(Risos)
Brendaly: É, tem isso. Vamos lá. Duas coisas. Aqui, o que acontece, minha mãe é autista.
Gustavo: Olha! Diagnosticada ou só depois que você?
Brendaly: Diagnosticada depois de mim. Então, eu basicamente busquei o diagnóstico, que tinha muitas características. E também, de um certo modo, para tentar ajudá-la, sabe? A minha mãe a vida inteira sofreu com vários diagnósticos, com tratamentos e nunca conseguiu êxito, sabe? E como a gente é muito parecido, eu falei assim, “Ah, o que eu tenho, talvez ela tenha”. Então, sabe? Tentativa de ajudá-la também. Porque eu ajudei minha mãe a vida inteira, fui o suporte da minha mãe. Então, tem essa questão, assim. Aí depois ela foi diagnosticada também como autista e tal.
Então, querendo ou não, eu também sou o suporte da minha mãe. Sabe, assim, em várias crises, em várias questões. Espero que ela não fique chateada comigo (risos). Mas, assim, não é que ela me toma tempo. É o suporte, gente. Não tem como. Eu preciso de suporte, ela precisa de suporte também. Então, várias vezes eu paro o que eu tenho que fazer pra dar auxílio. Porque ela precisa, né? Ela entra em crise. E as crises da minha mãe são bem fortes. Então, ela tem outras questões também que eu não entro aqui. Então, quando eu tô aqui em Goiânia, geralmente eu tento dar, ir lá. Às vezes faço um bolo, faço alguma coisa para dar suporte pra ela porque ela realmente precisa. Minha mãe não tem amigos, não tem pessoas pra ajudar ela.
Gustavo: Entendo profundamente.
Brendaly: E lá em Morrinhos, né? A gente já falou sobre isso. Eu sou tanto o suporte dela quanto ela é o meu. E esses dias atrás eu tava lá e tive um shutdown muito grande, assim. Ela tem me ajudado, mas eu também sou o suporte dela. E acontece, assim, em vários relacionamentos.
Gustavo: Então, parece que nos últimos 15 minutos a gente tá falando, assim, de casamento. De tudo que ela espera, deveria ser casal, um apoiando o outro, um ajudando o outro.
(Risos)
Brendaly: Mas é, gente. Não tem como. Não tem como. Quando você tá com uma pessoa em relacionamento, você ajuda a pessoa, a pessoa te ajuda. Não tem como.
Marx: É, porque se não houver essa troca também, a relação não vai pra frente.
Brendaly: Não vai.
Marx: Se só você tiver sendo suporte, só você tiver entregando, a outra pessoa não tiver te ajudando em nada, só te sugando, isso é uma relação desbalanceada.
Brendaly: É, e abusiva, né? Ainda mais a gente precisa de tanto suporte em várias questões.
Marx: É, não querendo entrar nesse mérito, mas, tipo assim, esse equilíbrio é importante. Agora, do ponto de vista de como o autismo, eu vejo que afeta a nossa paz de espírito, diante da sobrecarga, eu acho que, na minha visão, é o ponto principal aqui. Porque eu já me peguei muitas vezes pensando como que os neurotípicos, eles lidam quando eles têm muita coisa, muita demanda. Se eles entram em desespero igual a gente, como é que é isso?
Porque, às vezes, eu tenho a sensação de que o meu limite de coisas que faz eu perder a paciência, às vezes, e surtar, é muito menor do que a maioria das pessoas. Não sei até que ponto isso é verdade, mas, tenho certeza que todo mundo que já sentiu essa sensação, pelo menos uma vez.
Gustavo: Parece muito. Até porque eu acho que eles têm uma capacidade de fingir que não tem nada errado muito melhor que a nossa. No sentido de não transparecer o que está surtando, especialmente no sentido de não fingir que tem 10 coisas para poder resolver. A gente não consegue esquecer essas 10 coisas com facilidade. Eu falei, com muito esforço eu consigo jogar pra amanhã, mas ainda está lá, eu sei. Eu não vou poder aproveitar meu amanhã sabendo que eu tenho que resolver essas coisas. Eles não podem falar, dane-se, vai, tudo vai se resolver. O universo, Deus, alguém… vai haver uma intervenção externa e vai resolver. Que droga.
Marx: E no final das contas eles resolvem, né?
Gustavo: Não, dá errado mesmo.
Marx: É, às vezes dá errado.
Brendaly: Dá errado.
Gustavo: Geralmente.
Marx: Mas o negócio é a própria autocobrança mesmo, que a gente tem que, pelo menos para mim, é a coisa que mais fica martelando a cabeça, que eu tenho que fazer, que tem que dar certo, porque não pode dar errado. Porque se der errado o mundo vai acabar.
Brendaly: Eu acho que não é só a autocobrança, pelo menos comigo, não é só assim. Para mim, tudo que eu pego, ele precisa ser perfeito. Você tem isso também? Precisa ser perfeito, cara. Porque assim, um podcast, vou gravar, né? Vou entrar no, de apresentador, tem que ser perfeito. Estudo, falo, não sei o que, falo com o pessoal, tem que ser perfeito.
Aí, um artigo que eu vou fazer, tem que ser perfeito, não pode ter erro, não pode ter, né? Nada. Ele tem que ser perfeito. Aí, alguma coisa no dia a dia, tem que ser perfeito. Então, assim, além da autocobrança, tudo precisa ser perfeito, porque senão, aí vem cobrança, alguma coisa assim, aí eu fico frustrada. Eu não lido bem com frustração. Frustração é um problema para mim. Então, para evitar esse sentimento de frustração, eu acabo com o meu físico, com o meu psicológico, tudo perfeito para evitar qualquer tipo de frustração.
Marx: E não dá certo, porque em algum momento você não vai conseguir, porque nós somos seres humanos. Por que tem que ser perfeito? Quem disse?
Brendaly: Eu! (risos)
Marx: Não. Não, porque se fosse você, todo mundo que tem o perfeccionismo como um problema aqui, não estaria sofrendo, só você estaria sofrendo. Falei e tô leve.
Brendaly: Ah, não sei, cara. Porque, assim, as pessoas, elas não me cobram, assim, para ser perfeito, sabe? Pelo menos, assim, ah, meu orientador não cobra para ser perfeito, as pessoas que estão à minha volta não cobram, assim.
Muito pelo contrário, as pessoas que estão à minha volta, elas tendem a me puxar, assim, tipo, calma, vai com calma, você tá se sobrecarregando. E geralmente, quem vê a minha rotina, geralmente me puxa. “Brendaly, sossega, você vai surtar, você vai ter um colapso”. E eu não, eu consigo, não tá perfeito ainda. Então, assim, eu acho que é mais uma cobrança pessoal mesmo, do que as outras pessoas que estão envolvidas, pelo menos comigo é assim.
Gustavo: A gente alguma vez recebeu um elogio na infância que algo estava muito bom e se prendeu fortemente a isso, com unhas e dentes.
Marx: É, são questões muito profundas. O processo terapêutico vai ser bem grande.
Gustavo: Vai, você tá começando terapia agora, daqui uns 5, 6 anos vai estar tudo em cima.
Brendaly: É, a gente pode pegar essas demandas, eu vou levar tudo pra terapia. “Quem que tá me cobrando?” (risos).
Gustavo: Não, você está se cobrando, essa parte a gente já pode antecipar, mas como você vai fazer pra pegar mais leve consigo mesma? Aí tá a dificuldade.
Marx: Mas você já respondeu a questão do perfeccionismo antes mesmo de falar sobre ele, né? Que é por causa da frustração.
Brendaly: Isso é verdade.
Marx: E se a gente for falar de frustração aqui, a gente vai discutir umas duas horas, porque…
Gustavo: Muito complicado frustração para autista, porque envolve autocobrança, envolve tudo, e envolve lidar com o inesperado. Porque a gente sempre faz tudo esperando que vai dar certo. A gente gosta de rotina, gosta da previsibilidade. Hora que você sai da previsibilidade, que você acha que… Você acredita o que realmente deu errado, aí você fica frustrado, você fica muito frustrado e é difícil dar o primeiro passo, e às vezes assim… O primeiro passo é errado, fode os outros 100 passos seguintes, porque se o primeiro já deu errado, não tem como corrigir. Não pode ser corrigido, já deu errado.
Marx: Porque a rigidez, lá dentro da cabeça, fica falando que você não vai conseguir, que você é horroroso, que você não dá conta, que você nunca vai dar conta, que você só faz tudo errado, e aí vem aquele monte de voz intrusiva.
Brendaly: Ah, essa síndrome do impostor.
Marx: É, porque nada mais, nada menos é do que… De certa forma, eu estou tentando provar que eu me dou conta. Pra mim mesmo. Eu tenho conseguido diminuir essa questão da autocobrança, atualmente, depois de um ano e meio de terapia. Eu sinto que eu tenho sofrido menos com isso atualmente. Nas coisas mais corriqueiras, e tenho aprendido a conviver um pouquinho mais em paz com o nível de bagunça acima do que eu toleraria um tempo atrás. De bagunça em casa mesmo. De coisas bagunçadas, de coisas que não está bem arrumada, que não está bem limpo, que não está do jeito que eu gostaria. Então, eu acho que esse processo é importante. E confrontar a rigidez é necessário para viver no mundo. Infelizmente ou felizmente.
Gustavo: É, infelizmente. Mas a gente precisa. É infelizmente porque é mais uma coisa pra fazer e todo mundo aqui já é muito atarefado. Mas a gente precisa.
(Risos)
Marx: Ou felizmente porque ela nos afasta de muita coisa legal que faz a gente evoluir e muitas vezes tira a nossa oportunidade às vezes de ser compreendido ou de viver coisas novas na vida, com pessoas novas, conhecer pessoas novas. Conhecer coisas que às vezes vão fazer bem pra gente e a gente se nega a querer fazer porque é diferente, porque sai da rotina, porque saí daquilo que eu conheço, daquilo que é confortável pra mim. E essa é a luta, a labuta diária que nós temos.
Brendaly: E não é só de você conhecer pessoas novas, coisas novas, estar aberto ao novo, mas eu vejo também de ter mais leveza no processo. Porque pra mim, todo processo, tudo que eu pego é muito pesado. O que eu faço fica pesado, qualquer coisinha, então, uma coisinha pequena vai ser pesada, vai ser uma coisa a mais, porque enfim, o perfeccionismo, a rigidez cognitiva… E eu acho que a gente precisa um pouco mais de tratar as coisas, esse processo até chegar ao final, até chegar ao final do doutorado, com mais leveza, sabe? Que é algo que eu tenho muita dificuldade.
Gustavo: Olha, uma coisa muito importante é você encontrar o seu ritmo e aceitar que não vai ser como o de todo mundo. Acho a carreira acadêmica um ótimo exemplo disso. Minha esposa terminou o mestrado pouco tempo atrás, vocês estão aí no doutorado. Aceitar que talvez, apesar de ter esse tempo pré-definido para poder concluir um doutorado, que se eu não me engano é de quatro anos, saber que você pode terminar em quatro anos e meio e o mundo não vai acabar, é muito importante. Você tem… “É, vou demorar seis meses a mais, que droga!” Mas pode ajudar muito a não assustar.
Marx: O que pode ser feito para melhorar essas questões, além de ter realmente pessoas que nos ajudem nas coisas que a gente tem mais dificuldade, é o processo terapêutico. É fazer as terapias certinhas, se for um processo terapêutico bom, que realmente seja conduzido por um profissional bom, especializado em autismo, você vai ter ferramental para conseguir lidar melhor com a frustração e com a dificuldade de aceitar que as coisas não vão ser do jeito que a gente quer em tudo, em todo o tempo, o tempo todo.
E meio que diminuir os conflitos relacionados com isso dentro de casa, porque eu vejo que a maioria dos desentendimentos que eu sempre tive, não só com a minha esposa, mas na época eu morava com meus pais também, é por não aceitar o jeito que eles fazem algumas coisas não ser do jeito que eu quero. E eu fiquei muito tempo batendo cabeça e dando volta em torno do próprio rabo, até entender que eu precisava rever isso, e eu tenho certeza que isso é uma questão que pega a maioria dos autistas.
Brendaly: Olha, uma dica prática, que é algo que eu tenho colocado no meu dia a dia. Por exemplo, eu tenho um artigo pra entregar, por exemplo, aí eu sei que eu vou surtar ao longo do processo, eu sei que eu vou me cobrar muito, eu sei que eu vou querer que seja perfeito, então o que eu faço? Eu faço o negócio, vai, até tipo até domingo, entrego.
Depois que eu entrego, eu tento tirar alguns dias de descanso, sabe assim. Por exemplo, ali o doutorado me demandou esse tempo, então agora eu vou dar uma maneirada, sabe, na minha rotina, tentar ficar mais tranquila, sabe. Embora assim, no dia a dia vai ter coisas, mas é tentar dar uma acalmada nos próximos dias, só pra dar uma aliviada na minha cabeça, é o que eu tenho feito, assim.
Aí fico dois, três dias ali, mais tranquilo, pego as demandas que realmente tem umas que não dá pra fugir, e depois, sabe, porque você tem uma coisa pra entregar, tem demandas, aí sabe, acabou ali, eu vou sossegar um pouquinho, porque aí acabou, aquela etapa ali acabou, agora vamos partir pra próxima. Tem me ajudado pra não ficar tão cansada, sabe, é o que eu tenho colocado em prática, tem ajudado. No mestrado no finalzinho eu fiz isso, me ajudou, no doutorado eu tenho feito também, e tem ajudado. É uma dica bem mais prática.
Gustavo: Com certeza, vocês dois também falaram da questão de querer ter controle sobre tudo. Eu acho que vale uma “escolha o seu difícil”, escolha aquilo que realmente não dá pra você abrir mão, você não vai conseguir controlar tudo. Mas assim, com algum esforço e tal, tem essas três coisas aqui que dá pra você controlar. “Ah, eu não posso controlar os momentos em que minha mãe precisa de ajuda, mas eu posso controlar a hora que eu vou pra cama, eu posso controlar o que eu como estando lá ou estando aqui.”
Sempre dá pra ter aquela coisa que dá pra você manter controle, e aí você foca muito em manter o controle daquela coisinha que é mais preciosa pra você, e isso te ajuda a superar aquilo que não vai dar pra ter controle. Porque, infelizmente, a última votação deu que eu não serei o ditador global para poder resolver e poder dar ordem nesse planeta inteiro, então eu vou ter que aceitar que eu não vou conseguir ter tudo do meu jeito, o que é decepcionante.
Marx: (Risos)
Brendaly: É uma boa dica, né? É uma boa dica.
Gustavo: Foca, escolhe. Tá, tem dez fatores importantes na minha vida. Cinco são… mesmo que eu quisesse eu não conseguiria controlar, e desses outros cinco aqui tem três que eu realmente consigo mandar neles. Manda neles, exerce o seu domínio aí. A partir daí você pelo menos vai ter algumas coisas. Você só pega elas e vai fazer o resto. E terapia pra gerenciar a frustração, né gente?
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Gustavo: Para dúvidas e doações acesse introvertendo.com.br.
[Música de encerramento]
*
Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Any Serpa | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

