Amizades no contexto do autismo é um tema praticamente inesgotável e, nesta segunda parte, nossos podcasters abordam a dificuldade de interação entre autistas por conta dos hiperfocos, diferenças de amizade entre homens e mulheres, áudios versus textos no WhatsApp e muito mais. Participam: Brendaly Januário, João Victor Ramos, Marx Osório e Maysa Antunes.
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Transcrição do episódio
[Vinheta de abertura]
Brendaly: Olá, você que está assistindo o podcast Introvertendo, eu sou a Brendaly, autista e doutoranda em Antropologia Social, e nós iremos continuar o tema sobre amizades.
Maysa: Eu quero comentar uma coisa sobre amizade entre autistas, né? Essa questão do hiperfoco também pode influenciar bastante na amizade. Ou as pessoas têm hiperfocos semelhantes ali, conversam muito e criam amizade, ou também se repelem. Porque, por exemplo, uma autista veio conversar comigo, falou assim “queria fazer amizade e tal”, aí ela “ah, eu quero falar do meu hiperfoco”.
Aí eu perguntei “qual é o seu hiperfoco?” Tudo bem, né? Aí ela falou o hiperfoco, aí eu fiquei assim, eu não sei falar nada desse hiperfoco, sabe? Tipo assim, aí eu peguei e fui sincera com ela, falei assim “olha, me desculpa, eu não sei o que falar sobre esse assunto” (risos). Aí, pois é, aí o que ela fez? Aí ela pegou e falou assim “ah, então tá, né? Vou procurar outra pessoa, então, pra poder falar do meu hiperfoco, eu quero conversar sobre o meu hiperfoco”.
(Risos)
João Victor: A insistência, meu Deus.
Maysa: Aí eu falei assim “você não quer conversar outro assunto, outra coisa? Porque realmente eu sou bem por fora do seu hiperfoco, não sei do seu hiperfoco”. Aí ela “não, tchau”. Aí eu “ai, tchau”.
(Risos)
Marx. Aí ela foi sincera, né?
Maysa: Foi! Aí tipo assim, acabou a conversa, eu fiquei assim “poxa, tá bom, né?”
Marx: A gente precisa normalizar o autista que tem preguiça do hiperfoco do outro. Ficar de saco cheio de hiperfoco chato. A gente precisa normalizar você não ter que dar atenção pra todo hiperfoco, de todo mundo que quer conversar com você, de todo autista que quer conversar com você.
E pegando o gancho da questão do hiperfoco, eu acho que uma coisa que acontece muito comigo, e que agora que eu tô me conhecendo, me percebendo, tem diminuído, mas é o fato de que muitas vezes eu falava de um hiperfoco como se eu estivesse falando de um assunto qualquer, como se eu estivesse falando de uma coisa qualquer, porque eu jurava que todo mundo era assim. Então, por exemplo, eu tenho hiperfoco em política, eu já arrumei tanta briga por causa de política na vida.
Maysa: Esse hiperfoco é tenso!
(Risos)
João Victor Ramos: Até demais!
Marx: Eu tenho, sabe por quê? Porque o meu pai tem, porque a família do meu pai inteira tem. A gente vai pras reuniões de família, o povo fica conversando sobre política como se estivesse falando sobre futebol, como se estivesse falando sobre qualquer coisa corriqueira. Como se fosse “o café tá com açúcar ou sem açúcar”. Tipo assim, é um hiperfoco de todo mundo! Imagina seis, sete, oito pessoas falando mal do Bolsonaro, falando bem do Lula. É tipo isso.
É isso. E tipo assim, de maneira fluida. E quando você vai fazer amizade, a pessoa com quem você vai fazer amizade ela não tá no seu ciclo familiar e não está conectada muitas vezes com o hiperfoco da sua família, que provavelmente é atípica também. E isso foi uma razão pela qual eu tive dificuldade em manter amizades e fazer amizades e pessoas se afastarem de mim, principalmente depois que eu saí da igreja.
Porque o contexto em que eu saí da igreja foi o mesmo contexto em que houve uma onda de extrema-direita gigantesca nas igrejas. Em que a galera realmente abraçou um certo lado político. E tipo assim, na minha cabeça eu falei: “isso é contraditório em relação ao cristianismo”, por exemplo. Então pessoas que eu admirava, que eu respeitava, que eu ia na casa da pessoa, que eu tinha um apreço, eu passei a detestar porque a pessoa virou um imbecil da noite pro dia. Entendeu? Politicamente falando.
E logicamente, se eu não tivesse hiperfoco nisso, talvez eu não teria ficado com raiva, eu teria relevado. Mas pra mim isso era uma coisa que não descia. Hoje eu já entendo que tem situações que você precisa flexibilizar. Porque às vezes a pessoa pensa diferente de você politicamente, mas ela não é uma pessoa extremista, ela não apoia coisas absurdas, ela é uma pessoa que tem um pensamento diferente.
Brendaly: É, mas na política é bem complicado, né? (risos)
Marx: E amizade é isso, é você também aceitar as coisas que o seu amigo pensa que é diferente de você, mas não… Por exemplo, ele querer só falar do hiperfoco, e você vai ter que ficar ouvindo meia hora ele falando sobre uma coisa que você não suporta. Isso não existe! Aí não dá.
Maysa: E realmente eu não tinha que falar do hiperfoco da pessoa, sabe? Meus hiperfocos são outros, é outra coisa. Eu fiquei assim, eu realmente não tinha o que falar.
Marx: É chato, né. Se torna chata a conversa.
Brendaly: Essa questão do hiperfoco é bem complicada. Eu tenho parentes que têm hiperfoco em políticas, na extrema direita. Então… (risos). Eu sou uma pessoa LGBT, gente, então assim, é bem complicado, né? Não vamos entrar nos pormenores (risos). Mas já dá um gancho, por exemplo, eu tenho hiperfoco em gênero, sexualidade e autismo, que é o que eu pesquiso.
Então, tendo hiperfoco em sexualidade, me abriu muitas portas para conversar com pessoas, por exemplo, LGBTs. Então, nossa, me ajuda demais. A gente fez amizade por conta disso. Sim, a gente fez amizade.
Maysa: Porque além de ser autistas, nós somos LGBTs.
Brendaly: Somos LGBTs, então a gente tem um repertório gigantesco pra conversar.
Então, às vezes ajuda, às vezes atrapalha. Com os meus familiares que tem, né?
Marx: Mas parente não é amigo. O assunto aqui é amizade.
João Victor: Às vezes você tem um hiperfoco por uma banda, ou por um gosto musical, um gênero musical, desculpa. E você só quer falar disso o tempo todo. Tipo eu com o heavy metal na adolescência, sabe? Eu só queria falar de rock e heavy metal na adolescência,
quando a pauta era música.
E só pra chamar atenção, falava que funk era uma bosta, que pop era uma bosta, que reggae era uma bosta, que tudo era ruim. Só rock e heavy metal era bom. Eu era esse tipo de adolescente chato, infeliz, carente de atenção, você tá me entendendo?
Maysa: Preconceituoso, né? Com os outros estilos musicais. Eu tive isso também.
João Victor: Reconheço, reconheço. Infelizmente, eu não me orgulho dessa fase de jeito nenhum! A maioria das minhas amizades na adolescência, como creio já ter mencionado, foram virtuais. O nosso convívio era basicamente jogar MMORPG ou simplesmente RPG em conversas. E quando a fase adulta veio pra maioria de nós, houve um afastamento pelas demandas mesmo. E as únicas amizades que ficaram foram as pessoas as quais suspeitei desde o início que eram neurodivergentes, duas delas autistas, assim como eu.
É incrível.
Creio já ter falado, mas vale reforçar, a percepção que a gente tende a possuir depois do diagnóstico de notar que outras pessoas também podem ser como nós. Sabe? Isso aproxima, fortalece o vínculo, fortalece a amizade. Eu acho isso surreal, assim, de verdade.
Brendaly: Então, aproveitando o gancho, né? Falando sobre amizades com neurodivergentes, vocês têm histórias curiosas, engraçadas, com autistas ou neurodivergentes pra contar?
Maysa: Eu tenho uma, assim, curiosa. O que acontece? Eu tenho uma prima que mora na mesma cidade que eu. E eu não tinha contato com ela, sabia que ela era minha prima.
E aí eu fiquei olhando o Instagram dela e pensando: “Nossa, ela parece ser tão legal, né?
Uma pessoa legal pra fazer amizades”. Só que eu não conversava, eu ficava só curiando o Instagram.
Aí, quando eu passei a frequentar o NAIA, aí eu vi ela no grupo do NAIA, não sabia que ela era autista. Porque ela não colocava, assim, não sabia, né? Aí eu, “Gente, é a minha prima!” Aí eu peguei e fiquei assim, né? Achei uma prima no NAIA! Aí foi aí que eu peguei e comecei a conversar com ela. Aí eu fiz amizade com ela, né? Hoje a gente é bem amigas. E aí, foi muito engraçado, né?
Porque antes eu ficava olhando a rede social dela e achava que ela seria legal, mas não puxava conversa. E aí, depois que eu vi ela no grupo do NAIA, que aí eu peguei e fui puxar conversa já de imediato, assim, no WhatsApp. “Ah, você é a minha prima, né?” E tal. E ela, “Nossa, você frequenta o NAIA também?” E tal. Muito engraçado, assim. E aí foi aí que eu tive, como se diz, um conforto, porque eu vi semelhança por ela ser autista também. E isso me impulsionou a fazer amizade com ela, né? Porque antes eu ficava só olhando e não fazia.
Marx: E já que você falou do NAIA, o NAIA é o Núcleo de Arte e Inclusão do Autista. É uma associação de pais de autistas e autistas aqui de Goiânia, que foi fundada por um casal que tem uma filha autista de nível de suporte alto, né? E o objetivo do NAIA é promover terapias
utilizando cultura, música, teatro, com enfoque principalmente em música ou terapia, teatro e arteterapia. E atende autistas de todas as idades, de todos os níveis de suporte, inclusive adultos, de um nível 1 de suporte, né?
E o grupo de adultos, que é o grupo de convivência lá do NAIA, acontece durante a semana nas noites de terça e quinta, né? A partir das 18h30min da tarde, mediado pela neuropsicóloga Neila. E é um lugar onde eu me encontrei em diversos aspectos. Eu participei por mais de um ano, se não me engano, do grupo. Hoje eu não participo mais por questões de trabalho.
Vocês falando sobre a questão do hiperfoco também me remete a uma questão que eu também tenho enfrentado atualmente, para fazer amizades dentro do contexto autista. O meu contato com o autismo, oficialmente mesmo, ele se deu quando eu conheci o NAIA. Então, até então, o meu contato com o autismo é da minha família, o pessoal que não tem diagnóstico, então ninguém imaginava. Então, histórias de amizade com o pessoa autista, talvez possa até ter, mas eu não sei se a pessoa é mesmo ou não. Fica essa curiosidade aí, esse porém, pra gente ficar supondo.
Mas a questão do hiperfoco, a grande dificuldade que eu sempre tive, isso pode parecer até contraditório, mas a grande dificuldade que eu sempre tive pra fazer amizade com autista é justamente os hiperfocos. Porque a maioria dos autistas do NAIA, por exemplo, dos adultos que eu conheço, tem hiperfocos que eu não dou conta. Que eu não dou conta, que eu acho extremamente chato, entediante, que não tem nada a ver comigo. E eu vejo que a maioria, pode ser que eu esteja errado, o João Victor tá aí representando algumas dessas galera mais da cultura geek…
João Victor: Eu tento, apenas tento.
Marx: E tipo assim, eu vejo que a maioria do pessoal tem hiperfoco muito em coisas voltadas pra cultura digital e a cultura geek. A cultura mais “nerd”, digamos assim. E eu tenho hiperfoco em coisas completamente diferentes. Eu tenho hiperfoco em futebol, música, carro, coisas que tem pouco a ver com o que a maioria dos autistas que eu conheço gosta. Então isso tem sido uma dificuldade pra encontrar a minha turma também dentro do espectro.
Brendaly: Eu tenho hiperfoco em carro.
Maysa: Legal.
(Risos)
João Victor: Olha só a amizade!
Brendaly: É assim, né? Eu tenho hiperfoco em carro. Principalmente carros antigos.
Maysa: Nossa, massa!
Brendaly: Um dos hiperfocos, né? Ele vem e vai, porque enfim… (risos)
Maysa: É muito legal.
João Victor: Eu tenho pavor de direção, então nem me atrevo a pesquisar sobre automóveis, tá? Enfim, algo que vale a pena considerar é o seguinte, pessoal. Eu vejo muita gente falando, justo, sobre a identificação, sobre como nos sentimos pertencidos a um lugar, a um meio, quando estamos entre nós autistas. Mas temos que entender que, pela nossa dificuldade inata de nos comunicar, de socializar, a gente acaba tendo muitas falhas também entre nós. Então é a famosa faca de dois gumes, percebe? Ao mesmo tempo que a gente consegue se identificar muito, a gente também consegue entrar em um conflito no estalar de dedos. Não sei se o microfone pegou o estalar de dedos, mas enfim. Porque o meu estalar é fraco também.
(O microfone se recusou a pegar o estalar de dedos)
Tipo, a gente falha… Eu falho em transmitir uma informação, o outro autista fala em transmitir a informação de volta. O conflito que isso gera, nos mais diversos contextos, vocês três já pensaram em vários enquanto eu disse isso, dispensa apresentações.
Maysa: É, eu vejo assim, a questão do filtro social, né? Às vezes a pessoa fala de uma forma e você entende outra, e você acha que a pessoa foi até grossa com você, ou ao contrário, né? Inclusive, tem uma questão que eu falo que eu acho mais fácil pra mim lidar com o neurotípico. No sentido assim, porque por exemplo, quando eu vou desabafar, falar alguma coisa de mim, contar alguma coisa, geralmente eu costumo detalhar. Então eu mando ali um pouquinho de áudios longos (risos).
João Victor: Um pouquinho de áudios longos, claro.
Maysa: E o que acontece? Eu não tenho a percepção. Aí quando eu vou perceber, eu falo “nossa, eu mandei muitos áudios assim, um pouco longos pra pessoa”. E aí, geralmente assim, quando são autistas, eu fico assim com aquele pesar, assim “nossa, eu sobrecarreguei a pessoa, vou deixar ela sobrecarregada”, né? Tipo assim, com muito áudio, muito detalhe que eu tô falando, sabe?
João Victor: Acontece, acontece.
Maysa: E aí, geralmente, dá essa sensação mais com autista do que com neurotípico, porque eu penso assim, é mais fácil os autistas cansarem, né? Ficar mais sobrecarregado que o neurotípico. Não que a pessoa pode…
João Victor: Faz sentido.
Maysa: É, né? Tanto faz. A pessoa pode não gostar de áudio no WhatsApp, achar ruim, áudios mais longos e tal, né? Isso aí é do gosto da pessoa.
João Victor: Mas isso pode ser comunicado previamente.
Maysa: Pois é, mas a minha preocupação, quando eu vejo, a minha preocupação maior é com os autistas. Aí até a Brendaly, eu fiz isso com ela. Eu falei um monte de coisa pra ela,
aí hoje eu falei assim, “Brendaly, desculpa, eu acho que eu te sobrecarreguei” (risos).
Brendaly: Não, então, deixa eu contar essa história (risos). Eu e a Maysa conversamos no domingo. Eu sou a pessoa do áudio, gente. Assim, eu sou a pessoa do áudio.
Maysa: Eu também.
Brendaly: Não me envie textão, que eu me canso muito com texto.
João Victor: A famosa preguiça de ler.
Marx: (Risos)
Brendaly: Mas é engraçado, né?
João Victor: A famosa preguiça de ler.
Marx: Você é corajoso!
Brendaly: Não, não.
João Victor: Corajoso?
Marx: Você é corajoso, porque eu também sou do áudio.
Brendaly: Não, sabe por quê?
João Victor: Mas eu também, uai, oxe.
Maysa: Eu percebi.
Brendaly: Não, mas deixa eu fazer uma pontuação. Deixa eu fazer uma pontuação.
João Victor: À vontade.
Brendaly: Não é preguiça de ler, porque, né, como eu estou na pós-graduação, eu leio muitos textos, teses, dissertações, que são do meu hiperfoco. Só que o que acontece?
No texto, eu não consigo entender a intenção da pessoa e o tom de voz da pessoa, então eu fico perdida. Então eu me sobrecarrego mais lendo textos do que ouvindo áudio. Porque o áudio eu consigo entender ali como que a pessoa está se expressando. Aí ela me mandou um monte de áudio, no domingo. Mas ela disse…
Maysa: Não, desde sexta-feira (risos).
Brendaly: Não, tá de boa, tá de boa. A gente conversando, conversa vai, conversa vem.
Aí teve uma hora que eu falei que eu tinha que lavar a louça. Aí eu falei, “Maysa…” Aí eu fiquei, “Gente, se eu falar aqui pra ela que eu tenho que lavar a louça, será que ela vai achar que eu não estou interessada? Mas eu preciso lavar a louça, então eu vou falar: ‘Olha, eu preciso lavar a louça, mas eu te chamo no final de semana pra mostrar que eu estou interessada no que ela tá falando.'” Aí, beleza. Foi no domingo, foi na sexta-feira, foi no domingo. Enfim, a gente conversou pra um caralho.
Maysa: Foi.
Brendaly: Aí, beleza. Aí, hoje, Maysa me chama. Ela me mandou outros áudios e tudo.
Aí eu falei, “Olha, eu tô na faculdade, não posso te responder agora e tal.” Aí, hoje, Maysa: “Brendaly, me desculpa, eu tava falando com você.” – “Me desculpa.”
João Victor: Eu lembro. Eu ia mencionar isso agora.
Brendaly: Você lembra que eu te falei? Eu falei, “Eu tô conversando com a Maysa aqui.”
Porque ela começou a me pedir desculpa. Gente, por que ela tá pedindo desculpa?
Aí, detalhe, que eu não te contei, detalhe. Aí ela falou, “Domingo eu acho que te sobrecarreguei.”
O meu WhatsApp deu pau. E apagou todas as mensagens de domingo. Aí eu queria olhar as mensagens de domingo pra ver se eu fui grossa com ela, sabe? E eu não podia olhar. Aí eu falei: “Gente, e agora?” Aí eu falei, “Não, Maysa, você não foi.” Aí, assim, eu lembrava parcialmente da conversa, mas eu não conseguia ver. Eu falei, “Gente, será que eu fui grossa com a Maysa?” Acontece, até entre autistas. Aí eu falei: “Maysa, tipo, a gente é autista.” “Eu acho que é mais fácil comunicar quando a gente tá sobrecarregado.” E eu não me sobrecarrego com áudio, eu me sobrecarrego com texto.
Maysa: Entendi depois.
Brendaly: Entendeu? (risos) Então, agora, né, vamos deixar aqui no podcast um detalhe.
Me desculpa se eu fui grossa com você (risos).
Maysa: Não, não foi não. É porque eu me achei. Foi minha falta de noção mesmo. Não é só com você. É com outras pessoas.
João Victor: Ping-pong de pedido de desculpas começando em 3, 2, 1…
Maysa: Depois de contar o detalhe, eu vou e falo: “Nossa, me desculpa.” “Eu acho que eu te sobrecarreguei e tal.” -Não só com você, com outras pessoas autistas.
Brendaly: Eu sei, mas não sobrecarregou.
João Victor: Que fiquem claros. Uma tá desculpando a outra, tá tudo certo! Fiquem em paz, isso é Introvertendo!
Brendaly: É que, gente, estamos falando de amizade entre autistas e acontece, né?
Maysa: Com certeza.
João Victor: Faz parte.
Marx: Bom, aí, aproveitando esse gancho aí que vocês estão falando, existe uma questão que precisa ser falada em relação à amizade também, né? Que as dinâmicas de amizade entre mulheres e entre homens é diferente. E eu acredito que no espectro isso não é diferente do que na maioria das pessoas. Tem as suas particularidades, mas você já viu aquele ditado de que a amizade masculina é uma, duas e dura o resto da vida, e a amizade feminina você tem 50 que mudam ao longo do tempo?
Joguei esse jargão aqui pra gente pensar e ver também se muitas vezes a dificuldade de lidar com a questão de gênero… Eu admito que ao longo da vida eu sempre tive muito mais dificuldade de manter amizades com mulheres do que com homens e isso tem tudo a ver com a questão da construção de gênero também. Você, enquanto pessoa que estuda sobre isso, sabe muito bem disso, né?
E de certa forma eu acho que isso influenciou também na construção de amizade de todos nós aqui. Por exemplo, você acha que você tem mais facilidade de fazer amizade com mulher ou com homem?
Brendaly: Com mulher. Eu acho que com mulher. Aí, assim, a gente vai falar de gênero, né? (risos) Vamos falar de hiperfoco.
Marx: Não aprofundando muito, mas assim, só pra não deixar passar isso, porque eu acho que é importante. Porque influencia.
Brendaly: Mas aí o que acontece? Eu tenho mais facilidade de fazer amizade com mulher.
Mas tem algumas coisas, por exemplo, é estimulada a rivalidade feminina. Então, às vezes pode acontecer, né? A menina achar que você tá sendo a rival dela. Isso acontece, gente, porque é social, é construído.
Marx: É porque é verdade. A desgraça do mundo é a tal da rivalidade feminina. Faz mal pra todo mundo, né? Pra elas e pra nós também. Mas enfim, até que ponto isso influenciou? No meu caso, influenciou bastante. Amizade com mulheres, eu não me recordo. Acho que foi uma ou outra, assim, de muito pouco tempo.
João Victor: No meu caso, é… Sem querer fazer uma conta certeira, mas já fazendo, talvez, uma estimativa, né? Meio a meio. Se tratando de amizades, amizades mesmo, das mais próximas que eu tive ao longo de toda a minha vida. Para mim, sendo amigo, bastava. Falava de quase tudo para todos, independente de gênero. Parece bizarro, mas é o que aconteceu no meu caso.
Brendaly: Meus hiperfocos variam muito. Gênero, sexualidade e autismo. Então, é bem amplo, né? Então, sexualidade, geralmente, são pessoas LGBTs independente de gênero. Então, é uma facilidade. Agora, carros, aí, geralmente, é um público masculino. Ou, assim, de fazer amizade, ou de… Uma ideia quase de reverenciar que você é uma mulher e você entende de carro, sabe?
Se o meu pai, por exemplo, ele vai comprar carro, ele… “Brendaly, eu quero comprar carro tal, tal, tal, tal, tal. Então, me ajude aqui.” Então, tem esse negócio, né? Mulher entende de carro. Existe um pouco, sabe? “Nossa, mulher aí é foda, não sei o quê.” Então, eu acho que varia um pouco, sabe? Pelo menos pra mim. Eu não sei pra você, que o seu caso é carros, futebol. É futebol, né?
Marx: Futebol, política, música, geografia. Coisas bem do concreto, assim. No meu caso, isso influenciou em algumas amizades que eu tive que eram muito pautadas nisso. Mas o fato de eu ter ficado muito tempo na igreja e não ter dedicado tempo em outros nichos durante o período que eu fiquei na igreja, me privou de conhecer outras pessoas. E aí, quando eu saí da igreja, eu fiquei sem ninguém.
Brendaly: Você considera que você hiperfocou em religião?
Marx: Quê?
João Victor: Será?
Maysa: Será? Quem aqui não hiperfocou em religião?
Brendaly. Exatamente.
Marx: Querida, eu fiquei… Eu fiquei oito anos na igreja.
Eu hiperfoquei para uma porra.
Brendaly: Então, é um ponto. Eu também hiperfoquei em religião na época.
Marx: Nossa, e foi…
João Victor: Nunca consegui.
Marx: O prejuízo…
João Victor: Nunca consegui.
Maysa: A gente fica naquela bolha, né?
Brendaly: É!
Maysa: E a gente só se relaciona só com quem é lá dentro, eventos só lá de dentro. Engraçado que, nessa época, eu achava melhor os assuntos dos meninos do que das meninas. Porque, assim, na igreja, geralmente, né? As meninas mais novas, geralmente, estavam, assim, já preocupadas em casamento, sabe? “Ah, vou aprender a fazer comida.”, olhar vestido de noiva.”
Marx: Só fala de macho. A mulher da igreja só fala de macho! É isso aí (risos).
Maysa: Nossa, eu não gostava desses assuntos.
Brendaly: Isso é verdade.
Maysa: Eu achava muito chato esses assuntos. Aí os meninos estavam falando de carro,
estavam falando de jogo, de outras coisas. Na igreja, eu fazia mais amizade com os meninos.
Marx: Então, a mulher evangélica tradicional é…
Maysa: Pois é (risos).
Marx: Só fala de casamento.
Maysa: Esses assuntos, eu não gostava.
Brendaly: Mas você não acha que é por conta da pressão? A mulher, ela precisa…
Maysa: Nossa!
Brendaly: Ela precisa casar na igreja.
Maysa: Eu tinha outros focos, até hiperfocos meus, que não tinham nada a ver. Eu ficava ali, perdida. Geralmente, eu fazia amizade com os meninos mesmo.
Brendaly: Você que é autista, comente aqui o que você achou do episódio, qual é a sua experiência. Inclusive, eu fiquei rouca, mas nós encerramos por aqui. O Introvertendo é um podcast feito por autistas, em parceria com o NAIA Autismo, e está sendo gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.
[Música de encerramento]
João Victor: Não tá indo, não tá indo, bicho!
(Risos)
Brendaly: João Victor, o que aconteceu?
João Victor: Não sei, não sei. Tô congelando, porra.
Brendaly: Calma.
Maysa: É o ar-condicionado?
João Victor: Não.
(Risos)
Maysa: Eu entendi literal, mas foi mesmo.
(Risos)
Maysa: É porque o ar-condicionado me congelou.
Marx: E essa foi a autistada da noite!
Brendaly: Autista! Autista!
João Victor: Se não tiverem gravado, eu vou ficar muito puto, na moral. Se não tiverem gravado, eu vou ficar muito puto.
(Risos)
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Tiago Abreu | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian

