Muitos autistas se descobrem trans e/ou não-binários, e essa frequência na comunidade do autismo inspirou o Introvertendo a abordar essa temática em vários episódios anteriores. Desta vez, Izabella Pavetits recebeu Letícia Cutrim, Lucyffer Jaabyomitã e Thiago Giovanni para conhecer a descoberta deles com a transgeneridade, o diagnóstico de autismo e como é fazer parte de duas comunidades que tem suas especificidades.
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Notícias, artigos e materiais citados ou relacionados a este episódio:
- Introvertendo 248 – Autistas Trans
- TEA e transgeneridade: as intersecções entre os divergentes
- Letícia Cutrim no Instagram
- Lucyffer Jaabyomitã no Instagram
- Thiago Giovanni no Instagram
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Transcrição do episódio
Izabella: Oi, pessoal, meu nome é Izabella, e esse é o último episódio do nosso especial sobre o Mês do Orgulho LGBTQIAPN+ e hoje nós vamos falar sobre autistas trans. Para falar aqui desse tema com a gente, hoje temos…
Thiago: Meu nome é Thiago, eu tenho 28 anos, eu sou médico veterinário, um homem trans, gay, e autista também.
Lucyffer: Oi, gente, eu sou Lucyffer Jaabyomitã, sou Karajá Graú, sou um dos líderes do movimento da juventude indígena de Goiânia. Também sou militante trans, porque senão vou morrer. E a gente está aí para falar sobre essa pauta hoje.
Letícia: Oi, galera, eu sou Letícia Cutrim, tenho 27 anos, sou trans, autista, estudante, fã de Beyoncé, militante, ativista da causa trans e autista também, drag queen, performer, pansexual, e estamos aí na luta pela vida de todo mundo, não só da nossa, porque ninguém solta a mão de ninguém.
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[Vinheta de abertura]
Izabella: Tanto as pessoas autistas quanto as pessoas trans, elas têm um histórico de ser marginalizadas, seja pela sociedade, seja pela comunidade médica. E hoje, nesse episódio, a gente gostaria de abordar esses assuntos, explicar o que são as experiências quando elas se juntam. Então, para começar, eu queria que alguém me explicasse o que é transgeneridade.
Letícia: Basicamente, a transgeneridade é quando você não se identifica com o gênero que você foi atribuído ao nascimento.
Izabella: E o que veio primeiro na vida de vocês? O autismo, a descoberta da transgeneridade?
Lucyffer: Para mim, foi a transgeneridade. Porque, como sou um homem trans, aí eu nasci para ser uma mulher, de casa. De casa não, porque eu sou indígena, então era diferente. Mas a gente sabe que a questão do autismo em mulheres não se vê tão facilmente. Então, fui me descobrir como um homem autista, depois eu já me reconheci como homem, quando eu era maior de idade, inclusive, aos 18 anos.
Thiago: O meu processo foi parecido também. Eu saí do armário em 2018 e tive o meu primeiro diagnóstico de autismo em 2021.
Izabella: Você falou que você também é gay. Qual dos armários você saiu? Saiu dos dois ao mesmo tempo? (risos).
Thiago: Então, o primeiro foi o trauma maior, que foi ser trans. Depois foi o… Gay eu nem saí do armário. Nem saí do armário. Só o povo…
Letícia: Eu tenho rinite asmática, então simplesmente tive que ou sair do armário ou morrer. Então não tem como (risos). Mas, assim, teve uma intersecção muito grande desde a infância, entre a transgeneridade e o autismo.
Porque tem relatos de quando eu tinha quatro anos de idade e eu já estava ali, roubando o vestido da minha irmã, roubando o sapato, maquiagem da minha mãe. Saindo na rua, dando close maravilhosa. Da mesma forma que eu tenho uma infância e o início de adolescência bem marcado pelo antissocial do autismo. Pelo rumo fechado, pelos interesses restritos. Pela seletividade alimentar muito gigante.
Thiago: Estereotipias também.
Letícia: Estereotipias, então assim, foi indo. E já no início da adolescência, eu já me via que eu era diferente. Só que naquela época, a gente não tinha informação do trans. Você é uma pessoa trans. Porque a gente não tinha isso ainda, né, ali.
Thiago: Eu também tinha esse problema, porque antes eu era considerada uma mulher hétero. Então minha bolha era…
Letícia: Mulher hétero.
Thiago: Hétero e cis. Hétero e cis. Aí o que acontece? Eu não via a possibilidade. Foi só quando eu entrei em contato com a comunidade LGBT que eu vi essa possibilidade desse mundo.
Porque eu lembro de ter questionamento de gênero desde criança. Desde os oito anos de idade, por exemplo, eu já tinha esse pensamento. Será que eu sou igual aos outros? Tanto no sentido trans, quanto no sentido em relação à neurotipicidade. Porque você percebe que você é diferente desde cedo.
Letícia: E você entra naquele meio que abismo do medo dentro da sua cabeça. Porque você não sabe o que tá acontecendo.
Thiago: Eu internalizei. Foi só um lampejo de tipo assim… Nossa, será que… Não, não é nada. Não é nada, tchau, tchau. Tanto que meu processo foi assim. Eu primeiro não me identifiquei como homem trans do começo. Eu levei um pouco de tempo pra largar essa cisnormatividade.
Primeiro eu me classifiquei como gênero fluido. Depois foi um processo de entender que não era… Não foi de gênero, mas sim um problema com questão de disforia. Porque a minha disforia, ela às vezes estava mais intensa. Às vezes estava menos intensa, que me permitia performar o gênero que me foi atribuído ou não.
Lucyffer: Eu nunca consegui performar. Eu tinha tanta dificuldade que eu entrei numa caixinha pra tentar ser mulher. E eu tentava ser hétero também. Uma sapatona, quando na minha época de mulher, uma sapatona. Tentando ser hétero.
Thiago: Então, pra mim, o povo percebia que eu era LGBT. Porque… Não, nas minhas fotos é perceptível que minha expressão de gênero não condizia com o padrão da sociedade. Agora o povo pensava que, tipo assim: “nossa, vai sair do armário como lésbica”, sendo que eu gosto de homem desde quando eu me entendo por gente.
Aí, o que acontece? Era difícil até a questão de me relacionar. Porque eu fui me relacionar depois da transição. Em relação à questão romântica. Porque eu não me via na posição de mulher. Aquela posição me incomodava pra caramba. Eu não me via atraente também. Porque esse processo de atração, eu acho que… É igual eu falei, você sabe que você é diferente. Você não se vê como objeto de desejo. Você não consegue se ver como alguém que é desejado.
Porque pra você, aquele trem incomoda. É algo que, tipo assim, você se vê no espelho e você fica… “Meu Deus, como que uma pessoa vai se sentir atraída por mim sendo que nem eu tô confortável no meu corpo?”. Porque eu acho que um dos maiores medos de uma pessoa trans é o quê? Não ser amado. Porque a gente, na mídia, a gente não se vê… A gente se vê só como objeto de desejo, como objeto de fetiche.
Letícia: Ou objeto de morte mesmo.
Thiago: Exatamente. E a questão de afeto é aquele medo. “Será que eu vou receber afeto? Será que eu não vou receber afeto?”.
Lucyffer: “Será que eu sou só um sexo barato?”
Thiago: Exatamente.
Letícia: “Ah, só um fetiche ali, durou um pouquinho e depois eu vou embora”. Ou talvez eu não vou embora, porque entra já na questão do perigo que nós, pessoas, trans, passamos dentro desses fetiches, né. Porque muitas das vezes, a pessoa pode te colocar como a maior atração dela. Mas geralmente é isso que acontece, que depois ali do sexo, depois do ato, entra a violência. Que parece que vira uma caixinha de repulsa contra a gente, de repulsa contra o nosso corpo, que na verdade diz mais sobre a outra pessoa. E aí, é onde muitas de nós acabam sofrendo violência, acabam sendo mortas, como vários exemplos que já tivemos aí.
Lucyffer: E às vezes nem é violência só física, né. Entra a violência psicológica, te deixar ser dependente da pessoa, a pessoa fazer tudo o que quiser com você.
Izabella: E paralelo a tudo isso, acaba que esse discurso cis-hétero normativo funciona como uma regra implícita, né. Pra você, como deve ser as “performances” de gênero, de sexualidade e esse tipo de coisa, de regras implícitas são difíceis pra quem é autista também. Então, isso se relaciona de alguma forma na experiência de vocês? Como que o autismo está presente na sua transgeneridade e vice-versa?
Letícia: Nossa, total, porque por exemplo, é assim… Quando eu vou ter o meu primeiro lapso de… Eu realmente sou diferente, mas não diferente ao ponto do que a gente tinha conhecimento naquela época, quando eu tinha 11 anos. Então, tipo assim, 2012. Então, não tinha aquela coisa ainda de… “Ah, eu sou uma pessoa trans”, porque a gente ainda não tinha muito acesso a essa informação. Porque até então, o que a gente tinha de referência trans em televisão e tudo mais, era visto como chacota. Não como uma pessoa de sociedade e tudo mais.
E então, aos 14 anos, saí do armário pela primeira vez. Naquela época, como entendimento de menino gay. E eu vou ter um acesso, assim, sobre o que é ser trans de fato em torno dos meus 16, 17 anos. Quando eu começo a pesquisar, quando eu começo a ter acesso. E aí, foi tipo assim, um boom no meio disso.
E dentro disso, ocorre que eu comecei a minha sexualidade muito cedo na vida. Por uma procura dentro do autismo de coisas sensoriais, de curiosidade, pra saber como que era. E aí, isso intersecciona dentro da transgeneridade, porque você percebe que você é diferente, porque o seu corpo não tá igual ao de outras meninas, no meu caso. Por que meu corpo não tá igual ao da minha irmã? Não tá ficando igual a minha irmã? Por que tá acontecendo alguma coisa aqui?
E aí, dentro da questão do desejo sexual, naquela época, eu era tratada como desejo sexual de que um cara queria ver em outro homem. Então, ali eu já via, tipo assim: “não, mas não é assim também que eu quero ser vista e tudo mais”. Então, começa a interseccionar, começa a dar essa confusão toda.
Até eu chegar aos meus 19 anos e ter o meu laudo sobre autismo, que eu ainda negligenciei mais quatro, fingindo que não era comigo (risos). Que não era comigo. E aí, isso desenvolveu dependência alcoólica, um pouco de drogadição aí no meio disso tudo. Até que chegou um ponto que eu falei assim, “A gente tem que fazer alguma coisa pra gente conseguir viver”. Então, isso tudo vai mexendo e vai entrando na confusão. Porque aí, no meio disso tudo, eu comecei a minha trajetória de transição de gênero também, hormonioterapia. Depois parei e aí virou um caos, assim.
Thiago: E também, eu acho que a gente vê o conceito de gênero de forma diferente. Há estudos sobre transgeneridade na comunidade autista e há dados de que é três vezes maior a chance de uma pessoa autista se identificar com uma pessoa trans do que uma pessoa neurotípica.
E, tipo, a gente vê o gênero de forma diferente. Porque gênero é uma construção social. E o que acontece? Aborda o social. A gente tá fora da caixinha já. E a gente vê aquilo e fica meio tipo: “Opa, será que isso é por causa da minha inabilidade de performar socialmente ou tem alguma coisa a mais?”
Letícia: E vem a cobrança social dos dois lados, né? Porque quando você é trans, a sociedade quer que… Então, se você é trans, você comporte como o gênero que você está falando, né?
Mas quando você começa a assumir esse papel na sociedade (porque gênero é uma construção social), aí eles já inventam uma outra coisa pra não te validar.
E dentro do autismo também, porque eles começam tipo: “Não, mas você tá muito estranha pra isso”. “Não, mas não é assim que você comporta”. “Não, mas não é assim que as pessoas fazem”. “Não, mas não é isso”. Então, junta isso tudo e você fica assim… “Caraca, eu posso existir então na sociedade ou não? O que eu faço?”
Lucyffer: É onde que o masking entra, né? Por isso que a maioria… Pelo menos o meu ciclo social, a maioria dos trans autistas que tem, fizeram muito masking. Tipo assim, até hoje, se brincar, tá…
Letícia: Masking é rotina, já (risos).
Lucyffer: Já é rotina, por tamanha violência.
Thiago: E eu tento… Desde quando eu recebi o diagnóstico. Porque meu processo de diagnóstico foi bem grande. Com 15 anos, foi aquele insight. Tipo: “Nossa, será que eu sou autista?” Aí com 18, meu psicólogo falou: “Você é autista”. E eu “Não, não, não”. Eu fui conseguir meu lado de fato com 24 anos.
Izabella: E o Thiago e a Letty compartilharam um pouco como é que foi o processo de diagnóstico deles e o seu, como é que foi?
Lucyffer: O meu foi horrível. Não, assim…
(Risos)
Izabella: Olha, essa é experiência padrão!
Thiago: Muito demais.
Letícia: Parece que a gente tem um pouco em comum, assim.
Lucyffer: Porque eu fui fazer o meu diagnóstico quando eu saí de casa, né. E aí, eu com os meus 18, 19 anos… Não que eu não seja muito diferente, que eu tenho 20 anos agora. Mas eu fiquei assim, “uai”. E agora, o que eu faço com a minha vida? Porque já é trans, é pobre, é indígena. Aí vamos ver se é autista, pra completar a cota, né. E eu fui ver.
Mas eu tive muita sorte. Porque quando eu comecei a investigar, eu já tinha pessoas autistas do meu lado. Então, eu já conseguia ter profissionais um pouco mais aceitáveis. Pra me diagnosticar.
Izabella: Nos ambientes que vocês frequentam, que tem mais pessoas trans, vocês sentem que o autismo de vocês é invisibilizado?
(Não)
Letícia: Eu acho que a minha transexualidade foi mais questionada num ambiente trans do que minha neurodivergência.
Lucyffer: Sério?
Letícia: Ixi, total! Tanto que eu fiquei muito tempo da minha vida sem conviver na comunidade trans por conta disso. Porque não, legal você ser autista, mas você não era uma pessoa trans porque você não tinha isso, porque você não tinha isso, você tinha aquilo. Entendeu? Então, eu tive que me afastar da comunidade trans pra eu conseguir viver tranquilamente. Quanto a isso, minha neurodivergência nunca foi questionada.
Mas por conta dessa questão de invalidar dentro da comunidade trans eu tive que me afastar. Mas a neurodivergência, assim… “Não, tudo bem você ser autista. Você é estranha mesmo e tudo mais”. Era literalmente desse jeito, “você é estranha”. A gente entende nisso aí. Mas de resto, existia a invalidez.
Lucyffer: Não, comigo era… Eu nunca falei, eu nunca precisei falar, né. Eu perguntava, “Você tem alguma coisa?”. Eu falava, “Ah, eu sou autista, TDAH”. Aí ficava assim, “Ah, OK”. Agora, em questão racial, sim. Mas em questão de neurodivergência, sempre foi mais um.
Thiago: Eu tive que sair do armário três vezes como pessoa trans.
Letícia: Sim, sempre acontecia isso.
Thiago: Porque o que acontece? Saí da primeira vez, tá? Comecei a transição. Chegou um momento da transição que eu parei de falar que eu era uma pessoa trans. Não porque eu sentia vergonha…
Letícia: Porque cansaram de ter necessidade. Chega um ponto que a gente não vê mais necessidade.
Thiago: Só que aí, eu cheguei num ponto que tipo assim… 60% das pessoas que eu convivia não sabia que eu era trans. E tá, não precisa saber, mas tipo…
Letícia: Eu vejo isso como segurança.
Thiago: Sim, eu também.
Letícia: Eu vejo isso como um método de segurança. Porque no meu trabalho, assim, até hoje tem pessoas que… Quando eu me expresso em falar que eu sou uma pessoa trans a pessoa fica tipo… “Quê?” Porque eu chego naquela brincadeira, tipo… Que?”. “Ai, não vou engravidar, não tem outra pessoa, quê?” E tudo mais, e fica nisso. E a pessoa descobre, ela fica tipo assim… “Você é trans?”. Eu fico assim, “Sim”. Só que eu ainda não consigo enxergar essa passabilidade que as pessoas veem. A gente é uma questão terapêutica já.
Mas tem isso, entendeu? Então, você tem que sair do armário algumas vezes. Só que chega um ponto do que, tipo… Eu falo isso não pra falar pra pessoa assim: “oi, eu sou trans”. Eu falo porque é a minha vivência. Então vou ter conversas sobre como é ser uma pessoa trans. Vou ter que acabar conversando. Mas chega um ponto em que já não chega mais, tipo… “Ai, oi, gente. Oi, gente, sou trans”.
Lucyffer: É engraçado, o povo me vê mais como um homem gay, e eu não sou gay. Eu fico… Amigo, desculpa. Mas eu fico puto que me chamam de gay.
(Risos)
Lucyffer: Eu falo que eu sou uma pessoa trans, o povo leva como piada. O povo pensa que é mentira. Eu fico irritado, porque não me veem como uma pessoa trans. Me veem como um homem gay. Porque eu, como fui criado pra ser uma mulher, eu tenho jeitos afeminados.
Não tem jeito!
Letícia: E por exemplo, o relacionamento amoroso de hoje, ele é transcentrado.
Lucyffer: Ai que tudo!
Letícia: E as pessoas, às vezes, têm uma dificuldade de entender isso também. Como funciona, por exemplo… Porque eles querem te colocar na caixinha de… Se você é uma pessoa trans, automaticamente você é hétero, né. As pessoas gostam de colocar essa caixinha. Porque elas gostam de trazer a heteronormatividade para dentro da transexualidade.
Então, quando eu falo que eu namoro outra pessoa trans… Nesse caso, outra garota trans, as pessoas ficam, tipo assim… “Oh, blow my mind”, sabe? Pra ter que explicar pra ela que eu estou num relacionamento lésbico. Eu sou uma pessoa pansexual, mas estou num relacionamento lésbico transcentrado. Com uma pessoa que tá iniciando um processo, inclusive, de transição agora.
Izabella: Eu acho engraçado, porque… Até nos casos que são divergentes, seja lá porque, as pessoas sempre teimam em achar alguma forma de levar isso para um outro padrão, né, que você tá falando.
Letícia: Tudo que foge do nosso padrão, seja transexualidade, seja neurodivergência… A própria sociedade, talvez muito por conta do capitalismo também, gente. Eu sempre acabo falando isso. Eles querem pegar o que é padrão e colocar dentro do que foge do padrão para normalizar de novo. Porque tudo que foge é anormal.
Então, isso vai causar problema no nosso sistema. Vai quebrar o nosso sistema. Por que tantas de nós somos tão perseguidas e tudo mais? Por conta que não querem quebrar nosso sistema. Não querem ver a gente lá em cima e tudo mais, lutando pela causa trans. Lutando principalmente pela causa autista, entendeu? Porque eu ainda vejo muitos, assim, em falta com essa causa até hoje.
Lucyffer: E toda vez que você foge de um estereótipo, seja do estereótipo trans ou autista, te tentam colocar em outro estereótipo. Porque você nunca vai ser aceito como uma pessoa fora da caixinha. Você sai da caixinha, vão te por em outra caixinha.
Letícia: E se você parece “normal” por dez segundos, as pessoas já querem começar a invalidar seu autismo.
Lucyffer: Já tira o seu crachá de autismo. Já tira a carteirinha.
Letícia: Devolve o cordão, sabe?
Thiago: Quantas vezes eu já ouvi “não, você é a pessoa mais normal do mundo”. Eu lá, tremendo para manter essa normalidade. Não!
Izabella: Aproveitando o gancho, e na comunidade do autismo, vocês acham que a experiência trans de vocês foi invalidada?
Lucyffer: Gente, depende.
Letícia: É uma realidade tóxica.
Lucyffer: Depende, depende um pouquinho. Porque o que acontece? Do mesmo jeito que a gente tem autistas de várias formas, o padrão cisnormativo tá lá. Claro que é menos do que a comunidade neurotípica. Mas a transfobia é enraizada.
Letícia: E a transexualidade, da mesma forma do autismo, eu sempre gosto de colocar isso, para que as pessoas entendam. O espectro autista, ele é amplo. Ele vai aparecer de diversas formas, de acordo com cada pessoa. Ele não segue uma regra única, de todo mundo vai ser igual, ter os mesmos estereótipos, fazer as mesmas coisas.
E a transexualidade, ela segue na mesma coisa que ela pode se apresentar de várias formas. Porque uma coisa é a identidade de gênero, outra coisa é sua orientação sexual. E outra coisa é a sua expressão de gênero.
Eu não preciso, na minha expressão de gênero, copiar quase um masking de uma pessoa cis pra que eu seja validada como pessoa trans. A minha validade, a minha questão, a minha vivência, a minha existência como pessoa trans não depende do meu masking de uma cópia de um sistema cisgênero. Entendeu? Eu posso me expressar o meu gênero da forma como eu possa bem entender. Entendeu? Seja ela pro lado muito feminino. Mas tem dias que eu tô super feminina. Você vai olhar assim e falar “Meu Deus do céu”. Mas tem dias que eu olho assim e falo assim: “Caminhoneira”.
Izabella: Então vocês acham que o ativismo autista e o trans eles deviam se unir mais?
Em quais pautas isso seria mais relevante?
Lucyffer: Eu acho que depende. Porque são lutas extremamente diferentes e mesmo, por exemplo, a gente… Somos pessoas autistas e trans. Mas são pautas completamente diferentes. Eu acho que deveriam se unir apenas para se respeitarem mais. Mas entra em muitos assuntos, por exemplo.
Porque o autista, ele tem muita dificuldade de ser aceito como pessoa trans. Porque tem aquela historinha do anjo azul e as pessoas não acham que o autista ele vai ser uma pessoa que vai pro vestido da caixinha. Ele vai ser… Ai, o que vai ter autonomia…
Letícia: Não vai ser uma pessoa independente.
Lucyffer: Ele vai sentir alguma coisa. Então eu acho que difere essa pauta.
Letícia: Assim, eu acho que tem que se unir. Porque nesse caso, a gente tá falando de luta de duas classes totalmente diferentes, principalmente porque hoje… Na comunidade autista, os autistas adultos ainda lutam para que eles sejam vistos também.
Porque finalmente, OK, estamos falando sobre autismo. Estamos com espaço e abertura para falar sobre. Mas ainda estamos muito focados em somente crianças autistas. E a criança vai se tornar um adolescente autista e vai se tornar um adulto autista. O autista não vai sumir, assim, do mundo e o autismo não vai sumir da pessoa quando cresce.
Então são duas classes que têm que lutar tanto por visibilidade, quanto por políticas, quanto também pela pura existência. Porque as pessoas autistas são excluídas de espaços da mesma forma que pessoas trans são excluídas de espaço. E essas duas classes, elas se interseccionam também na sua existência de trans autistas, autistas trans e por aí vai.
Então, por exemplo, no meu caso, não tem como eu lutar por um sem lutar por outro. Porque a minha existência é os dois. Então, por que não juntar essas duas classes? Juntar toda essa causa e lutar junto? Porque eu só vejo, no meu caso, benefícios. Mas não no meu caso como pessoa. No meu caso, grupo, classe. Eu só vejo benefícios para a classe se juntando e lutando juntas. Ainda mais num sistema como o nosso que só quer nos excluir e tirar os nossos direitos novamente que foi com tanta luta. Tipo a Lei Berenice Piana. Na primeira oportunidade, se a gente parar nossa luta autista, vão querer fazer alguma coisa pra tirar.
Izabella: Só pra gente encerrar agora, eu queria saber o que vocês falariam pra uma pessoa trans que está desconfiando que possa ser autista e para uma autista que está desconfiando que possa ser uma pessoa trans.
Thiago: Pra pessoa trans que acha que pode ser autista. Acho que a primeira coisa que eu falaria era achar suporte médico de qualidade. Porque é essencial. E também juntar uma comunidade que seja uma rede de apoio que seja realmente de apoio. Porque é essencial. Nesse processo de descobertas é essencial você ter pessoal lá que fala assim “eu tô aqui pra te apoiar independente”.
E do mesmo jeito que você vai para pessoa autista que tá se descobrindo trans. É importante ter liberdade para experimentar a questão de gênero. É importante ter a liberdade de poder ser quem você é. Porque do mesmo jeito que o diagnóstico é um processo de autoconhecimento, a questão de gênero também é.
Lucyffer: Eu acho que eu tenho uma frase que vai servir para os dois. Busque pessoas iguais a você e estude sobre. E corra atrás do seu diagnóstico. Se você for autista, porque a gente saiu da city, nós pessoas trans (risos). E se você for trans, você estuda mais sobre a sua comunidade. Tenta se juntar.
Letícia: O que eu diria seria para pessoa trans que tá desconfiando que seja uma pessoa autista: você já luta todo dia pela existência. Então lute também para conseguir seu acompanhamento. Porque muitas das vezes pode não ter finanças suficientes para algum apoio particular mas isso é possível dentro do atendimento do SUS. Então lute por ele, pra ir atrás dele. Porque é difícil, mas utilize da sua luta, da sua força pra ir atrás disso. Pra você conseguir continuar sendo quem você é de uma forma mais confortável e sabendo que você pode fazer para melhorar sua qualidade de vida.
E pra aquela pessoa autista que está desconfiando de ser uma pessoa trans, utilize aquela mínima curiosidade para pesquisar muito sobre tudo. Pra que você não caia numa caixa. Mas que também não te coloquem dentro de uma caixa. Não te rotulem. Pra você simplesmente ser quem você é. No final de tudo é sobre ser quem você é, estar bem com isso, ficar bem com isso. Dentro de tudo e não depender da sociedade para esse suporte.
Lucyffer: E sempre com acompanhamento psicológico de qualidade. Porque senão você vai desistir no meio e vai foder toda a sua trajetória.
Izabella: Queria agradecer a vocês por terem topado participar deste episódio. E é isso. Sejam bem-vindos. As portas seguem abertas.
Lucyffer: Obrigado, galera. Se vocês me seguirem nas redes sociais. Geralmente, eu não me dito muito sobre autismo. Porque eu falo mais sobre causas indígenas, causas raciais. A gente vai tentar falar depois sobre autistas indígenas. É uma pauta invisibilizada.
Thiago: Eu agradeço por terem me convidado. Eu agradeço pelo espaço. Eu espero que a nossa luta continue e que seja bem-sucedido.
Letícia: Agradeço o convite. Pelo espaço, por tantas falas importantes. Quem me segue na rede social, sempre tô lá. Posto um meme. Aí, do nada, tô na academia. Do nada, tô militando. Aí, do nada, tenho ali umas coisas mais provocantes. Mas é isso. É o que acontece no nosso Instagram.
Lucyffer: De tudo um pouco.
Letícia: De tudo um pouco. Mas a gente sempre tá falando de todas as causas. Sempre lutando.
Lucyffer: E sendo bonitos.
Letícia: E estamos aí. Muito, muito, muito obrigada.
Izabella: Quem quiser seguir eles nas redes sociais. Eles vão estar aqui na descrição do episódio.
Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Izabella Pavetits e Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

