Existe a ironia de que, muitas vezes, parece que héteros são minoria na comunidade do autismo. Verdade ou não, heterossexuais vivem algo universal para todos os autistas: desafios para construir e manter relacionamentos. Neste episódio, Gustavo Borges recebe Lucila Sant’Anna, Pedro Fleury e Regina Alves, para saber qual a relação deles com o gênero oposto, seus históricos de relacionamento e seus posicionamentos quanto a comunidade LGBT.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam. Eu sou Gustavo Borges e estou aqui hoje para transmitir a mensagem que tudo bem ser hétero, o que não dá para ser topzera.
Pedro: Sou Pedro, 32 anos, autista.
Regina: Meu nome é Regina, tenho 52 anos, autista, e no momento estou fazendo o curso de Radiologia.
Lucila: Meu nome é Lucila, sou administradora e servidora pública, sou autista e hétera, nesse mapa da fome.
Gustavo: Estou reunido aqui hoje com outros três autistas heterossexuais para poder falar dessa que não parece, mas supostamente é uma minoria dentro do grupo autista, que são os héteros, nessa intersecção entre ser hétero e ser autista.
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[Vinheta de abertura]
Gustavo: Após quatro episódios temáticos falando da diversidade sexual e de gênero no universo autista, viemos falar da mais básica e sem graça de todas, o ser hétero. E eu gostaria de já começar perguntando se isso é alguma coisa que sempre foi, é isso mesmo para vocês? Se em algum ponto vocês tiveram dúvidas, tiveram que se entender como héteros, ou se “nasci assim”, tal como somos autistas, nascemos assim, ou se foi uma coisa que veio com o passar do tempo para vocês?
Pedro: No meu caso, foi uma coisa que veio naturalmente com o passar do tempo. Quando eu tinha 12 anos eu já era apaixonado por uma professora, depois fiquei apaixonado por uma menina do colegial, fui escolhendo ali as minhas, então, musas, aquela paixão juvenil ali.
A única vez, falando agora, vou contar uma história. Quando eu estava na faculdade, no primeiro ano, veio um cara, depois que eu bêbado e tal, ter passado mal, veio um cara que cantava no coral, aliás, eu sou músico, baixista, né?
Veio um cara que cantava no coral que eu conhecia e a gente começou a trocar ideia, porque eu falei: “ah, você cantou naquele coro e tal ali”, né? Na época não tinha Uber, né? Isso era 2013. Aí ele me ofereceu a casa dele para eu dormir, para eu passar a noite.
E aí, cheguei lá no quarto dele e ele falou assim para mim: “então, você quer dormir na cama ou no chão, comigo ou sozinho e tal?” Eu falei: “não, eu durmo no chão sozinho e tal”. Aí ele falou, assim, depois que apagou a luz, a gente foi dormir e tal: “ah, então você não é gay, né?” Eu falei: “não sou, cara”. Falou: “não, você não tendo surto homofóbico aqui, de boa”. Eu falei: “não, de boa” e tal, no dia seguinte eu fui embora e tal. Falei: “desculpa ter te decepcionado aí, cara”.
Gustavo: Não, acontece, todo mundo foi respeitoso, tá valendo.
Pedro: É.
Regina: Bom, no meu caso, desde os 10 anos eu tinha certeza que eu era hétero, porque sempre tive atração por homens. E a minha mãe, principalmente depois que a mulher entra no período, né, aí que a coisa fica mais aflorada.
E muitas das vezes, desde os 10 anos, assim, eu sempre tinha interesse por homens, meninos, né, no caso. E eles também tinham interesse. E na minha época, tinha muitas festinhas que tinha nas casas. E a gente ia, dançava música lenta e ali rolava beijo, abraço. Mas, assim, nessa época, por não ter tanta experiência sexual, a gente não chegava aos finalmentes. Mas a gente acabava tendo aquele aquecimento que a coisa ficava difícil de segurar (risos). Então, assim, foram vários meninos, assim, que a gente acaba nessa fase, nessas festinhas.
Na minha época, a gente ia pro shopping Flamboyant, lá pra praça de alimentação. Então, assim, era uma fase, assim, que a sexualidade estava muito aflorada, tanto pros héteros, e não era tão visível os homossexuais. Mas os héteros eram uma coisa de louco nessa época.
Gustavo: Bom, a sexualidade sempre foi uma parte muito relevante da minha vida. Eu já tinha paixonites, assim, com 5 pra 6 anos de idade, de “ah, ganhei uma caixa de bombons”. Eu ia levar dois pra escola, um pra mim e um pra moça. Não deu muito certo, mas eu tive algumas paixonites nesse sentido, assim, sempre foi muito claro.
E por essa questão da gente ter menos entendimento das regras sociais quando é mais novo, e do próprio, das nossas próprias intenções, desejos, a gente ter menos preocupação em ocultá-los, eu sempre tive essa fama de ser muito apaixonado, de ser muito intenso, de querer demais. Assim, fui vivendo a vida e não aprendendo (risos).
Lucila: É uma questão, acho que da neurodivergência, né, essa questão da intensidade também. Eu tenho essa experiência de ir com muita sede ao pote nas relações. Acho que é uma questão geral mesmo.
Gustavo: Ah, algumas moças já saíram assustadas. É complicado, eu causo uma péssima primeira impressão. As que se dignam a ficar, dar uma chance, conversar, a gente desenvolve, a gente melhora, a gente se arruma ali. Sempre me garanti muito após o primeiro contato, mas o difícil era passar desse primeiro contato maldito.
Regina: No caso, você tá falando, você era muito pegajoso na linguagem da minha época.
Chegava a ser esse termo que você…
Gustavo: Grudento, talvez? Uma leve variação.
Pedro: Me identifico, me identifico.
Regina: Cada geração usa um termo, né?
Gustavo: E eu era muito óbvio também. Toda essa questão da arte do flerte, da sutileza, dos pequenos olhares de canto de olho, nunca tive nada disso, mas nada. E aí, eu sou casado hoje, sou muito feliz sendo casado, mas eu conheci minha atual esposa no mundo pré-Tinder. Agora, todo mundo parece que aceitou essa objetividade, o que quer, os desejos e tudo, mas eu não participei disso. Eu não entrei nessa brincadeira. Não vi como é que é, se com esses aplicativos, onde tudo é pra ser explícito e prático, eu teria alguma sorte.
Lucila: É, esse ler as entrelinhas, essa fase da paquera é uma dificuldade mesmo pros autistas, né? É ter iniciativa também, né? No caso dos homens, principalmente.
Pedro: Fora o sincericídio também.
Lucila: Ixi (risos).
Pedro: Tenho experiência nisso aí também. Meu primeiro namoro, que foi ali, logo depois de acabar a faculdade, eu tinha uma namorada na época que era, como alguns diziam hoje, assim, mais rechonchuda, né? Aí, eu perguntei pra ela e tal, “Desde quando você é assim?”, sabe? Falei de outros lances platônicos. Foi um vexame ali. Mas eu aprendi a lição.
Gustavo: Mas chegou a namorar de fato com essa pessoa.
Pedro: Sim. Namorei por dois anos ainda.
Gustavo: Até o dia que você falou isso?
Pedro: Não. Foi no começo isso.
Lucila: Então, deu certo, conseguiu reverter.
Pedro: É. Ela teve paciência. Mas foi legal, foi legal.
Lucila: A pessoa tem que passar pelo primeiro impacto, né? E aí, depois, depois flui, né? Muitas vezes.
Regina: Bom, no meu caso, como eu falei que era muita festinha, eu estudei em escola católica. E mesmo assim, não resolveu nada (risos). Porque, assim, quando tinha o intervalo de recreio, aí pegou bem na época que tinha o lançamento da lambada. Então, a gente, todo mundo fazia aquele mutirão pra todo mundo dançar lambada no recreio. Aí vinha o diretor e punha todo mundo de suspensão. E virava aquele, assim…
Mas, no caso, por eu ser autista, os rapazes e os meninos, eles tinham que insistir muito comigo pra eu ter um relacionamento. Para namorar, ou pra sair pra tomar um sorvete, alguma coisa nesse sentido. Mas, depois, assim, de uns dois, três encontros que acabavam, ou ia tomar um sorvete, alguma coisa, aí eles perguntaram novamente: “Você quer namorar?”. Aí eu falo assim: “Ó, eu posso até namorar, mas eu não garanto que vai durar muito não” (risos). Podia ter a química que fosse. Mas, assim, por causa da rigidez cognitiva, se não tivesse algumas coisas que fossem do jeito que eu queria, pra mim era fim de relacionamento.
Gustavo: Você colocava em estágio probatório e nem todos passavam?
Regina: Não, não passava. O problema era esse. Como eu não sabia, na época, o que era autismo e tudo, então, assim, eu já era bem específica nas minhas regras. Primeiro, o beijo tinha que ser bom. Se o beijo não fosse bom, já não passava no teste.
Aí, depois, eu ia ver como que eles se comportavam, tipo assim, se fosse no sorvete, alguma coisa, como ele ia se comportar comigo. Aí, depois disso, aí que realmente eu ia ver se tinha possibilidade. Isso era uma média de um mês e meio a dois meses que passava esse período.
Aí, depois disso, quando eu completei 14 anos, foi quando eu tive meu primeiro namorado realmente. A gente namorou quatro anos, aí a gente acabou, cada um foi pro seu canto. Quando a gente voltou, dois anos depois, a gente acabou casando. Só que o casamento durou um ano e meio.
Pedro: (Risos)
Lucila: Nossa!
Gustavo: Já ia falar que passou por todo o estágio probatório e nem foi.
Regina: Casou, mas no casamento não passou (risos).
Lucila: Já eu tenho problema de dedo podre, sempre tive. Acho que é uma realidade também muito comum nas mulheres autistas, né? De passar por experiências de relacionamentos abusivos, porque a mulher autista é mais inocente, ela é mais… Ela é uma presa mais fácil para aquelas pessoas que estão, às vezes, mal intencionadas, porque a gente também não consegue identificar, a princípio, as intenções das pessoas.
Eu acho que é uma coisa que a gente tem que falar também, porque eu acho que é uma realidade comum das mulheres autistas passar por esse tipo de relacionamento tóxico. Até para alertar as autistas mais novas. Não só as mulheres, mas eu acho que é muito comum nas mulheres. Então, para ter acesso à informação, buscar informação, para não precisar passar por isso.
Gustavo: Eu quero acreditar que as pessoas mais jovens, independente de estarem ou não no espectro, elas estão um pouquinho melhor informadas sobre algumas ciladas e como fugir delas. Mas mesmo que o pessoal mais novo, que está chegando agora na vida, que está começando a entender as coisas, já saiba, tem uma galera aí que ficou pra trás que a gente ainda precisa resgatar. De gente que está em relacionamento com onde a outra pessoa ultrapassa limites, não respeita, especialmente pra gente. Se a gente acredita que é assim que é uma relação, então é assim. A gente aceita e prossegue, segue mesmo não sendo bom pra gente.
É preciso encontrar esses limites e do outro lado da moeda também, é preciso a gente saber que não é porque a gente é autista que a relação tem que ser exatamente como a gente quer a todos os momentos. A gente tem que aprender a ceder, balancear e organizar por quem a gente ama.
Pedro: Flexibilidade.
Gustavo: Eu acho complicado porque nós temos um pequeno problema chamado internet
que espalhou todas as ideias possíveis pela humanidade e muitas delas péssimas ideias. E agora, aparentemente assim, não se passa um dia sem ver notícia de feminicídio. De gente que não aceitava o término da relação e agora mais recentemente saiu uma trend absurda de homens simulando armas, lutas, facadas, o que for, praticando pro caso dela me dizer não.
Se você não tem nenhuma relação com a pessoa, você vai fazer a proposta pra pessoa, ela vai dizer não e você vai agredir e matá-la por isso. Parece realmente insalubre para as mulheres hétero. As que eu converso, sejam elas autistas ou não, tá falando que tá difícil.
Regina: Pela minha experiência de ver como que tem evoluído, acaba se repetindo.
Se esse homem viu o relacionamento totalmente disfuncional dos pais dele, ele vai querer repetir esse comportamento com a companheira que ele quer pra vida dele. Se essa companheira não fizer o que a mãe dele fez, ele vai simplesmente achar que ele tem, ele vê a mulher como objeto de posse que ele pode terminar esse objeto de posse a qualquer momento.
É muito complicado para nós autistas começar a entender que esses comportamentos que são, tipo assim, copia e cola, copia e cola…
Lucila: Os padrões.
Regina: É. Então assim, é um momento que tanto pro neurotípico e pra nós, tem que começar a ter consciência disso e nem que forme pequenos grupos para pelo menos criar uma orientação pras pessoas começarem a se perceber e procurar aquilo que vai fazer com que ela se sinta segura, porque sexo é uma coisa muito boa.
Gustavo: Com certeza.
Regina: Mas… Nossa, isso é bom demais. Mas tem que ter a pessoa certa, principalmente porque a gente tem a questão sensorial, a gente tem a querida rigidez cognitiva e outros fatores também que levam em conta que tem autista que se não tiver envolvido primeiro emocionalmente e intelectualmente que fala, o resto não acorda.
Lucila: O demisexual, né?
Regina: É. No meu ponto de vista, eu acho que começa por aí, perceber o que ele aprendeu com os pais dele que não funcionou e ele tentar não repetir no relacionamento que ele tá construindo. Porque acaba acontecendo que eu conheço pessoas que já passaram por 7, 8, 9 casamentos e não aprenderam nada. E continua metendo borracha e tá errando o meu jeito.
Lucila: Principalmente os homens héteros, eles têm muita dificuldade de falar de sentimento pela nossa cultura machista, né? Os homens héteros têm essa dificuldade já pela cultura, né?
Regina: O pior é a gente ter abertura para conversar sobre isso e eles têm medo. Eles têm medo de ter essa conversa sobre sentimentos, sobre experiências. Então, assim, fica muito difícil quando você… Como a gente é muito direto, é muito literal, né? Então, assim, às vezes assustam muito os héteros. E pior, é pior um pouquinho porque são poucos que são refinados para entender isso. Porque a maioria acham que ainda estamos naquela época bem bruta.
Lucila: É a masculinidade tóxica, né? Que é uma realidade.
Pedro: Essa questão também do homem precisar ser sempre o que vai pagar as contas e vai ser o inquebrável ali, o insensível. Eu acho que isso, se for levado a muito extremo, cria homens muito rígidos. E eu acho que isso, entre homens autistas, têm um potencial ainda mais danoso. Eu acho que realmente não é por aí.
Eu acho que a gente pode ser mais flexível, pode ter algo a mais de sensibilidade. Eu ainda acho que não precisa ser tão sensível no nível um Fiuk da vida. Mas não precisa ser o copia e cola dos nossos avós, aquela coisa do macho alfa, do homem durão. Eu acho que pode ter um equilíbrio ali, entendeu?
Gustavo: Eu cheguei a ter uma experiência anos atrás, mas foi aquela coisa mais… “Vamos viver algo, vamos experimentar algo que teoricamente a gente nunca experimentaria. Vamos confirmar se realmente é só a imposição da sociedade ou não”.
Porque, como eu falei, eu sempre soube desde muito pequeno que eu era atraído por garotas. Mas eu nunca parei até, sei lá, 17, 18 anos. Mas será que eu sou atraído apenas por garotas mesmo? Será que simplesmente os caras são detestáveis e eu não gosto da maioria deles por isso? Será que foi…
Então, teve uma ocasião, mas ficou nisso mesmo. Foi mais que uma confirmação, uma prova de que realmente não é pra mim. E tem gente que se descobre, que vai mais além, mas eu acho que um pouco das pessoas teriam só medo de tentar ir além dos próprios rótulos. Se você tentou algo uma vez, não gostou, só não seguir. Eu tentei andar de skate uma vez, eu sou péssimo nisso, não é pra mim. Mas tá lá, tentei, experiência vivida, seguimos adiante. Gosto de andar de bicicleta, o que me satisfaz.
Regina: Eu nunca discriminei ninguém, por mais que me dessem cantada, mas eu tenho uma regra. Não toca no meu corpo sem a minha permissão. Fora isso, pode zoar, pode falar. Eu brinco muito. Tem pessoas que eu tenho liberdade de conversar bastante besteira, só que isso eu consegui, depois de muitos anos, criar o filtro. Depois de errar muito.
Gustavo: A gente até já falou superficialmente aqui ao longo dos últimos minutos, mas eu acho legal a gente focar e dar o destaque também em como é a relação de cada um de nós com relação à pauta LGBTQIAPN+.
Porque é uma coisa assim, talvez eu seja um pouquinho velho, mas eu ainda lembro quando era GLS e eu achava muito legal ter o S de simpatizantes. Agora tem o termo aliado, mas não tá na sigla, não tá fazendo parte.
E assim, o meu melhor amigo da vida toda, Augusto, ele é homossexual. Eu sem querer tirei ele do armário antes de ele estar pronto para poder se assumir. É, as coisas que os autistas fazem, mas assim, sempre tive uma convivência maravilhosa. Na verdade, eu acho que eu me dou melhor com pessoas que fogem ao padrão de qualquer método que seja, do que com geral.
Lucila: É, eu acho que nós autistas já somos a minoria, né? Então a gente já tem esse acolhimento para as diferenças em geral. Então assim, eu sempre tive esse acolhimento, até porque eu sempre tive empatia no sentido de que as pessoas falam: “ah, que ele escolheu ser gay ou ser bi”. Eu pensava: “gente, mas a pessoa vai escolher um caminho de mais preconceito, um caminho mais difícil?”.
Então assim, eu sempre tentei ter esse acolhimento, mas eu acho que a nossa sociedade, ela é preconceituosa. Então tá no inconsciente coletivo ser preconceituoso. Então mesmo que a gente considere que a gente não é preconceituoso, muitas vezes a gente se pega ali com comportamentos que você fala: “mas de onde veio isso? Veio lá do fundo, veio lá do inconsciente”.
Então assim, eu acho que é importante a gente, a hora que percebe esse tipo de comportamento, a gente ter a consciência e repudiar o próprio comportamento e tentar um pensamento que seja, porque é aí que muda. Então a gente tem que ter consciência para poder mudar.
Gustavo: Sempre tem algo a ser melhorado, com certeza.
Lucila: É. Igual racismo, igual machismo, porque a sociedade é assim.
Gustavo: Eu fiz faculdade de comunicação, sou publicitário formado pela UFG e eu vim de uma cidade do interior que eu odiava, a melhor coisa da vida foi sair de lá. E nessa faculdade eu tive contato com uma vasta gama de pessoas especificamente homossexuais. E não é que eu não tivesse problema com eles, mas eu não sabia me comunicar de forma adequada. Havia pessoas que achavam que eu era preconceituoso só porque eu não sabia falar corretamente com eles. Então assim, coisas que a gente sempre pode melhorar mesmo.
Regina: O problema é que a sociedade em si tem medo de tudo que não é conhecido. E essa área sexual é conhecida há vários milênios já, só que a sociedade prefere ignorar. Isso acaba criando como no coletivo, principalmente porque no inconsciente não vai gerar a próxima geração. Então isso acaba querendo forçar a sociedade a não aceitar.
E isso acaba trazendo conflito para famílias, para convivência entre amigos, até dentro da igreja, em várias áreas da sociedade gera muito conflito. Até na área de criar políticas que protejam essas pessoas. Eu no caso, eu já tenho vários amigos que são gays, sapatão.
Gustavo: Vários que te cantaram, você contou pra gente.
Regina: É, não, eu gosto de falar assim, eu nunca tive preconceito, mas eu sei que eu tenho um problema seríssimo de usar os pronomes, as formas corretas. Aí quando eles veem que eu não consigo usar igual você pesquisou, e ela pesquisou, aí eles entendem que eu tenho acolhimento deles, que eles têm essa proximidade de mim, eles veem que eu não faço isso por maldade. Mas assim, a gente tem um respeito mútuo, a gente se dá muito bem, eu me dou bem com vários deles, e eu acho que é isso.
Gustavo: Para gente encerrar aqui, pessoal, muito legal conversar com vocês. Todo mundo aqui já é um pouquinho mais vivido, todo mundo aqui já aproveitou um pouco mais a vida, e erramos muito nesse processo. Então assim, o Introvertendo tem um público bem diverso, bem amplo. Que conselhos que vocês dariam para jovens, meninos e meninas, adolescentes, héteros autistas, de como navegar por esse mundo do relacionamento?
Lucila: Relacionamento é uma coisa muito complexa, igual a Regina colocou, dos padrões familiares que a gente tem, que a gente traz. Então assim, eu acho que é buscar informação. Quem puder fazer terapia, mas conversar também, porque os autistas às vezes têm problemas de conversar com os outros, e às vezes estão ali num relacionamento abusivo, e nem têm consciência que estão, porque não estão conversando com outras pessoas. Então assim, buscar essa interação também, para ter relacionamentos melhores, mais saudáveis ao longo da vida.
Pedro: Eu acho que é bacana, complementando o que a Lucila falou, juntar-se com pessoas mais experientes, e ter aquele amigo ou aquela amiga que você vai trocando ideias ali, e falar tipo: “oh, eu agi desse jeito, e o que você acha dessa conduta?”. Isso ajuda na caminhada também. E de resto, acho que é deixar fluir, sabe? Não forçar nada. Uma hora as coisas acontecem ali do jeito que tem que ser, e só vai.
Regina: Eu acho que se tiver condição de fazer um curso de etiqueta social, para entender toda essa linguagem corporal, ajuda bastante.
Pedro: Sim, nossa.
Regina: Se conhecer mentalmente e fisicamente melhor, para aprender desde novo a impor seus limites, porque quando se chega nesse ponto de ter relacionamento abusivo, aí fica muito difícil de você sair dele.
Gustavo: Para os jovens, eu só posso dizer, vocês vão errar. E errar é parte do processo, então, antes de você aceitar que vai errar, o que é muito difícil pra qualquer pessoa, e mais difícil ainda pra autista, sabendo que você vai errar, tenta ir se corrigindo.
Tenta aprender, tenta perceber: “tá, isso aqui deu errado, eu fiz uma abordagem errada a essa pessoa, ou a gente teve um relacionamento por um tempo e deu errado, o porquê deu errado e como que eu melhoro isso para o próximo?”.
Porque vocês ainda vão ter muita coisa pra poder viver, e vão ter que ir aprendendo, de um jeito, de outro, o melhor é aprender o quanto antes. Então esteja aberto ao erro para poder mudar.
Lucila: E não tem coisa melhor pra aprender sobre a gente do que relacionamento, né? É uma ótima oportunidade de autoconhecimento, porque é um espelho, o outro é um espelho, então, aproveitem essa oportunidade pra se conhecer. E seja autêntico, seja você mesmo, que vai ter sempre alguém que vai gostar de você, em algum lugar do mundo (risos).
Gustavo: Hoje é mais fácil de encontrar, gente. Não posso nem falar nada, o primeiro beijo que eu dei, eu tinha 16 anos de idade, e a gente se conheceu pelo Orkut, e a gente estava morando a mil e tantos quilômetros de distância.
Regina: Longe desse jeito!
Gustavo: Eu disse, eu morava numa cidade horrível.
Lucila: Eu ainda era da época do IRC e do ICQ, não sei se vocês lembram, era anterior ainda.
Regina: Não, eu ainda sei, então, você está muito novo, nós éramos de conversa de boca a boca, assim, no bairro, nós falando: “nós vamos fazer a festa em tal lugar assim”, e era desse jeito.
Gustavo: Bom, gente, eu queria agradecer aos convidados que tivemos aqui hoje, foi muito legal ter essa troca com vocês. E fica sempre aquela mensagem básica que relacionamento, seja ele de amizade, seja ele de afeto realmente, seja de uma relação de namoro, casamento, pegação, o que quer que seja, em todas essas ocasiões, o respeito sempre entra bem. Vá com calma, entenda seus limites, entenda os limites do outro e vá com diálogo. É isso, até semana que vem, onde a gente vai ter algum outro tema menos relacional.
[Vinheta de encerramento]
Regina: Eu estou no mercado à procura de um companheiro, mas o mercado está difícil, passar no processo seletivo de novo .
Pedro: Não está muito no tempo das castanhas, mas ao mesmo tempo, nunca se sabe, né?
Gustavo: Eu confesso que eu não entendi.
(Risos)
Pedro: Então corta!
[Beep]
Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

