Uma das sexualidades mais invisibilizadas da sigla, a bissexualidade é cheia de estereótipos e de questões que muitas pessoas não entendem. Neste episódio, que dá continuidade à nossa série no mês do Orgulho LGBTQIAPN+, Marx Osório recebe Ana Júlia Arantes, Deco Machado e Kaoma Aleixo para compartilhar experiências sobre a descoberta da bissexualidade, a diferença de afeto romântico e sexual entre homens e mulheres e como a comunidade do autismo pode ou não estar relacionada a isso.
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Transcrição do episódio
Marx: E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Esse é o Introvertendo, um podcast onde autistas conversam. Eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e hoje nós vamos falar sobre experiências bissexuais dentro do espectro do autismo em comemoração ao mês do orgulho LGBTQIAPN+.
Deco: Oi, gente, eu sou o Deco, eu sou comunicólogo, sou bissexual e tô aqui também pra falar um pouco da nossa experiência dentro do espectro e da… dos dois espectros, né, no caso.
Kaoma: Oi, eu sou a Kaoma, eu sou psicóloga e eu… é isso (risos).
Ana Júlia: Olá, eu sou a Ana Júlia, eu sou psicóloga, sou sócia fundadora de uma agência de marketing e também sou bissexual.
Marx: Se você ainda não conhece o Introvertendo, nós estamos nas redes sociais, estamos no Instagram @introvertendo, no Facebook, no Twitter, no X, antigo Twitter, e nós também temos o nosso site, www.introvertendo.com.br.
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[Vinheta de abertura]
Marx: Como nós estamos aí no mês do orgulho LGBTQIAPN+, é pertinente a gente discutir, trocar uma ideia sobre experiências LGBTs no contexto do autismo, né. Para muita gente, principalmente a galera da velha guarda, esse tipo de coisa não é assunto da comunidade do autismo.
Muita gente acha que autista não cresce, que a autista é assexual por definição, ou que o autista homossexual ele é… uma figura homossexual ou bissexual, é uma figura que não existe, que está no imaginário mais assustador da cabeça da tradicional família brasileira.
Então, pensando nisso, nós vamos falar aqui um pouquinho sobre como essa experiência acontece na vivência do autismo. E pensando sobre isso do ponto de vista de que, para o autista, tudo é muito 8 ou 80. A gente tem uma tendência a ver as coisas de uma maneira muito absoluta, e acaba que na sexualidade isso pode ter algum tipo de influência também.
Então eu começo a nossa discussão aqui lançando a primeira pergunta, que é, pra vocês foi difícil perceber que vocês tinham uma sexualidade diferente, um desejo diferente, um olhar diferente do que é socialmente preconizado, do que a heteronormatividade impõe?
Kaoma: Com certeza (risos). Eu só fui descobrir que eu era bissexual com 21 anos de idade, porque eu ficava: “mas eu gosto de homens, então eu não posso ser lésbica”. Então eu fiquei: “ah, então é isso, eu sou hétero”. Até que eu fui percebendo que: “hum, acho que eu sou os dois”. E foi meu processo, mas demorou muito tempo justamente por conta dessa questão, dessa pressão, né. A gente, tipo: ah, ou você é um ou você é outro, você não pode ser os dois. E, spoiler: tem como (risos).
Marx: E a própria pressão de que se não for hétero tá errado, né. Antigamente era muito assim. Eu convivi com uma cultura homofóbica muito forte ao longo da vida. E a obrigação de você ser um homem que gosta de mulher, da mulher que gosta de homem, que se não for isso tá errado. Como é que foi pra você, seu Deco Machado?
Deco: Cara, eu tenho até um show sobre isso, né. Mas foi a mesma experiência, assim. Na verdade, eu acho que eu sempre soube, que eu também sempre fui fã de Cazuza, né. Então já…
Marx: Brabo.
Deco: …Já, pra mim já existia. Mas eu acho que eu não me entendia como. É diferente, né. Tipo, você saber o que você é e você se entender como aquilo. E aí quando a gente nomeia, quando a gente vai. E aí foi com vinte e poucos anos também, mesma coisa. Quando: “ah tá, é isso, então pode”. É meio que isso: “ah, então pode, não precisa ser um nem outro, então pode”. Eu acho que é meio, pra mim essa foi a descoberta, assim. E aí, quebrar preconceitos que nós mesmos carregamos, também.
Marx: Isso numa situação específica ou foi algo gradativo? Você foi percebendo aos poucos?
Deco: Eu fiz USP. E aí (risos)…
Marx: Dispensa qualquer coisa (risos).
Deco: Então foi uma graduação.
Marx: Você fez escola?
Deco: É.
Marx: Mas a universidade, ela faz a gente olhar pra, pelo menos ver que existe, né. Que você vê.
Deco: Foi o primeiro espaço que eu abertamente convivi com pessoas, que eu convivi com pessoas que são abertamente LGBTs, sabe? Tipo, que eram abertamente gays, lésbicas, bissexuais. Então, ter essa convivência, ver pessoas se aceitando, faz a gente se aceitar também, de alguma maneira.
Ana Júlia: Eu achei engraçado o que o Deco falou em relação a que ele fez USP, porque eu fiz ensino fundamental e médio na UFG. Só que a minha família em si, ela é uma família muito humilde e sempre muito católica. Então eu fui coroinha e a gente cresceu num povoadinho ali, entre Goiânia e Nerópolis, extremamente rural.
Então, o meu primeiro contato com o tema sexualidade foi na escola. Só que eu não me interessava, assim. Simplesmente, tava todo mundo falando de namoradinho, de se interessar por fulano e ciclano. E eu nem tinha um, tipo: “ah, eu vim aqui pra estudar”.
Marx: Com quantos anos?
Ana Júlia: “Quero brincar com as minhas bonecas”. Isso eu já tinha 15 anos. E aí, todo mundo ficava nessa pressão. “Não, mas você não se interessa por ninguém”. E eu falava: “gente, que nojo, beijar na boca do outro”. “Por que vocês querem fazer isso?”
(Risos)
Ana Júlia: E aí, num determinado momento, isso começou a se tornar aquela pressão de adolescente. “Não, mas você tem que gostar de alguém”. Aí, tá, gostar de alguém. Inúmeras possibilidades, né? Aí a menina tem que gostar do menino. Só que aí, nessa época, eu entendi que eu gostava muito das minhas amiguinhas também. E eu falei: “alguma coisa de errado não está certo” (risos). E aí, é o que eu tava conversando com ela, né.
Nessa época, eu não tinha consciência de que… Porque o autista, ele também não tem muito filtro social. Eu não tinha consciência de que tinha um armário do qual eu deveria estar dentro. E eu era muito expansiva. E aí, no momento em que eu descobri que dava pra gostar das pessoas, aí foi um negócio. Toda semana eu tava apaixonada por alguém.
Marx: (Risos)
Ana Júlia: E aí, era uma semana que eu tava apaixonada por um menino, na outra por uma menina. E aí, eu saía falando pra todo mundo. E aí, pensa, você chegar numa família extremamente religiosa, lá do meio rural, falando: “Não, então por que essa semana eu tô apaixonada por esse menino aqui”. “Não, então na semana que vem eu tô apaixonada pela minha melhor amiga”. E a família assim, ó…
Deco: Muito bem organizado…
Marx: Sangue de Jesus tem poder! (risos).
Ana Júlia: Sangue de Jesus tem poder! Falta de filtro completamente. E aí, a sociedade começa a te botar aquelas barreiras. O tipo, primeiro, é só menino. Segundo, que tanto de gente é esse que você tá? E aí, começa: “Não, então se você começa com essa história de bissexualidade, isso também é promiscuidade”. Então, foi aquela chuva, assim.
Marx: E ainda soma-se o fato de você ser uma mulher, né? E o povo de antigamente tinha aquela ideia que mulher tem que se preservar, que tem aquela pureza, que tem aquela coisa, enfim.
Ana Júlia: E eu era desbocada. Eu saí de uma pessoa zero interessada em qualquer tipo de relacionamento pra uma pessoa hiperfocada em me relacionar com todos os seres humanos possíveis à face da Terra.
Marx: Isso foi de uma hora pra outra?
Ana Júlia: É, porque tipo assim, falaram que eu precisava me relacionar. Eu falei: “então estamos na missão”.
(Risos)
Marx: Porque alguém falou, como é que foi?
(Risos)
Deco: “Então se preparem” (risos).
Ana Júlia: “Então se prepare”. Não, é porque falaram que eu precisava gostar de alguém.
Eu falei: “então vamos testar, vamos gostar de alguém”.
Marx: E aí você gostou.
Ana Júlia: Gostei de várias pessoas.
Marx: Você gostou de gostar de um monte de gente.
Ana Júlia: Gostei de gostar de várias pessoas.
Marx: Interessante, quando você tá falando isso aí, a primeira coisa que me vem na cabeça é o tanto que o atraso do desenvolvimento social no autismo, ele é gritante às vezes. E a galera não percebe, né? Tipo assim, 15 anos, um típico com 15 anos, ele tá pipocando, querendo…
Ana Júlia: Tendo filho…
Marx: Passando rodo até na parede. É, a maioria dos héteros tá tendo um filho na adolescência. Não façam isso, usem preservativo, pelo amor de Deus. Se tiver algum adolescente assistindo aí, cuidado. Curta a vida, mas tenha parcimônia, porque a vida é muito longa ainda. Tem muita coisa boa ainda.
Enfim, a primeira coisa que me chamou a atenção é isso, porque pra mim a sexualidade ela despertou um pouquinho mais cedo, né? O interesse, o desejo, ele despertou mais cedo. Uns 12 pra 13 anos, só que eu não conseguia fazer nada com isso, levar isso adiante, conseguir conexão com pessoas. E ficava muito naquele campo do platonicismo. De ficar: “ah, olhei pra pessoa, achei a pessoa bonita, mas não sei o que fazer com aquilo”. Ou às vezes chegava de maneira atabalhoada, a pessoa dava um fora, achava estranho e saía de fininho, enfim. Isso foi a tônica durante muitos anos.
Mas a questão do gênero, a questão de ter que gostar de mulher, sempre foi uma tônica, sempre foi uma coisa… Eu convivi com muitas pessoas que tinham um comportamento homofóbico muito pesado, e que o simples fato de você não ser… Não performar heteronormativamente o tempo todo, se dá qualquer indício de que talvez você seja meio afeminado, ou talvez você seja meio não tão macho assim, eu já virava motivo de piada, e eu ficava irritado com isso, apelava, falava: “não, eu gosto de mulher, eu sou hétero, eu sou hétero, eu sou hétero”. E isso perdurou desde a época da escola até a época da faculdade.
Vocês falaram aí que tem situações que foram pontuais e que tem coisas que foram gradativas, né? Acaba que vocês responderam a segunda pergunta, já junto da primeira, mas eu queria puxar uma outra questão em relação a isso, que é o fato de que, beleza, teve um momento que vocês começaram a perceber que tinha uma coisa diferente. Mas qual foi a experiência que vocês tiveram com a pessoa do mesmo sexo que realmente você bateu o martelo e falou assim: “é, realmente eu sou mesmo”, e que aconteceu de fato? Porque tem aquele bi que ele é, mas ele nunca viveu isso, ele vai passar a vida inteira tendo só experiência hétero. Com vocês aconteceu de que maneira isso?
Deco: Eu acho que pra mim, eu sou uma pessoa que eu sempre soube, eu acho que por isso foi muito nesse sentido que eu guardei muito, eu acho que eu escondi, tentei esconder muito. Então, quando eu me liberto dessas amarras da sociedade, e aí foi na faculdade mesmo, pra mim foi tipo: “ah tá, não é isso, e tá tudo bem”, sabe? Eu acho que pra mim foi bem tipo: “ah não, tá tudo bem”, e me percebi. Só que eu, por exemplo, sou uma pessoa que eu nunca transei com homem ainda, porque pra mim já é difícil transar com mulher, já tem toda uma questão sensorial. Aí, do jeito que Deus não gosta é mais foda, tá ligado?
Marx: Do jeito que Deus não gosta (risos).
Deco: Umas piadas que eu tenho no show. Mas eu, inclusive, abordo sobre isso no show, né? Sobre a insegurança, eu tô fazendo um show agora sobre autismo, e eu abordo sobre sexualidade também, sobre a insegurança que a gente tem, né? Então, pra mim, a percepção, me aceitar foi um trajeto, mas aconteceu, mas o resto ainda, pra mim, é uma construção ainda, sabe?
Marx: E isso é uma coisa que acontece muito.
Deco: É, né?
Marx: Tipo, bissexualidade, onde você nunca teve a experiência com uma pessoa do mesmo sexo nunca. Você tem a atração, você tem o desejo, mas nunca aconteceu. Seja porque não foi pra frente, ou porque tem alguma trava, como você falou.
Deco: Ah, então, pro meu caso, é bem uma trava. Já fiquei com caras e tal, mas realmente ir pro…
Marx: Ah, você já chegou a ficar, né?
Deco: Já, já. Não preciso falar, beijo, mãe (risos). Mas diversas vezes, vamos falar dessa maneira.
Marx: Desde 1900 e não interessa, né? Mas tudo bem.
Deco: Mas não foram tantas assim, foram diversas vezes (risos).
Kaoma: Acho engraçado que, pra mim, me entender enquanto bissexual e ter a primeira experiência foi um gap, assim. Eu tinha 21 anos, eu tava ali mais pra metade do final da faculdade. Eu fiquei, acho que… Essa admiração que eu tenho por mulheres não é só admiração (risos).
Porque antes era muito: “ah, eu gosto de homens e admiro muito mulheres”. “Muito, muito, muito”. “Mas não, sou 100% hétero”. E aí, meu processo, assim, foi… Eu era apaixonada pela minha melhor amiga, desde do ensino médio. E eu não me percebia, porque, tipo, tá.
E aí, quando ela começou a ficar com um cara, eu fiquei, tipo: “nossa, eu tô com muito ciúme. Esse ciúme não é muito normal. O que que tá acontecendo?”. E aí, eu fui e a gente começou a conversar sobre… E acabou que a gente se beijou e eu fiquei: “ah, realmente, sou bi mesmo” (risos). Estamos juntas até hoje (risos).
Deco: Sério? Que da hora. E o cara, coitado.
Kaoma: Ah.
Marx: Uai.
Ana Júlia: Com homem a gente não se preocupa (risos).
Deco: É isso aí, né.
Marx: Seguiu a vida (risos).
Deco: Seguiu a vida.
Ana Júlia: Engraçado, pra mim foi meio o contrário, assim. Ao mesmo tempo que eu estava me descobrindo e tendo muito amor pra doar, para muitas pessoas, eu sempre tive muito mais facilidade de me aproximar de meninas do que de meninos. E eu tinha uma crença muito enraizada de que eu tinha que aceitar qualquer pessoa que ficasse comigo ou que me desse qualquer chance, porque aquilo era o que eu teria.
Deco: Eu tinha isso também.
Ana Júlia: É. Porque eu sofria muito bullying na época da escola, principalmente. Então, eu acabei me colocando em situações muito ruins, principalmente com caras, porque os caras eram meio paias, assim. Mas as meninas não, as meninas eram mais legais.
E aí eu tinha essa proximidade, principalmente com amigas e tal. E igual ela, minha primeira paixonite de verdade, que não era só, tipo, alguém que eu achei legal e tal. A primeira pessoa que eu entendi que eu gostei, de fato, foi a minha melhor amiga da escola. E aí a gente já era melhor amiga na época, há dez anos. Aí quando a gente começou a namorar, de fato, nós éramos melhores amigas há 16 anos. Nós namoramos por quase cinco anos. E aí terminou de uma forma não muito legal.
Mas foi quando eu entendi, de fato, que eu gostava. E aí foi o que eu estava comentando antes. Eu já entendia que eu gostava de garotas e de garotos. Só que nesse momento, eu até cheguei pra minha mãe e falei: “Mãe, eu gosto dessa garota”. E aí o resto desapareceu, assim. E aí foi quando eu entendi que, então, de fato, eu tinha um hiperfoco ali.
Deco: É o amor.
Ana Júlia: É o amor. Só que foi um amor perigoso, digamos assim. Porque aí tudo na minha vida se tornou aquela pessoa.
Deco: Foi uma obsessão, né?
Ana Júlia: Se tornou uma obsessão. E aí até quando nós terminamos, eu ficava repetindo pra mim, tipo: “Então agora eu trabalho pra quê? Eu estudo pra quê? Pra que eu preciso de um diploma? Pra quem que eu vou mostrar isso?”. Eu mostrava pra ela. E aí parecia que não era mais uma questão de gênero. Então era uma questão da pessoa. Aí eu tive que trabalhar isso em processo terapêutico.
E eu só fui entender a questão do 8 e 80, que você falou, em processo terapêutico, depois que eu recebi o diagnóstico de TEA. Porque eu não imaginava que fosse uma questão de rigidez cognitiva. Ter que escolher… Eu tinha uma necessidade de escolher. “Não, de fato agora eu sou hétero”. “Não, de fato agora eu sou lésbica”. Pra mim não existia a possibilidade da bissexualidade como algo válido.
Marx: E isso nos dá um gancho pra falar um pouquinho sobre a nossa bifobia aí de cada dia, né? Porque eu vejo que a bissexualidade é mal interpretada na sociedade. Até mesmo dentro da comunidade LGBT, por as pessoas não entendem que é um espectro. Que não é como se você pudesse escolher: “Ah, hoje eu só quero me apaixonar por mulher”. “Hoje eu só quero me apaixonar por homem”.
As pessoas realmente entenderem que a pessoa bissexual não escolhe por quem ela vai se atrair. Da mesma forma que o hétero não se escolhe por qual mulher ele vai se atrair, ele não vai se atrair por todas as mulheres do mundo. Da mesma forma que o gay e a lésbica não vão se atrair por todas as mulheres, todos os homens do mundo, e sim por pessoas específicas que ele vai ter interesse, a pessoa bissexual vai ter o interesse específico também nas pessoas específicas. “O bissexual é promíscuo, ele sai pegando Deus e o mundo”. Não, isso é bifobia.
Ana Júlia: Vish, hiperfoquei numa aqui, esqueci o resto por cinco anos.
Marx: E essa questão que você falou aí também da obsessão tem muito a ver com a questão da baixa autoestima do autista que sofreu bullying, todos nós aqui já passamos por isso, que é o fato da gente ser tão carente afetivamente, não conseguir criar relações boas desde cedo, que a primeira pessoa dementadora de emoções que aparece na nossa vida, ela vira o centro da nossa vida. Isso é perigosíssimo. Muito, muito perigoso.
E aí pensando nessa questão da bifobia, eu acho que a pergunta de um milhão de dólares tem que ser feita agora. Como sofremos? Como sofrestes? Como sofrereis bifobia na sociedade? Principalmente quem é assumido há mais tempo.
Deco: Eu acho que eu sou o mais abertamente assumido daqui. Eu estou nas redes sociais e falo sobre isso. Mas, para ser sincero, faz muito tempo que eu não sofro nesse sentido. Eu acho que, pelo menos, com o decorrer dos anos, para mim foi se perdendo. Tipo assim, na questão da bifobia em si, né? Porque homofobia se sofre dentro de tudo, né? Porque o bissexual também sofre homofobia.
Marx: Sim.
Deco: Então, a homofobia não parou, não. Está bem contínua. Mas a questão da bifobia, pelo menos as últimas vezes que eu lembro de ter sofrido, foi exatamente dentro da comunidade, foram por outras pessoas LGBTs e tal.
E eu acho que, no caso mais sério, que eu sofri de bifobia, para mim foi a questão que eu estava ficando com o cara. Foi o primeiro cara que eu estava ficando meio sério. Acho que isso também leva ao trauma de eu não me relacionar mais com caras tanto assim. E era muito… Como eu ainda não tinha essas… Não estava confortável ainda de fazer as coisas com ele, a gente estava ficando há duas semanas, era muito, tipo, muito constante ele brincar com os amigos dele de que eu não queria, tipo, diminuir a sexualidade. “Ah, não é de verdade.” “Porque não vai”, ficar nessas coisas.
Então, para mim também foi uma coisa que você até falou. Eu me sinto mais confortável com mulheres também. Porque o homem é muito mais escroto. Então, é muito mais fácil também se relacionar com mulheres (risos).
Kaoma: Tá vendo? Por isso que eu não me importei.
Deco: Então, é meio que isso. Acho que o caso mais sério de bifobia, para mim, foi esse mesmo. Mas também foi de um cara gay. Também foi dentro da comunidade. Não foi de um cara bi, né? (risos).
Kaoma: Acho que o da comunidade dói mais. Porque a gente espera que a sociedade como um todo seja… Nos trate mal. Mas quando é dentro das pessoas que a gente deveria ter apoio, acho que dói um pouco mais. Acho que dói em um ponto muito específico.
Deco: É gente que deveria compreender, né?
Marx: É porque eu vejo que, principalmente no caso quando é homem, é um recalque de querer. Porque esse cara era bi também?
Deco: Ele era gay.
Marx: Então. Geralmente é homem gay mal resolvido que faz isso. Por quê? O recalque de que ele queria gostar de mulher para não precisar ter que se assumir para viver a sexualidade dele. É o gay que não se aceita. O gay homofóbico consigo mesmo e que não consegue engolir o fato do bissexual ter a possibilidade de gostar de mulher que ele não tem.
Ana Júlia: Polêmica!
Marx: É! Agora eu peguei na xinxa de um monte de gente. Sabe por quê? Porque ele acaba sendo bifóbico, homofóbico consigo mesmo e não compreendendo…
Ana Júlia: Misógino.
Marx: É. Porque a homofobia, a bifobia, todas essas fobias que a gente está falando aqui, a origem delas é o machismo. Tudo isso é o machismo estrutural que está por trás, que parte do pressuposto que toda sexualidade que não é do homem dominando a mulher não é válida. Então tem essa questão que infelizmente ela também está impregnada na comunidade LGBTQIAPN+ porque nós fomos criados numa cultura machista. A cultura do nosso país, do nosso planeta. Acho que não tem nenhum país do mundo que não seja, infelizmente.
E aí pensando nisso, e pensando na história de um dos principais nomes da pesquisa na área de sexualidade, que é o Kinsey, que a galera da comunidade, muita gente deve conhecer, que teve uma contribuição enorme nos estudos sobre sexualidade humana no século XX num Estados Unidos extremamente conservador, cristão, xiita, cristão, lá daquela época que era cheio de tabus e tal. Mas também um nome muito controverso por ter sido acusado de pedofilia, de um monte de coisa errada, enfim.
Criou-se um teste, uma escala de avaliação que supostamente avaliaria a sexualidade de alguém baseado nas teorias desse cara. Isso é extremamente controverso, extremamente, muita gente adora, muita gente detesta. Mas essa escala existe, né. Se alguém tiver curiosidade ela está lá na internet para fazer. Eu acho muito engraçado o resultado que ela traz, tem uma tradução muito engraçada.
Ana Júlia: Um negócio meio BuzzFeed.
Marx: Meio BuzzFeed.
Kaoma: Eu confio mais nos resultados do BuzzFeed (risos).
Deco: BuzzFeed é mais certeiro, né.
Marx: Tem uns resultados que falam assim: “heterossexual com frequência, homossexual às vezes”, umas coisas assim.
Ana Júlia: Tipo assim, sou heterossexual durante a semana, mas no final de semana eu vou ali na Roxy (risos).
Marx: Enfim, validação científica meio fraca, né. Mas isso também mostra que muita gente tenta se avaliar para ter certeza se é ou se não é. E isso enquadra o conceito de espectro, né. A gente fala muito sobre o espectro do autismo. O espectro é um conceito onde uma coisa é dinâmica, você está dentro do espectro, você tem características que somadas definem quem você é. A gente é um conjunto de coisas que variam, não é uma coisa fixa, não é 8 ou 80. E na sexualidade também é da mesma forma.
A bissexualidade é um espectro, então muita gente vai ser invalidada, por exemplo, por 80% das pessoas que elas se interessar serem do sexo oposto. E falar: “ah, porque é o bi de carnaval, o bi de balada, o bi de festinha”.
E eu sempre bato nessa tecla, se você sente atração sexual por pessoa do mesmo sexo, além de sentir no sexo oposto, que você já sabia que tinha, se você sentiu atração sexual e isso persistiu ao longo da sua vida, mesmo sendo uma coisa pontual, mesmo sendo uma pessoa ou outra, mas esse desejo foi constante a partir do momento que você despertou a sexualidade, é porque você é bissexual, você tem a sexualidade. E negar isso é negar fato científico, isso é comprovado. E aí, a gente já falou de alguns estereótipos de bissexualidade aqui, quais são os estereótipos da bissexualidade que vocês mais odeiam? Eu já falei alguns aqui que eu detesto, mas deixo pra vocês também.
Deco: Eu acho esse de ter que confirmar carteirinha sempre, né? Tipo, “ah, se você tá no relacionamento hétero, você não é bi, porque você tá no relacionamento hétero”. Porque não existe relacionamento bissexual, né? Ou você vai estar num relacionamento homoafetivo ou num héteroafetivo, você não vai estar num biafetivo.
Marx: Se for um trisal…
Ana Júlia: É, um trisal.
Deco: É verdade. Não, mentira, gente, a sociedade evoluiu bastante. Eu que não acompanhei. Mas agora pode, verdade.
Marx: A galera do poliamor cancelando a gente (risos).
Deco: Mas entre duas pessoas, não dá, entendeu?
Marx: Num relacionamento fechado, né?
Kaoma: Ah, dá. Se a pessoa for…
Deco: Não binária.
Kaoma: Não binária.
Deco: Aí dá, mas…
Kaoma: Você tá se contradizendo.
(Risos)
Deco: Corta!
(Risos)
Kaoma: Tá enrolando corda.
Deco: No final é gente. O ponto é esse, no final é gente, tá ligado? É só gente, gente. É isso. Me perdi agora.
Marx: Ser humano.
Deco: Próxima pessoa, tira isso.
(Risos)
Kaoma: Desculpa, tô brincando (risos).
Ana Júlia: Eu acho que o estereótipo que mais me deixa pé da vida, assim é de achar que quando a gente tá num relacionamento com uma mulher vai ter algo faltando, que seria do cara. E tipo, se eu tô com um cara, vai ter algo faltando, que é da mulher. Como se… No caso da relação sexual mesmo. E tipo assim, não tem nada faltando.
Não é como se… Por mais que a bissexualidade seja um espectro e que eu majoritariamente fique com mulheres, isso não quer dizer que no momento em que eu estiver com uma mulher eu vou estar sentindo falta de estar com um homem. Porque não é assim que funciona. A bissexualidade é uma sexualidade válida e ela é inteira por si só. Então no momento que eu estou com uma pessoa, eu estou com ela. E eu não vou sentir falta de mais nada.
Marx: Você definiu a bissexualidade da melhor maneira aí. Muito bom.
Kaoma: O que eu mais odeio, na verdade, são dois. A que bissexuais vão trair com mais frequência, que eu particularmente acho uma imbecilidade muito grande. E que é só uma fase que a gente vai eventualmente, assim se descobrir de um dos outros lados, assim, extremos, assim. São dois que me irritam profundamente, assim.
(Risos)
Marx: O estereótipo do bi indeciso, né.
Kaoma: Do bi indeciso.
Marx: Um dos mais comuns.
Deco: Nossa, esse da traição é… É estranho porque o pessoal fala: “não, não vamos relacionar com pessoas bissexuais porque ele pode me trair”. Mas, gente, qualquer um pode te trair.
Ana Júlia: Sim.
Deco: Não é… A gente não patenteou ainda.
Ana Júlia: Que engraçado, eu fui traída por uma pessoa que não é bissexual (risos).
Deco: Viu? Nossa. Às vezes você não sabe, mas ela é.
(Risos)
Marx: O que mais trai na face da Terra são os homens héteros, né?
Ana Júlia: Sim.
Kaoma: Os meus relacionamentos sempre foram… Relacionamentos sérios, sempre foram com mulheres. Mulheres lésbicas. E a maior parte das invalidações que eu sofri sempre foram dentro da comunidade.
E a gente ouve muito dentro das rodinhas de mulheres lésbicas que você se relacionar com uma mulher bissexual, essa mulher bissexual, ela vai te trair e vai ser com um homem. Então, isso também foi outra coisa que eu sempre ouvi muito. E a gente tem que ficar constantemente validando pra essa parceira que isso não vai acontecer, que eu não estou sentindo falta de nada. Que eu não estou…
Deco: Você pode trair com mulher também.
Kaoma: É…
(Risos)
Marx: Mas se você for falar isso aí (risos)…
Deco: Eu não preciso trair com um homem. Você não entendeu? (risos).
Kaoma: Não, é que foi assim…
Ana Júlia: O problema é só com o homem.
Deco: É, o problema é só com o homem?
Kaoma: Então, é uma insegurança muito grande. E aí, quando você falou de machismo estrutural, eu lembrei. Ah, era isso. E o machismo estrutural não tá só na cabeça dos homens, né? Ele tá na cabeça das mulheres também. As mulheres reproduzem esse discurso muito.
Marx: E essa coisa de que tá faltando alguma coisa, na verdade, é que eles acham que tá faltando a heteronormatividade. É o fato de ter incrustado dentro da cabeça que a relação de verdade é entre o homem e a mulher. Que a moral cristã ensinou isso, que a cultura ensinou isso, porque isso é a vontade de Deus, etc e tal.
Ana Júlia: E que entre duas mulheres ainda teria que ter alguém representando papel de homem e que se não houver, uma delas vai estar sentindo falta de um homem.
Marx: Quem é o homem da relação, quem é a mulher da relação. E essas coisas, elas são muito baixas. Eu acho baixa, assim.
Marx: O ponto é exatamente não ter um homem na relação, né? (risos)
Ana Júlia: É. Graças a Deus.
Marx: É um machocentrismo eterno, né? Enfim. Algumas curiosidades que eu queria falar aqui, né? A minha irmã, ela é homossexual, ela é casada. E ela sofreu muito com essa questão da invalidação da sexualidade durante um tempo.
E eu fui uma pessoa que na época que ela se assumiu, eu era da igreja. E eu paguei um preço, assim, altíssimo de ser criticado, de ser esculachado por um monte de gente que se dizia povo de Deus, que se dizia portadores do amor de Cristo, que não hesitaram em ficar tacando pedra, no sentido figurado, na minha irmã, de ficar falando um monte de coisas horrorosas. E de ficar tentando me culpar ainda pelo fato dela ter virado sapatão e coisas do tipo.
E eu tenho muito orgulho de ter sido uma das primeiras pessoas que defendeu, que apoiou ela, que enfrentou essa galera de cabeça levantada. E que mesmo, antes de eu descrençar de vez de alguns dogmas religiosos, eu tinha muita convicção de que se realmente Deus existe, se Jesus Cristo realmente é o que diz lá na Bíblia, jamais concordaria de você maltratar uma pessoa só porque a sexualidade dela é gostar de uma pessoa do mesmo sexo. Isso é uma coisa que eu falo com muita paz no coração e sabendo da importância que isso teve também pra que ela conseguisse atingir o objetivo dela também.
Como lidar com esses preconceitos e com essas dificuldades? Hoje eu vejo que numa sociedade preconceituosa como a nossa, a gente tem dois caminhos, que é tentar esconder e viver como se aquilo não existisse. E realmente não falar sobre isso em público e ficar tratando isso como uma coisa estritamente pessoal para não ter que enfrentar certos tipos de coisa.
E pro bissexual, o bissexual tem esse estereótipo de: “ah, pra ele é mais fácil que se ele gostar de mulher e casar com a mulher, então ele não vai ter que se preocupar em ficar escondendo”. Só que na verdade, o sofrimento/incômodo/coisa chata a se enfrentar continua, só que de outras maneiras. Porque muitas vezes a gente vai ser taxado de muita coisa.
E eu acho que preconceito se enfrenta com posicionamento e com convicção. E claro, se você não vai ficar dando espaço na sua vida pra gente que insiste em ser preconceituoso, mesmo você demonstrando que você não tá gostando daquilo, que aquilo tá te machucando, que aquilo é errado, você vai caçar outras companhias. A não ser que você seja obrigado a estar convivendo. Mas assim, você vai procurar por livre e espontânea vontade de conviver com homofóbico, com bifóbico, você tá tipo assim, isso é um masoquismo sem fundamento.
Kaoma: Vai procurar terapia! (risos)
Deco: É, já deixa o contato.
Marx: Eu acho que é sobre aprender a viver também de um jeito mais bem resolvido. E ser bem resolvido eu acho que é uma coisa muito importante nesse caso.
Ana Júlia: Pra além disso, muitas vezes a pessoa não… Quando ela foi criada num contexto muito homofóbico, muito conservador, ela demora a entender que ela está sofrendo preconceito pra ela conseguir reagir a esse preconceito. Então, é muito difícil até a gente falar “se afaste” ou “se defenda”. Às vezes a pessoa não tem nem condição de sair ali daquele meio, se ela se defender a situação vai ficar pior.
Então, às vezes o que a pessoa pode tentar fazer é ter muita convicção de quem ela é. Porque quando a gente tem convicção de quem a gente é, a gente para de depender da validação dos outros. Então, uma parte muito sofrida assim da minha adolescência, até do início da minha vida adulta, é porque eu dependia muito da validação dos outros.
Até, como eu comentei, quando eu terminei o meu relacionamento, eu perdi todo o sentido na minha vida de estar trabalhando, de estar fazendo uma faculdade. Eu parei de construir as coisas que eu estava construindo porque eu dependia daquela pessoa pra sobreviver.
Então, a gente só passa a ter consciência das coisas que estão fazendo mal para gente quando a gente tem consciência de quem a gente é. Para gente poder de alguma forma revidar isso, sair desse lugar. Então, você tem muita consciência de: “não, olha, eu sou uma pessoa esforçada, sou uma pessoa trabalhadora, eu tenho essa, essa, essa qualidade, eu não permito que falem assim comigo. Eu vou trabalhar pra me retirar desse lugar, não vou ficar esperando que me tirem daqui”. Então, eu acho que isso é muito importante também.
Deco: Eu acho que não é nem só a consciência, é o orgulho de ser quem você é, né?
Kaoma: Sim.
Deco: Porque você saber é uma coisa, mas você saber e ser feliz com isso, se amar, eu ia falar “apesar disso”, mas é foda, né? “Apesar”, mas se amar com isso, sendo desse jeito, se aceitar, pra mim foi o passo principal, para realmente não se importar com o resto, sabe?
Marx: Sair do armário faz a gente ser obrigado a parar de depender da aprovação das pessoas. Você tocou num ponto principal aí, porque a partir do momento que ninguém paga as suas contas e que você não depende da aprovação de ninguém, você pode ser quem você é, sem culpa.
Por fim, falando um pouquinho sobre a comunidade do autismo, pra gente não esquecer também sobre um aspecto importante aqui, que é sobre a visão que a comunidade do autismo tem sobre esse assunto ser muito espinhosa ainda, os pais de autistas aí que um dia vão virar adultos, a sexualidade deles existe, eles não vão ser crianças para sempre, eles não são anjinhos azuis, tem autistas homossexuais, bissexuais, transexuais, e eles são tão autistas quanto qualquer autista.
E não adianta vocês ficarem negando isso, vocês ficarem querendo jogar pra debaixo do tapete, não querer olhar pra isso de frente, de maneira séria, de maneira respeitosa, porque nós vamos continuar existindo, nós vamos continuar fazendo parte da comunidade também. E é importante, porque para além do preconceito que a própria sociedade já tem pela sexualidade, tem o preconceito do capacitismo, então é um preconceito duplo. Então, o suporte para lidar com isso também acaba sendo maior.
E nós temos o dever de defender o respeito e o acolhimento às pessoas, e que as famílias realmente entendam que a sexualidade faz parte também do desenvolvimento do autista, do desenvolvimento atípico, inclusive atrasos do desenvolvimento da sexualidade, que acontece com muita frequência, como foi falado aqui também, que tá relacionado com o transtorno também.
Então faz parte. Aceitem, acolham, estudem, procurem saber mais. E pros autistas adultos que são LGBT, não tem nada de errado contigo, você não tem que viver se culpando por ser quem você é, simplesmente procure se conhecer melhor, e saiba que tem muita gente igual a você por aí também.
[Vinheta de encerramento]
Marx: Em comemoração ao mês da conscientização LGBTQIAPN+…
Tiago: Conscientização LGBT?
Marx: Puta… Aaaaaah! Minha cabeça não tá funcionando mais. É o orgulho, né?
Tiago: É o orgulho.
[Beep]
Marx: Nós vamos ter a honra de receber um convidado especial aqui hoje, o senhor Deco Machado.
Deco: Eu sou especial porque eu sou autista? Brincadeira.
[Beep]
Deco: Oi gente, eu sou o Deco, eu sou publicitário pra seguir aqui a ordem das profissões, e eu sou…
[Som de barulho de alarme]
Deco: E é assim que autistas sofrem com o barulho.
[Beep]
Marx: Aí você vai ter trabalho pra editar, né?
Tiago: Não, quem vai editar é o Adriano, né? Coitado.
Marx: Coitado.
Deco: Beijo, Adriano.
[Beep]

