Introvertendo 305 – Autistas Lésbicas

Das mais femininas às caminhoneiras, também existem interfaces entre muitas mulheres autistas e a experiência lésbica, pouco discutida na comunidade do autismo. Neste episódio, que dá continuidade à nossa série no mês do Orgulho LGBTQIAPN+, Izabella Pavetits recebe Andy Gabe e Caroline Dourado para falar sobre a aceitação dessa identidade, relações amorosas entre mulheres e a influência do autismo em tudo isso.

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Transcrição do episódio

Izabella: Oi, pessoal, meu nome é Izabella. Esse é o segundo episódio da nossa série especial sobre o mês do Orgulho LGBTQIA+ e a comunidade autista. Eu queria muito que eles fossem lançados na ordem da sigla, mas infelizmente os gays não quiseram esperar. Então, hoje nós vamos falar sobre autistas lésbicas. E para discutir esse tema, estão aqui comigo…

Caroline: Oi, pessoal, meu nome é Caroline, tenho 25 anos, sou autista, médica, mãe de gato e lésbica. Estou bem feliz de estar aqui para ter essa conversa com vocês hoje.

Andy: Oi gente, eu sou a Andy, tenho 27 anos, sou autista também, obviamente. É a segunda vez que estou participando do Introvertendo. A primeira vez foi no episódio sobre disfunção executiva, número 214, se vocês quiserem ouvir. E é muito bom estar aqui hoje de novo.

Izabella: Se você quiser acompanhar a gente nas redes sociais, nós estamos no Instagram, Facebook, X e TikTok. É tudo @introvertendo. Estamos também no nosso site, www.introvertendo.com.br. Para você que está assistindo esse episódio no YouTube, eu queria te convidar para se inscrever no canal do NAIA Autismo.

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[Vinheta de abertura]

Izabella: Muitas pesquisas científicas, inclusive alguns links que estão aqui na nossa descrição, têm estudado essa relação entre a pessoa ser autista e ela ter uma sexualidade dentro da comunidade LGBT. Entre os motivos apontados nessas pesquisas, tem, por exemplo, o fato de que autistas têm mais tendência a não se importarem tanto com regras sociais. Por isso, eles experimentam mais, eles refletem sobre o que faria ou não sentido, ao contrário de neurotípicos que podem só seguir a norma.

Mas, de qualquer forma, é um assunto que está sendo muito estudado, inclusive no Brasil as pesquisas estão começando, mas vale lembrar que realmente tem algo aí para ser prestado atenção. E no caso de vocês, como vocês se descobriram lésbicas?

Andy: Desde criança, eu sempre soube que eu gostava de mulher, eu não sabia, na verdade, eu não sabia nem que podia, né? Eu pensava assim: “Não, deve estar errado isso”, até porque eu cresci na igreja e tal. Mas, sempre tive essa consciência, só que por muitos anos eu achava que eu era bi.

E aí, na pandemia, eu estava quase casada com um homem (risos). E aí, a convivência me fez perceber que, na verdade, eu não gosto tanto assim, e que era mais por esse padrão imposto mesmo que eu tentava me encaixar nessa coisa de, tipo: “Não, eu posso até gostar de mulher, mas eu acho que eu tenho que casar com homem”. Só que aí, tipo, eu percebi que não.

E aí, foi todo um processo até eu entender que eu era, de fato, uma pessoa lésbica. Porque existe a heterossexualidade compulsória, né? Que é aquele negócio que a sociedade espera que você seja uma mulher feminina, que case com um homem masculino. E isso tudo entra na nossa cabeça e vai criando uma norma, assim, que não necessariamente é certa, né? É isso, basicamente. Não tem muito tempo que eu me entendo como uma pessoa lésbica. 

Izabella: E você foi diagnosticada com autismo quando? 

Andy: Com 18 anos.

Izabella: Com 18 anos, e estava no meio desse processo?

Andy: É.

Izabella: E o que foi mais difícil pra você conseguir entender, aceitar, entre aspas, gigantescas, que você é autista ou que você é lésbica?

Andy: Definitivamente que eu sou autista.

Izabella: É? Por quê?

Andy: Porque… tipo assim, eu sempre quebrei muito esses padrões. Tanto padrões visuais de gênero, porque eu nunca fui uma pessoa muito feminina, quanto padrões de sexualidade. Como eu sempre soube que eu gostava de meninas, tipo, isso não era uma questão pra mim. Foi mais difícil aceitar que eu não era neurotípica. Porque pra mim, o autismo era uma questão muito mais complexa. Porque eu cresci vendo somente aquele autista menino, nível 2 de suporte, ou nível 3. Então, eu ficava assim… “Não, mas não faz sentido eu ser, porque eu não sou igual a eles”, né?

Izabella: E você, Carol, como foi o seu processo de descoberta da sexualidade?

Caroline: Eu acho que a pandemia foi um evento fatídico na nossa geração. Porque muitas coisas se convergem nesse tempo.

Andy: Várias descobertas. 

Caroline: Várias descobertas. Eu acho, assim, que a questão da sexualidade pra mim, até a adolescência até os meus 17, 18 anos, não era algo que eu me importava tanto. Até meus 16, pra ser justa. Eu não ligava muito pra essas questões, né? Eu demorei muito. Eu era bem infantilizada, talvez até pela questão do autismo, né? Então, eu demorei muito a surgir esse tipo de interesse.

Na época que eu comecei a ter algum interesse afetivo sexual por pessoas era mais uma questão de pertencimento. Eu queria, porque os meus amigos estavam, né? E, na verdade, eu também me relacionei com um homem por quatro anos porque ele era o meu amigo e tudo e eu queria desesperadamente ter experiências porque todo mundo estava tendo. Mas eu já sabia que eu sentia alguma coisa diferente ali por mulheres.

E eu ainda tenho o meu padrão, que é de mulheres mais velhas. Porque a primeira vez que eu percebi que eu gostava de mulher foi com uma colega de fã clube de Star Wars, que era 15 anos mais velha que eu. E não teve nada, foi totalmente platônico, né? Eu continuei esse namoro. E aí, durante a pandemia, eu achava que eu era bi também. “Mas assim, eu sou hétero? Não, eu sou bi”. E aí, chegou num ponto que eu falei: “Não, eu sou lésbica”. Por essa questão da heterossexualidade compulsória. E me descobrir autista e descobrir lésbica foi mais ou menos na mesma época, né?

Em relação ao autismo, eu trato do transtorno de ansiedade há muito tempo. Desde a adolescência, assim, dos meus 12, 13 anos. E não fazia muito sentido pra mim que não me tivesse melhorado ainda, né? Então, comecei a fazer um acompanhamento com uma psiquiatra. Fiz alguns testes, outros diagnósticos comumente dado a mulheres que têm quadros elevados de ansiedade, depressão, tipo transtorno afetivo bipolar, foram levantados, mas eu não cumpria nenhum critério. Eu nunca tive episódio de mania, nada.

E eu mesma estudando, né? Eu tava na metade da faculdade, tive que trancar o curso porque foi um período de saúde mental um pouco complicado. E ali, eu não lembro o ano, por volta de 2021, 2022. Foi no mesmo tempo que eu descobri que eu me assumi. Porque pra mim também nunca fez muito sentido eu só me assumir quando estivesse com alguém.

Então, quando eu falei assim “sou lésbica”, terminei meu namoro com meu ex. Eu já falei pra todo mundo “ah, sou lésbica”. “Você tá com alguém?” “Não, só porque eu quero dizer que eu sou lésbica”, né? E aí, eu estudando um pouco sobre autismo em mulheres, eu consegui entender, né? E trouxe essa questão pra minha psiquiatra, que ela já tava levantando, só que ainda não tinha falado comigo sobre isso. E aí, fiz todo um processo de investigação, e quando chegou no diagnóstico, eu falei: “realmente faz muito sentido”.

Então, pra mim, foi dois processos muito libertadores, porque eu acho que eu consegui, a partir daí, me desenvolver muito bem como pessoa. Bem melhor, né? Então, entender toda aquela sensação de sentir uma alienígena, que eu acho que vinha tanto pela questão de ser autista no mundo neurotípico, quanto de ser uma mulher lésbica num mundo heteronormativo.

Então, isso se convergiu ali, né? Foi logo nesse período da pandemia, por isso que eu brinco, foi um barco na geração, assim, né? Então, a partir daí, eu sinto que a minha vida foi se abrindo mais, e eu fui descobrindo mais sobre como eu sou, os meus limites, as minhas potências, e se realmente viver sendo quem eu sou de verdade, né? E não me mascarando por trás de uma heteronormatividade e de uma performance de uma pessoa neurotípica. Foi uma dupla saída do armário, vamos dizer assim.

Andy: É sobre isso, é muito doido, porque, como eu falei, eu tive o diagnóstico com 18 anos, né? Mas eu só aceitei que eu era autista na pandemia, por isso que foi muito mais fácil aceitar que eu era lésbica. Mas, tipo, meio que foi essa saída dupla do armário também de eu aceitar as duas coisas juntas.

E eu sinto muito que a minha sexualidade, ela tá de mãos dadas com o meu diagnóstico, porque eu pensei assim: “Ah, se eu já tô ‘mudando’ isso aqui, se eu tô deixando as pessoas saberem que eu sou autista, então já deixa eu aproveitar e deixa todo mundo saber que eu sou sapatão”, entendeu? (risos).

Izabella: No momento de sair do armário, que é difícil, tanto do armário quanto do autismo, ele costuma ser complicado. Vocês tiveram apoio de pessoas próximas, familiares? Como é que foi esses processos? 

Andy: Cara, em relação à sexualidade, eu acho que não surpreendeu ninguém. Absolutamente ninguém. Porque eu sempre fui tomboy, né? Sempre, tipo, eu criança, andava de bermudão, camisa do Homem Aranha, jogando bola com os moleques da rua.

Mas em questão do autismo, foi bem complexo, porque muita gente não aceitou como eu não aceitei. Mas assim, da minha família foi, tipo assim… A minha mãe mesmo, ela fala: “Nossa, realmente, né? Como é que a gente nunca viu isso?”. Mas eu perdi algumas pessoas que não aceitaram tanto o autismo quanto a sexualidade. E sinceramente, não fazem falta nenhum hoje em dia (risos).

Caroline: É, também acho que é muito engraçada essa questão de falar: “Sempre fui tomboy”, porque eu fui um pouco, mas nem tanto. Eu era menina que tinha hiperfoco em Barbie, cheguei a ter 120 Barbies, não é?

Andy: Eu sou assim hoje em dia.

Caroline: É, e aí… Mesmo assim, é igual aquele meme extremamente masculino, sabe? Porque mesmo parecendo uma princesa, eu ainda tinha um jeitinho. E na verdade foi…

Andy: Um cheiro amadeirado (risos).

Caroline: Um cheiro, um olhar amadeirado, né, aquela coisa. E aí, também, por ter outras pessoas LGBT na minha família, mais velhas, inclusive, quando assim que eu me assumi minha mãe até falou: “Ah, desde criança que eu converso isso com tal pessoa da família”. Eu não vou falar qual é o parentesco, porque eu não sei se a pessoa tá fora do armário ou não, né. Eu não vou tirar meu parente do armário, assim.

“Mas eu conversei com tal pessoa, e aí essa pessoa falava que desde criança já sabia”. Meu pai não aceitou muito no começo, mas depois ele viu que não ia poder fazer muito, né. Mas no geral, a reação da minha família foi: “Nossa, finalmente! Nós não sabíamos o que você estava fazendo com aquele cara”.

(Risos)

Caroline: “Mas que bom que você agora percebeu, né, que não era”. Em relação ao autismo, no início eu deixei bem guardado uma informação que ainda, para algumas pessoas, eu não revelo. Agora todo mundo vai saber.

Andy: Agora você vai sair do armário!

Caroline: É mais pra uma questão de que eu não gosto de estar me justificando e eu não gosto de estar performando. E eu, uma pessoa que depois do meu diagnóstico, eu me desenvolvi muito. Então, eu me tornei uma pessoa mais sociável, mais saída, consigo ter um nível de independência muito bom. Eu trabalho, viajo sozinha, faço muitas coisas.

Então, às vezes, assim, olhando por fora, a pessoa vai olhar e falar: “Não, essa aí…”. Inclusive, teve esses comentários durante a faculdade, né. Eu ouvi muitas fofocas, chegaram no meu ouvido. Eu acho engraçado, né, porque ninguém chega e conta pra gente. É tão lindo a sinceridade das pessoas neurotípicas, me comove. Aí, ninguém nunca chegou pra mim e falou assim… “Ah, porque eu não acho…” Não, sempre assim: “Porque vocês estão falando que você tá fingindo que tem…” 

Andy: Estão falando que você tem autismo (risos).

Caroline: Estão falando que não é, que você tá usando isso de muleta e justificativa. Tipo assim, eu tranquei, porque eu tava mal na cabeça na época. Eu tinha bombado uma… Foi mais pra questão burocrática. Eu precisava repetir uma matéria, aí a minha bolsa não cobria o meu regime especial de acompanhamento, que eu precisava fazer. E aí, pra me fazer ela, eu tinha que trancar um tempo e pegar só ela. E acabou que eu aproveitei pra descansar a cabeça, né, a saúde mental.

E aí, já começou aquela fofoca, né, assim, de: “meu Deus do céu, que drama que essa garota tá fazendo”. E nem era. Então, às vezes eu mantenho um pouco pra mim, o local de trabalho. Mas se alguém perguntar, eu não vou sentir de falar. E foi muito legal, porque depois do meu diagnóstico alguns amigos meus de infância também, dois amigos… Duas amigas minhas de infância receberam o diagnóstico, né. Então, assim…

Andy: Clássico.

Caroline: Clássico, um autista atrai o outro, assim, né. A gente anda em bando, igual capivara.

(Risos)

Caroline: Aí, foi bem legal. Então, das pessoas que realmente significam algo pra mim, vamos dizer assim que a gente vai aprendendo isso com o tempo, eu tive um acolhimento, sim. É claro que eu acho que até hoje, acho que o ruim de ser uma pessoa… Talvez autista, talvez LGBT nas duas partes, principalmente quando você é uma mulher lésbica, que é cheia de estereótipos terríveis.

Isso é um outro fator que eu não falei na pergunta anterior, né. Acho que muito da gente não se entender como lésbica vem daquilo que a gente passa a vida escutando, né. Que a lésbica é aquela mulher… Não que tenha algum problema você querer ser caminhoneira. Você é linda, amo as “desfem”, “buts”, bofinhas, caminhoneiras.

Andy: Meu coração!

Caroline: Amo! Mas assim, a gente, pelo menos eu, cresci ouvindo que toda lésbica era aquela mulher feia, masculinizada, grosseira, nos modos. Que bebia, que gostava de arruaça. Não que isso seja ruim. Mas isso era colocado como uma contraposição ao que deveria ser uma mulher feminina, elegante.

E até mesmo eu, eu me olhava, assim, por ser uma mulher mais feminina. E eu falava: “poxa, mas como que eu posso ser?” Sendo que eu sou toda, né, assim… Não parecia. E aí, ao mesmo tempo, parece que eu tinha vergonha de me identificar com o mesmo… de estar nesse mesmo grupo. Porque foi tão mostrado pra mim várias vezes que a lésbica é uma mulher estranha, ela é uma mulher…

Andy: Brutal.

Caroline: Brutal, né. E aí, exatamente, a palavra é isso, é uma mulher brutal. E eu ficava com medo de me identificar. E hoje, eu adoro falar que eu sou sapatão, que… A gente também tá nesse grupo que bom, que é um grupo tão diverso de mulheres que podem ser como elas quiserem e amar outras mulheres independente de quais mulheres essas sejam, sabe? 

Andy: Eu acho muito irônico esse padrão que as pessoas impõem, assim. De falar: “ah, não, porque a caminhoneira, ela é grosseira e não sei o quê”. Gente, as pessoas mais fofinhas, as sapatonas mais fofas que eu conheço são as caminhoneiras. Elas chegam, assim, com uma marra e falam: “oi, tudo bom?” Sabe? Sempre uns amores, eu não entendo isso de onde tiraram essa ideia.

Caroline: Geralmente, quem chega junto e é mais agressiva nos flertes, nas coisas, somos nós, as mais…

Andy: As mais garotinhas. 

Caroline: As mais garotinhas são as piores ou melhores, depende daquilo que você quiser, né. Às vezes, é o melhor.

Andy: Eu acho que esse ponto da agressividade pra você deve pegar um pouco mais por você ser uma mulher preta, né. Porque também tem essa visão de que as mulheres pretas são mais agressivas. Aí você juntou tudo… Então, nossa, ela deve ser um monstro, ela deve ser uma pessoa horrível.

Caroline: Vem aquelas mil piadas de você carimbou o bingo, né. Então, você é uma pessoa PCD, você é uma pessoa…

Andy: Autista, LGBT. 

Caroline: Autista, você é uma pessoa preta. Muito bom, parabéns. É o bingo da cota, né. Então assim, nossa… E também foi isso…

Andy: O bingo da cota é muito bom. 

Caroline: O bingo da cota. Nossa, já ouvi, já fiz… Assim, eu entro nas piadas, gente, eu não tenho problema. Mas eu já fiz essa piada, né.

Andy: A gente pode!

Caroline: Só faltou você ser de alguma minoria religiosa. Ou uma minoria étnica, assim, específica, né. Eu ia gritar bingo, assim, né. Que é muito bom, né, tudo. Mas assim, eu acolho todas as minhas características como graça, como benção. Eu gosto muito de ser quem eu sou, então. Eu penso que não sou eu que tô esquisita por ser quem eu sou. É o mundo que está errado de não abraçar toda a diversidade de pessoas que existem.

Andy: É que neurotípico é um bicho meio estranho, né. Se você não segue ali aquele padrão dele, visual ou mental, aí você que é estranho. Só que se você parar pra pensar, mano, a galera se comunica, assim, com olhares. Como é que eu entendo que a pessoa tá falando de olhar pra mim? Não é assim que funciona. Quem que é estranho aqui? Sou eu que tô falando todas as coisas que eu tô pensando ou você que tá esperando que eu leia a sua mente?

Izabella: É, e assim, existem muitos estereótipos sobre absolutamente tudo. Aí vai ter o estereótipo de como o hétero deve se comportar. E você não sabe da sua sexualidade, aí você meio que se obriga a agir de determinada forma. E depois, você entende a sua sexualidade, de repente descobre que é lésbica.

E você já tem também essa outra cobrança. “Ah, não, mas o estereótipo da lésbica é X, e eu sou Y”. Então, talvez eu tenha que também me “adequar” para encaixar na comunidade. É isso de precisar mascarar de alguma forma já chegou a ser uma questão pra vocês?

Caroline: Muito forte!

Andy: Nossa Senhora!

Caroline: Inclusive, eu já ouvi muito isso, porque é uma coisa de lésbicos mais femininas é que sempre acaba que a gente tem que chegar nas meninas, né. Na maioria das vezes, porque, enfim, a gente não dá tanta pinta. E aí, eu sempre reclamava isso com os meus amigos, né.

Andy: Se eu te visse num rolê, eu não ia chegar. Eu ia achar que você era hétero.

Caroline: Então, aí meus amigos brincam assim. “Rapa o cabelo do lado”. Eu falo: “não, tipo…”

Andy: Põe o anel de côco, amiga, pelo menos.

Caroline: Aí, tipo assim, falam assim “Rapa o cabelo do lado”. Eu falo: “gente, eu nunca pintei o meu cabelo”. Eu corto o meu com o mesmo corte de cabelo há anos. Eu pintei ele do mesmo jeito, todos os dias. Aí você acha mesmo que eu vou raspar a lateral do meu cabelo com essa rigidez cognitiva que eu tenho de não querer mudar meu cabelo? O que a gente vê que não é um padrão entre autistas, né. Eu tenho uma certa rigidez com aparência, eu uso as mesmas roupas. Eu tenho vários pares de tênis que são iguais, eu tenho muito isso, assim.

Andy: Você é muito autista.

Caroline: É, nesse ponto eu sou bem autista. Aí… É muito engraçado você se mascarar. E eu acho também que pensando em comportamento, a gente acaba… O que eu noto, que já teve esses dois movimentos em mim. Que é o de tentar… Eu acho que esse é um movimento que toda lésbica acontece no meio lésbico no geral, que é tentar trazer padrões heteronormativos de relações pra dentro do relacionamento lésbico.

Andy: Sempre perguntam né: “Ai, quem é o homem da relação?” Se tivesse um homem da relação, não seria uma relação lésbica. 

Caroline: E aí também, o padrão de vou tocar o foda-se já que eu não vejo sentido, e vou tentar construir uma relação mais genuína. Que eu acho que tá sendo o maior desafio pra mim, nesse momento inclusive. É de encontrar abertura para tentar relações que esperem menos papéis e mais fluidez, no sentido de você poder ser realmente como é. E você descobrirá junto com a pessoa como vai funcionar aquilo. E não seguir um papel, tipo: “tem que ser assim, tem que ser assim”.

Andy: Complexo. 

Caroline: É.

Andy: Bem complexo (risos). Pra mim, é uma experiência meio canônica no meio das lésbicas desfem, que já é meio oposto do que você falou. Mas toda lésbica de desfem, toda lésbica desfem tem um momento de pensar assim: “E se eu for um homem trans?”. E essa é a nossa forma de mascarar. Não necessariamente apelando para essa feminilidade, mas o extremo oposto, né. De pensar: “Não, talvez eu seja assim, mais masculina. Porque talvez eu seja um homem”. E eu tive esse momento na minha vida.

Eu usei nome social em várias coisas. As pessoas me tratavam exclusivamente no masculino. E aí, eu fui percebendo que não, não era exatamente o que eu queria. Tipo assim, eu queria que as pessoas não vissem um gênero quando elas olhassem pra mim, na real. E eu achava que eu queria que me vissem de uma forma masculina porque as pessoas aceitam mais fácil você se dizer um homem trans do que você se dizer uma lésbica desfem. E eu não sei porquê, mas… É mais difícil as pessoas aceitarem que você não vai performar essa feminilidade do que aceitar que você simplesmente é homem, sabe?

Izabella: Agora você mencionou desfem, mais cedo você e a Carol falaram sobre tomboy. O que são esses termos?

Andy: Ah, eu vou pedir ajuda dos universitários, porque eu sei mas eu não sei explicar (risos), Carol.

Caroline: Basicamente, são termos quase que sinônimos. Se eu estiver errada, depois alguém nos comentários me corrija. Mas acredito que são termos sinônimos, né, Andy? Você é basicamente uma mulher que não performa a feminilidade clássica. Ela vai preferir se expressar de uma forma tradicionalmente considerada masculina, né. Então assim, às vezes um corte de cabelo curto, roupas mais masculinas, né. Então, é mais uma questão de estilo, de… 

Andy: Performar. 

Caroline: De performar.

Andy: Enquanto que você espera que uma mulher… Quando você pensa assim, uma mulher, você imagina uma pessoa de cabelo longo de roupas femininas, vestidos e tal.

Andy: Maquiagem. 

Caroline: Às vezes com maquiagem, né. Às vezes um jeito, um trejeito de agir um pouco mais delicado. Apesar que, igual a gente falou, geralmente desfem são as mais fofinhas as mais princesas no seu jeito de agir, assim. E uma mulher desfem, uma mulher tomboy, ela vai ser mais… Performar a masculinidade. Inclusive, existem muitas meninas que nem são lésbicas, mas que são tomboys.

Andy: Sim, verdade.

Caroline: Tem muitas meninas que são. Então assim, é mais sobre a performance mesmo do que…

Andy: Não necessariamente sobre gênero.

Caroline: É sobre performance visual. Sobre o estilo, vamos dizer assim.

Izabella: Ah, entendi. Legal. E tem mais algum outro termo que vocês acham que seria legal explicar?

Andy: Ih, tantos, muitos! 

Izabella: Então, cada uma escolhe um.

Caroline: Até hoje, eu descobri exatamente o termo pra mim. Porque eu sou bem feminina, mas eu não acho que eu sou super feminina, assim.

Andy: Eu acho que você é sapatilha. –

Caroline: Sapatilha.

Caroline: Sapatilha. Eu já vi o termo “paty”.

Andy: Paty. Mas “paty” eu acho que é meio genérico. 

Caroline: É, meio… Tá, tem… Já vi “femme” também, mas acho que é mais na gringa. Que usa muito o termo “butch” e “femme”, né, esse contraste. Que a “butch” seria a desfem pra gente. A “femme” seria essa sapatilha, sapapaty. Que é aquela mulher que performa bem feminilidade. É porque às vezes eu não me acho… Eu sou feminina, mas eu não me acho tão. Por exemplo, unha, eu não gosto de fazer unha, eu não gosto de usar salto.

Andy: Eu gosto muito da Wesley Sapadrão. 

Caroline: Wesley Sapadrão. Que é aquela mulher que tem o cabelão liso, né. Uma franjona assim, no lado. 

Andy: Camisa xadrez.

Caroline: Camisa tal, com o nosso querido Wesley Safadão do Velho Testamento, né, quando ele fazia relaxamento capilar. Tem… Não sei como é que é o termo pra sapa, mas chilelé. Mas, né… Às vezes eu me identifico um pouco com essa.

Andy: Sapa vegana?

Caroline: Sapa vegana. Eu não sou vegana, mas eu me identifico um pouco com essa.

Andy: Que toca violão, que gosta de shimbalaiê, entendeu?

Caroline: Gosta de shimbalaiê, gosta de uma meditação, né.

(Risos)

Caroline: Tem… Nossa, tem muito, né. Assim, o que mais? Tem a sapatleta, né.

Geralmente mulheres lésbicas têm uma relação muito próxima com esporte. Que não é o meu caso, porque eu sou péssima em tudo que propor esporte. 

Andy: Dá pra fazer um dicionário de tipo de lésbica.

Caroline: Dá, tem muitos, né. 

Andy: A sapartista. – Eu sou meio sapartista.

Caroline: Exatamente. Tem… Ah, tem infinita, gente. É igual a Barbie, né. Pode ser o que você quiser.

(Risos)

Izabella: Aí, gente, tá vendo?

Caroline: Crie o seu próprio termo de lésbica. Se você não se identificar com nenhum desses, né.

Izabella: Tá vendo? É um universo muito amplo. Se você quiser saber mais, você vai pesquisar. Porque ninguém é obrigado a te ensinar, beleza?

(Risos)

Andy: Aí tem nós, que é a sapautista.

Caroline: Tem a sapautista, exatamente.

Andy: A sapautista é um sabor diferenciado, né. 

Caroline: Exatamente.

Izabella: Isso é bom. O bom é que eu falo isso logo depois que eu pedir pra vocês me explicarem. Muito legal, né.

(Risos)

Izabella: A cara nem treme, enfim. E vocês serem autistas influencia de que maneira como vocês vivenciam a própria sexualidade?

Andy: A minha experiência é que eu tenho fobia social. Então, eu tenho medo de mulher bonita. Não chego em ninguém, vou morrer solteira. E é isso (risos). Essa é a parte que influencia, né.

Caroline: É, eu acho que esse é o tópico sensível. Eu ia falar, né. 

Andy: A parte de socializar, assim. Que não tem, entendeu? 

Caroline: Aí, junto o fato de que… Não dá pra ver que eu sou lésbica, aí eu fico assim, né, no canto. Aí acabam os subterfúgios, né. Você toma umas duas caipirinhas. Aí desenrola a língua, aí você começa a falar, né. É outro tópico profundo pra falar em outro podcast, né. Se vocês quiserem chamar sobre autismo e uso de substâncias para socialização.

Mas, nossa, influencia muito mesmo. Até a questão de conhecer alguém e abrir a rotina pra essa pessoa, né. Eu acho que isso é uma das coisas que mais me pega. E a comunicação também me pega muito.

Andy: Nossa, é muito difícil.

Caroline: E é fundamental, né. Pra você manter um relacionamento. Se você não tiver um canal de comunicação bom, não funciona, não tem como.

Andy: Então, aí você tá querendo conhecer a pessoa, e a pessoa quer conversar. Mas pô, eu não quero conversar! A gente não pode só pular essa parte? Mas aí, como é que você conhece a pessoa sem conversar, sabe?

Caroline: Comigo é o contrário. Eu gosto de saber… Eu não sei se é porque minha mente funciona por base de perguntas e respostas. Mas eu gosto muito de saber da pessoa. E aí, às vezes eu fico querendo perguntar até demais. Porque às vezes eu quero entender aquela pessoa ali no sentido de que eu não quero joguinhos. Tipo, se a pessoa fica fazendo a linha… Nossa, eu ia usar uma gíria gay muito antiga. Eu ia falar “fazendo a pêssega”, né.

Andy: Nossa! Coitada da Izabella.

Caroline: Gente, eu fui criada com parente gay velho. Então assim, né, o parente gay velho me ensinou muitas coisas. Mais velho, porque se ele ver esse podcast e falar que eu tô chamando ele de velho ele vai brigar comigo. Mas enfim…

Então, às vezes a pessoa fica ali fazendo a misteriosa, vamos dizer assim. Eu não entendo, então eu gosto de saber. E às vezes eu pergunto direto, tipo assim… “Você gosta de gato?” Essa é exclusão, né, igual entrevista de emprego. Acaba que às vezes meu date vira uma entrevista. Porque a pessoa não vai me contar, e eu quero saber. Porque se a pessoa não me contar, eu não vou perceber.

Andy: Mas aí, você tem as manhas de fazer as perguntas, né. Eu não sei o que conversar.

Caroline: Não, a manha, eu pergunto quase como a anamnese médica, sabe?

Andy: Então, mas eu não tenho nem a anamnese, eu não sei o que falar com a pessoa. Eu não sei manter um diálogo.

Caroline: Aí, eu mando memes. Eu mando muitos memes.

Andy: É o seu flerte, mandar memes.

Caroline: É o meu flerte. Mas assim, depende muito. Já fui em dates mesmo que eu não conversei praticamente nada com a pessoa, sabe. Porque a pessoa não me fez me sentir à vontade. E já teve dates com pessoas que eu me senti extremamente à vontade. E superflui também.

E é algo que eu não escondo, quando eu tô saindo com alguém eu já conto logo, pra pessoa não me achar esquisita e fugir. Eu já falo logo. E também porque a pessoa tem que saber, né. Ela tem que saber onde ela tá indo. Se a pessoa… Se for um problema, eu sinto muito. E eu não vou ficar com alguém que acha que isso é um problema. Então, eu já falo logo: “Olha, eu sou autista”.

Até porque, por exemplo, você vai marcar um date. Se a pessoa não tiver o planejamento de saber que eu sou autista, que eu preciso planejar mentalmente pra isso, não vai rolar. Porque às vezes pode ser que depois de um tempo de intimidade, eu até aceite sair de última hora. Mas a pessoa já me conhece, ela já sabe. Então, ela não vai… Funciona, eu consegui. Eu também vou me abrindo aos poucos, vou me flexibilizando.

Mas no primeiro, se é a primeira vez que você vai sair a pessoa me chamar do nada. Tipo, se eu tô aqui, vai mandar mensagem no meu celular agora. “Ah, vai, vamos tomar uma cerveja, vamos pra algum lugar”. Eu vou falar: “Gente, mas eu não tomei banho”. Aí eu não fiz meu ritual de banho de date que eu tenho. Meu ritual de banho de date. Aí eu não tô com o perfume que eu gosto de usar quando eu vou sair com alguém. Aí eu não pensei na roupa que eu ia usar. Mas ela não me falou onde a gente vai. Eu não olhei o cardápio de onde a gente vai pra ver se tem coisas que eu gosto de comer. Aí eu já vou estar desesperada, não vai rolar. Eu vou falar: “Ah, hoje não, tô cansada”. É isso.

Andy: Justo.

Izabella: Você tá melhor, pelo menos. Com o tempo, você disse que considera aceitar o convite em cima da hora. Eu não aceito convite em cima da hora de ninguém.

Caroline: É, depende do período do mês, né, do ciclo.

Andy: Do saldo da conta bancária.

Caroline: Do saldo da conta… Depende do período do ciclo que a gente tá. Se estiver ovulando, a gente aceita, como muitas coisas.

(Risos)

Caroline: E também o saldo da conta bancária, né. Então, assim, o nível de conta, eu trabalhei no dia também, tem isso. Tem dia que eu… 

Andy: A bateria social.

Caroline: Tem dia que eu chego em casa e não quero falar nem com a minha mãe. Eu só quero morgar e me fundir à minha cama. Mas eu gosto, até eu gosto de me relacionar. Só que é meio difícil, né. Eu não sei, tem hora que eu gosto, tem hora que eu penso que eu deveria ter ido pro convento.

(Risos)

Caroline: Não sei, mas provavelmente não. Porque eu gosto de me relacionar. No fundo, eu gosto. Só é difícil.

Izabella: E você, Andy? Como é que você lida com isso? Tem alguma estratégia para contornar as suas dificuldades do autismo?

Andy: Então, a minha estratégia volta naquele tópico do episódio proibido, que é… Eu bebo! Eu bebo muito, até eu conseguir conversar com alguém. Mas eu gostei do que você falou, que depende do período e tal, se estiver no período fértil. Porque eu sou demi. Então não importa o período fértil. Eu tenho que ter uma conexão, eu tenho que ter pelo menos três dates antes de pensar em ter algo a mais com a pessoa, sabe. É bem complexo.

Gente, então, demi não é fã da Demi Lovato, é demissexual. Que é uma classificação dentro da sexualidade que uma pessoa, pra ela ter relações com outra, ela precisa de uma certa conexão afetiva. Então não sou a pessoa do sexo casual, basicamente.

Caroline: Em relação a essa questão, eu já me identifiquei como demi. Mas na verdade, é porque eu achava que eu gostava de homem, né. Depois que eu descobri que eu gostava de mulher… Nossa, eu tive uma fase que eu acho que minha mãe ficou maluca comigo. Porque todo final de semana eu tava saindo com uma pessoa diferente.

Andy: Nossa, eu não consigo nunca! Eu sou fiel a ficante!

Caroline: Ah não, é um pouco. Eu sou uma pessoa que eu me emociono. Mas mesmo apaixonada por outra pessoa, eu consigo ficar com outras. Isso não me faz infiel, eu sou bem sincera e justa, né. Combinados são combinados. Mas enfim, a questão é que sexo me regula muito.

Andy: Caralho!

Caroline: Me regula muito.

Andy: Mas e a questão sensorial?

Caroline: Eu acho maravilhoso.

Andy: Porque pra mim é um pesadelo.

Caroline: Eu adoro sentir o peso da pessoa em cima de mim.

Andy: Ô louco.

Caroline: Me regula muito. Então assim… E não é tipo, autoestímulo, usar alguma coisa sozinha. Não, é com alguém. Porque eu gosto do cheiro, eu gosto do aperto. Eu gosto do peso, sabe? Eu sei que pra muitos autistas vai ter a questão de muitos estímulos. Mas acaba que pra mim é um estímulo que me regula. Igual, sei lá, entrar debaixo de uma mantinha ponderada, sabe?

Andy: Eu acho que o equivalente disso, pra mim, é ouvir metal. Porque para alguns autistas é: “meu Deus, tem muita informação”. E pra mim é: “meu Deus, tem muita informação”.

Caroline: E aí, acaba que pelo cansaço da rotina, obviamente com o tempo você vai envelhecendo também, você vai ficando um pouco mais seletiva com as suas relações, né. Porque não é porque você tá transando, nem todo sexo vai ser bom. Por mais que estatisticamente, mulheres lésbicas têm uma vida sexual mais satisfatória que mulheres que não se relacionam com mulheres, não significa que toda vez vai ser bom.

Até porque realmente, como se tá, pelo menos pra mim por conta da previsibilidade do autismo eu prefiro muito estar com uma pessoa que eu já conheça. Que eu já tenha intimidade, que eu não tenha que corresponder a uma expectativa que eu não sei qual é. Que eu tenha abertura para dizer o que eu gosto, o que eu não gosto. Pra ir no meu ritmo.

Então, é infinitamente melhor estar com alguém que eu já conheça que não necessariamente eu tenha uma conexão emocional, que eu esteja apaixonada. Mas com alguém que eu conheça e que eu me sinta à vontade. Que eu tenha essa intimidade, entendeu? Mas hoje em dia, eu não sou mais disso porque eu sou uma senhora cansada que trabalha muito.

Andy: Senhora, ela tem 25 anos, cara.

Caroline: Eu tô passando por uma fase de jovem senhora agora.

Andy: Crise de meia idade.

Caroline: Nossa, de querer ficar mais em casa.

Izabella: Eu aqui com 31 anos, agora tô colocando minha maquiagem de o quê? Palhaça. Ela com 25, falando que tá velha (risos).

Andy: Não, mas eu não sei. Eu tô beirando os 30 já.

Caroline: Eu acho que é mais uma questão de cansaço mesmo.

Izabella: Mas eu achei muito interessante essa sua fala, porque… É outro mito que existe em relação ao autismo. Que a gente não tem sexualidade, não tem desejo, não…

Andy: Não, somos anjinhos azuis. 

Caroline: Anjinhos azuis.

Izabella: Exatamente. Então, é bom que já… É um testemunho que prova aqui para o pessoal que não é bem assim, não.

Andy: Muito pelo contrário. Eu já conheci autistas que têm hiperfoco em sexo, né. Então, não é porque existe esse estereótipo na cabeça das pessoas que todos os autistas vão ser assim. É um espectro, bicho. Não tem como você medir pela régua do outro, sabe.

Izabella: Sim, exatamente. 

Andy: Porque agora que ela falou eu tô pensando que talvez essa minha questão da demossexualidade ela esteja muito atrelada à rigidez. Porque é uma pessoa que já me conhece, é uma pessoa que sabe como eu funciono. Sabe o que vai me agradar. Tipo, não posso chegar com qualquer pessoa… Porque a pessoa não vai saber como que as coisas funcionam pra mim. Não quer dizer necessariamente que eu não gosto. Eu gosto, mas eu preciso que as coisas funcionem do meu jeito (risos). 

Caroline: E realmente, assim, eu não consigo me identificar como demissexual. Mas com certeza estar com alguém que eu já conheço…

Andy: É diferente, né. 

Caroline: É muito bom, é infinitamente melhor. E aí, entra em outras questões, até o lugar, se você é num lugar que você conhece. Tudo isso pra mim influencia muito, sabe.

Andy: Nossa, eu tenho um problema muito grande com motel, véi. Muito, porque cada um é de um jeito.

Caroline: Eu acho meio nojentinho.

Andy: Então, eu não sei como é a limpeza do lugar. E aí, tem muitas coisas que aconteceram ali, eu não… Eu gosto da minha casa.

Caroline: Antes de começar o podcast, estava falando que eu sou uma pessoa supersticiosa, né. Eu não sei se tem outros autistas supersticiosos, mas eu sou um pouco. Aí eu tenho um pouquinho, assim, desse rolê. Será que tem energias carregadas aí? Não sei.

Adny: Com certeza, um tanto de coisa que acontece nesses quartos. Pelo amor de Deus. 

Caroline: Deus me livre.

Andy: Eu gosto do meu espaço, eu gosto do meu quarto, da minha cama. Entendeu? É isso.

Izabella: E vocês já se relacionaram alguma vez com outra autista?

Andy: Sempre. 

Izabella: É? Como é que foi?

Caroline: Não, já diagnosticada, não sei.

Izabella: É. Como é que foi a experiência? 

Caroline: Não, que tenha.

Andy: Pra mim, tipo assim, a pessoa em questão, ela não tem diagnóstico. Mas eu tenho certeza absoluta, e todo mundo ao meu redor também. E eu percebo que eu tenho esse padrão de relacionamento com pessoas neurodivergentes, mas principalmente autistas, porque eu não tenho paciência pra neurotípico. E neurotípico não tem paciência pra mim.

Então, eu tenho muitas manias, eu tenho muitas questões que uma pessoa que não tá nesse ciclo de neurodivergência vai entender. Então, essa questão da rigidez mesmo, eu tenho que me programar pra um date, eu não posso simplesmente sair. E pra mim, eu não consigo me ver num relacionamento com uma pessoa neurotípica, jamais. Porque eu preciso de todos esses acertos, vamos dizer assim, que uma pessoa autista me proporciona.

Caroline: Eu nunca saí com alguém diagnosticado também, né. Mas assim, pra falar a verdade, no momento eu tô meio fechada. Agora que eu tô me abrindo de novo para me relacionar com pessoas no geral, né. Tive um período aí meio de celibato nos últimos meses aí, que eu fiquei mais na minha.

Mas eu achei interessante isso que você trouxe, assim. Eu nunca tive, pra falar assim, a experiência de alguém autista. Eu acho que não, eu nunca tive. Talvez seja melhor, talvez seja isso que falta pra mim fluir melhor. Talvez me abrir para outras meninas autistas, né.

Izabella: Apesar de nunca ter tido a relação com uma mulher autista você mencionou que uma das suas estratégias é falar logo no início que você é autista. Qual foi o resultado dessa estratégia?

Caroline: Tem gente que me bloqueou na hora, já aconteceu isso uma vez. Que eu levei um ghosting assim, enorme. A maioria vai dizer no começo que não tem muito problema. Mas depois, quando você precisar… Quando ela fala assim: “nossa, ela é autista mesmo, hein”. Aí vai começar a ser um problema, né. E inclusive, no único relacionamento sério que eu tive com uma mulher eu tinha acabado de receber, assim, o diagnóstico. Eu engatei no relacionamento.

Andy: Corajosa né.

Caroline: Não acabou, mas já tinha um tempo, né, assim, do diagnóstico. Eu ainda tava me organizando. E aí, foi bem difícil, porque eu ainda não estava terapeutizada, né. Assim, então, já tem quase quatro anos isso, né. Desde agora, de quando tive esse relacionamento que foi o meu último relacionamento sério com alguém até agora, nesse presente momento eu passei por mil processos de amadurecimento de terapias, desenvolvimento, de coisas que eu melhorei. Que eram coisas que eu sempre coloco o parâmetro é aquilo que me incomoda e me atrapalha, e não o outro, né. Então, eu melhorei pontos em mim que eu achava que me atrapalhava.

Então, tinha muitas coisas que eram do autismo que eu… Nossa, era sempre uma pegação no meu pé, assim. Ou, de novo, essa questão de me adaptar à linguagem. Eu acho que o mais difícil é isso. Tipo assim, eu sou muito direta, dá pra perceber, né. Extremamente direta. Então, se eu tô chateada, eu vou chegar e falar: “não gostei disso por conta disso, disso, disso, daquilo”. Ou se eu vejo que tem algum problema na relação eu não vou querer ficar enrolando, eu quero resolver logo. Ainda mais se eu gostar da pessoa, eu vou querer resolver para que a relação continue.

Então, às vezes rola alguma coisa com um ficante ou com alguém e aí eu vou chegar e vou falar, tipo: “olha, não gostei disso, disso”. “Eu acho que a gente tá com problema nessa área, tal”. E vocês podem perceber que tá um pouco frio, né. Parece que eu tô querendo consertar algo que tá quebrado, literalmente. Mas na minha mente, funciona assim. Então, eu acho que a comunicação… Nossa, é muito difícil pra mim, é a parte mais complicada.

Andy: Então, você já chega falando pra quebrar esse mito, assim. “Ai, eu vou falar mesmo”.

Caroline:  Nossa, não é questão de nem quebrar o mito. Eu acho que é uma forma de autopreservação também. Então, assim… Porque quando eu tô com alguém, realmente se for alguma coisa só, às vezes eu vou até mascarar. Talvez seja uma coisa que não vai render. E foda-se, né. É a forma que eu lido. Talvez não seja a mais saudável, mas é a forma que eu consigo lidar até agora.

Mas se for alguém que eu realmente tenho interesse que é alguém que eu realmente tô gostando se eu ver, assim, que é alguém que eu vou, quero desenvolver um interesse maior, eu vou querer falar logo, porque a pessoa também… Se ela achar que lidar com uma pessoa autista não é pra ela…

Andy: Se é melhor pra você que ela não esteja na sua vida, né.

Caroline: Se ela achar que ela não vai conseguir me acolher… Também não pode ser um esforço só do lado da outra pessoa também, né. Tem que buscar… Eu acho que mesmo sendo autista, tendo minhas dificuldades se eu quiser que isso funcione, eu também tenho que fazer a minha parte de às vezes melhorar uma coisa ali, ou outra, dentro do meu limite, obviamente, né. Mas se eu sentir que a pessoa não tá também com o coração aberto a me acolher, a entender as minhas particularidades… Eu ia falar dificuldades, mas particularidades acho que encaixa melhor mesmo. Eu também prefiro que a pessoa nem entre na minha vida. 

Andy: Então, isso é uma parte interessante de você se relacionar com uma outra pessoa autista. Porque muitas vezes, uma coisa que acontece comigo, até entre os amigos é que eles percebem quando eu tô ficando sobrecarregada e me tiram do lugar, sabe? E tipo, uma pessoa autista, ela vai entender quando você não tá num bom momento, quando você tá precisando ficar sozinha quando você tá precisando de apoio, de alguma forma.

E eu acho que tem uma facilidade de se adaptar às suas questões, sabe, do que um neurotípico teria. Porque você falou do negócio do block, aí eu fiquei lembrando, né. Que assim que eu recebi meu diagnóstico eu estava me relacionando com uma menina. E aí, eu cheguei pra ela e falei: “olha, o psiquiatra falou que eu sou autista”. Aí ela disse: “não”. Aí eu: “ué, como assim não?” Ela: “não, você não é”.

Caroline: Você é psiquiatra, por acaso? (risos)

Izabella: Puts, vou ter que voltar lá, falar com o psiquiatra. Que droga!

Andy: Ai, deixa eu rasgar aqui meu laudo rapidão. E tipo assim, ela não aceitou de forma nenhuma. E eu fiquei tentando, tipo, meio que contornar a situação. Falando: “olha, não sou eu que tô falando, aqui o laudo”. E ela simplesmente me bloqueou. Tipo, sem nada, ela me bloqueou.

E aí, eu fiquei “pô, mano, será que eu tô fazendo alguma coisa errada por ter dito pra ela que eu sou autista?” Mas hoje em dia, eu também tenho meio essa abordagem de já chegar: “oi, eu sou autista, tá legal? Eu sou assim, você vai querer lidar com isso aqui ou não?”

Caroline: Exatamente.

Andy: E isso facilitou muito as minhas relações.

Caroline: Uma vez eu fiz o seguinte experimento social que foi colocar no Tinder, na descrição do Tinder.

Andy: Ai, eu coloco sempre!

Caroline: Que você é autista, e você não colocar. Eu quis saber a diferença, tipo… Eu notei que quando eu não colocava, tinha mais interação, mais like. E aí, eu notei que quando eu colocava… Diminuía muito, assim. Não é que eu não… Eu acho que você tem que esconder, ou que você tem que colocar. Você faz o que você ficar mais à vontade, né. Mas eu fiz, porque eu fiquei curiosa. Eu queria muito saber.

Andy: Eu nunca fiz o teste de não colocar, eu sempre coloco. Porque eu não tenho paciência, sabe? Eu acho que é a coisa que eu mais tô falando aqui hoje. É que eu não tenho paciência. Gente, eu sou muito poucas ideias. Mas eu percebo que os likes que eu recebo são majoritariamente de outras pessoas autistas (risos).

Caroline: Aí, eu também falo que quando eu usava Tinder, né… Eu também ficava olhando, lembro de ver gente… Fala, dá um like, fala “pô, vai ser massa, troca”, né. Mas nunca tive um match, tudo bem, triste.

Andy: Acontece às vezes.

Caroline: Às vezes, eles devem achar que o meu perfil é um perfil de uma mulher hétero perdida lá no meio, né. Também tem isso, triste. Mas enfim, sobre relacionamentos, uma coisa que pesa muito e a questão de, às vezes, me relacionar com pessoas neurotípicas é o medo de ser um peso na vida da pessoa. Eu tenho muito esse medo. E às vezes, eu saboto potenciais relacionamentos que iam ser bons porque eu fico com medo de estar atrapalhando a vida da pessoa.

E aí, eu acabo usando subterfúgios em outras coisas da minha vida. E aí, acaba que a minha profissão entra muito nisso. Porque eu sempre tento me justificar, às vezes, quando eu tô com alguém e eu fico sentindo que eu vou ser um peso pra pessoa. Tipo assim: “ah, eu sou autista, mas eu sou médica. Olha aqui, eu consigo trabalhar, eu consigo ganhar dinheiro. Eu vou ganhar bem, eu vou conseguir te dar uma vida legal”. Vamos dizer assim, não que eu queira… Mas tipo assim, eu vou conseguir ter um padrão legal de vida.

Eu consigo trabalhar, então eu não vou depender de você pra isso. Vamos dizer assim, né. Eu não vou depender de você. Nesse ponto, eu não dependo de você. Eu consigo ter minha independência financeira, ponto. “Ah, mas eu sou autista, mas eu consigo cozinhar e administrar a minha própria alimentação da casa”. Aí, às vezes, eu até falo, quando eu conheço alguém. “Ai, quando eu casar, eu quero cozinhar pela minha família”. Isso é fofo, eu quero fazer isso mesmo. Mas às vezes, eu sinto que eu tô usando isso como algo pra justificar do tipo, eu não sou um peso.

Andy: Eu valho a pena pra essa vida. 

Caroline: Eu valho a pena! Eu sou autista, eu não vou atrapalhar, eu vou acrescentar algo na sua vida. Eu não vou virar um peso, eu não vou te atrapalhar. Eu vou te acrescentar. Nossa, e eu não sei… Desejo, mas eu sempre tive vontade, foi muito engraçado. Quando eu me relacionava com homem, eu tinha zero vontade de ter família. Aí, depois que eu percebi que eu queria fazer isso sim, mas com uma mulher, aí, eu já tenho vontade de ter uma família, tenho vontade de ter filhos, tudo. E aí, eu fico morrendo de medo de, no futuro eu virar um peso pra minha futura esposa, sabe? 

Izabella: Mas esse medo é uma coisa que veio de você, ou alguém… Alguma vez te comentou algo? 

Caroline: De mim. Não, é de mim. Porque às vezes assim, eu tô aprendendo a me virar, né. Então, eu tenho o meu suporte em casa. Mas eu estou aprendendo a me virar. E eu me acho até uma pessoa que se vira bem, vamos dizer assim, né. Mas até mesmo dentro de casa, às vezes eu me sinto com medo de estar sendo um peso. De não estar contribuindo.

Andy: A gente tá precisando levar esse papo pra terapia, porque eu nunca tinha pensado sobre isso. Mas aí, você falando, tipo, as coisas que você não precisa de suporte eu comecei a pensar nas coisas que eu preciso de suporte.

Porque dentro de casa, eu preciso de um suporte substancial, assim. Principalmente na questão da alimentação, eu não sei cozinhar. Eu sou um terror na cozinha, e eu tenho muita… muita alergia alimentar. Então, isso é uma questão que agora vai ficar na minha cabeça. Obrigada por ter alugado um triplex.

Caroline: A única coisa que eu dou conta, assim, que eu consigo administrar bem numa casa é cozinha, porque é um dos meus hiperfocos (risos). Eu adoro cozinha, então é um dos meus hiperfocos. Eu adoro cozinhar, então eu consigo administrar até bem. Mas eu fico morrendo de medo, assim, de não… de virar um peso.

Izabella: Esse receio de virar um peso na vida das pessoas eu acho que ele acontece, infelizmente, em diferentes tipos de relacionamento. Não necessariamente só o amoroso.

Mas eu tento pensar, pelo menos, que se a pessoa gosta de você, ela quer estar com você, ela vai querer cuidar de você. Você não vai ser um peso pra ela, né. Eu não sei, é bom que todo mundo busque estratégias pra gente tirar, né. Essa ideia de que: “ai, eu tô dando trabalho, ninguém vai querer me escutar”. Se você tá se relacionando com a pessoa, tenta pensar que ela gosta… Idealmente, ela gosta de você, ela vai querer cuidar de você. Você não vai estar atrapalhando ela. 

Caroline:  Eu lembrei de um meme, assim, que faz assim… “Critérios para namorar comigo, gostar de mim, opcional” (risos). Deus me livre, gente. Credo, não.

Andy: Mas faz sentido isso, porque pelo menos eu, quando eu gosto de alguém eu faço de tudo pra deixar essa pessoa mais confortável. Então, se a pessoa precisa de suporte em alguma coisa e eu consigo dar esse suporte, eu vou fazer isso. Então, eu acho que é esperado que a pessoa que você se relaciona… Se relaciona, também faça isso por você, né. 

Caroline: Eu acho que é mais uma questão… Pode ser que outros autistas compartilhem dessa questão, né. Às vezes tem muito isso, tipo assim… Quem vai querer colocar algo na sua vida pra deixar ela mais pesada, mais cansativa?

E aí, eu acho que eu sou uma pessoa que eu tento resolver muitos dos meus próprios suportes e às vezes dá muito errado, né, porque é um suporte, você precisa. Nossa… Quando eu li a pauta, sobre relacionamentos eu falei: “cara, eu preciso compartilhar isso”. Porque eu acredito que tem mais gente aí que deva ter isso. 

Andy: Mas você já parou pra pensar que talvez esse teu medo seja porque você acha que você tem que se comportar de uma certa forma e tipo, depender de alguém pra você é meio que falhar? Porque você tá pensando numa ótica neurotípica de que você não precisa de suporte, sendo que você precisa. Você é autista!

Caroline: Isso é algo que eu tô se construindo em mim, assim. Porque pra mim, é muito difícil pedir suporte. Eu sou aquela pessoa que… Eu tenho os meus suportes. Mas… Às vezes, suportes que eu nem percebi que são suportes, eu tenho. Mas pra mim, pedir alguma coisa…

Andy: E aí, você acha que pedir pra pessoa que você tá se relacionando…

Caroline: Eu tô incomodando. 

Andy: Entendi.

Caroline: Então assim, isso em tudo. Por exemplo, na minha profissão mesmo, eu… Às vezes, trabalho mais do que eu deveria, por exemplo. Então, eu já fiz, tipo assim, 24 horas seguidas de plantão. Deveria? Não.

Andy: Deus é mais!

Caroline: Nunca. Mas eu fico me sentindo menos que outros profissionais da mesma área por não fazer. Eu sou autista, mas eu não vou atrapalhar a equipe. Eu sou autista, mas eu não vou atrapalhar o relacionamento.

Andy: Porque eu queria saber qual é a parte mais difícil no seu trabalho das pessoas aceitarem, se é a sua sexualidade ou o autismo.

Caroline: A questão é que no meu trabalho atualmente aqui são duas coisas que eu demoro a falar.

Andy: Hum…

Caroline: Que antes eu falava abertamente. Inclusive, durante meus estágios da faculdade, vários professores, né, assim… E é muito curioso, porque a maioria eram professores que não eram da área médica, eram professores de outra área, super me elogiavam, porque eu usava cordão de identificação, tudo.

Mas acho que a partir do momento que eu deixei de ser estudante para virar médica, para virar responsável pelo rolê eu me dei uma retraída de falar que eu sou autista. Porque eu fico com medo assim: “poxa, se eu falar que eu sou autista e minha equipe não confiar em mim?”.

Então, às vezes eu prefiro conquistar… Agora vai todo mundo saber, né, agora não tem mais… Então, eu prefiro às vezes conquistar a confiança da equipe primeiro para depois falar. E aí, entra a questão do suporte. Porque às vezes eu não vou pedir suporte, vou tentar me virar. Porque eu não vou me sentir confortável de falar, né.

E a questão da sexualidade não é que eu escondo, eu só não chego falando. Mas se alguém perguntar, eu vou falar, entendeu? É mais que no trabalho, eu tento manter minha vida pessoal, mas pra mim, né. 

Izabella: É uma boa estratégia. Muito obrigada, Andy. Obrigada, Carol, por terem topado

vir participar desse episódio. Agora eu vou deixar um espaço pra vocês darem um recado final.

Andy: Meu recado final é me sigam no Instagram. Eu quero bater cinco mil seguidores este ano ainda (risos). @autieartista. Eu falo sobre autismo, falo sobre sexualidade, gênero. E eu mostro um pouco da minha rotina sendo estudante universitária aqui em Goiás, que não é a minha cidade, né. Então, me sigam lá, é isso.

Caroline: E meu recado final é sigam a Andy êh!

(Risos)

Caroline:Eu tenho um Instagram aberto, é @_douradocarol. Não posto coisas assim… Antes eu postava, não posto mais coisas específicas, nada. Eu falava da minha rotina quando eu estava na faculdade. Agora, eu quase não posto nada. Mas se quiserem trocar ideia, bater papo, falar de experiências autistas, enfim, tá aberto lá. Eu agradeço pelo espaço e dizer que eu adoro ser sapatão.

Andy: Sapatão não é uma palavra feia.

Caroline: Não é uma palavra feia. E eu adoro ser uma sapatão autista. E eu amo ser uma mulher que ama outras mulheres. É isso.

Izabella: Perfeito. A gente se vê semana que vem pra mais um episódio do nosso especial sobre o mês do orgulho LGBTQIA+.

[Vinheta de encerramento]

Izabella: – Qual que é o seu equivalente presencial para mandar memes?

Caroline: Mostrar foto da minha gata.

Izabella: Gosto.

Caroline: E o meu decote. 

(Risos)

Caroline: É tipo assim, quando todas as tentativas de flerte acabaram, você dá uma escoradinha em cima da mesa. Mas enfim, se quiserem cortar essa parte, tá, gente? Eu me deixei passar. Às vezes eu me deixo passar.

*

Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Izabella Pavetits e Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian