Para pessoas que podem se cobrar muito ou foram extremamente cobradas pela sociedade diante de suas dificuldades, conseguir êxito em algumas coisas são pequenas vitórias a serem celebradas. Neste episódio, Gustavo Borges e João Victor Ramos recebem Alyce Suza e Rodrigo Salvatore, ambos autistas, para falar sobre esses acontecimentos, crenças envolvidas e quais são essas pequenas vitórias para se comemorar.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, um podcast onde um pequeno passo para um homem é um grande salto para um autista. E hoje, para poder falar das pequenas vitórias da vida de cada um, estão aqui comigo:
Rodrigo: Olá, eu sou o Rodrigo, eu sou administrador, eu coleciono muitas derrotas e também grandes vitórias, apesar do tema ser pequenas vitórias.
Alyce: Olá, eu sou a Alyce, eu sou especialista em cybersegurança e como jovem pessoa, eu ainda estou aprendendo a viver e aprendendo a como colecionar vitórias e não se cobrar quando a gente erra também.
João Victor: Olá a todos, sou o João Victor Ramos, escritor, poeta, e antes de vir para cá, já foi comunicado de um grande fracasso meu. Mas quem liga? Bora falar das pequenas vitórias hoje. É sobre isso e tá tudo errado, digo, certo…
Gustavo: Eu sugiro para você que está nos ouvindo pelo YouTube, já se inscreva no canal e deixe aqui nos comentários qual foi sua menor derrota e sua maior vitória. Ou o contrário, o que você preferir. Lembrando que você também, além do YouTube, pode nos acompanhar pelo Instagram, pelo Facebook, pelo antigo Twitter, pelo TikTok e através do nosso site introvertendo.com.br. O Introvertendo é um podcast produzido pelo NAIA Autismo.
[Vinheta de abertura]
Gustavo: Eu tenho certeza que durante a infância e adolescência foi muito difícil metrificar as próprias vitórias perante a sociedade, os neurotípicos e tudo mais. Então, por favor, me contem o momento que vocês conseguiram entender enquanto pessoa autista ou enquanto pessoa que era diferente das outras e ainda não tinha conseguido o laudo que uma vitória, mesmo que pequena, era uma vitória e valia para vocês.
Rodrigo: Quando eu estava no ensino fundamental e no ensino médio, é natural que todos nós nos sentimos sempre muito diferentes dos demais. Mas sempre quando eu tinha algum trabalho artístico, seja qual fosse, eu conseguia me destacar de alguma forma. E aquilo me fazia me sentir bem, não pelo fato de que… Pra eu aparecer, pra eu me mostrar, mas pra validar que eu fazia sentido onde eu existia.
Porque é natural a gente mudar um comportamento nosso. Eu acho que a gente cresce, na verdade, sem saber quem somos, porque a gente tá sempre fazendo um masking ali. E o único lugar onde eu sabia que eu era eu era quando tinha algum trabalho artístico. Não que eu fosse o melhor do mundo, mas a minha criatividade se manifesta de maneiras muito incríveis ali. Então eu me sentia muito feliz, eu me sentia humano.
Alyce: Da minha parte, eu fui diagnosticada tardiamente.
Gustavo: Acho que todos nós.
Rodrigo: Todos.
Gustavo: Um clássico dos anos 90.
Alyce: Eu fui muito deslocada por muito tempo e eu ainda me cobro muito. Ainda é uma luta muito constante entender o que é pequenas vitórias. Porque eu falo que eu queria dominar o mundo em 24 horas, mas eu não consigo, entendeu? Então pequenas vitórias, elas vêm… Sempre eu tenho que ficar conscientemente lembrando, sabe? Tipo, olha, parabéns, você conseguiu isso.
Porque normalmente eu me cobro que fica: “Ah, mas deveria ter feito de outra forma. Deveria ter feito melhor, deveria estar melhor”. Porque a gente às vezes se martiriza muito com isso. Então acho que o processo de comemorar pequenas vitórias, ele dá constância. Pra gente não ficar só o tempo todo querendo o total, o sucesso, o melhor. Então pequenas vitórias às vezes podem ser: “Olha, você conseguiu entregar e viver esse dia. Parabéns”. “Olha, você conseguiu fazer essa tarefa que era difícil. Ah, mas não foi perfeito. Mas parabéns, você fez, você conseguiu dentro das suas limitações”.
Porque é muito complexo quando a gente vai olhar que a gente interpreta o mundo e é muito mais difícil tentar se comparar aos outros e eu muito tempo fiz isso. Eu, por muito tempo, quis ir contra a roda. Eu quis me culpar e me encaixar em outra realidade. E aí, eu queria ser melhor até mesmo que uma pessoa que é neurotípica, né?
Gustavo: Sim, a gente tem uma grande dificuldade até de aceitar as vitórias. Até as vitórias parecem derrotas. “Nossa, você tirou nove e meio na prova da escola. Mas era pra ter sido dez”.
Alyce: O que eu faltava pra faltar aquele… O que eu errei? Nossa, eu passei nisso e tirei isso. Nossa, mas eu podia ter feito melhor. Ai, mas eu não gostei.
Gustavo: É, a própria questão do autista ter dificuldade com tons de cinza e gradações é tudo ou melhor ou pior. Parece que é muito difícil a gente aceitar que tá bom.
Alyce: Isso.
Gustavo: Conseguiu, deu certo. Passou de ano, conseguiu emprego, entregou as demandas que tinha que entregar no dia. Olha, no mundo aí, ó. Olha a gente querendo a grandeza.
Alyce: Dominar o mundo inteiro em 24 horas.
João Victor: E essa autocobrança, às vezes, em muitos casos, suponho, vai do próprio indivíduo independente da questão externa. Meus pais nunca exigiram que eu fosse o número um da sala. Mas eu sempre exigi isso de mim mesmo desde pequeno. E quando eu não lograva êxito, como foi na maioria dos anos, a frustração vinha, tomava de conta.
Quando vinha um aluno que… Um colega aluno que tirava nota melhor em matemática do que eu, quando eu o ajudei a tirar essa nota melhor e eu tirei a nota menor, eu fiquei tipo: “Hã? Como assim? A conta literalmente não está batendo”. Nossa. Mas para além de vitórias escolares, eu comecei a sair sozinho de casa e ter alguma autonomia mínima, só com 22 anos.
Rodrigo: Vocês já foram ao cinema sozinho?
João Victor: Só uma vez.
Alyce: Eu não.
João Victor: Só uma vez.
Rodrigo: É mágico. Juro pra você. Pra mim foi uma vitória.
Alyce: Eu acho que as pequenas vitórias que a gente pode contar, não só quando a gente conquista algo que a gente queria. Mas eu tô fazendo recentemente um processo inverso, né? Sempre quis ser a melhor em muito tempo e agora eu tô tentando me acalmar. Porque… E entender o meu processo. Porque não dá pra ser boa em tudo e a cobrança é acima, entendeu?
Então eu ando fazendo muito o processo inverso. É “Nossa, tá tudo bem”. E é igual ele falou, às vezes a nossa cobrança não é externa. Eu, por exemplo, não tenho uma cobrança externa. Não é ninguém falando que eu tenho que ser. Mas é eu querendo ser, entendeu? Eu precisei fazer essa questão inversa. Entender que às vezes acontece. “Olha, eu consegui trabalhar muito bem, mas eu deixei a casa desarrumada”.
E tá tudo bem, eu não consegui arrumar a casa. E “Nossa, eu consegui fazer essa”. Eu faço mestrado hoje. Eu consegui ir pro mestrado, mas eu tenho muita dificuldade, por exemplo, para dirigir o carro. E eu peguei um carro e aí eu quero dirigir esse carro e eu tenho que ir de carro pra faculdade. E o ato de ir…
Gustavo: E a UFG é longe.
Alyce: E a UFG é longe. E eu vou de carro… E o processo de ir de carro e voltar de carro é mais difícil pra mim do que o próprio estudo. Então, é entender que parabéns, eu consegui pelo menos levar o carro. E a última vez que eu levei, o GPS voltou no meio do caminho. Aí eu tava voltando.
Aí eu saí do carro e falei assim: “Meu Deus, eu consigo trabalhar, eu consigo fazer tudo, mas eu não consigo levar um carro. Ah, não!” E eu queria muito desistir, mas eu não desisti porque não tinha ninguém pra me socorrer. Eu tinha que voltar porque eu tinha aula, entendeu? Aí eu fui e eu consegui. E pra mim foi isso, sabe? Tipo, “Nossa, parabéns, eu consegui levar o carro!”. E é muito estímulo, mas eu consegui levar o carro.
Então, reconhecer essas pequenas coisas que parecem e passam despercebidas, mas que dão constância na nossa vida. Porque se a gente ficar só esperando acontecer uma coisa incrível pra nos validar, a gente esquece que às vezes essa coisa incrível que a gente desejava no passado, ela às vezes a gente já conquistou e a gente nem comemorou. Porque agora a gente tá querendo outra coisa incrível. E aí a gente quer outra coisa incrível de novo. E aí você já aumentou o seu patamar e nem lembrou que há 10 anos atrás você queria estar na metade do que você tá hoje.
Rodrigo: A gente se cobra muito, né? Porque a gente já vive numa sociedade que tá sempre ali cobrando, todo mundo se cobrando ao mesmo tempo, e uma sociedade imediatista. E as pequenas vitórias que eu tenho, por exemplo, diariamente, é quando eu estudo todos os dias, porque eu tenho um objetivo, que é passar em um concurso público. Então, quando eu consigo me organizar e mesmo que eu não consiga estudar 20% do que eu havia colocado para estudar naquele dia, todos os dias eu tô colocando um tijolinho ali.
Eu sei que isso é falado lá fora, que a gente é ensinado a fazer isso, mas para pessoas como nós, a gente se cobra com a intensidade maior, aquilo que faz com que a gente, a doença vai parar na cama e etc. Então, quando eu consegui a minha primeira aprovação no concurso, eu olhei para trás e consegui olhar para observar e sentir todo aquele processo, e aquilo foi muito significativo para mim. Então, quando eu fui continuar tentando nos próximos concursos, como por exemplo esse último que eu fiz da câmara, eu consegui apreciar um pouco mais esse processo, eu consegui colocar recompensas diariamente para aquilo, e consegui também me acolher e entender os momentos onde eu não conseguia.
Então, assim, eu peguei o edital e estudei ele de cabo a rabo diversas vezes, porque a gente nunca se sente pronto. Eu sei que as pessoas em si já não se sentem prontos, mas como a gente tá conversando, a gente se cobra muito, né? Acho que é importante quando a gente tem esse olhar para nós e esse acolhimento, porque cada resultado que a gente consegue, que a gente conquista, a gente consegue recalibrar o olhar da sociedade para nós.
Alyce: Uma analogia que funciona muito para entender e que eu uso até hoje é o tanto de medidas que eu preciso para fazer. Eu utilizo… Nada fica automático. Eu falo que o meu cérebro não funciona nada automático, então, sabe aquela história de “vai, faz 60 dias que você faz automático”. Não, não tem nada automático, eu escolho fazer todos os dias.
Gustavo: Nem o câmbio do seu veículo?
Alyce: Não.
João Victor: Aumentou para 60?
Alyce: É, ainda manual.
João Victor: Já ouvi dizer que repita um hábito por 21 dias até que ele se concretize. Ainda bem, entre muitas aspas, que aumentou para 60, né?
Alyce: Não, não funciona comigo. Eu escolho igual fazer exercício físico. Eu preciso escolher todos os dias que tem que fazer isso. Eu preciso escolher todos os dias que eu quero aquilo. E é um esforço, porque você escolhe que você tem que continuar. Então, constância é uma coisa muito difícil e parabéns que você conseguiu, porque é isso que eu escolhi. E sabe o que é o peso de escolher como se fosse o primeiro dia? Todos os dias que você se contenta e que você faz, você escolhe conscientemente que quer aquilo.
Comemorar que você conseguiu é muito bom, porque tem dias que você simplesmente não quer escolher. E aí é difícil, porque a gente se cobra, porque você tem que escolher, não tem nada automático. Não liga a chave, não fica mais fácil. A gente escolhe, a gente escolhe que tem que fazer aquilo, a gente escolhe que tem que acontecer aquilo E a gente esquece de lembrar as pequenas coisinhas que a gente faz constantemente. Poxa, eu não consigo, por exemplo, manter uma casa 100% organizada o tempo todo. É muito bagunçado.
Rodrigo: Mas você falou uma coisa que é muito importante, que me fez lembrar de algo. A questão do exercício físico, por exemplo, que você tem que trazer aquilo todos os dias, porque você não consegue ficar no automático. Eu acho que realmente é muito difícil pra gente, essa questão do automático. Mas eu acho que o mais importante é a informação por trás disso antes, que é você perguntar, por que eu quero isso? Pra que eu quero isso?
E depois de ter essas respostas, e descobrir em qual você se adapta melhor.
Quando você encontra aquilo que você se encaixa, não é que depois você fica no automático, é que você não precisa ficar se cobrando, se perguntando e se sentindo mal quando você não consegue fazer. Porque você entende que um dia que você falhou, ele não vai definir todo aquele seu projeto, porque você aprendeu a gostar daquilo ali. Você já construiu uma identidade com aquilo ali. E eu acho que isso é uma grande vitória.
João Victor: O ápice da autocobrança, pelo menos da minha, e eu creio que em outros autistas pode ser assim também, é quando tudo, tudo o que você faz 24 horas por dia, é um dever. Até o seu lazer vira um tipo de dever. Portanto, você acaba não conseguindo relaxar, você não consegue descansar, você não consegue aproveitar absolutamente nada na sua vida direito. Simples assim.
Eu já me peguei em seguinte situação. João Victor, eu falando comigo mesmo. Vamos assistir um anime? Eu, “bora”. Ou ler um livro? Ou ler uma HQ? Ou jogar um jogo? Ou ficar deitado na cama sem fazer nada? Ou ficar brincando com minha gata? Ou comer uma coisa que tem na geladeira, que você goste muito? Até isso, de maneira inconsciente, vira um dever pra mim.
A sensação que dá é que eu quero fazer tudo ao mesmo tempo, que algum canto do meu cérebro processa. Faça tudo ao mesmo tempo, faça tudo ao mesmo tempo. Só que o meu eu mais racional conclui o óbvio. Não dá. E entre o fazer tudo ao mesmo tempo…
Gustavo: Você trava na etapa de escolha.
João Victor: Exatamente, porque eu sinto que eu tô perdendo sempre. E o plot twist? Tá aí, tá tudo bem. Cada escolha é uma renúncia, dizia Chorão do Charlie Brown Jr, tá ligado?
Rodrigo: Mas você só pensa ou você consegue colocar no papel o esse tanto de coisa que você pretende fazer?
João Victor: Às vezes nem colocar no papel. E mesmo quando eu coloco no papel, eu não executo. Eu não executo, cara.
Rodrigo: O importante nesse processo não é você executar, porque você não está executando nada. O importante é você conseguir dar corpo a isso. Então, quando você coloca no papel, pra você olhar, colocou pra fora, você colocou pra fora, aí depois você define ali o que é mais importante, o que é mais gostoso e etc. E aí você vê o seu estado emocional e mental daquele momento.
Quando você consegue identificar, porque já tá fora, você não precisa pensar naquilo mais, já está fora. Você vai pensar agora nas suas emoções em relação àquilo. Quando você conseguir enumerar, aí você faz o que é mais importante ou o que é mais gostoso, sem se sentir culpado. Porque você entende, depois que você coloca pra fora, você entende que não dá pra fazer tudo ao mesmo tempo.
Algumas coisas a gente consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo, como ouvir música e lavar louça, por exemplo. Fazer comida e lavar louça. Infelizmente, algumas pessoas não conseguem fazer isso. Às vezes eu não consigo. E tá tudo bem. Eu acho que o importante é a gente dar forma às coisas. E as pequenas vitórias estão nisso também. Porque todos os dias, quando a gente consegue fazer essas pequenas construções, essas pequenas organizações que parecem tão bestas, tão imbecis, mas elas são tão importantes pra nós, a gente vai conseguindo se libertar um pouco da autocobrança, da necessidade de “tem que”. Não, a gente não tem nada. A gente só tem que viver. Eu sei que falando “ah, é muito bonitinho”. Não, eu sei que porque assim, na prática mesmo, não é fácil pra mim também. Porque eu também sou autista.
João Victor: Eu sei.
Rodrigo: Só que há 32 anos já, vivi muita coisa, passei por muita coisa. Então, algumas coisas, com o tempo, elas vão ficando um pouco mais tranquilas na nossa cabeça. O que vai ficando mais tranquilo na nossa cabeça? Isso, por exemplo, essa ansiedade toda. Porque quando você chega ali, em um determinado momento da sua vida, toda aquela ansiedade hormonal que acontece no nosso corpo, ela dá uma estagnada, ela começa a aliviar aquela pressão. E você consegue respirar melhor, você vai conseguindo dar forma. Então, assim, algumas coisas é com o tempo, outras coisas, infelizmente, é treinando, ensaiando. Senão, não vem.
João Victor: Nem tudo são girassóis, né? Nem tudo são flores. Eu tive que usar a licença poética do girassol. Pra vocês terem uma ideia, um exemplo de vitória, pra que eu não seja o emaranhado de fracassos ambulantes do episódio, eu só fui cozinhar, cozinhar, literalmente, fazer um ovo mexido aos 25 anos pela primeira vez. Eu sempre tive um pavor genuíno de cozinha, sincero e de puro.
Rodrigo: Você tem quantos anos?
João Victor: Eu faço 26 amanhã. É… Pois é. Tipo assim, eu sempre tive um pavor genuíno de cozinha. Eu sempre tive um pavor genuíno de atividades domésticas muito complexas.
Rodrigo: Manuais.
João Victor: Exatamente.
Rodrigo: O que é normal.
Gustavo: Eu te entendo porque eu também sou uma negação na cozinha.
João Victor: Meu amigo, quando…
Gustavo: Ou no fogão, pra ser mais específico.
João Victor: O Brasil não precisa do hexa. O Brasil precisa do JV cozinhando ovos, filho. Porque puta que pariu, conforme eu fui começando a tornar isso um hábito no meu café da manhã, já cheguei perto de chorar, brother. Mano, eu tô fazendo ovo mexido, cara. Pequena vitória total. Em janeiro, eu voltei a ler livros de maneira pausada, porque antes era só olho na página, filhote. Só escaneando ali. E eu sempre puto porque eu não conseguia reter quase nada, praticamente, meu querido. Eu fiquei numa neura daqueles…
Cara, é vergonhoso, mas foda-se, eu vou falar. Eu fiquei naquela neura de tipo assim, eu vou ler rápido, eu vou reter rápido a informação, vou absorver, vou ser um super leitor. Fiquei nessa neura por 10 anos. Dos 15 até a pouco tempo atrás. Eu só fui começar a ler um livro pausadamente, de novo. Repetir o que estava sendo dito. Perguntar pra mim mesmo, “João, o que você entendeu?” Agora, terminei um livro de poesia curto. E tipo, chorando também, de alegria. Por uma pequena vitória.
Alyce: Eu acho que a estratégia, ela tá aí. A gente, igual ele falou, a primeira parte é colocar pra fora. Colocar pra fora já é um esforço. Já é, mas só que isso se materializa no nosso cérebro.
Rodrigo: A gente tira aquela energia da gente, né?
Alyce: Isso, e dá como se não fosse algo que eu perdi. Eu coloquei pra fora, tá em algum lugar, eu vou fazer. Não é algo que eu só tô pensando, eu vou fazer. Eu tenho um aplicativo que se chama TicTic, eu gosto muito dele, é de organização. E qualquer ideia, qualquer coisa que vier na minha cabeça, eu anoto. Só anoto, porque eu me sinto menos culpada do que eu coloquei pra fora. A segunda coisa é, aquilo ali virar…
Meu psicólogo fala sobre a lógica do mínimo viável. A gente sempre quer o máximo. A gente sempre quer ser o melhor autor, começar com 10 livros, livros grossos. A gente sempre quer isso. Aí a gente quer essa coisa. Aí tem o aceitável, que é o bom. O bom seria se eu conseguisse ler um livro pequeno. Mas o mínimo viável, o mínimo viável é o que eu posso fazer pra isso se concluir, mesmo nos dias que eu estou muito ruim. Então, por exemplo, o meu mínimo viável de um exercício, ele se encaixa em fazer um exercício em casa por 20 minutos. O mínimo viável.
O mínimo viável de uma leitura, ele pode ser… Eu não consigo ler uma página. Não consigo ler um livro, mas eu leio uma página. “Ah, uma página é grande pra mim, então meia.” Porque quando a gente vai nos dando essas pequenas pílulas, eu falei sobre a questão de que todos os dias a gente escolhe conscientemente. Mas quanto mais familiar que eu sou com aquilo, mais confortável aquilo é e menos medo me dá. Então, pelo menos pra mim.
O que é confortável, o que eu já conheço, aquilo me traz um pouco mais de conforto. Então, o fato de você começar aquilo a ser mais confortável, mais próximo de você fazer, me dá menos pânico lá no começo. Eu ainda continuo escolhendo fazer, só que fica mais fácil aquilo, tomar essa decisão de fazer. Porque no começo me assustava muito, mas agora é mais simples, é mais fácil, já tô mais perto, porque eu fui fazendo aos poucos. Essas pequenas constâncias, esses mínimos viáveis todos os dias, ele vai trazer uma grande vitória.
Rodrigo: Eu me lembrei de uma coisa também. A gente se cobra para ler pelo menos um capítulo, porque tem essa pregação por aí, “ah, ler pelo menos um capítulo por dia.” E a gente mascara tanto as coisas, que a gente esquece de olhar o que a gente tá afim de fazer, o que a gente tá interessado. E às vezes a gente se prende em um parágrafo
que vai trazer tantas reflexões pra gente, que às vezes ficam dias ali.
Quem que nunca leu um livro que ficou uma parte que está presa, que tá na cabeça até hoje? É muito comum acontecer isso. Acho que a gente, usando isso, a gente precisa se libertar um pouquinho desses padrões. E pegando um engajamento com aquilo que você falou sobre fritar um ovo, que é uma grande vitória, você me lembrou o dia que a gente tava na terapia com os autistas adultos e foi feito um combinado que na semana seguinte iríamos aprender a cortar laranja. Mais da metade dos autistas adultos não compareceram, porque a maioria dessas pessoas tinham dificuldades. E os que foram, uma grande parte, não sabiam cortar laranja, porque não conseguia.
Eu, por exemplo, eu tenho dificuldade em escrever por conta da coordenação motora. A gente tem esses tipos de dificuldade. Então é completamente entendível uma coisinha ser o seu vilão. É completamente natural.
João Victor: É porque todo mundo olha com desprezo, tipo assim, como assim?
Rodrigo: Mas todo mundo quem?
João Victor: Neurotípicos.
Alyce: Mas você não precisa. É muito legal. É muito legal pensar, por exemplo, você não precisa ser bom em tudo, sabe?
Gustavo: Eles não são!
Rodrigo: O importante é você ser bom em alguma coisa.
Alyce: É! Colocar na balança essa coisa de, poxa, eu não sei cortar uma laranja. Mas pra quê? Eu quero ser bom em cortar uma laranja? Eu nem preciso.
Rodrigo: Para validação.
Alyce: É, entendeu? Então tem coisas que a gente cobra que a gente seja bom. Nossa, eu tenho que ser bom em exercício físico, eu tenho que ser bom em leitura, eu tenho que ser bom em falar, eu tenho que ser bom no trabalho, eu tenho que ser bom em casa, eu tenho que ser bom em socializar, eu tenho que ser bom leitora, eu tenho que ser bom… É muita coisa pra ser bom. Calma, você não precisa ser… Ah, nossa, eu sou ruim nisso. Foda-se, você ser ruim, deixa você ser ruim.
Rodrigo: Com o que você é bom em ser ruim?
Alyce: Nossa, eu adoro pintar errado. Eu juro! Eu gosto de ser boa na minha área, no meu trabalho e nos meus estudos. E eu adoro ser ruim em várias coisas. Eu pinto errado, eu desenho mal feito. Nossa, Alyce, tem um monte de coisa de desenho. E você é boa nisso? Não, eu sou péssima. Mas eu gosto de fazer. E eu gosto de fazer errado.
Eu não quero ser a melhor desenhista. Eu gosto de tirar fotos. Ai, nossa, e tirar fotos é um hobby. É um ótimo hobby e eu gosto de fazer mal feito. Não vem me explicar como é que faz as coisas. Eu quero fazer do meu jeito, mal feito, saturado, do jeito que eu acho. E se você entender que isso é bom, é bom pra você, entendeu? Foda-se. Eu não tô nem aí. E tirar o peso de ser bom nas coisas é muito libertador.
João Victor: A gente acaba deixando de fazer o que gosta, e às vezes nem sabe o que gosta. A gente acaba fazendo o que não gosta, achando que gosta, a gente se ilude.
Rodrigo: Até porque isso não existe, de fato, né? Mesmo que de maneira inconsciente, a gente tá numa sociedade onde a gente, de certa forma, é um produto do meio, e sendo um produto do meio, a gente, a forma como a gente pensa, como a gente fala, como a gente sente, ela é moldada socialmente.
João Victor: Mas e quando você terceiriza a sua felicidade, põe na mão de outrem, e mesmo quando você… Quer deixar de se importar?
Alyce: É impossível chegar, não tem como você chegar numa felicidade terceira, você tá se terceirizando. Mas é muito legal você pensar que… Por exemplo, eu fiz um processo de me aceitar, e aí quando eu falei que eu ia me aceitar como uma pessoa autista, eu me aceitei como uma pessoa autista e comecei a falar, “Foda-se, eu… Ah, isso é o Debugger, eu levo ele para os lugares”. Prazer. E aí, ele vai comigo nos eventos de tecnologia, e eu adoro que hoje ele é muito amado, tem até uma figurinha dele.
Gustavo: Ah, um quebra-gelo.
Alyce: É, sabe, tipo assim. E aí, o meu jeitinho, e eu comecei a reparar que as pessoas gostam do meu jeitinho, e que é legal ser eu, sabe?
Rodrigo: É muito bom quando isso acontece, porque a gente passa a vida inteira tentando se esconder, porque a gente acha que a gente não vai ser aceito, e quando a gente passa a ser a gente em algum momento da nossa vida, talvez porque a gente cansa, ou porque a gente tá fazendo um trabalho em terapia, e a gente começa a enxergar isso, a gente vai vendo que às vezes a gente só tava no grupo errado.
Alyce: Sim! Nossa, eu adoro! Eu fui num evento, e aí a maioria dos eventos, às vezes, eu acho outras pessoas autistas, porque tecnologia é spoiler, é cheio de pessoas autistas, tá? Você vê outra pessoa neurodivergente, e a pessoa, às vezes, só fala “Nossa, eu também sou assim”, ou “Nossa, ainda bem que eu encontrei você!” E aí a gente se encontra, e aí eu fico “Caramba, é muito legal ser eu!”.
E é um processo de entender que eu não preciso ser aquele ideal de pessoa que eu pus que eu queria ser, e que seria incrível, e que eu posso ser o meu jeitinho estranho. E que eu ando, às vezes, meio estranho, mas eu converso muito bem, e às vezes eu gaguejo se eu estiver nervosa. Mas tá tudo bem gaguejar também, aí eu vou fazer o Debugger, ele vai comigo pros lugares, aí se eu estiver confortável, algo assim, às vezes ele não vai, mas às vezes eu vou, porque eu acho ele legal, entendeu?
E é isso, o jeito de eu ser e ser encontrada é mágico, e quando a gente entende que não precisa, sabe? Pra quê que eu quero ser outra pessoa? É muito mais trabalhoso ser outra pessoa. A gente gasta muito mais esforço tentando ser o que a gente não é, encaixado num padrão, e é infeliz fazendo isso. Então, é um processo arduoso, eu vou falar, dói, dói muito, porque a sociedade toda hora quer nos derrubar, a sociedade toda hora quer colocar um padrão na gente, então dói muito. Mas se encontrar também é muito legal, encontrar comunidades, encontrar pessoas igual você.
Gustavo: Sim, você não precisa de 100 pessoas que gostem de você, você precisa de 10 que gostem de você e já tá valendo.
Alyce: E nem 10, às vezes!
Gustavo: Não, tudo bem, nem 10, só foi pra poder ser o número…
Rodrigo: Você mesmo gostar.
Alyce: Sim!
Gustavo: Mas você tem que ser a primeira pessoa a gostar de você mesmo, com toda certeza. E quando você tá entre os seus, você percebe que você não precisa de tanta validação, você não percebe que você não precisa de ser bom em tudo. Porque a gente tenta se comparar com os outros, só que a gente tenta se comparar só com as partes boas dos outros.
A hora que você começa a avaliar as partes negativas dos outros, você vê os defeitos dos outros, você fala… Essa pessoa também é toda problemática, ela pode ser neurotípica, mas ela é toda problemática.
Alyce: Que legal, né?
Gustavo: E eu sou bom em coisas que ela é ruim, então tudo se arruma.
Alyce: Que legal, né? E é legal quando a gente tira o peso do masking, a vida começa a dar espaço de energia pra gente fazer outras coisas. Porque quando a gente… Eu sinto, por exemplo, quando eu tenho que performar, que aí eu falo que é quase performar mesmo, porque aí o tom de voz muda, o jeito de andar, tudo. É uma performance. Quando eu tenho que performar corporativamente, eu consigo fazer isso por um curto período de tempo e é muito cansativo. E me dói muito. E eu não consigo fazer mais nada, e aquilo me suga.
Mas quando eu não preciso performar para ser outra pessoa, ou me encaixar, eu consigo fazer mais coisas. Eu consigo fazer o que eu queria, ou mais coisas que tinha planejado, ou até executar, ou sobreviver mais o dia, entendeu? Porque eu não preciso estar ali e estar preocupada no que eu estou falando, no jeito que eu estou andando. Se eu gaguejei, ou se a minha roupa tá legal, ou eu não preciso estar executando todas essas tarefas que eu faço quando você está mascarando. Mas se você tirar esse peso de não precisar mascarar, você consegue fazer muito mais coisas. E é legal, porque você tem mais energia. É aquele negócio, você usa energia para as coisas. E se você ficar usando energia para mascarar, você está tirando energia de outras coisas que você poderia ser. Então, tirar o peso de ser uma pessoa que a sociedade quer, é muito melhor e mais saudável pra gente.
João Victor: Alyce, Rodrigo, Gustavo, um desabafo muito honesto. Obrigado por esse presente chamado “Episódio sobre pequenas vitórias”, de verdade. Porque, cara, vocês me deram basicamente uma aula de como detectar, cultivar, se importar, apreciar e dar o valor devido às pequenas vitórias. Que, como o Gustavo disse no começo do episódio, são um grande salto para o autista.
Por exemplo, eu falei sobre cozinhar ovos. Não sei se vai ter tempo ainda. Eu fiz o meu primeiro café, café mesmo, a bebida, também em 25 anos. Meu primeiro café foi aos 25 anos de idade. A primeira vez que eu saí de casa sozinho foi aos 22, e morrendo de medo, porque antes, quando eu saía de casa, estava sempre na companhia de alguém. Se eu não fosse com um familiar, poderia ser pro canto mais próximo do meu bairro. Eu morria de medo de que alguma coisa acontecesse e eu não voltasse inteiro, basicamente.
Gustavo: Poxa, não te ensinaram a olhar pros dois lados antes de atravessar a rua?
João Victor: Ensinaram.
Alyce: Até hoje eu tenho dificuldade, às vezes, de atravessar a rua.
João Victor: E pra piorar, eu sempre fui o tipo de autista que… Já falei isso em outros episódios, um ou dois, se eu não estiver enganado. Que mesmo com a dificuldade inata em me comunicar, eu sempre gostei de tecer a minha contribuição. Sempre gostei de evidenciar as pessoas ao meu redor. Seja no ambiente que fosse: “Porra, eu tô aqui, eu tô vivo, eu existo, eu tô conseguindo ser um cara legal para os outros e para mim, não, pera, para mim? Como é que eu vou conseguir ser ambas as coisas ao mesmo tempo?”. Pra mim, ainda é uma puta de uma tarefa difícil. Isso gera medo de estar sempre incomodando, medo de estar sempre fazendo errado ou pelo menos um pouco menos certo do que deveria.
Rodrigo: Eu acho, João Victor, que o primeiro ponto, me corrija se eu estiver errado, que uma das… A maior vitória que tivemos, que levou às outras vitórias, foi quando a gente aprendeu a gostar de nós mesmos. Acho que a partir dali, quando eu comecei a gostar de mim mesmo, eu comecei a ter mais paciência comigo quando eu erro. Quando eu aprendi a gostar de mim primeiro, eu aprendi a gostar dos outros como eles são. Eu comecei a enxergar as pessoas como seres humanos e não como “Ah, fulano, sei lá, diretor de tal coisa, é a professora X”. Não, todos nós somos humanos. E aí, eu consegui me tirar de baixo das pessoas e me coloquei lado a lado. Ninguém acima de ninguém. Entendendo que cada um tem as suas características, mágicas, não mágicas, e assim.
João Victor: Por conta desse medo constante de incomodar, eu percebo que às vezes eu não sei se eu gosto de mim ou se eu gosto de uma ideia de mim mesmo, cara.
Alyce: Mas tá tudo bem, sabe?
João Victor: Pois é, isso que é foda! Às vezes tá tudo bem, eu acho que tá tudo uma merda!
Rodrigo: …você não gostar de você, às vezes, é porque a gente é chato também.
João Victor: Às vezes, eu acho!
Alyce: Às vezes a gente é muito chato, velho!
João Victor: E eu concordo! Tá tudo bem ser chato, mas eu não suporto a ideia de ser o chato.
Alyce: Tem uma pauta que quando enviaram, que me fez… Nossa, eu falei assim, o que eu vou falar quando perguntarem umas coisas que é… Qual que é a dica que você dá quando tem aquela pessoa que não consegue fazer nada, né? Que a gente tá falando sobre pequenas vitórias. E quando a pessoa não tem nenhuma vitória, sabe? Tipo assim, ela tá lá e tudo mais. Só que aí que tá. Eu acho que a gente sempre tem uma vitória. Existiu, a gente tá com uma vitória!
Rodrigo: Conseguir levantar da cama é uma vitória.
Alyce: Consegui… isso! A gente conseguiu.
Rodrigo: Tem gente que não consegue.
Alyce: Isso! Eu existi! Nossa, a minha pequena vitória hoje… Eu falo que às vezes o meu máximo é o meu mínimo e tá tudo bem, sabe? Tipo assim… Ai, eu fiz! Eu existi! Eu levantei, eu vesti roupa e eu fui lá, entendeu? Parabéns pra mim. E tá tudo bem.
Gustavo: Gente, é isso. Sexta-feira que vem tem outro episódio. Outra vitória a ser conquistada. Eu espero que você nos acompanhe nele também. Lembrando sempre que você pode acompanhar o Introvertendo em vários lugares. Pra poder não perder. Tem centenas de episódios. Procura a gente aí que somos legais. Tchau!
Alyce: Tchau!
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

