Introvertendo 295 – Hiperfoco – parte 2

O hiperfoco é um dos temas mais discutidos por autistas na comunidade do autismo, pois está relacionado ao interesse restrito e fixo que aparece nos manuais médicos. Na segunda parte deste episódio, apresentado por Marx Osório e com participação de Deco Machado ao lado de Gustavo Borges e Izabella Pavetits, nossos podcasters falam sobre os interesses socialmente aceitos, a intensidade do hiperfoco nas relações sociais e muito mais.

Links e informações úteis

Agradecemos a todas as pessoas que apoiam o Introvertendo no Apoia-se, Catarse ou Patreon neste momento: Aline de Queiroz Silva, Augusto Batista, Bianca Atti Barona, Fernando Ramon, Fernando Silva de Oliveira, Luciano Queiroz, Luiz Anísio, Silvia Gomide Gurgel, Suzana Ferri, Synara Veras de Araújo, Thúlio Costa e Tito Aureliano.

Acompanhe-nos nas plataformas: O Introvertendo está disponível nas seguintes plataformas: Spotify | Apple Podcasts | DeezerCastBox | Amazon Music| Podcast Addict e outras. Siga o nosso perfil no Spotify e acompanhe as nossas playlists com episódios de podcasts.

*

Transcrição do episódio

[Vinheta de abertura]

Gustavo: Eu acho que a gente devia falar também do hiperfoco socialmente aceito.

Deco: Que é o que ganha dinheiro (risos).

Gustavo: Não necessariamente. Sim, com toda certeza, mas não necessariamente.

Eu consigo pensar em dois casos, que são dois que me dão profunda aversão, que é tipo… Rato de academia. O cara que vive ali pra malhar e ter o corpo perfeito.

Marx: (Risos).

Gustavo: Olha a dedicação dele, olha o empenho, isso vale. Ou eu tenho certeza que tem uma galera, especialmente mais velha aí, de autista não diagnosticado na casa dos 50, 60 anos…

Deco: Hiperfoco em arma.

Gustavo: …que tinha hiperfoco em futebol.

Deco: Ah, tá.

Gustavo: Sabe quem ganhou a terceira divisão do estado do Piauí em 1984. Sabe qual era a formação de cada time. Então, quem fez gol. O cara tem todas as informações de todos os jogos na cabeça dele, e o pessoal fala: “olha, fulano, fala aí a formação do Goiás em 1996”. Esse cara é bem quisto nas rodas de bar, nos botecos, como o cara que sabe de futebol.

Deco: Mas é que todo mundo fala de futebol, eu acho. É um assunto que todo… É um assunto do Brasil, né?

Gustavo: É, todo mundo gosta, mas se você é o fodão nesse assunto que as pessoas já gostam, que é especialmente aceito, você tem uma vantagem.

Deco: Concordei 100%. Se o assunto é aceito, é isso. A academia está sendo aceita, eu acho que as pessoas vão…

Marx: É porque isso é um interesse comum, não é um interesse restrito. E aí a gente entra no dilema também de pensar que nem todo hiperfoco é sobre interesse restrito.

Deco: Sim, concordo.

Marx: Porque o DSM fala que o critério de diagnóstico para o autismo é interesse restrito. Mas o hiperfoco não é um critério de diagnóstico para o autismo. Ele aparece em outros transtornos. Então, logo, ele pode existir em outras condições e em interesses comuns. Mas aí vem aquela pergunta: Por que a maioria dos autistas se interessa por coisas que não são comuns? Porque o autista é diferente da maioria.

Deco: Mas eu tenho uma ideia, que é porque a gente gosta de categorizar. Eu acho. Então, por exemplo, a gente… Não sei se é o caso de vocês, mas, pô, gostar de Pokémon, porque Pokémon tem categorias. Tem os tipos de Pokémon, tem evolução. Então, eu consigo categorizar e organizar. Beatles dá pra categorizar em épocas, em disco, em música. Então… E sempre tem informação nova. Então, acho que a gente vai muito… Ônibus também, sabe? Então, acho que a gente vai muito nesse aspecto. Não necessariamente todos, mas muitos vão na… Porque é possível categorizar.

Marx: Mas os assuntos que são comuns também são possíveis de categorizar. Aí entra no ponto que é a cultura. Talvez Pokémon, anime, lá no Japão, seja igual futebol aqui.

Deco: É, né? É.

Izabella: Depende do círculo social que você tá também. Porque, por exemplo, num lugar que o pessoal gosta de futebol, aí eu sentar lá e começar a conversar sobre o novo jogo de Pokémon. Aí vai todo mundo ficar, tipo, “uma nerdola veio aqui desavisada”.

Aí, beleza. Você vai num… Sei lá, num encontro ou algum lugar que a maioria das pessoas gosta desse tipo de assunto. Aí você começa a falar sobre o jogo do Vila, aí vão falar: “bom, hétero caiu aqui sem querer”. Então, tipo, vai muito do círculo social, eu acho. Então, não tem como falar, ah, porque tal assunto é… necessariamente bem quisto ou não em algum determinado contexto.

Deco: Sim…

Izabella: Varia muito.

Gustavo: Marx, eu acho que a questão é que o autista, ele tá mais aberto. A gente explora mais, a gente vai em coisas que todo mundo passou, mas não olhou, não prestou atenção. A pessoa neurotípica é típica. Ela vai ter a meia dúzia de interesses típicos que todo mundo tem. Era uma bosta na escola, que o pessoal queria falar da… Eu queria falar de meia dúzia de coisas mesmo dentro do… O pessoal, todo mundo falava da mesma meia dúzia de coisas e nem todo mundo achava normal. Então, tipo, é porque você é uma pessoa típica, com interesses típicos, sem graças e é isso. Essa é a sua vidinha típica de neurotípico sem graça.

Deco: Isso eu concordei também. 

Gustavo: A gente vai mais longe.

Marx: É porque o objetivo do típico não é esmiuçar o assunto, é criar conexão. Para eles o assunto é o que menos importa, cara.

Deco: O pessoal é chato, né?

Marx: No dia que eu aprendi isso, eu parei de ficar tentando entender por que as pessoas não gostavam de aprofundar em nada, não gostavam de… Porque eles estão muito mais preocupados em agradar e criar conexão do que aprofundar no assunto, porque às vezes aquele assunto é só um motivo ali pra eles conversarem.

Teve uma vez que eu falei sobre isso no episódio sobre habilidades sociais aqui, que é como a gente precisa entender o que tá por trás do comportamento dos típicos para conseguir se adaptar em alguns contextos. E no dia que eu entendi que, na verdade, a galera, quando chega num lugar, ela tá muito mais preocupada em ler as intenções do que tá acontecendo e de tentar criar uma conexão ali para demonstrar confiança, para demonstrar, sei lá, que isso é o objetivo social deles, eu parei de ficar querendo enfiar os meus assuntos em rodas que não interessavam e de ficar achando: “Esse povo é muito fútil, esse povo é muito idiota, só fala umas coisas que não tem nada a ver, eles não tem cultura”.

Eu parei com essa arrogância, porque isso é arrogância. E pensei: “Não, é porque as pessoas não têm essa cabeça de maluco que a gente tem, de ficar pensando três, quatro, cinco coisas ao mesmo tempo”. E às vezes você só tá preocupado em bater um papo ali e jogar a conversa fora ou chamar a atenção de alguém ou agradar uma pessoa, que é uma coisa muito mais simples do que às vezes você tá pensando. “Ah, porque eu acho interessantíssimo a formação do time da seleção brasileira de 1994”. Aí tem gente que: “Ah, tá, o que que isso importa em 2026?” 

Deco: Exato. 

Marx: Tipo assim.

Izabella: Acho que não necessariamente, assim, eu concordo contigo que pode partir do ponto da arrogância, mas não necessariamente, porque a questão é que tem a intensidade também. Porque eu, por exemplo, quando eu tava muito… quando eu tô muito hiperfocada em determinados assuntos, aí eu só quero falar com isso, sobre isso e alguém me chama pra fazer alguma coisa e eu sei que lá ninguém vai querer ouvir falar sobre isso, eu não vou. Porque eu sei que eu vou pagar de chata, entendeu? 

Marx: Sim. 

Izabella: Eu não vou ficar tipo assim “Ah, não, mas o meu assunto é muito mais legal, então eu vou fazer engolirem o meu assunto”. Não, eu não vou.

Marx: Porque a intenção de ir… 

Gustavo: É socializar.

Izabella: É, seria socializar, mas ele tá tão intenso, tão assim que o negócio me prende. Eu não tô falando que é legal o que eu faço, eu tô falando que é o que acontece.

Deco: Só quero socializar se for com esse assunto, né?

Izabella: É, entendeu?

Deco: Eu quero socializar, mas tem que ser com esse assunto, senão não socializo.

Izabella: Então aí que tá, eu não quero socializar, mas eu acho que é importante socializar.

Marx: Por isso que existem os clubes das coisas, né? Clube de tal coisa, clube do Pokémon, clube da motociata, não sei o que. 

Gustavo: Mas eu ia falar justamente isso, mas tipo, o quanto é bom quando a gente acha outro maluco com a mesma loucura que a gente. Ah, que alegria!

Deco: Comédia. Pra mim foi isso.

Gustavo: É, e você quer falar, e você encontra outro maluco disposto a falar horas e horas sobre isso. 

Deco: Que só fala disso. Você fala: “meu irmão, onde você tava?”

Gustavo: É isso, vamo! 

Deco: Melhor coisa (risos).

Gustavo: Cara, a Izabella é a pessoa com quem eu tenho mais proximidade aqui no Introvertendo. Eu não conhecia a Izabella de nada. A Izabella nem é de falar muito, mas um belo dia surgiu Pokémon e ela “ah, eu gosto de Pokémon”. E aí, amigo, foi ladeira abaixo, a gente fala de todo tipo de coisa. Mas é por causa do Pokémon. Começou no Pokémon.

Izabella: Tem como você usar assuntos assim pra fazer amigos mesmo. Sempre tem.

Por mais específico e nichado que seja o interesse, vai ter um assunto, fórum no Reddit,

de alguém falando sobre isso, a galera vai estar interessada. Então procurem. Eu mesma fiz muitos, assim, aspas, né? Não são amigos, amigos, mas eu conheci muita gente. Na internet. 

Deco: Se interagiu bastante.

Izabella: É, eu conheço, porque assim, tem coisa que, por exemplo, que eu gosto, mas aí que eu vou olhar o público aqui mais por perto, aí são tipo adolescentes. Aí eu fico… é meio pesado, né? Aí eu acho adultos, mas sei lá, em outro lugar. Aí eu achei no fórum. Aí eu fiz amigo gringo, essas coisas. Então é bom também você usar isso pra partir do… 

Deco: Uma coisa que veio com o meu diagnóstico é… sempre tem outro doidinho.

Izabella: Uhum.

Deco: Sempre tem outra pessoa que vai gostar da mesma coisa, vai se identificar com você, que você achava que aquela… Umas coisas que às vezes eu falo assim, “ah, só eu faço isso”. Comentei com todo mundo. Aí vários autistas: “ah, eu também faço”. Eu falei, “os doidos”. É só os doidinhos sempre, é só nós, assim. Mas sempre vai ter uma pessoa que vai gostar do assunto que você gosta, igual, principalmente na internet, né? Que você falou, que a gente se acha, tá ligado?

Gustavo: É, mas permita-me colocar uma técnica arcaica que eu precisei de algum tipo de análise, autoanálise, terapia e tudo pra perceber. Velho, eu criei uma cisma quando eu era assim, criança ainda, de querer usar camiseta de desenho animado, camiseta de alguma outra coisa. E eu percebi, só depois de adulto, que era uma forma de buscar conexão.

Deco: Porque a pessoa se identificava. 

Gustavo: E vai puxar um assunto, vai ter uma conversa.

Deco: Por isso não tenho tanto amigo, eu sempre uso camisa lisa.

Gustavo: Tá vendo? Essa é sem gracice. Mas você, gente, bastidor… 

Marx: Ah, time da camisa lisa!

Deco: Que droga.

Gustavo: Bastidor aqui hoje. O Deco, antes de começar as gravações, puxou papo com a Izabella sobre Doctor Who, por causa da camiseta dela. 

Deco: Ah, total. Olha, da bolsa. Nossa, total. 

Gustavo: Isso funciona! É verdade, a bolsa… 

Deco: Aí, ó. 

Gustavo: Tipo, funciona. Isso existe.

Deco: Você me enganou, então!

Izabella: Isso é uma estratégia malévola.

Gustavo: E aí, você acha uma pessoa que também gosta e flui. E tudo bem, a taxa de sucesso é baixíssima. Mas pelo menos é uma camiseta legal. E funciona.

Deco: Ainda é uma camiseta, né?

Gustavo: E o povo interage.

Deco: Achei um ótimo plano. Vou ter que mudar meu armário.

Gustavo: Ah, velho, pega duas e vai testando.

Izabella: É, funciona mesmo. No meu caso, eu uso porque eu sou autista, que coleciona. Então, eu gosto de colecionar tudo.

Deco: Tem várias, tem várias.

Izabella: Eu colecionava pedra. Quando eu era criança. “Ah, pedra, tipo aquela ametista?” Não, não, pedra da rua. Mesmo. 

Deco: Amiga, tu não sabe o meu armário (risos).

Izabella: Inteligível. 

Deco: É pedra normal mesmo.

Izabella: É, eu tava na rua e uai.

Deco: Gostei desse formato. Pronto, peguei. 

Izabella: Exatamente.

Deco: Eu tenho até hoje lá.

Izabella: Eu colecionava também cartão de orelhão. Pra quem é mais novo, não sabe do que se trata.

Deco: (Risos)

Gustavo: Pera, você tem cartão de orelhão até hoje? 

Izabella: Tenho.

Gustavo: O que você faz com eles?

Izabella: Coleções.

Gustavo: Vou te dar alguns. 

Izabella: Ah, eu quero.

Deco: Olha.

Gustavo: Me entregaram, mas eu não gosto. Só vou guardar os cartões de Pokémon e o resto.

Izabella: Eu tenho disquete em casa, porque eu gosto de fazer coleção. Então, assim, se eu olhar pra uma coisa e falar assim… “Hum, interessante.”

Deco: Dá pra juntar.

Izabella: É.

Deco: Dá pra juntar.

Izabella: Aí se dá pra juntar por cor, então, aí ó, maravilha. Eu acho interessante essa estratégia, de usar as roupas ou acessórios, enfim, pra mostrar pras outras pessoas, tipo, de identificar que você gosta ou não.

Gustavo: Ah, tanta gente com camisa de futebol, por que eu não posso por a minha camisa?

Izabella: Exatamente.

Deco: Isso é verdade. 

Izabella: No meu caso, eu acabo tendo muitas coisas usando roupa, porque o meu interesse… Eu gosto de fazer coleção, né, aí acabo comprando várias coisas, vários itens e tal. E é uma forma que eu sinto de me conectar com o assunto.

Tipo assim, cara, eu gosto tanto de Doctor Who que eu quero vestir Doctor Who hoje. Eu quero mostrar pras pessoas que eu gosto de Doctor Who, sei lá. Que é até besteira, sei lá. Eu penso: “ah, eu tô com essa bolsa no meu colo”. Então, de alguma forma, eu tô recebendo esse conforto emocional que o assunto me traz, sabe? Tipo, funciona desse jeito que o Gustavo falou também, mas eu costumo, aliás, eu sempre fiz isso nesse sentido, sabe? De me relacionar com o assunto ali que tá em voga na minha cabeça.

Deco: Ter uma coisa que se identifica, né?

Izabella: Sim, quando eu comecei a ter contato com Pokémon, que foi logo que apareceu aqui, de lá pra cá, se você vai olhando foto minha criança, toda hora eu tô com o Pikachu no colo. Não tem uma foto que eu não tenha o Pikachu. E é engraçado, você dá pra saber certinho quando ele foi trocado, ele vai encardindo progressivamente, aí do nada aparece outro. 

Gustavo: Não deu pra evoluir pra Raichu não? Pega a bolsa do Raichu depois? 

Izabella: Não, porque só pode Pikachu. No episódio que apareceu o Raichu no anime, eu fiquei: “não, gente, não pode, que absurdo”.

Deco: Não pode.

Izabella: Porque a rigidez cognitiva foi lá em cima.

Marx: E eu tava pensando aqui uma coisa, né? Sobre o número de hiperfocos fixos de um autista, né? Pelo que vocês falam, vocês têm muito menos hiperfocos ou pelo menos vocês falam pouco de hiperfocos diversos, do que, por exemplo, eu tenho vários. Isso é uma coisa que vocês observam muito nos conhecidos autistas de vocês também? 

Deco: Eu acho que eu tenho vários hiperfocos, só que eu tenho prioridades deles. Então, primeiro é Beatles e comédia. E aí o resto é tipo, aí é Cazuza, Legião, eu gosto muito. Tipo, conheço história, vejo documentário, escuto sempre também. Mas tem os que se sobressaem, sabe? São os que eu vou trazer quando são esses assuntos. Mas Magic, por exemplo, também tenho hiperfoco em Magic, em jogar, né? Que falaram aqui de Pokémon. É, mas pra mim é isso. 

Gustavo: Mas é aí que tá. Eu acho que os autistas têm vários hiperfocos e com quem você vai conversar.

Deco: Sim, tem o tema, né?

Gustavo: Eu tenho amigos que entendem de super-herói muito mais do que eu. Então, com eles eu vou conversar de super-heróis. E aí eu tenho os amigos que gostam do board game, que gostam de Magic. Vou conversar mais sobre esses assuntos com eles. E você vai adaptando onde é que você se encaixa e no seu hiperfoco, com os hiperfocos do outro.

Deco: Onde você consegue jogar a caixinha do hiperfoco, né? Ah, aqui é legal jogar do Mário, sabe? Aqui é legal trazer Mário como assunto, porque… Se eu trouxer um assunto do Mário num jogo de futebol, não vai dar, sabe? 

Marx: Mas eu falo do assunto que te interessa, de fato. Daquilo que você tem interesse de procurar saber, de procurar aprender. De buscar gente que queira falar sobre aquilo, né?

Izabella: Então, eu acho que essa questão que o Marx perguntou, se as pessoas autistas, pelo menos as que eu conheço, né? Tem hiperfoco em menos assuntos ou mais assuntos. Eu acho que varia muito.

Eu conheço pessoas autistas que, por exemplo, tem hiperfoco de longa data, que vem lá da infância e continuam. Aí tem outros que funcionam assim. Estão ativos em, sei lá, alguns anos e nunca mais. Tem outros que você… Que ela fica muito hiperfocada naquilo por um tempo, aí morreu, passaram anos, ela nunca mais quis saber. Aí, do nada, por algum motivo, ela lembra e…

Marx: Voltou.

Izabella: Voltou. Então, eu acho que a quantidade, vamos colocar assim, entre aspas,

a “atividade” do hiperfoco varia muito de pessoa para pessoa. Porque, por exemplo, eu, quando era criança, eu tinha hiperfoco em canetinha colorida. Aí era assim, de um nível que, na escola, eu escrevia até pra coisa de quadro, não era nem só agenda. Uma letra de cada cor. Aí, se eu errava, por exemplo, escrevia duas letras, eu tirava a folha e começava de novo.

Deco: Nossa Senhora. 

Izabella: Aí, obviamente, isso é desfuncional. As tias começaram a brigar. Só que aí eu chorava, porque…

Deco: Sim.

Izabella: As canetinhas estão ali para ser usadas e tal. E eu tinha esse hiperfoco em usar as canetas. Acabou que fui trabalhando isso na escola, com uns terapeutas de lá. E aí deu uma melhorada. E acabou que eu sempre continuei gostando de usar essas coisas de papelaria, mas foi dando uma normalizada.

E, às vezes, tipo, teve uma época, quando eu estava no ensino médio, eu não tinha tempo mesmo. Você tem que anotar freneticamente, que o professor vai vomitando um assunto em cima do outro. Aí era caneta tudo azul e eu ficava assim, “Meu Deus, a Izabella de, sei lá, sete anos teria uma convulsão e ia morrer aqui neste exato momento”. Mas aí, do nada, eu volto e quero comprar todas as canetinhas de novo. Aí eu uso, mas assim, de uma maneira mais… não tão intensa, sabe? Aí prejudica. “Ah, mas aí como se prejudica agora?”. “Prejudica que eu gasto dinheiro com canetinha na shopee . Dinheiro que eu não deveria estar gastando”.

Deco: O dinheiro agora é meu, não dos meus pais, né?

Izabella: Exatamente. 

Marx: E a dívida também.

Izabella: É (risos). Aí você, “Ah, mas você já tem, sei lá, dez canetinhas verdes”. Mas este tom de verde eu não tenho. Mas você precisa de mais um? Preciso, porque eu não tenho dele.

Gustavo: Viu? O problema do hiperfoco é que não só ele não te dá lucro, como ele te dá prejuízo.

Deco: Financeiro, social (risos).

Marx: Foi interessante isso que você trouxe sobre como os hiperfocos que são prejudiciais eles podem ser trabalhados e com o tempo esse prejuízo ir diminuindo. Pra gente caminhar para finalização da discussão, a gente poderia… Então, compartilhar um pouquinho sobre estratégias de melhoria do prejuízo causado pelo hiperfoco. Como que foi a experiência de vocês em relação a intervenções que foram feitas que precisaram ser feitas pra poder diminuir o prejuízo, né?

No meu caso, eu tinha um hiperfoco muito grande de ficar discutindo política e passava horas e arrumei muitos desafetos e pra mim o que melhorou foi quando eu comecei a fazer psicoterapia e comecei a entender mais a melhor maneira de se portar adiante de uma opinião contrária, de lidar mais com a divergência política, de diminuir essa necessidade de ficar tendo que provar que tá certo o tempo todo, de começar a focar em outras coisas menos prejudiciais, fazer uma redução de danos. Enfim.

Gustavo: Eu acho que eu nunca tive muita regulação externa. Então, eu sempre tive que me virar pra poder me regular. E aí você fica tentando barganhar com você mesmo. A gente tá falando de coisas de trabalho. Velho, foca aqui só mais um pouquinho. Aguenta mais dez minutos pra você terminar essa demanda que você precisa. Quinze minutinhos. Aí depois você fica à toa. Depois você pesquisa o que você tanto precisa pesquisar. Eu vou pesquisar, eu não vou dormir sem pesquisar esse assunto totalmente aleatório. Mas deixa eu focar só um pouquinho agora.

E talvez o fato de você focar esses minutinhos faz com que você esqueça que você precisava se fixar tanto naquele assunto e conseguir seguir depois. Mas você tem que tentar barganhar, negociar com você mesmo. E eu acho que o mais importante é não tentar se auto anular por completo. Você tem que colocar a ordem na própria bagunça, mas você fala “não, eu vou ser produtivo, eu não vou parar e focar em momento algum”. Isso aí vai fazer você estourar mais cedo ou mais tarde.

Deco. Eu vou na mesma, assim. Precisa ter um autocontrole nisso, uma autodisciplina, né? Não é um controle, mas uma disciplina de entender quando está te prejudicando, entender quando que está. Eu acho que isso é importante, fazer terapia para isso é importante também.

Mas uma ferramenta que eu uso é… Tem uma coisa que se chama “oponopono”, se eu não me engano. Que é você trabalha 40 minutos e descansa 20, sabe? Então, eu faço muito isso. -Ah, não, precisa… 

Izabella: Oponopono é outra coisa. Isso é método pomodoro. 

Deco: Pomodoro, isso. pomodoro. Tem 40 minutos, 50 ali de trabalho, e depois 20 de descanso. Então, eu sempre faço esse ciclo. E aí, eu me percebo também no dia. “Ah, não, hoje eu só consigo 30”. E depois 20 de descanso. Então, o descanso é sempre metade do que você vai focar, né? Vai trabalhar e tal. Então, pra mim, era exatamente isso. De autocontrole, de autodisciplina, pra entender: “Cara, eu não posso fazer isso agora”.

E uma coisa também que me ajuda muito, a terapia tá me ajudando, que eu sempre fiz terapia TCC. E agora eu tô fazendo psicanálise pela primeira vez, assim. E geralmente não indicam psicanálise pra autistas, né? Mas pra mim tá sendo bom, porque… Como eu já fiz TCC durante 20 anos, a psicanálise tá sendo legal, porque tem vários momentos que eu vou falar do meu hiperfoco, do que eu quero conversar com ninguém e ninguém quer escutar eu falando, tá ligado?

Então, a psicanálise, pelo menos o meu terapeuta, tá indo de um jeito que pra mim tá sendo até uma válvula de escape. De: “ah, eu quero falar disso, então eu falo até na terapia”, sem saber que eu queria falar tanto sobre esse assunto. Então, pelo menos pra mim ele tá ajudando bastante. 

Gustavo: Guardou para um momento específico também pra poder falar disso. 

Deco: Exato. 

Izabella: Eu acho que essa ideia de guardar momentos específicos é uma estratégia muito boa, que eu aprendi fazendo terapia, inclusive, porque, por exemplo, eu quero muito pensar, pesquisar ou ler alguma coisa sobre o assunto do meu hiperfoco todos os dias. Aí eu tento separar um horário para me dedicar a isso. É sempre que funciona? Óbvio que não. É difícil pra todo mundo e eu tenho TDAH, então é mais complicado ainda.

Porque, às vezes, eu tô tentando fazer alguma coisa e a cabeça quer tentar focar em outra. Vem a hiperatividade, aí vem outros tipos de hiperfoco, né? Aqui o hiperfoco do TDAH é mais relacionado à dificuldade de você direcionar a atenção pro lugar certo. Então, às vezes não funciona, mas eu gosto muito dessa estratégia de você tentar separar um momento do seu dia pra se dedicar àquilo, pra você fazer a pesquisa, pra você… Independentemente de como você se relaciona com o seu hiperfoco.

Mas de uma forma ou de outra, assim, no geral, eu acho que pra qualquer tipo de… Vamos dizer, a gente deu dicas mais específicas, mas terapia é muito importante, psicoterapia, para você lidar com essas coisas. Por exemplo, uma das consequências de eu ter sido diagnosticada tardiamente, a questão que mais me pega é a social, por exemplo. Então, quando eu não sabia que eu era autista, eu ainda não tinha percebido que ninguém queria ouvir sobre o que eu estava falando, eu falava mesmo assim. Aí, só que assim, apesar de… Os sinais de que eu não estava gostando, talvez não fossem sutis pra mim, quando as pessoas enchiam o saco, elas deixavam bem claro, sabe? Tipo, ninguém se importa, não…

Aí eu meio que internalizei isso, tipo: “Ah, ninguém quer ouvir sobre nada que eu tenho pra falar, e não é importante”. Pra mim, é a minha vida isso aqui que eu tô pensando, mas ninguém se importa. Aí, tipo, agora, hoje em dia, que eu sei que tá ligado com autismo, eu tenho amigos, eu sei que são pessoas seguras para falar sobre determinados assuntos, eles podem falar: “Agora você tem uma hora pra fazer um monólogo sobre esse assunto”. Eu fico assim: “Não, mas você tá falando isso porque você gosta de mim. Ninguém quer ouvir o que eu tenho pra falar”. 

Gustavo: As pessoas querem ouvir o que você tem pra falar porque elas gostam de você. Não porque elas gostam do assunto, porque elas gostam de você.

Izabella: Mas o assunto é chato, entendeu? Mas foi o que eu internalizei. Aí, por exemplo, “Ah, qual sugestão você tem para lidar com isso?” Aí é psicoterapia, gente. Mas tem que pensar sempre essa… Tentar pensar nesse lado de, por exemplo, “Ah, tem um prejuízo, aconteceu tal coisa, então o hiperfoco é terrível, o autista vai ter que se jogar da ponte”. Não, tem coisas que dá pra gente melhorar procurando diferentes tipos de terapia.

E eu acho que é importante, sabe, procurar o suporte que a gente precisa, né? Afinal de contas, mais uma vez, o autismo é um transtorno. Então a gente precisa desse suporte, ele tá aí pra ajudar. Então, na medida do possível, vamos procurar.

Marx: Bom, pessoal, estamos chegando ao final de mais um episódio. A gente agradece imensamente a presença do Deco Machado, nosso convidado especial nesse episódio.

Deco: Obrigado!

Marx: É uma honra ter tido você aqui conosco. O Introvertendo é um podcast 100% feito por autistas, com produção do NAIA Autismo e gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.

*

Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Tiago Abreu | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

Related posts: