O hiperfoco é um dos temas mais discutidos por autistas na comunidade do autismo, pois está relacionado ao interesse restrito e fixo que aparece nos manuais médicos. Na primeira parte deste episódio, apresentado por Marx Osório e com participação de Deco Machado ao lado de Gustavo Borges e Izabella Pavetits, nossos podcasters falam sobre seus hiperfocos, se é possível escolher um interesse e como isso pode estar relacionado com vícios e outros prejuízos.
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Transcrição do episódio
Marx: E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Eu sou o Marx Osório, farmacêutico. Esse é o podcast Introvertendo, um podcast feito por autistas, e hoje nós vamos falar sobre hiperfoco.
Izabella: Olá, eu sou a Izabella, e na briga entre o hiperfoco do autismo e o do TDAH, eu simplesmente não funciono em alguns dias.
Gustavo: Eu sou o Gustavo Borges, e tem 27 anos que Pokémon não sai da minha vida.
Deco: Eu sou o Deco, e não sabia que tinha que ter um bordão (risos).
Marx: Você que nos assiste pelo YouTube ou nos escuta pelas plataformas de streaming, nós também estamos nas redes sociais, no Instagram, no Facebook, no X (antigo Twitter), @introvertendo, e nós também temos o site www.introvertendo.com.br. O Introvertendo é um podcast gravado nos estúdios da Faculdade Realiza com produção do NAIA Autismo.
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[Vinheta de abertura]
Marx: Então a gente vai bater um papo aqui a respeito de um dos temas mais conhecidos na comunidade do autismo, que é o hiperfoco. E eu gostaria de começar a nossa discussão lançando a pergunta de um milhão de dólares, que é o que é o hiperfoco? E com a palavra, senhor Deco Machado.
Deco: Ah, eu primeiro?
Marx: É.
Deco: Ah não (risos). Tá. Eu não gosto do termo hiperfoco, que eu acho que o pessoal usa muito errado. Na minha visão de experiência e de poucos estudos que eu tenho na área, porque eu não sou profissional, eu divido em três, que é o hiperfoco, a hiperfixação, interesse especial.
O hiperfoco pra mim é quando você faz uma ação e se foca, hiper foca nessa ação. Então o hiperfoco pra mim tem a ver com uma ação que você, quando a gente, por exemplo, eu tenho muito com edição de vídeo. Então eu vou editar um vídeo só, de repente eu editei 30 vídeos, tô nove horas sem beber água, sem comer, passando mal e não sei por quê. Então isso eu chamo de hiperfoco. Aí tem a hiperfixação, que é quando a gente tem aquele período de assunto que a gente gosta muito, que a gente fica, “nossa, olha esse assunto, tá fixado só naquilo”.
E o interesse especial, que pra mim é aquela coisa de… De coisa que você gosta sempre, aquela coisa que o autista ama, sabe? Não só autista, mas neurodivergentes amam e fica com a fixação nisso pra sempre. Eu acho que é o interesse especial. Eu divido assim, aí a academia fala de outro jeito, mas…
Marx: É porque a gente vê que o hiperfoco, ele está muito relacionado não só com o interesse muito grande em uma coisa, mas com o prejuízo associado. Porque se você só gosta muito de uma coisa, mas aquilo não te traz um prejuízo de ficar nove horas sem comer, sem beber água, então talvez não seja hiperfoco, seja só um interesse especial.
Deco: Mas eu esqueci de falar isso, mas pra mim todos esses têm prejuízo. Pra ser chamado disso. Eu acho que precisa ter prejuízo, senão é realmente… Todo mundo é humano, né? Então todo mundo gosta muito de alguma coisa.
Gustavo: Tem que ter pelo menos um bullying na escola, é isso?
Deco: É, tem que ter apanhado um pouquinho, tem que ter se entusiasmado um pouquinho pelo seu gosto, senão… (risos).
Izabella: É importante fazer essa distinção, porque eu acho que hiperfoco é um termo que tá muito banalizado, né?
Gustavo: Muito.
Izabella: Nas redes sociais. Então, por exemplo, “ah, eu gosto muito do cantor X, então eu tenho um hiperfoco nele”. Beleza, você já deixou de aceitar compromissos sociais porque não tinha ninguém que ia falar sobre o cantor X? Você não consegue, sei lá, se concentrar no seu trabalho e perdeu metas porque você tava pesquisando sobre o novo sapato que ele apareceu usando em um show? E você tem que pesquisar a história desse sapato e por que ele comprou, porque tudo volta pro hiperfoco daquilo, sabe? Ou então, quando você é criança, você está tão interessado em uma determinada coisa que você perde mais oportunidades de tentar desenvolver relações com as outras crianças.
Deco: Interação, né?
Izabella: Interações.
Deco: Eu tive muito isso.
Izabella: Porque você, por exemplo, eu tinha hiperfoco… Tenho ainda, né? Hiperfoco em Pokémon. Quando Pokémon saiu, todo mundo gostava, mas era muito mais intenso do que a média, porque todo mundo achava legal. Mas eu achava muito legal. Então, assim, pra mim, uma das coisas que eu… Me relaciono com os assuntos, né? Que eu acabo ficando com hiperfoco, eu gosto de fazer coleção. Então, assim, todos os itens possíveis eu tinha que ter. Eu tinha, sei lá, bonequinho do Guaraná, que vinham os pequenininhos.
Gustavo: Tenho guardados lá em casa.
Izabella: Tenho também. Aí, por exemplo, o pessoal que tinha, eles gostavam de pegar e fazer. Tipo, “ah, não, brincar de não sei o quê, de simular lutinha e tal”. Eu gostava de ter e separar por cor. E, às vezes, era assim, aquela coisa. Ah, todo mundo gostava, mas era aquela. “Ah, vamos brincar de Pokémon, agora tá na hora da queimada”. Eu, “não, tá na hora do Pokémon. E é desse jeito que eu quero”. Então, eu já passava de chata.
Marx: E aí já vem o prejuízo, né? Que é o prejuízo social.
Izabella: Exatamente. Já tem o prejuízo social, já tem todas essas questões. Porque aí as pessoas acham que “ah, não, eu gosto muito disso, então eu tô hiperfocada”. Não, você não está. Então, é importante fazer essa distinção. Porque mesmo que não seja um termo científico, ele está diretamente relacionado a um aspecto que é, literalmente, critério diagnóstico, que é o interesse restrito e intenso em um tema.
Marx: É, interesse restrito e repetitivo, né?
Gustavo: Se é pra poder falar de prejuízo, eu preciso falar da gasolina que eu torrei indo atrás de Pokémon na época do Pokémon GO. Eu, realmente, eu tive que vender a minha conta, porque eu sabia que se eu desinstalasse, uma semana depois eu ia instalar e queria ir e voltar e “nossa, tudo que eu perdi nesse dia”. Não, eu tive que fazer uma quebra abrupta e total para poder largar. Porque os Pokémons do videogame, você joga e pode jogar ele o quanto você quiser e para. O Pokémon GO, ele te colocava todo tipo de limites. Ele te colocava pra poder ir pra rua. Aquele lugar que a gente… nunca teve tanto autista na rua quanto na época que lançou essa desgraça de Pokémon GO.
(Risos)
Gustavo: Essa praga da minha vida.
Deco: Nossa, eu lembro que eu corria, que eu ia atrás também e ficava ali. Minha sorte é que eu morava num pokestop que tinha. Então, nossa, era em casa mesmo. Isso aí era uma sorte.
Gustavo: Que alegria, não.
Deco: Mas, realmente.
Gustavo: Hoje eu tô tranquilo, eu tenho três contas de Pokémon Pocket, que é o de cartas, mas pelo menos eu consigo jogar onde eu tô. Eu não preciso ir pra outros lugares, eu não coloco um centavo nisso.
Deco: Ah, isso é ótimo.
Marx: Você faz um uso social da substância, né.
(Risos)
Gustavo: Dar cartinha digital para os amigos é uma forma de contato. Eles conversam com você por isso, nem que seja pra pedir outras caixinhas.
Deco: Aí, ó (risos).
Marx: Aí você lançou um questionamento muito importante aqui. O que que diferencia o hiperfoco do vício, né? Porque, assim, os dois trazem prejuízo.
Gustavo: O prejuízo ser monetário ou não. O vício, ele vai prejudicar seu dinheiro. O hiperfoco, nem sempre, quase nunca.
Izabella: Mais ou menos, hein?
Marx: Depende, né?
Deco: É (risos). Eu acho que o hiperfoco pode ser um tipo de vício, sabe? Mas eu acho que…
Gustavo: Sem abstinência, talvez?
Deco: É, tipo… Não é que ele seja um vício, eu acho que ele está relacionado a estar viciado também. Sabe? Eu acho que ele tende você a viciar. Porque pessoas autistas têm mais tendência a ter vício também, né? Mas ele tem diferenças fisiológicas, sabe? Se eu ficar sem Beatles, eu não vou ficar tremendo.
Marx: É. Eu acho que o hiperfoco, ele surge como uma ferramenta de regulação, a princípio, para o autista.
Deco: Sim.
Marx: Pensando no que você trouxe, quando ele deixa de ser uma coisa que você faz ali pra poder se regular ou pra meio que relaxar a cabeça, e passa a ser uma obsessão, uma procura. Eu acho que o que diferencia o hiperfoco… Isso é um achismo meu, eu não sei se está na literatura. Inclusive, o termo hiperfoco nem existe na literatura, né? O termo interesse especial existe. Talvez o que diferencia isso seja a tal da obsessão. Quando vira uma coisa obsessiva, uma coisa que a pessoa não vive sem aquilo. Talvez seria, né?
Izabella: Eu acho que não necessariamente, porque… Eu concordo com o que você falou, se não tiver prejuízo, de alguma forma, não é hiperfoco. Afinal de contas, é transtorno do espectro autista, então tem que ter algum tipo de prejuízo. Mas não necessariamente é só prejuízo. Entendeu?
Marx: Sim.
Izabella: O negócio é você conseguir, o que eu reconheço que é um desafio enorme, você conseguir regular a hora que você vai ter acesso a esse hiperfoco. Porque, por exemplo, é uma coisa que eu faço muito. O dia é pesado, eu tô super sobrecarregada, não consegui dar um sorriso durante, sei lá, 12 horas, as 12 horas anteriores.
Aí eu gosto muito de uma determinada série, eu falo “não, eu vou assistir esse episódio que eu já assisti simplesmente 50 vezes seguidas”, porque eu sei que isso aqui vai, sei lá, dar um “carinho” na minha mente, sabe? Então, não necessariamente é tudo prejuízo. É a mesma coisa você falar, tipo, que o autismo é só tragédia, que não sei o quê. Eu acho que entra no mesmo sentido.
Gustavo: Não, autismo também é comédia, temos comediante aqui.
Izabella: Exatamente. Óbvio que tem que ter a parte negativa, a parte da obsessão de você não conseguir se desligar disso, né? Mas eu acho que também pode ter, assim, o seu lado positivo. Não tô falando pra romantizar longe disso, eu já tive prejuízos sérios em relação a essas coisas. O último, mais recente, foi que eu atrasei algumas demandas de trabalho porque eu estava obcecada com piratas homossexuais.
Aí, durante o expediente, eu fiquei, “Gente, mas eu preciso pesquisar mais sobre esse assunto e tal”. E eu tinha que prestar atenção no negócio que eu estava assistindo, e minha cabeça, “Não, mas e se eu pesquisar aquela outra coisa?” Aí, acontece de alguma vez isso.
Aí, às vezes, eu tô fazendo uma matéria sobre o assunto X. Aí, eu acho um pequeno asterisco sobre esse assunto que não tem nada a ver com o que eu tô escrevendo. Aí, eu fico: “Meu Deus, mas isso aqui é muito mais interessante sobre aquilo do que aquilo”. Aí, tipo, vai e fica intensamente. Mas eu acho que eu fiz uma pequena confusão agora, porque esse hiperfoco que eu citei agora é mais o do TDAH do que o do autismo.
Marx: E aí, você chegou num ponto interessante, que é… Eu já ouvi falar que o hiperfoco cumpre papéis diferentes no TDAH e no autismo. As pessoas com TDAH que eu conheço, elas falam que os hiperfocos delas mudam, variam ao longo da vida, não são tão fixos assim.
Os hiperfocos que eu tenho são os mesmos desde que eu era criança. Quase, quase não mudou. Mas eu não tenho conhecimento suficiente para afirmar isso de um ponto de vista científico, mas pela observação dos relatos das pessoas, né? Mas eu observo que o autismo, ele tem uma tendência a gostar das mesmas coisas sempre.
Deco: Então, mas pra mim, essa é a diferenciação da hiperfixação que eu tinha falado e do interesse especial. Porque o interesse especial, pra mim, é algo contínuo. E a hiperfixação é algo que também, tipo, que vai e volta, sabe? Não é contínuo, é tipo… “Ah, de repente eu estou com hiperfixação…”.
Eu, por exemplo, tive day trade. Durante dois anos eu fazia muito day trade, eu buscava tudo sobre day trade, e de repente nunca mais, tá ligado? Mas foi um momento ali que eu me hiperfixei naquilo e depois passou. Enquanto Beatles é uma coisa contínua. Pelo menos pra mim, eu tenho… Pra mim, né? Pra eu explicar pras pessoas, eu diferencio isso, assim, sabe? Eu acho que é possível o hiperfoco não ser um interesse especial.
Marx: E aí vem aquela pergunta de um milhão de dólares: dá pra escolher?
Izabella: Mais uma.
Marx: Mais uma, né? Essa é a de meio milhão de dólares, então… Dá pra escolher os hiperfocos ou é uma coisa automática?
Deco: O hiperfoco te escolhe (risos). É que nem o varinha do Harry Potter.
Marx: É igual o chapéu do Harry Potter.
Deco: É o quê?
Gustavo: Se você der sorte, ele é rentável.
Deco: É, exato. Eu consegui fazer o meu ser rentável, mas…
Izabella: Nossa, se fosse fácil assim, escolher o hiperfoco, todas as autistas eram milionárias. Aí você fala assim, “Cara, agora eu vou hiperfocar”.
Gustavo: Agora eu não preciso fazer mais nada. Posso voltar pro meu gosto original dos cinco anos de idade e agora eu tenho tempo pra ele.
Deco: Não, mas eu acho que a prova de que a gente não escolhe é que o hiperfoco atrapalha a gente fazer as coisas que deveria estar fazendo. Senão a gente escolheria só fazer o que a gente está fazendo hiperfocadamente, assim, sabe?
Izabella: Não sei, porque o problema não é o assunto do hiperfoco, necessariamente, é a intensidade. Porque, tipo assim, o problema não é assim: “Ah, você tem hiperfoco em Beatles”. Não é um problema, não. É ruim porque os Beatles são uma bosta. Eu não acho isso, é um exemplo. É ruim, sei lá, porque você está perdendo o tempo da sua vida
e não consegue pensar em outra coisa.
Deco: Então, mas aí eu acho que é tipo… Mas eu não escolhi ser hiperfocado em Beatles e se eu conseguir dinheiro só por conversar sobre Beatles, eu acho que, vixe, nossa, estava feliz. Alguém me contrata. Mas eu estava feliz, sabe?
Mas ao mesmo tempo, por exemplo, eu tinha que trabalhar, eu fazia atendimento. Se eu pudesse escolher o meu hiperfoco em atendimento, eu teria naquilo porque me daria muito dinheiro, ia ser positivo para mim. E por eu não escolher o hiperfoco, ele vira um prejuízo.
Marx: É, e tem aquela coisa também, se você transforma tudo que você gosta em trabalho, vai sobrar o que para você se desligar do trabalho e relaxar?
Deco: Não, é isso que eu não gosto, eu parei de gostar de comédia (risos).
Izabella: Você nunca mais vai gostar de nada.
Marx: Esse é o problema. Porque, por exemplo, eu tenho hiperfoco em música, né? Mas não em música no sentido de história da música e fatos históricos e informações, tipo como o Tiago, que é uma bíblia de informação sobre disco, sobre cantor. Eu tenho hiperfoco na música em si, né? Na vivência musical, instrumento. Eu toco vários instrumentos, canto, etc. E em algum momento da vida, alguém me sugeriu transformar isso em profissão. E eu não quis. Porque eu pensei: se eu transformar isso aqui em profissão, o que vai sobrar para me refugiar quando o trem estiver pegando, né? E essa é uma área da vida que eu considero como sagrada e que eu não misturo com o trabalho.
Daí eu fui fazer outra coisa. Acabou que eu transformei o meu hiperfoco em conhecimento geral, assim, ciência, biologia, em fazer uma graduação e eu virei farmacêutico e fui trabalhar na área de farmácia. E acabou que isso me ajudou a terminar a graduação, ter o hiperfoco em aprender. Mas ainda assim, foi muito difícil conseguir, em alguns momentos, fazer algumas coisas esperadas do ponto de vista social. E as matérias que eu achava desinteressantes, eu passava na força do ódio (risos).
Deco: Ah, sei.
Marx: Desde a época da escola, né? A gente entra muito naquela discussão do… Vale a pena eu pegar uma coisa com hiperfoco? Ou até mesmo uma coisa que eu gosto muito, que é um interesse especial, que faz eu diminuir a ansiedade, que faz eu me regular, que faz eu me desestressar, sair um pouquinho da pressão do trabalho e transformar isso em trabalho e não ter outro lugar para ir. Eu sei que cada um deve ter essa coisa que funciona e no seu caso são as séries, né? Talvez isso seja um problema também.
E pensando nisso, essa coisa de ficar rotulando hiperfoco como inútil ou perda de tempo, ou hiperfoco como sendo uma coisa útil porque gera algum tipo de benefício para outras pessoas, vocês já passaram por isso? De ter o seu hiperfoco como uma coisa que o povo fala: “Ah, deveria fazer dinheiro com isso”, “Ah, você podia trabalhar com isso”. Por quê? Porque isso é útil. E de aprender: “Ah, isso é uma perda de tempo, ficar correndo atrás desses pokémons aí, isso aí não dá dinheiro”. Os povos velhos gostam de falar: “Ah, isso aí não dá dinheiro”. Nada dá dinheiro, você tem que trabalhar para conseguir dinheiro. Enfim, eu já passei por isso. E é chato. É bem ruim.
Gustavo: Eu acho que é porque a gente vem de uma situação econômica não muito confortável em termos de país, nação. A maioria dos brasileiros ralam bastante para poder conseguir o básico. Então, tudo que o pessoal vê, pô, é uma chance de dinheiro. É que o pessoal fala “Se eu gostasse de música como o Marx gosta, eu ganhava dinheiro fazendo música”. Mesmo que ela não fizesse dinheiro com música, mesmo que você não fizesse dinheiro com música, porque não é uma área fácil de se fazer dinheiro, mas ela fala: “Se eu tivesse esse talento, eu fazia dinheiro com ele”.
Porque as pessoas estão muito preocupadas, com razão, em sobreviver, em pagar as contas. Elas não vão nessa segunda parte. O pensamento delas não vai tão longe de “Porra, mas se eu pegar essa música para trabalhar, a hora que eu quiser descansar, eu não vou descansar mais”. Porque era o que eu fazia para poder descansar. Eu perdi meu descanso. O pessoal não vai tão longe.
E assim, dinheiro é bom. Muito bom. Muito importante. Mas se você fizer tudo em função do dinheiro, e tem gente que até consegue, você fode o resto da sua cabeça pelo resto da vida. É bom ter uma coisinha para poder escapar. Principalmente se você tiver as contas pagas, não tiver devendo ao banco, cartão de crédito e tudo mais. Pode.
Izabella: Eu acho problemático isso de chamar de inútil. Primeiro porque isso é parte do pressuposto que eu consegui escolher o hiperfoco que eu queria. Que eu não fiquei obcecada com canetinha colorida, ao ponto de escrever uma letra de cada cor. E se eu errasse, eu chorava e começava de novo.
O outro problema é você pegar e falar uma coisa para outra: “Mas qual que você ganha com isso?”. Não necessariamente só em termos financeiros. “O que você ganha?”. Eu não posso fazer as coisas só porque sim, eu preciso ganhar alguma coisa com isso? “Mas qual é o benefício disso?” Eu quero fazer, eu preciso ser 100% produtiva e entregar benefícios para a sociedade o tempo inteiro. Eu acho que parte muito dessa problemática da desvalorização do ócio, que eu sei que é um prejuízo, que a maioria esmagadora das pessoas não tem esse tempo. Mas eu acho bem problemático você pegar e falar: “esse hiperfoco é inútil, não é legal”.
Gustavo: Eu acho que uma forma de responder isso sem sair xingando a pessoa como deveria ser feito, é você falar: “é útil sim”. Não é porque não está rendendo dinheiro que a gente está falando que não é útil. Deixa eu te explicar, ver essa série me ajuda a dormir. Jogar esse joguinho me ajuda a aliviar o estresse que eu sinto ao longo do dia. E vai fazer com que eu seja mais produtivo amanhã quando eu estiver no horário que eu tiver que produzir.
Existe ganho. Seja ele qual for, você está ganhando algo. “Ah, eu estou recebendo um reforço positivo”. “Ah, eu estou recebendo mais tranquilidade”. “Ah, eu estou conseguindo passar um momento que a minha mente mega agitada não está mega agitada, eu tenho possibilidade de fazer o resto”. Eu tenho ganho. Só que a pessoa não consegue ver esse ganho. Então você conta para ela qual é esse ganho e aí se ela continuar insistindo, aí sim você parte para o xingamento.
Deco: Não, eu acho que nessa coisa de… Eu não acho que tem inutilidade em nada, porque eu acho que tudo é útil até… Até não fazer nada também é útil, né? Tipo, nessa questão de… Exatamente, de descansar e tal. Mas eu acho que eu sou a única pessoa da mesa que conseguiu transformar o hiperfoco realmente em algo financeiro, né? Não sei de vocês, assim. E é ruim (risos). Porque tudo que vira trabalho é ruim, né? Se trabalhar fosse bom, ninguém pagava. Se trabalhar fosse bom, ninguém pagava.
Marx: Genial (risos).
Gustavo: Fazia voluntariamente.
Deco: Não, eu faço de graça pô, se trabalhar é bom. Tá ligado? E a comédia era boa quando eu não precisava dela para pagar a minha conta. A partir do momento que eu preciso de que vá gente no show. Porque antes eu fazia show para duas pessoas e estava feliz. Hoje eu faço show para 30 e eu falo… “Puta, tinha que estar fazendo pra 100, senão no final do mês não vou pagar a conta.” Vira um estresse, mas não por causa necessariamente do tema, né? No meu caso, que é a comédia. Mas é porque o dinheiro.
Porque se a comédia pagasse bem não ia ser um estresse nenhum. Se eu não precisasse me importar com quantas pessoas estão indo assistir, não ia ser um estresse nenhum. Meu estresse é muito mais o financeiro de manter isso, sabe? De manter, ganhar dinheiro com hiperfoco que é tão difícil, do que realmente ter que fazer esse hiperfoco todo dia. Ter que fazer isso todo dia. Ter que fazer isso todo dia para mim é ótimo.
Gustavo: Sim, concordo. Mas não chega a ser um problema quando por um acaso dá certo. Você usar o hiperfoco para poder ser algo produtivo. Tem uns malucos aí que tem interesse em bicho, em qualquer coisa e lançam o jogo Pokémon. Olha eu trazendo ele aqui de novo.
Mas nós temos duas pessoas aqui na mesa que têm interesse em aprender. Que tem hiperfoco em aprender e elevam uma capacidade de aprendizado boa. Resultado? As duas têm menos estresse financeiro porque são concursadas. E eu continuo preocupado com mês seguinte todo mês mesmo eu estando com emprego que eu estou OK.
Deco: Sim.
Gustavo: Eles conseguiram. Eles conseguiram usar isso de forma positiva. Então, ah, o hiperfoco em música. Por favor, vocês dois. Em algum ponto vocês devem ter conseguido algum relacionamento mesmo que extremamente passageiro por causa de música. Ah, músico ganha os pontos aí.
Marx: Com certeza (risos).
Gustavo: Olha o ganho aí, Marx. Para que melhor?
Deco: Eu acho que é tipo… Não, os ganhos vai ter. Mas tem prejuízo no caminho até o ganho, entendeu? Acho que as pessoas precisam entender melhor isso. Que é tipo… “Ah, não, mas você tem hiperfoco nisso. Você é tão bom porque você hiperfoca nisso”. Sei lá, a pessoa não consegue ter tanta dedicação quando a gente tem coisas inúteis, né? Aí a gente tem uma dedicação…
Pô, eu tive muita dedicação em comédia. Muita dedicação, gente. Eu deixei de aniversário, de coisa para fazer show para quatro pessoas num lugar vazio, cheio de barulho, tá ligado? Isso é dedicação que outras pessoas típicas com certeza não teriam. Mas essa dedicação tem um prejuízo, né?
Tem algo positivo de eu poder me concentrar e me dedicar 100% numa coisa que é muito difícil as pessoas fazerem, ganhar dinheiro com isso. E eu consegui muito por conta do meu hiperfoco também, comédia, de entender, de não desistir. Mas ao mesmo tempo, nesse caminho todo tive muito prejuízo por causa desse hiperfoco também, sabe? Tudo é sempre uma faca de dois gumes nesse sentido, sabe? Tipo, o hiperfoco nunca é 100% positivo nem também 100% negativo, né? Porque, como a gente falou, ajuda a gente de qualquer maneira, no mínimo, pelo menos ajuda a gente de alguma maneira.
Marx: Você imagina eu com hiperfoco em política nos últimos 20 anos no Brasil. O que aconteceu no Brasil, né?
Gustavo: A culpa é dos seus pais, cara. Te batizaram de Marx. Esperavam o quê?
(Risos)
Deco: Aí vem do berço mesmo.
Marx: É, mas eu arrumei muito desafeto já. Não só na internet, que era o lugar onde eu mais ficava discutindo política e batendo boca com um monte de gente. Mas presencialmente também. Eu já fui evangélico, de igreja evangélica durante uns 7, 8 anos. E eu saí da igreja. Na época, eu saí por causa de política.
Deco: Qual a igreja?
Marx: A Assembleia de Deus.
Deco: Ah, também, né? Aí, né?
Marx: Sem condições (risos).
Deco: Aí também, né? Aí também você não se ajuda, né?
Gustavo: Aí, ó. Olha aí, ó. Você mostra o benefício do hiperfoco. Te livrou de lá.
Deco: É (risos).
Marx: É, mas aí o… o hiperfoco em música me levou pra lá na época, né?
Deco: Aí, ó, o prejuízo do hiperfoco.
Marx: Nós demos dois exemplos. Um de como pode ser bom e um de como pode ser ruim (risos).
Izabella: Por isso que é uma faca de dois gumes.
Gustavo: Exato.
Izabella: O Deco acabou de falar.
Deco: Exato. Nunca vai ser 100% positivo, sabe? Nesse sentido.
Izabella: É, mas eu acho que é bom ressaltar outra vez essa questão do prejuízo. Porque eu fico muito preocupada com essa questão… Com…
Deco: As pessoas não entenderem.
Izabella: Com a banalização. Porque eu estou vendo muito esse tipo de discurso e eu fico angustiada. O pessoal achando que é só gostar muito de um assunto. E então, como estamos aqui na tentativa de passar informação, eu acho que vale muito ressaltar esse caráter de que tem… São os dois lados, né? Mas o lado do prejuízo, ele existe também. Não é só…
Deco: É constante.
Izabella: É, felicidade, maravilha e… Enfim.
Marx: E ninguém fala também sobre… Como é a vida do autista adulto, que tem os hiperfocos, que muitas vezes, por uma questão de convenção social, a gente guarda pra nós. E quando chega em casa, o cônjuge tem que aguentar você falando duas horas sobre um assunto (risos). Quantas vezes eu já não fiquei falando, um tempão, sobre coisa de política, de geopolítica. Sobre mecânica, sobre carros, que eu sou apaixonado, inclusive…
Gustavo: É, por que não virou mecânico?
Marx: Por que não virei mecânico? Porque não deixaram, né? Eles falaram: não, você vai estudar…
Deco: Também tá isso, não deixam.
Marx: Ou motorista, né? Eu era muito hiperfocado em ônibus quando eu era criança, né? Muito, muito mesmo. Atualmente, o hiperfoco mais forte que eu tenho é em mecânica mesmo. Tem dias que eu fico horas vendo vídeos sobre isso. E pesquisando, e… E tem muita gente na internet que… Não só gente que trabalha com isso, mas… Gente que estuda também, da engenharia e tal.
Eu até brinquei esses dias que se eu tivesse que fazer uma graduação hoje, do zero, eu ia ser engenharia mecânica e não farmácia, né? Só que tem gente que fala assim, não, mas… Hoje em dia tá valendo mais a pena fazer farmácia. Porque depois da pandemia, a farmácia fez isso aqui, né? Eu falo: pois é, né? Mas… Mas…
Deco: Precisa não, né?
Marx: É… Eu gosto muito da minha área, só que assim… Hiperfoco é hiperfoco. Não se explica, é simplesmente… Sim. Simplesmente é um…
Deco: É o que é, né?
Marx: É um prazer indescritível de ficar vendo sobre aquilo. De ficar pesquisando, de falar sobre aquilo!
Deco: Mas uma coisa nessa mecânica que você falou. Algum dia você vai estar num carro, vai estragar. E você vai conseguir consertar o carro, tá ligado? Aí vão falar: “Nossa, ainda bem que você tem hiperfoco em mecânica”. Mas o caminho inteiro de prejuízo até chegar a esse dia… Sabe? Tipo, por causa desse hiperfoco, um dia vai ser positivo. Sabe? Eu acho que é isso que as pessoas precisam entender. O hiperfoco tem momentos positivos mesmo. Que vai ser útil, mas… Tipo, tem prejuízo até a gente entender tudo. Até… Enfim, sei lá.
Marx: Esse episódio, como ele ficou um pouquinho longo, ele será dividido em duas partes. E na próxima semana, nós teremos a parte 2. Muito obrigado, até mais.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Izabella Pavetits | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

