Introvertendo 293 – Movimentos Repetitivos, Stims, Estereotipias, etc

Muitos nomes diferentes são dados aos movimentos repetitivos que autistas fazem. Alguns chamam de stimming, outros estereotipias, mas independentemente do termo, são sinais bastante perceptíveis e comuns que autistas podem apresentar. Neste episódio, Gustavo Borges, Izabella Pavetits e Marx Osório, com a participação especial de Ana Júlia Arantes, destrincham quais são esses movimentos, sua função e muito mais.

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Transcrição do episódio

Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam. Eu sou Gustavo Borges e aqui comigo cada um com seu próprio tique estão…

Izabella: Oi, eu sou Izabella, você teria um minuto para ouvir a palavra do stim toy?

Marx: E aí meus queridos, eu sou Marx Osório, farmacêutico e eu sou uma estereotipia ambulante (risos).

Ana Julia: Olá, meu nome é Ana Julia Arantes, eu sou psicóloga e eu acho que eu estou estereotipando desde o episódio anterior.

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[Vinheta de abertura]

Gustavo: Uma das características mais comumente vistas no autismo são as estereotipias, os movimentos repetitivos. Seria aquele básico, se alguém está tentando imitar um autista, possivelmente é por ali que a pessoa vai tentar começar. Isso vale para cinema, séries, literatura, é um dos sinais mais fáceis de se perceber.

E para poder debater isso e esmiuçar, eu trouxe uma mesa cheia de pessoas muito bem estereotipadas, com cada uma com seus próprios tiques ou um tique coletivo que está acontecendo aqui, desde a abertura das mesas se estarem girando. A gente vai terminar dando uma pirueta em cada cadeira.

Ana Julia: (Risos)

Gustavo: Todo mundo aqui tem seus movimentos, tem aquilo que faz mais, que ajuda a acalmar, ou simplesmente é uma manifestação da sua ansiedade. Mas em termos mais técnicos, mais profissionais, como é que a gente define essas estereotipias dentro do autismo, pessoal?

Marx: Bom, as estereotipias são movimentos repetitivos que têm a função de regular, ou pode ser a maneira do corpo expressar alguma agitação, alguma sobrecarga. Então, são movimentos que são característicos do autismo, do transtorno do espectro autista. E eles são uma das características, um dos critérios de diagnóstico, que estão lá no DSM-5.

E eu vejo que o nível e o tipo de estereotipias varia bastante dentro do espectro. Eu conheço pessoas que são autistas que têm estereotipias extremamente sutis, né? Que só quando você convive um pouquinho mais, ou ela tá muito nervosa, você percebe que tem pessoas que têm estereotipias muito visíveis.

E uma coisa que eu fico pensando é até que ponto, na maioria dos casos, as estereotipias, elas são realmente mascaradas, e as pessoas fazem esforço para tentar esconder de fato, ou quando que realmente é porque existem autistas que estereotipam menos. Talvez as duas coisas aconteçam, mas é um bom ponto pra gente pensar aqui também.

Gustavo: Eu acho que alguns estereotipam menos, com certeza, até porque eu não sou a pessoa mais óbvia de estereotipias. A menos que você olhe o teclado de onde eu trabalho, você vai ver que ele é lotado de pelos, porque toda hora eu fico assim, principalmente se eu não tô digitando, se eu não tô fazendo alguma coisa, eu tô fazendo assim porque eu tô pensando, eu tô tentando fazer algo render ali.

Mas tem algumas que são muito discretas. Tem pessoal que só mexe um pouco a mão, que estala o dedo, dá uma balançadinha na perna, mas tem o pessoal que fica girando. Tem o pessoal que precisa estalar o dedo, tem o pessoal que precisa fazer um movimento que é mais nítido ao olho humano.

Ana Julia: É porque dentro do DSM-5, na versão TR, que é a versão revisada, são comportamentos repetitivos com características de rigidez cognitiva. Então, lá dentro existem as estereotipias motoras, mas também existe a rigidez cognitiva, a seletividade alimentar, a ecolalia, por exemplo. Todos esses são comportamentos repetitivos que têm ali uma finalidade de regulação sensorial, regulação emocional. Todos esses comportamentos têm uma função.

Quando a gente fala de estereotipia, a gente tá dizendo de um comportamento estereotipado, mas que não necessariamente é um comportamento motor. Então, quando a gente fala, por exemplo, talvez alguns autistas estereotipam menos, talvez eles tenham menos estereotipias motoras, talvez ele tenha mais uma ecolalia verbal interna, talvez ele pense mais, talvez o pensamento dele seja mais acelerado, talvez ele tenha muita ruminação, ele pensa várias vezes no mesmo tema, ele não consegue fechar os temas, ele pensa várias vezes no mesmo conflito. Isso também é caracterizado como um comportamento repetitivo quase que obsessivo, digamos assim. Mas não pode ser confundido com um TOC.

Uma seletividade alimentar também, comportamento repetitivo, a pessoa comer sempre exatamente a mesma coisa, uma quantidade restrita, restrito também é importante. E não necessariamente porque ela tem alguma questão alimentar, mas porque ela tem uma rigidez cognitiva. 

Gustavo: Eu gostaria só de ressaltar um ponto que você colocou, dela ter uma linha de pensamento repetitiva, dela ter um pensamento, uma ordem, algo que vem sempre na cabeça dela, porque você está olhando pra pessoa, você não está enxergando isso. Então é um comportamento repetitivo que acontece, que tá ali, a pessoa tá loucamente dentro da própria cabeça, tentando resolver pela milésima quinta vez a mesma questão, mas lá fora você não tá vendo. Nem parece autista, que é a coisa que a gente mais odeia escutar aqui. 

Marx: Uma dúvida que me surgiu é: como diferenciar o que é sensorial do que é comportamento repetitivo? Você falou da seletividade? E eu sempre olhei a seletividade alimentar pelo viés do sensorial, mas eu nunca tinha pensado nesse ponto de vista da rigidez fazer com que o comportamento alimentar repetitivo seja também uma busca por regulação. Mas isso tem a ver com estereotipia ou só com comportamento repetitivo?

Ana Julia: É porque existem duas categorias de comportamento. Existem comportamentos reflexos, ali entra tudo que é sensorial. Então uma sensibilidade à luz, a luz reflete, você se sente sensível, você é hipo ou hiperreativo. Isso é um comportamento reflexo.

E existem os comportamentos operantes, comportamentos que têm uma determinada função e que são aprendidos, digamos assim. A rigidez é um comportamento aprendido de certa forma e que pode ser trabalhado. E por isso a gente tem avanços terapêuticos em relação à rigidez cognitiva. E aí eles não estão na mesma categoria de comportamento.

Então quando a gente fala, por exemplo, que a seletividade alimentar pode ter a função de regular uma questão sensorial, é porque ela em si não é uma questão sensorial. Então a seletividade alimentar é uma resposta do seu organismo a uma hipersensibilidade, por exemplo. É uma forma de se defender. 

Marx: Bom, e sobre a questão das estereotipias sutis, que tá no assunto então, eu não sei se eu sou a melhor pessoa para falar porque as minhas estereotipias são muito visíveis. Eu nunca fiz nada sutil, inclusive antigamente era pior do que é hoje.

Eu observo muitas estereotipias sutis em pessoas que eu vejo que têm muita chance de ser autista, que não têm diagnóstico formal e que ficam tentando esconder as estereotipias, mas que em algum momento da vida lá atrás pode ter apresentado de maneira mais visível, mas por conta de bullying… Uma das coisas que eu vejo é a implicância da maioria das pessoas com a estereotipia, pelo fato de ela ser uma coisa que não é esperada por um adulto, é que é o grande X da questão que a gente às vezes enfrenta. 

Izabella: Então, as minhas estereotipias, elas… Na natureza delas, elas não são sutis, mas eu meio que obrigou elas a serem até o ponto que eu consigo. Como assim? Se eu tiver num ambiente que eu me sinta 100% segura, que eu acho que não vai ter nenhuma repercussão negativa, eu gosto de balançar o corpo de um lado pro outro, de ficar balançando a perna, sei lá, de fazer dancinha só porque sim. Enfim, várias coisas que chamariam mais atenção, que nem o Marx falou, principalmente adultos, fazendo nada, mulher adulta se balançando de um lado pro outro, no shopping, não dá, né? Então, entra… Não dá sim, dá, mas vocês entenderam o que eu quis dizer.

Na medida do possível, eu tento fazer coisas que teriam essa função, mas que são mais sutis. Acaba que por muito tempo da minha vida eu fui adepta das estereotipias autolesivas, porque eu não achava que eu poderia fazer o que eu tava querendo fazer na hora pra me regular. Então, eu me regulava de outro jeito. Eu me unhava, ficava arranhando perna, braço e tal.

Marx: Você trouxe um exemplo de uma estereotipia onde você tinha um prejuízo físico, né, autolesivo. E esse tipo de estereotipia tem que ser tratado, tem que ser trabalhado. Aí a gente pode falar em redução de danos, em estereotipias que sejam menos danosas,

pra você descarregar essa ansiedade, essa energia de outra maneira, né? Por exemplo, eu tinha uma maneira de roer unhas e de ficar puxando isso aqui, ó.

Gustavo: A pelinha. 

Marx: É, e isso é um tipo de estereotipia também. E depois que eu fui aprendendo outras maneiras de me regular e fui me permitindo fazer movimentos repetitivos mais sutis e não se preocupar tanto com julgamento alheio, assim, aí foi melhorando.

Porque, por exemplo, eu não tenho nenhum problema hoje de ficar balançando assim, enquanto eu tô balançando aqui, ou de repente de sair pra algum lugar balançando pra lá e pra cá, eu vou ficar balançando a perna. Eu tenho uns objetos sensoriais também, né, tipo os spinning, que ajudam também. Tem gente que gosta daqueles mais pegajosos, eu uso, eu detesto, né? Eu gosto mesmo daqueles que gira, que você aperta. Por exemplo, eu tenho um botãozinho lá que eu tô procurando um daqueles, mas eu não achei, mas vou achar. São estratégias.

Izabella: O Marx comentou de formas de lidar com essas estereotipias negativas, porque a estereotipia em si não necessariamente é um problema. O problema é quando ela se torna um prejuízo, né? Então, por exemplo, eu tinha essa questão da estereotipia autolesiva, que eu mencionei mais cedo, só que aí, engraçado, porque isso foi antes de diagnóstico, antes de qualquer coisa, mas eu tava num evento de anime com as amigas minhas, aí tinha um standzinho vendendo coisa de colarzinho, não sei o quê, aí eles acharam um anel que rodava, elas acharam um anel que rodava, e elas compraram pra mim, falaram “você pode ficar rodando um anel, ao invés de ficar unhando seu próprio braço”. E é o anel que eu estou usando agora, neste exato momento do meu polegar, ele vive permanentemente na minha mão e ajuda bastante.

Então, essa questão dos stim toys, ela é mais recente, né? Mas a partir do momento que eu fui apresentada pra eles, eu fiquei meio obcecada, eu tenho uma coleção lá em casa, eu já gostava antes de saber que eu era autista, depois que eu fiquei sabendo, eu falei: “nossa, vai me ajudar muito, agora eu vou testar todos os modelos possíveis”. Odiei o pegajoso também, o de apertar durou um dia na minha mão (risos).

É importante a gente encontrar formas de regular também, independentemente de qual seja essa forma, que não atrapalhe a gente, que causem esse prejuízo. Por exemplo, não sei se alguém já reparou, eu estou sempre com a bolsa no colo na hora da gravação, porque é uma coisa que me traz… Ter um peso em cima do meu colo, traz um conforto emocional. “Ah, mas isso não faz sentido nenhum”. Eu sei, mas traz.

E é uma coisa que eu faço com regularidade, sempre que eu estou, sei lá, em bar, chego no trabalho, o pessoal fala: “ah, coloca a bolsa aqui”, não sei o quê, não quero colocar. Porque é uma coisa que, por exemplo, se eu estiver ansiosa, vai impedir que eu, de repente, comece a cutucar o braço e tal, porque eu queria falar para vocês: “olha, depois de todas as estratégias me curei”, mas infelizmente não é o caso, acontece. 

Gustavo: Mas você encontrou formas mais saudáveis de lidar com isso, que é o melhor cenário que alguém poderia esperar.

Izabella: Exatamente. 

Ana Julia: Eu comecei, antes de ter o diagnóstico, a trabalhar com autismo numa clínica infantil. E eu sempre observei que os pais, no início do tratamento, eles buscam sempre, de alguma forma, extinguir as estereotipias antes de qualquer outra coisa. Então, muitas vezes, no plano de tratamento da criança, tem pontos ali que são muito mais importantes de serem trabalhados, como por exemplo, a fala, como por exemplo, socialização, e as estereotipias não estão causando nenhum prejuízo na vida daquela criança, servem para ela se regular. Crianças muito novinhas, algo que naquele momento nem seria visto como estranho, talvez mais para a frente ela receberia algum julgamento. Mas é o que os pais se preocupam. “Então, a gente precisa suprimir essa estereotipia o mais rápido possível”. E a gente acaba tendo que fazer essas intervenções mais para suprimir uma necessidade dos pais, às vezes até fazendo mal para a criança, do que, de fato, atendendo a necessidade da criança autista. E isso é muito ruim de se falar, porque é assim que funciona. 

Izabella: Infelizmente, eu acho que é uma questão que parte do social mesmo, porque chama atenção a criança ficar com estereotipias físicas, e aí os pais ficam muito preocupados com o que os outros vão pensar e tal, ficam afoitos para resolver logo.

Por exemplo, eu não tinha diagnóstico quando era criança, mas eu tinha essas estereotipias que eu ainda tenho quando estou em ambientes seguros. Meus pais ficavam corrigindo na questão, mas era mais falando: “Não, menina, não faz isso, fica quieta, para de balançar, para de sacudir o braço”. Então, acho que é uma cobrança que acontece mesmo nas crianças com ou sem diagnóstico (risos).

Ana Julia: Mas aí você pensa, aconteceu essa cobrança e a forma foi estereotipias menos visíveis, mais autolesivas. Então, você encontrou outra forma de se regular, muito mais prejudicial do que se balançar.

Izabella: Sim.

Ana Julia: Então, eu acho que é um ponto para se pensar. 

Marx: Tem uma coisa também, né, que quando os pais resolvem seguir esse caminho de ficar tentando reprimir, porque é socialmente inadequado, eles estão muito mais preocupados com a imagem social da criança deles do que com o bem-estar da criança.

Gustavo: Eles estão preocupados com a imagem deles e que a criança agregada a eles tem. “O que meus amigos vão pensar que eu não consigo controlar minha criança?” Olha aí que beleza. Olha que bela ideia.

Marx: E aquela coisa de achar também que toda estereotipia é só um comportamento ruim de criança que precisa ser trabalhado. Só que o tempo vai passando, algumas vão piorando, outras vão ficando do mesmo jeito. E aí, quando a pessoa cresce, que ela já é extremamente cobrada para não fazer aquilo, ela vai descarregar a sobrecarga em lugares nada saudáveis. Às vezes ela vai com o comportamento autolesivo, às vezes ela vai para os vícios, ela vai para as drogas, vai descarregar isso em outras fugas. Ou até mesmo no comportamento. Ela desenvolve comportamentos afetivos ruins para poder se autorregular. Eu acho que todo comportamento ruim que o autista não trabalha só vai ficar pior com o tempo.

Gustavo: É muito fácil.

Marx: E vai recalcando. Eu falo de um lugar de uma pessoa que sofreu bullying a vida inteira com as estereotipias também. E eu sempre reagia de maneira muito assim, a ficar irritado com as pessoas. Eu não ficava com… Eu não tinha essa postura que você falou de… Assim, cada um tem uma estratégia para lidar com isso, evidentemente. Mas tinha essa postura de ficar me agredindo porque eu não poderia fazer estereotipia. Eu ficava brigando. Então, isso também é um tipo de prejuízo.

Izabella: É porque você é homem, Marx.

Marx: E porque eu sou muito pavio curto também, né? Eu prometi em 2026 ser uma pessoa mais tranquila, então, estou na missão aí. Mas eu não respondia na hora. Eu falava: “Ah, o que é que tem? O que você está falando isso?”. “Ah, eu sou assim mesmo, e daí?”. Tipo assim, acabava que eu passava de sem educação, de sem cultura, de sem modos, por conta de também não aceitar que as pessoas ficassem me criticando por causa das estereotipias.

Ou às vezes os pai ficava com: “Ah, você está parecendo a sua tia fulana, mas que é doido, não sei o quê”. E falava de um jeito pejorativo, às vezes. Então, tem uma carga emocional muito importante também.

A grande questão que eu ainda me pego pensando sobre isso é até que ponto isso é uma coisa saudável pra mim hoje? Isso afeta ou não afeta os outros? Isso afeta ou não me afeta? E o que que a gente pode manter que eu considere saudável? Eu acho que é aquilo que não atrapalha o que eu estou fazendo, não atrapalha a minha relação com as pessoas com que eu estou me relacionando, seja profissionalmente ou pessoalmente. E aquilo que não me agride. Eu acho que dá pra começar por ali.

Gustavo: Cara, eu quero só fazer um adendo antes, que eu acho muito interessante você falar: “Ah, você está parecendo sua tia que é louca”. Você já falou que tem uma série de casos de autistas diagnosticados e não diagnosticados na sua família, muito mais não diagnosticados. E mesmo entre vocês, vocês ficam mesmo cutucando a estereotipia um do outro?

Marx: Eu não posso denunciar quem foi que falou isso não, mas enfim. Tem, a maioria não diagnosticados sim, mas o ponto principal aqui, porque eu não quero dar nome pra ninguém que falou isso, a pessoa ficava tentando pegar um “mau exemplo” de alguém que era próximo pra poder eu não fazer aquilo, porque aquilo é errado. Tentando educar pela comparação, que é uma coisa ruim também, se você for pensar. E eu nunca funcionei dessa forma. Quanto mais você criticava, mais eu ficava puto. Então assim, realmente só funcionou no dia que eu entendi o que que era, que eu passei a fazer terapia, e que eu comecei a entender que na verdade eu tenho direito de ter algumas estereotipias enquanto autista, sim. Mas eu tenho que manejar isso de maneira que eu faça algo que não me prejudique. 

Izabella: Que tipo de estereotipias você acha que você não tem direito a fazer?

Marx: Aquelas que me fazem mal e aquelas que…

Izabella: Não, aí não é questão de direito, não foi isso que você falou.

Marx: Vou dar um exemplo aqui. Eu trabalho atendendo pessoas também, além de mexer com medicamentos. Não dá pra eu ficar lá num ambiente que eu trabalho, andando pra lá e pra cá o tempo todo sem propósito. Isso é um exemplo. Eu passo a maioria do tempo sentado na frente do computador, ou puxando medicamento, ou repondo estoque.

Então o que que eu faço? Eu tenho o meu movimento de balançar assim, ó. Que eu sempre tive, mas que hoje em dia eu faço muito mais que antigamente. O que é uma coisa sutil, é uma coisa que não me atrapalha de fazer o que eu tô fazendo, é uma coisa que me regula demais, eu acho maravilhoso. Inclusive o meu filho de quase dois anos faz o mesmíssimo movimento. E a genética é implacável, né?

E eu senti que eu deixei de fazer outras estereotipias que chamam mais atenção depois que eu passei a fazer essa. Inclusive eu reduzi o uso de objeto sensorial no ambiente de trabalho. Porque antes eu ficava com o spinning na mão o tempo todo, eu quase não uso, mano. E não tô sentindo falta. E quando eu falo sentir falta, é porque faz falta mesmo, porque gera ansiedade. Eu não sei como é que é pra vocês, mas assim, se eu tentar ficar 100% do tempo parado aqui, daqui dez minutos minha cabeça começa a entrar em parafuso. 

Gustavo: Eu acho que é muito uma questão de que precisamos de uma válvula de escape. Qual é ela, a gente vê. É negociável. Existe uma margem de manobra ali. A gente já falou da Izabella, que foi de algo que era prejudicial pra ela pra algo que não é prejudicial. E a gente tá falando de você, que precisava de um brinquedo em cada mão pra poder funcionar. E falou: “olha, as pessoas olham mais feio pro brinquedo do que olham para esse movimento aqui na cadeira. Então eu vou fazer esse movimento na cadeira e nem preciso do brinquedo”. É negociável.

Dentro da rigidez que temos, que precisamos de fazer algo, dá para você escolher algo que é menos prejudicial, ou que passa mais batido, ou que simplesmente, quem tá perto de você, acha mais tranquilo. A gente tá aqui falando muito de estereotipias que geraram prejuízos sociais. Eu tenho uma estereotipia que me gerou prejuízo financeiro. Eu tive durante muitos anos o péssimo hábito de tirar a correntinha aqui do pescoço e ficar girando no dedo. E girando. E numa dessas eu devia ter 10 ou 11 anos, tava deitado numa rede, numa fazenda, e gira, gira, gira, gira. Puf, sumiu a minha correntinha. Eu passei o dia procurando essa corrente na grama. Eu passei o dia seguinte procurando essa corrente na grama. Essa corrente nunca mais foi encontrada. 

Marx: Depois dessa, nunca mais você ficou rodando nada (risos).

Gustavo: Rodei! Depois, quando eu tive outra corrente, eu rodei. Deve ter, sei lá, 5 ou 6 anos que eu parei de ficar andando com corrente todo dia. Mudei de uma correntinha curtinha pra uma de prata e de dragão, já devo ter usado em alguma outra gravação de outro episódio. Venho no próximo, sei lá.

Mas quando eu estava tranquilo, leve, eu ficava só pegando o pingente e passando pra lá e pra cá. Quando tava muito, eu tirava e eu ficava girando. Aí, tá bom, eu girava no outro, girava com o dedo. E, tipo, já tinha escapulido várias vezes? Tinha. Mas cai no chão, você vê. Bate na parede, cai no chão, você vê. Na grama, aquela corrente fininha, nunca mais eu vi. E, claro, levei várias broncas por ter perdido essa corrente.

Marx: Tem uma estereotipia que eu fazia muito quando eu era criança, que é ficar mexendo a língua dentro da boca. Às vezes, nem fazer, sem fazer barulho, sabe? Mas de ficar mexendo a língua, bater assim e tal. E essa, eu consideraria uma mais sutil, né? Mas eu já conheci autistas que fazem estereotipia com movimentos oculares, com os olhos. De ficar mexendo, assim.

Ana Julia: Nossa, você me lembrou muito.

Marx: Teve uma que eu lembrei.

Ana Julia: (Risos)

Marx: Que eu já vi várias pessoas falando de ficar focando e desfocando.

Ana Julia: Nossa, isso é uma estereotipia?

Gustavo: Eu achava que era miopia.

Marx: De ficar focando e desfocando de propósito.

Izabella: Eu faço isso (risos).

Ana Julia: Eu faço isso. Eu tô descobrindo agora que é uma estereotipia (risos).

Izabella: Vou botar na minha lista aqui também, eu não sabia (risos).

Gustavo: Eu descobri agora que o pensamento repetitivo que eu tenho de ficar voltando no mesmo assunto na minha cabeça de novo e de novo… Você que acabou de falar, é uma estereotipia invisível, vamos dizer assim.

Ana Julia: Não, e a pessoa virar pra gente e falar “nossa, mas você tá pensando nisso até hoje”. Tipo assim, como você não está? Tipo assim, aconteceu há três anos atrás, isso pra mim não foi resolvido.

Gustavo: Eu entendo, eu vivo encenando coisas na minha cabeça, assim, horas, dias, meses depois de se passarem. Eu fico repetindo o cenário, buscando qual poderia ter sido a melhor saída. A resposta certa mesmo nunca vem na hora. Ô raiva.

Ana Julia: Mas eu falei que você me lembrou do negócio dos olhos. Eu lembro de um momento muito específico, porque era uma professora que eu gostava muito. Era minha professora de matemática, Jaqueline, me perdoa.

Até hoje eu lembro disso, foi no terceiro ano do ensino fundamental, eu tinha oito anos de idade. E foi a primeira vez na minha vida que eu fui expulsa da sala de aula, a primeira e única, porque a professora achou que eu tava revirando os olhos pra ela, enquanto ela dava uma bronca na turma. Só que eu tava simplesmente no meu mundinho e eu tava assim. E aí ela achou que eu tava revirando os olhos pra ela, e foi a primeira e única vez que eu fui expulsa da sala de aula.

Marx: Já fui expulso da sala de aula uma vez, porque eu estava fazendo movimento com a mão, assim, ó. E meio assim, porque eu tava… porque tinha empurrado um inspetor na sala, pra dar uma droga nos olhos do trabalho. E essa noite eu fiquei nervoso e comecei a avançar a mão assim, pra tentar acalmar, e passando a mão na orelha, tinha uma mania de ficar coçando. E o inspetor achou que eu tava caçoando dele.

Ana Julia: Nossa. 

Marx: E mandou eu levantar. “O que você tá… o que você tá zombando de mim aí? Vai lá pra fora que eu vou conversar com você depois”. E aí eu peguei minha mochilinha de rodinha e saí puxando. E saí chorando, triste, porque tinha sido…

Ana Julia: Nossa, eu chorei demais também (risos).

Marx: Aí lá fora, chegou assim… e não falou nada. Aí eu não consegui falar, eu fiquei calado, deu uma travada nesse meio. “Ah, porque os alunos ficam bagunçando demais, isso não pode acontecer. Você tem que estudar pra você ser alguém na vida”. Começou a me dar um sermão, assim, que “ah, porque tem que pensar no futuro” e não sei o quê e tal e tal. Eu lembro daquela ideia. Aí eu fui embora pra casa, ele foi lá na minha casa e falou pro meu pai o que tinha acontecido. 

Ana Julia: Meu Deus! 

Marx: Ele falou assim: “não, eu não quis dar bronca, foi só pra poder dar uma palavra aí nos meninos, mas eu sei que ele não estava fazendo de propósito, ele é um bom aluno, estudioso e tal. Aí só pra vocês não acharem que eu tava sendo duro demais e tal”, e foi embora. Eu falei: “desgraçado, esse sabia que eu não tinha feito nada, me usou de boi de piranha pra poder pegar no pé dos outros, né?”. Sempre sobra pro austista.

Ana: Sempre.

Izabela: Engraçado, se vocês falarem desse contexto escolar, eu tenho uma história também que eu escondo, assim, nas profundezas da minha memória, que de vez em quando, quando eu tô prestes a dormir às 3 horas da manhã, eu lembro e fico: “meu Deus do céu, eu não acredito que isso aconteceu”. Foi a única vez que eu fui tirada de sala, o que pra mim, que sempre fui obcecada em ser uma boa aluna, é terrível.

Eu estava na aula de um professor de geografia, eu odiava ela. E aí, antes dela chegar, eu tava fazendo aquela coisa, não sei se vocês já brincaram disso, que você pega um lápis e uma lapiseira, e a lapiseira que tem um buraquinho no meio, você fica rodando uma em cima da outra.

E eu tava fazendo isso, né, rodando a lapiseira em cima do lápis, não sei o quê, ou o lápis em cima da lapiseira, enfim, eram dois utensílios de escrita, e um tava rodando em cima do outro. Aí, a professora chegou, né, e eu não reparei, estava muito entretida ali, no negócio girando, eu adoro coisa que gira. Aí, eu tava só olhando lá girar, aí ela chegou e eu não percebi, só que eu sentava muito na frente, ela parou na minha frente, ficou assim… “Ah, eu não sabia que as inscrições pro circo estavam abertas”. Aí, eu olhei pra ela, falei assim, “bom, você pode começar como palhaça” (risos).

Marx: (Risos)

Izabella: E foi assim, eu fui mandada pra fora de sala, a primeira e única vez. Mas, nossa, que vergonha. Enfim, olha, não vou falar não, o pessoal gostou (risos).

Marx: Nossa, você me representou!

Izabella: Óbvio que eu me senti muito mal depois e tal, mas, nossa…

Ana Julia: Eu nunca teria a habilidade de pensar nessa rapidez, numa resposta tão incrível.

Izabella: É porque eu já não gostava dela, eu já tinha ranço, aí ela veio crescer pra cima de mim, eu falei: “não, aqui não” (risos).

Ana Julia: Foi incrível (risos).

Izabella: O que é 0% normal pra mim, pro meu comportamento naquela época.

Ana Julia: Velocidade absurda, eu gostei.

Marx: Sobre tentar procurar maneiras de descarregar a ansiedade de outra forma, de procurar objetos sensoriais, que aí você deixa de fazer estereotipias que não são tão legais assim, pra redirecionar, e também fazer terapia ajuda, porque se você consegue diminuir os gatilhos de ansiedade, você consegue se resolver mais com algumas coisas que são, coisas que te geram ansiedade, que te geram agitação, você vai melhorar também.

Mas, não se iludam de achar que estereotipia vai acabar, que você nunca vai ter mais, porque afinal de contas, autismo é pra vida inteira. Ela sempre vai existir, ela é uma ferramenta de regulação muito importante, e no meu ponto de vista, ela tem que fazer parte do que a gente é. Mas ela tem que ser adaptável ao contexto, né, pra gente não ter prejuízo.

Gustavo: Ao contexto e ao momento. Igual eu falava, tô num ambiente seguro, me sinto tranquilo, aqui eu posso fazer isso, tô num ambiente onde eu quero evitar o julgamento. Pega leve, você precisa achar uma forma de gastar isso, como você acabou de falar, Marx, então assim, encontre a forma que você achar que é menos nociva, que é mais tranquila, que não vai te prejudicar, e escolha uma. Não dá pra ficar com zero, então escolhe uma, talvez duas.

Ana Julia: Eu acho importante lembrar também que toda estereotipia, como qualquer comportamento, ele tem uma função. Enquanto você não entender a função da sua estereotipia, você não vai entender por que ela acontece. Então, por exemplo, você falou que você roía unhas, enquanto você não entender o motivo que te leva a roer unhas, você nunca vai parar de roer as unhas.

Você pode encontrar quantas estereotipias substitutivas for, você nunca vai conseguir amenizar esse comportamento se você não for lá tratar a causa. Então, a gente fica tratando sintoma, sintoma, sintoma, mas se você não entender a causa, você nunca vai achar uma substituta de fato que faça efeito.

Izabella: Nesse sentido de entender a origem, é importante a gente prestar atenção nas nossas estereotipias, né? Porque a gente sabe de onde elas surgem, de repente você repara que tá mais… você faz determinado comportamento e ele acaba… você percebe que ele tá mais recorrente, às vezes você tá mais ansioso e não percebeu, porque autista também tem dificuldade de percepção dos sentimentos. Então, escutar os sinais que o seu próprio corpo, sua própria cabeça tá te dando, eu acho que é importante. 

Gustavo: Além de “busquem terapia”, tivemos ótimas dicas e razões de como lidar com isso, o que achei ótimo, achei produtivo, especialmente a parte onde cada um aqui descobriu mais uma estereotipia que nem sabia que era uma estereotipia. E eu quero agradecer a você, Ana Júlia, pela sua presença aqui hoje, foi muito legal pro nosso episódio. Obrigado pela colaboração.

Ana Julia: Muito obrigada, pra mim é muito importante estar aqui mais uma vez, descobrindo mais estereotipias e refletindo mais sobre esse assunto.

Gustavo: Lembrando sempre que o Introvertendo é um podcast inteiramente feito por autistas, produzido pelo NAIA Autismo.

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian