Viajar, especialmente em um país tão diverso e grande como o Brasil, pode ser uma experiência legal ou estressante, dependendo do destino, do planejamento e de uma série de variáveis que talvez apenas autistas podem pensar. Neste episódio, nossos podcasters lembraram das suas experiências de viagens de carro, ônibus, trem, avião, e o que tudo isso pode ser relacionado ao autismo. Participam: Gustavo Borges, Izabella Pavetits, João Victor Ramos e Marx Osório.
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Transcrição do episódio
Marx: E aí meus queridos, esse é o podcast Introvertendo, um podcast feito por autistas. Eu sou o Marx Osório, farmacêutico e já viajei bastante ao longo da vida.
Gustavo: Eu sou o Gustavo Borges e viajar não é sobre o destino, é sobre passar raiva.
Izabella: Meu nome é Izabella, tenho 30 anos e quando era criança eu queria ser diplomata porque na minha cabeça infanto-juvenil era a profissão que mais ia me permitia viajar.
Gustavo: Podia ser motorista de ônibus, né?
Izabella: Podia ser aeromoça. Realmente não pensava muito bem.
João Victor: Olá, meu nome é João Victor Ramos e tenho uma relação de amor e ódio com o ato de viajar. Sério.
Marx: Pra vocês que ainda não nos acompanham nas redes sociais, nós estamos no Instagram, no Twitter e no Facebook. Nos sigam através do @Introvertendo e visitem o nosso site www.introvertendo.com.br. O Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção do NAIA Autismo.
[Vinheta de abertura]
Marx: É, a gente percebe que a relação das pessoas com as viagens é uma relação muito dúbia, né? Pelo o que vocês falaram, eu percebo que existe um misto de emoções positivas e negativas.
No meu caso, houveram muitos momentos na minha vida onde eu viajei bastante para visitar pessoas, para passear. Mas houveram alguns momentos também que a viagem significou uma mudança de cidade indesejada, momentos caóticos, visita a lugares que eu não gostava. Isso durante a minha infância, adolescência, né? E na vida adulta teve um papel um pouquinho mais secundário.
Eu confesso que até hoje eu ainda tenho muita dificuldade de organizar e planejar viagens por minha conta em risco, eu tô tentando exercitar isso e ressignificar isso. Como foi a relação de vocês com a viagem ao longo da vida? Como é que foi isso durante a infância? Vocês viajaram muito?
João Victor: Eu aproveitei muito bem as viagens que eu fiz no começo da vida até a adolescência, de 14, 15 anos. Que foi o período em que eu mais viajei, seja de ônibus, avião, enfim. Eu ia geralmente pra Tianguá, cidade dos meus avós, cidade da minha mãe, certo? E era sempre um barato ficar naquela companhia. Quando não era o João Victor planejando, tudo ficava mais fácil. No processo eu conseguia aproveitar com uma facilidade imensa, afinal de contas eu era somente levado, certo?
Marx: Você falando isso, eu me recordei que a minha primeira viagem sozinho foi com 14 anos também. Foi de ônibus, foi uma viagem de Goiânia para Santa Maria da Vitória. Desde muito cedo eu sempre tive muita facilidade de andar sozinho, de orientação e tal. Mas você solta um adolescente pra viajar de um estado pro outro assim sozinho, é uma coisa meio que assustava a minha mãe na época, né? Mas foi uma experiência muito interessante, foi muito tranquilo.
Apesar de eu ser uma pessoa que tem um apreço muito grande por ônibus, assim, porque eu tenho um hiperfoco mesmo, eu passei muita raiva em viagens de ônibus ao longo da vida. Principalmente quando era o ônibus da tal da Novo Horizonte. A gente não tá ganhando dinheiro pra fazer propaganda de ninguém, apesar de ter uma foto de uma outra empresa ali, mas é só pra dizer que eu tenho um trauma profundo daquela empresa. Não dessa aqui, mas da Novo Horizonte. Todo baiano sabe do que eu tô falando por causa dos perrengues na estrada e porque eram uns ônibus extremamente horrorosos, velhos e caindo aos pedaços.
Gustavo: Primeira vez que eu viajei sozinho de ônibus eu devia ter 6, 7 anos, era um percurso de uns 90 quilômetros e o ônibus bateu. Eu estava sozinho.
Izabella: De ônibus?
Gustavo: De ônibus.
Izabella: 7 anos e o ônibus bateu? Só pra ter certeza…
Gustavo: Entre 6 e 7 anos, exatamente isso. Cinto de segurança, imagina, não é que a gente não usava, é porque não tinha mesmo, não era um costume no começo dos anos 90.
João Victor: Então não tinha como usar, né?
Gustavo: Exatamente. Então, eu estava indo de Bom Jardim de Goiás, onde um tio me levou até a rodoviária. E eu ia encontrar minha mãe em Caiapônia, Goiás. A gente morava em Bom Jardim, mas ela estava lá. Nem lembro do porquê. Mas o ônibus bateu no meio do caminho, ele saiu da pista, não faço ideia de por qual razão. Bateu numa árvore, estilhaçou todo o vidro da frente, foi no rosto quem tava lá, mas eu felizmente tava mais pro fundo. Eu apenas bati minha cara no banco da frente, quebrou a armação do meu óculos e eu passei o resto do tempo desesperado, falando: “minha mãe vai me bater porque eu quebrei os óculos”. Já que óculos sempre foi uma coisa cara, porque eu sempre tive grau alto.
Cidade do interior, todo mundo conhece todo mundo. Em determinado momento, alguém percebeu que eu estava sozinho, perguntou de quem eu era filho. Eu respondi: “sou filho da Lúcia”, alguém responde: “conheço a Lúcia”. E por essa razão, já que tava todo mundo pedindo carona pra poder chegar até a próxima cidade, município de Piranhas, Goiás. Me levaram, fomos até a rodoviária de Piranhas, Goiás, onde eu liguei a cobrar de um orelhão para o telefone da minha mãe, que estava anotado na minha carteirinha. E aí, ela foi buscar outro ônibus pra poder ir lá me buscar.
Se a gente parar pra avaliar friamente, não faz muito sentido. Eu devia só ter embarcado em outro ônibus pra poder completar a viagem. Mas ela foi até lá de ônibus, me buscou e nós fomos. A alegria desse dia, que foi a única coisa que me distraiu um pouquinho, é que ela falou que eu podia pegar o que eu quisesse na lanchonete da rodoviária. Então eu peguei uns quatro, cinco Kinder Ovo.
Marx: (Risos)
Izabella: Fora o trauma da vida inteira, o medo que você ficou de morrer, de apanhar da mãe, foi uma experiência interessante.
João Victor: No mínimo.
Gustavo: É, claro. Gente, Kinder Ovo era uma vez na vida. Esse negócio é muito caro, então assim…
Izabella: Nos anos 90 ainda era acessível. Hoje em dia, você escolhe, se você quer financiar uma casa ou comprar um Kinder Ovo.
Gustavo: Se for o modelo de Páscoa, não dá para poder financiar.
João Victor: E ainda com risco do brinde aleatório.
Izabella: De vir um brinde ruim, né?
João Victor: Exato.
Izabella: De vir um brinde de papel, eu fiquei indignada.
Gustavo: Um quebra a cabeça de nove peças, terrível.
João Victor: Brinde de papel, não. Essa eu nunca ouvi falar.
Izabella: Vem brinde de papel. Mas voltando à questão do meio de transporte, né? O que eu acho menos pior. Porque assim, bom mesmo de verdade não tem. Bom seria você se teletransportar, né? Pensar: “ah, agora eu quero estar em tal lugar” e teletransporte. Uma maravilha.
Gustavo: Bom é ficar em casa. Porque se você for teletransportar, toda a sua matéria vai ser destruída e desmembrada em um lugar. Para serem recolocadas em outro. E um mínimo desvio pode causar uma diferença muito grande.
Izabella: Não, mas na minha utopia isso não existe. Seria perfeito. Você ia pensar: “eu quero estar em tal lugar” e ia surgir no tal lugar e beleza. Mas enfim, eu concordo com você que seria um risco também. Qualquer coisinha eu fico enjoada, eu fico tonta. Então assim, avião pra mim é péssimo, ônibus pra mim é péssimo e carro pra mim também é péssimo. Nesse sentido de me sentir mal fisicamente. Então assim, falar “ah, o que você prefere?” Eu prefiro avião porque é mais rápido.
Gustavo: O sofrimento é menor.
Izabella: Hã?
Gustavo: O sofrimento é menor.
Izabella: Exatamente, o sofrimento é menor. Mas assim, todas as formas têm seu ônus e o seu bônus. Por exemplo, o avião é mais rápido, mas ele é mais caro. E hoje em dia, tipo, sei lá, parece que o espaço dos bancos vem diminuindo cada vez mais. Então o conforto já não era muito, tá pior ainda. Tipo, hoje em dia você pega um ônibus pra ir Goiânia, Brasília, ele é muito mais confortável do que um avião, eu acho, pelo menos. Goiânia para Brasília é um trajeto que eu faço muito porque eu tenho família em Brasília.
Avião tipo, vai mais rápido, mas tem essa questão do preço, tem a questão do conforto, tem a questão de que no aeroporto você pensa “ah, eu quero comer um lanche”, aí você já vai desembolsar uma fortuna. Então, né, complicado. Nas opções que a gente tem, eu prefiro avião. Entretanto, ano passado eu tive a oportunidade de viajar de trem. E nossa, gente, viajar de trem…
Gustavo: Que trem bom?
Izabella: Que trem bom viajar de trem! Mano, sério, eu fiquei muito frustrada porque o Brasil é o país perfeito para você ter um meio de transporte…
Gustavo: Uma malha ferroviária.
Izabella: Exatamente, isso, esse é o termo que eu queria, eu estava pensando aqui, o meio de transporte de trem.
Gustavo: Foi de onde pra onde?
Izabella: Hã?
Gustavo: Foi de onde pra onde?
Izabella: Eu fui de Londres para Cardiff.
Gustavo: Uuuuh. Mais chique ainda.
João Victor: Por um instante eu achei que haveria um elogio em relação à viagem, mas…
Izabella: A viagem o quê?
João Victor: A viagem de trem que você fez.
Izabella: Mas é um elogio extremo, tipo, achei muito bom.
João Victor: Ah tá, achei que por um instante você tinha falado mal.
Izabella: Não, não, não, isso que eu ia falar, tipo, eu não gostava de nenhum meio de transporte, mas falava assim, tipo, o que menos me incomoda é…
João Victor: Ah, perfeito.
Izabella: Avião. Aí ano passado eu andei de trem, fiz uma viagem de trem. Gente, é muito bom. E eu fico muito frustrada porque o Brasil é um país de proporções continentais. E eu acho que tipo assim, se a gente tivesse uma malha ferroviária ia ser perfeito, sabe, ia ajudar muito.
Eu quando era criança tinha a lenda que ia ter um trem bala entre Goiânia e Brasília. Não sei se alguém vai lembrar dessa história, né, que eles até apelidavam de Expresso Pequi na época. Aí eu ficava pensando, né, nossa, o Expresso Pequi, uma hora e meia eu tô em Brasília, né, incrível, eu já ficava sonhando, eu vou estudar na UnB, porque eu queria ser diplomata, né, eu pensava, eu tenho que estudar na UnB, e vou no Expresso Pequi, não vou precisar nem mudar para Brasília, lindo o trem. Mas né, enfim, não faz parte da nossa realidade, o Expresso Pequi não veio aí, nem os trens no Brasil, então…
Gustavo: Não, hoje a gente infelizmente tem uma malha ferroviária menor do que a gente tinha 80, 100 anos atrás. É ridículo. Obrigado, JK!
Marx: É interessante como o meio de transporte também acaba afetando o sentimento em relação ao próprio objetivo da viagem. Você falou aí sobre viagem de trabalho, mas pensando um pouco nas viagens de passeio, de turismo, viagem que você faz pra conhecer lugares novos que você tá afim de conhecer. Eu particularmente, quando eu estou viajando pra passear, eu prefiro viajar de carro. Porque eu acho mais relaxante, porque eu gosto de dirigir, porque eu gosto de olhar a paisagem, que pra mim é uma experiência boa. Mas eu entendo também que, dependendo do lugar que você for, é muito longe, e você dirigir, sei lá, 10 horas, 12 horas, é extremamente cansativo e até perigoso, dependendo do lugar.
Então o avião, que é um meio de transporte que eu acho que eu andei uma vez, eu viajei uma vez, eu achei muito incrível ver de lá de cima o céu e aquela coisa toda, achei muito doido, muito legal. Mas como eu não tinha nenhum conhecimento a respeito de aviação, e eu não tinha diagnóstico também, eu viajei sozinho daqui lá pra Vitória, no Espírito Santo, eu quase tive uma crise na viagem de volta pra Goiânia, porque teve turbulência a viagem toda. É uma viagem rápida de São Paulo para Goiânia.
Mas assim, por não saber que aquilo ali era normal, o avião puxando você para baixo de uma vez, e aquele tremor ali, aquela coisa, eu confesso que eu fiquei um pouco traumatizado na época, tanto que até hoje eu não tive coragem de viajar de novo. Experiências traumáticas em viagens que têm objetivos divertidos podem acontecer, e para autistas eu acho que acontece mais ainda, no meu caso eu tive algumas.
Izabella: Eu achei interessante mais cedo vocês comentarem que o fato de quando viaja, o planejamento não tá na mão de vocês, é uma coisa boa, porque no meu caso é o contrário. Porque eu gosto de planejar, deixar tudo bonitinho, você vai numa viagem pra determinado lugar, eu gosto de saber com antecedência quais são as opções que tem de destinos turísticos, quais são os restaurantes, tipo, bonitinho, “no primeiro dia nós vamos no museu, depois vamos em tal restaurante, depois vamos não sei aonde, não sei aonde e tal”.
Eu gosto de fazer esse roteirinho, tudo bem quadradinho, organizado, só que minha família não gosta. Então, quando eu era mais nova e as viagens eram em família, eu, meus pais e meus irmãos, acontecia com muita frequência eu falar assim: “ah, então tá bom, vou fazer o roteiro, hoje a gente vai fazer o roteiro”, aí eles: “tá bom, vamos fazer o roteiro”. Aí eu acho que era, tipo, concordavam comigo só pra ficar só num sentido tipo: “ah, deixa ela montar o roteiro, senão ela vai ficar enchendo o saco”, aí eu montava o roteiro bonitinho, aí chegava na hora da viagem, e eles meio que ignoravam o roteiro.
Aí eu: “ah, não, ok, hoje é o dia do museu X”. Aí eles: “não, não, hoje o museu X não vai tá acontecendo”. E eu ficava tipo: “meu Deus, mas eu planejei a viagem”. Quando eu era nova, eu achava que eu estava planejando, mas eu tava planejando na verdade nada. Era tipo aquela coisa, né, que você dá o controle pro seu priminho de dois anos jogar, só que na verdade ele não tá nem ligado no videogame, ele tá crente que tá lá: “nossa, tô arrasando no Mario Kart”, na verdade ele não tá nem jogando. Era eu fazendo o roteiro de viagem quando eu era mais novo.
Gustavo: Trágico.
Izabella: Pois é. Nossa, e era muito frustrante.
Marx: Eu já fui esse primo aí (risos).
Izabella: Eu também. Aí ano passado eu fiz a minha primeira viagem realmente sozinha, sabe, que tipo, era eu e Deus. E eu escolhi o destino, eu que montei o roteiro, eu que fiz tudo que eu queria, não sei o quê e tal. E apesar de ter sido um processo muito estressante de montar o roteiro, porque eu tenho dificuldade de fazer escolhas, tipo, não só em viagem, mas em fazer escolhas, ponto. Então tipo assim, quando são muitas opções, eu já tenho dificuldade de escolher, quando tem muitas opções a dificuldade fica maior ainda, naturalmente.
Foi um processo muito custoso conseguir diminuir as opções e transformar num roteiro que coubesse na quantidade de dias que eu tinha. Nossa, mas conseguir fazer essa viagem, cumprir o roteiro que eu montei bonitinho, né, tipo, nossa, foi muito bom a experiência. Talvez seja uma questão para eu discutir na terapia.
João Victor: O esforço recompensado.
Izabella: Eu não sei se tem a ver diretamente com o autismo, mas com a minha, não sei, necessidade de previsibilidade, de… Uma das formas que eu acho que ajuda muito pessoas autistas a lidarem com os desafios da viagem é você ter, conseguir promover uma certa previsibilidade, porque tipo, viagens são ocasiões que podem ter muito potencial de dar errado.
Gustavo: Sim, perfeito.
Izabella: Para qualquer pessoa, ponto. Para nós que temos diferenças em vários aspectos, tem questões sensoriais também, etc, o potencial parece que é triplo. Você pensa, viagem, o senso comum é você pensar, vai ser uma experiência legal, a gente vai se divertir, mas assim, pode dar muito errado.
João Victor: É que como eu não tinha esse senso de recompensa de maneira muito próxima a mim, o mero imaginar do João Victor planejar uma viagem já me desincentivava completamente. Eu percebo que no seu relato você trazia consigo, no seu passado, quando você planejava essas viagens, uma satisfação que vinha não somente quando a viagem acabava dando tudo certo, mas também quando…
Izabella: No caso eu não tinha essa satisfação, porque eu planejava, mas eles não deixavam.
João Victor: Não, sim, mas quando você planejava, você gostava de planejar mesmo com toda a energia que isso tirava de você, mesmo com todo o estresse. Eu não conseguia ter nem isso, entendeu?
Izabella: Entendi. Eu não fui diagnosticada quando eu era criança, então eu não sabia que era autista, mas é aquela coisa, eu cresci sabendo que eu era diferente, eu não me sentia incluída em lugar nenhum, não sentia que eu pertencia a nenhum grupo, a nenhum…
Eu ficava pensando assim, cara, nessas horas de viajar, eu acho que alguma hora eu vou
encontrar um lugar que eu…
Gustavo: Pertença.
Izabella: Que eu pertença. Sabe, então tipo assim, essa minha vontade, que eu até brinquei no início, eu brinquei, mas é verdade, que eu pensei que eu queria ser diplomata, que eu pensei: “aí eu vou poder testar vários países, eu vou achar algum que eu vou me sentir, sei lá, em casa”. Porque eu tinha essa sensação muito forte de: “ah, eu não pertenço a lugar nenhum, eu sou esquisita e não sei o quê”, então acabou que eu relacionei essa ideia de viagem com a busca por pertencimento, por identidade, não sei o quê, então era um assunto que me interessava muito, e tipo, depois, isso era mais quando eu era mais nova, conforme eu fui crescendo eu vi que não era uma viagem física que ia me trazer essa sensação de pertencimento, você procura outras estratégias.
Gustavo: Boa sorte na busca.
Izabella: Muito obrigada.
Marx: Tem uma coisa que me instiga muito a viajar, que é conhecer lugares bonitos, paisagens bonitas. Eu tenho uma coisa de quando eu olho para a água, para o mar, para cachoeiras, eu fico viajando, lugares que têm uma paisagem natural muito… Daí para melhor, né? Despertam dentro de mim um sentimento muito positivo, uma coisa meio de que eu consigo me desligar do ambiente, que para mim é muito difícil me desligar do que está acontecendo aqui no mundo real, né? Extremamente difícil.
E aí eu queria que vocês falassem um pouquinho também sobre experiências desse tipo, se vocês têm algum tipo de relação com o mundo também, não só com o interior, que é importante também, o metafórico, extremamente importante, mas pensando em experiências de lugares diferentes.
João Victor: Eu tenho dificuldade de me imaginar viajando sozinho para locais muito distantes por conta de questões já abordadas, né? Quando eu falo a distância é tipo Goiás para o Rio de Janeiro, meu estado de nascimento. Goiás para o Ceará, estado de nascimento e criação dos meus pais, por exemplo. Mas eu ainda quero muito tentar, eu sei que soa estranho eu querer falar de uma viagem que sequer aconteceu num podcast dedicado a isso, no caso, esse de agora,. Mas é porque eu acho que essa insegurança, não só em mim como em diversos outros autistas, têm suas camadas, como uma cebola, sabe?
Eu consigo viajar até certo ponto, me deslocar, né? Até um certo ponto da cidade, numa boa, já prevendo o que vai acontecer, já prevendo as atividades que serão feitas, já prevendo com quais pessoas irei me encontrar, sozinho, sem nenhum familiar, repetindo. Mas viajar para um local mais distante, com uma estadia, ficar lá por uns dias, dormir fora, acho que tá aí um detalhe muito relevante, né? Um ponto muito relevante. Cara, desregula demais a mera cogitação de estar fazendo isso, quem dirá fazê-lo de fato, é o lance de enfrentar a si mesmo, os seus medos, suas inseguranças. Porque eu quero conhecer o mundo inteiro, mas mesmo se eu tivesse muito dinheiro e tempo, seria complicado para mim por essa questão da rigidez, da falta de iniciativa, sinceramente.
Gustavo: Mas eu acho que é exatamente aí que entra o que a Izabella estava falando de se programar. Eu sou casado com uma mulher autista também, beijo moça bonita! E ela adora programar cada elemento da viagem, cada dia, primeiro porque o tempo é curto e muita coisa a ser feita, e eu sei que tem a ver também com a sensação de controle.
A gente gosta de ter uma rotina, uma noção do que vai acontecer, toda e qualquer viagem, seja para a casa de um parente, para um destino turístico, para alguma coisa, você não tem ideia do que pode acontecer, são elementos demais, então quando você faz um roteiro, por mais que você não vá dormir na sua cama, você saber que às 10 horas da manhã você vai estar andando pela Liberdade e às 3 horas da tarde você vai estar no MASP te dá uma mínima noção de: “nossa, esse momento aqui eu não tô gostando, mas daqui a pouco eu sei aonde eu vou estar, estar fazendo”, e saber esse futuro já me deixa mais tranquilo.
O trânsito vai ser uma droga, vai ter um congestionamento desagradável, o Uber não vai ligar o ar-condicionado, mas de qualquer forma, a hora que der 3 horas, porque eu me programei com tempo para atrasos, eu sei que eu vou estar lá no MASP olhando alguma obra de arte, e isso já te ajuda. Porque quando você tá na sua casa, tudo é programável. Quando você está lá fora, nada é programável. Então você programa o que dá e você se sente bem com isso.
João Victor: Maravilhoso!
Marx: Pensando que passear na cidade de São Paulo é um programa que vai ser invariavelmente estressante em algum momento também, né?
Gustavo: Meu amigo, qualquer viagem é estressante. Eu acredito que vale para humanos, mas para autistas eu tenho certeza que qualquer viagem é estressante.
Marx: Existe uma diferença monstruosa em que você viajar para a maior cidade do Brasil, uma aglomeração de pessoas, de prédios, de informação, do que você viajar para um
lugar desse aqui, ó.
(aponta para a foto)
Que você vai esvaziar a cabeça. E vocês já se permitiram esvaziar a cabeça, olhar para um nada assim, e ficar pensando…
Gustavo: Quantas cobras tem nesse mato e quantas delas são letais?
Marx: Uma sucuri que come peixe aí no máximo (risos).
Gustavo: Não, aí não é venenosa, mas ela é letal.
João Victor: É perigosa de outras maneiras.
Marx: Brincadeira! Eu sou baiano e eu nasci nessa beira de rio aí. Então assim, é um ambiente extremamente familiar para mim. Mas eu só estou pegando como exemplo para a gente pensar também que nós, enquanto seres urbanos em excesso, temos uma dificuldade muito grande de contemplar a natureza. E isso é importante para a nossa mente em algum momento. E eu vou fazer a pergunta de novo, porque ninguém respondeu a pergunta. E agora…
Izabella: Eu ia fazer um contraponto antes.
Marx: Mas é só para ficar claro, porque talvez eu não tenha me expressado direito lá atrás. Se vocês já se permitiram viver uma experiência de se desligar completamente do estresse, da rotina da cidade, dessa necessidade de fazer tudo com hora marcada e realmente ir para um lugar que tem natureza e contemplar a natureza e tentar realmente sumir um pouquinho desse lugar de estresse, sim ou não?
João Victor: Se tem como fazer esse desligamento, por favor, me ensine, cara.
E eu tenho um contraponto também, mas antes vou deixar Izabella apresentar o seu, porque ela pediu primeiro.
Izabella: Não, então, isso é o que eu ia falar. Eu acho que eu não vim equipada com esse software de se desligar e contemplar a natureza, que eu sou, acho, fisicamente incapaz de desligar a cabeça. Eu sei que vai ter uma fila gigantesca de pessoas. “Ah, você já tentou meditação, já tentou, sei lá, mindfulness e não sei o quê, botar sua cabeça no momento, contemplar a natureza”.
Mas tipo, não dou conta. Eu não sei se é o TDAH, porque a hiperatividade mental pega muito pesado para mim. Então, é complicado, parece que sempre está tendo uma discussão entre os divertidamentes da minha cabeça e eles não param em momento nenhum. Pode ser a mais bela paisagem de todas e eu não consigo desligar. Mas de qualquer forma, tipo assim, eu acho que eu sou uma pessoa muito urbana.
Eu concordo com você que a sociedade tende a ser mais urbana, não sei o quê, mas eu acho que eu, Izabella, sou muito urbana. Tipo assim, a gente mora em Goiânia, então sempre tinha aquela coisa, na época que eu estava na escola: “ah, vamos na fazenda no final de semana, na roça do avô, sei lá o quê”. Tipo, minha família não tinha essas coisas, então eu não tenho nem essa vivência de roça, né, de “interiorzão” e essas coisas, então não são destinos que necessariamente me atraem.
Então, por exemplo, em Goiás. O ecoturismo é uma das potencialidades do estado, isso é inegável. Sei lá, você vai lá na chapada fazer essas aventuras, andar, cachoeira, essas coisas, trilha, mas isso não é pra mim. Eu concordo com você que tem um quê terapêutico, uma coisa boa é esvaziar a sua cabeça e só pensar na natureza. Mas eu não sei se faz sentido pra mim como pessoa, sabe, se não seria uma coisa que eu ia me obrigar a fazer porque dizem que é bom. Alguma coisa assim, sabe? Esse é um ponto, né, pra responder a sua pergunta sobre escolha de destino, por que a gente não pensa num destino, mas contemplar a natureza e essas coisas.
A segunda questão pra mim é que, tipo, tenho, tanto pela questão do comportamento repetitivo quanto da rigidez cognitiva, eu tenho uma mania de ficar querendo repetir destinos. Eu fui pra CCXP, que é um evento de cultura nerd em São Paulo, e gostei muito. Desde que eu fui pela primeira vez, todos os anos tem, sem contar os da pandemia, né. Aí todo ano que eu termino, eu falo assim: “não, ano que vem eu não vou voltar porque eu quero conhecer outros lugares do país, eu não posso ficar todo ano indo pro mesmo evento, pra mesma cidade de São Paulo. Olha o tamanho do país, né, sei lá, vamos fazer outras coisas”. Aí chega o ano seguinte, minha cabeça fica: “não, você vai pra CCXP de novo”. Aí, tipo, fica a briga entre os meus divertidamentes: “não, mas se você conhecer, sei lá, a Bahia, que você nunca foi”. Aí o outro: “não, você vai pra CCXP de novo”. Aí, né, tem isso.
Outra coisa, quando eu era criança eu ia muito pra Santa Catarina, que eu falei mais cedo, e a gente ia pro litoral de lá. Então minha cabeça tem muito claro e definido o que é uma praia ideal, que é a praia que a gente ia quando era criança. Então, tipo assim, o Brasil tem um bilhão de praias, não literalmente, pra escolher, provavelmente praias mais legais e mais bonitas do que a que eu frequentava, mas a minha cabeça fica assim: “essa é a Praia de Bombas em Santa Catarina, por um acaso? Não, então eu não quero ir”. Então, eu tenho essas duas dificuldades, né, de optar por um destino natureza, mas eu concordo com você que ele tem, sim, suas…
Gustavo: Ô, Marx, não vou te deixar sozinho nessa, já fui muito pro meio da natureza, não necessariamente por vontade própria, geralmente não por vontade própria, mas eu já passei longos períodos de tempo em fazenda. Não é a natureza mais bela que você vai, contemplativa. Mas você vê o nascer do sol, você pode ver muito mais estrelas no céu à noite, escutar o canto das aves, das seriemas que tão correndo por ali. Até mesmo o cavalo, o boi, tem algumas coisas bonitas nisso.
Não sei o quanto dura pra mim essa questão de sentir-me em paz. Vai ter algum momento de dois minutos que eu vou estar olhando: “nossa, que bonito, que paz”. Aí alguém vai ligar uma música alta. Estou cercado de animais e naturezas, mas ainda assim tem casas construídas ali com energia elétrica e piscina, então é um povo onde o povo ia muito pra poder fazer festa, fazer barulho, fazer algazarra, e aí eu podia ficar lá quietinho na sala vendo televisão quando pegava.
João Victor: O contraponto que eu gostaria de trazer é basicamente o seguinte. Vocês falam muito sobre se programar, ter o controle. Ok, ainda mais no nosso caso. É que viajar a lazer, a situação hipotética em que eu, João Victor, cogito fazer isso por minha própria conta é algo que destoa tanto do meu estilo de vida que eu já fico desregulado, entende? Eu já fico completamente perturbado pelas ideias, velho.
Então eu acabo oscilando. Esse senso de recompensa pelo planejamento, mesmo que eu lograsse êxito em alguma situação, não viria tão cedo. Eu só ia querer minha cama e dormir, pronto, sabe? É basicamente isso, tô aqui pra ser o cara chato hoje.
Izabella: Mas você, por exemplo, você tem essa questão da viagem de te estressar e você sente medo, ansiedade, isso faz alguma falta? Tipo, você gostaria de viajar mais e você sente que isso é um obstáculo?
João Victor: Sinto, com certeza, gostaria de poder…
Izabella: Para você tá tudo bem, você não quer viajar?
João Victor: Eu não quero, eu quero poder superar isso, mas dar o primeiro passo é sempre o mais complicado. Mas eu sei que quando acontecer, quando eu conseguir dar esse primeiro passo, o senso de controle que eu vou ter vai ser tão absurdamente alto que eu vou entrar numa pira, num flow em que eu vou estar tipo assim: “mano, eu consegui, agora ninguém me para mais, velho”. Eu tenho certeza que quando o primeiro passo for dado vai ser essa sensação, mas cadê?
Izabella: Eu preciso te dar uma notícia, você já deu o primeiro passo, que o primeiro passo é reconhecer a sua dificuldade. Parabéns, agora faltam só todos os outros passos, mas o primeiro tá dado.
João Victor: Obrigado!
Marx: Eu sou uma pessoa muito urbana, né, eu acho que é porque eu acabei colocando e jogando isso sem contexto, mas eu gosto de estar em momentos mais em contato com a natureza quando eu estou viajando pra isso. Mas quando eu estou na vida normal, eu também gosto da rotina urbana, gosto da previsibilidade, eu sou autista também, né, também faço parte do clube.
Mas quando eu chego num lugar como esse, ou numa praia, eu sou muito apaixonado em praia. Aí eu consigo me desligar durante esse período dessas coisas da bagunça urbana. Só que eu também sofro dessa questão de, passar 3, 4 dias, eu começo a ter crise por falta da minha casa, da rotina, da minha cama, do meu lugarzinho. Então toda vez que eu viajo pra Bahia, eu não fico mais do que 5 dias, mesmo a viagem sendo longa, eu não consigo mais.
A gente já tá caminhando aí pro nosso terço final do nosso podcast de hoje, e eu gostaria de fazer uma última pergunta pros meus queridos. A gente sabe que existem vários direitos concedidos a autistas para viagem, como gratuidade de passagem, adaptações e principalmente viagens aéreas. Eu particularmente nunca usufrui de nenhum desses direitos, porque quando eu viajava de ônibus e de avião, eu não tinha diagnóstico, e desde que eu peguei o meu laudo, que eu fui diagnosticado, eu tenho carro e tenho viajado com o meu carro. Ainda não viajei de avião.
Como é que foi a experiência de vocês em relação a conseguir esses benefícios? Eu já vi muita gente no NAIA falando que conseguiu, que utilizam, mas não é muita gente. Então isso é uma questão boa de se discutir.
Gustavo: Eu não usei a gratuidade de passagem, desconto para acompanhante, nem nada desse tipo, mas eu já usei a entrada preferencial no avião. A gente tava com os colares, identificando doenças invisíveis, e uma aeromoça foi lá e perguntou se nós tínhamos preferência por sermos os primeiros a entrar ou os últimos a entrar. O que é que a gente preferia.
Nós preferimos ser os primeiros, por uma questão de bagageiro limitado e todo mundo com mala de mão, porque as companhias aéreas forçaram a gente a fazer isso. Então fomos os primeiros, até porque dá aquela coisa de não tem empurra, empurra, não tem que procurar lugar. Por mais que o lugar seja marcado, quando entra, tenta todo mundo entrar de uma vez e todo mundo pegar a vaga no tempo. E se o seu assento é no fundo e a pessoa tá parada na frente tentando pôr a mala, você não vai conseguir atravessar.
Então a gente pôde entrar, ser o primeiro, um dos primeiros a entrar ali, foi bem tranquilo nesse sentido. Mas só para poder pagar pelo karma positivo, a volta foi terrível, não por culpa de aeromoço, nem de companhia aérea. Mas porque tinha um povo muito barulhento, de pessoa que ficava falando alto, próximo e com as duas fileiras à frente tinha uma criança sendo muito mimada chorando e reclamando e falando alto e os pais não fazendo o mínimo para colaboração de tudo. Então eu fiquei agoniado com isso e deu vontade de ir ao banheiro, eu falei: “não preciso, vou segurar”. Na hora que eu falei: “não, aguento mais segurar”, falaram: “aperta um cinto, a gente vai pousar, não dá mais pra poder ir ao banheiro”. Aí foi bem ruim a volta, mais uma vez eu tive que conseguir usar o benefício da entrada prioritária.
Izabella: Eu também, dos direitos que a gente tem nesse âmbito de viagens, o único que eu usei, e eu sempre uso, eu sei que é um assunto polêmico, é fila prioritária, no caso embarque prioritário porque realmente é um momento caótico. Qualquer pessoa que já pegou tanto avião quanto embarcou num ônibus sabe que é uma coisa assim, que eu não sei o que acontece, que as pessoas ficam desesperadas.
Gustavo: Vai faltar lugar, alguém vai ter que ir em pé.
Izabella: Pois é, eu juro que eu não entendo. Por experiência eu sei que as pessoas não são muito compreensivas, então assim, eu tentei, depois que eu fui diagnosticada, eu peguei fila sem usar nenhum tipo de identificação. E eu recebi comentários hostis de outras pessoas, principalmente de idosos, tipo, aí chega do seu lado: “ah, essa aqui é a fila preferencial”, sabe, tipo, como se, se eu tô aqui é porque eu tenho direito de usar a fila.
Então depois de experiências ruins eu comecei a usar sempre alguma forma de identificação, um cordão no caso.
E ajuda muito porque realmente é um momento que me desregula, porque barulho é uma coisa que pega muito pra mim, multidão e aquela coisa das pessoas se aglomerando, empurrando mala e aquele desespero pra se vai precisar despachar ou não vai despachar a bagagem.
Gustavo: Às vezes o fone de ouvido não é suficiente para poder abafar o barulho.
Izabella: Não, e eu ainda tenho uma questão, porque eu tenho deficiência auditiva, então se eu abafar demais, aí eu não escuto nada. Então também eu não posso ficar sem escutar
nada. Então, às vezes eu tenho que só: “ah, você está incomodada com o barulho? Tá bom, você vai ter que aguentar o barulho, porque a alternativa é você não ouvir nada”.
Então assim, talvez no futuro, de repente, pense: “ah, então seria bom viajar sempre com uma pessoa, mas por enquanto viajo sozinha e a alternativa é sofrer com essa questão do barulho e eu uso a fila, o embarque prioritário”.
Mas em relação a ele, eu acho que devia ter um desembarque prioritário também. Porque o que acontece? O embarque já é um momento caótico, mas o desembarque é muito pior. Eu não sei o que é que acontece. Avião, por exemplo, assim que ele tocou o solo o povo, você já começa a escutar o povo tirando o cinto, aí levantando, querendo tirar a mala do bagageiro, tipo: “gente, tá pegando fogo não, calma”.
Aí todo mundo levanta e ninguém te deixa passar, então assim, ainda é pior do que o embarque, porque o embarque, em tese, tem ali o saguão do aeroporto, tem aglomeração, mas não é tão aglomerada assim. Mas dentro do avião, todo mundo naquele tubinho, assim, do nada todo mundo levanta, aí é bolsa na cara da vovózinha e criança gritando e tal, é horrível. Então assim, fica aí a minha defesa ao direito de desembarque prioritário também (risos).
João Victor: Eu preciso confessar pra vocês que eu ainda não desfrutei do meu passe livre intermunicipal e diante das histórias aqui contadas me sinto um completo de um frouxo por isso devido à minha falta de coragem e de planejamento ante minha rigidez. Mas um dia, quem sabe, em breve, eu possa mudar esse destino, né?
Gustavo: Não, não, você vai arrumar um destino.
João Victor: Também, também.
Marx: E comprar passagem para esse destino.
Izabella: Ou não, porque ele falou do passe livre, então sem passagem nesse…
João Victor: O que amplia ainda mais o fato de eu me sentir um frouxo agora, porque eu já tenho a facilidade na mão, mas eu não uso.
Gustavo: Gente, tá tudo bem, já resolvi vários problemas de uma vez só. Próxima vez que você Izabella viajar, você leva ele. Você programa tudo, ele vai estar tranquilo, ele vai saber o cronograma corretamente, ele vai obedecer o cronograma corretamente e ele não vai ter todo esse desespero de “eu vou lá sozinho no mundo”. Você vai ter alguém que vai estar lá contigo. E se der ruim, vai dar ruim pra dois, pelo menos.
Marx: Aí pelo menos não vai acontecer igual eu quando eu viajei pra Vitória, né?
João Victor: Que delicado, não?
Marx: Eu fui pra beira de uma ilha, pra beira de uma praia, eu tomei umas quatro e tentei
subir em cima de uma pedra e escorreguei, a pedra era cheia de ponta, eu cortei isso
aqui tudo. Então, como é que eu expliquei…
Gustavo: Sem ninguém pra socorrer.
Marx: Como é que eu fui explicar isso pra minha esposa, né? Eu tive que caprichar no argumento.
João Victor: Ô amor, então… Então…
Marx: Tropecei, arranhei numa pedra, eu tava… Você acredita que eu estava beijando uma pedra? Eu abracei a pedra, eu beijei a pedra (risos).
Bom, esse foi o podcast Introvertendo, um podcast feito por autistas com produção do NAIA Autismo. Não se esqueçam de nos seguir nas nossas redes sociais, no nosso Instagram, Facebook, Twitter, através do @Introvertendo. E visitem o nosso site www.Introvertendo.com.br e até o próximo episódio com uma nova formação. Muito obrigado pela atenção e bom dia, boa tarde, boa noite. Fui.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Any Serpa, Beatriz Gontijo, Izabella Pavetits e Wanessa Dias Vaz | Fotografias projetadas na TV: Tiago Abreu e Almanaque Lusofonista | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian

