Ter dificuldades na interação social e comunicação são o ponto definidor do autismo. E, para muitos autistas, fazer amizades envolve uma série de complexidades sobre assuntos, interesses, reciprocidade e muito mais. Com isso, em um episódio longo dividido em duas partes, nossos podcasters abordam como vivem nesse acertar e errar frequente quando o assunto é fazer e manter amizades. Participam: Brendaly Januário, João Victor Ramos, Marx Osório e Maysa Antunes.
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Transcrição do episódio
Brendaly: Olá, você que está assistindo o podcast Introvertendo. Eu sou a Brendaly, autista e doutoranda em Antropologia Social na UFG. E o tema do nosso podcast de hoje é Amizades.
Marx: E aí, meus queridos. Meu nome é Marx Osório, sou farmacêutico. E até hoje eu não sei muito bem quantas amizades eu tive ao longo da vida.
João Victor: Olá a todos, meu nome é João Victor, tenho 25 anos e já me adianto. Nada contra autistas, tenho até amigos que são.
Maysa: Olá, meu nome é Maysa, tenho 34 anos, sou arquiteta e urbanista. E eu me sinto uma pessoa menos alienígena com amigos autistas.
Brendaly: Você que está nos assistindo pela primeira vez, seja bem-vindo, seja bem-vinda.
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[Vinheta de abertura]
Brendaly: Um dos desafios que eu tenho com amizade é ali definir, quando a pessoa é um amigo ou simplesmente um colega, né, um conhecido. Porque ao longo da minha vida, eu tive muitas confusões, né, considerava a pessoa um amigo e ela me considerava simplesmente um colega. Vocês têm essa dúvida também? Tem algum tipo de estratégia para definir quando a pessoa é amigo e quando é simplesmente um colega?
Marx: Bom, isso sempre foi uma questão para mim, porque aprender a identificar o que são as relações sempre foi uma dificuldade que eu tive. E principalmente porque quando a gente está em ambientes profissionais, ambientes de escola, faculdade, que foram a maioria dos ambientes que eu convivi ao longo da vida, a maioria das pessoas são realmente colegas.
Então, depois que eu fui diagnosticado, comecei a fazer as terapias, comecei a participar de grupos, comecei a entender realmente qual era o jeito certo de identificar essas relações. Eu comecei a perceber que colegas são pessoas que muitas vezes a gente convive pela conveniência do contexto, que a gente às vezes é obrigado a conviver porque está trabalhando junto, porque está estudando junto, mas amizade são pessoas que têm uma relação além disso, uma relação mais profunda.
Amizade é aquela pessoa que você tem um nível de intimidade maior do que um colega, que essa pessoa vai na sua casa, que você compartilha coisas mais íntimas da sua vida, mas que não chega a ser uma relação tão profunda quanto um cônjuge, um pai, uma mãe, um namorado, sei lá. Por não entender realmente essa diferença, eu acabei passando muito perrengue e investindo energia em relações que não permaneceram, que não deram em nada. E tem muitas histórias que eu vivi que envolvem isso.
Maysa: Eu tenho dificuldade de considerar a pessoa amiga, mas eu acredito que eu sei diferenciar amigo de colega. É um conceito subjetivo, eu não compartilho a minha vida com o colega. O colega sabe da minha vida porque ele vê. Os colegas estão nos ambientes sociais que a gente frequenta, por exemplo, um colega de trabalho. Ele sabe que eu trabalho ali, ele sabe qual é o meu carro, o que que eu almoço, né, por quê? Porque ele vê, não é porque eu conto. Então, eu vejo essa diferença.
Já o amigo é aquela pessoa que eu consigo ter liberdade e uma certa confiança para contar, para compartilhar as coisas da minha vida. E aí, ao longo do tempo, vai tendo mais profundidade nas conversas, consigo falar mais coisas íntimas minhas, né. Ir em casa e tudo mais. Então, eu sei diferenciar dessa forma.
João Victor: É uma demarcação importante, né. Mas eu considero o seguinte, quando temos colegas e queremos cogitar, evoluir essa relação a depender do colega para uma amizade, precisamos sempre tomar muito cuidado. Bom, eu pelo menos tento ser o mais precavido possível e nem sempre funciona. Porque começamos a compartilhar fatos de nossas vidas, eu particularmente compartilho. E mesmo quando há uma reciprocidade, há uma via de mão dupla, quando a outra pessoa também compartilha fatos da sua vida de volta, às vezes não é na intenção propriamente de construir uma relação de amizade.
Eu particularmente, quando me sinto mais à vontade, mais confortável para compartilhar fatos da minha vida, do meu cotidiano, quando eu vejo que a outra pessoa não está fazendo o mesmo, eu já fico com o pé atrás. Porque para mim é uma demonstração muito clara de falta de interesse. Mas o que eu também gostaria de considerar é, a pessoa que conversa comigo, o colega, pode estar compartilhando fatos de volta, não com a intenção de evoluir isso para um quadro de amizade, mas somente para passar o tempo, manter uma interação gostosa, até para não gerar um constrangimento, digamos assim. Então não é porque você está tendo uma conversa legal, produtiva, ou até bem humorada com uma pessoa, que ela necessariamente vai querer ser sua amiga. E eu já tive diversas conversas assim, em que eu imaginei que ia evoluir para uma amizade, e no final não frutificou em nada. Pensa a frustração que dá. Nossa, sério, é muito chato. É muito chato.
Brendaly: Essa diferenciação para mim é muito difícil. Às vezes eu converso semanas com a pessoa, ou meses, e aí eu desenvolvi uma estratégia excelente. Eu pergunto. Pronto, é só perguntar. Então, somos colegas ou a gente está desenvolvendo uma amizade? Pronto, e é isso. Assim, lógico que você tem que ver reciprocidade e tal, mas geralmente é a estratégia que eu adoto. Alguns aqui na mesa, inclusive, já tiveram a oportunidade de receber essa pergunta. Então, eu realmente pergunto. Olha, somos colegas ou a gente está desenvolvendo uma amizade? Então é isso.
Marx: Fica parecendo quando você está ficando com a pessoa e você fala: “Isso aqui é o que, mermão? É um namoro? É uma ficada?”
João Victor: Mais claro, cristalino que isso, impossível, filho! Mais claro, cristalino que isso, impossível!
(Risos)
Marx: Sabe o que eu observo? Que o neurotípico se sente ofendido quando você pergunta essa coisa.
João Victor: Verdade! Porque pra eles fica muito abstrato, tipo assim, como, supondo, se eu fosse essa pergunta para o neurotípico, ele vai ficar mais ou menos assim, “Como assim a gente não é amigo? Como assim a gente não é amigo?” Sabe?
Marx: “Como assim, como assim?”
João Victor: Exato! É como eu ia me importar na hora, com certeza. Prossiga, desculpa.
Brendaly: Não, tudo bem, mas assim, o diagnóstico me ajudou. Então, assim, né? “Ah não, tudo bem, né? Ela é autista, então, né? Precisa ser claro e direto comigo, gente. Pra mim não tem esse negócio de rodeio. Ver os sinais, porque a pessoa pra ser amigo, ela é assim, ela age assim. Pra mim não dá. Então, eu sou direto ao ponto. Amigo ou colega. E pronto, e sem ressentimento, assim. “Ah não, somos colegas? Tá tudo ok!”
João Victor: É essa necessidade de rodeios que me pega, cara. Porque os neurotípicos tendem a pressupor que a gente vai notar imediatamente esses joguinhos mentais que às vezes eles nem fazem maldade. Eles só querem que nós percebamos e pronto, tá ligado?
Marx: É porque eles percebem, né? A gente não. É por isso (risos).
João Victor: Ah, não me diga, Marx! Não me diga, Marx!
Brendaly: Aí, aproveitando, né? A gente tá falando de neurotípicos, né, também.
Vamos jogar assim, vocês têm amizade com autistas e com neurotípicos, né? Assim, vocês também têm amizades com autistas, neurotípicos? Percebem a diferença? Como que é?
João Victor: Vamos lá. Se tratando de neurotípicos, o receio é inevitável. Mas, quando o neurotípico em questão já tem uma convivência com alguém neurodivergente, seja um familiar ou outros amigos que ele possa ter no círculo em que eu tente me inserir, ou esposa, marido, sei lá, convivência próxima com o neurodivergente, previsivelmente autista como nós. Eu fico muito de boa até, entendeu?
Porque eu pressuponho que o neurotípico em questão já tem um conhecimento prévio de como lidar com a gente, já tem um conhecimento prévio de como nos entender, mesmo que haja uma dificuldade, o mero empenho, a mera dedicação que ele vai ter em nos entender, já conta muito, já é um gesto de amizade, já é um ato afetivo, digamos assim, não sei se ficou boa a colocação de palavras, mas faz parte.
Maysa: É, no meu caso, as minhas amizades mais antigas que eu ainda tenho contato até hoje, porque eu tenho dificuldade de continuar mantendo contato com as pessoas, então às vezes eu até faço ali amizade e eu, sem querer, eu não continuo tendo contato, puxando assunto, então assim, aí as amizades se perdem, né? E aí eu percebo que muitos autistas são assim também, e aí acaba que perde, vai perdendo a amizade entre autistas.
Então, por exemplo, as minhas amizades mais antigas que eu tenho, uma ela é neurotípica e as outras duas pessoas eu desconfio que são autistas, a gente parece ter muitas semelhanças, mas nessas outras duas não tem uma manutenção muito de amizade, sabe? Some, ficam muito tempo sem se falar, aí depois aparece, e já essa amiga minha mais antiga, neurotípica, nossa amizade durou, eu já agradeci muito ela por isso, porque ela sempre tá puxando assunto, estimula mesmo a amizade, então a gente tem ainda esse contato, né? E aí, quando eu tive o diagnóstico, eu falei pra ela, ela compreendeu, ela: “nossa, então desculpa, tantas vezes eu fiquei forçando pra você conversar muito, fiquei te ligando e você sobrecarregada e tal”, ela entendeu, foi bem legal.
Marx: Ao longo da vida, eu tive uma dificuldade muito grande para permanecer nas amizades, eu acho que pelo mesmo motivo que você falou, por conta da manutenção,
eu tenho uma questão muito séria com a manutenção das relações, principalmente a distância, de ficar ligando, mandando mensagem, porque me cansa bastante ficar fazendo contato virtual o tempo todo.
E teve outras razões também, fazendo uma reflexão sobre o passado, pensando que eu não consegui levar pra vida nenhuma amizade, nem da época da escola, do ensino fundamental, do ensino médio, em partes porque realmente eu tive muito problema de socialização mesmo, eu não conseguia conviver direito, extremamente reativo, não conseguia entender as brincadeiras, levava tudo muito ao pé da letra e aí o pessoal não tinha muita paciência com isso, e porque eu era chato, muito chato, eu era muito chato, eu era muito chato.
Maysa: Bom que ele assume (risos).
Marx: E hoje eu vejo que parte desse comportamento é um espelhamento de algumas pessoas que eu convivia, que eu não vou citar quem é por questão de ética, mas assim, nós enquanto autistas, a gente tem que ter essa consciência de que muitos comportamentos que a gente desenvolve ao longo da vida, claro, alguns são da nossa própria natureza mesmo, de como a gente aprende a lidar com o mundo, mas alguns, muitas vezes, é espelhamento de pessoas que a gente aprende a admirar e ter como espelho, justamente pela dificuldade que a gente tem de encontrar o nosso próprio estilo e por outras razões relacionais.
Mas assim, eu tive um período da faculdade que eu tive dificuldade também, porque o meu diagnóstico só veio em 2023, eu já tinha até formado. A relação que eu tive lá, que eu considero que chegou mais próximo de uma amizade, que era um colega meu, que eu considero ele meu amigo ainda até hoje, que a gente realmente teve um momento de ter mais proximidade, eu acho que ele é TDAH, mas ele discorda completamente dessa minha afirmação, mas eu tenho certeza que ele é TDAH.
E ao longo da vida, as pessoas com que eu tive mais afinidade foram as pessoas neurodivergentes, principalmente as que têm TDAH. Eu acredito que justamente por não se importar muito com a questão do trajeto social, às vezes a falta de filtro, e às vezes o meu jeito um pouco direto de falar as coisas que às vezes a maioria das pessoas não tem coragem de falar em certos contextos.
Com os neurotípicos, eu vejo que a minha dificuldade foi manter a relação. Iniciar a relação às vezes não era tão difícil assim, principalmente depois de adulto, mas a baixa manutenção acabou levando as pessoas a se afastar com o tempo também. E depois da pandemia então, aí desgraçou tudo. Aí ficou pior ainda.
(Risos)
João Victor: Eu fiz esse sinal com a cabeça quando o Marx falou que era um cara chato, não como se eu estivesse concordando “ah, o Marx é chato mesmo”. Não, que isso fique claro, tá?
(Risos)
João Victor: Mas é porque eu me identifiquei tanto, porque eu também era um rapazinho muito chato, com uma dificuldade em socializar imensa. E assim, nenhuma amizade da infância eu pude levar para os tempos atuais também. Então foi essa identificação que fez eu ter essa concordância, certo? Muitas vezes, para tentar me aproximar e gerar novos vínculos, novas amizades, eu ia jogar bola no recreio. Era muito ruim? Era provavelmente o pior da sala, mas dava certo até certo ponto, apesar das brigas, apesar dos socos e pontapés que eu dava nos coleguinhas, quando eu ficava com raiva, enfim.
E eu tive muitas amizades, ainda tenho algumas virtuais mesmo, de internet, né? E cara, eu acho incrível como todos ou quase todos aqui nesta mesa mostraram uma certa percepção em detectar neurodivergentes, sejam autistas ou não, e que esses mesmo neurodivergentes foram as pessoas que permaneceram fieis a vocês, amigos ou amigas de vocês, tá ligado? Porque comigo é exatamente a mesma coisa. Uma das minhas amizades mais antigas também foi diagnosticada com o TEA ano passado. Uma das amizades da internet, que eu conheço desde que nós éramos pequenininhos, tá ligado? Tipo assim, começo da adolescência, entendeu?
Brendaly: Eu era uma criança também muito chata, eu acho que é quase unânime, né?
E assim, ao longo da minha vida, eu tive muitos abandonos de amizade. Pode ser que é porque eu era chata e também porque eu era diferente das outras crianças. Então, não consegui manter nenhuma amizade nem na infância e nem na adolescência. Aí pulando pro meu diagnóstico e até um pouquinho antes, minhas amizades, pessoas que eu consigo criar conexões, todas elas são neurodivergentes. Eu tenho uma que é neurotípica, uma só que é em um outro contexto. É porque eu não consigo conectar com o neurotípico, gente. É quase um preconceito com o neurotípico, a gente pode falar isso?
João Victor: Quase? Quase?
(Risos)
Brendaly: Não, é porque eu não quero ser cancelada, entendeu?
Marx: Isso é reparação histórica!
João Victor: Percebe-se, percebe-se.
Brendaly: Reparação histórica, verdade! Então, eu tenho quase um preconceito com o neurotípico. Gente, eu não consigo entender neurotípico, eu não consigo. É um joguinho, é uma coisa, eles ficam ofendidos por qualquer coisa, sabe? E eu aprendi. Por conta disso, eu peço desculpa por tudo. Eu sou a pessoa que pede desculpa por tudo, gente!
Maysa: Eu também.
Brendaly: A gente passou por isso.
Maysa: Eu também passei por isso.
Brendaly: Bastidores, bastidores! Bastidores da nossa conversa. A gente pede desculpa por tudo. Gente, por tudo! Aí a pessoa fala assim, “olha, Brendaly, não deixe isso aqui em cima da mesa”. “Ah, tá bom, desculpa”. “Brendaly, vem aqui, eu te chamei há um tempo”.
“Ah, tá bom, desculpa”. Então, por quê? Eles se ofendem demais, então eu prefiro amizades com neurodivergentes.
Maysa: Essa questão de afinidade, né, que o Max falou e agora você. Hoje, que eu tenho um autoconhecimento melhor, conheço as minhas questões e tudo mais, eu me identifico mais, prefiro amizade com pessoas neurodivergentes também. Eu acho mais confortável, né, por questão de compreensão. Porque, assim, por exemplo, você está em um ambiente social, em um evento com amizades neurotípicas, né, e aí você vai indo, vai ficando sobrecarregada e não quer ficar mais naquele local e acaba que parece que você tem que ficar tentando criar desculpas pra poder ir embora, sabe? Falar assim, “ah, minha mãe tá me chamando, não sei, eu tô começando a passar mal”. Você fica assim, você começa a ficar meio sem saída, porque a pessoa te julga, fica assim, “nossa, mas agora que tem uma hora que a gente tá aqui, você já quer ir embora? Como assim? Você tá achando ruim por quê? O som tá massa e tal”. E você fica assim, “não tá mais massa”.
E assim, e as pessoas autistas, né, assemelhantes com a gente, entende. Igual, assim, eu tenho um grupinho de amigas autistas que a gente combina alguma coisa pra sair. E aí, chega um pouco antes de sair, a gente pergunta, “e aí, a gente vai mesmo?” e tal. Aí um ou outro que fala, “olha, eu não consigo ir, eu fiquei sobrecarregada aqui, depois que eu saí do serviço, isso e aquilo, não consigo”. E a gente entende, tá tudo bem, sabe? E até se tiver no ambiente social e um ou outro quiser sair mais cedo. Então, acho que tem uma compreensão maior nesse sentido.
Inclusive, esse assunto de infância que vocês falaram, eu e essas amigas, a gente tava conversando hoje, né, sobre essa questão, assim, de… Uma pegou e desabafou, falou assim, “nossa, eu era tão sozinha quando eu era criança, não fazia amizade com ninguém, muito sozinha”. Aí eu peguei e comentei, “ah, eu também”, e tal. Eu, “ah, mas por que será? Quais eram os nossos assuntos?”, né? Aí eu peguei e falei, “ah, eu assistia muito programa de adulto, tipo, perdi o sono, aí ficava lá assistindo telecurso 2000, tipo, Globo Rural, Fórmula 1, sabe?
Eu ficava assistindo essas coisas, e assim, eu preferia bem mais assistir documentários de animais, por exemplo, de bichos, do que os filmes infantis”. E aí, as crianças estavam ali conversando sobre coisa infantil e eu tava assim, perdida.
Eu só gostei de Pokémon, Pokémon eu gostei. Mas assim, o resto, eu ficava totalmente por fora. Então, assim, isso aí dificulta também o entrosamento. E aí, elas até comentaram: “nossa, eu também, não acredito, você também assistia essas coisas e tal?”. Eu assistia. Aí eu peguei e falei, “peraí, tá vendo? Eu seria sua amiga na infância”. Né, assim, é curioso isso, né? Assim, eu acho que a gente acaba se identificando mais mesmo
Marx: Nossa, você falando isso aí me veio uma lembrança aqui da época que eu estava no ensino médio. E aí, eu vou lembrando e vai vindo a explicação do porquê eu não conseguia fazer amizade com ninguém.
Maysa: A gente acaba sendo chato por isso, porque olha aí, você tá assistindo Fórmula 1, criança, tipo, Roda Viva.
João Victor: Comigo era pior, eu assistia Domingo Legal. Eu assistia Eliana.
Maysa: Mas Domingo Legal é mais normal.
João Vitor: Eu assistia o programa do Silvio Santos, filho.
Marx: Meu Deus, tá pior, nossa.
(Risos)
João Victor: Marx, até você, Marx? Até você?
Marx: Eliana não dá, Eliana não!
João Victor: Ah, tinha umas coisas legais! Não pela apresentadora em si, vai!
Marx: Nossa Senhora… Tinha o Chiquinho.
João Victor: Me ajude a te ajudar, filhão.
Marx: Isso me lembra quando eu estava no ensino médio e tinha um grupinho lá de colegas falando sobre Linkin Park, que era a banda do momento.
João Victor: Sim, com certeza.
Maysa: Curtia.
Marx: E nessa época, eu era hater de banda emo, porque a minha irmã mais nova estava vivendo a fase emo. E eu, porque eu queria contrariar ela, porque eu era um chatonildo daquele irmão mais velho que queria ser o moralista da história, né. Claramente, espelhando o comportamento de uma certa pessoa. E aí eu falava e ficava “Ah, essa banda aí é ruim, esses caras só sabem ficar berrando”. Ele ficava falando mal da banda pros caras. Eles olhavam com a cara como quem diz assim “O que você tá falando, moço?” Então, tipo assim, eu sofri muita rejeição e muito bullying também em alguns momentos, justamente por não saber simplesmente apreciar uma conversa.
Porque às vezes, pegando até o gancho que você falou sobre o neurotípico, às vezes se ofender com tudo, esse “com tudo”, muitas vezes, nós, enquanto autistas, não conseguimos identificar o que é esse tudo. Muitas vezes é simplesmente porque as pessoas estão falando sobre uma coisa completamente corriqueira, com gosto pessoal, uma banda, um artista, uma celebridade fútil, qualquer coisa que você…
Maysa: A gente nem sabe quem é.
Marx: Às vezes a gente até sabe quem é, mas por nós não gostar… E também, claro, eu não tinha diagnóstico, eu nunca tinha feito uma terapia na vida, eu não sabia que você não pode falar de qualquer jeito em determinados círculos sociais, porque você é interpretado como uma pessoa grosseira, como uma pessoa doida, necessária, etc.
E aí, pensando nisso, eu me lembro que dos 15 anos até os 24 anos, eu fiquei na Igreja Evangelho, que eu participei da igreja. Isso é uma fase muito importante da minha vida, que foi onde eu desenvolvi muitas amizades com pessoas típicas e com pessoas que eu considero que têm alguma chance de serem neurodivergente também. Só que depois que eu resolvi sair da igreja, que eu descrencei, que foi depois da pandemia, que eu realmente enchi o saco e não quis mais participar, esse povo desapareceu. Desapareceu.
Maysa: É assim mesmo. Passei por isso.
Marx: Porque aí eu percebi que o que nos ligava era a religião, a fé. E claro, porque eu também não fiz nenhum movimento de continuar participando de nada, porque eles só participam dos círculos sociais, dos eventos que têm a ver com a religião. E também porque, nesse período, eu me fechei a participar de outros círculos sociais que poderiam me trazer novas relações. Aí soma-se a isso com o meu comportamento ruim, com a falta de autoconhecimento, com tudo isso que eu elenquei aqui, eu chego agora em 2025 contando, sei lá, um ou dois amigos que talvez sejam amigos, que eu nem tenho certeza se são mesmo, que estão no limiar de colega para amizade.
E às vezes eu fico pensando, como que eu faço para melhorar isso? E assim, conhecer gente nova, e aí tem todo um gasto energético, tem toda uma nova construção, uma nova postura. Eu já não tenho tanto tempo para estar frequentando certos lugares que promovem esse tipo de coisa, porque agora eu sou casado, porque eu tenho um filho, porque eu trabalho, não sei o quê. As relações vão ficando mais burocráticas, e eu estou meio que enfrentando isso atualmente.
Mas eu ainda acredito que eu possa conseguir desenvolver novas amizades. Eu não morri ainda, eu sou jovem ainda, e a terapia está em dia. Então, eu estou otimista em relação a isso no momento.
João Victor: E eu acredito que em relação a esse gasto energético, ocorra o seguinte, o Max falou a respeito dos assuntos que às vezes podem nos desagradar, e talvez a gente acabe barrando a conversa ali mesmo, tipo, “Ah, esse assunto não me interessa, esse assunto é fútil, esse assunto é desinteressante, então não vou continuar mais tendo essa conversa com essa pessoa, porque talvez não valha a pena ser amigo dela”. Velho, sabe? Não! Entendeu?
Muitas vezes já aconteceu comigo de uma pessoa falar sobre determinados assuntos que me desagradaram, e eu não conseguia criar um ponto de convergência em que eu mudava o tema. Se uma pessoa falava de uma banda que eu não gostava, eu não conseguia trocar, sei lá, pra Metallica. Né, Maysa?
(Risos)
João Victor: Suspeito pra falar, porque…
Maysa: A gente fala sobre Metallica.
João Victor: Muito! Demais da conta. Eu me deparava com a seguinte situação: eu queria continuar conversando com a pessoa, mesmo com um assunto chato, mas eu não sabia como, e ficava completamente congelado no meio da interação, no meio da roda de conversa. Eu ficava tipo: “O que que eu falo com esses seres humanos que antes eu achava tão legais?” Sabe? O que que tá acontecendo?
Marx: Mas quando o assunto morre, é paia.
João Victor: Muito paia.
Marx: E tipo assim, o teu timing de falar e de não falar também é importante, né?
João Victor: Muito, demais.
Marx: Porque eu vejo que uma das vantagens de ser autista nesse caso é a identificação de padrões, né? E às vezes eu fico observando uma roda de neurotípicos qualquer assim, conversando, e eu vejo que eles falam muito, mas tem hora que eles não falam nada. E todo mundo tá se comunicando ali, nos olhares, na subjetividade.
João Victor: Todos vírgula, né, amigão? Porque nós ali no meio…
Marx: Não, eu observando de fora uma roda, entendeu?
João Victor: Claro, claro. Ah…
Marx: Eu de fora observando. E aí, hoje eu vejo que em determinadas rodas eu até consigo interagir, mas a minha bateria esgota muito rápido quando eu tento interagir no mesmo nível que eles. E aí vem aquela coisa de você se retirar, e saber se retirar também é…
João Victor: É um desafio.
Marx: É uma coisa que tem o jeito certo de fazer. Então tem norma social para entrar na conversa, para se manter na conversa, para fluir e para sair da conversa.
João Victor: E às vezes…
Marx: É muita norma social, a gente tem que criar um método de sair da conversa no improviso, porque as pessoas não formam nada previamente. Pensa o estresse que dá.
Brendaly: Pois é, assim, eu geralmente, comigo… As pessoas falam que eu sou muito brusca, né? Eu tô falando, acabou o assunto, tipo… Aí eu saio.
Maysa: É, eu também sou assim.
Brendaly: “Ai, gente, acabou!” Então, tem que ter, parece que esse, né…
Maysa: Eu também não tenho essa percepção.
Brendaly: Tem que ter um joguinho, gente! Sempre tem que ter um joguinho, e eu não entendo esse joguinho.
Marx: Mas isso não chega nem a ser um joguinho. Isso é você saber a regra social. É uma regra social. Tipo assim, eu sei que se eu sair daqui sem falar nada, todo mundo vai achar que eu sou metido, e que eu não tenho educação, e que eu tô saindo de qualquer jeito. Mas tem outros contextos que não, você pode sair, que não tem nada a ver.
Brendaly: Mas às vezes você já tá falando, “Você acabou de falar?”. “Acabei de falar a minha fala.” Acabou! E aí você sai, você não simplesmente sai. “Acabei a minha fala.” “Gente, acabou, pronto! Tchau, obrigada!”
(Risos)
Maysa: “Tchau, obrigada!” Exatamente!
Marx: Assim, eu sou a pessoa que saio. Mas tem contexto, por exemplo, se você fizer isso, é ruim. Contexto de trabalho, por exemplo. Contexto… Por exemplo, familiar, que você tá no meio da família da sua mulher, por exemplo. E aí você tem que ficar lá, fazendo sala, porque se você… Hoje em dia eu nem me preocupo muito com isso, mas é porque eu meio que… Os assuntos cansaram, sabe? Eles sempre falam a mesma coisa, é uma falta de repertório muito grande.
Aí então eu simplesmente… Eu sou educado, cumprimento todo mundo, aí troco uma ideia e tal, tal, tal. Cansei, eu saio, vou lá pra janela, fico lá no meu canto e fico calado, e ninguém fica me perturbando mais. Porque eu acho que uma coisa que me irritava muito antigamente, às vezes até na minha família também, é o fato de eu claramente estar de saco cheio e sair fora pra descansar, e a pessoa vir atrás de mim pra saber por que eu tinha saído. Ao invés de simplesmente me deixar lá e achar “Ah, tá tudo bem, aconteceu alguma coisa, você tá bem, etc.”, eu falo “Tô ótimo, melhor agora.”
(Risos)
João Victor: Já aconteceu comigo e adianto pra você, Marx. Às vezes a pessoa sabe o porquê que nos retiramos e só pergunta pra importunar mesmo. A verdade é essa. Só pra importunar.
Brendaly: Então, pessoal, esse episódio ficou muito longo, essa discussão é muito rica, então teremos a segunda parte na semana que vem. O Introvertendo é um podcast feito por autistas, em parceria com o NAIA Autismo, e está sendo gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian

