Nenhuma pessoa, em um ambiente familiar indigesto, chega à vida adulta sem marcas. Quando essas pessoas são autistas, sem estratégias para lidar com um histórico familiar ruim, as marcas podem ser permanentes e passadas de geração em geração. Na primeira parte desta discussão, Gustavo Borges, João Victor Ramos e Marx Osório, com participação de Nicolas Melo, relembram o que viveram de ruim na infância e na adolescência com questões como seletividade alimentar, alcoolismo, abandono afetivo e disputas de herança.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam. No episódio passado, falamos a parte boa das relações familiares com pessoas autistas. Se você achou que aquele estava negativo, você não viu nada.
Hoje, as mesmas pessoas estão aqui reunidas para poder falar apenas da parte negativa da relação entre pessoas autistas com seus familiares. E para poder descer além, eu trouxe aqui toda uma equipe. Se apresentem.
João Victor: Olá a todos, sou João Victor Ramos, escritor, poeta, e hoje é aquele tipo de episódio em que o filho chora e a mãe, ou pai, ou familiar que você despreza de sua preferência potencialmente pode ver.
Marx: E aí, meus queridos? Eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e não é tão difícil falar sobre coisa ruim em relações familiares, principalmente quando você é um autista com diagnóstico tardio, que viveu muita coisa ruim ao longo da vida, e muitas dessas coisas foram culpa de familiares. Então, esse episódio promete.
Nicolas: Aqui é o Nicolas, diretor de vídeo, e hoje vamos catucar pai, catucar mãe, catucar filha. Eu também sou da família, eu também quero catucar!
(Risos)
Gustavo: Se você já teve algum problema com algum parente seu, então eu te desafio a virar nosso apoiador como forma de expressar essa raiva enquanto ela durar. Estamos com apoios no Apoia.se, no Patreon e no Catarse.
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[Vinheta de abertura]
Gustavo: Então, gente, eu gostaria de começar este episódio falando que eu não tenho nenhum problema com a família do meu pai biológico. Zero mesmo. Ele abandonou minha mãe antes mesmo de eu nascer. Não deu tempo de dar problema.
Não, cheguei a ter um brevíssimo contato virtual em outra época, mas assim, não foi muito pra frente. Nunca vi pessoalmente. Me trouxe um breve, assim, pequeno resquício de alegria de “não devo ficar careca” porque meu avô paterno e ele tinham mais idade e bastante cabelo. Então, pelo menos isso, vou ter. O resto, lascou-se.
Relações familiares negativas. E eu preciso dizer que é com muita coragem que eu gravo esse episódio, porque recentemente, uma parente com quem eu tenho pouco contato, o podcast chegou até ela. Ela veio mandar. Então, assim, é possível, provável que o que eu falo aqui vai chegar adiante. E graças à terapia, apoio apropriado e tudo, hoje eu posso dizer: “não me importo mais”. Até poucos anos atrás, ainda me importava.
Nicolas: É, a gente vai fazer o possível para não expor ninguém aqui. Mas já expondo…
Marx: Infelizmente, na maioria do tempo, a relação familiar de quem tem um diagnóstico tardio é ruim.
Gustavo: Pessoal, deixa eu começar trazendo o básico aqui, o que sua família, incluindo família estendida, menos entendia sobre você e os atritos que isso causava na convivência.
Marx: Então, nós vamos começar falando sobre primeira infância e comportamentos autísticos que apareciam. No meu caso, eu era uma criança extremamente inquieta e hiperativa, que botava a mão em tudo, mexia em tudo, falava sem pensar. Se metia na conversa dos adultos, se uma pessoa falava uma coisa pra outra, eu ia lá e contava pra outra. Que pegava telefone que os outros estavam atendendo pra poder ficar falando o que não devia.
Então, eu era aquela criança terrorista, que os pais, assim, tinham um desespero terrível em relação a isso. Porque sabia que em algum momento eu ia falar alguma coisa que ia comprometer e que ia denunciar a, digamos, a fofoca, que é uma cultura muito presente na nossa civilização brasileira.
Mas o fato é que, apesar de eu ter tido experiências familiares muito interessantes no começo da vida, né, uma coisa que marcou muito o meu começo na vida foi a ausência afetiva, principalmente dos meus pais, no primeiro terço da vida. E pensar as razões disso eu acho que é muito difícil. Muito tempo de terapia já trabalhando isso, mas eu gosto de, quando eu vou falar sobre isso, de pensar nas consequências práticas que isso trouxe.
E pensando que, como o autismo já faz com que a expressão emocional seja prejudicada, já tinha dificuldade muito grande de processar emoções e de expressar de uma maneira adequada, eu diria que isso fez com que o meu desenvolvimento emocional fosse ainda pior do que já seria se fosse um caso de ausência emocional de uma pessoa típica.
Então, uma coisa que me marcou muito até os cinco anos ali é que eu passava mais tempo na casa da minha avó materna do que com os meus pais, porque eles viviam no mundo correndo atrás de coisa de trabalho, correndo atrás de política, correndo atrás das coisas que eles gostavam de fazer, trabalhando.
Muitas vezes eu acabei desenvolvendo uma relação parental mais forte com meus avós do que com eles. E eu diria que essa foi a primeira coisa ruim que eu passei do ponto de vista familiar, que foi a ausência de convivência paterna e materna no primeiro terço da vida. Isso teve consequências muito grandes na minha vida. Tanto é que eu só consegui começar a ter uma relação mais próxima com eles depois de muitos anos, depois de uns 10 anos, que aí a minha avó faleceu e eu passei a não ter a figura dela presente na minha vida também.
Nicolas: Eu fiquei pensando muito, por muito tempo depois do diagnóstico, se na primeira infância tivesse sido um pouquinho diferente, o que que ia mudar, o que que ia impactar na minha vida?
Porque eu cresci, como eu disse, muito fechado, muito reservado. Mas o motivo era claro, meus pais trabalhavam o dia inteiro, porque a gente não tinha dinheiro, então a gente tinha que trabalhar. A gente morava num lugar pequeno, era tudo muito difícil. Então, a maneira mais fácil de me criar era com tela. Na época não tinha celular, era o quê? A TV. Eram os filmes, era depois de um tempo o videogame.
Então, eu fico pensando se na primeira infância, se eu tivesse tido mais contato social, teria sido diferente alguma coisa, teria mudado quem eu sou hoje? De que forma? O que que ia impactar em como eu desenvolvi? Porque eu penso que crescer tão dentro das telas, tão fechado de onde eu estava, tão no meu mundinho, me fechou ao mundo externo. O quanto é por causa do autismo, o quanto é por causa das telas, o quanto é por causa desse hiperfoco em cinema e tal, que foi desenvolvido por causa das telas também.
Então, é tudo muito interligado, todo esse emaranhado de é isso por causa disso, por causa disso, por causa daquilo. E se você mexer uma pecinha, o que que ia mudar? Eu ia ser mais sociável? Esse é um traço negativo? Eu ia estar mais ligado aos outros familiares, mais conectado aos outros familiares? Não sei, nunca saberemos.
João Victor: Até os meus 7 anos de idade, sem querer começar o oversharing, mas estou aqui para isso, estamos aqui para isso em alguma medida, em alguma escala. Eu tive que lidar com um negócio meio chato, que está na vida de pouquíssimos brasileiros. Não por minha causa, obviamente, mas por causa do meu pai, um tal de alcoolismo. Conhecem? Já ouviram falar?
Não preciso dizer que, quando uma pessoa bebe muito e não se contém, o preço que é pago nesse processo é no mínimo alto. Não estou aqui para desmerecer ou cancelar o véio, porque ele luta contra isso com muita força, muita determinação, entendeu? Mas no momento inicial da minha vida, ele parecia claramente ter se entregado. Sobretudo depois que meu avô paterno, pai dele, faleceu uma semana antes da minha irmã nascer. Esse contexto em específico realçou muito.
Meu pai começou a ficar depressivo, para acabar de completar. Aí ele se afogou e por tabela tomou decisões financeiras muito imprudentes. As brigas homéricas que eu testemunhava em casa, em aniversários, meus aniversários, me pegam até hoje.
Ao mesmo tempo em que eu tento me basear em termos de conduta, em termos de pessoa, no que o meu pai tem de bom, eu tento evitar tudo o que ele é de ruim. Tanto é que eu prometi para minha mãe ainda muito novo, não vou colocar uma gota de álcool na minha boca e é por isso que eu não bebo. Não é por causa de remédio, também vai, invariavelmente, pelo tratamento. Não é por causa de…
Gustavo: Mas é uma decisão que você tomou antes de qualquer questão de medicação. Você tomou com essa figura.
João Victor: Perfeitamente.
Gustavo: Acho que a primeira coisa que eu penso assim com estranhamento com família acho que seria alimentação. Eu era uma criança bem quieta. E se a criança não está destruindo a casa, é fácil você deixar ela ali no sofá da sala que ela não está destruindo nada.
Mas eu sou formalmente vegetariano desde os quatro anos de idade. Acho que o gosto da carne nunca me apeteceu, nunca me desceu. Eu deixava no canto do prato, eu não queria até que… Eu comecei a entender que alimentos eram esses e… Ou pedia para não colocar, ou algumas vezes minha mãe via e não colocava mais. E eu passei a entender o que era carne e não comer.
A gente vai ignorar levemente, passar um pano para o fato de eu ter descoberto que salsicha, quibe, nuggets eram carnes só com oito anos de idade. Dos quatro a oito eu comia isso normalmente, até descobrir que não e aí eu passei a evitar isso também.
Mas a questão familiar é que eu não estava fazendo bagunça, então tá bom. Mas na hora de comer, esse menino não come nada. Eu atrapalhava. O pessoal fazia aquelas panelas gigantescas de galinhada e aí alguém tinha que fazer um arroz branco para o Gustavo, porque o Gustavo não vai comer aquilo.
E aí tinham pessoas que, gentilmente ou não gentilmente, falavam: “não, é só tirar a carne. Ele come esse arroz amarelo com todo o gosto do caldo da galinha ali, é só tirar”. E eu escutei isso desde sempre até os 20 e tantos anos, quando uma parente que estava de visita na minha casa pegou o macarrão que a minha esposa preparou e jogou um frango desfiado nele, achando que não tinha problema.
Marx: Essa questão da comida no contexto familiar, principalmente antigamente, a galera tinha uma visão muito de que se a criança não quer comer uma coisa é porque ela não quer, porque é frescura, porque é birra. Porque o pessoal não entende o que está por trás de uma seletividade alimentar.
Independente se é pelo motivo da pessoa achar que aquilo não é tão importante, ou se é porque a pessoa realmente tem o momento de alimentação como um momento social ali, onde se você está comendo junto é porque você está gostando de estar ali, porque aquilo é uma demonstração de respeito. Principalmente na cultura da roça, o povo do interior, eles têm muito se você não aceitar comer o que eles oferecem, você está fazendo desfeita.
Toda vez que a minha mãe ia na casa de algum parente do meu pai, lá nos interiores, ela comia tudo que eu oferecia e não rejeitava nada, mesmo que ela não quisesse comer, porque não, ela não pode fazer desfeita, senão a pessoa vai ficar chateada e tal. E eu olhava para ela e falei “mas gente, você vai comer um que você não quer, só porque a pessoa está oferecendo”. E eu era a criança que não comia aquilo que eu não sabia o que era. Até hoje eu sou assim, né?
Gustavo: Nossa, sim.
Marx: Eu não como o que eu não sei o que é, e se eu não quiser comer, eu não vou comer, independente se a pessoa estiver oferecendo a maior boa vontade do mundo. E isso foi uma questão, em alguns contextos, que muita gente ficava fazendo comentários desnecessários. O meu pai, ele teve uma postura lamentável com relação a isso, desde sempre, de ficar fazendo piada, de achar que aquilo não é pra tanto. “Ah, é porque tem que comer o que tem, porque se não quiser comer o que tem é porque está sendo ingrato, porque tem as coisas, e tem um monte de gente passando fome aí no mundo”. E esse discurso passivo-agressivo que eu odeio, de que: “ah, porque você tem que comer o que tem, porque tem um monte de gente passando fome por aí”.
E a única pessoa que realmente, no fundo, entendia o que estava rolando e ia lá e fazia uma outra coisa, é a minha mãe. Igual, por exemplo, tem uma tradição familiar do pessoal meu lá, que é de fazer aquelas mocotó, aquelas buchadas. No Nordeste, o pessoal gosta muito, né? Que são carnes com cheiro extremamente forte, com uma gordura extremamente enjoada. E eu tenho uma sensibilidade à cheiro de gordura extremamente forte, me dá ânsia de vômito.
É tanto que eu demorei pra começar a comer carne por causa do cheiro da gordura, não por causa da carne em si, por causa da textura, o leite. Quem conseguiu fazer eu comer carne foi a minha avó materna. Quando eu tinha quase quatro anos, ela foi introduzindo aos pouquinhos, com frango desfiado, aquela coisa bem gradativa, até eu conseguir comer. Por quê? Porque eu queria comer, mas eu não conseguia por causa do cheiro.
E aí, toda vez que fazia essas panelas de buchada, a minha mãe já sabia, eu não ia comer. E aí, beleza, ela ia lá, fazia um bife, ou fazia um frango, qualquer coisa, eu ia lá, sentava e comia com todo mundo, sem problema nenhum. Apesar do cheiro me incomodar, se tivesse outra coisa pra comer, eu comia de boa. Mas sempre tinha um comentáriozinho desnecessário, alguma coisa desnecessária. Só que assim, ninguém falava muita coisa, por quê? Porque, apesar disso, o restante da refeição eu comia normal.
Agora, a minha irmã, que claramente teve mais problema do que eu com isso, tinha um repertório alimentar muito menor que o meu, e quando era peixe, que eu gosto muito, que ela não comia, tinha que fazer carne pra ela na sexta-feira santa, tava todo mundo comendo bacalhau, tem a tradução católica, né? Então, assim, aí já viu, né? Já tinha aquela coisa: “meu Deus, vai comer carne na semana santa”. O povo, o medo, uma coisa assim…
Então, é desconfortável pra caralho, sabe? E eu tenho, pra mim, que muito dessa relação traumática que a gente desenvolve com alimentação, para além da seletividade, seja ela qual for, é pelo jeito que a família muitas vezes traumatiza, sem nem perceber, às vezes, o autista, com a questão da comida, pelo simples fato de você não comer o que todo mundo tá comendo.
Gustavo: Sim! Você falou aí de não saber o que tá comendo, eu tenho isso muito forte até hoje. De vez em nunca eu pergunto até pra minha esposa cozinhando, ela já desenvolveu o hábito de me explicar porque escondiam carne na minha comida. E aí, do nada eu mexia e… é, tipo assim, no fundo do prato, pedaço pequeno, só um pouco do caldo… Mesmo que a pessoa estivesse falsamente preocupada: “ah, vai ser anêmico”, cara, não te dá esse direito, não faz. Eu não consigo, pode ser comida de restaurante que for, se não tiver uma etiquetinha, um negócio falando o que é, eu não vou comer.
Nicolas: Mas é que tá, muitos parentes têm uma preocupação por você até certo ponto.
Gustavo: Ah, com certeza até certo ponto.
Nicolas: Depois que você tem o laudo de autista e tudo mais, aí se vira.
Gustavo: Posso falar, por exemplo, uma coisa muito fofinha, nesse “até certo ponto”, eu era visto como uma criança inteligente. Já começa assim que eu era o único que teve acesso à escola particular e todo mundo já sabia que eu ia ser o primeiro a ir pra universidade ali. E falavam isso abertamente em almoço na casa de avô: “ah, o Gustavo vai estudar muito, ele vai ficar rico, ele vai cuidar de todo mundo aqui”. Cara, eu sentia um peso com isso. Nossa, eu tenho que ganhar muito, muito dinheiro, porque é muita gente aqui que vai ter que fazer alguma coisa. E eu acreditava nisso na época.
Nicolas: E falavam assim: “o mais quietinho é o que mais estuda, é o que mais vai vencer na vida”.
Marx: Nossa, vencer na vida é pesado.
Nicolas: Muito.
Gustavo: É, ninguém tinha a menor noção de autismo naquela época, ninguém nem sabia o que era autismo no interior de Goiás dos anos 90. Então, assim… E eu acreditava que… Você fala um negócio pra uma criança autista, ela acredita aquilo como verdade. Então, eu realmente passei muito tempo achando: “nossa, eu vou ter que sustentar todo mundo, todas as tias, tios, avós”.
E o pior, minha mãe por ter casado com uma pessoa com um pouco mais de dinheiro, ela realmente ajudava os parentes. Então, ela ajudava, dava um tanto de aluguel, ajudava pessoas a começarem negócios, profissão. Minha mãe ajudou todo mundo ali, ela fez o pessoal dar uma melhoradA de vida. Eu falava: “nossa, minha mãe já tá começando, vou ter que ser eu”. Assim, pra ferrar a cabeça mesmo.
Nicolas: E muito também dessa pressão, no fim, muito do que eu vou falar de reclamação e tal, se resume à linguagem passiva agressiva. Que é que os parentes sempre usam isso de alguma forma, seja na frente dos seus familiares, na frente dos seus pais, ou na sua frente, ou pelas costas, com comentários e tal, que eles fingem que acham que você não tá ouvindo, ou até sabem que você tá ouvindo, mas não se importam.
Mas é sempre esse linguajar passivo agressivo que é o que mais, eu não vou dizer traumatiza, mas tem um impacto negativo muito grande. Porque deveriam ser as pessoas que você deveria contar, deveria ser a sua rede de apoio, deveria ser, a gente entende que família é o seu lugar seguro.
Aí, seu pai, sua mãe faz uma pressão psicológica em você, usa um linguajar tão… Não vou dizer um linguajar errado, no grande esquema das coisas, de tá errado, mas é um linguajar que impacta negativamente, sabe? Muito por causa do desconhecimento, muito por causa que não tinha um laudo, não tinha conhecimento na época. Mas todo esse linguajar, ele tem um impacto negativo sobre você que você fica pensando, como que eu faço pra não seguir esse caminho? Como que eu faço pra não replicar esses erros que eu vejo como erro, que eu vejo que me afetaram tanto?
João Victor: O medo de repetir a história, né?
Nicolas: É o medo de repetir a história.
João Victor: Como o Marx falou no começo do episódio, eu também era uma criança muito agitada, muito licença poética, atentada. E assim, aí depois, passei pela fase que citei no começo do meu relato e, como falei no episódio da parte boa da família, minha mãe buscou abrir mão de tudo, pra cuidar de mim.
Só que houve um preço que eu paguei, porque ela se tornou, que muitas mães atípicas, me perdoem, mãezinhas, invariavelmente são com seus filhos, sobretudo no contexto do diagnóstico tardio, extremamente, absurdamente protetoras. Naquele sentido que você coloca num casulo mesmo, tá ligado? É complicado.
Na minha adolescência, eu tinha muita dificuldade de entender ela. A gente… Foi um momento ali em que começou as primeiras discussões, as primeiras trocas de farpas, porque ela tinha muito dessa linguagem passivo-agressiva.
Ela sabia como me deixar irado, ela sabia como me provocar, ela sabia como me perturbar. Quando ela brigava comigo por algo que eu não julgava como justo, eu respeitosamente questionava. Aí ela já erguia a voz e falava, “Você está me respondendo? Que falta de educação?”. Sendo que eu só estava questionando, “Mãe, por que a senhora está brigando comigo?”.
Gustavo: Ninguém no mundo vai ser tão bom pra poder, mesmo que inconscientemente, cutucar aquela sua ferida mais profunda e desprotegida ou escondida do que sua mãe.
João Victor: Exatamente. E quando esse cutucar acontecia, e eu, invariavelmente, era indelicado de volta, eu sei que é errado, ela já falava: “Nossa, meu filho, tenha calma. Por que você está falando isso com a sua mãe? Tenha mais respeito”. Você me desrespeitou primeiro. Agora, o filho tem que aguentar o desrespeito da mãe só porque mãe é autoridade? Há controvérsia, Mamacita. Desculpa, sabe?
Não que eu seja um santo, tá? Mas é complicado aguentar esse tipo de situação quase todo santo dia e ter conflito em casa em plena adolescência. Isso só foi parar depois do diagnóstico. Ela só foi começar a me respeitar um pouco mais depois do diagnóstico, nesse sentido. Porque antes disso era troca de farpas, era provocação. Ela brigava comigo porque eu me recusava a aceitar que ela estourasse espinha no meu rosto. Ridículo, eu sei.
Ela já soltava os cachorros por qualquer comportamento atípico meu. Tipo, se eu não queria, se eu estava sem fome, ou se eu não queria estudar, ou se eu queria jogar algum jogo até um pouco mais tarde, tipo, 10h30min da noite. Entendeu? Qualquer coisinha era pretexto pra ela brigar comigo.
Qualquer… Um passinho errado na conduta que ela julgava necessário que eu tivesse enquanto filho dela, ela já fazia… Criava essa atmosfera visando com que eu explodisse pra que quando eu explodisse ela arranjasse pretexto pra falar: “Olha aí, tá vendo? Tá vendo? Você não me respeita! Você não dá valor à mãe que você tem. Eu fui uma mãe fracassada com você. Eu devia deixar você aos cuidados do seu pai e ficar com a sua irmã na casa dos meus pais”, meus avós, seus avós. E cara, “eu devia te colocar num hospício, já pode internar”. Era nesse nível o bagulho, brother. Era nesse nível, assim. Não vou mentir, mexe comigo até hoje, essa porra.
Gustavo: E olha que você parece ser a pessoa que tem a melhor relação com a mãe dessa mesa.
Nicolas: O que não é um bom caso, né? (risos).
Gustavo: Não, mas tipo assim, se esse é o melhor…
Nicolas: A métrica tá aí, né?
João Victor: Não, assim, não me entenda mal. A minha mãe é o ser que eu mais amo nesse mundo. Eu sei que ela fez as tripas, o coração, pra me dar boa educação, qualidade de vida e tal, e o caralho. Mas tem uns bagulho que pesa, brother.
Nicolas: Mas é que tá, eu quero te saber uma coisa. A gente vai falar muito… A gente tá falando muito mal assim, dos pais. Só que… Alguém que teve familiar que fez terapia? Teve pai ou mãe que fez terapia?
João Victor: Não.
Gustavo: Não, eu insisto pra mim, eu fazer terapia até hoje. Ela começa um pouquinho e para.
Nicolas: Porque eles são frutos de uma época, né? São frutos de uma criação muito bizarra.
Marx: E aí você entrou num ponto aí que eu acho que é importante a gente frisar aqui, né? O que é comportamento aprendido, o que é cultura familiar ruim que vem de geração em geração e o que é transtorno de conduta, de comportamento, e o que é coisa de caso pensado na maldade, né? Diferenciar essas quatro coisas é importante. Por quê?
Porque teve contextos que eu passei onde claramente a pessoa ela tava agindo de maneira babaca comigo porque ela não tinha repertório, porque ela não sabia que aquilo era um comportamento ruim. Às vezes é uma pessoa neurodivergente também que não tem diagnóstico. Às vezes é uma pessoa que aprendeu a responder daquela forma porque responderam daquela forma com ela. Hoje eu tô fazendo um exercício de tentar identificar o que é cada coisa, de cada situação, de cada pessoa.
Mas houveram pessoas que foi realmente um comportamento ativo, de caso pensado, de uma pessoa que tem um narcisismo altíssimo. E esse tipo de pessoa a gente não pode ter dó de colocar num lugar ruim da nossa vida, de cortar completamente e falar assim: “se essa pessoa, eu tentar fazer um esforço de manter ela na minha vida, de ela permanecer na minha vida, não vai compensar de nenhuma forma, de maneira positiva, todo o mal que ela causou e que ela vai causar. Porque ela é incapaz de ser uma pessoa boa na vida de alguém”.
E quando essa pessoa é um parente distante, quando é um conhecido, quando é um amigo, quando é um cônjuge, é menos pior porque você tira da sua vida, daqui a pouco você joga no mar do esquecimento, vida que segue. Mas quando essa pessoa é um dos cuidadores, é uma relação profunda, umbilical, é extremamente dolorido.
É um luto que você tem que passar, como se você tivesse perdido uma pessoa fisicamente mesmo. E tem gente que passa a vida inteira com uma relação dessa, sofrendo, se definhando emocionalmente, porque não consegue ter coragem de fazer, de tomar essa decisão de matar essa pessoa na sua vida mesmo.
Nicolas: E o que mais dá clareza de quem são essas pessoas que são, tem caso pensado de maldade mesmo, é quando o familiar próximo morre. Porque aí entra a briga de herança, entra a briga judicial. As pessoas, elas mudam quando envolvem dinheiro, quando envolvem bens materiais. E aí você descobre que: “meu Deus, ele me criou, é o meu pai, e ele tá fazendo isso comigo”.
Marx: É, foi exatamente quando os meus pais se separaram, agora é final do ano, né. Da pessoa que passou a vida inteira falando que não era apegada a coisa material, que isso não era uma questão para ele, não sei o quê. No contexto lá, ele queria ficar com tudo, extremamente apegado às coisas, não queria deixar nada pra ninguém.
E hoje eu tenho convicção, é uma pessoa que eu não posso contar com um centavo dele para nada. Se eu estiver passando debaixo da ponte, morrendo, e ele estiver lá de boa, eu não posso contar. Porque o preço que eu paguei pra ter a minha saúde mental de volta, para ter a minha dignidade de volta, para poder existir em paz, sem ter aquela ansiedade, só de chegar perto da pessoa já tinha uma ansiedade absurda, é não contar com a ajuda dessa pessoa pra nada.
E assim, hoje eu vejo que o autismo, ele me fez não conseguir enxergar essas coisas mais cedo, e passar por situações violentas por não perceber que era violência, ou não perceber que era ruim, que era inadequado, em alguns contextos, por não conseguir entender que aquilo era inadequado, e muitas vezes levar alguns comportamentos problemáticos pra minha vida, por achar que é normal, por não conseguir perceber que é problemático, e vindo da família, muitas vezes. E depois, quando vem o prejuízo na vida adulta, de não ter relacionamento, de brigar com todo mundo, de ir pra terapia, a terapia mostrar: “ó, é por causa disso e disso”.
E aí eu faço a retrospectiva lá atrás: “ah, então esse comportamento que eu aprendi lá na minha casa, lá com fulano, ciclano, beltrano, que eu jurava que era uma coisa normal, porque a maioria das pessoas tinha, é um comportamento ruim, que fecha socialmente as portas, que faz você ser uma pessoa antipática”.
E eu era uma pessoa extremamente antipática, mesmo tentando não ser, eu era antipático, porque eu aprendi a ser antipático, sem nem perceber. E é muito triste constatar que nem tudo tá na conta do autismo, mas coisas que não são da conta do autismo se tornaram questões que atrapalharam a minha vida, por causa da dificuldade do autismo de não enxergar aquilo.
João Victor: São coisas complementares, e quando a gente tem essa constatação, é um choque tão grande que acaba fazendo parte do processo de luto a respeito da perda que você acaba tendo.
Eu passei por esses pequenos, grandes lutos quando, numa sessão de terapia, eu percebi que algum comportamento meu da atualidade foi herdado de acontecimentos muito trágicos no passado, vide exemplos os que eu citei ao longo do episódio, e eu falo tipo: “cara, e agora? Eu não quero ser como eles no sentido negativo. Como que eu faço pra escapar disso?”. Porque o próprio autismo acaba se tornando um fator que reforça tudo de ruim que nós herdamos. Já pararam pra pensar? Sobretudo quando é tardiamente diagnosticado.
Marx: É, não é nem que reforça, é que você não consegue perceber.
João Victor: Também.
Marx: É a falta de auto-percepção mesmo.
João Victor: Também.
Nicolas: Só um disclaimer, eu vi um comentário em um dos episódios que dizia que todo episódio a gente fala sobre terapia, que no final é só fazer terapia. Não importa o quanto a gente fale, não é o suficiente. Façam terapia, por favor.
Gustavo: Eu quero voltar num ponto aqui de grande relevância que vocês já falaram da importância da terapia pra poder quebrar esse ciclo vicioso. Eu percebi fazendo terapia já adulto, que durante boa parte da minha vida, a minha relação com a minha mãe era baseada em medo. Medo assim do que causava, do desobedecer, do não seguir exatamente o que ela queria pra minha vida, da vida que ela planejou pra mim. Medo de fazer, de desobedecer, de tipo de consequências que eu sofreria por isso, financeiras ou não.
E eu precisei de muita terapia para poder conseguir quebrar isso e pra poder falar para ela isso, que a relação que eu tinha com ela era baseada em medo e que eu buscava ter outro tipo de relação. A relação hoje não é mais baseada em medo, não ficou tão boa quanto poderia, mas hoje ela ainda é uma pessoa que eu falo: “A minha família, para mim, é minha esposa e minha mãe”. Todo o resto eu pude cortar por razões que a gente ainda vai contar ao longo do episódio.
E pra eu poder jogar mais uma pequena bombinha na mesa, eu falei que minha mãe casou com meu padrasto quando eu era criança, eu tinha quatro anos. Ele faleceu relativamente pouco tempo atrás, acho que dois anos atrás, ou vai interar dois anos agora. E aí chegou a questão de… Havia um testamento, ele tinha escrito esse… “escrito”. Eu acho que houveram outras mãos nesse testamento, mas independente, ele é um documento válido, legal. Não foi na época que a gente se entendia mais.
Eu passei a me entender muito melhor com ele quando eu passei a me tornar um adulto, a interagir melhor, mas que seja, o fato é que essa pessoa que me criou por 28 anos, mais ou menos 27, 28 anos, tinha um testamento onde eu não era sequer citado. E tinha agradecimentos aos filhos, aos irmãos, a filha que ele teve com minha mãe, que também cortou contato comigo algum tempo depois disso, mas eu não era citado nesse documento.
E não é… Não estou deixando nenhum centavo pra ele. Não estou deixando nem um “até logo”, não estou deixando um “bom te conhecer”, inexiste. A palavra final de uma pessoa que morreu internada no hospital sem poder se despedir, por mais que eu sentisse afeição por ele, ele sentisse afeição por mim, eu acreditava que ele sentia afeição por mim, a palavra final dele: eu não existo, eu não estou nem ali.
Marx: Cara, você falando isso aí, eu fiquei pensativo aqui de uma coisa, né? Como que as relações humanas, elas são extremamente passíveis de mudar com o tempo, como que as pessoas mudam com o tempo, como que a galera às vezes se força a desenvolver um afeto que no fundo ela não quer. Isso é mais comum do que você imagina.
A sua história me fez pensar uma coisa aqui, que tem muita relação familiar que a gente viveu, que a gente só se deu conta de que era artificial quando a gente ficou adulto e passou a ter a capacidade mínima de percepção social que uma terapia bem feita começa a fazer, é feito na nossa vida enquanto autista.
Porque eu tive essa mesma sensação que você teve, mesmo a pessoa não falando abertamente ou deixando de me agradecer num testamento, se fosse o caso, né? Mas o simples fato de ver que a atitude demonstrou que ela não se importa nem um pouco, que aquilo ali era só fachada, que era só porque o contexto familiar exigia, mostrar uma imagem de que se importava de verdade, isso vem com tudo na vida adulta. E entender que isso faz parte das relações humanas. Infelizmente, a gente não queria que fosse assim.
O ideal é que não fosse, é dolorido, é injusto, dá raiva, tem hora que você dá uma vontade: “Ah, vai todo mundo dar merda também”. Mas isso é comum, infelizmente. Ainda mais, e olha só, você tá falando de uma pessoa que não tinha laço de sangue, né? Vocês tinham um vínculo afetivo de 20 e tantos anos, mas não tinha laço sanguíneo. Isso acontece com pessoas que têm laço sanguíneo de primeiro grau!
Gustavo: Demais, cara.
Marx: Acontece! E qual é o impacto disso na nossa vida, emocionalmente falando? Devastador! E querendo ou não, influencia na maneira como a gente se relaciona na vida adulta também. E os anos de terapias e de ressignificação pra isso, é muito longo.
Gustavo: Sim, cara. Teve uma época… Minha mãe falava: “Você tem que ter mais contatos com seu tio, você tem que ter mais próximos, você mudou para Goiânia, você não vem mais com tanta frequência, você não…” Cara, e aí eu passei a… Teve uma época que eu trabalhava um pouco mais longe, era uma temporada mais longa, eu falava: “Então tá bom”.
Toda segunda-feira, eu tô voltando de carro, eu vou ligar pra algum parente e vou conversar ali, 15 minutos, à toa. E aí, eu percebia que eu ligava, atendia, conversava um pouco, mas ninguém nunca ligou de volta. Ninguém nunca foi atrás de ter esse contato. É sempre: “Você tem que ir até lá e se sujeitar”. Porque as pessoas “me aceitavam”. Mas você percebe que a relação é falsa quando você não tem nada em comum com eles, além do sangue.
Marx: É, e você tocou num ponto aí que eu vou falar, senão eu vou esquecer. Que é, o tanto que os nossos pais, muitas vezes, principalmente as mães, têm quase uma obrigação compulsória de promover a boa relação entre os parentes, que muitas vezes, eles mesmos não têm iniciativa própria nenhuma de querer ter aquela relação.
Isso aí que você falou, eu passei muito, de falar: “Você tem que falar com seu avô, você tem que falar com seu tio, não tá falando com seu tio”. Mas a pessoa está me procurando pra falar comigo, está investindo energia de volta, tá tendo interesse de vir atrás, sabe?
E eu vejo que você conta nos dedos as pessoas que realmente desprendem um ATP, uma energia, pra vir até mim e me perguntar como é que eu tô, mandar uma mensagem pra lembrar que eu tô vivo. E eu valorizo muito essas pessoas hoje, que realmente me procuram de maneira despretensiosa sem eu procurar elas primeiro. Porque eu já tenho uma dificuldade natural de ficar gastando energia social à toa, né? Não que essas relações sejam à toa, mas de procurar ativamente pelas pessoas, de maneira natural, é muito difícil.
Gustavo: É porque tem que ter uma via de mão dupla. “Ah, é muito legal quando a pessoa te procura”. Sim, você também a procura. E isso gera uma reciprocidade. Se só você vai atrás e a pessoa nunca entra em contato espontâneo com você, tá errada essa relação.
Como esse tema é muito complexo e tem vários traumas a serem discutidos aqui, a gente achou por bem esse episódio ter uma segunda parte. A gente vai continuar falando aqui todos os absurdos e daqui a pouco, na próxima semana, você vai poder escutar a continuação deste debate que a gente tá tendo aqui das dificuldades da relação entre autistas e famílias.
[Vinheta de encerramento]
João Victor: Maravilha. Cuidado, Gustavo Borges!
Marx: (Risos)
João Victor: Servo do Senhor! Puta que pariu!
Marx: A capacidade de ser religioso e falar palavrão na mesma hora, só o João Victor tem.
[Beep]
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de estúdio: Marcelo Oliveira | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

