O autismo esteve presente por décadas na literatura, cinema, filmes e séries, e muito dessa representação causa debate entre os próprios autistas. Neste episódio, Gustavo Borges recebe Aleixo Junior, Alyce Suza e Vitória Rodrigues para relembrar personagens autistas na cultura audiovisual, desde o clássico Rain Man e até mesmo produções lançadas na atual década.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, um podcast onde autistas conversam. Hoje falaremos sobre a representação de autistas na cultura pop em geral, seja em livros, seja em cinema e pelo que eu entendi até mesmo em música.
Vale sempre ressaltar que não é porque existe um estereótipo que ele está sendo bem executado. Mas para poder me acompanhar nessa conversa, eu trouxe toda uma galera, por favor se apresentem.
Vitória: Oi gente, tudo bem? Meu nome é Vitória, eu tenho 27 anos, eu sou autista e sou professora de idiomas.
Aleixo: E aí? Me chamo Aleixo, tenho 39 anos, analista de sistemas, autista, desde 2015 que me jogaram dentro do espectro. Sou… Fui diagnosticado com Asperger aos 5 anos de idade.
Alyce: Eu sou a Alyce, tenho 25 anos, sou especialista em cibersegurança e mestranda em ciência da computação.
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[Vinheta de abertura]
Gustavo: O simples fato do autismo ser um espectro já torna um pouco mais complicado colocar uma representação dele em qualquer mídia que seja. Porque, primeiro, não dá para ser uma representação completa e total. E, segundo, porque sendo um espectro existe muita variedade dentro dos autistas. Aqui mesmo nós temos quatro autistas adultos e eu tenho certeza que tem grandes diferenças entre cada um de nós, fora tudo aquilo que nos une.
Para poder transpor isso para o audiovisual, a gente tem essa complicação de… Até pouco tempo atrás, mesmo os personagens que seriam codificados como autistas, eles não eram abertamente autistas. Não se falava que eram autistas. Até mesmo hoje tem alguns casos disso. O que leva a questão que dificulta ainda mais a se identificar. Mas quem vocês lembram assim que, “poxa, eu me identifiquei com essa pessoa fictícia aqui, esse personagem”?
Aleixo: Cara, sem sombra de dúvidas, para mim foi o Sheldon. Mas apesar do estereótipo sempre ser tratado como o cara espertão ou muito inteligente com altas habilidades. E a gente sabe que o combo da frustração é o TEA com TDAH e altas habilidades. Então esse retrato que forçam da gente sempre como alguém muito inteligente, muito acima da média, esconde muita frustração por trás. Então isso incomoda. Mas a parte legal era sempre aquele humor sarcástico. Isso sempre me chama muita atenção. O exagero é muito divertido.
Vitória: Mas o Sheldon foi um personagem que, exatamente como ele falou, não foi cânone na série que ele era autista. E eu já vejo isso como algo bastante negativo. É muito feliz que você tenha se identificado com ele, mas é estranho que ele não tenha sido diagnosticado na série. Porque isso poderia ter sido uma coisa muito interessante para a própria narrativa, sabe?
Aleixo: Mas a gente não leva em consideração que hoje os diagnósticos são basicamente tardios?
Vitória: É verdade.
Alyce: Não se falava de autista adulto até pouco tempo atrás. Então é muito recente tanto falar sobre autismo em mulheres, tanto falar de autismo adulto.
Gustavo: A regra é clara. Completou 18 anos e deixou de ser autista.
Alyce: Ah, foi mal.
Gustavo: Não tem autista adulto.
Vitória: Caiu um raio em cima… (risos).
Gustavo: A série era meio equilibrada entre ele e o Leonard. E aí descobriram que o pessoal ria do Sheldon. E aí falaram “Sheldon, faz suas sheldices aí, exagera ao máximo, vamos focar tudo aqui”.
Aleixo: Mas sabe o que fica parecendo? No começo do seriado, quando se trata do Big Bang Theory, ele tinha uma restrição de comportamento muito maior. E isso pode trazer até para a nossa realidade a forma como ele foi tentando se adaptar a pequenas mudanças que iam ocorrendo em torno dele. A presença da Penny, com o Leonard morando junto com ele.
Então, até quando o grupo se expande, quando o Howard casa, quando a gente vê a questão do Raj, que passou a conversar com mulher sem encher a cara. E eu invejo essas pessoas que conseguiriam fazer isso naturalmente também.
Vitória: A série, na verdade, ela tem, ela trouxe um ponto muito realista e decidiu não trazer outros pontos realistas, que foi a física. Em qualquer momento da série que você pausar e ver a equação que tá no quadro, que eles estão escrevendo no caderno ou qualquer coisa, essa equação faz sentido. Isso já foi dito por vários físicos, sabe?
Então, assim, é interessante, eu vejo de um ponto um pouco negativo que eles parecem não ter se esforçado para fazer esse ponto um pouco mais realista no sentido de, por exemplo, eles tiveram várias oportunidades para dizer que ele tinha alguma coisa, mas não sabia o que era. Mas várias vezes ele falou: “olha, já fui testado várias vezes, nunca…”. Era uma piada recorrente. E também a gente teve vários episódios com a mãe do Leonard, né? Então, assim, que era psicóloga ou psiquiatra, não lembro.
Gustavo: Acho que psiquiatra, mas…
Vitória: Pois é, e essas piadas dela parecem que não tinham muita base científica comparado com o tanto que eles se esforçaram para fazer a física ter muita base científica, sabe?
Gustavo: Se é pra poder falar de autistas, eu acho que a primeira representação de todas que deveria muito ser citada é o caso do Rain Man. Porque ele é um personagem que no início do filme se fala “ele é um autista”. Aliás, eles ainda falam que ele é um autista savant. Eu tinha um termo muito engraçadinho na dublagem que o pessoal não sabia como traduzir, falou que ele era um autista sábio. Mas, juro, eu fui conferir como é que deixaram isso e ficou engraçado.
Mas ele é uma pessoa que o plot básico, pra quem não viu, é um filme interessante, mesmo que bem problemático. O pai do Tom Cruise morre e ele descobre que ele tem um irmão mais velho. Que passou os últimos 20 anos numa instituição de apoio. Porque a mãe deles faleceu, o pai achou que não dava conta de cuidar sozinho e…
E aí, se vocês podem reclamar que a atuação do Dustin Hoffman como uma pessoa autista não é a mais verossímil, realista, ou que ela é muito clichê do clichê, do exagero… Eu acho a atuação do Tom Cruise como pessoa que não sabe o que é autista e faz tudo errado com o irmão, perfeita. Extremamente realista e válida.
Isso sim é uma representação que a gente pode comparar com a vida real. Aquele seu tio que fala que esse negócio de autismo é bobeira, aí “ó, consegue andar, consegue fazer conta, não precisa de nada não”.
Qualquer tipo de interação com pessoas, de fala, ele fica repetindo cenas que ele viu na TV, os programas que ele não pode perder. Mas ao mesmo tempo, em determinado ponto, Tom Cruise descobre que ele consegue contar cartas. Então eu vou levar pra Las Vegas e fazer uma grana porque ele consegue contar um negócio que tá rodando seis barulhos ao mesmo tempo e sabe a hora de ganhar.
Mas tem coisas positivas, por exemplo, os surtos dele são bem reais. Hora que tem alarme de incêndio, hora que a rotina dele é danificada, que desliga um programa dele no meio e ele tava assistindo. Hora que tem que ir, não importa que a gente tá no meio da estrada, eu preciso parar tudo agora que são três horas e vai começar o meu programa de TV, tenho que assistir. Ele meio que colocou o autismo minimamente na mesa pra poder ser conversado.
Aleixo: É, eu queria saber exatamente quando foi rodado o filme.
Gustavo: O filme foi lançado em 1988.
Aleixo: Muito provavelmente rodado anteriormente, né, um ou dois anos antes. E a gente sabe que a definição de autismo vem do DSM-3, em 80. Traduzido pro português primeiramente em 85.
É muito complicado se a gente rebuscar lá atrás, alguns filmes, se a gente for voltar um pouquinho mais atrás, até no cinema brasileiro a gente tem algumas representações lá no Mazzaropi. No próprio Mazzaropi havia representações típicas de autistas. E por muitas vezes…
Gustavo: Que é inocente, que é literal, que é… Tenta levar a vida dele daquele jeito específico.
Aleixo: Isso, a vidinha dele daquele jeito, sempre daquela forma. A gente tinha uma pequena representação do que a gente conhece hoje como autismo.
Gustavo: Essa é uma das representações mais recentes que a gente tem, a série australiana… Por favor.
Alyce: Heartbreak High.
Gustavo: Desculpa o meu sotaque.
Aleixo: Lembrou High School Musical, sabe?
Alyce: Nossa.
Gustavo: Não, essa série australiana é assim… 2020, se eu não me engano, ela é bem recente mesmo, a terceira temporada estreou um pouquinho tempo atrás. E ela tem não só uma personagem que ela é autista, como atriz também. A atriz está representando um autista, que eu não sei se é algo que facilita ou dificulta colocar os traços.
Mas tem a Quinni. Ela tenta levar a vida de ensino médio dela dentro do possível, você vê os surtos dela, você vê ela sendo tratada como mais uma na escola, que vai ser ignorada pelos populares igual todos os outros, mas que tem seu pequeno grupinho, seus amigos, as pessoas que te dão algum tipo de suporte, que ajudam quando ela está na pior, mas aqui a gente não tem muito aquela questão do coitadismo. A vida é essa, você vira e aproveita, você tem seus amigos te ajudando aí, você encontra o amor, você vai vivendo.
Vitória: Eu acho que é muito importante a mídia querer representar, ok. Mas aí você precisa então achar esse equilíbrio, tipo, não ficar: “ah, ele é tão coitadinho, não consegue fazer absolutamente nada”. E também nem falar: “ah, ele nem precisa de ninguém, ele é totalmente autossuficiente”. Então tem que achar esse equilíbrio, porque aí que está a realidade.
Aleixo: Mas será que o equilíbrio vende?
Alyce: Ah, assim…
Vitória: Por que não? Você não acha sua vida interessante? (risos).
Aleixo: Não, fala assim, mas será que o equilíbrio venderia?
Alyce: Mas a gente segue um rumo de cada vez mais a gente quer identificação. O tempo que a gente tem, hoje em dia a gente procura identificação. Então falar sobre isso, o ato da gente estar falando sobre isso, já é um esforço de que pede, que a gente pede que tenha uma representação, mas uma representação menos, sabe, tipo assim, menos só recorte.
Gustavo: Exagerada.
Alyce: É, ele pode ser inteligente, porque a gente pode ser inteligente sim, só que não precisa ser uma pessoa perfeita, que nunca erra, que tá sempre certo, sabe, tipo assim, a gente erra.
Vitória: E aí que estão os personagens mais interessantes. Qualquer pessoa que vai começar a aprender a escrever histórias, por exemplo, vai aprender que pra você fazer bons personagens, você precisa maneirar ali.
Tipo, não pode ser um personagem que é completamente mal, ou nem completamente bom, nem completamente inteligente, nem completamente burro, então você precisa ter nuances.
Gustavo: Fica chato.
Vitória: É.
Alyce: Cria vínculo emocional, sabe.
Gustavo: Respondendo sua pergunta, que tal se ele terminar em equilíbrio? Ele não pode começar em equilíbrio, mas pode ter uma jornada dele buscando equilíbrio.
Aleixo: Aí faz sentido, sabe, assim, eu não vejo equilíbrio como uma coisa vendável ou pop.
Gustavo: Voltando bastante, porque essa série aqui chamada Daria, se eu não me engano, ela é do final dos anos 90, e é de uma época que nem se tinha utilizado, mas pra Queenie do Heartbreak High ter aparecido com a camiseta referente a essa, prestando homenagem a essa animação aqui, é porque isso aqui foi muito evidente.
A autora, a criadora dessa animação, se baseou muito nela mesma, e ela mesma não tinha diagnóstico na época. Primeiro, porque nos anos 90, ela já era uma jovem adulta ali. Segundo, porque mulher, mais difícil ainda conseguir diagnóstico de que era autista.
E é uma coisa assim nos últimos episódios da quarta temporada que eles vão realmente falar dessa questão que está permeando a série inteira. É uma animação quase que parada, é escola, nada incrível acontece. É só uma garota que não consegue se encaixar por nada, e tem a irmã que é a mais popular do mundo. Elas se mudam pra cidade, e logo de cara a irmã dela vira a rainha da escola. A Daria tá sempre lendo, ela tá sempre sarcástica, de canto. Ela está analisando os humanos sobre uma lupa para poder ver em que momento ela consegue ir falar com eles.
Alyce: Mas será que às vezes a gente não tá colocando o autista onde às vezes não é o autista também? Só porque a gente se identifica com algumas personalidades?
Gustavo: Então, eu resolvi colocar ela na lista por causa da criadora do desenho. Que ela foi se descobrir como autista depois. E baseou-se profundamente na vivência dela mesmo e no comportamento, na psique dela. Então por isso eu estou colocando essa coisa retroativa.
Vitória: Eu acho que não faz mal assim a gente se identificar, sabe, com os personagens.
Talvez realmente seja só coisa de falar: “nossa, com certeza esse personagem é autista”. E não tem o diagnóstico, não tem tipo o cânone e tal, sabe, não tem o autor falando de nada.
Ok, mas a gente falar: “olha, como autista eu me identifico com essa situação”. E aí pode estar até um certo nível de representatividade no sentido do autista falar: “olha, eu me identifiquei com essa situação aqui”. Então talvez você, pessoa neurotípica, vendo essa situação na série, talvez você entenda essa situação… É assim que eu me sinto nesse tipo de situação.
Alyce: É trazer recortes, né. Não trazer como verdade absoluta. Mas o ponto que ela trouxe é incrível, sabe. Tipo, tudo bem a gente se sentir representado, mas também ter aquele recorte de representado e até onde?
E ter a criticidade de falar “até onde que eu me sinto representado nisso?”. É pouco… Não preciso ficar representado em tudo. E eu também não preciso me culpar por não ser igual àquela pessoa.
Aleixo: Mas é uma eterna busca de validação que a gente tem, de tentar se achar, de ver um pouquinho da gente naquilo que a gente gosta.
Gustavo: Fugindo muito brevemente dessa questão, mas focando na identificação, a gente pode falar do queer coding. De como pessoas são representadas com traços de pessoas gays, lésbicas, bis, na TV, no cinema, desde sempre, mas nunca é falado. E aí se você tirar os traços queers, você acabou com metade dos vilões da Disney. Pra mais. E olha que sacanagem, eram sempre os vilões.
A criança se identificar na Úrsula, no Scar, quem quer que seja, é melhor que nada. E você tá tão carente que você tem. Então eu ainda vejo como positivo, não ideal. Mas melhor do que você ser só o esquisito, é falar: “ah, todo mundo agora é um pouco autista”. “Olha lá a coisa de autista”. Pelo menos você tem uma vaga noção mesmo que é errada do que é autismo. Antigamente nem isso existia.
Vitória: Eu acho que o problema é a romantização. A romantização tanto do sofrimento, tanto da felicidade. É a romantização dos dois lados.
Gustavo: Vamos lá gente, cansei de falar das coisas que eu vi. Me falem do que vocês viram.
Vitória: Então, tem essa série médica que se chama The Pitt, que é muito… Ela tem uma reputação de ser muito realista quanto às questões de médicos em hospital, em emergência.
Eu não assisti a série inteira, mas tem esse episódio, que é o episódio 7 da primeira temporada, em que tem um médico, não é essa ainda, tem um médico que ele vai atender um paciente autista. E esse paciente autista vive fazendo várias perguntas pra ele e ele fica irritado. E fala “ai, você é o doutor Google agora?” e tal, ele fica irritado.
E aí ela pergunta pra ele: “ah, posso ver o prontuário dele?”. E aí ela vê no prontuário, não sei se é prontuário que fala, desculpa. Mas ela olha que ele realmente é autista e fala: “ah, eu tenho uma irmã que é autista”. No final eu acho que ela vai descobrir que ela também é autista, mas… Ela vai lá e conversa com esse paciente. E aí o tratamento muda completamente.
Assim, ele tinha só torcido o pé, mas ele basicamente já sabia o que ele tinha. Ele só queria, não o diagnóstico, mas fazer os exames e realmente ter um diagnóstico correto. Porque claramente ele já tinha passado umas 32 horas pesquisando sobre o acidente que ele teve.
Ela muda a abordagem completa com esse paciente. E aí esse outro médico aprende com ela como tratar pacientes que são autistas, como conversar com pacientes autistas para haver essa colaboração entre médico e paciente. Porque se o paciente tá tentando se comunicar e o médico só fica tipo: “ai, você é muito irritante, por que você não cala a boca?”, como é que você vai tratar esse paciente?
Então eu achei essa representatividade muito interessante, tanto pelo paciente quanto a médica, essa aqui é a doutora Melissa, quanto o outro médico que no final do episódio realmente aprendeu como tratar um paciente autista.
É a representatividade de qualquer coisa, de qualquer minoria, eu acho que tem dois pontos principais. Que é primeiro, a pessoa não se sentir mais tão sozinha, que já foi algo que a Alyce trouxe. E também de mostrar pros outros: “olha, é assim que funciona”.
E tipo, não estranhe, não fica achando que a pessoa é ruim, sabe? E só compreenda.
Gustavo: Vamos lá então, vamos falar de The Middle, que é uma série que eu comecei a ver há pouco tempo. Tem um pessoal aqui que parece que já viu há muito mais tempo do que eu. E uma pesquisada que eu dei, esse personagem, ele é autista mesmo, isso nunca sendo falado na série porque uma das criadoras da série inspirou esse personagem no próprio filho dela, que é sim diagnosticado desde criança como autista.
E o fato dele ter um grupo de… tipo de reforço na escola, de interação social, e com o amor dele por bibliotecas, eu acho muito assim… pronto, tá diagnosticado já.
Aleixo: A melhor amiga dele é a véia que fica na biblioteca. Esse é fato, no seriado inteiro a melhor amiga dele é a véia que fica na biblioteca.
Gustavo: Ela que tem as dicas boas, poxa.
Aleixo: E ele tem o estereótipo de ficar… qualquer coisinha. Aí ele fica olhando pro céu e fica fazendo esse sonzinho. Aí a irmã dele fica irritada. O irmão dele não aguenta, bate nele. O pai dele desistiu dele, assim, desistiu assim. “O que que ele tem?”. Ele olha numa cara assim: “cara, o que que esse moleque tem?”
Gustavo: O pior é que eu já tô começando a desenvolver a teoria que a família inteira é autista. A mãe obviamente é quem mantém tudo aquilo ali junto e funcionando, mas o pai ele é caladão, ele não fala nada, ele dá sempre resposta seca e de sincericídio, é isolado no próprio mundinho. O gene do autismo não veio da parte da mãe, veio da parte do pai.
Aleixo: A irmã dele quer ser sempre a líder de torcida, quer sempre estar por cima.
Gustavo: A irmã dele é o cúmulo da inocência, do acredita em todo mundo, boazinha, é hiper animada com as coisas, que também acaba sendo um lado ali do autismo.
Aleixo: E o irmão?
Gustavo: O irmão dele é só um chato, podia ser só dois filhos nessa casa.
Vitória: É, às vezes ele é só o caso da família que se destacou mais, né?
Aleixo: É muito pelo contrário esse filme, no seriado. É o cara que vai mais dar errado. Ah, tô dando spoiler.
Alyce: Mas ele é o protagonista?
Gustavo: Não, não tem um…
Aleixo: Talvez a mãe, mas a família é protagonista.
Gustavo: É a família inteira, sempre foi focado na família, e tipo, todo episódio tem duas, três histórias paralelas, com personagens diferentes da família rolando.
Vitória: Tem um episódio muito engraçado, vocês me deixaram comentar aqui rapidinho, que eu lembrei aqui agora. O pai dele trouxe alguns amigos, bom, homens adultos, pra assistir futebol em casa. E ele queria, não tava meio sem fazer nada, foi lá assistir futebol com eles. Só que ele não… Ai, talvez eu esteja lembrando errado, mas enfim. E aí ele não tava conseguindo interagir muito bem com os amigos do pai e tal.
E aí o pai dele falou assim: “olha, às vezes é porque você não sabe informações, não sabe como o futebol funciona, aí você fica perguntando o que que tá acontecendo, como é que joga, não sei o que, você não sabe, às vezes você pesquisar antes, dá melhor”.
E aí ele vai, na próxima vez que eles vão lá na casa dele assistir futebol, ele passa a noite inteira falando fatos: “não, mas esse jogador, o pai dele nasceu em 1982”, e tipo sanguíneo, e passou a noite inteira dando fatos e fatos e fatos, e os amigos do pai foram indo embora de um em um, assim (risos).
Alyce: Não é assim que faz amigos? (risos). Eu não entendi!
Aleixo: Tem que fazer igual o pinguim de Madagascar, sorria e acena, né?
Alyce: Poxa gente, eu achei que era desse jeito que fazia amigos, não é fazendo perguntas e dando informações aleatórias.
Vitória: Faltou esclarecimento, eu achei.
Aleixo: Falta objetivo.
Gustavo: Deixa eu falar da coisa mais alternativa e fora da casinha e low profile possível que a gente tem pra poder dizer hoje, porque Daria, mesmo sendo nichado, ainda tem todo o seu público.
Deixa eu falar pra vocês dessa animação stop motion chamada Mary and Max, que é uma garotinha que por acaso começa a se corresponder por cartas escritas, olha que retrô isso, com um senhor de idade.
É uma animação quase toda preta e branco, toda diferentona, claro que tem a questão do diálogo geracional, mas o objetivo ali, uma coisa que é pra ser falada, é que não é a criança que é o autista, o adulto é o autista. E ele ainda fala Asperger, afinal de contas com essa idade aqui, só pode ser diagnosticado de Asperger pra trás.
Aleixo: Obrigado, mais uma vez na minha cara.
Gustavo: Não se preocupe, ele é mais velho que você. Vamos o mais longe que dá pra ir dos estereótipos e ainda ser autista. Vamos falar de O Contador de 2016.
É o Queixudo do Ben Affleck, e pra poder dizer que é autista ele tem que obviamente ser bom com números, ele é um contador e ele é contador de mafiosos e criminosos, ele faz uma contabilidade muito boa pra esse pessoal aí, e ele escreve em tudo que ele conseguir achar que esse canetão dele. Só que a gente fala de autista pode ser tudo, pode ser diferente, você pode ser um cara extremamente forte que sabe lutar e anda com metralhadoras.
Aleixo: Meu sonho.
Gustavo: Aí ó, já tem inspiração.
Aleixo: Rapaz, tipo misturar o Rambo com o Sheldon. Nossa!
Gustavo: O Rambo com o Sheldon. E ó, levando em consideração que você deixa sua barba pra ficar bem pontuda, aproxima do queixo desse cavaleiro aqui em questão.
Aleixo: Não tenho cabelo, eu posso dar uma de Bruce Willis ainda, velho.
Gustavo: Eu tava só falando do queixo grande dele, mas tudo bem.
Aleixo: Nossa, velho.
Vitória: Eu acho que esse filme tem uma questão problemática, que o pai dele ensinou pra ele quando ele era criança que ele precisava se acostumar com o excesso de estímulos físicos e sensoriais.
Gustavo: Tipo o tiro de uma metralhadora.
Vitória: Será que eu tá falando do filme errado agora?
Gustavo: Não, não, tá correta. Tem que se acostumar com tudo aquilo que você não gosta. Ideia de merda.
Vitória: Pois é, e aí eu lembro muito vividamente de uma cena que ele tá no quarto, e ele liga um rockzão assim no talo, que eu não sou contra, mas ele toca assim no talo, e aí ele pega um negócio e começa a bater na perna, coisas assim, muito estímulo sensorial. E eu fico assim, gente, ele só vai ter uma crise, ele não vai se acostumar com isso, sabe?
Gustavo: Isso é pra você ver a importância de ter um diagnóstico quanto antes e ter pais que entendam e ajudem a tratar, ao invés de falar: “você não gosta não? Vai fazer todo dia”.
Aleixo: É perigoso ele começar a escrever no vidro e sair de metralhadora.
Gustavo: Exatamente, ele calcula: “pera lá, eu preciso de 87 balas pra poder dar conta disso aqui”. Carregado, vai. É mais ou menos essa a matemática.
Mas foge bastante, tem um relacionamento, afinal de contas, segundo o pessoal que entendia de cinema antigamente, tudo que um filme precisa é de uma mulher e de uma arma. Esse filme tem os dois.
Uma mulher só e várias armas, mas… (risos). A forma como ela se relaciona e interage com ele é consideravelmente interessante. Não é aquela coisa: “ai, tadinho, vou pegar pra criar” ou “precisa de mim”, não. É uma pessoa se relacionando com a pessoa.
Alyce: Anjo Azul.
Gustavo: Não deviam andar de metralhadora, não, gente. Mas ele é um filme de ação que o protagonista é autista. Você já pensou nisso? Você já imaginou? “Pera lá, vou fazer uma história e o protagonista é autista, tá? Vai ser de ação”. Hã?
Vitória: Eu acho que é um contraste interessante, né?
Gustavo: Dá um contraste interessante. Poxa, é diferente, é digno de nota. Eu vou até ver o 2 depois disso, eu não tava nem lembrando que tinha o 2.
Aleixo: Eu vou ver o primeiro.
(Risos)
Gustavo: Um passo de cada vez.
Alyce: Mas é legal ver que tá em todas as áreas, né? Parar de colocar a gente dentro de uma caixinha e saber que a gente pode ir pra todas as áreas possíveis.
Gustavo: Inclusive a de contadores do crime organizado.
Alyce: Não, eu…
Gustavo: No Brasil com certeza tem muito crime organizado.
Alyce: Eu acho que não é muito legal (risos).
Vitória: Autistas podem ter hiperfoco em qualquer coisa.
Aleixo: Nem tudo que é imoral é legal, nem tudo que é legal é imoral.
Gustavo: Apesar de toda essa loucura, a parte da representação autística tá boa. Ele poderia se passar por eu e você na rua. Qualquer um de nós aqui. Ela é uma pessoa, leva a vida dele e é autista. É o tipo de filme que a gente quer ver.
Aleixo: Apesar do canetão no vidro, né? Não é um físico, não é um PhD, Master de uma universidade, sei lá, de Harvard.
Gustavo: Viu? Ainda fora disso. Para poder encerrarmos aqui com chave de ouro, vamos falar da série Nosso Jeito de Ser, As We See It. Eu até cheguei a achar que ia ter uma segunda temporada na Prime, até agora não. Por favor, Prime, vamos arrumar isso aí.
Ela é uma série onde três autistas interpretam três autistas. E outras pessoas que fizeram parte do casting, que tentaram ganhar papéis, elas ganharam até papéis como não autistas na série. Tem autista fazendo até papel de neurotípico aqui.
Ela conta a história que se passa numa casa onde moram esses três jovens adultos aqui, que eles são mais ou menos independentes, eles ainda precisam de ajuda um do outro. Tem uma, vamos dizer, uma espécie de cuidadora que ajuda eles ali na casa. Mais as questões emocionais do que de limpeza e essas coisas, é realmente uma cuidadora ali.
E dá uma forma magistral, assim, de você retratar questões autistas. Porque não tem como ser mais autista do que essa série que mostra. Porque ela coloca várias facetas dessas três pessoas que são, acho que podemos dizer que são três amigos. Mas eles não são parentes, eles não estão ali por gostos em comum necessariamente.
E o autismo de cada um deles é bem diferente. O que ajuda a mostrar: “ah, olha como é autista”. Só aqui tem três totalmente diferentes um do outro. A gente tem a pessoa que é mais ingênua, a gente tem a pessoa que é seca, direta e “eu tenho que ter sempre razão”. A gente tem a pessoa que tem a rotina extremamente rígida e se recusa a fazer qualquer coisa que não goste de fazer. “Vou passar o tempo inteiro no meu sofá vendo os meus programas”. Tá todo mundo aqui.
Alyce: É muito bonito ver autista fazendo o papel de autista. Então eles são pessoas autistas e está lá interpretando autista. E não colocando uma pessoa que não sabe nada, que não entende nada, que nem estudou e só vai fazer estereótipo. Por mais autistas protagonistas, por mais autista tendo focos. E você autista em casa, por favor, se você ainda não é um diretor ou não está fazendo, já faça, eu estou querendo mais.
Gustavo: A primeira série brasileira com alguma relevância que retrata uma pessoa autista é um spin-off de Malhação? É um spin-off de Malhação, mas pelo menos existe.
Alyce: Sim, por mais representatividade, eu acho que não só nas telas. Por mais cantores autistas, por mais músicos, compositores, por mais empresários, donos de empresas, por mais advogados, por mais de todas as profissões.
Gustavo: Mas tudo isso existe, uma parte nem tem diagnóstico.
Alyce: Isso, mas por mais falando, sabe? Porque a representatividade para falar que a gente vive dentro de casinha sem conversar existe muita. Mas representatividade para falar que você consegue sair de casa e sim você consegue estudar, sim você consegue ter uma vida social, e sim você consegue sobreviver. E isso é bacana, sabe? Representatividade para a gente falar: “Nossa, eu consigo ser algo diferente do que a sociedade espera de mim”.
Aleixo: Mas dentro de um recorte histórico é tudo muito novo, né? Dentro do espectro autista, se a gente parar para pensar o que se conseguiu em 20 anos, 20 e poucos anos, perto da história de outros grupos minorizados, cara, a gente está bem.
Alyce: Estamos muito bem.
Gustavo: Sim, um avanço bem considerável.
Vitória: Com certeza.
Gustavo: Conseguimos falar de uma dúzia de obras diferentes em maior ou menor grau, maior ou menor duração. Atypical tem até um episódio próprio para a série, veja um pouquinho antigo aí que você vai encontrá-lo. É um assunto que não se esgota aqui porque tem muita coisa já que aconteceu e a gente com certeza ainda verá representações cada vez melhores no futuro. E eu queria agradecer demais a presença de todos vocês aqui por ter tido essa longa conversa comigo sobre autistas no audiovisual.
*
Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Izabella Pavetits | Técnico de som: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian

