Introvertendo 301 – Autismo e a Cultura do Cancelamento

Autistas cancelados e autistas que cancelam, quando estão no mesmo lugar? O fenômeno chamado de cultura do cancelamento não é novo e muita gente já sofreu na pele um linchamento virtual, ou participou de um. Neste episódio, Bruno Frederico Müller, João Victor Ramos e Marx Osório, ao lado de João Paulo Cabral, discutem os efeitos nocivos dessa cultura e o que isso tem a dizer em relação a pessoas autistas.

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Transcrição do episódio

Marx: E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e esse é o podcast Introvertendo, um podcast onde autistas conversam. E hoje nós vamos falar sobre o autismo e a cultura do cancelamento, um tema muito atual e cheio de coisas para falar. Hoje, especialmente, nós temos um convidado especial na nossa formação, o nosso querido João Paulo.

João Paulo: Olá, eu sou o João Paulo, tenho 27 anos, frequento o NAIA já tem aproximadamente 2 anos, sou formado em Engenharia de Software pela UFG, e é isso, sou um ouvinte também. 

Bruno: Eu sou o Bruno Müller, sou doutor em História e sou altamente cancelável.

João Victor: Olá a todos, sou João Victor Ramos, escritor, poeta, e me sinto muito incompetente na função porque nada do que eu publiquei me rendeu cancelamento. 

Marx: E para você que nos assiste pelo YouTube, nos acompanha pelas plataformas de áudio, nós também estamos nas redes sociais, no Instagram, no Facebook, no X, antigo twitter e no TikTok, @introvertendo. E também temos o nosso site www.introvertendo.com.br.

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[Vinheta de abertura]

Marx: Bom, quando a gente fala sobre cancelamento, esse termo é um termo bastante atual, e ele ganhou muita força durante a era de popularização da internet. Hoje a gente vive uma extensiva popularização das redes sociais. E eu vejo que o cancelamento é um nome dado a uma coisa que sempre existiu ao longo da história da humanidade, que é o julgamento social, e que na internet ele ganhou esse nome. E onde muita gente que muitas vezes não teria coragem de falar ou de proferir certos julgamentos na vida presencial, faz isso na internet, seja com motivo justo ou não.

E para a gente começar aqui o nosso bate-papo, eu gostaria de começar sobre a definição do que seria a cultura do cancelamento. Eu falei sobre o que é o cancelamento do ponto de vista da etimologia da palavra, mas existe uma cultura do cancelamento que se formou na internet que muita gente chama carinhosamente de tribunal da internet. Então eu gostaria de começar lançando essa pergunta para quem se atrever a responder, e a gente começar o nosso papo.

João Paulo: Bom, para mim, eu vejo que é uma forma de… talvez até um pouco inconsciente da gente lidar com a sensação de impotência nossa diante de uma situação que ativa o nosso senso de injustiça. De justiça, quer dizer.

Marx: Seria um comportamento voltado só para defender uma causa justa? Ou às vezes a pessoa só está querendo destilar o próprio ódio que ela tem dentro de si, diante de uma coisa que alguém está fazendo que ela considera errada?

Bruno: Cancelamento eu acho que é um mau direcionamento do nosso senso de justiça, que foi potencializado pelas redes sociais. Então, se antigamente a pessoa falava alguma coisa errada ou expressava uma opinião impopular, aquilo ficava num círculo restrito de pessoas. E como o nosso convívio era mais próximo, aquilo gerava uma fofoca ou então alguma retaliação do tipo: “Ah, não quero mais conviver com aquela pessoa”.

Agora não, agora gera uma horda de pessoas que vai no perfil de alguém ou às vezes até vai tentar atingir essa pessoa no seu trabalho, na sua vida social. E aquilo ganha uma proporção gigantesca. Geralmente é uma pessoa que tem até aquela coisa assim de, em pequenos grupos ou em grupos específicos de ativistas: “Olha, fulano de tal falou tal coisa, vamos lá”. Vai aquela horda mesmo perseguir aquela pessoa.

Você falou em julgamento social, eu equiparo muito o cancelamento ao linchamento. Um linchamento moral, um linchamento virtual, mas a lógica é a mesma do linchamento. Às vezes, uma pessoa que cometeu alguma coisa errada ou que se acha que cometeu alguma coisa errada e a multidão vai lá e faz justiça com as próprias mãos. No caso, pelo teclado.

Marx: Só pegando o gancho do que você falou, que antigamente se usava o termo “social justice warrior”, SJW.

Bruno: Social justice warrior.

Marx: Obrigado. Que era um termo utilizado para pessoas progressistas, que se diziam progressistas, que defendiam pautas de defesa de minorias, de defesa de coisas mais à esquerda do espectro político, e essas pessoas, elas se sentando no trono de juiz para julgar o escorregão moral alheio, ou para ser o primeiro a atacar pedra quando uma pessoa que de repente é uma referência a algum assunto e de repente fala alguma coisa errada

ou tem alguma atitude questionável.

E aí, eu fico pensando assim, até que ponto a cultura do cancelamento é uma coisa que faz com que as pessoas tenham que ter mais cuidado com o que fazem, porque a internet gera uma superexposição, ou até que ponto ela escancara a hipocrisia do ser humano de achar que as pessoas públicas têm que ser perfeitas, elas não podem errar nunca, elas têm que ser impecáveis, e que qualquer erro que elas cometerem, elas se tornaram malditas para sempre, para o resto da vida. Existe um limiar entre essas duas questões.

Qual é a conexão disso com a cultura do cancelamento, com as pessoas ditas woke, né? E que na primeira oportunidade querem tacar pedras nos outros.

João Victor: Ok, vamos lá. Fazendo uma síntese aqui das respostas iniciais ao questionamento do Marx. Cultura do cancelamento, para mim, é basicamente a massificação constante de críticas e ataques a uma pessoa ou um grupo com alto poder de gerar desmoralização, depreciação e repulsa, basicamente, ao alvo escolhido. Beleza.

Indo para o questionamento de minutos atrás, eu considero que esse fenômeno se tornou cultural por uma soma de fatores, né? Pessoas de influência considerável, esses progressistas, como o Marx disse, que viram na internet um território extremamente fértil para impor moralismos, ofensas e discursos perigosíssimos sem que houvesse consequências nisso, com o rigor apropriado.

E o pior é que, às vezes, nem é só senso de justiça absolutamente distorcido. É porque tem gente que quer aparecer, quer aparecer cancelando os outros. Gera engajamento, gera público, gera número, gera dinheiro, prata. Autopromoção virou negócio, cancelamento virou negócio. É uma das coisas que, para mim, pavimentou o caminho para isso virar uma cultura de fato.

Bruno: Eu só queria destacar que não são necessariamente só grupos progressistas que cancelam, não.

João Victor: Tem muita gente que faz isso, além de progressistas. É algo do ser humano, Bruno, desculpa.

Bruno: Não, não, não estou fazendo essa observação só para você. Mas é porque a gente vê grupos também de extrema direita…

João Victor: Sem dúvida.

Bruno: …que se juntam na internet para perseguir pessoas. E um exemplo disso foi em 2017, quando teve a famigerada mostra do Queermuseu, e o pessoal de extrema direita, capitaneado pelo MBL, se juntou para boicotar o banco, que agora não me lembro qual foi, que patrocinou a mostra, e tirou as obras de contexto para dizer que elas promoviam a pedofilia.

Nisso, de juntar a pedofilia com causas LGBT, gera uma conexão muito perversa com as pessoas que pertencem a essa minoria. Enfim, isso é só um exemplo. Tem vários outros movimentos de extrema direita que também se juntam para cancelar pessoas pela internet. 

Marx: Complementando o que você falou sobre grupos progressistas e extrema direita, porque eu trouxe a questão de frisar grupos progressistas, porque quem é de extrema direita, ele já vai agredir as minorias naturalmente. Ele já vai cancelar as minorias, porque isso já faz parte da ideologia dele. Quando você tem um progressista que deveria estar defendendo as causas, atacando elas, isso escancara a hipocrisia, e foi nesse sentido que eu falei.

Mas existem canceladores em todos os espectros políticos, sim. Em todas as classes. Porque o julgamento social é da cultura do ser humano. É até interessante, quando a gente fala sobre o termo “ativismo de sofá”, eu acho que isso se aplica não só à questão da política, mas em outros tipos de causas, que tem muita gente que se diz militante, que se diz defensor, que está na internet, falando, brigando, muitas vezes cancelando pessoas, e muitas vezes fazendo divisões dentro das próprias comunidades das minorias.

Essa pessoa, muitas vezes, não tem nenhum tipo de ação prática na vida real para ajudar, de fato, essas minorias. E esse tipo de cancelador é insuportável. E dentro da comunidade do autismo está cheio de gente assim, seja falando de coisas relacionadas com o autismo especificamente, ou seja, por outras causas, que estão relacionadas também com a causa do autismo, mas que estão no pacote, como a própria causa LGBT, por exemplo.

Eu queria deixar bem claro que a gente não consegue mudar o mundo só reclamando na internet. Não tem como. Você só vai arrumar confusão e socialmente, para o autista, isso é um prejuízo enorme também. Porque você se torna aquela pessoa que só sabe ficar brigando, brigando, brigando, e não traz nenhuma discussão realmente relevante. 

Bruno: Vai arrumar confusão, aquilo vai te dar um senso de satisfação, até de superioridade, em um determinado momento, só que não vai ter efeito nenhum sobre a vida real, a não ser sobre a vida da pessoa que está sendo cancelada. Que aí pode ser um efeito bastante perverso, pode gerar uma depressão, pode gerar perdas, perda de emprego, e pode ter consequências graves na vida dessa pessoa. 

Marx: E aí eu queria ouvir de vocês experiências que vocês já tiveram na internet, dentro da comunidade do autismo, com relação à intolerância por parte de pessoas autistas. Eu acho que nós estamos aqui hoje não só para criticar os neurotípicos que ficam cancelando a gente, mas também criticar os autistas que ficam cancelando a gente também. Tem demais.

Bruno: O João é o cancelador.

João Victor: Não ouvi, desculpa.

Bruno: O João é o cancelador, não é o cancelado.

João Victor: Há controvérsias.

Bruno: (Risos)

João Victor: Quem está fazendo apontamento é você, Bruno, olha lá. No episódio 204 da geração anterior à nossa, do Introvertendo, foi abordado um pouco dessa questão sobre picuinhas, tretas e conflitos que escalonam de uma maneira gravíssima dentro da comunidade do autismo no Brasil, é um exemplo que me vem de maneira muito recorrente é tangente a ataques maciços que fizeram a um de nossos antecessores, salve, salve, Willian Chimura, apenas porque, com base nas evidências científicas, com base em tudo que ele se dedica a pesquisar e investigar, é a favor do uso de terapia ABA.

E tem uma galera na comunidade do autismo que desce o cacete na terapia ABA justamente por causa do idealizador, a pessoa que cunhou ter uma pessoa que deu vida a isso, usando dos mais diversos argumentos, vamos entrar aqui no mérito, e usavam isso como pretexto para atacar pessoalmente a pessoa do Willian. “Seu monstro”, “seu pet de neurotípico”, “baba-ovo de neurotípico”, “traidor da causa autista”, é daí pra baixo, tropinha. Já tem muito filho da puta neurotípico. Agora, entre nós, é só nós, filho, sabe? Qual a necessidade?

Para que atacar a pessoa? Se você tem um contraponto minimamente decente ao que o Willian tá falando, com artigos científicos respaldando, debata respeitosamente, cordialmente, acho isso muito importante pra dizer o mínimo. É perfeitamente possível ser combativo e respeitoso sem atacar o amiguinho. É perfeitamente possível ser combativo e respeitoso sem partir pra ofensa.

Internet não deveria, já não é, mas nunca deveria ter sido terra sem lei. O resultado é a cultura do cancelamento, tema do episódio de hoje. Vai, Bruno.

Bruno: Não, o equívoco na sua fala é só um, que é você está convidando a pessoa a falar com base no seu embasamento teórico, científico, coisa que essas pessoas não têm.

João Victor: E eu não discordo de você, na situação hipotética em que tivessem no caso, entendeu?

Bruno: Eu entendi, João, eu só tô querendo dizer que não é um ataque pessoal a você, não. Não tô te cancelando, não.

Marx: (Risos).

Bruno: É só que no mundo ideal, as coisas deveriam ser como você está descrevendo. Só que o fato das pessoas não terem bons argumentos para defender a sua causa é justamente um dos motivos que levam elas a cancelarem. Porque elas não têm como fundamentar aquilo que elas pensam, elas querem que aquele que pensa diferente delas seja silenciado. 

Marx: Muito bom, muita boa coisa que você falou aí, porque já puxa o ponto sobre o tipo de cancelamento que é justo e o que não é. Porque a gente precisa falar sobre isso, né? Lançada a braba. 

João Paulo: Aproveitando esse gancho do que é justo e o que não é justo e da intolerância, um tema que eu tenho até medo de ser cancelado pela minha opinião, eu sempre me senti muito sozinho quando eu penso, eu disserto comigo mesmo sobre isso,

que são os filmes e séries que retratam autistas.

Eu tenho um hábito muito forte de sempre que eu vejo um filme ou uma série, eu começo a consumir um monte de reviews sobre aquele conteúdo. E sempre que eu assisti filmes ou séries relacionados ao autismo e eu fui procurar reviews, eu encontro muito mais ódio e cancelamentos do que os conteúdos não focados em neurodivergência.

E eu acho isso muito peculiar, dado que justamente há uma falta de visibilidade, de compartilhamento mesmo, de conhecimento ali da causa do autismo, das neurodivergências em geral.

Mas toda vez que eu vou atrás de review, de coisa sobre o filme, há sempre muito ódio falando: “nossa, tal personagem não interpretou um autista médio, tal personagem, o Sam de Atypical não é parecido comigo, não é parecido com outro autista que eu conheço, essa série é uma droga, não deviam nem ter feito”. Eu vejo muito isso e isso me deixa extremamente chateado.

Marx: E é engraçado porque isso remete a um dos temas bomba que rolou na internet este ano na comunidade do autismo, que é o lançamento da Barbie autista. A Mattel resolveu lançar uma boneca que representaria uma mulher, menina autista, com abafador, com aquele spinner, com aquela comunicação alternativa e outros objetos que nós utilizamos, que muitos de nós utilizamos.

E foi uma enxurrada de gente falando: “ai, essa boneca não me representa, ela não representa todos os autistas, não representa porque eu não uso isso, porque eu não uso aquilo, isso aí é só para ganhar dinheiro, isso aí não ajuda de nada a causa”. E eu fiquei pensando: essas pessoas acham que tudo é sobre elas, que tudo que existe na comunidade do autismo tem que ser feito 100% pensando nelas. E não conseguem perceber, por exemplo, que uma criança às vezes vai se sentir representada por aquela boneca.

Que representatividade importa e que você pode defender a representatividade sem precisar ficar cancelando as pessoas que acham que isso é importante e simplesmente tentar colocar uma coisa que não existe no mercado ainda para crianças que muitas vezes… E isso foi discutido em outras causas, na causa negra, as bonecas eram todas brancas e de olho azul antigamente. Então, assim, essas coisas acontecem.

E também tem a questão do cancelamento dos autistas com os próprios autistas dentro da comunidade, que foi o caso daquela moça lá que foi diagnosticada e ela foi fazer um vídeo toda feliz porque recebeu um diagnóstico de autismo no Natal e para ela é como se fosse um presente do Papai Noel, porque ela finalmente descobriu o que causava o sofrimento dela e estava lidando com o diagnóstico de uma maneira muito positiva.

E os paizinhos azul, as mãezinhas azul de autistas que têm um nível de comprometimento mais alto, eles ficaram extremamente ofendidos com a felicidade da moça e pelo fato de ser uma moça que estava com uma roupa meio sensuelle ali, que foge do estereótipo do autista embotado, nerdola, com óculos quadrados, que foge um pouquinho do Sheldon. Ela acabou levantando uma discussão sobre misoginia dentro da comunidade do autismo e sobre o autismo em mulheres ser extremamente ainda invisibilizado em contextos onde ele foge do padrão de autista que essa galera tem na cabeça.

E aí eu fico pensando: qual é o objetivo dessas pessoas que têm esse comportamento de cancelar um autista desses? Porque na cabeça dessa pessoa, aquele autista não representa o autismo, ele acha que a pessoa não é digna de estar na comunidade do autismo, porque teoricamente ela está sendo uma pessoa feliz com uma coisa que deveria estar trazendo sofrimento, sendo que o sofrimento dela está sendo trazido em outros contextos que ninguém está vendo. Porque quem vê funcionalidade não vê sofrimento, como a gente já falou várias vezes aqui.

Os autistas tendem a ser mais canceladores do que a população em geral? Eu acho que esse relato que eu trouxe, ele pode tender a trazer a resposta mais para esse lado. Eu sinto, e aí eu quero ouvir a opinião de vocês também, que a comunidade do autismo tem uma tendência maior de cancelamento do que a comunidade humana em geral.

João Victor: Sobre a moça cujo nome, infelizmente, não irei lembrar, que fez esse vídeo e que foi duramente, injustamente, desproporcionalmente, em todo e qualquer aspecto, atacada por falar que recebeu o seu presente de Natal, eu costumo perceber, dentro da linha de raciocínio do Marx, que quem está no nível de suporte 1 e costuma espalhar suas vivências, compartilhar sobre como conseguiu o diagnóstico, como conseguiu sua rede de apoio, é muito desacreditado justamente pela quantidade de suporte que ele precisa ser um tanto menor em relação a nível 2 ou 3. Mas que, fique claro, não é toda mãezinha, não é todo paizinho que faz esse tipo de classificação deveras equivocada.

Eu vou contar uma pequena vivência, que é a seguinte: uma coordenadora de um setor lá dentro da clínica em que eu trabalho tem um neto autista nível 3. E quando ela viu esse belíssimo crachá, ela chegou pra mim e falou assim: “João Victor, você é autista mesmo?” “Sim, sou”. E ela chegou a realçar o seguinte: “o meu sonho é que meu neto, quando crescer um dia, seja funcional como você, dentro das possibilidades possíveis e imagináveis”.

“Eu vejo o Introvertendo, eu vejo vocês todos aí conversando, e não deve ser fácil essa exposição, né?”. Aí um momento de emoções e abraços à parte, aconteceu e me emocionou na hora. E assim, só pra deixar claro que nem toda mãezinha atípica se porta dessa forma, só as azuis mesmo.

Marx: É, eu cancelei as mãezinhas azuis aqui, mas tem as mãezinhas que são legais, eu conheço várias e que acolhem a gente, que veem as coisas que a gente faz como inspiração, isso é muito bom. 

Bruno: Olha, eu nunca tive a experiência de ser cancelado por autistas, ainda não, mas eu acho que outro aspecto que a gente tem que mencionar é a possibilidade dos autistas serem mais canceláveis do que os neurotípicos, o que eu acho bastante plausível.

Porque o autista, ele tem uma dificuldade de entender as pistas sociais, e ele muitas vezes fala as coisas sem filtro. E às vezes basta um deslize pra você cair nesse redemoinho. Então, eu acho que os autistas são particularmente vulneráveis a essa cultura do cancelamento.

Marx: E quando eu me referi à moça que foi cancelada, eu acredito que ela deve ter se arrependido de ter falado daquela forma, inclusive ela fez um vídeo depois falando que pensou melhor de ter usado aquele termo, não tinha sido muito legal, e isso tem a ver também com a dificuldade de leitura social e de medir as palavras que os autistas têm.

E uma coisa que me chamou a atenção também é o fato de que você vê ela falando, você percebe na hora a alexitimia e as estereotipias dela, é muito visível. E mesmo assim a galera cancelou só porque ela era uma moça bonita que estava feliz porque tinha recebido um diagnóstico de autismo. Enfim, estereótipo de gênero e misoginia pesada.

E existe algum tipo de cancelamento que é válido? Eu queria voltar nessa pergunta porque eu acho que a gente acabou não respondendo ela. Mas eu fiquei pensando quando eu fiquei refletindo sobre essa pergunta se realmente existe algum tipo de cancelamento que é válido em relação a principalmente pessoas públicas, né? Nós estamos falando aqui de pessoas que estão na internet.

E eu vejo que quando essa pessoa faz uma coisa que é violência, que ataca pessoas, que faz mal para os outros, e ela ocupa uma posição de destaque e ela é cancelada porque ela fez mal para alguém de maneira deliberada ou é um criminoso, sei lá. Ou ele falou uma coisa que atacou diretamente uma pessoa ou alguém, ele foi cancelado. Eu acho que esse cancelamento é uma consequência natural da falta de noção e de escrúpulos do sujeito.

Mas até que ponto esse papel tem que ser feito pelas pessoas comuns, por nós, e isso alimentar uma justiça com as próprias mãos? Enfim, isso é um debate ético extremamente profundo. Trazendo para o contexto do autismo, existem situações em que autistas podem ser cancelados? E aí, quando o pessoal usa o termo banalização do diagnóstico. Eu não gosto quando usam esse termo para invalidar diagnóstico de autista de nível 1 de suporte. Mas existe uma parcela da comunidade aí que tende a usar o diagnóstico para poder justificar canalhices, e essa galera tem que ser cancelada sim.

Bruno: Eu vou dar minha opinião impopular do dia, provavelmente serei cancelado. Eu não acho que o cancelamento seja resposta boa em nenhuma situação. Eu acho que quando uma pessoa emite uma opinião impopular, deve se engajar no diálogo com aquela pessoa e que vença o melhor argumento.

Quando a pessoa cometeu um crime, aí é matéria de justiça. Aí é uma questão de você levar às instâncias devidas, onde aquela pessoa também vai ter o direito de se defender, etc. Quando acontece num grupo, algum evento, alguma situação desagradável com alguma pessoa do grupo, deve-se procurar ou resolver aquilo na base do diálogo, ou quando não é mais possível, simplesmente cada um sai de perto, faz a sua parte.

Agora, juntar, mesmo que seja num grupo pequeno, um grupo de WhatsApp, 20 pessoas, fulano fez alguma coisa errada, passou dos limites. Juntar 20 pessoas para bater nele, eu acho uma tremenda covardia. Você não sabe qual consequência isso pode ter no psicológico da pessoa. Você não sabe até que ponto você está sendo proporcional na sua punição em relação ao erro que foi cometido. Então, é muito perigoso. E é isso. Eu não acho que o cancelamento seja uma boa resposta em qualquer situação que seja.

João Paulo: Eu concordo, teoricamente, acho que se fosse abstrair tudo, 100% dos casos não é a solução ideal, mas eu não julgo muitos casos de cancelamento, não me cancele, quem me conhece sabe (risos), que é meio que fomentado também pela sensação de impunidade em alguns casos.

Como por exemplo, o caso que eu até comentei com o João Victor, sobre o caso, agora a gente está em janeiro de 2026, agora no momento está muito em alta, o caso do cachorro Orelha, que foi violentado de maneiras brutais, injustamente. Os agressores são menores de idade e a população já tem uma tendência, na minha opinião, de cancelar mais pessoas de grande alcance midiático, justamente pela sensação de impunidade que elas têm pelo dinheiro, pelo status.

E isso não acontece só nesses casos, acontece até com pessoas menos conhecidas, como esses agressores, só que por serem menores. E muito provavelmente o cancelamento deles vai ser quase que universal.

Marx: É, e porque eles são de classe econômica alta, né? Vamos traduzir no bom português aqui, cancelar rico é um dever das pessoas, principalmente quando eles fazem esse tipo de coisa, porque normalmente eles não são punidos da maneira devida pela justiça. Infelizmente o rico tem brechas enormes em várias coisas nesse país, e isso é um fato que a gente vê todo dia.

Bruno: Tá, então vamos pegar esse caso como exemplo. Os rapazes, todo mundo sabe que eu sou vegano, sou defensor dos animais e tal, acho injustificável o que aconteceu, porém, os dois rapazes são menores de idade. Qual é a solução para esse caso? É encaminhar para a justiça, eles não serão julgados como pessoas maiores de idade, mas terá uma consequência. Eu li que pode ser cumprimento de pena comunitária.

Aí as pessoas podem achar assim: “Não, isso é muito leve para uma situação como a que aconteceu”. Tá, mas aí é a brecha que a justiça deu para esse tipo de situação. Então o que tem que mudar é a lei, não é as pessoas se reunirem para fazer justiça com as próprias mãos.

E outra coisa, o cancelamento não exclui a consequência social do seu ato. Quando você comete um ato horrendo, isso vai trazer uma consequência para a sua vida social, isso é inegável e isso não é errado. O que eu acho que é errado é juntar as pessoas para tentar fazer justiça com as próprias mãos, uma espécie de linchamento virtual.

João Victor: O cancelamento pode não ser a melhor via, como o Bruno falou, mas no caso do Orelha, eu acho que foi a única coisa que possibilitou esses meninos estarem no Brasil, porque alguns deles foram para a gringa, e receberem algum tipo de punição minimamente devida, tanto eles quanto os familiares que tentaram acobertar com o máximo dos recursos que tinham o caso.

Ou seja, o cancelamento em si pode não ser o fim, mas o meio para um fim. O mais adequado de todos? Não. Mas talvez o único que temos em situações muito específicas como essa que o João Paulo abordou sobre o caso do cachorrinho.

Marx: Tem o autista que cancela os outros na internet e o autista que é cancelado. No caso, para a gente falar sobre experiências pessoais nossas em relação a isso. Eu já fui cancelado na internet, na vida real, no escambau, inúmeras, inúmeras, inúmeras vezes. O meu nome já é motivo de cancelamento em várias rodas. Eu tenho um nome em homenagem ao grande Karl Marx.

Então, assim, quando eu fazia parte da igreja evangélica, quando eu era terrivelmente evangélico, eu fui cancelado de várias formas, em vários contextos, principalmente porque eu tive uma fase de defender ideias extremamente conservadoras, atrasadas e sem o menor fundamento de como as coisas são hoje em dia.

E, sim, eu tinha mania de ficar discutindo na internet com as pessoas e, como eu tenho hiperfoco em política, a política era o principal assunto. Então, eu já fui cancelado, tanto por ser direitista, em algum momento, e tanto por ser de extrema esquerda, em algum outro momento também, enfim. Já fui cancelado por todos os lados e já cancelei também pessoas, em alguns contextos, principalmente na época da igreja. Eu já cancelei muitos parentes meus que eu achava que eram inimigos do reino do Senhor, coisa desse tipo.

Bruno: Eu já fui cancelado e já cancelei. O cancelamento que eu fiz, não me orgulho, mas teve um que eu me lembro, né? Que eu fazia parte de uma organização, Sociedade Vegana, e a gente tinha um grupo, não me lembro agora se era no Orkut ou se já era Facebook, acho que era Orkut ainda. E entrou lá uma mulher falando sobre a alma dos animais. E eu, como eu era ateu, sou ateu até hoje, né? Aquilo mexeu comigo e eu perturbei a mulher até ela sair do grupo. Mas não faria isso hoje, entendo que me comportei mal.

Agora (risos), o cancelamento também foi no contexto do veganismo. Eu percebi, e foi lá que eu despertei para o mal que isso causa, né? O cancelamento. Eu percebi que numa comunidade lá as pessoas estavam sendo expulsas a rodo por emitirem opiniões impopulares, por não concordarem com a linha ideológica dos moderadores. E eu fui lá confrontá-los e acabei sendo expulso também.

Aí, depois disso, eu escrevi um texto em três partes, publiquei na internet, e também foi uma chuva de cancelamento sobre mim. Foi mais ou menos nessa época que eu acabei deixando o ativismo vegano de lado, porque eu não me via com condições psicológicas de lidar com esse tipo de comportamento das pessoas, apesar de eu ter tido até algum apoio de outras pessoas que pensavam como eu.

Mas uma coisa que eu aprendi nessa situação foi que muitas das pessoas que concordam com você vão ficar na moita. Elas não vão se manifestar publicamente, enquanto que as pessoas que estão contra você vão cair em cima de você publicamente, né? E você vai se sentir meio que isolado de qualquer forma.

João Paulo: Bom, enquanto vocês falam, acabei de lembrar que eu cancelei um autista semana passada (risos). No caso, não me arrependo. Foi também na mesma linha de pensamento ainda o mais próximo que tinha na minha cabeça, pelo menos naquele momento de justiça. Não me orgulho também. Mas eu não consigo me lembrar de um momento em que eu fui cancelado por uma opinião impopular, felizmente.

João Victor: Lamento ser o cara chato, mas aqui é paz, filho. Eu não comento em vídeo de YouTube, não comento em publicação de Instagram, TikTok. Eu sou o cara que fica na moita, como o Bruno fala. Sério, de verdade.

Velho, qual é a necessidade? Eu tenho mais o que fazer, mano. Tenho trabalho, tenho que estudar, tenho que escrever, tenho que frequentar o NAIA. Não, brigar com o povo pra quê?

Marx: Não existe nenhuma pessoa no mundo isenta de ser cancelada. Eu acho que esse é o mantra do episódio de hoje. Porque nem Jesus Cristo escapou de ser cancelado.

Bruno: (Risos).

Marx: Por que você, ser humano, mortal igual eu, seria? Né?

Bruno: Não existe pessoa livre de cancelar também.

Marx: Não existe. Menos ainda! A gente agradece muito a sua companhia. E eu agradeço muito também ao João Paulo por você ter aceito o convite. É uma honra muito grande te receber aqui no Introvertendo. Nós estamos muito felizes com a sua participação e eu espero que você também tenha ficado muito feliz com a participação.

João Paulo: Muitíssimo obrigado. E para quem se sentiu cancelado, ainda bem que hoje em dia os algoritmos tanto aprimoram o cancelamento como o descancelamento, né? Hoje em dia tem os protocolos do descancelamento. Como o vídeo com parede branca, falando “errei, fui moleque”. “Quem me conhece sabe”. Ou então, até mesmo o bom e velho vestir uma roupa meio de pijama, se fazer de coitado. Então, tá aí. É só seguir o script também social.

[Vinheta de encerramento]

João Victor: Brigar com o povo pra quê?

Nicolas: Você é muito hipócrita.

Marx: (Risos).

Nicolas: Você é muito hipócrita, sabia?

Marx: (Risos).

João Victor: Vem aqui. Vem aqui. Vem aqui. Não, não, não, não, não. Vem aqui. Me explana.

Nicolas: Você é muito hipócrita!

João Victor: Vem aqui. Vem aqui. Vem aqui que eu tô fervendo, seu filho da [BEEP] Hipócrita por qual causa motivo razão e circunstância?

Nicolas: Você cancelou a Wanessa!

Marx: (Risos).

Nico: Você é muito hipócrita!

João Victor: Vai passar pano, filhão? Vai passar pano, é isso mesmo? Vai passar pano? Vai passar pano? Vem aqui, mostra a cara, mostra a cara. Vem quente. Vem gostoso. Vem gostoso. Vem quente. Mostra a [BEEP]

*

Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Técnico de som: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

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