Autistas são crianças isoladas, gênios da matemática, que adoram dinossauros e Sonic? Neste episódio, especialmente apresentado por Bruno Frederico Müller e com a presença de Maysa Antunes, eles discutem vários estereótipos do autismo ao lado da equipe técnica do podcast, representada por Alexandre Stacciarini e Nicolas Melo.
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Transcrição do episódio
Bruno: Sejam todos muito bem-vindos ao podcast Introvertendo, um podcast onde autistas conversam. Eu sou o Bruno Frederico Müller e serei o host hoje para vocês com o assunto estereótipos e autismo.
Maysa: Olá, meu nome é Maysa, tenho 34 anos e não é porque eu sou autista que eu sou igual e tenho os mesmos comportamentos do que vocês aqui na mesa que também são autistas.
Nicolas: Meu nome é Nicolas, tenho 25 anos, sou o diretor de vídeo dessa bagaça e meu estereótipo é gostar muito de Sonic. Não a nível furry, mas gostar muito.
Alexandre: Meu nome é Alexandre Stacciarini, eu também sou parte da equipe técnica e quando eu era criança eu era exatamente o estereótipo da criança autista branca que gosta de dinossauro.
Bruno: Para você que nos segue, siga também nas nossas redes sociais, no Instagram, X, TikTok e Facebook @introvertendo.
Nicolas: E pessoal é muito importante, caso você queira e possa nos ajudar, estamos nas principais plataformas, estamos no Catarse, no Apoia-se e no Patreon e você vai ter recompensas exclusivas como o grupo do Telegram com todos os integrantes, equipe técnica, você vai poder conversar com a gente diretamente, vai poder falar sobre os assuntos, vai poder sugerir temas, não garantimos que faremos, mas pode sugerir. E você vai receber os episódios exclusivamente com antecedência.
Alexandre: E também não esqueça de acessar o nosso site www.introvertendo.com.br.
Nicolas: Para você que está nos ouvindo nas principais plataformas de podcast, seja no Spotify, no Apple Podcasts, no Google Podcasts, entre outros, também saiba que nós estamos no YouTube e para você que está no YouTube também estamos nas principais plataformas de áudio.
Mas enfim, no YouTube você pode nos encontrar no canal do NAIA Autismo e eu peço que você curta, compartilhe, se inscreva, comente aqui embaixo o que você está achando do episódio e ative o sininho também para receber notificação de todos os episódios que vierem a seguir.
Bruno: O Introvertendo é um podcast feito por autistas para autistas com produção do NAIA Autismo e gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.
[Vinheta de abertura]
Bruno: Eu queria perguntar a cada um de vocês qual é o estereótipo que mais irrita vocês no autismo?
Maysa: Aquela situação das pessoas acharem, por você ser autista, ou você tem deficiência intelectual, ou você tem habilidades…
Nicolas: Sobre-humanas.
Maysa: Sobre-humanas, gênio, expert, assim, né? Habilidades extraordinárias, assim. E o meio-termo disso? (risos). É isso? Ou é um lado ou é outro, né?
Nicolas: Acho que o principal problema do estereótipo é a pessoa achar que você é um gênio em matemática.
Maysa: Sim!
Nicolas: Ou você é um gênio em física. Eu não sei quantos que é 2+2, mas fala sobre Sonic pra você ver perto de mim.
Alexandre: Cara, o pior é que o que mais me irrita também é justamente isso. Tipo assim, “ah, você deve ser um gênio da informática, você então com certeza trabalha como programador”.
Nicolas: É!
Alexandre: Tipo assim, beleza, eu até era da área de TI por um tempo, mas eu não sou mais.
Nicolas: Você é estereotipado.
Alexandre: É.
Bruno: E esse estereótipo ele se reproduz até nas vagas de emprego, né? Porque ou é emprego que não exige qualificação nenhuma ou é vaga de TI. E se você não se encaixa em nenhum desses dois perfis, você tá ferrado, você vai ficar desempregado.
Maysa: É, tantas áreas diferentes, né? Por exemplo, minha área é arquitetura e urbanismo, a área do Bruno é história, psicologia, né? Enfim, e aí fica realmente aquela impressão de que os autistas geralmente são da área da tecnologia, da área da informática, computação, enfim.
Nicolas: Você sabe quantas vagas de motorista de ônibus tem por aí? Tem tanto busólogo por aí querendo uma vaga dessas e vocês não oferecem para os PCDs. Você consegue, além de um motorista especializado no ônibus, um mecânico que vai saber exatamente o que fazer na situação de um ônibus quebrar. Mas é um ótimo estereótipo também o busólogo, né?
Alexandre: Ou então, tipo, no caso de busólogo também, cara, como é que é o nome de planejador de transporte público?
Bruno: Engenheiro de tráfego?
Alexandre: É, isso!
Maysa: Engenheiro de transportes.
Alexandre: Engenheiro de tráfego, de transporte, tipo, mano, pega um busólogo, ele resolve qualquer problema de transporte público que tem na cidade.
Bruno: E tem um outro estereótipo que também é muito comum e eu quero ouvir de vocês a respeito, que é a de que o autista não tem empatia.
Nicolas: Esse assunto é complicado.
Alexandre: Então, porque na real é muito comum que pessoas autistas tenham hiper empatia. A gente é muitas vezes mais empático do que deveria, inclusive. Porque é tipo assim, você, não sei, assiste um filme, uma parada que é ficção e fica super triste por dias porque o cachorrinho morreu no filme.
Nicolas: Game of Thrones, foi um sofrimento bem grande pra mim. A questão é que é difícil demonstrar da maneira socialmente aceita ou comumente entendível como um sentimento. Então, assim, se a gente não demonstra com expressões faciais o que a gente está sentindo, a gente não tem empatia.
Se a gente não consegue compreender como agir em determinada situação, que outra pessoa esteja sofrendo, por isso que a gente entenda que ela está sofrendo, mas não sabe exatamente como reagir e acaba reagindo de forma não comum, a pessoa acaba achando que a gente não tem empatia. Então, esse estereótipo é muito difundido, não por não ter empatia, mas não por não saber demonstrar exatamente como demonstrar o sentimento, basicamente isso.
Maysa: Não saber como se expressar diante da situação. Porque tem situações que já aconteceu comigo de eu ficar paralisada. A pessoa me conta e tal, e eu ficar assim, estagnada. E aí, né… tem pessoas que vão achar que não teve empatia diante da situação, não quer se expressar, mas não. Aí eu ficava assim, sem saber como expressar diante daquilo, sabe?
Bruno: Tem também a questão que o autista, ele tem uma dificuldade de ler emoções. E eu acho que é isso que gera muito essa confusão, porque você não conseguindo ler emoções, vai ter situações que, de repente, você não vai captar o que está acontecendo.
Mas não quer dizer que você não tenha empatia no sentido de se solidarizar com a pessoa que está passando por algum problema… alguma situação difícil. É necessário… que ela chegue para você e verbalize o que ela está sentindo. Eu acho que vem muito disso também o estereótipo de que o autista não tem empatia. A nossa dificuldade de ler emoções.
Alexandre: Essa parada da empatia, cara, é até meio engraçado. Eu acho que as pessoas, se eu estou num velório, eu acho que geral pensa que eu não tenho emoção nenhuma, porque eu não expresso muito. Não quer dizer que eu não esteja triste pela morte de uma pessoa, que era, sei lá, parente, alguma coisa assim. Mas eu realmente não expresso muito.
Bruno: E aí ligado com esse estereótipo da empatia, tem outro também muito comum, que é “autista não gosta de toque, logo, autista não gosta de relacionamento, logo, autista não gosta de sexo”.
Nicolas: Rapaz…
(Risos)
Alexandre: Esse último principalmente…
Maysa: A pessoa fica até com receio de se relacionar com a pessoa autista, né?
Alexandre: Esse último principalmente, eu acho que é o contrário, na verdade.
Nicolas: O número de autista com tesão por aí…
(Risos)
Maysa: Mas são anjos azuis!
Nicolas: Os anjos azuis com muito tesão.
Alexandre: Tem muito azul, na verdade.
Bruno: Eu já ouvi profissional falando que se a pessoa namora, então ela não é autista.
Alexandre: É porque, assim, é claro que tem algumas pessoas autistas que são bem tipo púdicos mesmo. Mas também tem muito autista que é exatamente o contrário.
Maysa: É porque, assim, tem… Também a gente na outra polêmica de que acha que os autistas têm comportamentos iguais, né? Enfim, um vai ser bem parecido com o outro. Não, não é…
Por exemplo, essa questão das sensibilidades, né? Tem autistas que são hipersensíveis em relação a tato e tem autistas que são hipossensíveis. Ou seja, gostam de abraços apertados, né? Já soube de autista assim. E autistas que não gostam de toque, assim, preferem não abraçar alguém, ou abraçar leve, né? E outros gostam de abraço apertado, por exemplo. Então, assim, é diferente, né?
Nicolas: É, pra você que não entendeu até agora, tem um jeito de você saber se o autista gosta de um toque ou não gosta de um toque. Pergunte. É só perguntar.
Maysa: Exatamente (risos).
Nicolas: Perguntar não mata.
Alexandre: É só perguntar: “Ah, posso dar um abraço?”, “Posso apertar a mão? – Sei lá, posso dar um tapinha no ombro?” – O que seja. É só perguntar.
Nicolas: Na real, tinha que ser regra pra todo mundo, não só pra autista, né?
Alexandre: É, pra todo mundo, na real, tinha que ser regra.
Nicolas: Pelo amor de Deus.
Bruno: E se você ver um autista namorando, por favor, não casse o laudo dele.
Nicolas: E não faça ele de corno, por favor. Pelo amor de Deus.
Maysa: Porque autista é ser humano, gente. Autista namora, autista casa, autista trabalha, estuda, enfim, gente.
Nicolas: Não roube o parceiro dele! (risos)
Maysa: Não somos ET’s, entendeu?
Maysa: Tem também um ponto de achar que autista é só coisa de criança, sabe? Assim. Porque eu passei pela situação em 2018, quando eu procurei, primeira vez ali, fazer terapia, procurar ajuda médica, psicológica e tal. E aí, a psicóloga, na época, me encaminhou pra avaliações para neuropsicóloga, investigação a princípio do TDAH na época, que poderia também verificar também a questão do autismo.
E aí, gente, eu desisti na época de dar prolongamento na investigação, porque eu ligava na clínica pra fazer o agendamento, e aí a pessoa falava assim “Maysa é quem? É sua filha?” – Aí eu “Não, sou eu.” – sabe? Isso aconteceu várias vezes, e eu desisti de dar continuidade na época dessa investigação, de raiva que eu passava da pessoa, da atendente questionar isso, se era minha filha. Porque eu achava que era uma criança pequena, não era uma pessoa adulta ainda atrás do diagnóstico.
Bruno: É, infelizmente ainda tem muita essa visão de que autismo é coisa de criança. E você, sei lá, depois que completa 18 anos, desaparece ou o seu autismo desaparece, né?
Maysa: Pois é.
Bruno: Na verdade, o autismo é uma condição que vai acompanhar o indivíduo por toda a sua vida. O autismo que não foi bem tratado na infância, ele vai ter repercussões graves na vida adulta. E como o autista nível 1, que é o considerado mais “leve”, ele muitas vezes tem o diagnóstico na vida adulta, ele não foi diagnosticado na infância, ele vai chegar nessa situação em que já adulto ele vai ter sofrido muitos prejuízos na sua vida por conta do diagnóstico tardio. E ainda vai ser invalidado pelas pessoas que não acreditam que ele seja autista, porque aí vem outro estereótipo, acham que o autismo é só coisa de criança com deficiência intelectual que não tem nenhum tipo de autonomia.
Maysa: É… Então, isso até dificultou pra mim, né? Atrasou o meu diagnóstico, porque aí nessa época eu não fui atrás, ficava extremamente irritada com isso, e aí me mantive com o diagnóstico de transtorno de ansiedade na época que eu tive, e aí eu passei a ficar receosa, sabe? De depois voltar a investigar sobre a neurodivergência, né?
Bruno: Todo diagnóstico, até da criança que é mais comprometida, o diagnóstico vem no sentido de orientar para desenvolver a autonomia daquela pessoa.
Maysa: Receber o tratamento correto.
Bruno: Exatamente. É claro que os pais, muitas vezes, nesse afã de ajudar, de proteger os filhos, acabam comprometendo o desenvolvimento dessa autonomia. Mas o propósito do diagnóstico não é esse.
Alexandre: Mas tem um outro estereótipo também, muito, muito comum, que é “autista não gosta de socializar”.
Nicolas: É, é caso a caso. Por exemplo, eu não gosto muito de socializar, mas eu conheço também muitos autistas que adoram socializar, além de você, tem outros integrantes desta mesa aqui, de outros episódios que adoram socialização.
Maysa: Então, acho que depende, né? Eu tenho a bateria social muito baixa, então assim, é claro, eu gosto de ir em eventos, eu gosto de estar ali com pessoas, principalmente as que são mais íntimas minhas e tudo. Só que assim, o tempo prolongado vai me cansando, sabe? Então tem um limite ali.
Bruno: É, eu sou muito pouco sociável, mas inclusive eu vou cassar o laudo do Alexandre ali.
Alexandre: Cara, tem…
Nicolas: Tem que cassar o laudo do Alexandre, do João Victor, tem que cassar um monte de laudo.
Alexandre: Já teve dia, várias vezes que isso aconteceu, que eu participei de duas festas de aniversário no mesmo dia.
Maysa: Não, aí é demais! (risos). Uma só, entendeu? Fica uma horinha, tá bom.
Nicolas: Tinha álcool pelo menos?
Alexandre: Tinha, é claro.
Nicolas: Ah, tá tudo bem.
Bruno: No meu caso, eu era convidado para festas, eu já contei essa história aqui, e eu não conseguia me socializar com ninguém, eu não suportava a música alta, eu dava graças
aos céus quando tinha um cachorrinho ou um gatinho na festa.
Maysa: Ah, aí é ótimo (risos) .
Bruno: Porque isso salvava a minha vida, salvava a minha interação, e uma hora depois eu ia embora.
Maysa: Mas é aí que tá, depende das pessoas, né? Tem pessoas que você se sente melhor junto com elas.
Nicolas: Exatamente, isso aí é um ponto muito importante, porque esse estereótipo do autista não saber socializar tem um detalhe. Tem pessoas-chave na vida do autista que no qual ele ama socializar.
Por exemplo, eu tenho minha amada, que é a Daphne, um beijo pra você, que assim, eu posso ficar dias inteiros seguidos conversando com ela que eu não vou me cansar. Agora me bota do lado de um professor de matemática da faculdade de pós-graduação. Eu vou dormir quando ele abrir a boca.
Alexandre: (Risos)
[Transição]
Nicolas: Interrompemos a programação para dar uma notícia muito importante. Já está disponível à venda os produtos oficiais do podcast Introvertendo. Merchandising para você que quer transmitir todo o seu autismo em estilo. Então seja estereótipo, participe também da modinha, venha vestir a camisa, literalmente.
Temos diversas estampas feitas pelos nossos integrantes originais da primeira formação do Introvertendo, Willian e Tiago. Entre em contato pelos nossos canais, então Instagram, pode mandar uma mensagem, YouTube, a gente dá um jeito de encontrar vocês. Entre em contato que nós vamos dar um jeito de vender para você esses maravilhosos produtos.
Temos diversas outras estampas também, para você que gosta de Sonic, que você que é busólogo, você que ama dinossauros. Lembrando que toda verba será revertida diretamente para o podcast Introvertendo. Vamos melhorar a qualidade de áudio, melhorar a qualidade de imagem, vamos melhorar tudo. Melhorar nossa qualidade de vida também. Então comprem, comprem, comprem, comprem, comprem, comprem, comprem, comprem, comprem.
[Transição]
Alexandre: E um outro estereótipo também a ver com sociabilidade, é a famosa frase que muitos autistas escutam que é: “nossa, mas você é tão bonito para ser autista”. Sim, eu sou lindo e eu sou autista.
Bruno: (Risos)
Maysa: Autista tem que ser feio agora? (risos) Critério para ser autista, ser feio.
Bruno: Não é o “você não tem cara de autista”?
Alexandre: Tem esse também.
Maysa: Nossa, você nem parece autista, como assim? (Risos)
Alexandre: É que eu acho que eu tenho muita cara de autista, tem esse detalhe.
(Risos)
Bruno: Eu acho que o “você não tem cara de autista” tem mais a ver com a autonomia da pessoa. Se ela tem mais autonomia, se ela trabalha, se ela vive sozinha, toca a vida dela, aí ela não tem cara de autista. Ou então se ela é muito inteligente também, “nossa, mas você não tem cara de autista”. E aí puxa de novo…
Maysa: Como que você se formou? (risos)
Nicolas: Como você saiu de casa hoje?
Bruno: Puxa de novo para aquele estereótipo de que o autista tem que ser uma pessoa debilitada, sem autonomia, com deficiência intelectual. E é engraçado, a gente vive, como você falou, como a Maysa falou no início da conversa, a gente vive entre esses dois pólos. Ou você tem que ser um gênio, ou você tem que ser deficiente intelectual. Qualquer coisa no meio termo não serve.
Nicolas: Eu nunca fui fã de Pokémon, e eu não pego esse estereótipo, o estereótipo de Pokémon não entra pra mim.
Alexandre: Eu tenho coleção de Pokémon, eu amo Pokémon. É um puta de um estereótipo, né? Tipo, Pokémon, dinossauros e Sonic.
Nicolas: Mas então, Sonic, eu sempre fui aficcionado quando era criança, e eu acho que esse estereótipo inclusive começou recente, desde que iniciou aquela parada dos filmes, que mais autistas se identificaram com o Sonic, teve o Shadow, Shadow véi é muito foda.
Alexandre: É o Shadow, é o Shadow, é o Shadow. Então, eu sinto… (risos)
Nicolas: Não, isso não.
Alexandre: Piada essa música aí.
Nicolas: A parte do Sonic eu acho que é mais recente. Agora, dinossauro é religiosamente uma questão autista.
Alexandre: Velho, Jurassic Park.
Maysa: É universal, né?
Alexandre: Jurassic Park foi meu filme da infância, e eu realmente, eu era a criancinha estereotipada, tipo, criancinha branca fã de dinossauro.
Maysa: É, eu também gostava! Aquele próprio filme, Dinossauros, né, que chama? Eu vi inúmeras vezes! Sim, eu morri.
Nicolas: Nossa, Dinossauros era muito daora. Sim
Alexandre: Em busca do Vale Encantado.
Nicolas: Sim.
Alexandre: Esse era bom pra caralho.
Nicolas: Tinha 14 filmes, eu vi todos aquela merda.
Maysa: Repetidos. Não, tem que repetir ainda.
Alexandre: Eu tinha o joguinho de CD-ROM do Em Busca do Vale Encantado, esse era muito bom.
Nicolas: Nossa.
Bruno: Pois é, gente. E tem também um outro estereótipo que é muito polêmico, que é “o autismo é coisa de menino”.
Maysa: Já li a respeito, né? Vi alguns estudos, e das próprias meninas autistas também. A questão das meninas camuflarem mais as estereotipias, algumas características do autismo, né? De ter aquela questão, digamos que, mais habilidade de copiar as atitudes sociais das pessoas desde pequenas, assim, de “ah, você é menina, fica quietinha assim, você se veste assim, tal, você fica aí, tal”.
Bruno: É. E por ficarem mais quietinhas, mais caladinhas, como é o comportamento esperado para meninas, não para meninos, acaba camuflando o autismo. Ou por outro lado, como as meninas têm mais habilidades sociais, elas têm mais talento para a leitura social do que os meninos.
Maysa: É, tem estudos que falam que elas conseguem copiar melhor, né?
Bruno: Exato. E aí, por causa disso, também acaba que a percepção do autismo em meninas é menor do que a percepção em meninos. É mais difícil diagnosticar as meninas.
Nicolas: Outra questão muito forte de estereótipo que está totalmente, é bizarro o quanto isso for difundido, é a questão, também entra na parte da infantilização, da criança e tudo mais. A birra, autista ser birrento, autista não saber se controlar, autista ser mimado, principalmente.
Bruno: Autista ser agressivo.
Nicolas: Agressivo e tudo mais, dar 61 socos em alguém no elevador, essas paradas assim, não é uma coisa… Sim, é muito bizarro como que isso difundiu e se tornou meio que um sinônimo do autismo.
Bruno: O autista não vai perder a noção da realidade por ele ser autista, a menos que ele tenha uma outra condição psiquiátrica que envolva essa perda de consciência. Mas o autismo em si não vai fazer com que ele perca a sua noção de certo e errado em determinado momento porque ele está passando por uma crise. Então é preciso separar o que é do autismo e o que é do caráter.
Nicolas: Isso também é muito culpa da cultura no geral. Então assim, qualquer tipo de mídia pop, por exemplo, novelas ou séries ou filmes que vão retratar um autista, eles vão retratar como aquela pessoa reclusa.
Bruno: É. Você tocou num ponto interessante, né, que é a cultura pop, ela fez muito para popularizar o autismo, mas também acabou cristalizando essas estereotipias, né, esses estereótipos, melhor dizendo. Acaba se perdendo a noção de que o autismo é esse espectro muito vasto e muito, muito mais complexo do que as séries e os filmes mostram.
Nicolas: Dito isso, Sheldon Cooper, você está jurado de morte em Xique-Xique, Bahia (risos).
Bruno: Gente, vocês não têm ideia, na época que o seriado Big Bang Theory estava no auge da sua popularidade e as pessoas falavam assim “cara, eu amo o Sheldon, eu sou igual ao Sheldon” (risos). Eu falava “não, você não é igual ao Sheldon, você não tem nada a ver com o Sheldon”.
Nicolas: Bazinga, bazinga.
Maysa: Pra começar, ninguém é igual, né?
Nicolas: O Sheldon é um babaca! O Sheldon é um babaca! Ele não é autista, ele é um babaca. É diferente.
Bruno: Mas a coisa de, por exemplo, ele não entender sarcasmo, isso não tem nada a ver com a maioria das pessoas. A maioria das pessoas consegue ler sarcasmo muito bem.
Alexandre: Realmente é comum do autismo ter dificuldade de entender sarcasmo, mas também tem muito autista que é sarcástico o tempo inteiro.
Nicolas: Eu não conheço ninguém de sarcástico, mas assim, é foda.
Bruno: Você me conheceu na minha época de sarcástico.
Nicolas: Quê?
Bruno: É.
Nicolas: Você já foi sarcástico?
(Risos)
Maysa: Quando?
Nicolas: Quando?
Nicolas: Você que gosta muito de andar de ônibus, mande uma mensagem, venha participar do podcast, precisamos de você para fazer um episódio inteiro sobre busologia porque é muito importante, a gente tem muito apreço por você. Venha nos contatar. contactar.
Bruno: Pois é, gente. Então a moral da história qual é?
Nicolas: Pergunte.
Alexandre: A moral da história é que os estereótipos estão certos muitas vezes (risos).
Nicolas: É foda, a gente não queria falar sobre isso, mas alguns estereótipos estão realmente muito acurados.
Bruno: Todo estereótipo é ancorado, agora falando até como cientista social, todo estereótipo está ancorado em alguma realidade. Agora, é preciso olhar além dele, porque ele vai te dar uma visão apenas muito superficial sobre qualquer fenômeno.
Maysa: É, e não generalizar, né?
Bruno: Importante não generalizar.
Maysa: Não colocar como uma verdade absoluta, algo assim, tabulado e tal.
Nicolas: A palavra de hoje é espectro. É um espectro, gente. Então assim, autista transa, autista bebe, autista faz coisa errada, autista joga no tigrinho, autista mente. Eu só falei coisa ruim até agora, pera aí. Autista também gosta… (risos).
Maysa: É, fala alguma coisa boa! (risos)
Nicolas: Fala coisa boa sobre autismo aí, que eu não consegui não (risos).
Bruno: Poxa, vocês estão falando que sexo é ruim?
Nicolas: Não, jamais, jamais, jamais.
Bruno: Encerramos então mais um episódio do Introvertendo. Agradecemos a você que nos tem acompanhado. Se você nos acompanha pelo YouTube, não se esqueça de se inscrever, clicar na notificação e comentar. O podcast Introvertendo é uma produção do NAIA Autismo, gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.
[Vinheta de encerramento]
Bruno: E esse estereótipo, ele fica presente até nas vagas de emprego, né? Porque ou é pra almoxarifado, com todo respeito… você corta isso (risos).
Nicolas: Pra você que é do almoxarifado, comente aqui embaixo, sua indignação. O nome dele é Bruno Müller.
Alexandre: Pra você que é do almoxarifado…
Maysa: Vagas informais, não?
Alexandre: Eu me lembro de você falando pra eu buscar o óleo de banana pro Macaco Hidráulico.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Marcelo Oliveira e Nicolas Melo | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Nicolas Melo | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: João Victor Ramos

