Introvertendo 284 – Autismo e Autoestima

Uma vida inteira de bullying escolar, exclusão social e dificuldades de interação com a família e pessoas próximas: como fica a autoestima de pessoas autistas? É um tópico sensível e muito difícil de debate para algumas pessoas. Juntamos, neste episódio, integrantes com diferentes níveis de autoestima para dissertar sobre esses e outros pontos. Participam: Brendaly Januário, Bruno Frederico Müller, Izabella Pavetits e João Victor Ramos.

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Transcrição do episódio

Brendaly: Olá, você que está assistindo o podcast Introvertendo, eu sou a Brendaly Januário e hoje eu estou me sentindo hipnotizada pela minha beleza, modéstia a parte, porque eu estou maravilhosa. E o episódio de hoje é sobre autoestima.

Izabella: Oi, meu nome é Izabella e hoje nós juntamos pessoas com diferentes níveis de autoestima para ver no que dá.

Bruno: Oi, eu sou o Bruno Frederico e eu estou aqui cumprindo a cota da baixa autoestima.

João Victor: Olá pessoal, eu sou o Apolo, Deus grego do sol. Não, pera, calma. Eu sou o Eros, Deus grego do amor, da paixão, da beleza. Eita, diacho, errei meu nome de novo. Eu sou João Victor Ramos, escritor, poeta e minha apresentação dispensa maiores comentários. Eu sou lindo e pronto! É sobre isso.

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[Vinheta de abertura]

Brendaly: Autoestima, de acordo com o dicionário, é a qualidade de quem se valoriza. É estar satisfeito com o seu modo de ser, a sua forma de pensar e até mesmo com a sua aparência física. Eu queria saber se em algum momento o olhar do outro, as expectativas e os comentários prejudicaram essa imagem e essa confiança que vocês têm.

João Victor: A etimologia da palavra autoestima, se não estiver enganado, é apreciar a si mesmo. E eu paro e penso, quando a opinião das outras pessoas não me influenciou ao longo da maior parte da minha vida. Eu faço essa pequena inversão porque pra mim foi muito complicado. Eu sei que parece um contrasenso completo, mediante a belíssima apresentação que eu fiz. Mas cara, desenvolver essa autoestima foi dificílimo. Dificílimo, dificílimo, dificílimo.

As pessoas sempre me olhavam com desdém, com um certo desprezo, como se elas vissem em mim algo que eu fosse incapaz de enxergar em mim mesmo. Tanto por eu ser neurodivergente, tipo “nossa, que criança estranha, que criança chata de se ter por perto, que criança feia, que criança excessivamente diferente, que criança escrota”, agora pulando para fases mais da adolescência.

Não conseguia apreciar a mim mesmo nesses primeiros 17, ou melhor, nesses primeiros 20 anos da minha vida. Tô com 25, faça as contas. Até depois do diagnóstico de TEA, foi um processo complicado. Porque se ver com uma deficiência, seja ela do tipo que for, oculta ou não, já afeta a nossa percepção de si mesmos. Já afeta a nossa forma de olhar pra gente e falar “cara, e se eu não tivesse essa deficiência, como eu seria? Será que as pessoas me apreciariam? Será que as pessoas me veriam como uma pessoa mais bonita?”.

Eu sei que de início parece não ter nada a ver uma coisa com a outra, mas eu sempre senti que ambas as questões estavam muito conectadas, percebe? Tipo, se eu não fosse autista, será que as pessoas reparariam em mim com outros olhos e talvez me achassem um cara bonito, minimamente interessante, seja no aspecto que fosse? Eu sempre me fiz essa pergunta, de vez em quando ainda faço.

É um cultivo muito complicado. O pontapé inicial foi literalmente no meu segundo ano do ensino médio, um pouquinho antes do diagnóstico bater à porta, quando eu voltei a ser respeitado em sala de aula, numa transição de escola particular para pública. Porque na particular tava foda de conviver.

Izabella: O período da minha vida que eu me deixei influenciar pela opinião dos outros eu batizei de vida, porque eu sempre me deixei influenciar pela opinião dos outros. Eu tenho a consciência de que não é uma coisa boa, que eu deveria melhorar, eu trabalho muito isso na terapia, eu tento me tornar assim melhor nesse sentido. Mas desde que as demandas sociais, digamos assim, que eu entrei no colégio, que eu comecei a ter contato com outras pessoas fora da minha família, que aí comecei a perceber as diferenças que eu tinha em relação aos outros.

De alguma forma, não sei porque que isso aconteceu, eu sempre achei que isso era um problema que nascia em mim, que não tava na falta de inclusão por parte das outras crianças. Então eu já pensava assim, poxa, eu tô vendo elas brincando, todo mundo integrado e eu não dou conta de entrar nesse grupo, deve ser porque eu sou péssima então. Então esse processo começou muito cedo de achar que as coisas que estavam dando errado, que estão diretamente relacionadas, muitas delas, com o fato de eu ser autista, já foram tudo transformando em argumento para eu achar que eu sou uma péssima pessoa.

Então começou na infância, na adolescência piorou, então eu tinha uma dificuldade, principalmente como eu disse, relacionada ao autismo, minha cabeça já via assim: “tá vendo, mais uma prova de que você é horrível, de que você é péssima como pessoa, de que você é feia”. Foi bem complicado isso durante todos os anos, continua sendo muito complicado.

Depois que eu tive meu diagnóstico, eu parei para perceber que várias dessas coisas tem relação com o fato de eu ser autista e tô tentando reinterpretar, mas é claro que o pensamento já tá tatuado no meu cérebro. Aí entra a questão da rigidez cognitiva, do pensamento que tá sempre aqui, é recorrente, então às vezes agora eu já consigo, eu faço alguma coisa, aí o meu primeiro reflexo é falar “tá vendo, você é horrível”, mas aí já tenho agora uma vozinha: “calma, vamos repensar, isso aconteceu por qual motivo?”

Atribuo isso muito ao fato de eu ter descoberto que eu sou autista, que eu comecei a me perdoar, digamos assim, por várias coisas que eu achava que eu era só incompetente, que eu era esquisita, e foi uma coisa que ajudou bastante, mas eu continuo com muitos problemas de autoestima, o Bruno falou no início que ele é a cota da autoestima baixa, eu sou a cota da autoestima zerada, eu tenho bastante problema com essa questão.

Bruno: Eu não sei se eu fui influenciado pela opinião dos outros. Eu acho que a opinião dos outros meio que se impôs sobre mim na época da infância, da adolescência, literalmente,

porque eu sofri muito bullying na escola.

Ter o diagnóstico foi bom em vários sentidos, no sentido como a Izabella falou de se perdoar por muitas coisas, de se compreender, deixar de se achar o estrangeiro. Mas tem seus limites também. Porque depois do diagnóstico você vê que a atitude dos outros perante você não vai mudar. O respeito ou a falta de respeito não vão mudar. Muitas das dificuldades que você acumulou ao longo da vida também não vão se dissipar. Então embora o diagnóstico seja libertador, e ele é, chega um momento que se esgota esse sentimento positivo. As dificuldades continuam ali.

Brendaly: Então, eu sempre tive muitos problemas com autoestima, autoimagem. Pode não parecer, porque agora minha autoestima é boa, mas isso mudou este ano. Eu sofri muito bullying na escola, tanto na infância quanto na adolescência, e aí era um bullying assim, tipo “a menina mais feia da escola”, “a menina mais esquisita”, sabe, coisas assim bem complicadas.

E depois do diagnóstico eu comecei a entender algumas coisas, me reconectar comigo, olhar para uma outra perspectiva e ir atrás dessa imagem que eu via e que era extremamente negativa, né. E aí depois disso eu comecei a ir atrás de algumas coisas, academia, perdi 14 quilos, e aí conectar com a minha sexualidade e várias coisas assim que foram acontecendo.

E aí hoje eu tenho autoestima boa. O pessoal mesmo fala assim “Brendaly, que autoestima”, mas olha, mudou, né. Eu e o João Victor a gente conversa sobre isso direto, o pessoal aqui nos bastidores falou que a gente é filho de Narciso porque a gente fica o tempo todo “eu sou linda, sou maravilhosa”, é ou não é, João Victor?

João Victor: Mal sabem eles que Narciso é nosso aluno mais fraco.

Brendaly: Exatamente, mas assim, não foi sempre assim, não foi.

João Victor: Não mesmo. O cultivo da autoestima é como exercitar um músculo na academia. Então assim, tem que haver um esforço ali, mas apesar do esforço, há de se ter também as condições necessárias e minimamente favoráveis para esse cultivo. E na minha infância havia, mas eu mesmo não apreciava.

A minha mãe exaltava a minha pessoa, “nossa, meu filho, como você é um rapaz bonito”, mas é aquilo, opinião de mãe, né, gente. A gente quando criança não costuma levar tanto em consideração assim, ainda mais quando tem um monte de garotinhos e garotinhas dizendo pra você “João, você é muito feio, pelo amor de Deus, cara, se olha no espelho, você não se cuida, você é nojento. Mas pelo menos me dá esse seu olho verde”, não tô zoando.

Brendaly: Meu Deus.

João Victor: Tinha gente que falava que eu era o cara mais feio do planeta Terra, mas usava isso como pretexto para depois de falar assim “você não merece ter esses olhos verdes, cara, eu com esses olhos verdes seria muito mais bonita”.

Brendaly: Nossa.

João Victor: Não bastava bater, tinha que tacar sal na ferida, tá ligado? Bagulho surreal, véi. Já fui apelidado de zumbi, cabeça de caixa d’água, não tô zoando, já fui apelidado de pereba, palito, daí pra pior, cara. Somando o fato de que eu era muito problemático no meio da sala de aula, isso servia como pretexto para que o ataque à minha pessoa fosse ainda mais realçado.

Eu tirava… buscava tirar dúvidas com perguntas, segundo a minha própria professora, uma delas, perguntas muito idiotas e sem sentido, me falavam que eu era burro, sendo que eu fui o único aluno até o final do meu ensino fundamental 1 que nunca ficou de recuperação na sala, mas me chamavam de burro, que eu era o cara mais desprovido de intelecto do planeta Terra, o único até o quinto ano que não ficou de recuperação na minha sala.

Eu já sabia, como falei em outras oportunidades, que tinha alguma coisa de diferente, apesar de não saber do que se tratava no detalhe. E por saber dessa diferença, apesar de não possuir alguma tecnicalidade ao que consistia o que hoje sei que é o espectro autista, eu me permitia aceitar esses ataques. Porque minha premissa era “bom, eu já me acho estranho, eu já me acho tudo isso, se eles estão realçando é porque há algum fundamento, é porque há algum sentido de ser”. E demorou pra esse complexo sair de mim, tanto é que vale realçar, minha autoestima é elevada apesar do autismo, não pelo autismo.

Bruno: Eu passei por várias humilhações na minha infância e adolescência, vocês não têm ideia. Os moleques se juntavam pra me bater na hora da saída. Por quê? Por motivo nenhum. Simplesmente eles não iam com a minha cara. Uma vez eu tava assistindo a uma competição de natação e eu cheguei muito perto da beirada pra ver os competidores. E aí veio um garoto por trás e me empurrou de uniforme, de mochila, tudo pra dentro da piscina, na frente da plateia inteira.

Inventavam histórias pra… Porque isso com certeza tem a ver com o autismo, porque eu era muito ingênuo, né? Então contavam histórias, inventavam histórias e eu caía, achava que era verdade. E aí levava até o último minuto pra começar a rir da minha cara dizendo que eu tinha caído na mentira. Então, assim, a infância e a adolescência foram um show de horrores, tem impacto na minha vida até hoje.

Izabella: A parte física do bullying não aconteceu comigo nunca. Não sei se é porque eu sou mulher, não sei se é porque onde eu estudava o bullying tendia a ser mais velado porque era um colégio católico, aí o pessoal que fazia o bullying estava ligado com a igreja, então se eles fizessem uma coisa mais física podia dar ruim pra eles. Eu não sei exatamente qual é o motivo, mas o bullying que eu sofri era mais aquela coisa da palavra, na verdade era mais não, era só o da palavra, do apelido, essas coisas. O máximo assim que eu cheguei, mas eu não considero físico, talvez só porque encostaram em mim, mas não é um bullying físico, o Bruno literalmente apanhou, foi jogar bolinha de papel na cabeça, colar coisa nas costas, mas assim, isso eu acho que perto de agressão física mesmo é nada.

Mas começando pela infância, eu acho engraçado, eu lembro de uma história, toda vez que eu lembro disso eu fico “meu Deus do céu”, eu tinha oito anos fazendo um negócio desse, num trabalho de inglês, que a professora pediu pra escolher uma música que a gente achava que representava a nossa personalidade. Aí eu escolhi a música “Perfect” do Simple Plan, que só pra dar uma explicada básica, a música em português é “perfeito”, e a letra é mais ou menos tipo o cara pedindo desculpa pro pai dele porque ele não é perfeito. Aí eu já fico assim, cara, com oito anos já tava isso na minha cabeça.

Pra quem não sabe Simple Plan é uma banda emo, e o estilo emo me acompanhou muito, ainda acompanha durante a adolescência e ainda agora, na vida adulta eu ainda gosto muito, porque são músicas que tem muito esse tom de tristeza, de sei lá, da sociedade não me entende, de revolta, e aí eu ficava escutando aquilo na adolescência principalmente, ficava assim “nossa, esses caras tão assim captando a minha alma nessas músicas”. E eu acho que isso é um símbolo bem grande do quanto o contexto que eu tava sofrendo ali de bullying tava me afetando.

Na infância eu acho que era mais de boa, eu me senti esquisito, eu não tinha nada assim direcionado, mas assim que eu entrei na antiga quinta série, no atual sexto ano, aí eu fui para um colégio maior, aí acho que já começou a chamar mais atenção a diferença de, por exemplo, eu não tenho aparência convencional. Aí você mencionou mais cedo, Brendaly, que você, te chamaram de a menina mais feia do colégio, eu também fui premiada com esse título, e ele me acompanhou por anos.

E é complicado porque a pessoa já chega da pré-adolescência, pré-adolescência já é uma fase que eu acho que todo mundo já tá nesse processo de descobrir o lugar no mundo, descobrir essas coisas aí. Não sei, eu cheguei nesse colégio, aí o pessoal já tava nessa de “ai, começar a dar o primeiro beijo, não sei o que” e tal, e eu ainda tava muito, eu não sei, acho que eu amadureci mais devagar alguma coisa, então eu cheguei nesse colégio maior, eu já fiquei tipo “gente, calma, eu sou só uma criança ainda, não quero nada disso”.

Aí tipo, as amigas tentavam forçar essa situação, e eu ficava me sentindo pior ainda, porque todo mundo queria um negócio que eu não queria. Fui me sentindo mal com essa situação, com várias. Eu acho que o que me protegeu é que eu era uma excelente aluna, então era a única forma de validação externa que eu recebia, porque os professores me amavam.

Mas do lado de fora eles me chamavam de a menina mais feia do colégio, eles fizeram um apelido bem transfóbico pra mim, e todo mundo me chamava desse apelido transfóbico nas costas e na frente também, meio que espalhou e são feridas que acompanham a gente pra vida, né, por mais que a gente chegue na vida adulta e pense: “cara, como essas crianças, esses adolescentes foram cruéis comigo, eu não merecia isso”. O trauma tá lá.

Brendaly: A minha experiência foi muito parecida com a sua, muito, porque eu não sofri o bullying físico ali, mas e ainda tinha algumas outras coisas que pesavam muito, porque teve esse momento né, na adolescência, as meninas, “ah, o primeiro beijo”, os rapazes e cara,

eu não gostava dos rapazes, né, que aí… 

Izabella: E você não sabia disso ainda.

Brendaly: Na verdade eu sabia. Eu sempre soube. Mas nessa época ainda é muito confuso, sabe? Pra mim foi muito confuso. Eu não me interessava pelos rapazes, né, que enfim, hoje a gente entende. E teve até uma situação que um rapaz, um menininho se interessou por mim, era na adolescência ali, e o pessoal tudo assim: “nossa, tipo, pela Brendaly? A Brendaly, tipo assim, né, a menina feia, a menina esquisita, a Brendaly?”

E eu fiquei sabendo disso, e aí o que eu fiz? Porque eu não me interessava pelos rapazes, eu comecei a humilhar o rapaz, porque cara, eu não queria, eu não queria, assim, eu comecei a destratá-lo, sabe assim, pra ele largar do meu pé, porque eu não conseguia lidar com aquilo. E aí ele logo desinteressou, e foi interessar em outras meninas e tal, porque aí além de ser estranha e esquisita, ainda tinha a questão da sexualidade, né, que eu não entendia muito bem.

Eu não queria ficar com os rapazes, as meninas tudo se arrumava e tudo, e rapaz, e rapaz, e rapaz, e eu não conseguia me conectar com essas conversas, sabe, eu não conseguia. Então aí piorava muito, porque “cara, a Brendaly é esquisita, a Brendaly não quer saber de ninguém, a Brendaly…”

E aí além de tudo, tinha a religião, os pais, né, da religião ali, tradicionais, e me criaram assim, e aí eu ficava com medo de partir pra um outro lado, que é uma época que as pessoas estão explorando a sexualidade, e eu não tive essa oportunidade. Não sabia o que eu queria. Eu não tinha, não cuidava da minha imagem, porque chegou num momento que isso te afeta tanto, que você não se preocupa mais com a sua imagem, e aí o bullying aumenta ainda mais, e foi virando sempre uma bola de neve. A adolescência foi traumatizante, assim, muito. Pra mim foi, pra mim um dos piores momentos da minha vida foi a adolescência.

Izabella: Teve uma coisa que você falou no final que me chamou atenção, porque tem esse senso comum que o povo fala “ai, bullying é só você parar de prestar atenção, você não dá moral que eles param”. Isso não é verdade. Eu sofria o bullying, eu recebia apelidos, essas coisas, eu nunca levei pra coordenação, nenhuma vez, não chorava na frente deles quando acontecia, e eles não pararam. E é uma coisa assim, um discurso que eu vejo muito reproduzido, eu acho até perigoso, que fala “ah, não, se você não fizer nada, não der bola pra quem tá te atacando, eles vão parar”. Isso não é verdade.

João Victor: Não é verdade mesmo. Eu guardava pra mim também, um dos meus apelos, “mãe, não aguento mais”, foi o que me fez ir pra escola pública, e por ironia do destino, foi o que pavimentou a construção, o surgimento mesmo que embrionário de uma autoestima mais acentuada.

Vamos lá, eu transitei da escola particular para a pública, eu nunca tinha estudado em escola pública na minha vida. Eu consegui ter um rendimento melhor nos meus anos finais de ensino médio, a ponto de que do dia pra noite eu virei o número um da sala. E as pessoas vinham pedir a minha ajuda, principalmente em matemática, física, química, “João Victor, me ajuda nisso daqui, por favor, teve determinado problema que eu não entendi, determinado conteúdo que eu não absorvi direito”, e eu ia com todo prazer ajudar. E a minha forma de explicar fazia eu me sentir bem, nossa, tô conseguindo ajudar um colega de sala e ser bem tratado. Peraí, eu tô sendo bem tratado? Como assim estou sendo bem tratado em sala de aula depois de tantos anos?

E a partir disso, isso criou vínculos, alguns mantenho até hoje, inclusive. Isso criou amizades, isso criou a oportunidade de eu ser um pouquinho mais de mim mesmo, porque na época não era diagnosticado, mas já havia uma permissão maior que eu fornecia. Houveram as primeiras moças, as primeiras damas, dizer que eu era um rapaz bonito. Eu: “não, calma, peraí, vocês estão com febre? Eu, um rapaz bonito? João, um rapaz bonito, olha só pra você, esses olhos verdes”, primeira vez que falaram dos meus olhos verdes sem me chamar de indigno de tê-los, veja só.

“Olhe só pra você, seus olhinhos verdes, seu cabelo cacheado”, porque na época eu era bem cabeludo, heavy metal mesmo e encaracola o cabelo quando isso ocorre, o meu, né? Aí “olha seu cabelo, a sua forma de se vestir”, porque eu usava calças menos coladas que de costume. Então, assim, começaram a olhar pra mim com outros olhos, olhos de respeito, olhos cordiais, olhos de aceitação.

E aí eu comecei a me olhar no espelho e falar “vamos com calma, né?”. Partindo da mesma premissa que eu partia quando me chamavam de tudo quanto era nome ruim. Se estão me chamando de bonito, se estão me chamando de pessoa legal, interessante, divertida, carismática, como assim carismática? Deve haver algum fundamento, porque eu confio muito nas pessoas até hoje. Ingenuidade, talvez? Não sei. Comecei a me olhar no espelho, reparar um pouco melhor a mim mesmo, tipo, nossa, talvez eu tenha esse sorriso bonito, talvez eu tenha mesmo esse cabelo cacheado bonito, que na época era comprido, né? Talvez eu tenha olhos bonitos, talvez eu tenha um nariz bonito, boca bonita, talvez eu tenha uma presença legal, talvez eu tenha o que apresentar às pessoas quando eu abrir a boca pra falar alguma coisa numa roda de conversa, talvez eu tenha algo em mim que seja digno da apreciação genuína de outrem.

Entendem o que eu digo? Porque vai muito além de beleza física, por mais que conte muito, cara. E é aí que entra o meu raciocínio do começo desse episódio, quando eu falo que autoestima, o ato de apreciar a si mesmo, é que nem academia, que nem músculo, tá ligado? Tem que exercitar, tem que ter algum estímulo, que a partir do momento que você descobre, que você sente, você precisa buscá-lo da melhor forma que você puder. E no meu caso, eu precisava daquilo pra ontem! Pra ontem, porque eu tava numa crise depressiva que eu não sei como saí até hoje.

Bruno: Você ainda está em crise depressiva, então? É isso que você tá falando?

João Victor: Não, tô controlado nesse sentido, remédio, acompanhamento psicoterapêutico e tal, mas na ocasião me parecia inescapável.

Izabella: É curioso você ter falado que a partir do momento que você começou a receber um retorno positivo das outras pessoas, você parou pra pensar: “nossa, será que o que eu acreditei por tanto tempo de que eu sou a pior pessoa do mundo tá… não é assim que funciona?” Porque eu tive uma experiência completamente oposta, porque eu já tinha tanta certeza que eu era horrível, que quando as pessoas me elogiam, até hoje, ela vai lá e faz um elogio x sobre qualquer coisa relacionada a mim. Uns anos atrás eu falava “ah, obrigada, mas você está errado”. Aí eu fazia isso com alguma frequência. Aí me deram um toque, falaram assim “olha, você está sendo mal educada, não faça isso”. Depois que me deram esse toque de parar de falar “obrigado, mas você está errado”, eu comecei a só agradecer e ficar pensando “você está errado”.

Aí esses dias eu tava conversando com um amigo, aí eu contei essa história pra ele, ele falou “não, mas um elogio da pessoa é a opinião dela, você não pode discordar da opinião dela”. Aí foi a primeira vez que eu fiquei pensando “OK, esse é o primeiro argumento pra eu não chegar pra pessoa quando ela elogia e eu ficar pensando “obrigado, mas você está errado”. Porque a opinião da pessoa é a opinião da pessoa, eu não posso falar se a opinião tá certa ou tá errada. Agora eu continuo só falando “obrigado” na minha cabeça, aí eu falo “não, beleza, não penso mais, é a sua… Obrigado, mas você está errado”. Só que agora eu penso “ah, obrigada”, aí já vai assim “é a sua opinião”. Que opinião torta, mas é a sua opinião (risos).

João Victor: Naquele momento dessa história em específico, pelo que eu entendi, me corrija qualquer coisa, você se permitiu dar o benefício da dúvida assim como eu dei no meu passado, ou não? Ou eu tô errado?

Izabella: Não, eu acho que não é nem questão do benefício da dúvida, foi mais de reconhecer que a pessoa tem o direito de achar o que ela quiser sobre mim, independentemente se eu me acho horrível ou não. Então eu tenho que respeitar a opinião dela, porque é mais isso do que do ponto “ah, beleza, eu acho que talvez ela esteja certa, então eu vou refletir sobre este elogio”.

Eu tenho muita dificuldade em receber elogio. Qualquer elogio que eu recebo eu já fico tipo… Até comentário do podcast, às vezes eu vejo um comentário positivo sobre alguma coisa que eu falei, eu fico tipo “nossa, mas será que essa pessoa tá elogiando por quê, né? Eu não sei se realmente foi tão interessante assim”.

Então eu tenho muita dificuldade com receber elogio. Na verdade eu recebo “obrigado”, mas tipo, eu não processo o elogio, minha cabeça já fica inventando todas essas desculpas pra… Não usar ele como artifício para fazer essa academia da autoestima que você falou, eu não consigo colocar isso na prática.

João Victor: Entendi.

Bruno: Eu também tenho dificuldade em receber elogios. Quase no final do ensino médio é que eu finalmente consegui fazer amigos, mas mesmo no grupo de amigos eu sofria bullying. Eu achava que as tiradas deles contra mim era tipo assim “não, é isso mesmo, eu moro num lugar ruim”, nem morava num lugar ruim. Mas eles falavam isso, que eu morava mal. Eu aceitava o bullying pra ter amigos.

E outra coisa que também dificultou muito o desenvolvimento da minha autoestima foi a relação com o sexo oposto. Mas eu não conseguia me aproximar das garotas. E aí eu via todo mundo namorando, todo mundo se beijando. Eu ouvia os comentários das pessoas dizendo assim que eu não pegava ninguém, a expressão que eles usavam. E isso machucava muito.

Brendaly: Tem um episódio da formação antiga, o episódio 182, Precisamos Falar Sobre Autistas que não Transam. Porque tem, no momento da paquera, da conquista, tem muito isso que o homem precisa chegar, o homem precisa ter iniciativa. E eu acho que isso reflete muito na autoimagem, na autoestima do homem. E às vezes pode até chegar ao extremo, que são os “incéis” e tudo. Porque é uma pressão muito grande.

Bruno: A grande dificuldade de você se relacionar, pode ser o caso de outros autistas que lidam bem com a solidão, que desejam a solidão, né? Mas eu, no meu caso, eu tinha esse desejo de estar perto de outra pessoa. Aí isso já tem um efeito negativo, sabe? Porque você vê, você se compara. Bem ou mal, você se compara. Como eu falei, você vê as outras pessoas namorando, se beijando, se abraçando, e você pensa “poxa, aquilo é pra todo mundo, só não é pra mim”.

E aí depois ainda junta isso com a pressão social, de que você tem que estar com outra pessoa. Então, a pressão social dos amigos, a pressão social da família. Aí começa a fazer piadinhas homofóbicas, achando que você não está com ninguém porque você não se interessa por garotas, se interessa por homens. Isso vira motivo de piadinha.

E sim, você colocou uma questão muito séria, porque o homem frustrado pode reagir de forma agressiva. Então, daí que a gente vê tantos caras misóginos, os sujeitos que reagem de forma violenta. Então, você desconta a sua frustração em outra pessoa que não tem nada a ver de forma violenta. Que é o caso desses atiradores e tal, desses que entram nas escolas. Você vê que muitos deles relatam histórias de bullying, de humilhações, etc.

E é um tema muito complicado, porque a sociedade precisa agir para conter esse tipo de violência. Você não pode passar a mão na cabeça dos que cometeram isso, mas você tem que saber uma estratégia para prevenir que outras pessoas não passem por aquilo que eles passaram. É um assunto tão delicado que acaba virando um certo tabu na nossa sociedade. A gente não sabe como lidar com essa situação de quando a vítima se torna o agressor.

Izabella: Sem querer militar aqui, mas já militando, eu acho que esse é um dos efeitos do machismo sobre os homens. Porque o pessoal fala que o machismo só afeta as mulheres, mas eu acho que não. Porque essa ideia de que o homem precisa ter iniciativa, o homem que é o másculo, que tem que estar lá, não sei o que, pega em todos os homens. Mas eu acho que pega especialmente nos autistas, porque já tem essa dificuldade de interação social, de iniciar e manter contato. Então, eu acho que esse tipo de pressão por agir de determinada forma, imagino, eu não sou homem, mas… (risos) – eu acho que esse tipo de coisa influencia na psique coletiva masculina, vamos dizer assim. Essa cobrança por um determinado tipo de comportamento e acho que afeta, pelo que vocês falaram, afeta na própria autoestima…

João Victor: Sem sombra de dúvida. Desculpa.

Izabella: Não, pode continuar, eu acho que você tem mais propriedade pra falar sobre autoestima masculina (risos).

Bruno: É importante trabalhar a autoestima do homem que ou se sente rejeitado ou que se coloca nesse lugar de solidão, entendeu? Porque senão ele realmente pode desenvolver uma patologia séria de misoginia ou então, em casos mais extremos, se tornar uma pessoa violenta…

João Victor: Acaba sendo muito complicado da gente conseguir conceber outro tipo de forma de se portar com as mulheres. A gente não para e pensa, tipo, tá, tem outro jeito menos impositivo em que a gente consiga ser mais… original, sabe? Sermos autênticos sem necessariamente sermos cafonas? Sermos autênticos sem necessariamente sermos uns completos imbecis, ou uns completos desinteressantes? Eu acho que é esse meio termo que os homens buscam alcançar em relação às damas, às mulheres. Mas pra nós autistas, homens autistas, fica muito difícil porque a gente nunca sabe… a gente fica numa cortina de fumaça sempre, cara. A gente nunca sabe o limiar do “estou sendo uma pessoa interessante, mas nesse ser interessante eu posso tá cruzando alguma linha?”.

Bruno: É isso, né? Junta ainda por cima com a dificuldade de ler expressões, de ler atitudes, de ler nas entrelinhas. 

Brendaly: Vou pegar uma frasezinha do Bruno sobre escolher a solidão. E eu vou jogar aqui na mesa, assim, até que ponto é escolher a solidão ou, assim, uma pessoa que teve autoestima tão minada que não conseguiu se aproximar das pessoas que têm essa dificuldade, têm dificuldade de interação social, por vezes tem essa pauta de escolher a solidão porque, de fato, foi o único caminho?

João Victor: Sim, muitas vezes a solidão nos é, nos parece, na verdade, ser a única alternativa. Porque, nossa, tentei tantas vezes me relacionar com as pessoas, seja no escopo da amizade, seja no escopo amoroso, seja no âmbito que for, e eu nunca logrei êxito. Melhor ficar sozinho mesmo, melhor ficar na minha. Gente, somos autistas pela dificuldade em nos comunicar e não por não querer nos comunicar.

Bruno: Eu não sei, eu acho que tem muitos autistas que realmente, sabe, experimentam as relações e chegam à conclusão de que não é pra eles.

João Victor: Mas eu não acho que isso anula o questionamento da Brendaly, Bruno, porque isso não garante que esses autistas que foram pra esses grupos não sofreram muito e não tiveram a autoestima minada pra caramba como a nossa mesmo foi por anos e anos a fio, tá ligado? Porque assim, cara, tem muita gente que acha que aprecia a própria companhia, mas na verdade é só um cara vazio por dentro.

Izabella: O meu ponto é que muita gente confunde a definição de solidão e de solitude.

João Victor: Positivo. 

Izabella: Porque eu acho que na questão de nós autistas, que é grande maioria… Não tenho dados pra contar, mas que muitos de nós somos introvertidos. A gente realmente aprecia a própria companhia. A gente gosta de ficar sozinho, de ter os momentos. Isso é solitude. Solidão já é outra coisa. Já essa questão de estar isolado do mundo, de não ter contato. E assim, isso já é uma opinião minha. Eu acho que o ser humano é social. Você tá totalmente isolado, você não tem nenhum contato com ninguém. É ruim, faz mal.

Brendaly: Eu concordo com o que a Izabella trouxe, porque eu sou uma pessoa que, por vezes, eu preciso me isolar. Só que aí, passando isso, eu acho que a gente precisa desses momentos de socialização, de conversa, de troca. Então aí, às vezes, eu falo pro João Victor. “João Victor, voltei”. Ele: “como é que cê tá, gata?” E disse “como é que cê tá, gata?”

Aí, quando eu sumo, ele “gata, eu sei que eu tô incomodando, mas assim, eu tô preocupado contigo”, é assim ou não é?

(Risos)

João Victor: Você me imitando é o melhor, cara, sensacional!

Brendaly: É desse jeito: “Então gata, eu preciso saber como é que cê tá!”. E aí, quando eu reorganizo, eu falo “João Victor, então, eu tô com um momento muito reflexivo, e eu tô com algumas ideias e tal, e a gente conversa”. Muitos autistas precisam desse momento, assim, de isolar, de ficar… Mas eu acho que aí a solidão é diferente, assim: “Ah, eu vou me isolar”, e aí você entra num estado de não conversar com ninguém, de só fazer as coisas de forma automática, ali, trabalho e tudo, e não se socializar, que eu acho que é importante.

Eu acho que não deve ser uma pressão, porque eu acho que cada um tem o seu modo de socializar, tem a sua maneira, mas eu acho que a gente tem que distinguir o que é a solidão e o que é a solitude, porque a gente precisa de momentos, mas a gente também precisa conversar, trocar ideias e… 

João Victor: Então acho que a gente precisa consolidar esses conceitos muito bem pra conseguir ter um convívio melhor consigo mesmo, e a partir disso, começar esse cultivo da autoestima, que é o que a gente precisa diariamente, e o que eu e Brendaly, ali, estamos buscando fazer e alcançando muito sucesso, e claro, que vocês dois, Izabella e Bruno, também alcancem. Vai dar certo!

Brendaly: Por hoje é só, pessoal, quero agradecer você que ficou até o final, e o Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção do NAIA Autismo e está sendo gravado nos estúdios da Faculdade Realiza. 

[Vinheta de encerramento]

Bruno: Você gosta tanto da sua voz, João Victor…

João Victor: Eu amo.

Bruno: Que você fica falando patologicamente no microfone.

(Risos)

João Victor: Vá a merda, Bruno.

*

Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Ana Julia Sena | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: João Victor Ramos

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