Introvertendo 283 – Autismo e Vida Financeira

Ser financeiramente autônomo é um dos passaportes para uma vida adulta plena. Mas muitos autistas podem ter uma dificuldade de se organizarem com dinheiro, de fazer planejamentos ou de até mesmo conseguirem ter uma vida financeira sustentável diante de tantos gastos relacionados ao autismo. Neste episódio, nossos podcasters contam dos desafios que já passaram e ainda passam para não finalizar o mês no vermelho. Participam: Gustavo Borges, Izabella Pavetits, João Victor Ramos e Marx Osório.

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Transcrição do episódio

Marx: E aí, meus queridos, tudo bem com vocês? Eu sou o Marx Osório, farmacêutico e esse é o podcast Introvertendo, um podcast feito por autistas e o tema de hoje é autismo e vida financeira.

Izabella: Oi, meu nome é Izabella, eu tenho 30 anos e ainda preciso fazer no dedo contas como 5 + 3.

Gustavo: Eu sou Gustavo Borges e eu sou milionário, basta converter pra guaranis.

João Victor: Olá a todos, sou João Victor Ramos, como falei, sou poeta, não fala de exatas comigo, não.

Gustavo: E o que você vai fazer aqui então, amigo? Dar o exemplo negativo? (risos)

Marx: Se você ainda não conhece o Introvertendo, seja muito bem‑vindo. O Introvertendo tem a versão em áudio e vídeo, no canal do NAIA Autismo no YouTube a gente tem as versões em vídeo e temos também as versões somente em áudio nas plataformas digitais de streaming.

O Introvertendo é um podcast que conta atualmente com um financiamento coletivo, a gente tem as plataformas digitais Catarse, Patreon e mais informações você pode encontrar no nosso site www.introvertendo.com.br. O Introvertendo é um podcast feito por autistas, gravado nos estúdios da Faculdade Realiza, com produção do NAIA Autismo.

[Vinheta de abertura]

Marx: Bom, e quando a gente fala a respeito de vida financeira, esse tema é um dos assuntos mais importantes da vida do ser humano pós‑moderno, e na vida do autista adulto não seria diferente. Talvez dinheiro seja a principal causa de felicidade e de infelicidade do ser humano, porque ele representa aquilo que a gente tem de poder de compra, digamos, e infelizmente ou felizmente a gente precisa dele.

Eu gostaria de começar lançando aquela pergunta elementar e que talvez possa soar meio constrangedora pra alguns, mas não para outros: Como foi a primeira experiência de cada um de vós com ganhar o próprio dinheiro, ter o próprio salário, como, quando começou a vida financeira de fato? Porque a vida financeira começa quando a gente tem a oportunidade de gerir o nosso próprio dinheiro e ter o nosso próprio salário.

João Victor: Eu comecei minha vida financeira aos 19 anos, com o meu primeiro trabalho, e em comum acordo com meus pais eu decidi ajudar minha família, basicamente isso. Eu simplesmente entreguei pra minha mãe e falei: “Mãe, se liga, me ajuda aí, porque eu sou inexperiente na coisa e vou precisar de um apoio”. Era realmente pra ajudar a botar comida na mesa, cara, porque cada um com seu corres.

Marx: Você começou a trabalhar formal com 19 anos?

João Victor: Sim, call center. Coragem, eu sei.

Gustavo: Trabalho pesado.

João Victor: Pesadíssimo, pra ter o mínimo. Barbaridade.

Izabella: O antro da saúde mental, conforme já ouvi falar de diferentes fontes (risos).

Gustavo: Eu acho que posso falar que tive sorte. Eu fui sustentado durante a faculdade, só que com limites, vamos dizer assim. Então não me faltava o que comer, não me faltava o teto, mas eu fazia estágio e eu tinha uma bolsa pra eu poder ser técnico de laboratório da UFG. É isso aí gente, então pra poder fazer a faculdade e receber por isso. Era pouquinho? Era pouquinho, mas foi a hora que eu falei, tá, esse dinheiro aqui eu posso usar, e eu posso usar sem parcimônia, porque venho de um contexto onde dinheiro é meio problemático, algumas pessoas têm, outras não, eu fui meio nesse limbo. 

Então eu sempre fui criado pra fazer durar. Então compra do mês, sempre vou comprar o básico, vamos pegar leve nas coisas, não vamos desperdiçar, mas esse dinheiro que eu tinha do estágio eu podia gastar. Então eu juntei, acho que eu juntei uns quatro meses ali e comprei um Nintendo 3DS. Ótimo investimento, tá aí funcionando até hoje.

Izabella: Então, eu tive sorte também, talvez privilégio. Eu não vou entrar nesse mérito… 

Marx: (Risos)

Izabella: …porque isso já deu briga aqui no episódio sobre habilidades sociais. Mas o fato é que eu não precisei trabalhar. Tem muita gente que começa cedo né, em jovem aprendiz e essas coisas. Não foi meu caso, meus pais me sustentaram na faculdade.

Aí o primeiro dinheirinho que eu recebi, eu tava na faculdade de Direito ainda, foi uma bolsa de iniciação científica, chamava Jovens Talentos para a Ciência. E assim, nessa altura do campeonato eu já tava querendo sair da faculdade de Direito, mas aí como foi a primeira vez na vida que era um dinheiro que eu tava conquistando dinheiro, eu falei: “Não, vou ficar aqui até a duração da bolsa”, que era mais um ano. Mas aí com esse dinheirinho eu fui juntando porque eu sempre sonhei em ter um gato. Meus pais sempre falaram: “não, você não vai ter um gato”.

Mas na época a minha lógica inquestionável… eu falo isso parece que eu tinha 10 anos né, mas não era o caso também (risos). Na minha lógica inquestionável eu ia juntar o dinheiro, aí eu ia ser responsável financeiramente pelo gato, e ele ia ficar dentro do meu quarto apenas, ele não ia transitar pela casa, ele iria ficar só no meu quarto. “Nossa, seu quarto deve ser muito grande então né, pro gato?” Não, não é. Só que eu juntei o que eu considerava ser uma quantidade suficiente pra convencer meus pais a poder adotar o gato.

Aí na hora que eu apareci lá com o plano, concreto, falei: “Ó, esse é o gato”, eu queria chamar ele de Finnick, porque eu tava com hiperfoco em Jogos Vorazes, falei: “Tenho dinheiro pra começar minha vida de mãe de pet”, aí ela falou: “Bom, se você quiser ter um gato, você vai ter que morar em outro lugar”. Aí né, o sonho do gato morreu, mas eu tinha esse dinheirinho guardado. Aí eu já fiquei “O que eu farei com esse dinheirinho guardado?”. Infelizmente eu não sei dizer não. Aí meu tio tava precisando de um dinheiro emprestado.

Marx: (Risos)

João Victor: Complicado.

Izabella: E além de não saber dizer não, eu ainda tenho essa síndrome de “eu não posso ver uma pessoa precisando, eu já quero tipo, meu Deus eu quero ajudar essa pessoa, eu preciso fazer alguma coisa”. Aí meu tio veio pedir dinheiro pros meus pais e eles não tinham. Aí eu tinha esse dinheiro guardado e eu falei “Ah, eu vou emprestar pro meu tio”. Isso foi em 2014, pergunta se eu vi o dinheiro.

João Victor: Eu ia perguntar isso pra você.

Izabella: Nunca mais.

Marx: Eu nem ia perguntar porque a resposta é óbvia.

Izabella: Todas as vezes que eu emprestei dinheiro pra família, eu tomei um calote. Não emprestem o dinheiro pra seus familiares.

João Victor: Eu tenho esperança na humanidade, por isso que eu perguntei.

Izabella: Não, não empreste, João Victor. Eles não vão te devolver.

Marx: Dinheiro que se é emprestado pra parente, pra pai, pra mãe, pra filho, pro Espírito Santo amém, é dinheiro que você dá, na verdade né, não é emprestado.

Izabella: Ah, eu era jovem. Ingênua (risos).

Marx: Há um simbolismo aí de emprestar, mas no fundo você sabe que você não vai ver esse dinheiro nunca mais.

Gustavo: E se emprestar pros amigos, você não vai ver nem o dinheiro nem os amigos.

Izabella: Pior que os meus amigos pagam, você acredita? Já emprestei dinheiro pra amigo, todos eles pagaram bonitinho. Meus familiares que eu tomei calote de vários deles, e foi, tipo, sei lá, uns cinco, eu não aprendo. Acho que agora tô aprendendo, mas…

Gustavo: É porque o amigo quer manter a relação. Claro que eu tenho amigos que já me pagaram de volta, tudo correto, mas é porque teve gente que realmente foi saindo pela tangente da minha vida, cortando o contato assim, e eu acho que uma das coisas era pra poder não pagar mesmo.

João Victor: Eu já fui uma dessas pessoas, não que pediu dinheiro pra Izabella, mas eu já pedi dinheiro pra amigo e devolvi antes do prazo. Inclusive isso foi semana passada, e era 400 pila, tá? Tô quebrado até os ossos, mas promessa é promessa, tive que devolver, filho.

Marx: Eu também recebi ajuda financeira dos meus pais durante a faculdade. Quando vim pra Goiânia estudar em 2015, eu morei uma época na casa de um primo meu e depois minha irmã veio pra cá estudar também e a gente dividiu um barracão durante quatro anos e os meus pais me ajudaram.

A minha primeira experiência de trabalho que eu tive na vida foi quando eu tinha, acho que 17 anos, uma coisa assim. Nessa época eu era da igreja, e uma irmãzinha da igreja tava precisando de alguém pra trabalhar numa lojinha de burujanga que ela tinha lá no Mercado Municipal, umas coisas, anzol, linha de pesca, esses negócios. Vendia chumbinho lá, na ilegalidade, né, mas enfim.

Essa história é muito boa inclusive, e o funcionário dela tava de férias, e aí ela queria contratar um rapaz lá que era colega nosso, mas ele já tava em outro emprego e aí ele não aceitou, eu vi ela falando e falei: “Ah, eu tô desempregado, por que não, né?”, e aí eu me ofereci. Aí ela aceitou meio desconfiada, assim, meio que já sacando que poderia dar muito ruim, porque eu não era uma pessoa lá muito, que transmitia muita segurança do que fazia né, não tinha experiência com nada na época.

E aí eu fui trabalhar lá, era pra eu ficar um mês cobrindo as férias do rapaz. Com 18 dias ela mandou o rapaz voltar e me mandou embora porque eu estava vendendo coisas por metade do preço que era, porque eu não memorizava os preços das coisas. Tipo, tinha um estilingue lá que custava R$ 15 e eu vendia por R$ 3,50, porque eu achava que era R$ 3,50, porque eu não lembrava.

Gustavo: Não tinha um lugar com registro, folhinha pra olhar não?

Marx: Não tinha, não tinha etiqueta de preço. Lá é aqueles mercados bem raíz mesmo, sabe?

Gustavo: Não, mas tipo, um livrinho, com os preços pra você mesmo olhar e consultar.

Marx: Não, ela simplesmente ia falando e eu tinha que estar memorizando e a minha memória é horrorosa.

Gustavo: Pediu pra dar errado.

João Victor: Exatamente, nossa.

Marx: Aí fora o fato que chegava gente lá querendo pechinchar e eu respondia mal às vezes a pessoa porque eu não tinha paciência nenhuma, “Ah não, moço, o preço é esse”, “Ah mas lá no fulano é mais barato”, “Ah, então vai lá”, e aí os clientes iam embora puto. E fora o fato também de que ela vendia chumbinho, e chumbinho é proibido né, aquele chumbinho de espingarda de pressão.

E um dia eu peguei, veio uma pessoa querendo, eu peguei a caixa, o saco de chumbinho, botei em cima do balcão assim ó, poft, e tinha um buraco no saco e eu não sabia, aí o trem começou a derramar e pa pa pa pa, começou cair chumbinho pra todo lado, pra todo lado (risos), e quando pensa que não, lá vai ela catando chumbinho de um lado e eu do outro. Final da história, eu lembro que na época, eu recebi por esses 18, acho que ela me pagou uns 250 reais, uma coisa assim.

Gustavo: Em que ano que foi mesmo, pra gente ter uma noção melhor?

Marx: 2014… 2013… 2014…

Gustavo: Tá pouco, tá pouco até pra época.

Marx: É, tipo assim, foi a experiência da experiência.

Gustavo: Era um salário cheio, mas ela foi descontando…

Marx: Mas assim, pra mim que era moleque e nunca tinha pegado em um dinheiro desse na vida eu achei um dinheirão e fiquei felizão com isso, só que a experiência de ter sido demitido do jeito que eu fui, e ela inventou uma história lá de que é porque ia antecipar as férias e não sei o quê, e também a dificuldade do autista de entender quando a pessoa tá falando uma coisa e quer dizer outra né, aí eu fiquei “Mas como assim, isso não faz sentido”, né aí fiquei com isso na cabeça. Depois disso eu meio que não consegui trabalhar mais em lugar nenhum e fui focar só nos estudos.

Nessa época eu estava no final do ensino médio, depois entrei na graduação e isso aí é uma longa história. Mas assim, dessa época até mais ou menos começo deste ano eu fiquei me dedicando a estudar e fazer pós-graduação, doutorado. Isso me causou um prejuízo muito grande no desenvolvimento social e no ganho de experiência profissional, o fato de que eu não tive experiência no mercado de trabalho de verdade, mesmo, né, essa experiência que eu tive aí foi bem, bem…

Gustavo: Fora dos registros.

Marx: Simplória né, em relação a uma experiência de fato. Por conta disso também eu acho que a minha relação com o dinheiro ela foi uma relação que não se construiu de uma maneira convencional. Comecei a ter meu próprio dinheiro no final da graduação, quando eu comecei a fazer estágio remunerado lá na própria faculdade mesmo, e depois quando eu fui para o doutorado, a bolsa de doutorado, que é meio que o salário que a gente recebe pra se dedicar integralmente a uma pesquisa, a trabalhar, a estudar pra ciência né?

Quando eu passei no concurso agora, no começo do ano, que eu realmente tive de fato um salário de verdade, que eu tive a sensação, eu descobri que não sou tão ruim assim pra lidar com finanças quanto eu achava (risos). Apesar de que eu tenho demandas que vão além da minha própria vida pessoal, né, eu tenho um filho pequeno, uma esposa que também trabalha, que também tem o dinheiro dela. Uma vida financeira de casal, como o Gustavo aí deve saber muito bem também, existe o seu dinheiro, o meu dinheiro e o nosso dinheiro, né? Eu queria que você falasse um pouquinho sobre isso, aproveitando o gancho, na sua experiência.

Gustavo: Eu discordo. Existe o dinheiro do casal, o dinheiro dela… e acabou.

Marx: (Risos).

João Victor: Nada a declarar, nada a declarar.

Marx: É, na minha casa não é assim não, mas cada um é cada um.

Gustavo: É acordos que a gente faz, porque ela paga contas da casa, colabora com tudo, jamais tô negando isso, mas fica uma questão que, o que eu tenho eu tô colocando ali, eu tô pagando, eu tô indo, mas ela ainda reserva parte do dinheiro para sonhos futuros, viagens, shows, esse tipo de coisa e eu tô sempre pagando tudo o que tem ali.

João Victor: Minha experiência financeira também foi muito diferente porque, para além do primeiro salário, ou eu gastava com mais vestimentas, porque eu realmente estava precisando muito de roupa.

Gustavo: Notas pela camiseta fabulosa que você tá hoje.

João Victor: Inclusive, não ironicamente eu acho que comprei essa camisa nesse período, obrigado por me lembrar, Gustavo. E cara, atualmente onde eu trabalho o dinheiro é meu e por ironia do destino minha gestão vem sendo não muito boa, digamos assim, porque foi a primeira vez, a partir de junho de 2024, que eu senti, que eu constatei, que eu realmente poderia fazer usufruto daquilo da forma que eu desejasse. Porque nos dois anos que eu fiquei no call center era dedicado à família. E eu não me arrependo, sinceramente. Eu era muito criancinha ainda, apesar da idade dizer o contrário, então eu só ia fazer besteira. Se bem que eu fiz mesmo assim com 24 anos, tragédia.

Gustavo: Tá tudo bem, você ajudou seus pais, não tem nada de errado com isso.

João Victor: Não, não tô achando que é errado, pelo contrário, eu não me arrependo, cara. É onde eu moro até hoje, diga-se de passagem.

Gustavo: Não precisa se arrepender, essa é a questão, tá de boa.

João Victor: Mas eu não falei que tô arrependido, Gustavo, oxi! Desculpa, não quis ser indelicado. Dadas essas considerações, eu fiquei vislumbrado, tipo: “Cara, meu primeiro dinheiro de fato, que eu posso fazer usufruto da maneira que eu quiser”. E eu gastei com jogos online. Uma boa porção, ainda por cima no cartão de crédito. Inclusive, eu tenho uma história engraçadíssima, bem estranha pra dizer o mínimo, porque eu tinha meu cartão, né, que era de débito. Beleza, isso em 2022, no meu segundo emprego de carteira assinada, no qual eu fiquei uns três meses, então nem considero muito. 

Aí eu fui solicitar um cartão de crédito pela conta do banco, o qual eu já tinha esse cartão de débito, e eu não achava o ícone, o meio de pesquisa pra solicitar esse cartão. Até eu descobrir que o cartão físico que eu tinha em casa possuía ambas as funções, débito e crédito. Eu só fui descobrir isso depois que eu virei o cartão. Eu nunca tinha virado o cartão naquele tempo todo, entre 2022 a 2024, pra ver que tinha as duas funções.

Gustavo: Que bom pra sua própria segurança financeira.

(Risos)

João Victor: Que bom nada. Bom seria se eu não soubesse disso até hoje, filhão, isso sim seria maravilhoso! Porque foi cada besteira que eu fiz, Jesus Cristo. Eu fico me perguntando agora: alguns aqui já buscaram ter noções de educação financeira por contexto de vida, né?

Marx: Existe muita confusão, assim, que as pessoas fazem em relação à educação financeira versus coach de finanças, que é uma praga aí que tá na moda. E, assim, na minha visão, uma educação financeira só faz sentido de ser praticável, se for possível que todas as demandas básicas de sobrevivência e de uma vida de qualidade forem supridas na vida da pessoa. Porque você falar de educação financeira pra uma pessoa que ganha salário mínimo é de uma canalhice, porque assim, não banca nem as contas direito.

João Victor: Sobretudo na vida de famílias que possuem integrantes autistas.

Marx: Então.

João Victor: Pois é.

Marx: Pense só.

Izabella: Mas que tipo de educação financeira que você acha que é uma canalhice assim, só pra…?

Marx: Alguém falar, por exemplo, que essa pessoa não consegue juntar dinheiro porque ela não tem disciplina financeira. E aí você vai ver é um pobre lascado, que mal consegue se manter. E aí ficar colocando na cabeça da pessoa que ela não consegue melhorar financeiramente porque ela é estragada, porque ela fica gastando dinheiro com coisa que não é básica.

Essa ideia de que o pobre só tem que trabalhar, pagar conta e comprar a feira do mês e ele não tem direito de fazer absolutamente mais nada, não tem direito a um lazer, não tem direito a comer uma coisa diferente, sair pra um lugar diferente às vezes. É um discurso elitista e que, infelizmente, tem se multiplicado na internet e tem gente ganhando dinheiro na internet vendendo curso falando esse tipo de coisa, num país onde a maioria das pessoas vive exatamente essa realidade que eu falei agora. Então educação financeira, pra fazer sentido, ela tem que ser de acordo com a realidade da pessoa.

Izabella: Eu não discordo de você não, só pra fazer esse adendo. É só que eu fiquei curiosa mesmo.

João Victor: A minha mãe teve que entrar com ação no Ministério Público, alguma coisa assim, pra conseguir um remédio específico, que era o olho da cara, ainda é, mas na época era o equivalente a um salário mínimo, e eu tava desempregado, não tinha como eu suprir em nada. E pra ter uma qualidade de vida no Brasil, ganhando um salário mínimo ou um pouquinho mais, já é terrível, imagina tendo algum familiar autista? Eu me pergunto assim com sinceridade, porque isso é só o meu caso, que é nível de suporte 1 com um remedinho só. Quem dirá para outros remédios?

Marx: E autismo é um transtorno caro, né? As terapias são caras, o próprio diagnóstico, a avaliação neuropsicológica é um absurdo. Então já começa por aí, já.

João Victor: Terapia ocupacional, psicomotricidade, psicoterapia…

Marx: Existe essa questão que o João Victor comentou sobre o custo de vida aumentar por conta de medicamento, por conta de terapias. Eu tava sentado essa semana pra calcular o tanto que eu tô gastando com o plano de saúde por causa das terapias do Fernando, por exemplo, eu fico pensando, tem muitos lugares do Brasil que não têm as terapias sem ser particular, né? E o tanto que deve ser caro e, muitas vezes, pra família que não tem condição, e às vezes no SUS não consegue… A criança não vai ter acesso.

E aí ela vai crescer com atraso no desenvolvimento e, muitas vezes, ela não vai conseguir estudar. E aí tem uma série de questões que envolve isso. Mas, na sua percepção, o que que mudou na sua vida do ponto de vista financeiro a partir do momento que você passou por um processo de diagnóstico?

Izabella: Olha, minha realidade de gastos com saúde já não era boa, porque eu sou diabética tipo 1, então eu já gasto muita coisa por conta da diabetes. Eu já tomava remédios psiquiátricos antes do diagnóstico porque eu não tinha diagnóstico, não sabia o que eu tinha, e era remédio, remédio, remédio. E depois do diagnóstico aumentaram os custos, porque aí eram remédios mais específicos, tem o remédio do TDAH, que é muito caro, e tem farmácia de alto custo no estado, tem terapias pelo SUS.

Eu sou a primeira a entrar na fila da paulada de quem fala que o SUS é desnecessário, que o SUS não serve pra nada. O SUS é incrível, entretanto a gente sabe que a realidade é que não dá pra todo mundo, e fica faltando atendimento, acesso a direitos, a terapias que a gente tem direito por lei, só que a realidade é outra, né? É muito bonito lá na lei, mas no dia a dia não é assim.

Por isso que é importante a existência de instituições como o NAIA, por exemplo, que oferece terapia gratuita para pessoas autistas, crianças, adolescentes, adultos também. Mas é complicado que até pra eles fica pesado, porque é uma instituição que não é privada, né, é uma coisa que sobrevive de doações e não consegue atender todo mundo. Então acaba que, nem o Marx falou, muita gente acaba sem o suporte necessário, pra crianças e adolescentes isso é especialmente ruim, porque é importante ter esse apoio na hora do desenvolvimento e eu acho muito difícil pra todo mundo.

Ser autista não é barato. Terapias são caras independentemente de quanto você faça, eu acho que também você não pode sair sendo atendido por “qualquer” psicólogo. Eu prefiro ir atrás de pessoas mais especializadas. Então até quem tem plano de saúde é difícil.

E psiquiatra também é muito difícil encontrar a consulta, quando é por plano de saúde, dura 10 minutos. Você entra lá, fala alguma coisinha, o médico: “Ah não, então tá bom, toma aqui essa receita de um antidepressivo” e é isso, tchau. E eu já conversei com uma amiga minha que é médica, ela comentou comigo que, geralmente, isso é consulta de plano, porque é muito mais barata, a qualidade cai consideravelmente. Então até quem tem plano de saúde tem que ir atrás.

Eu não tenho filho autista, mas eu não moro embaixo de uma pedra, eu tenho primo, tenho crianças autistas na família, tem muita gente que tem um plano de saúde que o plano deveria cobrir, aí vai lá o pessoal do plano e obriga as pessoas a entrarem na justiça.

Marx: Também pode acontecer de o diagnóstico e as terapias serem bem feitas e o desenvolvimento acontecer, da pessoa melhorar financeiramente também, que foi o meu caso, né?

João Victor: Boa, garoto.

Marx: Eu só consigo trabalhar hoje, estar num emprego fixo, estar num emprego concursado e ganhando um salário minimamente decente porque eu tive o diagnóstico e fiz um ano e meio de psicoterapia e de outras terapias pra eu conseguir finalmente trabalhar. Porque, durante muitos anos eu ficava me sentindo muito mal por não ter conseguido passar pela experiência profissional igual você passou, por exemplo, de jovem aprendiz e tal, bonitinho. Mas hoje eu entendo que é porque eu não tinha condições emocionais, psicológicas, não tinha condições.

E esse é o tipo de suporte que, durante muito tempo eu precisei. Financeiramente, o autista que é bem cuidado, que é bem tratado, ele tende a melhorar, não só pelo fato de conseguir trabalhar em lugares melhores, mas também de permanecer nesses empregos, é importante, porque o gasto com medicamento psiquiátrico às vezes pode reduzir, porque menos problemas pessoais geram menos adoecimento psicológico. Isso é um fato.

Mas pensando na questão da dificuldade de gerir o próprio dinheiro, né, porque a gente começou a falar sobre isso e o João Victor trouxe uma experiência de dificuldade de gerir as próprias finanças, de muitas vezes acabar se endividando… Quem nunca ficou devendo um empréstimo no banco que atire a primeira pedra. Queria que vocês falassem um pouquinho sobre experiências assim. Você já ficou devendo? Já ficou no vermelho? Eu já fiquei, várias vezes, principalmente depois que eu terminei a graduação.

Gustavo: Eu fiquei no vermelho, de fato, vermelho, não no zero, no vermelho, uma única vez, que eu passei um período desempregado, arrumei outro emprego, não durou muito, e assim, se esvaiu o dinheiro rápido, foi rapidinho. Eu tive o acerto, foi durando, mas eu tive uma demora bem considerável pra poder me recolocar no mercado de trabalho e aí quando tava assim, bem bem ruim, eu tive que aceitar, pôr o rabo entre as pernas, pedir dinheiro pra parente, uma coisa que eu não queria ter feito, pro meu padrasto e minha mãe, e me ajudaram um pouco na época.

E, pra minha sorte gigantesca, porque tava assim, eles tavam prontinhos pra poder falar: “Cê não deu conta de ver a vida, vem voltar pro interior, morar com a gente que a gente te banca aqui”, tavam prontinhos. Eu consegui um outro emprego. Não tava pagando muito, mas, com certeza, eu queria aquele emprego, com certeza eu fui. E depois disso fui me desenrolando, de passar poucos períodos desempregado, fazer uma coisa, fazer outra. Eu sou publicitário por formação, por gosto e tudo, mas até trabalhar no censo agro do IBGE eu já trabalhei pra poder não ficar desempregado. E eu passei muito tempo com dinheiro contado, porque eu tava recém-formado, tava trabalhando, minha esposa tava recém-formada, tava trabalhando.

A gente falou: “Vamo morar junto agora e vai ser lindo”. Ela foi mandada embora um mês depois. Ela teve vários outros problemas de tentar distribuir currículo nessa cidade inteira, a profissão não deu muito certo. Quando ela finalmente achou que seria um emprego, era uma cilada. Ela trabalhou lá há pouco mais de um mês sem receber nada e, não assinaram a carteira dela, teve que entrar na justiça, e foi um treco tão grande que a gente falou: “Tá, vamo viver com pouco, vamo apertar o cinto aqui por vários e vários anos, e você vai fazer outra faculdade, vai buscar outro rumo”, que foi onde ela realmente se encontrou, na biotecnologia.

Eu falo: se eu tivesse uma máquina do tempo, eu voltaria pra poder falar pra ela fazer esse curso logo de cara, onde ela é mais feliz, mais realizada e melhor empregada do que tava na biomedicina. Depois de muito tempo nesse aperto, aí veio, formou legal, um emprego, outro emprego, e aí agora a gente tá um pouquinho mais estabilizado. Vermelho nunca mais. Por favor, sem política, só conta bancária.

Marx: (Risos).

João Victor: OK. OK.

Izabella: Isso de gestão financeira, do controle do próprio dinheiro, é uma coisa que eu tenho muita dificuldade, porque, assim que entram números no raciocínio, meu cérebro para de funcionar automaticamente. É mais forte do que eu. Antes eu achava que era leseira minha, depois eu fui diagnosticada com discalculia, então não é apenas leseira minha, então eu tenho muita dificuldade disso, de separar despesas para cada coisa. Ah, “Isso é pra gastos essenciais, isso é pra não sei o quê, aquilo é pra tal”. Aí eu ainda tentei dar uma estudada nessas coisas, desse assunto, pra conseguir ver se eu me inteirava melhor de como funcionava. Eu ainda era aquela pessoa que quando sobrava um dinheirinho, tacava na poupança.

Aí eu já vi um pessoal falando na internet: “Ah, não, mas colocar na poupança é super, né, super antigo. Você tem que investir melhor”. Aí fui eu pesquisar o que era investir melhor na cabeça do povo. Aí eu aprendi que tem que ser alguma coisa que não é o CDB, que rende 100%, pelo menos 100% do CDI.

“Ah, Izabella, o que que é isso?” Eu não sei. Eu repito que nem um papagaio. Eu aprendi e tá tatuado no meu cérebro. Aí agora pesquiso e uso isso de referência, mas é muito difícil pra mim essa coisa de pensar finanças. E nos vídeos que eu assisto: “Ah, mas então você pode fazer tal coisa, não sei o quê, analise o mercado, se vale a pena”…

Aí eu já falo assim: “Não, eu não sei analisar é nada, não sei confiar nesse povo”, porque eu saí de dois extremos. Quando eu era mais nova, eu era muito “ingênua”, hoje em dia eu não confio em ninguém. Então eu já vejo esse povo na internet falando: “Porque agora a Selic tá alta, Selic é a taxa básica de juros, então tá compensando fazer tal coisa”… Eu já fico assim: “Hum… mas será que tá mesmo? Não sei não, hein. Não vou mexer nisso não”.

Gustavo: É, mas Izabella, para além da questionável habilidade de prever o mercado dessas pessoas, que na minha cabeça se fossem tão boas assim tinham ficado ricas prevendo e não vendendo cursos, eu entendo muito isso, eu também descobri discalculia só quando eu fiz a avaliação com a neuropsicóloga. E eu entendo muito a questão do nosso limite. Ah, talvez a gente conseguisse um pouquinho mais de dinheiro, se fizesse aplicações e o tal do day trade, pôr na bolsa e mexer. Mas vai torrar tanto neurônio, vai ocupar tanto da nossa cabeça que a gente não vai ter paz mexendo com isso e ainda corre o risco de perder dinheiro, que é pior de tudo.

Então faz exatamente o que você faz. Eu tô fazendo isso aí também: é renda fixa. A renda é baixa, a chance de dar errado é baixa. Vai e deixa lá. Sobra um pouco, você deixa lá, tenta deixar um tanto fixo e tenta pensar: “Tá, eu recebo tanto, eu deveria estar gastando até tanto por mês, se eu tô gastando mais que isso, tá errado. Onde é que eu corto?”. Mas se essa maluquice numérica não é pra você, aceite e vai com calma.

[Transição]

Interrompemos esse episódio para um rápido comunicado. Você já acessou o canalautismo.com.br hoje? Lá você encontrará uma série de reportagens sobre diversos assuntos muito relevantes para a vida de quem é autista, ou pra quem tem um autista na família. Lá você encontra a versão trimestral da Revista Autismo no formato digital e também existe a opção de você receber na sua casa, pagando apenas o custo de envio, a versão física impressa. Aqui em Goiânia você pode buscar na sede do NAIA Autismo.

[Transição]

Marx: Eu, como eu até já comentei algumas vezes com algumas pessoas, eu tenho uma meta de melhorar a minha renda, porque apesar dela não ser a pior coisa do mundo atualmente e ser muito melhor do que tudo que eu já ganhei na vida, eu ainda não tenho condições de fazer uma reserva financeira, por exemplo, porque a despesa que eu tenho hoje, por ter uma criança, uma criança atípica que precisa fazer um monte de terapia, faz com que eu sempre viva com uma sobra financeira muito pequena em relação ao que eu ganho hoje.

Mas eu tenho pretensões de melhorar isso, sim. De repente até passar num concurso melhor em algum momento, ou não, fazer um planejamento financeiro diferente, enfim, tem muitas possibilidades. Mas eu vejo que planejamento financeiro é uma coisa que pega pra muita gente que tá dentro do espectro autista, por ser uma dificuldade relacionada com a função executiva também. E que, às vezes, a pessoa simplesmente não consegue, seja por impulsividade, seja por muitas vezes investir num lugar errado, achar que o CDB tá valendo mais que o CDI (risos), ou seja porque ela não quer abrir mão de viver coisas que lhe são prazerosas, que são importantes pra qualidade de vida, como…

Não só coisas que a pessoa gosta, como hobbies e tal, mas até mesmo coisas que fazem bem pra própria saúde, em nome de, sei lá, viver uma coisa financeira boa lá pra frente, com aquele pensamento de que “a vida acontece agora”, né? E eu sou uma pessoa que tem uma questão muito forte com essa coisa de deixar de viver as coisas em nome do futuro. Às vezes eu tive muita dificuldade com isso durante muito tempo e continuo tentando equilibrar as duas visões, sabe? De ter um pouquinho, de desfrutar um pouquinho das coisas atuais, mas sem deixar de pensar um pouquinho no futuro, porque senão eu posso me enrolar também, e aí não dá certo.

Gustavo: A minha esposa, ela é totalmente do: “Caramba, eu ralei tanto, eu mereço pedir esse lanche. Ah, eu vou guardar esse dinheiro pra gente poder viajar e ir num show da banda que eu gosto”. Ela colocou pra ela mesma que ela precisa ter essas recompensas. E não é que não merece, claro que ela merece, mas às vezes não dá. Agora tá um pouquinho mais fácil de dar, mas teve épocas que não dava e queria mesmo assim. Já eu sou totalmente essa sua ideia de: “Porra, eu podia guardar, guardar, guardar e lá na frente ficar tranquilo”. Eu queria realmente poder acumular. Eu até já vi reportagem que teve uma onda, claro, já acabou, os Estados Unidos já era, mas teve uma época que o pessoal lá tava trabalhando e vivendo com o mínimo do mínimo e se aposentando com 40/45 anos, porque acumulou dinheiro pra poder viver bem. Isso, primeiro, não dá certo na realidade brasileira, mas eu bem que gostaria de poder só acumular, acumular e usufruir depois.

João Victor: É justamente por esse senso de recompensa que você citou que sua esposa tem, Gustavo, que eu acabo cometendo as maiores besteiras possíveis e imagináveis, porque eu fico tipo: “Mano, eu sou elogiado tantas vezes no meu trabalho como um dos melhores funcionários de todos os setores”, sei lá, tipo: “Mano, eu mereço, vai, na moral mesmo. Tô cansado pra caramba, eu mereço esse presente”.

E de presentinho em presentinho a conta vai se esvaziando. Cara, é muito chato, porque eu tenho total consciência de que, se eu fosse mais moderado, eu ainda teria alguma reserva, mesmo que mínima, apesar de todos os contratempos recentes, seja por questão de doenças, seja por questão de remédio faltando, seja por questão de tudo, sabe?

Gustavo: Tá aí a dica: quando você for encontrar uma pessoa pra poder se relacionar, pra ter um relacionamento longo, duradouro e se casar, escolha uma pessoa que seja bem regulada nisso, pra poder ajudar nessa parte e balancear contigo.

Marx: (Risos)

João Victor: Estilo Gustavo. Entendi. Captei vossa mensagem.

Marx: E aí você falou de uma coisa importante, né, de que o casal que dá certo é sempre a pessoa que controla cada centavo com a pessoa que é impulsiva, que quer estar sempre procurando essa recompensa que cê falou. Uma casa com a outra, né? E eu não tô citando o nome de ninguém aqui, pelo amor de Deus.

Gustavo: Imagina. Beijo, moça bonita.

Marx: Mas uma coisa eu tô muito feliz, atualmente, é que, apesar do dinheiro não estar sobrando muito, eu não estou mais entrando no vermelho. E não estou mais fechando as contas com saldo negativo e devendo cartão de crédito, essas coisas.

Gustavo: A sensação de não estar no vermelho é maravilhosa, de não estar devendo. E cartão de crédito é uma das coisas mais perigosas que existe, porque tem uma taxa assim pior que a do agiota.

Marx: A gente não pode também ficar se culpando, muitas vezes, por não conseguir guardar dinheiro. Na inflação que o Brasil tem hoje, o preço das coisas tá absurdamente absurdo e a evolução do salário não acompanha o preço das coisas. Então, às vezes, se você tá conseguindo pagar suas contas e viver com qualidade, não está devendo ninguém, você já tá melhor que a maioria da população. Então a gente tem que ficar feliz por isso também, porque…

Gustavo: É uma conquista.

Marx: É uma coisa que muita gente gostaria e isso não quer dizer que você não tenha que lutar pra melhorar, que você tenha que ficar se conformando em ficar sem, até porque eu tenho muito medo daqui dez, vinte anos, quanto que vai tá o preço das coisas, se o salário vai acompanhar. Eu acho muito difícil.

E, claro, né, também ver que a vida financeira tá muito relacionada com a forma como a gente vê a vida de modo geral. Se você é uma pessoa que gosta de viver, você não vai viver só em função de juntar dinheiro, juntar dinheiro, juntar dinheiro e não vai usufruir de nada. E você nem sabe se você vai tá vivo com 45 anos. Mas se você é uma pessoa imediatista, impulsiva e que não pensa no futuro de modo nenhum, você vai passar a vida inteira vivendo no vermelho, e isso é um fato.

Izabella: Via de regra, eu tendo a ser mais reservada com gastar dinheiro. Agora, especificamente, não tá sobrando muito pra eu poder fazer a escolha, né, mas quando sobra eu geralmente fico: “Ah, não, não vou gastar com isso não, vou guardar”, isso é o geral. Mas tem duas situações que eu acabo quebrando essa regra. Eu tento segurar, mas, às vezes, eu tive um dia muito ruim. Eu geralmente faço isso como forma de compensação para dias ruins, não pra comemorar dias bons.

Aí, às vezes, eu tive um dia muito ruim, eu falo assim: “Não, cara, eu preciso lembrar que a vida não é uma bosta, vou pedir aqui um hambúrguer” (risos). E é meio triste, né, você usar comida pra lembrar dessas coisas, mas essa é a situação um. E a situação dois é quando o TDAH resolve atacar, aí ele cisma que agora eu vou ser mestra na arte de bordado livre e aí eu entro na Shopee, gasto rios de dinheiro pra comprar todo o kit de iniciante do bordado livre, aí chega lá em casa e eu nunca mais pego nele.

A rigidez do autismo também me impede de usar dinheiro em momentos que, assim, tipo, que nem eu falei, agora especificamente eu não tô assim, mas, por exemplo, quando tá sobrando, eu poderia usar esse dinheiro pra, sei lá, às vezes sair mais, fazer alguma coisa que eu gosto, mas eu acabo: “Não, eu preciso guardar o dinheiro, eu vou guardar o dinheiro”. “Ah, mas você tem algum objetivo?” “Não, mas eu cismei que eu tenho que guardar e eu vou guardar”.

Marx: Então essa discussão ela tem muitas nuances, eu acredito que a gente conseguiu falar de muitas coisas que eu considero relevantes pro autista na vida financeira. Eu acredito que dinheiro é um assunto que vai nos perseguir, ou não, até o final das nossas vidas. Então, na próxima semana, a gente terá um novo episódio, com uma nova formação, e eu agradeço a audiência, a atenção e a paciência de todos vocês. Muito obrigado.

[Vinheta de encerramento]

Marx: É, corroborando com o que o Gustavo e a Brendaly… a Izabella falaram, perdão, perdão.

João Victor: Episódio errado, Marx. Episódio errado.

Marx: É subconsciente querendo que a Brendaly tivesse aqui também, né? Mas, enfim.

João Victor: Mas sou eu, também te amo.

*

Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Tiago Abreu | Técnico de som: Marx Osório | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: August Resende

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