O jeitinho é uma das expressões mais exportadas do que é ser brasileiro e implica em discussões sociais profundas. Mas quando o autismo e a profunda rigidez de pessoas autistas entra nessa equação, como fica? Neste episódio, nossos podcasters destrincham o chamado jeitinho brasileiro, como ele se relaciona com o dia a dia da população autista e neurotípica, e como autistas lidam com isso. Participam: Gustavo Borges, Izabella Pavetits e Marx Osório.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam, e hoje estamos aqui para poder pensar que tudo tem jeito na vida, menos o jeitinho brasileiro.
Izabella: Oi, meu nome é Izabella, sou jornalista e o jeitinho brasileiro é um espectro.
Marx: E aí, pessoal, tudo bem? Meu nome é Marx Osório, sou farmacêutico e eu sou conhecido por ser o especialista em fazer gambiarras, vulgo armengos.
Gustavo: E hoje falaremos do eterno embate entre a rigidez cognitiva do autista médio e o jeitinho brasileiro do cidadão médio. Não haverá vencedores, sempre todos perderão.
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[Vinheta de abertura]
Gustavo: Eu tenho grandes lembranças assim, especialmente de segunda infância, pré-adolescência, onde o mundo tentava “faz esse jeito” e a minha rigidez não permitia entender o que que tão fazendo, porque ensinam a gente a ser correto, ensinam a gente a fazer a coisa certa e aí na primeira oportunidade, “vai lá vai ninguém tá vendo não, pode fazer”. Como é que vocês dois conseguem lidar com isso? Ou melhor, vamos começar definindo: O que diabos é o jeitinho brasileiro e por que o jeitinho brasileiro não é o jeitinho de outros países?
Izabella: Quando a gente pensa em jeitinho brasileiro, eu imagino que a maioria das pessoas já vai “Ah, é malandragem”, né? O comportamento ruim, já vai pra essa parte mais pejorativa da identidade brasileira. Mas eu acredito que a gente tem que sair dessa visão maniqueísta, porque o que que eu falei na introdução. Pra explicar: que o jeitinho brasileiro é um espectro que vai desde a criatividade pra saber lidar com situações inusitadas, tipo, de sair de algum problema, numa forma diferente, né? Muitas vezes, você vê reportagem “Ah, nossa, olha só os brasileiros, fazendo”, sei lá, “vendendo tapioca na rua e fazendo tal coisa pra sobreviver, a moça que vende acarajé, que chama o bar dela de Acarajéssica”.
Gustavo: Acarajéssica é realmente um ótimo nome. Eu apoio.
Izabella: Então. Eu também gostei muito quando eu ouvi, ficou registrado assim na minha cabeça. Mas então, começa daí e vai passando pra outras abordagens que já são mais questionáveis, a flexibilidade moral, a desonestidade, então eu acho que o importante é, é até engraçado, né, o autista falando isso, mas a gente precisa romper com essa ideia maniqueísta, ou o jeitinho é muito massa, que é o que faz o brasileiro “o brasileiro”, ou é horrível, nós somos um povo terrível, “morte ao brasileiro”. As pessoas são multifacetadas, e eu acho que o jeitinho também é multifacetado.
Marx: Em primeiro lugar, né, pra quem não sabe, maniqueísta é quando você tem a luta do bem contra o mal, acho que é importante explicar isso porque às vezes tem gente que não conhece este termo.
Isso até me lembra, na época que eu fazia faculdade de direito, eu fiz um ano de direito e teve uma aula de antropologia que falava sobre a questão de jeitinho brasileiro, e eu tinha muito essa visão romântica de que o jeitinho brasileiro tem a ver com a criatividade, tem a ver com a solidariedade e eu fui falar sobre.
E a professora me “descascou” depois, falando que isso é uma visão que muitas vezes o colonizador queria que a gente tivesse, né, mas o jeitinho brasileiro, ele de fato é conhecido, não só no Brasil mas fora do Brasil, como sendo a malandragem mesmo, o jeito que o brasileiro tem de lidar com algumas coisas que foge, às vezes, daquilo que é normativo, daquilo que é correto.
E, infelizmente, o maior símbolo que a gente tem da cultura pop do jeitinho brasileiro é o Zé Carioca que é aquele personagem foi criado por um norte-americano sem vergonha chamado Walt Disney, que tentou caricaturizar o brasileiro ali, no começo do século XX, como aquele malandro e carioca, que sempre queria levar a vantagem em cima dos outros e que não é de confiança e que sempre se dava bem no final e tal.
Pra nós que somos autistas, que temos uma rigidez, e que temos uma tendência, principalmente na infância, de ser muito sincero, de ser muito “cricri”, de uma coisa ser do jeito que tem que ser, o jeitinho brasileiro é algo que demora pra gente entender e processar o que é, de fato. Eu, pelo menos, demorei muitos anos pra entender que tem coisas na nossa cultura, que são realmente… Coisas que se a gente não aprender pelo menos como funciona e aceitar que existe e tentar usar isso pro bem, que eu acho que é possível, sim, você fica doido, você endoida, você fica surtado, porque vejo que as pessoas que se recusam aceitar o jeito, a malemolência que o brasileiro tem de lidar com algumas coisas tendem a ter mais dificuldade e a ser mais escanteadas em alguns contextos.
Gustavo: Eu acho que se a gente levar em consideração que o jeitinho brasileiro é uma ferramenta pra se lidar com falta de recursos, a gente pode entender como algo neutro. O que você vai fazer com ele é o que vai definir se é uma ação boa ou ruim.
Agora, a gente sabe que o jeitinho também é uma forma da pessoa se livrar de qualquer situação, de falar “Ah, poxa, meu filho tá com febre hoje, não vou poder ir no trabalho”. Cara, seu filho amanheceu levemente febril? Até amanheceu, mas você levou ele pra uma consulta, ele tá inteiramente bem, ele já foi pra escola e você aproveitou o dia pra poder ficar em casa. Foi um uso bem negativo do jeitinho.
Marx: Isso acontece muito na cultura dos atestados, né? Eu tava vendo até uma notícia, acho que foi anteontem, que o prefeito lá de Anápolis começou a endurecer as regras para pegar atestado nas UPAs lá, e que segunda-feira tinha amanhecido metade das pessoas que geralmente vão, por quê? Porque tem muita gente que vai porque realmente precisa e tem muita gente que vai porque quer, porque amanheceu de ressaca, porque quer pegar atestado pra não trabalhar na segunda-feira.
E concordo com você, quando você fala que essas coisas muitas vezes são usadas como ferramenta pra contornar dificuldades e por questão da falta de recursos, mas, muitas vezes eu vejo também, que existe um desvio de caráter de algumas pessoas sim. E o ponto aqui que a gente precisa pensar e discutir é: isso é uma cultura? Essa falta de caráter é cultural, ou ela é uma coisa que acaba, como é que fala, esse jeitinho acaba sendo uma ferramenta pra pessoa que já é de índole duvidosa fazer isso de uma maneira mais criativa do que, por exemplo, uma pessoa de outro país?
E o próprio estigma de que o brasileiro naturalmente ele tende a ser mais malandro do que os outros é uma mentira também, isso é um preconceito que foi colocado pelos colonizadores, pra poder tratar a gente como pessoas inferiores a eles, então assim, é problemático isso aí!
Gustavo: O ser humano não é confiável, independente da nacionalidade, tá, verdade isso.
Izabella: Os brasileiros são muito críticos com eles mesmos. Eu falo isso como se eu não fosse brasileira, né? Nós somos muito críticos com nós mesmos. Tem muita gente desonesta, tem gente roubando? Tem, mas, sabe, tem muitas pessoas bacanas por aí. Necessariamente pensar assim “ah não, o jeitinho brasileiro só poderia florescer aqui, porque o brasileiro realmente tem assim no DNA dele a malandragem”, eu acho isso, assim, de um problema gigantesco.
Gustavo: Eu acho que a internet já provou que isso é falso. Porque dá pra ver relatos de pessoas contando histórias de como se safaram, de como fizeram coisas em outros países que assim, essa pessoa nunca pisou no Brasil, não tem um parente brasileiro, mas agiu assim de forma a passar inveja em qualquer brasileiro.
Izabella: Você quer um exemplo? Só pensar na época da pandemia, quando começaram a sair as vacinas. O tanto de história que teve no mundo inteiro, não foi só no Brasil, de gente arrumando jeito de furar a fila.
Marx: E pensando em situações que envolvam o autismo, eu vejo que não só existe muita gente que se vale do jeitinho brasileiro pra poder levar vantagem em cima dos outros, como também existe muito a cultura no Brasil das pessoas julgarem pessoas que supostamente estariam levando vantagem indevida em cima dos outros. Porque a mesma pessoa que, às vezes, ela é desonesta em alguma outra situação, tem situação que ela vai lá julgar e apontar o dedo. Existe uma hipocrisia muito grande, e um exemplo: fila preferencial.
Não é novidade pra ninguém aqui que nós autistas adultos de nível de suporte 1, muitas vezes sofremos com olhares e com julgamentos de pessoas por estarmos em uma fila preferencial e a pessoa não tem a menor ideia de por que a gente tá ali e acha que é “Ah, tá se passando pra poder usar uma fila preferencial, tá sendo desonesto”, ou, por exemplo, o comportamento das pessoas no trânsito, que eu sinto uma cultura fortíssima de todo mundo querer levar vantagem em cima dos outros no trânsito e desobedecer regra de trânsito.
E pensando que o autismo faz com que a gente se desregule e fique indignado e o senso de justiça também pega muito nesse ponto. Eu me recordo assim, de muitas situações que eu passei aonde eu fiquei extremamente indignado com a malandragem, com a falta de respeito das pessoas em situações como essa.
Izabella: Você falou uma coisa que me pega, duas coisas, na verdade, que me pegam muito também, trazendo para essa questão do autismo, que é o senso de justiça que eu também tenho muito, assim, forte na minha cabeça. E ele associado com a rigidez cognitiva, foi uma questão muito desafiadora para mim quando eu tava tipo criança e adolescente. Porque o que acontece no contexto escolar, me falavam “oh, a regra é essa, você tem que entregar a tarefa, tem que chegar tal hora, tem que fazer tal coisa pra tia” e eu queria fazer exatamente como a tia tava ensinando.
Só que aí, por exemplo, na escola, tava todo mundo no recreio e aí a auxiliar tinha que ir lá chamar “Oh, gente, volta pra sala”, não sei o quê, aí quando dava o horário do recreio e a auxiliar não aparecia eu já ficava assim: “Pessoal, o horário, pelo amor de Deus”, e aí a galera: “Não uai, fica quieta”. Eu também acho que isso é uma expressão do jeitinho ali nas crianças ainda e eu já ficava ali desesperada, já pegava assim na minha alma.
Eu: “Meu Deus, mas o horário da aula tá chegando e ninguém faz nada”. E foi assim que eu comecei a ser odiada pelos pares. Isso era quando era mais criancinha, aí depois eu fui crescendo e eu transpus o comportamento pra tarefas, tarefa de escola mesmo, porque aí eu fazia, né, bonitinho, religiosamente conforme eu era instruída, aí chegava a professora e esquecia de recolher a tarefa no final da aula. Aí todo mundo comemorando o pessoal que não tinha feito “Ela esqueceu de pegar a tarefa”, aí eu ia lá e “Professora, e a tarefa?” porque eu tinha muito essa coisa da regra, do senso de justiça, as coisas precisam ser feitas dessa forma, e não é justo porque eu fiz a tarefa e eu quero que a tarefa seja recolhida.
Gustavo: É, eu iria nessa vertente aí. Independente do que vocês fizeram e o que vocês não fizeram, eu perdi meu tempo fazendo essa tarefa, eu gastei tempo aqui, eu quero o retorno em forma de nota. Tá aqui minha tarefa, por favor entregue minha nota, se você não entregou, problema seu.
Izabella: Não, eu tinha colegas que chegavam ao ponto de, acabava o horário da aula aí, eles tipo, chamavam os professores pra ficar conversando, pra distrair os professores e eles esquecerem de pegar a tarefa. Então era assim, ah deu 11h50, que é a hora que acaba a aula, aí juntava um monte de gente lá e “Ah professor, sei lá, tal assunto, não sei o quê, não sei o quê”, pra ele esquecer de pegar a tarefa e eu ficava muito indignada com isso.
E a outra é uma coisa que você falou um pouco antes que eu também fiz um ano, não, fiz dois, na verdade, de direito, na faculdade. Só que eu fui apresentada a um conceito na faculdade de direito que foi dos motivos que eu saí além de eu odiar absolutamente tudo, foi o conceito de “lei que não pega”. E aquilo foi, assim, pra mim, uma coisa que eu fiquei, meu Deus do céu, e ele citou também, justamente, eu acho que deve ser coisa de professor de direito, ele citou justamente essa questão do jeitinho que “Ah, às vezes é proibido, mas o povo dá um jeitinho de não cumprir e às vezes nem as próprias autoridades fiscalizam, então não sai do papel”.
Marx: Tem várias coisas, tem várias coisas e o exemplo mais clássico disso aí é o jogo do bicho, que tá lá na lei que é contravenção penal, que é proibido, mas todo lugar do Brasil tem.
Gustavo: Como é que pode, né? Libera a bet e proíbe o jogo do bicho (risos).
Marx: E você sabe o que é mais engraçado? Que é o tipo de coisa que se legalizar, perde toda a mística que tem, vira uma máfia muito pior do que é. Você fala nessa história da rigidez, o povo falava que eu era muito moralista quando era criança, porque eu queria que as coisas fossem exatamente do jeito que tinha que ser. Eu lembro de duas experiências muito curiosas que envolvem isso. Uma é o fato de que eu não passava cola pra ninguém na escola e todo mundo me odiava por causa disso.
Gustavo: É isso aí!
Marx: Não só no ensino fundamental, no ensino médio também. Tinha umas galeras que colava, que era profissional em colar. Eu já vi gente colocando questão no polegar do dedo aqui, ó, escrever coisa aqui, borracha, esses trem, e eu ficava indignado, porque falava “Não, tem que estudar pra poder fazer a prova e tal”.
E a outra coisa é, quando eu ia jogar bola, futebol de rua, sabe, não tem juiz. Se a pessoa fizer uma falta você tem que gritar, é, foi falta, parou e tal, alguém ia lá dava um esbarrão em mim, eu tava, aí o cara do meu time falava “Ah, foi falta”, aí para. Eu falava “Não, isso aí não foi falta”, e eu não queria marcar as faltas do meu próprio time quando eu achava que não era e esse cara ficava puto comigo porque falava “Como assim, você tá querendo falar que foi falta pro cara”, aí foi no adversário lá falar, foi falta ou não foi? “Ah não, foi sim porque pisou no pé lá e não sei o quê”. Se você tá jogando bola, você quer que seja falta pro time do adversário e não ser pro seu. Porque você quer ganhar, não interessa se na realidade foi, não foi, por isso que tem juiz no futebol. Isso gerava raiva profunda das pessoas.
Gustavo: Isso é um problema, primeiro porque vocês dois já citaram também, é, a gente fica de vilão na história, a gente fica de pessoa errada. O “deixa disso”, a cultura do “deixa disso”, tá muito arraigada no jeitinho brasileiro. Ah, furou a fila, “ah, mas só tem três itens, deixa passar mesmo, vai ser rápido”. Colou na prova, “mas não vai atrapalhar a minha nota”, deixa ele lá.
O pessoal sempre arruma uma desculpa, uma justificativa pra poder aquilo que não se pode, e quando a gente fala o pessoal fica de ódio e fica uma questão de, você está atrapalhando outra pessoa que achou um jeito de burlar o sistema e você está errado por isso, não é nem quem burlou.
Marx: (Risos).
Gustavo: A gente fica vilanizado e eu penso assim, até que ponto isso é só essa cultura do “deixa disso” que eu acho muito prejudicial por vários aspectos, ou se é essa questão de, eu não vou falar mal dele agora porque amanhã sou eu que vou tá quebrando uma regra aí e não quero que ninguém fale mal de mim também? Então vai todo mundo deixando, vai todo mundo permitindo e no final a gente vira esse caos que a gente tá.
O Brasil, em termos de política nos últimos, sei lá, oito, dez anos, pra poder falar pouco, ele tá essa zona que tá por causa do “deixa disso”. Permita-me dar um exemplo de maior relevância, o qual eu não lembro os detalhes, porque tem tempo que eu vi, mas, na década de 1950, 1960, um político foi dar uma entrevista para um jornal e tiraram uma foto dele, só que “ah, pera lá, vou colocar um terno, um negócio, pra poder tirar a foto”, beleza, tirou a foto de busto e foi pro jornal. E aí, falaram “pô cara, mas você tá de short”. “Ah, aqui é quente, vou fazer o quê?” “A gente pode tirar uma foto sua de corpo inteiro só pela graça da coisa?” “Pode”. Esse cara perdeu o mandato por quebra de decoro parlamentar.
Marx: (Risos).
Gustavo: É, a risada de vocês é exatamente o que eu precisava. Uma foto, fora do ambiente de trabalho, de uma pessoa vestindo terno e um short caiu em quebra de decoro.
Izabella: Queria contar uma história para ilustrar o que o Gustavo falou da cultura do deixa disso, eu recebi um dinheiro na minha conta que não era pra eu ter recebido, aí obviamente eu pensei: gente, esse dinheiro não é meu, eu vou atrás pra devolver. Eu fui conversar com um monte de gente, eu não vou dar mais detalhes porque, por questões de privacidade mesmo, pra não ficar identificável, mas eu fui atrás de mais de cinco pessoas e foi subindo hierarquicamente as pessoas que eu ia falando, “eu recebi esse dinheiro, não é meu, eu quero devolver, eu quero devolver”.
E todo mundo falava “Mas minha filha, por que que você vai devolver? Fica quieta”. Aí eu “não, não é meu, eu vou devolver”. E todo mundo nesse, né, sem usar as palavras “deixa disso”, mas nessa posição, você recebeu um dinheiro extra, por que que você tá reclamando, amiga? Só parei porque na última pessoa, ela falou assim: “Se você continuar, vai acontecer tal coisa com tal pessoa”. Não sei se deu pra entender, ela fez uma ameaça.
Marx: A gente volta no mesmo problema de o que é certo versus o que é de bom tom, o que é seguro. Tem muitas situações onde a gente tem o jeitinho brasileiro como uma maneira da gente não morrer também, da gente se proteger, também, porque infelizmente a realidade é cruel e o nosso país ele é muito injusto, também.
Então eu não acho que todo mundo que usa do jeitinho brasileiro, com coisas que fogem da lei, às vezes não é de mau-caratismo, não, às vezes é pra sobreviver mesmo. E eu não vou julgar quem usa isso para sobreviver, porque se o Brasil fosse um país com igualdade e oportunidade, que todo mundo tivesse acesso a uma qualidade de vida mínima, aí eu criticaria todo mundo, mas a gente sabe que não é bem assim.
Izabella: É por isso que eu acho que o jeitinho é um fenômeno cultural, né? Porque tem muito essas nuances da cultura, do porquê.
Gustavo: Contornar a adversidade.
Izabella: Isso, por que que a pessoa tá fazendo isso? Se ela tá fazendo porque ela precisa ou ela tá querendo tirar vantagem de alguém? Porque, dependendo da motivação, muda completamente, o contexto, a gravidade do que você tá fazendo ou deixando de fazer. E é o que o Marx falou, também é complicado para nós autistas, pelo menos eu acho que nós três temos muito essa questão da rigidez, de querer fazer tudo certinho, porque tem que saber esse limite de poder falar as coisas e, às vezes, na melhor das hipóteses você sai como chato, na pior, o Marx falou mais cedo do trânsito, tem um maluco com arma ali dentro do carro e atira em você.
Gustavo: É o seguinte: Não tem jeito, você que até agora não conhece a Revista Autismo, precisa ir atrás, ela tá disponível pelo site canalautismo.com.br, ela tá disponível na sede do NAIA, você pode encomendar pra poder receber a sua em casa, você só precisa pagar pelo frete, tem conteúdo de qualidade lá, tem reportagens interessantes que valem muito mais do que qualquer áudio de cinco minutos, ali tem informação de verdade, então por favor, vá atrás.
Marx: Não é segredo pra ninguém que eu, assim como vocês, faço parte da classe trabalhadora desse país, a gente é proletariado, a gente é classe média baixa, então assim, a gente não é a elite dominante desse país. Portanto tem várias situações que envolvem não só dinheiro, como foi citado aqui, mas situações, às vezes, que a lei, ela não vai nos ser favorável, mas que o bom senso, muitas vezes, vai nos balizar de fazer algumas coisas porque… Porque essa é a maneira da gente compensar a injustiça social, muitas vezes, que existe nesse país.
Eu fui fazer um financiamento pra tentar comprar uma casa e aí o cara lá da Caixa falou que eu tinha que ter declarado imposto de renda das minhas bolsas de doutorado que eu recebi, de tudo que eu já tinha recebido, que é isento de imposto de renda, pra poder compor a renda total pra eu conseguir o financiamento. Só que eu nunca declarei imposto de renda na minha vida, por quê? Porque eu não preciso declarar. Porque eu não ganhava mais de três mil e poucos reais.
Eu falava “Eu não vou declarar”, pro governo ficar querendo saber se eu tô ganhando dinheiro por fora, porque lá no site da Receita tem umas coisas lá que eles falam “Ah, se você tiver outros rendimentos que não são comprováveis e você não declarar isso pode virar débito na dívida ativa”. Eles ficam me ameaçando, mas eu nunca declarei, porque assim, eu sou… Eu sou pobre, gente, e toda chance que eu tiver de não pagar imposto, por quê? Porque os ricos desse país não pagam impostos e eles tinham que pagar imposto.
Por que que eu, que mal dou conta de pagar minhas contas, eu tenho que ficar me preocupando? Se o governo quiser receber ele vai ter que fazer um esforço também. Então isso é um tipo de jeitinho brasileiro que eu tenho muito orgulho de fazer, porque é uma vergonha a quantidade de imposto que é cobrada em cima do pobre e da classe média nesse país.
Outro exemplo: quando eu tava na faculdade, eu entrei numa monitoria que tinha uma bolsa de monitoria lá que acho que na época era R$ 450,00. E aí eu peguei esse trem porque era uma matéria lá que ninguém queria pegar, que sobrou, e na época eu tava estagiando e fazendo um trabalho como bolsista lá, eu tava trabalhando o dia todo lá no laboratório. Simplesmente a professora da matéria queria que eu fizesse um zilhão de coisa, eu não tava dando conta, eu desisti. Só que aí a coordenadora da faculdade não tirou meu nome do sistema, onde constava que eu era bolsista de monitoria, por quê? Porque o processo seletivo tinha encerrado e não ia ter como arrumar outra pessoa a tempo, a faculdade ia perder a bolsa, então eu fiquei recebendo a bolsa até o final do semestre, sem fazer nada.
E aí não fui atrás, eu deixei porque na época eu ganhava R$ 500,00 pra trabalhar num lugar lá e eu não tinha 1 real pra nada, eu não tinha dinheiro pra nada, eu vivia contando centavos pra tudo e eu ficava na faculdade ralando das 7h da manhã às 5h da tarde, então assim eu pensei comigo, eu vou ficar quieto, eu não vou falar nada.
Num país que, como eu falei lá no começo, não tem igualdade de oportunidades. Agora, pessoas que são corruptas pra levar vantagem, pra poder ganhar dinheiro que não precisa, pra poder ficar esbanjando, igual jogador que fica levando cartão amarelo aí em esquema de aposta, o cara já tem um salário milionário, aí ele vai lá e força cartão pra poder beneficiar os amiguinhos dele. Aí tem que se lascar mesmo, porque ele não precisa desse dinheiro, e ele já é classe S já, financeira, né?
Izabella: Eu concordo com o Marx, quando é pra ajudar os trabalhadores ou pessoas de classes mais baixas, geralmente eu sou a favor também de dar aquele jeitinho pra resolver certas questões. Eu tenho uma história para compartilhar de mercado de trabalho.
Gustavo: Conte-nos.
Izabella: Eu faço um trabalho de freelancer, escrevo pra uma revista e eu conheço esse chefe que, né, eu trabalho já tem um tempo e eu sei que ele é muito enrolado, eu conheço bem a figura, aí ele cismou que eu tinha que entregar um texto, sei lá, na quinta-feira, e eu tinha certeza absoluta que ele não ia precisar desse texto na quinta-feira. Mas ele tava atormentando a minha vida, ele ligava, ele ficava mandando mensagem “Iza cadê o texto? Cadê o texto, cadê o texto?”, só que eu tinha muita certeza que ele não precisava daquele texto na quinta-feira, e que ele não ia olhar.
Aí o que que eu fiz? Eu abri um arquivo no Word, coloquei lá o título da reportagem, corrompi o arquivo de propósito, mandei pra ele por e-mail o arquivo, falei: “Ó, tá lá no seu e-mail”, aí ele: “Ah, massa, valeu”. Aí eu pensei. Se ele realmente for precisar desse texto hoje, ele vai perceber imediatamente, porque ele tava me falando que era urgente, que ele precisava pra ontem do texto. Se ele realmente tivesse nessa situação de vida ou morte, ele ia entrar no e-mail e achar lá que tava corrompido e ia falar: “Ô Iza, manda de novo”. E ele veio falar comigo mais de uma semana depois.
Marx: (Risos).
Então eu dei um jeitinho de tirar ele do meu pé, eu tinha muita certeza que ele tava me enrolando. E o texto, assim, nem tava pronto, mas eu sabia que não era urgente desse jeito e ele tava enchendo meu saco à toa. Então eu dei esse jeitinho aí de resolver a questão e no final das contas, assim, sem querer me defender, mas já me defendendo, eu tava certa. Eu acho que quando for em determinados…
Gustavo: Não houve prejuízos a ninguém, nem mesmo monetário.
Izabella: Exatamente! E então, sempre que for algum contexto que estiver em desvantagem, e principalmente hierárquica, eu acho que vale sim a criatividade, a malemolência e o jeitinho.
Gustavo: Bom, eu fico quase com vergonha de falar isso perto de vocês, mas os jeitinhos que eu dei foi muito mais gambiarra, por estar sem dinheiro, do que qualquer outra coisa. Eu tive um período de baixa de dinheiro igual todo mundo na vida. E aí a minha esposa tava fazendo um mestrado, e eu tava fazendo bico, freelancer, uma coisa aqui e outra ali, e aí era um computador só e os dois estavam precisando daquele computador, e, pra piorar, foi bem no começo da pandemia.
Então eu, ao invés de adquirir outro equipamento, fazer um financiamento ou alguma coisa, eu comprei um adaptador de USB normal pra USB micro, não era nem o USB-C o celular que eu tinha na época — e aí conectava teclado e mouse num hub USB, esse hub USB no adaptador, o adaptador no celular e espelhava a tela para a TV de 32 polegadas que eu tinha. Tipo, tudo isso pra poder fingir que era um computador, eu conseguia usar o Word com teclado e mouse. Demorava mais, mas era uma gambiarra que eu inventei ali, um jeito que eu dei de ter um segundo computador sem gastar um centavo.
Izabella: Olha, eu achei funcional, criativo, resolveu o seu problema, 10 de 10 no jeitinho, parabéns.
Gustavo: Não, e ano passado que minha sobrinha estragou o computador dela, eu emprestei o equipamento (risos). Essas são as peças que você precisa pra poder funcionar até conseguir outra coisa.
Izabella: Uma outra abordagem sobre a questão do jeitinho, que eu acho que está diretamente ligada com o autismo, é a mentira social que muitos de nós damos pra fugir de determinadas situações que a gente não quer enfrentar. E eu sou, inclusive, culpada desse tipo de comportamento (risos). Porque, por exemplo, você recebe um convite que você não quer ir e aí “poxa, não vai dar, esse final de semana tem apresentação de jiu-jitsu da minha avó”, esse tipo de coisa, inventando.
É a clássica mentira social, mas não deixa de ser um jeitinho de você fugir do desconforto, que às vezes existe por questões que você tá sobrecarregado e não quer sair ou às vezes você não quer ir mesmo naquele lugar. E, aparentemente, tem a regra social que falar “não, obrigada” é grosseria e a pessoa nunca mais vai olhar na sua cara. Então eu acho que também é um jeitinho de você contornar a forma capacitista que a sociedade encara como algumas pessoas autistas são.
Outra coisa que eu faço também, que eu acho que entra nessa, eu não gosto de atender ligação, eu prefiro conversar por texto. Inclusive, o meu sonho é o WhatsApp habilitar uma ferramenta que possa, assim, você proibir que as pessoas te enviem áudio. Não me enviem áudio. Então, assim, quando a pessoa tá me ligando, a não ser que sejam meus pais — são as únicas pessoas que eu atendo — eu deixo o celular tocar, tocar, tocar, aí eu espero uns dois minutos e mando mensagem “Oi, cê me ligou, eu não tava podendo atender, desculpa”. Aí se a pessoa liga de novo eu vou lá e eu já rejeito a chamada e falo assim “Eu não posso atender agora”. Então, eu acho que também esse é um jeitinho que está relacionado com o fato de eu ser autista e que eu uso bastante no meu dia a dia.
Marx: Nós estamos na era do WhatsApp, não existe nenhuma desculpa pra você ligar pra uma pessoa logo de cara sem mandar uma mensagem primeiro, manda uma mensagem. Um exemplo de pessoa que faz do jeito certo e eu gosto muito: o Marcelo, quando ele quer falar comigo, ele manda mensagem: “Quando puder, me ligue”. Porque eu já sei que é uma coisa importante, porque ele não fica me ligando à toa, porque ele sabe que eu não gosto de ligação. Mas, muitas vezes, eu já tive que fazer isso também, deixar o telefone tocando, aí depois eu mandava uma mensagem, como se nada tivesse acontecido. “Boa tarde, tudo bem, pois não”. E eu gosto de áudio. Então às vezes eu mandava áudio; se a pessoa me mandar áudio, eu não acho ruim não, eu até prefiro, mas ligar assim…
Izabella: Essa ideia do Marcelo, de mandar mensagem “Quando puder me ligue” eu achei interessante. Mas eu, ansiosa do jeito que eu sou, assim que eu visse essa mensagem eu ia entrar em pânico imediatamente. Eu ia ficar: “Meu Deus do céu, preciso falar com o Marcelo agora” e eu não ia ter paz enquanto eu não descobrisse do que se trata, então acho que não ia funcionar comigo.
Gustavo: Inclusive, pra você que ainda vai escutar esse nome sendo falado várias vezes em vários episódios futuros, Marcelo é o presidente fundador do NAIA Autismo. Ele ajuda muita gente dentro do grupo, ele tá relacionado com muita gente dentro do grupo, então a gente fala dele “Ah, o Marcelo”, pra gente aqui a gente sabe quem é o Marcelo, agora você também sabe.
Essa questão de mandar áudio depende: se for coisa de trabalho eu odeio. Porque recebo muito e o pessoal quer falar. E aí é aquela coisa que você vai ter que voltar e escutar aquele áudio três vezes para poder extrair a informação dele. Não é profissional, não dá certo. Quando é seu amigo, sua amiga mandando um áudio pra poder falar o que aconteceu, que viu e lembrou de você, uma graça, uma fofoca, o que seja, é uma conversa, é um diálogo. Agora, se é pra poder passar instrução, se é coisa de trabalho, se é coisa formal, vamos manter a formalidade, o texto é mais formal, gente.
Inclusive eu tenho uma gambiarra pra isso, eu tenho um bot no meu celular que converte os áudios pra texto. “Ah, agora o WhatsApp tá fazendo isso”. Tá fazendo, não é tão preciso, mas tá fazendo, mas só faz no celular. Pra você que passa, como eu, que passa o dia inteiro na frente do computador, trabalhando, e com a droga do WhatsApp aberto porque o seu trabalho te obriga e tem um milhão de grupos, uma ferramenta que faz essa gambiarra, assim, ajuda demais.
Porque é o meu jeitinho pra poder não ter que ouvir cliente. E se eu tiver tendo que revisar vídeo, eu vou ver só a legenda, não quero escutar o áudio, não quero escutar a voz da pessoa; se tiver alguma coisa na legenda que não tá fazendo sentido, aí eu paro, escuto aquele trechinho apenas, em áudio, e o resto a gente volta. Porque não dá pra poder forçar o áudio em tudo, igual vocês querem. Áudio é muito legal quando você quer ouvir, quando você solicitou aquilo; se não, que droga.
Izabella: E é muito ruim quando as pessoas usam um áudio como o jeitinho de contornar a preguiça delas mesmas, porque eu tenho pessoas no meu convívio que falam “Ah, eu vou mandar um áudio porque é mais fácil”, aí ela passa um áudio de seis minutos, com informação que poderia ser passada em, sei lá, quatro linhas. Aí eu fico assim, minha filha, mais fácil pra quem? Só pra você, né?
Marx: É, aí…
Gustavo: Nem pra ela, se ela pensasse.
Marx: Entra em um ponto polêmico aí, que também áudio só faz sentido se for de até um minuto. Áudio com mais de um minuto, é melhor ligar. Aí eu já sou a favor da ligação.
Gustavo: Isso, se você quer escutar um áudio que dure mais de um minuto, escute um podcast, escute outros episódios do Introvertendo.
Marx: Escute o Introvertendo, exatamente (risos).
Gustavo: Conteúdo de qualidade em áudio que dura mais de um minuto.
[Vinheta de encerramento]
Izabella: Fala lá, todo dia um malandro e um otário saem de casa, você tem que escolher qual você quer ser.
Gustavo: Fique em casa.
Izabella: (Risos)
Marx: Não, já acabou isso aí, sou traumatizado da pandemia.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Técnico de som: Marx Osório | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: August Resende

