Introvertendo 266 – Sincericídio

Entender o que é adequado de ser dito ou não é um desafio para muitos autistas. Com isso, o fenômeno do sincericídio é bastante conhecido em nossa comunidade. Como lidar com as pequenas mentiras sociais e a verdade? Neste episódio, apresentado por Gustavo Borges e com Bruno Frederico Müller e João Victor Ramos, recebemos Dálly Queiroz, já conhecida por seu estilo sincerão, para falar sobre como autistas são péssimos mentirosos.

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Transcrição do episódio

Michael: E aí pessoal, aqui é o Gaivota passando pra dizer que, sinceramente, esse episódio é um piloto e a gente teve preguiça de regravar. Valeu, flw.

Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos à volta do podcast Introvertendo, agora em vídeo. Eu sou o Gustavo Borges e hoje o tema é sincericídio.

Bruno: Eu sou o Bruno e sou especialista em sincericídio.

Dally: Meu nome é Dálly Queiroz, sempre me disseram que o meu maior defeito era ser sincera demais, mas honestamente eu acho que é a minha melhor qualidade. Porque é isso, honestidade é tudo, né galera?

João Victor: Olá, eu sou o João Victor Ramos e sinceramente, sincericídio é necessário, dependendo do contexto.

Gustavo: Você que aguardou ansiosamente pelo nosso retorno e você que acabou de cair nesse link e não faz ideia de onde veio parar, aproveite para poder acessar introvertendo.com.br e seguir nossas redes sociais no @introvertendo no Twitter, Instagram, Facebook e Bluesky, assim que eu conseguir arrumar isso. O Introvertendo é um podcast feito por autistas, produzido pelo NAIA Autismo.

[Vinheta de abertura]

Gustavo: Sempre criticam as crianças por serem sinceras demais. Aparentemente, adultos não deveriam ser sinceros, mas a gente foi criado para poder ser sincero, então a gente vive nesse ponto de contradição e paradoxo. Que deveria ter regras muito claras, específicas de quando ser sincero, quando não ser sincero, e acaba sendo tudo nebuloso.

Na dúvida, pelo sim ou pelo não, eu e vários outros autistas, incluindo os aqui na mesa comigo, somos sinceros sempre. O que gera alguns problemas, especialmente quando você não quer magoar a pessoa. Porque se você quer magoar a pessoa, a sinceridade é a melhor forma de acertá-la.

Dálly: E é completamente contraditório isso, porque geralmente as pessoas esperam que nós sejamos sinceros, mas elas se magoam com sinceridade. Tipo, não faz nenhum sentido.

Bruno: Pois é, né? A questão é que a mentira é uma habilidade social e nós temos dificuldades justamente em desenvolver nossas habilidades sociais. Esse momento de saber quando é que a regra geral “sempre seja sincero” deve ser quebrada… É aí que está o problema, é o nó da coisa e é o que nos define como autistas, né? 

Gustavo: Sim, porque se a gente esperar para poder falar, só quando a gente tiver certeza que a coisa é certa, a gente não vai falar nunca.

João Victor: Nem os neurotípicos estabelecem direito quando a sinceridade é necessária e quando não é. Então, assim, quem dirá nós, sabe? Vale destacar o seguinte. Enquanto a habilidade social não nos é ensinado a mentir, não como um requerimento, pelo menos. Tipo assim, eu não sei vocês, mas o meu pai nunca me ensinou a mentir e nem a minha mãe, sabe? Pelo contrário, eles me desincentivaram a tal e suponho que com os de vocês tenha sido a mesma coisa. 

Dálly: Mas eu acredito que os pais nem sempre ensinam a gente a mentir. Eles ensinam a gente a manter aparências, que de certa forma é uma mentira, entende? Então, para ensinar a gente a viver em sociedade, os pais chegam e falam assim. Ah, sei lá, vou colocar um ambiente que é muito comum na vida do brasileiro, a igreja. Você está na igreja, só que você não está feliz de estar na igreja, você é criança. Aí o pai: “tira essa cara feia, sorri, por que você está de cara amarrada?” O irmão vem te cumprimentar, “anda, sorri, seja feliz, cumprimenta ele, cumprimenta o irmão”.

Só que você não quer. Então, a falta de sinceridade começa aí durante essas vivências sociais suas. Perdão, a falta de sinceridade, no caso, né? Então, você tem que fingir ser algo. Isso já não é sincero. Eu acredito que a gente não esteja falando só de sinceridade de palavras, a gente está falando sobre sinceridade de atitude. Regras sociais ditam que a gente não pode ser sincero. 

No ambiente de trabalho você tem que estar sempre sorrindo, você tem que estar sempre bem. Você não pode trazer, por exemplo, problemas de casa para o trabalho. Aí você chega em casa e também não pode levar problema do trabalho para casa. Então, você não pode ser sincero na sua vida 100% o tempo inteiro. E isso é uma dificuldade muito grande que as pessoas autistas têm. Entende? De chegar nos lugares e estar sempre feliz, sempre de forma sociável, sempre muito bem.

João Victor: E esse estímulo mesmo que indireto nos incentiva a, de fato, deixar a sinceridade de lado. Porque é a conclusão mais inevitável possível que nós temos a respeito de como nos portar em várias, incontáveis situações.

Dálly: Nos incentiva e ao mesmo tempo é uma questão muito difícil para muita gente. Para mim, por exemplo, é muito difícil. E sempre que, por exemplo, o Marcelo é o fundador do NAIA, um dos fundadores do NAIA. Sempre que ele vai me apresentar, a primeira coisa que ele chega para as pessoas é: “A Dálly é um poço de sinceridade”. Porque aí a pessoa já está preparada para receber as minhas opiniões da forma como elas são. Entende? E sem se magoar, porque as pessoas se magoam muito com sinceridade.

João Victor: Eu acho que é inevitável, vai.

Dálly: Não, e é chocante.

João Victor: Eu acho que é inevitável.

Dálly: As pessoas se magoam com sinceridade e às vezes eu nem estou sendo grossa. Estou só falando normal com alguém aí e a pessoa: “Ai, meu Deus”. Ah, vai se foder todo mundo também.

Bruno: Mas aqui entra… Eu vou dar uma de advogado do diabo. A gente não está indo muito pelo caminho assim de que “Ah, nós autistas somos anjos azuis que nunca mentem”?

Dálly: É o caralho (risos).

João Victor: Longe disso, filhão. 

Bruno: Autista não mente?

Gustavo: Eu acho até um ponto muito bom de ser trazido de… Autista mente, claro.

Mas mente de outras formas, até porque é difícil.

Dálly: Isso, tem dificuldade.

Gustavo: Autista tem dificuldade de mentir. Então tem, por exemplo, você precisa planejar, pensar com antecedência o que você vai falar antes de mentir para a mentira ser minimamente plausível.

João Victor: Esse planejamento…

Gustavo: Até porque a maioria das mentiras não resiste ao primeiro questionamento da outra pessoa.

Dálly: Exatamente.

João Victor: E esse planejamento pode durar dias, dias. Tipo assim, por exemplo, a famosa situação em que você é convidado para um rolê, para uma resenha no final de semana e ainda é quarta-feira. Qual desculpa eu vou dar? Qual desculpa eu vou dar para não marcar presença nessa resenha?

Dálly: Aí entra a questão. Eu aprendi que eu não posso magoar as pessoas, eu não posso falar. Hoje em dia, eu não posso falar o real motivo, que é “eu não quero”. Hoje em dia alguém me convida e eu falo assim “gente, eu não vou estar querendo, tá bom? Obrigada”.

João Victor: Maravilhoso. Não, eu já uso algo mais sofisticado quando eu quero mentir.

Eu pego uma meia verdade, tipo assim, por exemplo, um parente meu adoeceu, certo? Mas nada grave, tipo… Aí eu falo “não, minha mãe infelizmente tá com sintomas disso e disso, vou ter que cuidar dela e tal”.

Dálly: Porra, você bota sua mãe no meio, hein?

João Victor: É um exemplo, que fique claro e cristalino, tá? É um exemplo. E sim, estou sendo sincero ao falar que foi um exemplo, senão eu estaria falando categoricamente. Eu uso a minha mãe, não é o caso. Beijo, mãe. É isso.

Dálly: Bruno, mas eu queria colocar outro ponto. Não é que autista não mente, eu acho que não é esse o ponto aqui. O ponto é: a gente foi ensinado a mentir, mas ao mesmo tempo a gente tem uma grande dificuldade de mentir. Entendeu? Então, eu acho que tem esse peso na balança. Por exemplo, eu sei mentir. Mal, muito mal, mas eu sei mentir. Para saber se eu tô mentindo é só você me fazer uma pergunta pontual. “Você está mentindo?” Porque eu não vou saber mentir sobre isso. Ou é sim, ou é não.

(Risos)

Bruno: E aí vem, eu acho que a grande estratégia do autista, quando ele se depara com a situação em que ele não pode dizer a verdade, mas ele não sabe como vai mentir. Que é a omissão.

Dálly: Exatamente. Aprendi a omitir porque me disseram que eu não podia mentir, certo? Se eu não podia mentir, aí eu me fodia. Porque eu chegava pra minha mãe e contava tudo.

Porque pra ela, “não, não pode mentir Dálly”, daí ela, “tá bom”. Chegava e contava tudo. Aí ela ficava de castigo, perdia não sei o que, perdia não sei o que, beleza. Aí chegou certa idade, eu aprendi a omitir. Aí ela entendeu. Aí ela aprendeu a me perguntar diretamente o que eu fiz.

Bruno: Só que a omissão também não é uma boa estratégia. Porque você fica lá calado e aí, “tá, e aí? O que você acha sobre isso?”

Gustavo: A interação social não dá procedimento por conta disso. A menos que você pelo menos tenta sair do assunto. E aí vão perceber que você saiu do assunto porque a gente não é bom disfarçar esse tipo de coisa. E aí vai continuar a pessoa percebendo que você não quer falar sobre aquilo porque você tem algo negativo pra dizer. Volta ao ponto inicial de que é melhor falar a verdade desde o começo.

Dálly: E a questão é, e mesmo dando essas voltas, a pessoa no final vai ficar chateada

por algo que você poderia ter só dito na cara e ela ter ficado chateada de cara. 

João Victor: Dois pesos, duas medidas. 

Dálly: Só que a questão é, tudo tem dois pesos, duas medidas. Tudo tem um meio termo. Você pode encontrar as palavras certas para dizer algo para não magoar as pessoas.

João Victor: É, e aí que tá. Mesmo quando você procura essas palavras certas,

esses pesos podem ser desproporcionais. 

Dálly: Entendi. 

João Victor: Podem ser desproporcionais. Por exemplo, situação super cotidiana.

Você dá um fora em alguém. Você pode ser o mais delicado possível. Se a pessoa gostar muito de você, vai ficar magoada inevitavelmente.

Gustavo: Olha, ele tá em condição de dar fora em várias pessoas. Tá podendo.

João Victor: Há controvérsias. Há controvérsias!

Dálly: Vou mudar o foco aqui do João Victor. 

João Victor: Ok.

João Victor: A pessoa chega e te pergunta “o que você acha dessa roupa?”. “Você acha que essa roupa ficou boa em mim?” Aí, muitas vezes as pessoas não estão preparadas para receber um “não, essa roupa não ficou boa, não gostei”. Entende?

João Victor: Tipo, elas já esperam a resposta: “Nossa! Ficou maravilhoso!”.

Gustavo: Então, é porque nesse fato não é uma pergunta de verdade.

Dálly: É uma cilada, Bino.

Gustavo: Não, não. Também. Ótima forma de descrever, claro.

João Victor: Perfeito, inclusive.

Gustavo: É uma pergunta retórica. Ela não tem qualquer intenção de levar a um diálogo, de levar a algo. É uma pergunta de autoafirmação para si mesmo.

João Victor: Só quer amaciar o ego, só isso.

Dálly: Mas a retórica não é algo que você não precisa responder? Nesse caso, você precisa responder e tem uma resposta certa.

Gustavo: Então, mas a pessoa não está esperando a sua resposta. Ela quer só uma confirmação de cabeça pra ela poder falar: “Ai, pois é, comprei há pouco tempo, tô usando a primeira vez”. “Ai, é antigona, mas continua me vestindo bem”. “Olha, voltou a vestir depois de tanto tempo”.

Bruno: Diga-se de passagem, é um problema que, pelo menos pra mim, é tão grande quanto o dilema da verdade e da mentira. Que é o papo furado.

Dálly: Nossa, sim!

Bruno: Como é que você vai dar continuidade a uma conversa que não tem o propósito de ser uma conversa?

Dálly: Não dá. Manda ir catar coquinho na esquina.

João Victor: É uma pergunta retórica atrás da outra. Tipo assim, “Nossa, você acha que esse brinco ficou legal em mim?” “Você acha que esse batom ficou legal em mim?” “Você acha que essa camisa ficou legal em mim?” “Você acha que essa…” “Esse…” Sabe?

Gustavo: Mas, Bruno, de verdade, você quer manter uma comunicação com essa pessoa depois disso?

Bruno: Não.

Gustavo: É, então a gente já resolveu esse problema.

João Victor: Será? A não ser que você não tenha coragem de se retirar de fininho.

Gustavo: Não é uma questão de se retirar só de fininho, até porque você tá falando diretamente com a pessoa. Mas você pode selecionar melhor com quem você está andando?

João Victor: Não, claro, sem dúvida, mas…

Gustavo: Até porque eu andei muito tempo sozinho por ser muito seletivo, então…

João Victor: A Dálly, por exemplo, disse aqui agora há pouco. Tchau e bença, beijinho, beijinho, mas…

Dálly: Querido, tô indo embora, ó. Tchau, galera.

João Victor: Mesmo… Eu não consigo ser assim às vezes. Eu falho miseravelmente em ser… Sei lá, tipo… 

Dálly: Genuíno? 

João Victor: Ai, difícil explicar. Tipo assim… Quando eu fico desconfortável em alguma roda de conversa, esse desconforto fica nítido, mas eu não consigo expor isso, tipo, caralho, sabe? 

Dálly: Não.

João Victor: É.

Gustavo: A bateria social dele acaba, ele é obrigado a continuar nessa mesa por mais um tempo, e ele não consegue nem falar: “Pô, gente, desculpa, não é que eu tô achando chato, não, só acabou a minha bateria”. E ao mesmo tempo, ele não consegue disfarçar o bastante para as pessoas não repararem.

João Victor: Obrigado.

Dálly: A questão é: por que você é obrigado a permanecer, entende? Não faz sentido.

Bruno: Porque às vezes é um contexto familiar, um contexto de trabalho. Contexto… Tem situações em que você não pode fugir.

João Victor: É um ponto, mas eu lembro que isso acontecia demais na época de escola, velho. Tipo assim, eu tentava, eu forçava a barra ali, mesmo desconfortável, mesmo nitidamente querendo sair do círculo, mas eu queria fazer parte de algum todo, seja qual todo fosse. 

Dálly: Entendi.

João Victor: Então, eu ficava por lá mesmo. Eu podia ficar sem entender bosta nenhuma a respeito do tema em questão.

Dálly: Você queria ser incluído.

João Victor: Exato.

Dálly: Pode crer.

Gustavo: Mas, e numa situação dessas… Me fala um sincericídio que você cometeu numa dessas situações. Não vale hipotético, não vale desculpa que você tentou arrumar.

Você, na escola, o que é que você fez tentando se enturmar que acabou piorando para você porque você ofendeu alguém?

João Victor: Eu costumava tentar me juntar com os nerds da sala, né? Porque eu supostamente era um também. Supostamente. Aí, num belo dia, começaram a falar sobre os jogos que tinham comprado, as experiências que estavam tendo. E eu fiquei sem entender nada a respeito daquele assunto. Aí, perguntaram pra mim o seguinte, “João, você já jogou?” Aí, citou o jogo em questão. Falei, “Não. Inclusive, se eu jogasse, eu acharia uma merda.” 

Dálly: Acabou, morreu o assunto.

João Victor: Exatamente. Não, eles nunca mais quiseram olhar na minha cara, sabe? Resposta bem indelicada mesmo, mas foi de propósito. Aí, eu tentei me respaldar dizendo que o gênero do jogo, que era FPS, no caso, não me chamava a atenção, porque não me chama mesmo. Mas eles não…

Gustavo: Era tarde demais.

João Victor: Exato. Perfeito.

Gustavo: Suspeito eu que o Introvertendo, escutado por muito mais adultos, que apesar de ter as memórias de infâncias, é… Vamos lá, Dálly. Como é que você lida num ambiente de trabalho, com a questão de sincericídio, evitando ou preparando o terreno para pessoas não morrerem quando você faz um sincericídio?

Dálly: Então, em todo ambiente de trabalho que eu tive… Todo não. Todo é exagero, tá bom? Mas na maioria dos ambientes de trabalho que eu tive, todas as pessoas já conheciam a minha pessoa antes. Tipo, antes de eu trabalhar naquele lugar. Então, eu faço contatos e depois eu arrumo o emprego, entendeu?

Gustavo: Certo.

Dálly: Então, eu já chego, a pessoa já sabe que eu sou sincera de cara, a pessoa já sabe o que eu vou falar ou não, eu evito falar coisas que ofendam as pessoas, mas eu sempre falo tudo muito na cara. Eu chego e pergunto, sei lá, principalmente de colega, de igual pra igual. Eu chego num lugar, eu chego e já pergunto: “Você é gay? Você é hétero?” Entende? Aí a pessoa já sabe o que ela espera ali, entende?

Então, de colega pra colega, eu já chego sendo eu, em qualquer lugar que eu chego, né? Quer dizer, em qualquer lugar não. Tem lugares que eu chego, eu já fico mais caladinha, porque eu sei que não é muito bem aceito.

João Victor: Então, há um filtro, de certa forma, né?

Dálly: Há um filtro, de certa forma, mas em lugares que eu não posso ser sincera, eu fico 100% calada. E eu vou abrir a minha boca para que me perguntarem e olhe lá.

João Victor: Mas quando você mede essas palavras, você consegue, dentro da sua  percepção, mostrar algum tipo de desconforto? Tipo assim: “Meu Deus, eu quero muito falar, mas dentro desse ambiente, dentro desse contexto, eu não dou conta”.

Dálly: Não, dá pra perceber que eu quero ir embora. Em qualquer lugar que eu chego, se eu não posso ser eu, a primeira coisa que eu viro e falo: “Eu quero ir embora.”

João Victor: É disso que eu tô falando, quando a gente se sente na necessidade de faltar com o ato de ser sincero, a gente não consegue se conter direito, a gente não consegue, tipo, mostrar que tá bem, em termos gerais.

Dálly: Vida que segue, né? É a vida. Tem lugar que a gente tem que se colocar, eu só aceito. Mas no ambiente de trabalho, por exemplo, hoje em dia eu trabalho no NAIA, eu trabalho pro NAIA. Eu trabalho diretamente ali, no ambiente, com muitas pessoas autistas, então o pessoal está muito acostumado com isso. E como eu disse, eu geralmente faço o contato pra depois conseguir o emprego.

Então antes de chegar a trabalhar aqui, o pessoal já me conhecia. Então o pessoal já sabia que eu sou o poço de sinceridade que eu sou, se eu não gostar de um lugar, eu vou falar: “Eu não gosto desse lugar, não quero ficar aqui.” Se eu não gostar de uma pessoa, eu vou falar: “Eu não gosto dessa pessoa, não quero ficar perto dela.” E é isso, eu me retiro.

Gustavo: Tá, deixa eu tentar colocar numa situação menos ideal. Em empregos anteriores ao NAIA, você costuma se colocar abertamente como uma pessoa no espectro autista? E usa isso pra poder já explicar o modo de funcionamento? 

Dálly: Eu recebi meu diagnóstico tardio, eu recebi meu diagnóstico há três anos. Tem três anos e meio. Eu tô no mercado de trabalho há seis anos, né? Então primeiro eu não sabia.

E eu não podia ser de forma alguma quem eu era, porque eu trabalhava em call center,

eu trabalhava jovem aprendiz, não sei o quê. Nesses lugares você não tem voz, tem que fazer o que te mandam. 

Gustavo: Muito curioso, você tá num call center e não tem voz. Prossiga.

Dálly: Não o quê?

Gustavo: Você tá num call center e não tem voz. Prossiga.

Dálly: Tem voz?

Gustavo: Ter voz.

João Victor: Voz, Dálly.

Gustavo: Você tá num call center e não pode falar.

Dálly: Ah, tá, entendi (risos).

João Victor: Tudo bem, eu também demorei, fique tranquila.

Dálly: Você não tem, o que eu quis dizer, você não tem auto-expressão, você não pode se auto-expressar. Foi isso que eu quis dizer. Foi uma metáfora (risos). Enfim.

João Victor: Posso ser sincero?

Dálly: Sim.

João Victor: Ficou muito claro pra mim que foi uma metáfora, mas eu estava esperando você assimilar, sabe?

Dálly: Enfim, a piada demorou pra chegar.

Gustavo: Desculpa, gente, haverão mais ao longo dos próximos episódios.

Dálly: Aí, então, nesses ambientes eu não pude. Depois que eu comecei a ter uma profissão, e eu comecei a ver que eu era essencial pro ambiente de trabalho tipo, independente dos patrões e etc, eu passei a ter voz. Aí, por exemplo, eu cheguei, eu tenho uma profissão, antes de entrar no NAIA, eu era tosadora de cachorro.

Então, eu trabalhava diretamente com atendimento ao público. Dentro da profissão, tem verdades que precisam ser ditas. Por exemplo, o tutor chega com o cachorro todo embolado lá, porque não cuidou. Aí, “ah, eu quero que deixe o pelo dele, né, não pode raspar”. Eu chego assim, chegava pro cliente e falava, “como que você não quer raspar? Da próxima vez você cuida, tá bom?” (risos).

Gustavo: Mas aí, pelo menos, você tinha o argumento de ser especialista falando.

Dálly: Exatamente. Então, eu era sincera. Eu já tomei alguns esporros de patrão, vez ou outra, tipo: “ah, você não pode falar assim com o cliente”, mas eu falava assim: “e ele não pode fazer assim com o cachorro” (risos).

João Victor: Faz sentido.

Dálly: Então, eu sempre tinha razão. Ah, é incrível ter razão, gente (risos).

Gustavo: Maravilhoso, realmente.

Dálly: Eu me sinto maravilhosa. Então, nesses ambientes, eu podia ser sincera, de certo modo, porque eu tinha voz, eu tinha auto-expressão, eu tinha poder de fala ali, entendeu? Então, eu sempre me coloquei como uma pessoa sincera, e depois que eu recebi o diagnóstico, não mudou muita coisa, né?

Gustavo: Você só justificou “eu sou assim por isso”.

Dálly: Nem justifico.Não preciso justificar, eu sou assim e é isso, engulam.

Gustavo: Bom, Bruno, eu tô te achando muito calado.Fala um pouquinho pra gente da sua relação do sincericídio familiar.

Bruno: Eu me lembro de uma história muito engraçada com a minha mãe, que quando eu era criança, aconteceu mais de uma vez, e eu cometi algum sincericídio, ela me beliscava,

e eu falava “ai, por que você tá me beliscando?” E aí, é… Acabava passando vergonha duplamente. Mas, a minha especialidade mesmo é o sincericídio em relacionamento.

Eu me lembro… A história mais leve que eu tenho pra contar, é de uma namorada que eu tive, que ela mostrou, que ela pegou uma revista pra mim (não era uma revista masculina), e falou: “me mostra pra mim uma mulher bonita”. Aí eu peguei a revista, folheando, até que eu achei uma mulher que eu achei bonita. E aí eu mostrei pra ela. “Como você pode ser tão superficial assim? Eu esperava mais de você!”. Isso foi praticamente um… Homicídio, causado por um sincericídio.

Gustavo: Qual era o objetivo nefasto dela com isso?

Bruno: Então, cara… Essa pessoa em particular, eu desconfio que ela tinha… Síndrome, não, é… Transtorno de personalidade borderline, entendeu? E ela ficava procurando desculpas pra romper o relacionamento comigo, pra poder tentar depois reatar.

Dálly: Não são só borderlines que fazem isso, não. Tem muita gente dodói da cabeça aí que faz isso também, só…

Gustavo: Pode ser só escrota mesmo.

Dálly: Às vezes as pessoas fazem isso só por prazer, não é só…

Gustavo: Gente, eu li um relato na internet de uma pessoa falando que estava com um cara que era viciado em fazer as pazes. O problema é que é… O problema é que pra poder fazer as pazes, ele arranjava a razão mais idiota possível, brigava com ela, eles discutiam, passavam umas horas cada um num cômodo afastado, depois ele ia lá fazer as pazes, todo pimposo, todo carinhoso, porque era a parte que ele mais gostava. Só que a pessoa que estava relatando isso porque já estava extremamente desgastada e pronta pra encerrar o relacionamento por isso. Então, não acho que seja você essa pessoa que fez o relato,

mas acontece.

Bruno: Esquisito.

Gustavo: Seres humanos são esquisitos, cara.

Dálly: Mas é muito normal, ó. As pessoas fazerem isso aí que a sua ex-namorada fez, viu?

Bruno: Essas ciladas não são só comigo, então.

Dálly: Não, não são não, acontece bastante.

Gustavo: Se não com revistas, com outras coisas. Tá tudo bem, cara.

Bruno: Tá certo. 

Dálly: Você me acha mais bonita ou a Gisele Bündchen? É, são coisas assim.

(Risos)

Dálly: Se eu fosse uma minhoca, você me namoraria? É claro que não!

Bruno: Mas aí é que tá. Se não fosse autista, não caía na cilada.

Gustavo: Caía. 

Dálly: Caía, caía sim. É normal (risos).

Bruno: Bom, eu depois desse exemplo, eu aprendi a minha lição.

Dálly: Você nunca viu na internet? Quem é cronicamente online vai entender. “Meu amor, se eu fosse uma minhoca dentro de um casulo, você ainda me amaria? Você ainda namoraria comigo?”. O pessoal não quer ouvir a sinceridade ali da coisa.

João Victor: Nem se eu fosse outra minhoca. Nem se eu fosse outra minhoca, a verdade é essa.

Gustavo: A resposta pra esse teste é: “claro, eu usaria camisetas com bolso pra eu poder colocar um pouquinho de terra em você no bolso e levar você sempre comigo no meu coração”.

Dálly: Exatamente, é isso que as pessoas querem ouvir. Não, não, “hum, é nojento, eca”, sabe?

Gustavo: Bom, gente, e piadas à parte, o que é que vocês fazem pra eu poder lidar com sincericídio e continuar conversando com essa pessoa depois? Eu, por exemplo, aprendi a tentar não ser letal. Eu preciso cometer um sincericídio. É importante pra mim fazer um sincericídio, falar aquela verdade assim, bem dita. Até porque evita a pessoa fazer algumas perguntas idiotas de vez em quando.

Mas se você tentar, ao invés de falar da coisa mais escancarada, óbvia e real que tá ali, você falar de uma um pouco menos, um pouco menos óbvia, que vai doer um pouco menos na pessoa, você deixa ela viva e ela sobrevive, se recupera e volta a falar com você outro dia. O que é que vocês fazem?

Bruno: Eu, sinceramente, cometendo um sincericídio aqui com vocês agora, aprendi a sempre dizer aquilo que a outra pessoa espera ouvir. Eu não estou mais preocupado em ser sincero. Eu tô preocupado em evitar conflitos. Então, se a pessoa vai chegar pra mim e vai falar “O que você acha de mim com essa roupa?” Eu vou sempre dizer que ela está linda. Agora, se ela tá me ouvindo agora, ela pode chegar à conclusão de que, pelo menos algumas das vezes que eu falei isso, eu cometi um sincericídio.

Gustavo: Viu só, gente? Pelo menos de mal exemplo a gente serve.

João Victor: Falar o necessário, mas não deixar de ser sincero. O mínimo, basta, eu acho.

Apenas acho. Realmente, apenas acho. Por hora. 

Dálly: No geral, na minha vida, eu só não me importo se a pessoa vai parar de falar comigo, sabe? (risos). Eu geralmente tento me explicar, eu meço minhas palavras e tal, converso, converso igual gente também, eu não converso igual animal, tá?

João Victor:  É importante.

Dálly: Converso igual gente com as pessoas, tento medir minhas palavras, mas se a pessoa me interpretou mal, o que eu posso fazer em relação a isso, né? Aí é um problema da pessoa. Eu falei com uma intenção e a pessoa entendeu outra. Aí vamos supor, é uma pessoa que eu gosto muito, é uma pessoa que eu não quero cortar vínculos. Chega, conversa, fala e você tá magoado porque eu falei e tal.

Conversa, né? Diálogo é tudo na vida. “Ah, eu tô magoada porque você falou isso e aquilo, eu acho que você entendeu no tom errado,eu quis dizer isso mesmo, mas não foi nesse tom.” Entende? A gente precisa conversar. Mas eu não deixo de ser eu, não deixo de ser sincera, não deixo de dar as minhas opiniões. No geral, vou colocar situações que eu não posso emitir minhas opiniões, eu fico calada. Situações que vão gerar um suicídio social, por exemplo, eu fico 100% na minha. Quando eu espero a aprovação de alguém e tudo mais.

Gustavo: Bom, gente, aprendemos hoje que sinceridade é sempre a resposta, então seja sempre sincero, menos quando não der. Quando não der mesmo, minta. Minta descaradamente!

João Victor: Chicó!

Dálly: Não faz isso, não (risos).

João Victor: Oi, Chicó!

Dálly: As pessoas percebem, não mintam, pelo amor de Deus. As pessoas percebem mentira de autista. Em nome de Jesus, não mintam (risos).

Gustavo: Tudo bem, não vamos mentir. Wink, wink. Por hoje é só, ficamos por aqui. O Introvertendo estará de volta na próxima semana com outra formação mais apropriada do que essa. Por favor, nos acompanhe nas redes sociais e no introvertendo.com.br. O Introvertendo é uma produção do NAIA Autismo, gravado nos estúdios da Faculdade Realiza. Eu sou Gustavo Borges e vejo vocês na próxima.

[Vinheta de encerramento]

Dálly: Vocês querem saber o quê? Queria… Depois que terminar, eu quero falar uma coisa.

Gustavo: Melhor falar agora.

Dálly: Vocês querem saber a minha opinião sobre esse episódio de podcast? Foi meio bosta. Eu não gostei não (risos).

Gustavo: Vai parecer melhor editado.

Dálly: Tomara.

Gustavo: Tomara.

João Victor: Vai dar certo. Assim desejamos.

Dally: Eu achei que ia ser mais fluido e menos robótico. Tá todo mundo muito robótico, muito com falas prontas.

João Victor: Eu! Nossa, demais.

Dálly: Não só você, todos.

João Victor: Não, mas eu principalmente, juro pra você. Tipo assim, eu montei uma ideia na minha cabeça e quando eu vi que ela quebrou logo no começo, quando eu tive aquele mini surto, me desregulou para um caralho. Sério mesmo. Eu não sei como consegui manter a conversa até aqui, Dálly.

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Tiago Abreu | Capa: Tiago Abreu | Pauta: Bruno Frederico Müller | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian