O mascaramento ou masking é um fenômeno cada vez mais discutido na comunidade do autismo, e suas implicações são múltiplas na vida de pessoas autistas. Izabella Pavetits e João Victor Ramos, neste episódio, recebem as psicólogas Ana Júlia Arantes e Kaoma Aleixo, também autistas, para falar sobre as origens e impactos do masking.
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Transcrição do episódio
Izabella: Olá, pessoal. Meu nome é Izabella Pavetits. Hoje nós vamos falar sobre uma estratégia de sobrevivência que atormenta a saúde mental de autistas por todo o mundo, o masking, ou no bom português, o mascaramento.
João Victor: Olá a todos. Sou João Victor Ramos, escritor, poeta, e dentro das condições normais de temperatura e pressão, eu vou tentar não falar palavrão hoje. Vai ser mascaramento do começo ao final. Brincadeira.
Kaoma: Olá, eu sou a Kaoma. Eu sou psicóloga clínica, analista do comportamento e atualmente eu atendo adultos.
Ana Júlia: Olá, pessoal. Meu nome é Ana Júlia Arantes. Eu sou analista do comportamento com foco em autismo adulto e neurodivergência para autistas e familiares. E eu também tenho uma agência de marketing com foco em análise do comportamento e comportamento do consumo.
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[Vinheta de abertura.]
Izabella: Hoje em dia, muito se fala sobre o conceito de masking, apesar de ele não ser exatamente um termo científico. É muito discutido na comunidade neurodivergente. Mas, por outro lado, eu vejo também muitos neurotípicos falando “Ah, mas todo mundo adapta o comportamento dependendo da situação social”. Mas não é exatamente isso. Então, para começar o episódio, eu queria que a gente definisse o que é o masking.
Ana Júlia: Lançou a bomba, né?
Kaoma: (Risos)
Ana Júlia: Então, basicamente, no DSM não tem uma definição específica do que é o masking, mas está descrito que algumas características que são diagnósticas do autismo, elas podem vir a surgir depois dependendo da demanda social. Ou seja, até o momento da vida da pessoa, ela não demonstrou determinadas características, ou seja, estava camuflado. Mas quando a demanda social se tornou um pouco mais do que ela conseguia lidar, ela teve a necessidade de ter algum comportamento compensatório. Ela teve que expor isso de alguma forma, ou com uma estereotipia, ou ela entrou em crise. Enfim, ela fez o seu unmasking, né? A gente tem esse conceito, então o masking, ele deixa de acontecer a partir do momento que você tem algo que o rompa. Então, eu acho que o conceito de masking, ele existe a partir do momento em que ele não é mais necessário.
Izabella: A questão que eu acho muito importante, principalmente quando eu vejo esse argumento que eu mencionei, é desse contraponto que costuma apresentar, “Ah, mas todo mundo adapta comportamento”. Não é questão de adaptar comportamento. Adaptar comportamento é uma coisa natural, saudável. Você não vai agir no seu ambiente de trabalho que nem você age num estádio de futebol.
Ana Júlia: Porque o masking, ele é um comportamento apreendido. Dentro da análise do comportamento, existe uma categoria que a gente chama de comportamento operante, que é diferente, por exemplo, dos reflexos. Os reflexos, eles acontecem a partir de um estímulo, a gente age instantaneamente. O comportamento é aprendido, a gente vai aprendendo que a gente não pode se comportar de determinada forma porque talvez a gente vai ser punido, porque talvez aquilo não seja aceito. Ou então, eu devo me comportar de determinada forma porque eu vou obter um benefício. O masking é exatamente isso. Em algum momento da nossa vida, a gente aprendeu que num determinado momento, a gente deveria se comportar de uma forma mais neurotípica, digamos assim, porque aquilo seria bem aceito. Então, para entrar no mercado de trabalho, eu precisava aprender a socializar mais.
É muito interessante, quando eu entrei na faculdade, eu botei na minha cabeça, porque eu sofri bullying durante todo o meu período de ensino fundamental e ensino médio. E aí, quando eu entrei na faculdade, eu botei na minha cabeça: “não, agora eu preciso ser popular, eu preciso fazer amigos. Para fazer amigos, eu preciso socializar e ir em todos os lugares que essas pessoas vão”. Então, eu fiscalizei quem eram os populares da sala na primeira semana, fui enturmar com eles, e para todos os lugares que eles iam, eu ia junto.
E o masking era: “Eu vou agir exatamente como essas pessoas estão agindo”. Então, eu aprendi que se eu não agisse daquela forma, eu seria punida. E a partir do momento em que o meu corpo falou que eu não disse, que eu não dava conta, porque eu comecei a passar mal, comecei a sentir febre, não conseguia acompanhar o ritmo. E aí, eu falei para essas pessoas, né, que eu não podia ir nos eventos, que eu não estava dando conta e tal. Eu fui excluída do grupo. Então, eu aprendi que se eu quisesse pertencer, eu precisava agir de determinada forma. Então, acho que isso é masking.
Kaoma: Eu acho legal um conceito que veio na fala de vocês duas, que é sobre a punição. O masking vem muito para evitar que você seja punido de alguma forma. Então, ele te gera um sofrimento muito grande, porque você sabe que se às vezes você sair daquele escopo, você vai receber uma punição. Então, acho que é muito diferente.
Até mesmo o próprio conceito do DSM, o Manual Estatístico. Quando a gente fala de estatística, a gente não está falando que são comportamentos que não existam em outros grupos, mas também sobre a frequência. Então, acho que não sei se você teve essa experiência também na faculdade. Quando a gente vai estudar psicodiagnóstico, você olha aquela lista e fica “hum, tenho tudo” (risos).
Então, é um processo muito complicado, justamente porque tem comportamentos ali que são frequentes em vários grupos de pessoas. O que traz é o prejuízo que isso vai trazer na vida das pessoas e também a frequência. Então, “ah, vou precisar mascarar no trabalho e rir da piada do chefe”. Acho que é uma experiência universal, praticamente (risos). Mas isso não vai te trazer tanto prejuízo. Mas, por exemplo, a piada é uma piada racista, homofóbica, etc. Já gera um prejuízo, que você tem que estar ali tipo, mascarando uma coisa que você não pode… Aliás, você pode, né? Mas não vai te trazer muito benefício você apontar para a cara do seu chefe que ele está sendo racista. Então, é uma situação que gera punição. E a gente evita a punição (risos).
João Victor: Eu lembro que, ao longo de boa parte da minha vida, experiência escolar no geral, ambiente de trabalho, mais ambiente escolar do que de trabalho, eu sempre busquei ser o que a Ana se propôs ser apenas na faculdade, o cara popular. Porque, para mim, na minha percepção, o cara popular era o único que conseguia se dar bem em termos de socialização, em termos de fazer amigos e conseguir ter um convívio bom com o seu próximo, socialmente falando. Porque eu sou o tipo de autista que gosta de gente, sim, isso existe.
E a minha opção era, após algumas crises, mascarar porque eu não conseguia detectar nenhum comportamento meu que fosse minimamente aceitável ou chamativo para os colegas, para os amigos, para os professores, porque eu também socializava com os professores. E eu era muito brigão, como já comentei em episódios anteriores, eu desregulava com imensa facilidade devido à intolerância à frustração.
Então, eu busquei fingir ser um piadista nato. Falhei miseravelmente, porque, para mim, o riso era o que tornava a socialização possível. Então, comecei a metralhar um monte de piadinhas sem graça e algumas muito infelizes, achando que todo mundo ia rir e falar “Nossa, olha como o João é o cara, olha como o João é uma pessoa muito legal de se ter por perto porque ele contou uma piada engraçada”.
Acabou que eu repeti esse comportamento por tantos anos, porque era a única opção que me vinha. E como eu já devo ter falado em um outro episódio, eu já não sabia mais quem eu era. Era um pouco beirando ao involuntário, eu diria. Vou explicar.
Eu sabia que precisava adotar um determinado tipo de comportamento para ser supostamente aceito. Aí vocês colocam quantas aspas desejarem. Mas eu não tinha a menor ideia de se eu removesse esse comportamento, esse mimicar da minha lista de opções, o que é o João Victor? Chegou nesse nível. A coisa só começou a ser minimamente revertida após o diagnóstico. Após o diagnóstico, desculpa, entre os meus 17 e 18 anos.
Izabella: Vocês mencionaram que às vezes o masking nasce dessa necessidade de se proteger independentemente do contexto. Pode ser na época da escola, pode ser no trabalho, pode ser na vida social. Vocês conseguem dizer mais ou menos a época da vida que vocês começaram a fazer o masking?
E se foi o João Victor e a Ana Júlia falaram, que teve um quê mais estratégico, mas teve algum que vocês acham que acabaram fazendo sem perceber que estavam fazendo e só depois perceberam? Depois do diagnóstico viram: “É, isso aqui realmente não sou eu, eu estava fazendo para me encaixar”?
João Victor: É como eu falei, eu comecei a fazer de uma maneira deveras planejada, mas fui me perdendo no meio do caminho. Justamente por conta dessa dúvida, por essa crise de identidade. Porque quando a exaustão vinha por completo, eu me encolhia. Eu não tinha um plano B. Ah, vou usar uma outra face, uma outra máscara. Não, eu simplesmente ficava no canto da sala, no canto de um corredor, eu simplesmente faltava aula, fingia que estava doente, os meus pais, e tipo, “Não, hoje não, dispenso”. É isso. Eu uso o exemplo escolar em excesso porque é uma fase definida, era onde eu ia inevitavelmente, porque atividades que exigiam ainda mais, tipo resenhas, encontros para cinema, clube do livro, adolescente, clube do livro… Não, não, não, não dava conta.
Ana: Hoje em dia, após o diagnóstico, após a terapia, eu consigo ver algumas coisas da minha infância que eu não via. Por exemplo, o meu irmão, ele tem muitas características de autismo, mas ele não tem diagnóstico porque ele não passou pelo processo de avaliação. Quando ele era criança, ele passou por uma psicanalista que veio com a teoria da mãe geladeira, e aí a minha mãe tirou ele da análise e falou: “Eu que vou criar esse menino”, enfim.
Só que assim, hoje eu percebo que, por exemplo, quando ia visitá lá em casa, o meu irmão era criança, a gente tem idade muito próxima, tipo um ano e meio de distância, alguma coisa assim. O meu irmão, ele podia… eram os amigos dele que iam lá para casa. Os amigos dele iam, aí ele cansava dos amigos dele, entrava para dentro do quarto e aí o João Victor podia… Era o João Victor.
(Risos)
Ana: O João Victor podia entrar para dentro do quarto e ficar emburrado. Só que eu, por ser menina, eu tinha que ficar ali e brincar com os amigos dele, tanto que hoje, um dos amigos dele de infância, um dos melhores amigos dele, virou amigo meu por causa disso. Tipo assim, ele ia brincar de boneca comigo, o Matheus, porque o João Victor abandonou ele lá (risos).
Então, eu acho que isso era uma estratégia de masking sim, porque eu também não queria ficar ali. Se ok, a minha mãe ia lá e falava “olha, o João Victor está tratando os amiguinhos mal, você vai ficar com eles, porque você dá conta, porque você tem que dar conta, porque você não é mal educada”. Então, eu acho que foi surgindo aí.
Mais pra frente, na escola, eu… teve uma época que eu precisei vender bombom, vender sanduíche e tal. E aí, eu percebi que se eu quisesse ganhar dinheiro, eu não podia vender para os alunos, porque aluno não tem dinheiro (risos). Aí, eu precisava vender para os professores. Então, a gente passava… Na UFG, eu estudei no Colégio Aplicação. Tem as subáreas, né? Subárea matemática, português e tal. Então, cada sub-área que eu passava, eu adquiri uma personalidade. Então, na subárea de português, uma personalidade. Na subárea de matemática, outra. Eu arrisco dizer que, na época que eu vendia bombom, eu ganhava mais dinheiro do que hoje em dia no mercado de trabalho, porque eu vendia muito. Então, assim, aí já foi um negócio mais estratégico.
Kaoma: Mas eu achei interessante uma coisa que você trouxe, sobre como o papel de gênero realmente afeta como a gente vai mascarar. Eu sinto que… Eu sinto não, né? Tem várias pesquisas falando disso (risos). A gente aprende muito cedo a mascarar, justamente porque a gente é punida de uma forma muito mais verbal.
Então, menina não pode fazer isso. Então, você vai aprendendo ali a ajustar seu comportamento com homens. Acaba sendo um pouco diferente. Então, não tem esse repertório verbal, assim, de tipo, “Ah, você não pode fazer isso. Você tem que agir dessa forma.” Então, acho que dificulta muito o mascaramento, de certa forma. E pra gente facilita, o que não é necessariamente uma coisa boa (risos).
João Victor: Faz todo sentido, longe de mim, querer contrapor as pesquisas. Mas, assim, quando eu era repreendido, eu buscava me adaptar também muito rápido. E as repreensões também eram verbais, tá? Mas eu lembro que depois que a minha irmã nasceu como de praxe, minha família costumava comprar aqueles joguinhos de panela de brinquedos, sabe? Só que o irmão mais velho dela aqui brincava também com isso, porque achava o máximo. E eu contava isso pros coleguinhas. Eles chegavam pra mim e falavam assim, “João Victor, você é gay?”. E eu sem entender o que significava a palavra gay, né? Vou falar que eu sou. Pronto. Vou falar que eu sou porque vai que as meninas param de me repreender. Aí eu, de fato, falava que era. E a repreensão veio forte, porque ou galerinha homofóbica da p… Quase que o palavrão sai. Eu não falei palavrão até agora, veja só!
Quando a repreensão vinha muito, muito, muito, muito forte, eu me recusava a tentar entender o porquê. Isso só me deixava mais internamente desregulado. Tipo assim, por que eles estão me chamando de algo cujo conceito eu desconheço, porque eu de fato desconhecia, né? Rindo na minha cara, me tratando com desprezo e de quebra me excluindo de todas as atividades e às vezes me batendo com soquinhos e pontapés, achando que tão abafando. No máximo, eu vou ter que imitar eles. E vou ter que fazer exatamente a mesma coisa, quando eu ainda era um pivete de oito anos de idade. Pai do céu, que vergonha. Enfim.
Izabella: Eu também tenho uma experiência para relatar sobre masking na perspectiva de gênero, porque eu acho que o meu masking nunca foi uma coisa que eu fiz conscientemente. São mais situações que eu percebo agora, depois do diagnóstico, que eu tô passando pelo processo cera-véltico, que aí eu paro e vejo, “então não era isso que eu estava fazendo, entendi”.
Eu uso essa analogia que parece que eu sou um extraterrestre fazendo cosplay de ser humano e que não sabe muito bem como agir, então eu copiava o que tava todo mundo fazendo pra parecer menos, né? E eu acho que na minha vida, tudo que eu fiz de masking não foi “ah, não, eu quero ser aceito, eu quero que gostem de mim”, foi mais tipo “eu não quero chamar atenção, eu quero ficar aqui na minha”.
Não sei exatamente, não consegui lembrar, talvez seja uma questão que eu ainda chegue no processo terapêutico. O que me levou pra esse ponto de querer me esconder acima de qualquer coisa, mas eu acho que no meu caso sempre foi nessa perspectiva e onde que entra a questão de gênero. Eu comecei, assim que eu tenha percebido, nesse processo de mascarar, de querer copiar comportamentos para ser aceita, eu não sabia muito bem como agir em contextos sociais. Todas as minhas dificuldades começaram a se potencializar a partir do momento que as demandas sociais foram mais difíceis, né?
Então eu não sabia o que agir, eu não sabia o que fazer, e eu também tenho irmãos em idades próximas. O que eu fiz? Eu copiava o comportamento deles. Só que o que acontece? São dois meninos e uma menina. Então eles, por exemplo, ficavam pulando, jogavam bola, ou então sentavam de um jeito… Meus pais são muito assim, com coisa de sentar com o cotovelo na mesa, sentar com a perna aberta, não sei o quê. E eu queria fazer igual eles estavam fazendo, porque na minha cabeça o que eles faziam era o certo, porque eles tinham muitos amigos e eu penava para ter uma unidade de amiga. Aí eu fiquei pensando, “Não, então eles sabem muito bem o que estão fazendo, eu vou fazer igual”.
Só que aí toda vez era, “Não, mas eles são meninos, você não pode fazer essas coisas, menina não fala desse jeito, menina não senta assim, você tem que fazer isso, tem que fazer aquilo”. Então minha primeira camada de masking foi essa: “Ok, vou copiar os meus irmãos”. Aí esbarrei nesse: “Beleza, seus irmãos são meninos, você não, talvez você não possa fazer isso”.
Aí já tem esse recondicionamento, porque o que acontece? As meninas já são muito mais cobradas nesse bom comportamento desde cedo. Não é, como o João Victor falou, não é que não aconteça com meninos, não é que isso seja exclusividade das mulheres. Isso é muito comum com mulheres, como a Kaoma ressaltou, pesquisa, mostra, inclusive que isso atrasa o nosso diagnóstico, porque a gente é ensinada desde cedo a se comportar de uma determinada forma. Isso vai em questões muito profundas, tipo até, se você parar para pensar, um tipo de brinquedo que cada um recebe. Por exemplo, a menina recebe as coisas de casinha, não sei o quê, para ficar de boa na dela, menino recebe caminhão, recebe bola. Então, é uma questão do próprio machismo que acaba afetando isso também, em cima das mulheres que ainda são meninas, e é mais um fator que acaba atrasando o nosso diagnóstico e trazendo um sofrimento de longo prazo.
Porque é isso também que o João Victor falou um pouco mais atrás, a gente passa tanto tempo se mascarando, sendo uma pessoa que a gente não é, seja para ser aceito, seja para se esconder dos outros, que chega um determinado ponto que você não sabe mais quem você é.
Eu, um pouco antes de ser diagnosticada, eu não sabia quem eu era, porque já falei isso em alguns episódios, durante a minha vida escolar, a minha identidade era 100% baseada em ser um aluno excelente. Aí acabou a vida escolar, eu não sabia mais o que eu era, qual era o meu propósito no mundo. Porque, como eu tinha todas essas questões, eu mascarava quem eu era, quem eu poderia ser, essas experiências normais de adolescência, eu não tenho nenhuma. E aí, meio que passou isso, eu perdi a base que eu tinha e entrei em crise de identidade.
Aí eu tive o diagnóstico em 2022, e aí eu comecei a entender melhor todo esse processo, e infelizmente eu não posso falar ainda: “ah, agora eu sei quem eu sou”, não, eu continuo sem saber. Mas eu entendo que aconteceu e já é um caminho para ir nesse sentido de “unmasking“, de tirar a máscara, que na minha perspectiva tem que começar de um esforço mesmo, não uma coisa natural. Você descobre o que você está fazendo, aí você vira uma chavinha e fala, “não, agora eu sou 100% eu e é isso”.
Eu acho que você tem que perceber, por exemplo, se você está num ambiente social, aí a luz está te incomodando, está muito barulho, mas você vai se obrigar a ficar lá até todo mundo ir embora, porque você vai ser esquisita se você for embora antes. Beleza, você está fazendo isso porque você está achando que vai ser vista como esquisita, mas você está mascarando uma necessidade sua como pessoa autista. Então, eu acho que tem que partir muito desse pressuposto do autorrespeito para você ter um movimento ativo, pelo menos inicialmente, para tirar essa máscara. Isso também tendo uma rede de apoio perto, que é importante, eu acho que é importante você pensar que não é bom sair tirando a máscara com pessoas que você não confia (risos).
Kaoma: Eu tenho um episódio engraçado para contar sobre o masking da Bella. A gente é amiga desde o ensino médio. Eu entrei no terceiro ano. Quando eu conheci a Bella, uma das primeiras perguntas que ela me fez foi: “O que você quer fazer para o vestibular?”. Na época era vestibular. E aí eu falei: “ah, psicologia”. E aí a gente puxou o assunto. E eu lembro da Bella falando: “nossa, quando terminar o ensino médio eu não vou poder mais usar essa pergunta para conhecer as pessoas”.
(Risos)
Kaoma: E aí ela ficou muito sentida. Eu lembro que eu e a Sara, a gente falou “não, mas você pode perguntar qual o período que você está”. E aí você ficou: “mas não vai ser a mesma coisa”.
(Risos)
Izabella: Em que contexto vocês percebem que acontece mais o masking no dia a dia de vocês? É no trabalho, é com a família, em relacionamentos?
Ana: Nossa, 100% trabalho.
Kaoma: 100% trabalho.
João Victor: 100% trabalho.
Izabella: Por quê?
João Victor: Eu acho que a partir do momento em que o autista recebe o seu diagnóstico, já passa por um acompanhamento, tem toda uma rede de apoio ali, dando suporte a ele, talvez seja um pouco polêmico esse comentário, mas eu acho que o masking vira mais do que uma estratégia de sobrevivência inconsciente. Às vezes a gente simplesmente olha pra si mesmo e fala o seguinte: “vou ir pro trabalho, vou pegar essa porcaria de máscara e colocar na minha cara”, linguagem metafórica, que fique claro, e fingir que sou um outro tipo de elemento, porque senão talvez eu não fique aqui por muito tempo, aí o salário não cai mais na conta. Basicamente isso.
Isso vale pra qualquer outra situação, faculdade, sabe? Vira de fato uma ferramenta. Você literalmente faz essa reflexão, tipo assim: em quais lugares eu devo usar determinado tipo de padrão de comportamento? Que nem a Ana quando vendia os doces, tá ligado? Numa sala era uma Ana, em outra sala era outra Ana. É por aí mais ou menos, só que no contexto mais abrangente.
Kaoma: Acho que trabalho é o maior ambiente pra gente ser punido, porque qualquer coisa que você fizer fora do escopo você está passível a ser perseguido. Então é um ambiente que é muito aversivo por natureza mesmo. Você tem que estar ali, você tem que trabalhar. Então é muito difícil a gente não mascarar nesse ambiente.
Eu geralmente quando estou atendendo, eu tenho até a voz de psicóloga pra eu conseguir entrar. Então eu ligo a câmera, quando eu atendo o atendimento online, e eu uso um tom de voz diferente pra eu mascarar o jeito de falar. No começo da clínica eu fazia mais isso, com o passar do tempo eu fui aprendendo a tirar um pouco a máscara quando não era necessário. Mas com o passar do tempo eu vi que tinha contexto que eu precisava, tinha contexto que eu não podia.
Ana: E trabalho também porque, assim, eu não sei onde eu tava com a minha cabeça, é porque eu também não tinha tido diagnóstico ainda, né? Mas eu fui escolher um curso em que 100% do tempo eu lido com pessoas, que foi a psicologia. Aí como se não fosse suficiente, eu fui abranger a psicologia para marketing para psicólogos e clínicas, que é lidar com mais gente do que só a gente que eu atendo. Aí como se não fosse suficiente, eu fui abranger de clínicas para empresas como um todo. Aí me lasquei, né?
Enfim, eu me lembro de um momento muito específico, assim, a faculdade como um todo, quando você só está estudando teoria e tal, foi OK. No acadêmico eu sempre fui muito boa. No momento em que eu entrei no estágio, que eu tive que lidar cara a cara com o paciente, eu passei mal. Eu não sabia o que eu tinha que falar, eu não sei conversar. Agora eu sei um pouco melhor. Mas a minha supervisora sabia que tinha alguma coisa acontecendo. Eu acho muito engraçado, a minha supervisora virou para a minha colega e falou, “A Ana Júlia tem as questões dela” (risos).
Ana: E aí a minha supervisora falou, “Ana Júlia, qual é a sua dúvida?”. E a primeira etapa era a formação de vínculo. Eu falei, “Eu não sei o que é o vínculo”. E eu li um monte de artigo tentando explicar o que era vínculo, mas não tem uma definição para isso. Aí ela sentou comigo e ela esquematizou. “Olha, isso é o vínculo, você fala isso, se o cliente pegar na sua mão você retribui, se o cliente olhar assim você faz assada”. E aí ela fez um esquema. E aí eu consegui atender, assim, suando frio.
E aí as próximas, assim, pelo menos as primeiras dez sessões ela esquematizou tudo. Se o cliente responder A, você fala B. Se ele responder B, você fala C. E aí foi quando eu comecei a desenrolar, assim. Mas de fato é uma sobrecarga intensa. E aí hoje em dia no trabalho, eu não passo, por exemplo, a situação de: “Ah, se eu não mascarar eu vou ser punida por um chefe”. Porque no caso o chefe sou eu. Só que… nossa ficou egocentrismo, né? Perdão.
Kaoma: Você é autônoma, tá tudo bem (risos).
João Victor: Parabéns!
Ana: Só que eu perco o cliente, eu não capto o cliente para os meus funcionários, eu não capto o cliente para a empresa.E aí todo giro de capital depende de mim. Enfim, só que uma coisa que eu percebi ao longo do tempo é que a gente atrai gente muito parecida com a gente. E aí eu comecei a atrair os clientes dos mais esquisitinhos, igual eu (risos).
E as minhas sócias também, elas têm algumas características assim. E aí até a nossa rigidez, porque eu sou uma pessoa muito rígida, isso já me trouxe alguns problemas. Se tornou um método, assim, no sentido, “Olha, é assim que a gente trabalha”. Se você fugir desse script, a Ana Júlia vai surtar, isso vai causar um problema, você consegue trabalhar assim? Conseguimos, e fui muito bem. Então, acaba dando certo, em algum momento a gente acaba, a gente acaba criando uma forma de mascarar menos. Mas não que seja possível 100% do tempo não mascarar também. Reunião de vendas é aquilo, né? Camaleão.
Kaoma: A gente fica até tenso assim na cadeira: “Não posso ficar rodando, não posso ficar rodando”.
Ana: Ah, o rodar é impossível, você tá vendo aqui, né? Mas na terapia mesmo, com paciente de psicoterapia, é bom quando a gente vai pegando o vínculo, porque agora eu aprendi o que é vínculo. Vínculo terapêutico é tudo, as minhas pacientes são incríveis, assim, tem dia que eu dou graças a Deus, tipo: “Nossa, hoje eu tenho um atendimento”. Porque é o meu momento, assim, de estar com elas e ouvir o que aconteceu. Eu acho muito legal. Tem umas pacientes que são queridíssimas.
Kaoma: Eu acho que eu passei por um processo parecido com o seu, de pensar em mascarar. Tipo, nossa, quando eu comecei no estágio, eu ia muito produzida, com uma roupa muito além, assim, eu também era muito novinha, né? Então eu queria fingir que eu era mais velha (risos). Então eu lembro que eu ficava muito travada, assim, eu ficava tão concentrada no que eu não podia fazer, no mascaramento mesmo, que eu não conseguia me conectar com a pessoa, porque eu não conseguia ouvir direito.
E aí, com o passar do tempo, eu fui percebendo que, olha, melhor eu ficar aqui rodando na cadeira, ou às vezes colocar o braço, e a pessoa lidar com isso, do que eu não conseguir escutar e aí, daqui a duas sessões, nunca mais vou ver essa pessoa. Então foi um processo pra mim também, de aprender que, tipo, lá também é um lugar pra eu estar confortável, né, na clínica, no caso. Então eu também tenho que estar, também é meu espaço, né? E também eu gostaria de ter tido essa supervisora para me ensinar o que era vínculo (risos).
Ana: Ela é incrível, gente.
Izabella: Eu acho que eu acabo mascarando em todos os contextos da minha vida, no social, para ser bem sincera, deve ter umas cinco pessoas que eu tenho liberdade pra não precisar mascarar. O resto eu sinto pelo menos um pouquinho de necessidade de dar uma adequada no comportamento. No trabalho, é onde eu, obviamente, eu convolto com vocês, é onde acontece mais desse fenômeno triste, porque sempre tem todo o contexto, né, de você não poder perder o emprego e tal. Eu, felizmente, sou privilegiada de ser concursada, então eu comecei a poder me dar o… não sei se pode chamar de luxo. Não sei, eu comecei a querer ir nessa direção de: “não, ok, eu não quero mais esconder quem eu sou no trabalho”.
Só que no início eu pensei, né, “ah, vou sair do armário do autismo para os colegas”. E isso foi assim, um passinho de cada vez, eu não abri a porta e me joguei, né? Eu primeiro comecei, “ah, não, eu tô querendo me balançar aqui de um lado pro outro agora, eu vou me balançar? Eu tô querendo colocar um fone de ouvido numa hora que não era pra estar colocando só porque tá barulhento? Vou colocar. Vou, tipo, andar no meio dos corredores com fone e tal, porque ninguém faz isso lá, então, o pessoal olha esquisito. Ou querer, sei lá, sentar de um jeito, ou agir de determinada forma.
E assim, no início realmente tem esse estranhamento, já me perguntaram: “Uai, mas por que você tá aí, tá dançando?”. E eu tava, sei lá, só fazendo um movimento repetitivo ali pra me dar uma regulada. É um esforço constante pra você existir mesmo, que acaba gerando um cansaço crônico, uma sensação de que todos os dias que você chega em casa, parece que você tira 50 mil quilos nas costas e já pensa: “meu Deus, tudo de novo”. E é cansativo, né? Acaba com a saúde mental. Então, eu acho que é importante ter como aliados, a gente precisa sempre de suporte, processo terapêutico, ter aliado pessoas próximas, pra gente aprender a se respeitar, mas também a se proteger nos diferentes contextos sociais. Mas falando em termos de prejuízo, às vezes também possíveis, benefícios, vocês observaram alguma coisa nesse sentido, a experiência de vocês?
Ana: Quando eu fui pra receber o diagnóstico, eu fui conversar com o meu melhor amigo na época, hoje em dia, não mais, porque aconteceram muitas coisas, mas eu ouvi uma frase muito ruim, assim, que eu fui falar sobre o masking, do motivo de eu não estar mais querendo frequentar alguns lugares e tal. E ele, “não, então quer dizer que você foi falsa a nossa amizade inteira. Porque você falou que você gostava de algumas coisas, eu nem sei se você gosta mais, então eu não sei se eu conheço a Ana Júlia”. E aí eu falei, “nossa, mas não é bem assim. Tudo que eu falei que eu gostava, assim, a pessoa que eu me apresentei pra você, eu ainda sou essa pessoa, as conversas que a gente teve. A questão é: não consigo lidar com estar em festas toda semana”.
Ele era uma pessoa, assim, extremamente sociável, e eu não consigo. Então, enfim, aí eu fui trabalhar na mesma empresa que ele, tinha muitos eventos sociais e às vezes parecia que o trabalho que eu entregava era inferior ao quanto eu poderia ser sociável. Ele era o dono da empresa. E aí, tipo assim, o meu trabalho tá incrível, mas você não conseguiu socializar com a equipe, você não é boa o suficiente, porque lá a socialização contava muito. Por conta desses fatores, aí eu ouvi essa frase e eu fiquei muito chateada, tipo, “então você não é de verdade, eu não te conheço”. E era uma amizade de anos, assim, e eu fiquei muito chateada.
João Victor: Mas que absurdo, porque o masking é muito mais complexo do que isso. E, tipo, mas quando a Izabella faz essa pergunta, eu acho que ela abre uma conversa muito mais ampla, né? Porque eu não creio que tive benefícios, factualmente, com os anos de masking, mas tive uma quantidade de prejuízos menor. Ou seja, tá ruim, mas poderia ser muito pior.
Porque quando eu tentava ser esse piadista, dava errado do mesmo jeito, porque as pessoas entendiam que eu estava forçando a barra. Porque uma coisa é você mimicar, outra coisa é você fazer essa imitação de maneira eficaz. Fazer essa imitação de maneira que convença as pessoas, fazer essa imitação de maneira que você venha a entender que você está sendo original. Percebem? E não era o que acontecia. Isso só era combustível para zoação, pro bullying ser ampliado cada dia mais, e o isolamento da minha pessoa continuar se perpetuando.
Kaoma: Eu acho que pro autista não tem ganho, acho que é o que o João falou. Então acho que quem ganha é a sociedade, porque você quer que as pessoas se enquadrem num tipo específico, um tipo estatístico, “normal”, e se você foge daquilo, eles vão te punir. Então se você está se adequando, entre muitas aspas, àquela situação, pra sociedade é ótimo. Individualmente é horrível pra quem precisa passar por isso.
João Victor: Quando a Izabella falou sobre se assumir autista aos poucos, eu lembrei do seguinte, às vezes o cordão de girassol, ou de quebra-cabeça, às vezes ambos, nem sempre vai ser uma ferramenta tão útil pro unmasking, lá vai eu sendo polêmico de novo. Pode ajudar? Pode ajudar. Mas somente o cordão, puro e simplesmente, não vai retirar todas as facetas que você utilizou ao longo da vida, de uma hora pra outra. É algo muito gradativo e complexo também.
Izabella: Essa questão do cordão que você mencionou é até engraçada, porque foi outra etapa do meu processo de assumir o autismo no ambiente de trabalho. Porque primeiro eu comecei só com o de girassol, e ninguém sabia o que era o de girassol. Primeiro as pessoas olhavam, “ai, que lindo, você gosta muito de girassol”. Juro, eu ganhei uma vasilha de girassol, porque uma colega viu no mercado, e disse “eu sei que você ama girassol”. Eu fiquei “ah, obrigada pela vasilha, mas não tem nada a ver” (risos).
Enfim, comecei com o de girassol, aí comprei um que é de girassol por fora e por dentro são os quebra-cabeças, e tô querendo, quando me sentir mais segura, evoluir pra um igual do João Victor, porque de um lado o girassol, de outro lado o quebra-cabeça. Porque agora já tem mais gente que sabe que eu sou autista, eu vou demonstrando esses sinais aos poucos, e pedindo… Faz parte também do processo, pedindo as adaptações que eu preciso. Então achei curioso você falar isso do cordão, porque no meu processo ele foi, ironicamente, ele foi uma etapa importante nesse processo de tirar máscara do trabalho.
Então é isso, pessoal, obrigado por acompanhar mais um episódio do Introvertendo. Eu queria agradecer as nossas convidadas Kaoma e Ana Júlia por estarem aqui com a gente hoje, e abrir o espaço se elas quiserem deixar um recado final.
Ana: Muito obrigada, Izabella, pra mim é um prazer participar. Eu tava comentando com o Tiago, o Introvertendo foi o primeiro podcast que eu ouvi, assim, na minha vida, quando eu tava cogitando o diagnóstico de autismo, e o primeiro episódio que eu ouvi foi o episódio 14, que foi de autistas na balada, porque eu falava “gente, eu não posso ser autista se eu já fui em festinha da faculdade”. E é isso, né, 100% masking, mas que eu precisava de um esforço muito grande pra estar ali, e eu acho que conversou tanto, e eu fiquei muito feliz, de fato, com o convite.
E hoje em dia eu vejo trabalhando com o público autista adulto, principalmente, eu comecei na área infantil, migrei pro público adulto e familiares, tanto que é importante a gente trazer esses temas, porque as pessoas, elas acham que o autismo é um universo muito distante, que uma pessoa próxima nunca vai ser autista, que uma pessoa, que elas mesmas não serão autistas. Mas às vezes você vai pegando alguns padrões de comportamento, e às vezes quando a pessoa recebe o diagnóstico de autismo, ou um parceiro, é como se aquilo fosse o fim do mundo, é como se não tivesse nada a ser feito.
E a gente vai trabalhando no processo psicoterapêutico que existem muitas coisas a ser feitas, e a primeira delas, o unmasking, você descobrir quem é você de fato, que até o momento você não foi. Então, é começar a desfazer tudo o que foi feito até ali, e é muito bonito ver isso acontecer na prática, de verdade.
Kaoma: É bonito mesmo a gente ver a pessoa ali começando a ser ela mesma, tipo, começando a se entender enquanto pessoa mesmo. Queria agradecer também pelo convite, por estar aqui de novo (risos). É sempre uma honra estar aqui.
Izabella: Antes de encerrar, eu queria dizer que se você tem interesse nesse tema, o episódio 92, “Camuflagem com Autismo”, lançado em 2020, tá lá nas nossas plataformas também.

