Comediante, publicitário e apaixonado por música, Deco Machado transformou vários temas da sua vida, como o autismo, a bissexualidade e umbanda, em shows que rodam em todo o Brasil. Neste episódio, Gustavo Borges e Izabella Pavetits recebem Deco para um papo sobre sua vida, gostos pessoais, trabalho, música e muito mais.
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Transcrição do episódio
Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo. Hoje vamos conversar até os autistas entenderem as piadas.
Izabella: Oi, pessoal, aqui é Izabella. Não sei se vocês já repararam, mas todos os nossos episódios terminados em zero são entrevistas. Então, hoje nós temos um convidado muito especial.
Gustavo: Hoje temos aqui conosco aquele que foi descrito como parte de tantos grupos minoritários que poderia ter subido a rampa com o presidente Lula, acumulando as 10 pessoas que estavam acompanhando ele. Deco Machado, senhoras e senhores!
Deco: E ai! Pensei que ia ter aplausos, mas aqui não tem, né? Tudo autista. Mas e aí, gente, tudo bem? Muito obrigado pelo convite, estou feliz de estar aqui e eu não sei o que falar.
Gustavo: E eu gostaria de já começar lembrando para você que ainda não está seguindo nossas redes sociais, que nos acompanhe pelo Instagram, pelo Facebook, pelo Twitter e pelo TikTok.
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[Vinheta de abertura]
Gustavo: Eu gostaria de começar pedindo para você contar para a gente como é que foi gabaritar seu teste de autismo.
(Risos)
Deco: Cara, não, eu fui atrás do diagnóstico porque minha melhor amiga foi diagnosticada, né? Aí, conversando com ela, eu fui descobrir mais sobre autismo também para conseguir entender melhor ela. Aí, eu fui me entendendo melhor e aí eu já estava fazendo terapia. Por acaso, minha terapeuta tinha especialidade em autismo, então ela já me pontuou e eu estava com a ideia já, né? Ela também estava com a ideia de que eu era autista e a gente foi atrás, assim.
Então, aí ela me ajudou muito a ir atrás de todo o processo de diagnóstico, psiquiatra, essas coisas, mas foi um processo demorado, demorou um ano e quatro meses. Mas foi um processo, mas depois foi legal, assim, no que dá para ser, sabe? Tipo, no máximo do que dá para ser legal, foi legal ter o diagnóstico.
Gustavo: Que idade você tinha?
Deco: 27, foi com 27.
Izabella: E que características você viu estudando sobre autismo para ajudar sua amiga, que você viu em você e que te fizeram pensar “hum, aí tem”?
Deco: Vixe, a gente sempre foi muito parecido, eu e minha amiga, né? Então, já tinha isso, que se ela foi diagnosticada, a gente é muito parecido, tem alguma coisa ali. Mas, por exemplo, a minha dificuldade de olhar, de olhar no olho, eu lembro a primeira vez que eu olhei no olho na minha vida, assim, foi muito consciente, assim.
Eu tinha 15 anos, eu sei que é foda falar isso porque eu me apresento, mas até os 16 anos eu não conversava direito, não conseguia manter uma conversa. Foi fazendo teatro que eu consegui ter melhor essa desenvoltura de conversar, de ter mais essa, não ansiedade social, não sei qual que é o contrário de ansiedade, mas essa paciência social, assim, de entender, de conversar. Ainda tem dificuldades, obviamente.
Foi principalmente isso, na questão da comunicação e socialização, eu acho. E o hiperfoco em Beatles, né, também. Mas aí eu achava que era normal todo mundo ter isso, mas não é. Aí, tipo assim, eu sempre fui estranho porque eu não escutava as músicas do dia a dia, né? Eu só escutava só Beatles e só queria falar de Beatles e o pessoal não queria, aí me achava chato. Mas isso eu não entendia que era coisa de autista, sabe? Eu entendia que era só que eu fosse diferente, né? Mas não era só um diferente, era um diferente com…
Gustavo: Muito específico.
Deco: É, era um diferente muito específico com diagnóstico, assim. Era um diferente com diagnóstico.
Gustavo: Você sente que esse diagnóstico tardio prejudicou em alguma coisa? Tipo assim, “ah, se eu tivesse tido diagnóstico antes, eu poderia ter buscado uma ajuda melhor?” Tipo assim, “teria melhor desempenho social para essa interação?” Ou qualquer coisa nesse sentido? Porque assim, a regra para nossa geração meio que é ser diagnosticado tardiamente.
Deco: Sim, sim. Eu pensei muito isso na questão do luto do diagnóstico, né. Quando a gente recebe o diagnóstico tardiamente, a gente mesmo estando… Nossa, me entendi, pra mim… Eu lembro muito o sentimento que foi, tipo… “Ah, é isso? Beleza, nossa, tem uma resposta. Ainda bem que é isso, porque eu estava procurando uma resposta pra me entender por que eu sofro tanto”. E aí, é bom encontrar, “ah, tá, essa é a resposta”.
Mas ao mesmo tempo é tipo, “putz, essa é a resposta”. Por que não foi respondido antes? Por que eu tive que passar por tanto sofrimento até ser respondido? Hoje eu sinto que eu tive no momento certo o diagnóstico. Porque também se eu tivesse antes, eu acho que não ia ter sido bom. Porque ter o diagnóstico de autismo na infância já é ruim. Porque as pessoas começam a te ver diferente, como incapaz, desde a infância. E eu acho isso prejudicial.
Eu acho que todo autista tem a possibilidade de ser capaz em atividades, em funcionalidades, que a gente só precisa descobrir a partir de tratamento, a partir de buscas. Então, eu acho que se eu tivesse diagnóstico na infância, meus pais iam me colocar num casulo, sabe? Não iam deixar eu ter sido tão solto quanto eu fui. Embora eu tenha sido solto, me causou muitas dificuldades. Mas porque eu fui diagnosticado com ansiedade aos oito anos de idade, meus pais já buscaram um tratamento para isso. Então, desde a infância eu tive um tratamento psicológico. Um acompanhamento psicológico, eu tive muita sorte nisso também. Mas eu acho que o diagnóstico é bom e ruim, né?
Gustavo: Pelo menos você teve um apoio, um suporte de ter psicólogo…
Deco: Sim.
Gustavo: Você teve ajuda, não aquela ajuda assim… Especificamente do que você precisava, mas uma ajuda mais geral.
Deco: Exato, eu fiz fonoaudiólogo na infância, eu fiz fisioterapia na infância. Porque eu andava na ponta do pé. Só que eu não sabia que isso era coisa de autista. Não sabia que essas características eram de autismo. Aí eu sempre não gostei de lugares com muita muvuca, sempre passei mal saindo de casa. E aí, me diagnosticaram com ansiedade social, que é uma das comorbidades do autismo. Então, tem um diagnóstico certo ali. Mas não era exatamente o que eu estava precisando.
Então, eu fui… Sempre tive esse tratamento pra essa ansiedade. Depois tive esse tratamento pra depressão. Só que nunca foram tratamentos completos que deram certo, que nunca me deixaram realmente bem. Até eu ter o diagnóstico de autismo, que aí eu entendi tudo que eu passei e falei: “ah, era mais do que aquilo”. É como se eu estivesse tratando uma gripe, porque viram que eu tenho febre, viram que eu tô tossindo. Mas não era só uma gripe. Era uma pneumonia, sabe? Então, eu sinto que foi muito isso.
Então, o diagnóstico pra mim… Consegui buscar o tratamento. Mas ao mesmo tempo é… Mas foda que só foi agora, né? Putz, ia ter sido melhor antes? Não sei, eu acho que não. Eu acho que se eu tivesse sido diagnosticado com oito anos, quando eu fui diagnosticado com ansiedade. Se fosse autismo, eu acho que minha vida teria sido… Eu teria tido menos evolução. Porque eu acho que meus pais não iam ter tido um tratamento como me trataram. Eu acho que meus pais iam ter a visão de que eu seria incapaz. Porque o autismo, eu acho que ele traz ainda essa visão de “incapacibilidade”.
Gustavo: Eles não iam te deixar ir pra São Paulo sozinho?
Deco: Não iam. Já foi difícil deixarem eu sem o diagnóstico, tá ligado? Já era difícil meus pais deixarem eu ficar… Eu sair pra casa de amigo, de ficar… Dormir lá, sabe? Eu também tinha dificuldade de dormir. Então isso daí também era outra coisa.
Gustavo: Eles só não queriam te buscar meia-noite e meia.
Deco: Não, eu não sei. Eu acho que eles me protegiam bem por causa do diagnóstico mesmo, sabe? Então, meus pais tiveram essa preocupação. Mas eu acho que foi no limite bom. Eu acho que se fosse autismo naquela época, que não tinha tanta informação, e a informação que tinha era que o autismo era 100% incapaz… E eu era realmente incapaz em vários aspectos. Eu tinha muitas dificuldades em vários aspectos, que foram tratadas. Que foram tratadas como dificuldades que poderiam evoluir. Porque foi tratado como ansiedade. Se tivesse tratado como autismo, eu acho que não iam pensar que poderia evoluir. E isso é uma briga que eu tenho muito na comunidade.
Izabella: Então, mas você acha que… Você mencionou que teria o risco dos seus pais,
que já são superprotetores, ficarem mais superprotetores ainda.
Deco: É, eles não são muito superprotetores, mas sim. É (risos).
Izabella: Você tendo o diagnóstico mais cedo, as terapias que você fez poderiam ser melhor direcionadas e as consequências que você mencionou, principalmente no campo da saúde mental, não poderiam ser menores? Você sentiria menos os efeitos de ter sido diagnosticado tardiamente?
Deco: Eu acho que melhoraria alguns aspectos, mas eu não acho que eu ia ter desenvolvido a minha comunicação, por exemplo.
Izabella: Por causa dessa questão?
Deco: Eu não acho que meus pais iam deixar eu fazer teatro. Que foi o que desenvolveu a minha comunicação. Então, eu não acho que meus pais iam deixar eu fazer isso, por exemplo, se eu tivesse o diagnóstico de autismo. Que já foi difícil eu fazer, e querer seguir uma carreira artística sem ter o diagnóstico. Imagina com o diagnóstico, indo morar em São Paulo, pra fazer curso de teatro também, né. Fui fazer faculdade de comunicação. Mas fiz… Minha ideia era fazer teatro, na verdade. A faculdade foi só uma desculpa.
Gustavo: Aliás, esse eu acho um parênteses maravilhoso. Como é que tanto autista estuda comunicação? Só nessa mesa tem três, mais o diretor ali.
Deco: Porque, cara, eu lembro que meu presente de 15 anos foi um livro pra entender comunicação não verbal. De gesto, né. Porque com 15 anos eu já tinha consciência de que eu não sabia comunicar. Que eu não sabia entender. Porque eu tinha tantos problemas de comunicação que eu falava “Cara, eu sou burro em comunicar”. Eu achava isso. Eu sou burro em comunicar e preciso aprender.
Izabella: É uma com a capa amarela e vermelha?
Deco: É…
Izabella: Ganhei o mesmo!
Deco: Viu? (risos).
Izabella: Igualzinho.
Deco: Viu?
Izabella: E é engraçado, porque foram os meus pais que me deram. Porque eu tinha essa sensação de que eu não entendo também o que os outros estão falando, as coisas. Eles “Não, tá tudo bem, isso é normal. Chegou meu próximo aniversário. Livro de comunicar”. É, de gestos e…
Deco: Mas eu pedi esse livro. Meu pai achou estranho eu pedir isso com 15 anos de idade, tá ligado? Mas eu pedi, porque eu queria entender como as pessoas funcionam. Porque eu sempre…
Gustavo: Tudo parece ser tão fluido, né?
Deco: É, porque eu sempre entendia que eu falava “Cara, eu não funciono igual eles. Eu tenho alguma coisa que eu não funciono igual”. E a gente tem uma imposição de funcionar igual, né? Então eu tava nessa questão de “Pô, eu preciso funcionar igual”. E até o diagnóstico, eu estava nessa questão de que eu tinha que funcionar igual. Até eu perceber que “Ah, não. Meu jeito de funcionar não é igual. Tá tudo bem, eu sou outro tipo de carro”. -Sabe? É tipo… Pra mim, todo mundo é…
Gustavo: Elétrico.
Deco: É, é tipo “Ah, meu carro é elétrico, meu carro, a bateria é menor. Mas se for na estrada, ele corre super bem”. Tipo, se for na estrada de terra, sei lá, ele tem uma puta performance, porque ele tem hiperfoco em terra. Mas se for na estrada normal, eu tenho dificuldade de correr, sei lá. Mas tipo, tentando fazer analogias. Mas é isso, eu sou outro carro, só. Tipo, eu só funciono de um jeito diferente da normalidade, né? Do típico, né? Que a gente fala.
Izabella: Antes de ter seu diagnóstico, você falou que se… Já sabia que você era diferente. Você tinha alguma hipótese do porquê você era diferente? Ou a sua cabeça era “Ah, eu sou diferente, ponto”?
Deco: Eu pensava que era por causa da ansiedade, por causa do diagnóstico de ansiedade. Com 16 anos, eu achava que eu era bipolar. Então, até fui atrás de bipolaridade, porque eu sempre tive essas coisas do tipo… “Ah, tô num ambiente muito… Tô num ambiente que tem muito barulho”. No colégio. Pô, tô super bem ali no recreio do colégio. De repente, eu tava triste pra caralho, eu não queria estar ali, eu queria conversar com ninguém, eu tava com muita raiva. Porque eu tava… Hiperestimulado. E eu não entendi o que era hiperestimulado até eu ter o diagnóstico. “Ah, tá. Agora eu tô sentindo isso”.
E eu pensava que eu era bipolar, que eu pensava… Não, do nada, eu tava de moda e boa, que do nada, eu tô com raiva de todo mundo. É bipolaridade, eu achava que era isso, né? Com 16 anos ainda, eu achava que era isso. Então, fui atrás do diagnóstico de bipolar, não tive esse diagnóstico.
Aí, eu tive o diagnóstico de superdotação também, de… Só que nem levei a sério, tinha até esquecido que eu tinha diagnóstico. Até voltar, eu guardei as pastinhas, né? Aí, quando eu fui pesquisar do autismo, eu… “Nossa, eu fiz esse teste aqui”. Aí, fiz o teste de QI. Tinha vários testes que eu tinha feito… Essa coisa de bipolaridade, aí tinha teste de QI que foi feito. Vários testes lá que não deu popular, mas deu superdotação. Eu nem lembrava, nem sabia. Tipo, eu acho que na hora, como eu era adolescente, até desconsiderei. Só que, enfim, eu odeio isso (risos). Mas eu acho que todo mundo que é superdotado não gosta de ser superdotado, eu acho. Sabe? Porque o pessoal tem uma visão muito diferente.
Gustavo: É porque eles acham que você ser superdotado quer dizer que você tem, tipo, todas as inteligências reunidas. E não, você tem uma delas muito boa, as outras dez…
Deco: É pior, é pior (risos).
Gustavo: Tipo assim, você não distribuiu bem seus pontos, você ficou tudo naquilo.
Deco: Exatamente. E aí, eu sinto que é isso. Por exemplo, eu tenho muita facilidade com música. Aprendi muitos instrumentos sozinho. Tipo assim, eu toco mais de 15 instrumentos que aprendi praticamente tudo sozinho. Toco bem, excelente? Não, mas eu toco razoavelmente bem.
Gustavo: Se você parasse de tocar 15 instrumentos e focasse em dois…
Deco: Exato, seria foda. Mas não consigo. Então é isso, mas ao mesmo tempo, é isso. Eu tive que estudar comunicação. Eu tive que fazer uma faculdade de comunicação pra tentar entender melhor como me comunicar, sabe?
Gustavo: Você fez comunicação na USP com qual habilitação?
Deco: Publicidade e propaganda.
Gustavo: Tudo bem, eu também sou formado em comunicação, com habilitação em publicidade.
Deco: Lamento.
Gustavo: A Izabella é formada em comunicação com habilitação em jornalismo.
Deco: Melhor.
Izabella: Sinto muito para todos nós.
Deco: Nossa, sim. Ficou triste de repente.
Gustavo: A gente já sabia que não ia ganhar dinheiro, tá bom.
Deco: Eu queria ser comediante, já sabia mesmo.
Gustavo: Viu? Estava muito definido.
Deco: Publicidade era o plano melhor.
Izabella: Você foi fazer publicidade, foi mais… Porque você queria ir pra São Paulo e é um curso que seus pais não iam implicar.
Deco: É, foi um… Eu não queria fazer publicidade. Eu queria fazer artes cênicas, ainda bem que eu não fiz. Porque eu acho que não é o curso que eu pensava que seria. Porque eu ainda fiz algumas aulas nas artes cênicas. Então, realmente, eu vi que a vibe não era minha. Publicidade foi o que meus pais aceitaram fazer.
E eu passei aqui em Goiânia, só que eu passei… Eu queria passar no Rio de Janeiro, que eu já conhecia a cidade. Não consegui passar lá. Passei em São Paulo e eu falei, “ah, cara, eu prefiro ir pra São Paulo mesmo”. E fui. Porque eu queria sair.
Eu queria sair de Goiânia, eu queria fazer teatro. Eu sabia que aqui não ia dar. Eu queria, tipo, fazer coisa, sabe? Eu queria ser comediante, queria fazer improviso, queria fazer coisa. Eu queria… Eu era hiperfocado nisso, né? Então, eu queria viver isso e em Goiânia não dava. Então, ou era Rio de Janeiro ou São Paulo.
Gustavo: Cara, autista naturalmente tem uma dificuldade em entender as entrelinhas, entender piada, entender humor, aquilo que não está sendo dito explicitamente ali. Quando foi que você conseguiu entender uma piada?
Deco: Eu me apaixonei por piada quando eu era criança, né? Eu não lembro de achar graça. Eu lembro de achar interessante fazer graça.
Izabella: Qual é a diferença?
Deco: Você não… é ser palhaço, né? O palhaço não se diverte.
Izabella: Entendi.
Deco: Eu não me divertia com a piada em si, mas eu me divertia vendo os outros… Eu queria entender como aquilo fazia alguém rir. Eu acho que era isso, eu queria entender o mecanismo, né?
Gustavo: A piada nem era tão boa assim, mas como ele contava, as pessoas riam, ele gostava dessa parte.
Deco: É, é meio, tipo… Meu show eu não acho engraçado, pra ser sincero assim. Tem pouquíssimas piadas ali que eu falo, “ah, não, isso aqui eu acho realmente engraçado”.
Gustavo: Já, já a gente chega nesse ponto (risos).
Deco: Entendeu? Eu sempre me apaixonei… Eu tinha um livro de piadas que eu ganhei, né? E eu me apaixonei por causa disso. Eu queria entender a estrutura do livro. Eu queria entender a estrutura de… “Ah, por que falar isso daqui é engraçado?” Sabe? “Por que falar isso daqui faz as pessoas rirem?” Eu queria entender o humor da tira, eu acho que era isso.
Gustavo: Eu entendo, cara. Porque eu também… Tudo pra mim era absolutamente literal. Eu não conseguia embarcar, entender… Até um dia que caiu um livro de piadas na minha mão. E eu li aquilo repetidamente, até que algumas começaram a fazer sentido. E aí a gente entende exatamente a estrutura.
Deco: Sim.
Gustavo: Que é aquilo que você já falou recentemente, em algum vídeo seu que como é que autista consegue fazer humor? Pode não parecer, mas tem regras. Se você entende as regras, você consegue trabalhar dentro daquilo.
Deco: Uma regra muito fácil de todo mundo entender. Regra de três, que eu acho que é uma regra bem básica do humor. O que você vai fazer na regra de três? Você vai estabelecer uma introdução, na primeira ou na primeira parte. Na segunda parte, você vai reafirmar essa introdução. E na terceira parte, você vai quebrar a expectativa que você criou.
Então, por exemplo, bem besta. “Eu fui na feira, eu comi maçã, banana e tua irmã”. Tipo, besta, besta. Mas é isso, ó. Primeira coisa, eu comi uma fruta, eu comi uma fruta e comi uma pessoa. Aí a piada tá dentro do verbo comer, que tem dois significados. Mas também tá na estrutura.
Gustavo: Você, sendo um homem bi, devia ter falado que comeu seu irmão. Porque aí teria a piada da fruta no sentido da homossexualidade.
(Risos)
Deco: Também. Mas enfim, é estrutura, tá ligado? E eu acho que quando eu li uma piada, ao invés de só escutar. Quando eu li e você vê a estrutura visualmente, eu acho que foi quando eu… “Ah, tá. Tem alguma coisa aqui”. Aí eu fui indo atrás disso, de entender a estrutura mesmo, sabe? Eu acho que eu nunca… Obviamente eu acho coisas engraçadas, né? Eu rio com algumas coisas e tal. Mas eu acho que nunca foi… Eu nunca dei muita risada convencional, assim, sabe? Eu acho que eu sempre rio em momentos…
Gustavo: Inapropriados?
Deco: É, talvez, assim, sabe?
Izabella: Que tipo de coisa você acha engraçada?
Deco: O que não é intencional. Porque… Então, tipo… Cara, no dia a dia, uma pessoa errar alguma coisinha, eu acho engraçado. Que é tipo, “ah, uma coisinha qualquer eu acho engraçado”. Não consigo dar um exemplo, assim, porque é tão banal, sabe? O ordinário, pra mim, é engraçado, sabe? Eu acho que isso também tem a ver com a visão do comediante. Que é… Eu consigo achar graça, porque eu criei uma graça na minha cabeça a partir de algo que eu vi, só.
Gustavo: É porque aquilo que é engraçado, feito pra ser engraçado, tem um limite. A gente já prevê a piada, a gente vê a piada que ele…
Deco: Sim, exato.
Gustavo: A gente vê ela chegando. Aquilo que você falou, a pessoa tropeça e fala alguma coisa… Você já riu porque quebrou, você não conseguiu esperar aquilo.
Deco: É, eu acho que como comediante, eu já sei o que vai ser… Quando eu vejo uma pessoa estruturando a piada, né. Ou vejo alguma coisa… “Ah, aqui é uma estrutura de piada”. Às vezes, nem a pessoa sabe que ela vai contar uma piada. Mas eu já vi, “ah, aqui tem uma estrutura que ela pode quebrar”.
Gustavo: Ela vai contar uma história, mas nessa história vai virar uma piada.
Deco: Mas nessa história tem uma piada ali, que às vezes ela nem sabe que é uma piada. Nem sabe qual é a estrutura, ela só sabe que faz o pessoal rir ali, tá ligado? As pessoas pegam nas entrelinhas, eu tive que estudar. Ou pega essa estrutura rápido, sabe? Eu acho que, tipo, isso faz eu não entender… Não é não entender, eu acho não ser mais engraçado pra mim.
Izabella: Mas se você não acha suas próprias piadas, seus próprios shows engraçados, como você sabe que eles são?
Deco: Porque eu conto a piada. Eu nunca sei que piada é boa até a gente contar no palco.
Izabella: Aí você tenta… Você não tem, tipo, um teste? Você escreve, segura na mão de alguém e vai?
Deco: Eu escrevo a piada, eu já sei a estrutura, né. Então eu já sei mais ou menos como funciona. Aí, às vezes, eu testo no Threads. Então eu escrevo lá no Threads pra ver se dá bom. E mais pra ver se realmente é uma piada boa, é só no palco. E aí, você faz diversas vezes, até você lapidar a piada e tá na melhor maneira que você consegue ter ela naquele momento, sabe? Nenhum comediante sabe se a piada é boa até de fazer a primeira vez. E a piada, às vezes, é muito boa na escrita, assim. Tipo, no palco não é. E a gente nem sabe o porquê.
Gustavo: Aí ele vai gastar dois meses mudando uma palavra, entonação, momento da pausa, até fazer ela ficar engraçada para a audiência.
Deco: Sim. Porque a piada, ela tem timing, ela tem intenção, ela tem… O escrito, pra mim, é muito importante. Mas a performance pode estragar tudo, assim.
Izabella: Deco, você já mencionou algumas vezes nos seus vídeos e nas redes sociais que um dos problemas que você enfrenta é a invalidação do seu diagnóstico. E um dos motivos que apontam para isso é justamente você se apresentar em palco, fazer piada. Como você lida com isso, tanto em termos de preservar a sua saúde mental quanto de lidar com gente insuportável comentando no seu conteúdo?
Deco: Ah, não. Hate eu já não me importo mais, assim. Eu acho que eu já sofri tanto hate que eu já percebi que sempre vem de gente de baixo, tá ligado? Então, é tipo assim, ninguém vai criticar quem tá embaixo de você. Você não vai falar mal de quem tá debaixo de você, você vai criticar quem tá em cima, tá ligado? Então, toda vez que alguém tá falando mal de mim, eu tô, “ah, tá bom, sou melhor”. Eu acho que isso me gera uma visão de… de não ser melhor em si, né, mas de não me importar com hate. Chega até a partir do momento que eu não me importo que eu respondo. Porque aí, quando eu vou responder sem me importar, é o jeito que eu acho que eu sinto que respondo melhor, né? E eu respondo pra tentar trazer informação pra fora, né?
Então, toda vez que eu respondo, eu tento fazer conteúdo depois com a resposta, né? Eu tenho essa visão de comunicação mesmo, né? Não, não vou dar atenção pra um hater, e toda vez que eu respondo um hater eu respondo dois que não são haters também. Porque eu tenho a visão de valorizar quem tá comigo, né? Então, se eu vou dar atenção pra uma pessoa que não gostou do meu trampo, eu vou dar atenção para duas pessoas que gostaram.
Então, eu acho que trabalhar isso pra mim me tirou o sentimento de sentir raiva, de receber raiva, sabe? Desse tipo de coisa, porque parei de me importar. Mas ainda tem essa questão da invalidação, de ser algo bem constante, usar isso do show. O que, tipo assim, gente, nada mais autista do que você ficar uma hora falando sobre o que você quer, com o texto que você preparou, sabendo onde as pessoas vão te interromper, e elas só vão te interromper com risada. E você tá sozinho, com apenas um foco de luz e tudo tá escuro. É que o maior medo das pessoas é falar em público, né? Tipo assim, tem uma pesquisa que fala isso, que o maior medo das pessoas é falar em público, o segundo maior medo das pessoas é morrer.
Gustavo: Me mate, mas não me coloque no palco.
Deco: Exato. O pessoal tem mais isso, o pessoal tem mais medo de falar em público do que de morrer. Eu não tenho esse medo, sabe? Ainda tenho ansiedade de falar em público, mas não é um medo pra mim. É porque… cara, eu vou falar nos meus shows hoje, né? Obviamente tem momentos que as pessoas interrompem, a gente tem experiência com isso.
Mas num show, tipo assim, 90% dos shows, eu vou falar durante uma hora, sozinho. Num ambiente que eu sei o quanto de luz que vai ter, o quanto de som que vai ter, porque eu passei tudo antes. Tipo assim, é um ambiente totalmente controlado pra mim. Eu estou sozinho num palco falando o que eu quero, sem ninguém me interromper. Não é difícil, eu não vejo uma dificuldade pra uma pessoa autista fazer isso. Eu acho que as pessoas têm dificuldade de entender o que é isso.
E as pessoas falam “nossa, como você é autista e você faz isso?” E tipo, “e você quer preferencial no ônibus”, que é o que eu mais escuto. Porque o ônibus é um local lotado, cheio de barulho e luz, que eu não tô preparado. Enquanto o show é um local totalmente controlado pra mim. Eu escolhi tudo que tá no show. Escolhi o tanto de som que vai estar no show, o tanto de luz que vai estar no show, as cores da luz, onde o pessoal vai sentar. Tudo é controlado. Tipo assim, esse é um tipo de invalidação que pra mim é só o pessoal… Que é aquela visão que a gente falou antes, que é tipo, as pessoas veem o autista como incapaz.
Gustavo: E as pessoas não sabem o que é o autismo, então elas pegam… Se elas sabem uma pequena parte, elas vão achar que vale pelo todo, que vale pra todo mundo, e tem muita variação entre nós.
Deco: Não, mas eu acho que o principal, eu acho que as pessoas não entendem do espectro, né, porque elas realmente não entendem o que é o autismo. E o que elas entendem de autismo é uma pessoa incapaz, assim. É uma pessoa que, tipo, é uma criança masculina, né, que a mulher não tem autismo, né, aparentemente, para essas pessoas.
Gustavo: Escutou, Izabella?
Izabella: Olha só. Desculpa, gente, eu tô saindo do episódio agora. Um beijo pra vocês (risos).
Deco: Não, as pessoas têm essa visão que o autista é aquela pessoa que é não verbal, que não pode aparecer na frente das pessoas, que tem que estar ali no cantinho, e sabe? E aí, quando a gente que tá aqui, que se comunica, que conversa com um mínimo de destreza, essa pessoa fala “então você não pode ser autista porque você conversa. Você não pode ser autista porque você faz as pessoas rirem”.
Gustavo: Por isso que o Introvertendo, o slogan é um podcast onde autistas conversam.
Deco: Aí, ó, viu?
Izabella: Eu achei curioso você falar que se sente mais confortável no palco, conversando com várias pessoas. É porque você que controla, tenho uma experiência parecida. E sempre falam “nossa, mas você fala tão bem em público, faz apresentação, não sei o quê”. Eu não sou comediante, nem atriz, nem nada, mas apresentação de faculdade, escola, isso antes do diagnóstico, de qualquer forma. Mas eu tenho muito mais facilidade de apresentar eu falando e todo mundo assistindo do que se você me coloca numa mesa com duas pessoas desconhecidas, eu vou travar, eu não vou falar uma palavra.
Deco: O pior é que, tipo, pra apresentar trabalho de faculdade mesmo, de colégio, eu tenho muita ansiedade. Porque eu vou ver o pessoal amanhã, né? É tipo, o meu público, eu vou fazer o show hoje, eles vão me ver daqui um ano. Se eles forem me ver de novo. Entendeu? É gente que eu não vou conviver. No colégio, se eu passar vergonha hoje, eu vou ficar um ano com eles me vendo todo dia. Eu tenho, pra mim, é tipo assim, apresentar um trabalho no colégio era muito mais difícil do que fazer um show.
Izabella: É, não, mas é porque são contextos diferentes. O seu show é um negócio que você tem confiança que vai dar certo. Eu sempre fui obcecada com estudar. Então, eu não tinha essa de “ah, eu vou mandar mal na apresentação”.
Deco: Então você sabia que…
Izabella: Eu ensaiava um trilhão de vezes em casa, então eu ficava assim, “não, eu sei do que eu estou falando”. Se quiserem questionar, eu sei responder. Então, assim, são contextos diferentes, mas é a mesma coisa.
Deco: É, então, é a mesma coisa, mas é exatamente essa diferença. Tipo, cara, eu consigo me apresentar num show pra mil pessoas, e não consigo fazer um seminário para dez. Entendeu? É tipo…E parece que é a mesma coisa, mas não é, né?
E é isso, o pessoal tenta invalidar, porque a gente consegue fazer, tipo… Cara, beleza, eu consigo fazer isso, mas eu consigo fazer isso com muito mais dificuldade do que quem faz. Hoje eu tenho mais seguidores, eu tenho mais estabilidade de shows, e eu faço menos shows, porque eu não aguento. Eu reduzi em 50% minha agenda de shows. Eu mudei para Goiânia, porque eu não estava aguentando morar em São Paulo. Por causa do barulho de São Paulo. É tipo assim, gente, isso não é facilidade (risos).
Gustavo: Já chegamos nesse ponto. Só quero aproveitar, quem ainda não entendeu, quem ainda não caiu a ficha, o Deco faz stand-up. Ele tem um show completo no YouTube. Podem ir lá assistir. E eu quero saber quando é que a gente vai poder votar no presidente Deco. Porque foi a primeira piada sua que chegou até mim, que foi a que eu mais gostei até hoje.
Deco: Me sugeriram pra política, só que eu decidi que não. Porque não vai fazer bem pra mim, eu acho que eu não tenho cabeça.
Gustavo: Talvez você tenha princípios.
Deco: Sim, mas cabeça eu não tenho. Então, acho que falta, por exemplo, falando em eleição, esse ano é de eleição e eu acho que falta muita representatividade autista, uma coisa que eu vou pautar esse ano. Cara, tem um partido que é o Partido Autista. Não sei se vocês já ouviram falar. Ele se chama Partido Autista, tem uma pessoa autista no partido, que é o vereador.
E quando eu fiz uma crítica a esse partido, em 2024, porque eu fui ver o partido, eu tava estudando sobre política, na questão de inclusão de autistas, vendo leis, vendo o que poderia ir atrás, de coisas pra fazer, sabe? Descobri esse daí e cara, a visão que eles partilhavam no site deles sobre autismo era uma visão totalmente estereotipada, de definição, “ó, nível 1 tem que ser assim, nível 2 é assim, nível 3 é assim”. E aí, tipo assim, eu não era nem nível 1, nem nível 2, nem nível 3 pra eles. Então, eu não era autista, porque autista tem que ser desse jeito.
E aí, tipo, eu fiz uma crítica sobre, cara, como que o Partido Autista ainda tem uma visão estereotipada muito antiga, eles se baseavam em artigos muito antigos, assim. E quando eu fiz essa crítica, eles tiraram minhas frases do contexto, fizeram reels para me atacarem, né? Aí sofri ataques, sofri ameaças de morte, enfim, coisa de política e tal. Tô vivo. E eu vi, cara, que é tipo assim, por isso que eu acho que também é um dos motivos de eu não querer falar sobre política mais nas minhas redes, embora eu vá falar esse ano, porque eu acho importante o que eu represento, né, infelizmente. Mas eu não gosto de representar, eu não gosto de ser um símbolo, né? Mas eu sinto que eu, em algum aspecto, eu sou.
Eu acho que a gente precisa muito ver, porque tem muito político usando o autismo como pauta para só ganhar voto, tá ligado? E tem muito político que faz o autismo de verdade, conhecer… Tô tentando lembrar o nome dela desde que a gente começou esse papo, que eu conheci ela numa palestra. Acho que ela é de São Paulo, na verdade, vereadora ou deputada, assim, de São Paulo. Ela tem uma questão de inclusão dos autistas que eu achei muito interessante, sabe?
Mas a maioria que a gente vê usa a pauta pra ganhar voto, assim, sabe? Tipo, cara, esse Partidos Autista, você vai ver, não tem luta, tá ligado? Não tem luta, é tipo, usa a pauta para, tipo, ganhar voto. E aí, quando alguém critica, uma pessoa autista tem uma visibilidade e critica, eles vão lá e fazem ali até ameaça de morte, tá ligado? Esse é o nível de falar de autismo na política, que é uma coisa muito difícil. E aí, quando me colocaram na cabeça, “ó, dá pra ser vereador”, né? Pelo tanto de seguidor que eu tenho, dependendo do estado, dá pra ser votado, tá ligado? Dá pra ganhar um cargo ali.
Gustavo: Eleições são um concurso de popularidade.
Deco: É, tipo, querendo ou não, nesses aspectos é popularidade mesmo, assim.
Gustavo: Não é projeto, pauta…
Deco: É, exato. E aí, esse é um problema, porque se eu for fazer isso, eu vou ter um projeto. Se eu tiver um projeto, eu vou ter dor de cabeça.
Izabella: É isso que eu ia falar, é complicado porque, se eu não me engano, tem… Eu não sei a quantidade, mas são menos de cinco políticos efetivamente autistas, né? No país inteiro. E eu acho que o autismo é mais abordado na política, como você falou, como uma alavanca na época eleitoral.
Se você parar pra assistir a propaganda, que são, sei lá, dois, três segundos pra pessoa, fala “Ah, eu sou o candidato, não sei o quê, pelo autismo, pelas mães autistas”. Aí você vai ver o que o cara fez no mandato depois, caso ele seja eleito, ele não fez nada. É porque ele jogou lá nos dois segundos que ele tinha: “autismo”. Aí todo mundo vai falar “Não, meu filho é autista, eu vou votar nesse cara”.
Deco: Exato.
Izabella: Então, ele… É usado, a causa, é usada mais como forma de chamar atenção, de angariar votos, do que de fato procurar mudança, né?
Deco: Sim. Eu estudei comunicação, né? E, tipo assim, uma das matérias que a gente tinha em publicidade era a comunicação exatamente eleitoral, né? Que a gente chamava de propaganda ideológica na matéria. Não tem nenhuma comunicação que eu vi no Brasil efetiva sobre autismo em teoria. Na prática, muito menos, mas nem na teoria tá certo, tá ligado?
Vou dar um exemplo de comunicação do governo de São Paulo. Não lembro qual foi o ano, mas em abril, né? Fizeram lá o mês de conscientização do autismo em São Paulo todo. Então, os ônibus estavam todos com a faixa, né? Com quebra-cabeça. Aí o slogan, é a única coisa de comunicação é “Autistas merecem respeito”.
Todo mundo merece respeito. Ninguém tá “só autistas merecem”… Tipo assim, a comunicação tem que ser por que os autistas merecem direitos. Por que autistas têm direitos que as pessoas invalidam esses direitos. Autistas merecem respeito. Não falaram o que é autismo em nenhum momento nessa comunicação. Não fizeram inclusão para autismo. Tipo, campanhas de inclusão, campanhas de conscientização sobre… Não chamaram pessoas autistas para terem a… Só falaram “autistas merecem respeito” e colocaram em vários ônibus. E aí vai, fala que fez isso e ganha voto.
Gustavo: Não adianta você falar que autistas merecem respeito se as pessoas não vão aceitar que você é autista.
Deco: (Risos) Exato, exatamente.
Gustavo: Autista merece respeito, mas você não é autista, você tá aqui falando comigo.
Deco: Exato. E é uma coisa que, tipo assim, eu levo para a minha comunicação que é uma coisa que eu já entendi. A minha comunicação na minha rede social não é… Pra quem já tá na bolha do autismo, no sentido de… Eu não vou lutar por política lá, eu não vou lutar por direitos lá. Obviamente, depende do momento, né. Mas, tipo, não vou realmente concentrar nisso. Porque eu já sofri invalidação pra sentar num ônibus. Imagina pedir uma lei.
Eu vejo que hoje a minha luta, a minha comunicação é pra trazer informação pra quem não é autista. Então, todo momento que eu respondo um hater, que a gente tá falando, eu vou trazer informação sobre por que esse hater tá errado. Eu não vou só xingar o hater, vou falar “Gente, isso aqui não tá certo, porque esse cara tá falando que eu não posso ser autista porque eu tô no palco. Isso aqui não tá certo porque no palco é assim, é assim, é assim, mas eu tenho dificuldade de exigir isso. Eu vou explicar porque sinto isso.”
Aí eu recebo… Obviamente, eu vou receber críticas da comunidade falando “Ah, você tem muitos seguidores, você devia pautar pautas mais importantes”. Mas, gente, eu não consigo nem sentar no ônibus. Eu não consigo nem convencer as pessoas que eu posso sentar no ônibus, porque eu falo bem.
Gustavo: Mas aí vai dar a expectativa das pessoas para você. Não é aquilo que você quer fazer, é só o que você se propôs a fazer.
Deco: Eu me propus a fazer, só que eu fui totalmente invalidado na comunidade de receber ameaça de morte. Eu recebi ameaças de morte três vezes já, e tudo foi de autista, de pais de autista, na verdade. Um foi de vereador, e o outro foi quando eu falei sobre seletividade alimentar.
Gustavo: Temos um podcast inteiro sobre isso.
Deco: Eu só falei sobre seletividade alimentar, sobre uma das dificuldades que eu notei que eu tinha, desde a infância. Aí eu comecei a me invalidar, porque uns comentários me invalidaram, “Mas você não pode reclamar porque você está com seletividade em pizza,
e quem não tem o que comer?” Eu, tipo, “o quê?”
Gustavo: Males da internet…
Deco: Exato. E a outra foi porque eu falei que eu sou contra o nível do suporte. Aí, ó, assunto polêmico.
Gustavo: Não. É porque é complicado de você classificar e categorizar.
Deco: Exato.
Gustavo: A gente está usando o termo espectro, porque é amplo, não são três degraus. É uma bagunça, e tem várias pessoas em várias partes dele, com facilidades, dificuldades e necessidades específicas.
Deco: Mas se eu, como autista, que tenho uma alta funcionalidade de comunicação, vou reclamar disso, é mal visto. Se um autista, por exemplo, que não é verbal, mas faz texto nas redes sociais, com o mesmo assunto que eu faço, vão ver de outro jeito. A minha luta é pra eu ser validado dentro da comunidade ainda. E eu sinto que a minha validação dentro da comunidade só vai vir quando externamente me validarem também.
Gustavo: Porque você não é menos autista que uma pessoa que não é verbal.
Deco: Exato.
Gustavo: E aí temos essa dificuldade de entender.
Deco: E as pessoas não entendem que eu era semi-verbal até os 16 anos (risos). Minha comunicação hoje, gente, eu fiz teatro durante 10… Eu faço terapia desde os 8 anos. Eu faço terapia… Eu tenho mais tempo de terapia do que crianças tem de autismo. Às vezes se fala “ah, mas você é autista porque o meu filho de 8 anos faz isso e você não”. Moça, eu tenho 20 anos de terapia. Seu filho tem 8 anos de autismo, eu tenho 20 anos de terapia. Você não pode me comparar com uma criança, tá ligado?
E eu tive sorte de ter tido… Cara, eu tive fonoaudiólogo desde criança, eu tive fisioterapia… Porque minha mãe, como também sempre foi… Minha família toda foi meio doidinha, né? Então, sempre teve acompanhamento psicológico pra todo mundo. Então, minha mãe não… Nos anos 90, alguém fazer terapia, uma criança fazer terapia é porque ela era doida. Minha mãe não tinha essa visão, então me colocou na terapia. Eu tive essa sorte.
Aí eu fiz fisioterapia, fiz fonoaudiólogo quando criança. Fiz terapia dos 8 aos 17, depois dos 20 até hoje. Tá ligado? Na minha vida, eu fiquei tipo 4 anos, 5 anos sem terapia. Fiz teatro, tive hiperfoco em comunicação. Se eu não me desenvolvesse em comunicação, aí tipo… Se você me compara comigo de 8 anos, eu chorava porque meus pais me obrigavam a falar com o atendente.
Gustavo: Eu tenho uma dificuldade de conversar com os atendentes no telefone até hoje.
Deco: Eu odeio falar no telefone. Eu odeio falar no telefone. Tipo assim, se alguém me ligar, eu não vou atender. Se eu preciso ligar, eu faço alguém ligar por mim. Tipo assim, eu não consigo falar no telefone. Não é que eu não consiga, mas eu tenho uma dificuldade tremenda de ansiedade de falar no telefone. E eu consigo me apresentar para mil pessoas.
Izabella: Pra mim, uma das melhores invenções da modernidade é o aplicativo para pedir comida. Porque quando você precisava ligar para pedir uma pizza, eu falava assim “Ah, liga aí para pedir uma pizza”. Eu: “não, vocês vão passar fome, eu não vou estar ligando para pizza nenhuma” (risos).
Deco: Não, eu odiava quando meus pais, sei lá, a gente ia sair e ia no Habib’s, “Ah, você tem que fazer seu pedido para o atendente”. Eu não conseguia, eu chorava de ter que fazer o pedido. Não conseguia fazer o pedido, eu chorava, no limite de eu chorar.
Gustavo: De ter uma interação com uma pessoa que você nunca viu na vida e não sabe como ela é.
Deco: E não é tipo, era tipo assim, com 11, 12 anos. Não era tipo criancinha, já era um pré-adolescente. Tipo, já tinha umas independências ali. E eu não conseguia, enquanto outras pessoas da minha idade conseguiam.
Mas hoje eu consigo. Porque eu tive um tratamento. Porque eu tive toda uma terapia. Porque eu não fui visto como incapaz a minha vida toda. Apesar de eu não ter tido a capacidade no momento que era pra ter aquela capacidade, eu fui capacitado.
Gustavo: Porque você não é mais uma criança pequena, então.
Deco: Exato.
Gustavo: Mesmo que tivesse várias outras dificuldades, você teve um tempo a mais para se desenvolver que uma criança não teve.
Deco: Não, é assim, uma coisa que eu tenho assim, de quando me comparam qualquer autista adulto com criança, que é tipo assim, gente, se a gente parar para pensar toda criança precisa de suporte. Não é só a criança autista que precisa de suporte. Toda criança precisa de suporte porque é uma criança, é um ser em desenvolvimento. A criança autista precisa de mais suporte. Mas tipo assim, quando me comparam a uma criança, estão me comparando aos suportes normais de uma criança. Tá ligado? E não suporte por causa do autismo. Tô tentando lembrar quem me compararam, mas uma vez compararam que eu não cago na calça.
Izabella: O quê?
Deco: Que eu não cago na calça e o filho da pessoa, quatro anos, o filho da pessoa caga na calça e eu não cago. Então não podia ser autista.
Izabella: Mas tem quatro anos. Acontece…
Deco: Exato. Exato. Eu tipo assim, eu fiz necessidades na cama até quase 15 anos. Só que eu não tô falando disso, tá ligado? É tipo assim…
Gustavo: Então eu acho que vários idosos que usam fralda são autistas e desenvolveram autismo assim, a partir dos 73 anos de idade.
Deco: O diagnóstico veio muito tarde pra eles (risos). Mas tá ligado? É tipo assim, tem umas comparações que é tipo, “Cara, você tá comparando uma criança, você não está comparando autismo”. Isso é coisa de criança, tipo, é uma dificuldade de criança. Que você não tá tratando essa dificuldade, que também pode ser do autismo.
Mas tipo assim, o que eu mais crítico dentro da comunidade, dessas mães que a gente fala que são as mães de anjo azul, que é tipo, “Cara, o filho de vocês, eu sinto que ele vai ter muita dificuldade na vida, eu sinto que a sua vida vai ser muito mais difícil, eu sinto que eu tenho um privilégio muito grande de ter minha família ter tido o financeiro e ter visto a importância do meu tratamento desde criança, eu não posso falar que eu não tive privilégio no meu tratamento”.
Mas, o que eu vejo é que são muitos pais que têm a possibilidade de trazer um tratamento pros filhos, mas não traz, porque é exatamente aquilo que eu falei, que aconteceria comigo, colocaria num casulo. Então, ao mesmo tempo que eu queria fazer teatro, eu tive muita dificuldade de fazer teatro. Mas meus pais me apoiaram pra fazer isso, porque viram que era uma coisa boa pra mim, e viram que eu queria.
Gustavo: E isso te permitiu levar uma vida mais independente, te permitiu morar em outra cidade, viver sozinho lá. Eu só não entendi a parte de por que você voltou para Goiânia. Tipo assim, as pessoas vão pra São Paulo fazer sucesso, você conseguiu um nível de sucesso, e aí você volta.
Deco: Porque eu não preciso mais estar lá. Eu voltei para Goiânia porque onde eu morava em São Paulo era muito barulhento, São Paulo é uma péssima cidade pra morar. Para uma pessoa típica, é uma péssima cidade para morar. Pra quem é autista, eu acho pior ainda. Tipo assim, não ter organização, o planejamento é muito ruim, o barulho é insuportável, tem muita gente. Tipo assim, é muito hostil a cidade.
Gustavo: Mas como que você tá conseguindo manter sua agenda de shows?
Deco: Porque eu diminuí a agenda. Eu diminuí a agenda.
Izabella: Mas isso não impacta, por exemplo, na sua renda mensal?
Deco: Ah, impacta.
Izabella: Qual a sua estratégia? No momento…
Deco: No momento, priorizar a minha mentalidade. Que é isso que as pessoas não veem, que é tipo assim… Cara, eu tenho o mesmo sucesso que outros comediantes. Óbvio que não dá pra medir sucesso, mas é tipo o mesmo tamanho que outros comediantes. E eles estão fazendo 20 shows por mês, e eu estou fazendo 10. Não é porque eu não consigo fazer 20 de vender ingresso, ou porque eu tenho menos sucesso, ou qualquer coisa. É porque eu não tenho capacidade física de fazer 20 shows.
Izabella: Não, o que eu falei de estratégia não é nem tipo assim, “Ah, não, já que você não vai ficar rico, milionário assim, qual seria a sua estratégia?” É porque em dezembro você comentou que seus vídeos tinham sido desmonetizados.
Deco: Não ganhei nada de dinheiro.
Izabella: Pois é, aí quando é esse tipo de situação, e aí?
Deco: Aí eu… Aí é fé.
Gustavo: Aí o pai fica falando na cabeça dele, “olha esse concurso federal”.
Deco: É, também tem isso. Não, mas aí é fé, tipo, “tá, esse mês não foi bom, eu tenho dinheiro guardado para três meses, vamos aí, vamos aí. Tem que trabalhar pra ir atrás”. E a vida de artista é isso, sabe?
Gustavo: Tá, então vamos lá. Você tá em Goiânia, morando aqui em Goiânia, gravando vídeos pra internet e tudo. Você está conseguindo fazer shows fora com alguma periodicidade? Tá pegando avião duas vezes por mês?
Deco: Uma vez por mês eu viajo. Então eu fico em Goiânia num… Acho que agora estamos mais ou menos em recesso, né. Mas eu fico em Goiânia duas, três semanas e viajo duas semanas. Então minha vida tá meio essa. Eu tô, tipo, três semanas em Goiânia e duas viajando. Aí onde eu viajo, aí depende da viagem. Mas passo por São Paulo e depois vai pra algum outro lugar do Brasil. Basicamente isso.
Gustavo: Então mesmo com essa questão de ter que pagar pela ponte aérea agora,
ainda tá te compensando. Tá valendo, então.
Deco: É, tipo, ainda… É que também morar em Goiânia reduz os custos, né.
Gustavo: Bastante.
Deco: É, se eu tivesse ganhando o que eu ganho hoje em São Paulo, não ia estar pagando minhas contas em São Paulo. Mas aqui em Goiânia eu tô pagando. Então eu reduzi minha renda pra ter mais saúde mental. Eu acho que foi uma escolha, assim, sabe?
Gustavo: Mas é uma estratégia interessante de reduzir o custo e meio que voltou.
Deco: É.
Gustavo: Porque eu gosto de comédia, eu acompanho comédia. E eu sei que o passo básico pra todo mundo é ou vai pra São Paulo pra tentar fazer algum sucesso, ou quando faz um mínimo de sucesso vai pra São Paulo pra poder subir pro próximo nível.
Deco: Sim.
Gustavo: Você conseguiu voltar e manter o nível de sucesso. Já é algo, assim, bem curioso.
Deco: Mas é que eu acho que São Paulo não é mais um polo, assim. Porque pós-pandemia ficou muito ruim o stand-up lá, de ganhar dinheiro sem ser com o solo. Então antes, por exemplo, você não precisava ser tão famoso para ganhar dinheiro de stand-up. Você podia… Os comedy clubs tinham noite de convidados, que tinha cachê. Então era noite de elenco, às vezes você era chamado pra fazer uma noite de amadores e você era profissional, então te pagavam cachê também. Mesmo não fazendo turnê, que nem eu faço hoje, o dinheiro é praticamente… O dinheiro que eu ganho é só de shows. Mesmo não fazendo turnês, você conseguia ter uma renda lá, sabe? Então eu tinha uma renda em São Paulo com oito mil seguidores, antes da pandemia.
Gustavo: Tá tendo menos comedy clubs até hoje, então, menos espaço pra poder fazer stand up lá.
Deco: É, não, tá tendo menos noite de elenco. Então mudou, porque aí depois da pandemia priorizaram uns solos, porque aí também teve… Saturou o mercado. É tipo assim, não tem tanto lugar agora pro tanto de comediante que tem. Fica mais competitivo, então mais competitivo significa que tem menos dinheiro circulando pra todo mundo, menos dinheiro circulando…
Gustavo: Mesma quantidade de dinheiro e o dobro de pessoas querendo.
Deco: Exatamente, acho que é bem isso, assim. Mesma quantidade de dinheiro e o dobro de pessoas querendo esse dinheiro, assim, sabe? Então isso faz o mercado também expandir, porque se mais gente tá buscando dinheiro vai vir mais dinheiro em algum momento, de outras formas, descobrindo as coisas. Mas ao mesmo tempo faz o mercado também…
Cara, mas se a gente tá precisando de dinheiro pra lutar mais, então eu preciso garantir mais esse dinheiro, tá ligado? Então eu não consigo mais fazer uma noite de elenco com três comediantes com uma fama média. Tipo, que são conhecidos aqui na cena, que são bons e tals, não são ruins, mas são comediantes bons, mas não são famosos ainda, não estouraram a bolha, sabe? É melhor eu fazer o solo com um comediante famoso do que fazer um elenco com esses três. Porque o elenco eu vou gastar três cachês, o solo eu vou pagar parte da bilheteria, então não vai sair do meu bolso, o elenco vai sair do meu bolso independente da bilheteria ou não. Sabe? Então é negócio ali ainda, sabe?
E o mercado mudou após a pandemia, muita coisa aconteceu também, o entretenimento mudou, né? Teve mais gente na internet. Então eu, por exemplo, estourei porque teve a pandemia. Porque se a pandemia não tivesse tido, a internet não teria tido tanta força na comédia, e eu também não teria ido tanto para internet, entendido tanto a internet, porque eu estaria fazendo mais presencial.
A internet, ela deu um passo na pandemia, porque tava todo mundo online, né? De repente tava todo mundo online 100% do tempo, né? Porque ninguém podia estar presencial. Então, isso fez mudar o mercado stand-up. Você conseguia carreira sendo bom no palco. Hoje, além de ser bom no palco, você também precisa ser bom na internet. Ou só ser bom na internet, porque tem gente que consegue uma carreira que não é bom no palco.
Gustavo: Mas leva público mesmo assim.
Deco: Ou não tá pronto ainda, ou o palco não tá maduro ainda, não é que a pessoa não é boa, mas tipo, pro nível que ela tá de profissional, ela ainda não tem o nível necessário, sabe? Porque ela não tem experiência de palco, porque estourou antes na internet, sabe? Mas o mercado é isso ainda, mudou, não é uma… Não é falando que a pessoa não deveria fazer isso, é o mercado, tipo, tem um público pra isso, dinheiro tá ali, e infelizmente, mudou muito, assim. Não precisa estar mais em São Paulo pra ter essa…
Gustavo: A primeira coisa que eu pensei, eu falei “vou sair de São Paulo…”. Não, eu vi por um acaso que você falou “voltei pra Goiânia”. Acabou a carreira? Mas acabou de fazer só um show, mas agora que era pra…
Deco: Não, mas foi exatamente de, tipo… A gota d’água pra mim foi uma questão familiar, né. Meu avô morreu recentemente, até eu falei nas redes sociais. Porque meus avós já estão velhos, então eu já sabia que meu avô ia morrer, porque já estava acamado há mais de ano. Então, também teve essa coisa de “ah, quero viver os últimos momentos de vida com meus avós”.
Mas também pesou, tipo, toda a questão de São Paulo ser hostil, a questão do dinheiro também pesa, a questão da carreira foi o que pesou ao contrário, né. De tipo “ah, mas se eu não tô em São Paulo, tô fazendo menos show”, por exemplo. Eu fazia show semanal, que é uma coisa que eu tenho… Eu escrevo todo dia, então eu tô escrevendo sem fazer piadas pra saber ser engraçado, então isso é muito ruim. Porque aí eu tô com muita piada pra testar, e não vou ter o tempo de testar tudo que eu quero, porque eu fiquei duas semanas escrevendo pra fazer cinco shows.
Gustavo: Não tá compensando, não tá tendo espaço no Comedy Club local?
Deco: O comedy tá fechado aqui, tá em reforma.
Gustavo: Ah, finalmente, tava precisando.
Deco: É, mas tá em reforma desde agosto, vai ficar até março.
Gustavo: Nossa, eu…
Deco: Então.
Gustavo: Poderia achar que eu fui lá depois de agosto.
Deco: Não, não foi, não foi (risos). Tenho certeza que não.
Gustavo: Porque eu não sou bom com datas, então eu não lembro como foi a última vez que eu tive…
Izabella: Tempo é relativo.
Deco: Eu cheguei em Goiânia na semana seguinte e fechou.
Gustavo: Você já devia estar contando, “pelo menos eu vou testar aqui o local”.
Deco: Não, a minha mudança teve a ver com… “Ah, em Goiânia tem comedy, então tá tudo bem”. Teve a ver com o comedy.
Gustavo: Ah tá, sim.
Deco: Teve a ver com o comedy. Senão eu poderia ter ido pra outra cidade. Eu também tive a ver com a família, né, mas eu já tava querendo sair de São Paulo, eu teria ido pra outra cidade, talvez.
Izabella: Agora, em março, você estreou um show com a temática do autismo. Você pode adiantar, comentar alguma coisa sobre ele?
Deco: Ah, posso, posso. Então, esse show, ele é sobre autismo, mas ele não é só sobre autismo, né. Eu vou falar de outras coisas, mas o autismo é a impulsão desse show
e a base pra ele. Mas eu vou… O diferente desse show dos meus outros, o primeiro que é o Desencaixado, e o outro que é o Testemunha de Oxalá, é que os outros, quando eu fui começar a fazer eles, eles já estavam prontos. Eu já tinha escrito as piadas.
O meu primeiro show Desencaixado, que está no YouTube, é basicamente, tipo, dez anos de texto que eu tinha jogado, e eu consegui juntar e trabalhar numa narrativa disso. O Testemunha também. O Testemunha de Oxalá foi um texto que eu fiz durante o umbanda comedy, que eu participei do grupo. Aí, quando eu fui pra fazer meu show solo, já tinha os tijolos, e eu tive que só cimentar, sabe? Só entrelaçar os textos para criar a narrativa do show. Pra ser orgânico, porque esse tipo de comédia é argumentativo, né. Então, eu tenho… Eu venho argumentar, então eu venho trazer uma ideia e tentar argumentar em cima dela. Então, é bem desencaixado, essas ideias. Eu trago várias ideias, porque realmente é um show que era vários textos soltos, eu fui juntando, fui encaixando e fiz a narrativa ali. Mas a narrativa é de autodescobrimento, né.
O Testemunha de Oxalá, a narrativa é sobre… Que aí eu acho que tá muito mais construído isso dentro do Testemunha do que Desencaixado. A narrativa é sobre levar a Umbanda para fora, sobre mostrar a Umbanda, sob explicar o que é a Umbanda pra quem não conhece. Ser um Testemunha mesmo, né, de Oxalá.
O Transtorno, ele… É o primeiro show que eu faço escrevendo especificamente pra isso. Então, isso tá tendo uma dificuldade bem maior, porque os outros já estavam prontos, né. Que nem eu tava falando, já tava pronto quando eu fui fazer. Quando eu fui fazer, ah, tá, eu só juntei ali as coisas, beleza. Só preciso ajeitar o muro, sabe? Mas já tinha os tijolos, já tinha o material, tudo. E aí eu tive que conseguir o tijolo, tive que fazer o cimento. Ainda estou fazendo, é por isso que eu acho que tá… Eu sinto que eu não fiz nada, porque ainda nem apresentei. Eu só sinto que eu tô com o material ali, só tô com os tijolos ali, e eu acho que eu ainda não fiz o show. O show não tá pronto, porque eu ainda preciso descobrir o que é esse show.
Gustavo: Porque como você falou, é algo que está sendo bem menos testado que os outros.
Deco: Sim, também, né. Porque… É isso, eu não tenho uma noite pra eu fazer os bloquinhos do show. A primeira vez que eu vou fazer esse show, vai ser a primeira vez que eu vou fazer a maioria dos textos ali. Um terço do show já tá testado, e os outros dois textos eu escrevi agora. E vamos ver o que vai ser, basicamente. Vou tentar testar durante essa turnê que vou fazer no Rio, do Testemunha de Oxalá. Aqui a gente tá falando de março, a gente tá em março.
Gustavo: Entre saltos temporais de “Ih, voltar, vou fazer, já fiz”. A questão é que existe um show que vai estar no YouTube?
Deco: Ainda não. Tipo, vai demorar anos, assim, pra estar no YouTube. Esse show vai ser só pra quem estiver ao vivo mesmo. Porque, por exemplo…
Gustavo: Acho válido.
Deco: Porque é o que eu ganho o dinheiro, né. A partir do momento que o Desencaixado tá no YouTube, não tem porquê você comprar ingresso pra ver o show.
Gustavo: Eu entendo, eu concordo, aquela coisa… O show está bom, ele está redondo, tá aqui. Agora é hora de eu fazer outra coisa. Só nessas últimas informações que você deu aqui, você ressaltou dois assuntos que a gente ainda não falou corretamente. Que é a questão de você ser da Umbanda, e também que a gente tá deixando um pouquinho pra trás da sua bissexualidade, que você só se aceitou na Umbanda. É isso?
Deco: Foi, foi. Eu até falo isso, né, da questão da pombagira. Para contar a história de verdade, eu já sabia que eu era bissexual, mas é aquela coisa… Primeiro, a gente não tem você ser bissexual. Pelo menos nos anos 90, quando eu nasci…
Gustavo: Ausência de referenciais.
Deco: É, tipo, não tinha referência bissexual. Ou era hétero ou era gay. E ser gay era errado. Então você tinha que ser hétero, basicamente. E ser bissexual não é uma opção, mas tem a oportunidade de exercer a heterossexualidade também. Então eu acho que é mais difícil pra pessoa bissexual se autodescobrir ou se auto-acessar nisso, porque é tipo, “não, mas eu sou hétero porque eu gosto de mulheres”. No meu caso. “Ah, mas também sempre tive uma atração por rapazes”. “Não, mas eu gosto de mulheres, eu sou hétero. Ali é… Eu não sou gay, tá ligado? Eu não era gay, então eu sou hétero”. Porque não tinha o bissexual como referência.
Quando teve pra mim o bissexual como referência, eu não quis aceitar. Porque também era errado, né? Tipo, toda moral que a gente tem, nunca fui realmente um cara muito religioso, até ser da Umbanda, né? E a Umbanda não tem problema com isso. Mas frequentei outras religiões, e o Brasil é cristão, e a cultura nossa é cristã. Então, tipo, sempre teve essa referência de que ser gay era errado.
Então eu não queria aceitar esse lado meu, assim. Até conversar realmente com uma pombagira, a história que eu falo, que foi quando ela… Eu já tava nessa questão, eu já tava, tipo, o que eu era ou não? Sabe o que eu queria ou não? Numa gira, que ordem foi quem traz Exu vai trazer pombagira, quem traz pombagira vai trazer Exu pra trocar. Exatamente para trazer, tipo, o contrário, né? Então, basicamente os homens, a maioria dos homens no meu terreiro trazem o Exu, e a maioria das mulheres pombagira, né? No tradicional.
É tipo assim, a entidade são espíritos que viveram na Terra, desencarnaram, e hoje eles vêm incorporar para trazer ensinamentos do espiritual. Exu e pombagira são representações dessas entidades, o Exu é uma representação masculina, a pombagira é feminina. O Exu vai trabalhar a nossa potência, e a pombagira a nossa consciência, né? Então, e aí, a gente que é médium, que vai incorporar, a gente incorpora ou Exu ou pombagira, tradicionalmente, então vai sempre trazer só um dessas entidades, mas em rituais específicos, que a gente vai trocar, a gente chama de trocar a banda, pra trazer a outra entidade, que também trabalha com a gente, nesses momentos, porque a gente precisa trabalhar o nosso lado feminino também.
Na Umbanda, a gente fala disso, né? A pombagira é o feminino e o Exu é o masculino, e todo mundo tem o feminino e o masculino. A gente vê na Umbanda que não é uma coisa só de corpo, né? Tipo, é a nossa essência. E às vezes a gente precisa trabalhar o nosso lado feminino, sabe? Porque aqui a gente fala de feminino, só que na Umbanda a gente fala de consciência, né? A gente chama o feminino de consciência. A gente precisa trabalhar a nossa consciência e trabalhar a nossa potência também.
Gustavo: Por isso tem tantos homens sem consciência por aí?
Deco: É, é o que a gente trabalha, tipo, e o homem tem muita potência, né? E a potência sem consciência é a destruição. E a consciência sem potência é a anulação.
Gustavo: Até piadas trazem reflexões.
Deco: Aí, mas é, mas é. E aí, exatamente nesse ritual, que a gente chama de gira, né? Exatamente nesse ritual foi um ritual de trocar. Quem trazia exu, que era o meu caso, trabalhar o lado feminino. E trabalhar meu lado feminino é aceitar meu lado feminino.
E meu lado feminino também está atrelado à minha sexualidade. No meu caso, né? Meu lado feminino também está atrelado. Porque é por causa de padrões, né?
Culturalmente está atrelado à sexualidade, o fato de você ser bissexual ou gay está atrelado ao feminino, né? Tipo, por preconceito e tals. Então, foi o momento de trabalhar isso. E aí, nesse momento que o médium que eu ia passar, em vez de ser um exu, era uma pombagira.
E exatamente no momento que eu precisava entender melhor a minha sexualidade, entender um lado que eu não trabalhava, que era o meu lado feminino, que a pombagira falou comigo e eu aceitei. Falei, “não tá, eu tenho um lado feminino também” que pode ser mais aflorado que as outras pessoas. Eu nunca me importei, sempre fui mais afeminado comparado a outras pessoas. Era só aceitar, sabe? Eu acho que a Umbanda tem muito de alta aceitação, assim. Foi realmente falando com a pombagira que eu, “ah, tá”. Que tirou o peso de mim.
Izabella: Agiu ali como se fosse uma guia, né?
Deco: É, exatamente o que são, né? São guias, né? Eles não vão tirar isso de você, eles vão te guiar pra você mesmo tirar esse peso. Porque é o peso que eu coloco. E eu coloco porque a sociedade me ensinou a colocar. Mas a gente se coloca. A sociedade coloca, mas a gente que carrega, né? A gente decide carregar.
Gustavo: Eu tenho uma certa suspeita que a sociedade, logo os indivíduos… Problemas à parte, a gente começou a ter uma aceitação da homossexualidade.
Deco: Sim.
Gustavo: Masculina, feminina, bem aos poucos, e nos últimos anos. A gente ainda não chegou na aceitação da bissexualidade. Eu sei que tem pessoas bissexuais que… A própria comunidade LGBT, às vezes, faz crítica que acha que o B é de biscoito.
Deco: Sim, mas…
Gustavo: Você tem que pegar meio a meio, você não pode ter preferência por um, não. Você não é gay de verdade, você não é lésbica de verdade.
Deco: A sexualidade é um espectro, né? Então eu não acredito numa pessoa 100% heterossexual, nem 100% homossexual. Na verdade, sabe o que que é? Eu não me importo (risos). É que eu odeio tentar categorizar isso, que nem eu odeio categorizar gênero, né? Aí vamos nesse assunto de gênero, por exemplo. Eu não acredito em gênero, então, se me perguntarem, eu vou falar que eu sou homem, que eu sou… Porque eu realmente exerço o fenótipo masculino, né? Mas eu não acredito na questão de ter homem ou mulher. Eu acho que é uma construção, sabe? E a sexualidade, eu acho que também é uma construção. E é tipo assim, eu não entendo por que a gente se importa tanto com quem o outro tá beijando (risos).
Gustavo: Tanto que ser homem aqui é uma coisa que é diferente de ser homem na Europa.
Deco: Exatamente.
Gustavo: Existem elementos basais, genéticos que estão ali, mas tem uma parte construída com toda certeza em cima disso. Mas é que você também fala isso quando você vai descobrindo o bissexual, que a gente não tem referência do que é a bissexualidade. Eu tive uma conversa anos atrás com uma amiga de trabalho sobre a série Orange Is the New Black. Ela falava “ah, a Piper era hétero, e aí ela virou lésbica, e depois quis virar hétero de novo”.
E a gente falou “não, pera, não é isso”. Não é que você vira, não é uma chavinha que você muda. Sempre teve ali para os dois, mas nós não tivemos referências. Seja ela assumida ou oculta, sei lá. As lésbicas se identificavam com a série da Xena, quando a gente era criança. Que era aquela mulher forte, mulher guerreira, mulher qualquer coisa. A mulher bissexual vai se identificar um pouco com a Xena, um pouco com… Faltou referência de onde é que tira.
Deco: Falta uma referência mesmo. O que eu falei um pouco lá de ser um símbolo, né. Falta referência na Umbanda também, falta referência no autismo também. E aí, eu não queria ser referência (risos). Eu nunca quis ser famoso, assim. Não que eu seja, né. Mas eu nunca quis ter tanto seguidor. Eu só queria conseguir ganhar dinheiro e viver bem fazendo show. Sabe, podia ser pra 30 pessoas sempre. Mas se eu conseguisse viver fazendo isso…
Gustavo: Se cada uma das 30 pagasse mil reais de ingresso.
Deco: Porra, perfeito, entendeu? Mas eu só queria fazer show. Infelizmente, fazer show é uma consequência de ter sucesso hoje em dia, né. Então, eu tive que ter sucesso. E ter sucesso hoje também implica, principalmente em redes sociais, que as pessoas estão buscando muita opinião, implica ser referência para coisas também.
Gustavo: Todo mundo tem que ter opinião formada sobre o que dá um grande problema.
Deco: Exato. Eu virei uma referência… A primeira referência que eu virei foi bissexual, né. Tipo assim, muitas pessoas saíram do armário pra família ao verem meu show. Nem tô falando do show do YouTube, meu show ao vivo. A pessoa foi no show, não me conhecia. Tem muita gente, assim, que eu não tinha sucesso ainda na época. Foi quando eu estava começando a estourar um pouco a bolha. Comecei a fazer muitos shows abrindo comediante grandes e tals.
Aí, pô, fiz um show do Maurício Meirelles lá em Campinas. Abri pra ele, fiz meu texto de bissexual. Uma pessoa falou “Deco, graças ao seu texto que eu assisti com minha mãe, e eu vi ela rindo e aceitando você ser bissexual, que eu falei pra ela que eu sou bissexual”. Porque eu tava com minha mãe e ela tava entendendo. Tá ligado isso? Porque não tem representatividade mesmo.
Izabella: Tem um estigma muito grande, né. Dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Porque eu também sou bi. E parece que sempre que você fala que é bi, a pessoa, assim, “ah não, é porque você é lésbica e não descobriu ainda”.
Deco: Tem!
Gustavo: Ou que você é hétero querendo fazer feitiche de homem.
Izabella: Exatamente. Se você é bi, tá no relacionamento com homem. Falar assim, você não é bi de verdade, né. Então, parece que estão esperando qualquer mini oportunidade pra inventar um motivo pra falar “não, mas bissexualidade não existe”.
Deco: É a mesma coisa do autismo. Porque o autismo também não tem representatividade. Tipo assim, tem mínima. Então, quando vem uma pessoa representar o autismo e não é igual à representatividade que tinha antes, as pessoas não vão gostar. E vão falar que tá banalizando, que o autismo não é autista de verdade. Porque não tem essa representatividade. E essa representatividade é tão diversa que nunca vai representar todo mundo, a não ser que a gente tenha várias representações dela.
Gustavo: Sim, a gente pode falar que a gente tinha representações geralmente equivocadas de autistas, ou exageradas, mas tinha. Tinha uma representação mesmo que fosse equivocada. A bissexualidade não tinha.
Deco: Não, o Cazuza e Renato Russo tinha.
Izabella: O Freddie Mercury era bi. Todo mundo acha que ele era gay.
Deco: Só que as pessoas não viam, entendeu?
Gustavo: Sim, as pessoas não conseguiam. Ou por mídia, falta de informação. Mas eu demorei muito tempo pra saber que Renato Russo era bissexual. Porque certos ícones a gente escuta “ah, é gay”.
Deco: Sim, concordo.
Gustavo: Não tem essa… Não parece masculino e beija homem? É gay.
Deco: Sim.
Gustavo: Cara, Freddie Mercury teve um grande amor feminino que passou, tipo, boa parte da vida junto com ele e tudo. Só que o pessoal não aceita, não. Ele tinha aquele bigodão e beijava um homem, é gay, certeza. O Cazuza talvez foi tão rebelde que foi mais forte a fama dele de bissexual, apesar do filme ter tentado apagar isso. E a gente tem essa questão de novo. O povo não aceita, não reconhece.
Deco: Mas eu acho que a diferença das imagens é que o autista… A gente teve a representação que criou um preconceito. E a vantagem do bissexual não ter sido representado é que agora ele não precisa quebrar uma imagem do que ele não é. Ele está criando uma imagem do que ele é desde o princípio, tá ligado? E o autismo, eu acho que a gente criou uma imagem do que não é autismo de verdade. Hoje.
A gente criou uma imagem de que mulher não era autista. Hoje, uma mulher ser autista é muito mais difícil de ser aceita como autista do que um homem. Sabe? Eu acho que por ter criado essa imagem, que eu acho que pra mim é uma luta muito grande dentro da comunidade, que as pessoas não aceitam a gente quebrar essa imagem. Porque elas foram responsáveis por construir essa imagem. Porque elas achavam que essa era a imagem do autismo, mas não é.
E aí a gente precisa entender que tipo assim, gente, o autismo não é aquilo que a gente pensava. O autismo é mais do que só isso. E quando a gente tá trabalhando o autismo fora dessa semente, a semente agora tá florescendo, porque eles criaram uma semente. A gente não pode negar também que a luta dessas pessoas no passado possibilitaram a gente estar aqui hoje conversando, tá ligado? Então não quero…
Gustavo: A gente se descobrir como autista.
Deco: Exato.
Gustavo: Porque antes a gente não tinha nem profissionais interessados em se especializar em autismo para poder fazer diagnóstico correto.
Deco: Exatamente. Então a luta delas foi importante pra gente descobrir mais sobre o autismo. Só que ao mesmo tempo é tipo assim, elas plantaram uma coisa que tá dando os frutos que elas não estavam esperando que era o fruto. Mas é o fruto, e elas não querem aceitar que é esse fruto também. Tá dando o fruto que tem delas.
É que tipo assim, eu trabalhei muito, fui pesquisador da USP, trabalhei muito sobre essa coisa de semiótica, de imagem, e de comunicação também política, na USP, né. Então tipo, eu vejo muito a… Eu tenho até palestra disso, da comunicação dentro da comunidade autista, porque ela é muito falha. Porque a gente teve uma comunicação muito forte que a gente não consegue quebrar dentro da própria comunidade hoje, sabe. Então nessa visão de representatividade, hoje eu represento o autismo que não é o autismo que foi representado durante muito tempo. Porque eu não sou o Sheldon.
Gustavo: Ainda bem, né.
Deco Ainda bem. Porque eu não sou o Sheldon, porque eu não sou um autista que não fala. Porque eu sou autista que eu me apresento para um público. E autistas não deveriam se apresentar para público. Porque os autistas são tímidos, e eu sou tímido, mas…
É aquilo, são situações.
Gustavo: Você falou, o palco te ajuda. E outra coisa. Que bom que você falou das representações bissexuais, especificamente na música, porque a gente não pode deixar você sair daqui sem se divertir com o seu hiperfoco de música.
Deco: (Risos) Ó o gancho.
Gustavo: Não. Foi tão divertido, porque você adivinhou uma pergunta que a gente fazia só pela sacanagem. De quais eram as músicas, as bandas que te passavam mais vibe de ser bissexuais. Além de Manëskin.
Deco: Manëskin eu não conheço, eu conheço pouquíssimas bandas, assim, tipo…
Mas é, Cazuza e Renato Russo, né. Queen eu não conheço muito, que eu não gosto. Aí ó, cancelamento (risos). Queen é muito bom em várias músicas, genial em várias músicas, mas se você pega discografia, é ruim. Enfim.
Izabella: Vocês não estão vendo, vocês estiverem só escutando, mas eu tô olhando muito feio pro Deco agora.
Deco: Desculpa, desculpa. Nunca será Beatles (risos).
Gustavo: Mas não era pra ser.
Izabella: Mas não é rinha de banda, você pode gostar das duas (risos).
Gustavo: A gente acabou de falar de bissexualidade, tem amor pra todo mundo. Dá pra gostar de Beatles e de Queen.
Deco: Sim, sim. Pouca gente sabe, mas John Lennon era… Tipo assim, tem toda uma vertente que John Lennon era bissexual. Assumidamente, inclusive. Tem entrevista que ele fala sobre. Só que exatamente essa coisa, não levaram, tá ligado? Porque eles tinham um relacionamento fechadíssimo com a Yoko, né. Mas há entrevista que dele fala que casaria com homem, dele se entender como bissexual e tal. Só que são entrevistas muito difíceis de achar, inclusive. Mas eu gosto muito das piadas de que o Oasis não existiria se não fosse os Beatles, né.
Gustavo: Não existiria mesmo. E aquele filme Yesterday prova isso.
Deco: Sim, esse filme é… Só acerta nisso, o resto do filme é bem ruim. Eu tenho… Eu sou muito 8 ou 80, gente.
Gustavo: Até o terceiro ato, ele é bem divertidinho.
Deco: Ah não, o problema é que não resolve, né. Não se resolve, é um clímax muito…
Gustavo: Devia ter acabado um pouco antes.
Izabella: Mas você estava comentando sobre a inconstância. Você acha que algumas músicas do Queen são muito boas, outras não são tão boas. Você acha que no caso dos Beatles, eles mantêm essa frequência? Se não, quais são as piores e as melhores?
Deco: Eu acho que…
Izabella: Principalmente as piores.
Deco: Quando a gente vê o contexto… Eu acho que o Beatles se escuta com contexto. Porque se a gente vai…
Gustavo: Porque ele fala que vai cortar a cabeça da garota. Precisa de um contexto pra isso?
Deco. Não, não, não.
Gustavo: Ela tem que correr pra vida dela?
Deco: Essa música é a pior, então. Essa música é a pior, porque fala de feminicídio explicitamente. Embora tenha outros também. Não, mas musicalmente, assim, de contexto. Porque eu gosto de Beatles, porque se você escuta antes e escuta o que eles são, é uma quebra muito grande. E eu acho que… Eu gosto de Beatles porque eu pesquisei muito o contexto histórico da época, né.
Cara, os Beatles duraram sete anos em discografia. Primeiro disco era de 63, o último é de 70. E eles até hoje são o número um de hits na Billboard, tá ligado? Eles fizeram muito em pouquíssimo tempo. E eu acho que isso mostra um amadurecimento que teve muito dentro da época. Então, se você escuta o primeiro álbum dos Beatles e o último não parece a mesma banda. Embora só tenham sete anos de diferença. Se você escuta o primeiro álbum dos Beatles e o do meio, não é a mesma banda. Sabe, eu acho…
Gustavo: Eu que não sou um grande fã, consigo identificar umas três eras de Beatles ali. Porque era muito hitzinho simples, chiclete, mais romantiquinho.
Deco: Exatamente.
Gustavo: Aí ele vai pra…
Deco: Drogas.
Gustavo: Vai, é. Vai pra psicodelia.
Deco: E vai pra… “Estamos terminando” (risos).
Gustavo: É, mas ele termina num nível mais de amadurecimento, claro. Até porque eles saíram da adolescência no final da carreira. E vai pra uma questão de tentar passar uma mensagem maior, uma música mais trabalhada, algumas coisas que vão nesse sentido.
Deco: Sim. A pergunta foi das melhores às piores músicas, não era?
Izabella: Sim.
Deco: Eu acho… Puta, é muito difícil escolher.
Gustavo: Pode falar só as piores então, já que as melhores são várias.
Deco: Não, não, não, é difícil escolher todas também (risos). Beatles não tem música ruim, se você pega o contexto. Mas músicas que, tipo assim, eu não curto porque eu acho… Não são as músicas que dão uma vibe realmente de “Nossa, essa música é pra todo mundo”. É uma música, tipo, agradável mesmo, sabe? Eu acho que… Aí vamos pra polêmica, Revolution 9, né.
Izabella: Eu ia perguntar isso.
Deco: Que é uma música instrumental, totalmente de recordes, psicodélica, eu acho muito legal. Porque se você entende que isso foi feito tudo em fita… Você fala “caralho, esse som feito em fita”. É foda, não foi digital, tá ligado? Eu acho que isso que fala pra escutar Beatles. Meu irmão…
Gustavo: Não era dar um play em cada botão.
Deco: É, não era dar um play. É tipo assim, eles tiveram que gravar isso ao vivo para reproduzir pra você, tá ligado? Então A Day in the Life é tipo assim, quando vai aquela… Tem uma orquestra ali, que está se autodestruindo. E você fala “caralho, gravaram isso ao vivo”. Tá ligado? Não foi tipo, criaram isso e fizeram vários sons numa mesa e deram um play. Não, foi ao vivo.
Eu acho que isso é a genialidade dos Beatles. Eles buscarem dentro dos instrumentos, sons novos. Os próprios instrumentos que existiam ali, sabe? Mas nisso também, de ser revolucionário, eles erram muito, né. Então eu acho que Revolution 9 é uma música muito legal pra você entender. Caralho, fizeram em fita pra você estudar como música. Mas como música mesmo, tipo, como algo de…
Gustato: Querer escutar toda semana.
Deco: É, de entretenimento, é uma merda de música, tá ligado? Cara, várias musiquinhas ali dos Beatles, tipo… Her Majesty, que tem 27 segundos, sabe? É tipo, cara, 27 segundos…
Gustavo: Eu desconsidero.
Deco: Os caras tão criando TikTok? Obviamente, beleza, foi sem querer, colocaram a música ali. Mas virou uma faixa, tá ligado? Tem outras músicas também que são, se não me engano, são pequenas. Tem, tipo… Tem músicas que eu acho o final desnecessário. Eles faziam tanto sons, que eles colocavam no final da música, eles colocavam sons.
Gustavo: A Day in the Life?
Deco: Não, Glass Onion. A Day in the Life tem também, né? Segundos depois. Glass Onion, que logo em seguida eles colocam, tipo, um cara narrando um gol, sabe? Com vários sons de batida, de acidente e tal. Então é meio… Beleza, eles estão testando…
Gustavo: Experimentalismo.
Deco: É, é total. Se você entende contexto, é beleza. Eles criaram uma música e no final eles deixaram experimentando só pra ver a vibe, tá ligado? “Ó, a gente fez isso aqui também durante 15 segundos”. Mas se você vai pegar essa parte da música, é uma parte ruim. Sabe? Now and Then eu acho uma música ruim. Que foi a última música deles, né? Foi uma música póstuma do John Lennon e do George.
Gustavo: É, essa parte última aí, música, é complicado, porque a música não tava… Não é que não foi gravada, não. Ela não estava totalmente concluída, não estava totalmente preparada. E… “Ah, tem que ser assim, solta…”
Deco: Eu acho que poderiam trabalhar melhor. Por exemplo, no Now and Then, porque como trabalharam no Free as a Bird, que é o mesmo… Pra quem não tá entendendo, são músicas que o John Lennon deixou gravadas em demo, assim, ele testou, gravou em casa. E aí depois os próprios Beatles pegaram pra tentar lançar essas músicas, tipo, eles trabalhando no que o John Lennon fez. No Free as a Bird, pra mim, ficou uma ótima música dos Beatles, porque ali no meio o Paul McCartney compôs. E fez coisas ali no meio e tal. O Now and Then, eles deixaram do jeito que o John fez, e só construíram em cima a mesma batida, tipo, ficou… Sabe, não tem algo que eu senti que é uma música diferente. Só ficou uma música chata.
Gustavo: Inclusive, mais uma revolta, a minha esposa gosta de colocar “Alexa, me acorda” com Beatles. Então, eram sempre umas músicas tranquilinhas, era geralmente Here Come the Sun, que deve ser um despertador de uma galera. E logo após o lançamento dessa música…
Deco: Era só ela.
Gustavo: É, passou a acordar com essa música e já fazendo uma baderna ali que ela não queria, ela trocou, ela tirou o Beatles por causa dessa música.
Deco: Não, mas é uma música que eu acho ruim. Músicas, as melhores, eu acho que a minha favorita é a Something. Eu acho que é uma música que eles trabalham tudo super bem musicalmente. O baixo, eles…
Gustavo: Deram uma raríssima chance pro George.
Deco: Pro George Harrison. O baixo…
Gustavo: Que pra mim não é minha preferida dele, mas tudo bem.
Deco: Pra mim é (risos). O baixo trabalha super bem com a guitarra, a base do órgão é muito boa, a bateria também. Fora a letra e os vocais, então eu acho que pra mim é a melhor música dos Beatles. Mas cara, os Beatles tinham uma coisa que eles trabalhavam profissionalmente mesmo brigado. Então, eles sempre trabalharam muito profissionalmente a música. Então, eu acho que isso também é uma coisa da qualidade deles, sabe?
Tipo, Maxwell’s Silver Hammer, eu acho uma música ruim também, eu acho uma música chata, sabe? Mas ainda é uma música que funciona musicalmente, mas é chata. Eu acho ruim, assim.
Izabella: Você tem um Beatle preferido?
Deco: O George.
Izabella: Por quê?
Deco: Eu nunca gostei dos protagonistas, né? Então, desde Power Ranger eu sempre gostei do azul, sabe? Não era o vermelho.
Gustavo: Tá correto.
Deco: E o George é meio… Ele não é o protagonista, mas ele também se sobressai, sabe?
Eu acho que é…
Gustavo: Também não é o Ringo, é isso?
Deco: Ah, eu sempre gostei de guitarra também, sabe? Eu já tocava violão antes, gostava de Beatles, então… Não foi decidido, assim. Foi meio que se identificando, sabe?
Izabella: Você acompanhou as carreiras solo de algum deles, depois que acabou o Beatles?
Deco: Do John Lennon, porque ela é pouca, né? Então é mais fácil de finalizar. Então eu nunca escutei a carreira solo completa de nenhum deles, assim. Já escutei muito de todos, mas tipo, de pegar realmente a discografia e seguir e ver… Não. Eu tenho uma playlist só com as músicas de carreira solo, que eu deixo no aleatório, e às vezes mexo, “Ah, não conhecia essa música”, porque é muita, né?
Izabella: Ainda sobre música, mas mudando um pouco dos Beatles, quais são os artistas ou bandas que você gosta, que você acha que as pessoas iam olhar e pensar “Nossa, eu nunca imaginei que você escutaria uma coisa dessas”?
Deco: Leandro & Leonardo, Bruno & Marrone…
Gustavo: É goiano, tá previsto.
Deco: Puta, essa daqui, tem uma música que eu gosto muito, que chama Aquela Fé, do Don L. Com certeza o pessoal não acha que eu escuto, assim. Mas é uma das minhas músicas favoritas. Noites Traiçoeiras, Padre Marcelo, ótima. Também adoro, pra mim, top três músicas do Brasil.
Gustavo: O ecletismo não é nem só musical, é religioso também.
Deco: Não, eu gosto, eu gosto de música religiosa. Acho que traz uma paz boa, dependendo da música. Artista mesmo, só escuto três, que é Cazuza, Legião Urbana, e Beatles, assim. O resto… Nando Reis também, mas o resto é meio pontual em algumas músicas. Adriana Calcanhotto eu gosto.
Izabella: Você fez parte de uma banda também, que inclusive tocava cover dos Beatles.
Deco: A gente era uma banda cover, a gente fez, eu acho, 2 shows só, tipo, não deu nada. Foi horrível, porque era adolescente, né. Então, tipo, eu queria levar pra um lado muito mais sério e profissional, assim, eu tinha essa visão de “vamos fazer show”. E tipo, os outros queriam brincar, então chegava no ensaio o pessoal não sabia música e tal, então foi estressante. Então não foi pra frente, né.
Izabella: Foi só uma experiência horrível.
Deco: Foi só uma experiência, mas foi uma experiência. Foi uma experiência que fez eu gostar de palco, por exemplo.
Izabella: Foi uma das experiências já experienciadas… (risos).
Deco: Foi uma experiência, foi uma experiência. Com certeza foi uma experiência.
Gustavo: Experiências ruins também moldam as experiências boas, pô. Dá uma referência. Bom, Deco, quero agradecer muito a sua participação aqui. É bem-vindo voltar e falar mal de outras coisas também. É bem-vindo voltar e falar mal de coisas boas. Muito bom ter você aqui.
Deco: Ah, eu que agradeço, gente. Obrigado pelo convite. Obrigado por estar aqui. Pedir pro pessoal me seguir nas redes, se você não conhece. @decomachado. Tem agenda de shows aí pelo Brasil. Não sei onde eu vou estar com o show. Tem lá no meu perfil, só clicar no link. Tem meu YouTube também, vai ter vídeo do stand-up, meu especial de comédia, tem vários. Procure Deco Machado onde você quiser que você vai me achar. Basicamente, eu acho. Então é isso. Obrigado.
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Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Gustavo Borges, Izabella Pavetits e Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Adriano Quadros | Transcrição: Michael Ulian

