Dias de comunhão em família ou dias de barraco? Tão atípico quanto o autismo podem ser as festividades do ano para pessoas autistas. Por isso, nossos podcasters abrem o coração e falam como passam o Natal e o ano novo, e como o autismo está relacionado a comidas, decorações, socialização, fogos de artifício e muito mais. Participam: Brendaly Januário, Bruno Frederico Müller, Izabella Pavetits e João Victor Ramos.
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Transcrição do episódio
Brendaly: Esse episódio é para quem ama o Natal, odeia o Natal ou finge que tá tudo bem em meio ao caos das festividades de fim de ano. E, para nós que somos autistas, sabemos muito bem que as festas de fim de ano podem ser menos sobre panetone, uva passa, pavê ou pra comer e mais sobre: aguentar as tias perguntando sobre a nossa vida amorosa, barulhos de fogos de artifícios e muito mais.
E para você que está assistindo o podcast Introvertendo pela primeira vez, seja muito bem-vindo, seja muito bem-vinda. Eu sou a Brendaly Januário, doutoranda em Antropologia Social na UFG e apresentadora do episódio de hoje. E a temática é “Boas Festas?”.
Bruno: Eu sou o Bruno Federico Müller e eu sou historiador.
Izabella: Eu sou a Izabella Pavetits, então por favor, eu te imploro, não faça a piada do pavê comigo.
João Victor: Olá, eu sou o João Victor Ramos e vim ser o cara chato que vai falar que gosta de Natal no meio do episódio. Sim. Ho, ho ho.
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[Vinheta de abertura]
Brendaly: Como é a relação de vocês com o Natal? Vocês adoram o Natal ou vocês são mais a personificação de Grinch?
Bruno: Eu tenho uma relação ambígua com o Natal. Não sou ligado na comemoração do ponto de vista religioso… também tenho muita dificuldade de lidar com festas de fim de ano, mas estando todo mundo junto numa confraternização, eu sinto uma dificuldade de estar sozinho nessa data. Então, eu geralmente procuro não estar sozinho.
João Victor: O fato de eu amar o Natal não significa que eu tive sempre ótimos dias de 25 de dezembro e como é, obviamente, uma vez no ano um dos eventos mais esperados por toda a família, pelo menos em termos de Brasil e Américas, vai, Europa também, eu acabo inevitavelmente me cobrando para ter um evento bacana nesse sentido.
Porque o Natal é mais do que um evento religioso, é mais do que uma comemoração cristã, é um retrato de como foi o seu ano antes mesmo do Réveillon acontecer, é um retrato de como foi o seu ano antes mesmo, como você viveu, quais foram as escolhas que você tomou. E para um autista, ao meu ver, chegar a esse tipo de conclusão de que talvez tenha deixado a desejar em alguns períodos, nossa!
Em contrapartida, o fato de estar em família, o fato de estar às vezes entre amigos, desejando Feliz Natal pras pessoas, sejam elas próximas ou não, me gerava sempre uma satisfação muito grande. Preparo um Feliz Natal bonitinho e não é aquele copia e cola, eu literalmente digito no chat do WhatsApp de cada pessoa, “Feliz Natal, que seu 25 de dezembro seja ótimo”, eu meio que adapto a circunstância, além dos presenciais, quando for possível.
Izabella: Então, em termos religiosos, eu não tenho muito aquela coisa de “ai, vamos celebrar o nascimento de Jesus”, que apesar de eu ter tido uma criação católica, eu estudei em colégio católico a vida inteira, mas eu sou uma grande fã do Natal, das decorações, das luzinhas, eu fico muito feliz nesse final de ano que fica tudo piscando.
Eu sei que o sensorial é pesado para muitos autistas, que é uma coisa que realmente pega, você entrar em tudo quanto é lugar e estar “Jingle Bell, Jingle Bell”, eu sei que tem gente que tem vontade de morrer, mas no meu caso eu fico felizinha.
Eu acho legal ter luzinha, né, ter pisca-pisca, ter música. Mas até para isso eu tenho as minhas ressalvas, que por exemplo, eu acho muito legal, mas na minha cabeça, a partir do dia 15 de novembro. De uns anos para cá, chega outubro, o pessoal já tá começando a colocar coisas de Natal, aí até para mim, que sou uma grande fã de decoração, de essas farofagens de Natal, eu fico meio “galera, calma, vamos lá, com calma”.
Os gringos costumam usar de medida, né, tipo “ah não, só depois do Halloween”, no Brasil o Halloween não é lá essas coisas, né, então tipo, não dá para usar essa medida, mas eu já reparei que de uns anos para cá bate outubro, shopping já tá colocando, o pessoal já tá “ai, decoração de Natal”, aí eu já acho um pouco demais.
João Victor: Quando a gente mostra um encantamento pelas decorações, pela atmosfera, a gente acaba parando para pensar no seguinte, OK, a gente sabe que nosso sensorial vai ser muito comprometido, mas como ocorre todo ano mesmo e gostamos do tipo de festividade, a gente acaba se permitindo vivenciá-la da melhor forma. A questão da decoração vir muito antes, já aconteceu de eu ver algo do tipo em outubro, às vezes até final de setembro, pasmem… a gente fica tipo “ah, calma, agora não, por favor, não tava esperando por isso”.
Brendaly: Ansiedade, né? Dá uma ansiedadezinha (risos).
João Victor: Exato, coisa esquisita, velho.
Izabella: Essa questão de adiantarem muito a decoração também tem muito a ver com o comércio querer vender o quanto antes. Começar a estimular aquela coisa de tipo, porque querendo ou não, o Natal, apesar de ser uma festa “religiosa”, ele tem muito essa pegada do capitalismo, de “ah, não, eu preciso presentear todo mundo, aí já tem a ceia, tem gastos e não sei o quê”.
Então, eu acho que tem muito isso, né, do comércio querer estimular o quanto antes, já começar “ai, nossa, coisas de Natal, garanta seu presente, já compra decoração”. Mas é engraçado porque eu gosto muito do contexto da decoração, do antes, faço maratona de filme cafona, uma maravilha… Tenho minha playlist natalina.
Brendaly: Gracinha.
Izabella: Mas o dia do Natal eu já acho complicado e logo, logo a gente volta nisso.
Brendaly: Eu adoro o Natal, assim, muito! (risos). Olha, assim, difícil achar uma pessoa que ama tanto o Natal quanto eu, assim, eu gosto muito porque eu adoro decoração, inclusive essa árvore aqui eu trouxe porque eu queria fazer uma coisa bonitinha e tal. A Izabella, que também adora o Natal, trouxe esses negócios pra gente. Inclusive, no meio do episódio eu reparei que as luzes não estão ligadas, mas tudo bem, faz parte. Descobri, na verdade, agora, aqui pelo nosso filmmaker, que ele não quis ligar porque ele iria atrapalhar a câmera. Fiquei um pouquinho chateada, tudo bem, porque eu queria, eu trouxe as luzes, mas tá tudo bem, tá tudo bem.
E eu adoro, gente, assim, muito o Natal. Eu tenho algumas questões sensoriais, luzes e tal, mas é engraçado que com o Natal parece que, nossa, porque eu acho tão encantador as luzes de Natal, a decoração, então, assim, que parece que até a sobrecarga sensorial, ela dá uma suavizada porque eu gosto muito do Natal.
Tem as questões de, ah, é uma data cristã e tudo, fui criada em igreja, então, durante toda a minha vida, assim, boa parte da minha vida, foi comemorando igreja e tal, e aí hoje não mais, porque hoje eu me considero agnóstica, mas assim… as decorações, as festividades, isso tudo, assim, eu adoro muito. E tem a questão também do tumulto de final de ano, que isso me pega bastante. Qualquer lugar que você vai, tá cheio, gente esbarrando em você, sabe, assim, uma falta de educação, que o povo correndo pra… Eu não saio pra comprar muito próximo do Natal, não faço, porque geralmente é um tumulto muito grande, pelo menos aqui em Goiânia.
Gente, você vai em shopping, você tá doido, é insuportável ir pro período mais ou menos de 20 de dezembro, é insuportável. Mas, tendo essas ressalvas, eu gosto bastante. É uma data muito bonita, né, que tá todo… As pessoas ficam de bom coração ali, perdão e não sei o quê, né, as pessoas tendem a esquecer algumas coisas, as merdas que a gente faz, a gente também esquece a merda que os outros fazem (risos), então assim, é uma data que eu gosto bastante.
Bruno: Parece que é difícil você ser gentil e perdoar o ano inteiro, né, então você seleciona uma data do ano pra você praticar essas virtudes.
João Victor: Conclusão, o Natal é tanto um facilitador para gente falsa pra caralho, quanto pra pessoas que querem de fato ser gentis e amolecem o coração nesse período por conta dessa auto permissão que elas dão a si mesmas.
Izabella: Eu acho que vai muito no contexto também, né, tipo, claro, é uma data comercial, mas como o João Victor levantou, tem essa questão por trás da esperança, da renovação, não sei o quê, então se você quiser enquadrar mais como, sei lá, “não, isso aqui é um lixo capitalista pra vender nos shoppings”, beleza, é válido, faz sentido. Se você quiser parar pra pensar “não, é o nascimento de Jesus”, válido também. Se você quiser parar pra pensar “não, é uma festa que tem umas luzinhas muito legais, adoro decorar a casa”, também é válido. Então assim, vai muito de como você quer enxergar o Natal.
Brendaly: Ou então, às vezes, você que gosta muito de uva passas, que adora, eu não sou, gente, mas assim, não tava nem na pauta isso, vocês gostam de uva passa? Porque gente, eu odeio, eu odeio!
João Victor: Eu como até fora do Natal, lamento informar, amiga.
Brendaly: Sério?
João Victor: Eu como, gosto bastante.
Brendaly: Assim, eu até como se for com coisa doce, gente. Tipo assim: ah, um chocolate tá tudo ok, uma castanha tá tudo ok, mas as pessoas colocam no arroz, as pessoas colocam no champanhe, as pessoas colocam em tudo quanto é lugar, gente, pelo amor de Deus!
João Victor: No champanhe, pra mim também é novidade, mas…
Brendaly: Já ouvi falar!
João Victor: O que você tem contra arroz e uva passa, Brendaly Januário?
Brendaly: Não combina, gente.
João Victor: Por quê?
Brendaly: O arroz é de sal, você coloca sal no arroz, aí você vem com um negócio doce, aí vira um negócio ali agridoce, não combina!
João Victor: É um contraste sutil, Brendaly, qual o problema?!
Brendaly: Não, que contraste sutil, é horrível! Aí você come um negócio que é de sal, e aí vem um negócio doce ao mesmo tempo. Ai, caiu um negócio aqui.
João Victor: Que barbaridade.
Izabella: É porque você tá falando mal da uva passa.
(Risos)
João Victor: Exatamente! Obrigado, Izabella, obrigado!
Brendaly: Você gosta de uva passa, Izabella? Pra mim, você não gostava de uva passa, você gosta?
Izabella: Então, eu gosto, mas eu evito porque eu sou diabética. Mas assim, gostar, eu gosto.
Brendaly: E você também?
Bruno: Eu gosto.
Brendaly: Ai, gente, eu sou a única que não gosta!
João Victor: Lamento, lamento, lamento!
(Risos)
Brendaly: Ai, que ódio!
João Victor: E o que mais tem no Natal é isso, combinações, cara. Você come uma coisa de sal, na verdade, em qualquer refeição, você come uma coisa de sal, majoritariamente, arroz, feijão, bife, batata frita, aí depois um copo de suco pra dentro, então você só tá adiantando o processo, entendeu?
Brendaly: Não, não gosto de uva passa.
João Victor: Ai, Brendaly!
Brendaly: Não, eu sou chata com uva passa, gente.
João Victor: Não, Brendaly!
Brendaly: Pelo amor de Deus!
João Victor: Tá bom, tá bom.
Brendaly: A festividade de Natal, às vezes, pode ser muito desgastante para nós que somos autistas, né? Porque tem a questão da socialização, que às vezes junta a família inteira e aí parente chato, e aí você tem que ficar ali fazendo social. Tem a questão de seletividade alimentar, porque às vezes tem autistas que não comem muitas coisas que ali tem, né? Que é ofertada ali no Natal, que é o pavê pra comer, né? É o chester, não sei o quê, enfim, um monte de comidas que às vezes texturas e tal desagradam muito as pessoas que são autistas, que têm seletividade alimentar. Como que é pra vocês em relação ao autismo nas festividades de Natal?
Izabella: A minha grande questão no Natal, que eu mencionei mais cedo, que eu gosto de tudo, menos do dia em si, é porque a sobrecarga social é muito grande. Lá, na minha família, eu sou de… Eu moro em Goiânia, mas a minha família é de Brasília, então eu passei todos os natais da vida em Brasília.
A gente vai pra lá, aí junta todo mundo na casa da minha avó. É tipo, todos os tios, todos os primos, seus respectivos sobrinhos, não sei o quê, aquela galera, um monte de gente que você não vê há muito tempo, muito parente querendo falar aí, né?
Brendaly: Perguntas inconvenientes.
Izabella: Exatamente. E assim, minha família, eu acho que a maioria dela é extrovertida. Então assim, é meio que uma competição pra ver quem fala mais alto, quem fala mais que o outro. Então assim, por um lado é ruim, porque me sobrecarrega, mas por outro lado é bom, porque como eles estão meio que competindo pra ver quem tá falando mais alto, eu posso simplesmente desaparecer no fundo e ninguém repara que eu não proferi uma palavra durante o dia inteiro.
Minha família toda tem essas particularidades, essas seletividades alimentares, né? Então assim, por exemplo, fruta, não tem nenhum grande fã de fruta lá, não. Minha avó gosta e todo ano ela tenta falar “Ah, se a gente colocasse um pêssego, não sei aonde”, aí todo mundo “não, ah-ah, não”…
É todo mundo muito rígido e é engraçado, porque, por exemplo, o cardápio tem um purê que são três batatas diferentes, que minha avó fez pela primeira vez, tipo, em 2002. Todo mundo gostou, todo ano ela tenta tirar e a gente não deixa. Então assim, a família é muito teimosa, pra não dizer outras coisas, né? Todo ano a minha avó tenta “Não, e se a gente inovasse esse ano?” Aí todo mundo “não, não vamos inovar”. Então a ceia é sempre a mesma, o que eu acho…
Brendaly: Depois passa a receita, por favor (risos).
Izabella: Sim. Nossa, é maravilhoso. E a questão da sobrecarga social não é um problema, 1, porque tá todo mundo falando demais, 2, porque como é na casa da minha avó, sempre tem um quarto que eu posso ficar escondida lá. Então, quando pesa muito, eu sinto “Gente, pelo amor de Deus, eu vou ter um treco aqui dentro”, eu fico escondida lá por horas e ninguém repara. Então é uma maravilha essa parte, apesar da ressaca social, do “Meu Deus, minha família é muito alta”, então eu consigo sobreviver bem (risos).
João Victor: No meu 25 de dezembro, eu passo somente com meus pais, no caso pai, mãe e irmã caçula, porque a maioria da família está concentrada no interior do Ceará e uma parcela no Rio de Janeiro. Nesse caso, às vezes me frustra um pouco, porque… não que eu seja um entusiasta de festa com muitas pessoas obrigatoriamente. A questão é, depois que acaba a ceia, é só mais um dia normal. E honestamente, tá tudo bem se o seu Natal for um dia comum, tá ligado?
As pessoas colocam muita expectativa e eu me incluo nessa estatística justamente porque em termos capitalistas e culturais, as pessoas falam e pregam o fato de que o Natal tem que ser o dia mais feliz do ano ou um dos dias mais felizes do ano, mas não precisa ser necessariamente assim, sendo um dia comum em que você passou com sua família… responsáveis, comeu bem, tá maravilhoso, tá ligado? É sobre isso! E tá tudo ótimo.
Izabella: Essa pressão de estar sempre feliz também, de ser o dia mais incrível do ano, eu acho que também é bastante tóxica, né? Porque às vezes você não tá muito bem, né? Por diversos motivos, às vezes você não gosta, simplesmente não gosta da data, pode ser que de repente aconteça um fato traumático perto do Natal e você não tá legal e você vê todo mundo, em tese, pelo menos mostrando ou fingindo que tá feliz e você se sentindo mal e não deixa de ser uma sensação horrível, né? Porque parece que você se sente um contraste, né? Toda alegria, não sei o quê, “ai, nossa, vivo o Natal” e você lá, “eu queria morrer”.
Então essa pressão pra estar sempre feliz também é bem ruim, então é importante que a gente saiba se cuidar também. Eu tenho visto bastante coisa, assim, nos últimos anos sobre esse tipo de pressão pra você estar sempre feliz nessas épocas, principalmente em final de ano, né? Que tem muito isso de tanto no Natal quanto no ano novo, que entra naquele “ai, ano novo, vida nova” e é terrível.
Então a gente precisa ser gentil com nós mesmos também pra não cair nessa pressão e acabar transformando ou uma data feliz em uma data triste ou uma data normal em uma data triste, enfim, acho que deu pra entender.
João Victor: Uma pressão que nos dá um senso de obrigatoriedade, “meu Natal tem que ser feliz, meu Natal tem que ser feliz, meu Natal tem que ser feliz”. Gente, vamos com calma, respeite a si mesmo e respeite as vivências do seu ano. Apenas, sabe? Querendo ou não, é mais uma data. A carga simbólica que vem pra gente é o que dá esse poder de impacto todo.
Bruno: Essa positividade tóxica do Natal e do ano novo realmente é um dos aspectos mais negativos desse período do ano. Mas assim, pra mim, tem uma questão que é a sobrecarga social, que a Izabella tava falando, né? A necessidade de tá em grupo e de suportar a festa e também a seletividade alimentar, porque eu sou vegano, né? Então, assim, eu não como a maioria das coisas que as outras pessoas comem.
E, por fim, tem a questão dos fogos de artifício, que também me aborrecem bastante. O barulho dos fogos de artifício me aborrece bastante. Tem um lado positivo, que é você estar acompanhado de pessoas que você gosta e celebrando o final do ano, que é o que eu tenho pra celebrar nessa época. Mas tem o lado negativo de todas as coisas que sobrecarregam um autista.
Brendaly: Eu também tenho muita questão com fogos de artifício. Eu tenho uma hipersensibilidade auditiva muito grande. Eu odeio fogos de artifício. Gente, pelo amor de Deus. Porque eu acho muito assim. Ai, me cancela. É a falta de respeito, esse barulho.
E sabe, assim, não é só com autista. Tem criança, tem pessoas com outras questões, idosas, animais. Gente, quem tem animal sabe o tanto que animal sofre. Então, assim, ai, me perdoe, mas pega esse fogo de artifício, e enfia no meio, sabe? (risos). Porque, cara, olha, já tem fogos de artifício sem barulho. Porque precisa da porra do barulho, sabe?
Porque eu acho bonito, eu acho muito bonito, aquelas luzes. Mas o barulho, cara, não dá. Já vi, tipo assim, gatinho, animalzinho pulando de um andar alto, sabe? Por causa de fogos de artifício. Então, esse é um problema pra mim de fim de ano.
Mas assim, é uma coisa que acontece um pouco mais no ano novo, né? Então, a gente já aproveita pra passar pro outro bloco. Como que é essa virada de ano pra vocês? Igual, vou pegar a fala da Izabella. Ano novo, vida nova ou, tipo, só mais uma data comum, assim?
Izabella: Antes, eu queria só fazer uma observação sobre os fogos de artifício. Inclusive, os fogos de artifício com barulho já são proibidos por lei em vários lugares, inclusive Goiânia. Mas é aquele tipo de lei que quem vai fiscalizar isso? Quem vai lá multar o infeliz que tá soltando um monte de fogos barulhentos?
Então, eu sou do time da Brendaly, que eu acho lindo, mas eu acho completamente incompreensível. Já existe a tecnologia sem o barulho. Com barulho, é proibida. Onde essas pessoas estão comprando isso? Pode ser ingenuidade minha, deve ser muito fácil de encontrar, mas fica aí o meu voto de repúdio aos fogos de artifício barulhentos.
[Transição]
Brendaly: Uma breve interrupção nesse episódio. Queremos trazer aqui as camisetas que estamos comercializando. Vocês sabem que o Introvertendo tem muitos custos, então, vocês que têm interesse nas nossas camisetas, que elas estão sendo produzidas por integrantes da formação original. Para saber mais informações, acesse o nosso site ou as nossas redes sociais. Um abraço.
[Transição]
Bruno: Eu gosto mais do ano novo do que do Natal. Porque o Natal tem essa coisa familiar e como eu não tenho família, eu acabo sempre ficando meio deslocado, meio isolado. Já o ano novo tem uma pegada mais de amizade, de comemorar com os amigos e tal. E aí é mais fácil para mim me inserir em alguma celebração.
Eu não encaro o ano novo como uma data de reflexão, de fazer uma avaliação de como foi o ano e fazer aquelas listinhas de resoluções para o ano novo. Muito pelo contrário, eu detesto essas resoluções do ano novo, porque as pessoas fazem e elas nunca cumprem.
Brendaly: Isso é verdade.
Bruno: Então, eu prefiro ser mais honesto. Eu não vou fazer nenhuma resolução de ano novo porque eu já sei que não vou cumprir. Nesse sentido, como o João Victor estava falando, é só mais uma data. É uma data como outra qualquer. O sol vai nascer, depois ele vai se pôr e a vida vai continuar a mesma. Então, é um momento legal para celebrar com os amigos, é um momento legal para pensar que você encerrou ciclos de um ano e vai começar novos ciclos, mas não mais do que isso.
Izabella: O ano novo já é uma data que me causa uma angústia existencial muito grande, porque eu entro nessa pilha de fazer lista e resolução, porque eu sou autista e tenho TDAH. Então, o lado do autismo, que adora uma lista, aí eu já penso “Lista de resoluções para o próximo ano, que delícia!”.
(Risos)
Izabella: Aí, o TDAH chega em fevereiro e: “Não, joga isso no lixo!”. Aí, eu não faço nada. Beleza, a lista foi pro pau. Aí, chega dezembro, o autismo: “Então, lembra daquela lista lá ô sua fracassada? Você não fez foi é nada!”
Brendaly: Meu Deus! (risos).
Izabella: Pois é. Aí, a auto aversão já começa assim né: “Pois é, o ano passou e você não fez nada.” E a retrospectiva, no meu caso, vem com uma coisa negativa, porque eu nunca, na minha vida, em 30 anos de vida, consegui fazer as resoluções que eu tinha colocado no ano anterior. Então, sempre chega no final do ano, sempre vem essa coisa de “Bom, mais um ano que você não fez o que você tinha se programado, parabéns!”.
Então, ainda vem isso, aí vem essa coisa da pressão do ano novo, de renovação e não sei o que. Aí, eu fico meio na rigidez cognitiva, eu fico “Mas vai renovar o que? Não tem nada pra renovar, minha gente! Tipo, já tá, né? Eu já sou assim, sei lá, o que isso quer dizer? Tipo, vou renovar o que? O que é a nova Izabella, sabe? Tipo, eu não sei nem quem é a atual Izabella, ou quem vai ser a nova Izabella.
João Victor: A maior…
Brendaly: Crise existencial aqui! (risos).
Izabella: É, nossa, não, de verdade! É um negócio que me pega muito, me causa uma crise existencial, uma angústia. Eu não gosto de réveillon, não gosto de ano novo, eu não vou pra festa, tipo… E geralmente, eu não gosto de festa, então, especialmente essa que já tem essa coisa, aí todo mundo fica cantando aquela musiquinha lá, “Adeus, ano velho!”. Aí eu fico, “Gente, não, pelo amor de Deus!”.
João Victor: A maior armadilha, a maior armadilha do ano novo é justamente essa questão que faz pessoas como nossos amigos de mesa, Izabella e Bruno, acharem que precisam cumprir todos os nossos objetivos a partir de um momento específico chamado 1º de janeiro, sendo que podemos sempre começar algo diferente a qualquer momento dos 365 ou 366 dias. Não fecha essa conta, tanto é que eu já tentei elaborar listas do que fazer a partir de 1º de janeiro, de determinados anos, seja adolescência, começo da fase adulta e diferentemente da Izabella, eu sequer completei a lista (risos). Pelo menos essa meta você cumpriu, Izabella, você fez a lista. Eu nem cheguei a completar a minha.
Brendaly: Mas isso em todos os anos? (risos).
João Victor: Todos em que eu me propus a tal, né?
Brendaly: Entendi (risos). Uai, gente, a questão do ano novo é muito diferente pra mim, por vários motivos. A maioria das vezes, né, porque eu vim de uma família religiosa, eu passei na igreja. Até os 21, 23 anos mais ou menos, todas as viradas na igreja, então tinha esse costume. Até que eu saí da igreja, eu sou considerada desviada e tal, e aí eu comecei a passar em casa, tudo bem, e às vezes eu via minha mãe, né, pra jantar, que a gente gosta muito de jantar, eu, minha mãe, meu pai, meu irmão. Então, eu meio que fico um pouco deslocada, sabe, porque teve esse costume durante tantos anos e agora mudou.
E só que aí tem um outro lado. Eu fico muito ansiosa porque o meu aniversário é dia 2 de janeiro (risos), é um dia depois, gente! Então assim: “cara, é aqui, a gente tá comemorando, e aí no outro dia é meu aniversário”. E isso, pra criança, era muito problemático, porque assim, meia noite é dia 1º, né. Aí pra cabeça da criança, dormiu é o quê? Outro dia. Então eu acordava e falava “é o meu aniversário!”. Aí meu pai falava “não, não é seu aniversário, seu aniversário é amanhã”. E todos os anos eu pensava que ele tava me enganando, sabe? Mas é porque na cabeça da criança, dormiu é o outro dia.
João Victor: Não, claro! As suas expectativas se confundiam, Brendaly, do ano novo com seu aniversário? Era meio misturado?
Brendaly: Nossa, boa pergunta! Era misturado, porque assim… Aí meu aniversário, cara… Nossa, meu aniversário, assim, pra mim, é a melhor data do ano, é aniversário. E assim, de todas as pessoas com quem eu convivo, assim, é meu aniversário… Gente, eu geralmente, eu dou parabéns, assim, faço uma festa, dou presente. Porque assim, pra mim é tão importante, na minha família a gente, né, comemorava. Então, misturava meio que com o ano novo e o aniversário. Então assim, só que aí, hoje eu tenho uma relação meio dúbia. Então assim, como comemorar o ano novo e no outro dia, meu aniversário?
Este ano é mais doido ainda, porque enfim, né, na data que a gente tá gravando eu saí do armário tem pouco tempo. Então assim, tá uma loucura a minha vida. Não sei como é que vai ser. Aí você passa com a família, vem aquelas perguntas, tanto no Natal, quanto no novo. Inconvenientes, que não sei o quê. Então assim, eu acho que Natal e ano novo, esse ano eu vou sumir. E é isso, é isso que eu vou acontecer. E aí, bom que eu já comemoro aniversário fora, e é isso aí. Então, pra mim, é bem complexo a questão do ano novo.
Esse foi o episódio de final de ano. Queria aproveitar pra agradecer você que acompanhou essa volta do Introvertendo este ano que foi muito gratificante, estar nessa nova formação. E aqui, falando por mim, sendo uma das apresentadoras, é desafiador. Então, agradeço o apoio de todos vocês com essa volta. Por confiar em nós, confiar nessa nova formação. E quero falar também que nós voltamos com tudo em 2026. Com novos episódios, novas temáticas. E é isso, um beijo no coração e muito obrigada! (risos).
*
Ficha técnica do episódio
Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Izabella Pavetits | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: João Victor Ramos

