Introvertendo 274 – Atypical

Com quatro temporadas de sucesso, Atypical foi um marco quando o assunto é produções ficcionais sobre autismo. Anos após o fim da série e, agora, na nova formação do Introvertendo, Brendaly Januário e Gustavo Borges recebem Ana Julia Sena e Any Serpa Borges para revisitar Atypical, seus personagens, sua história e avaliar seu legado em construção.

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Transcrição do episódio

Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, um podcast onde autistas conversam. Eu sou Gustavo Borges, e essa é a primeira vez que eu vi uma série onde eu realmente acreditei que a pessoa era autista.

Any: Olá. Meu nome é Any, sou autista, também sou esclerosada, e Atypical é uma série maravilhosa que eu acho que todo neurodivergente e neurotípico deveria assistir.

Ana Julia: Olá, pessoal, eu sou a Ana Julia, eu sou autista também, sou jornalista e Atypical é uma série queridinha minha.

Brendaly: Olá, pessoal, eu sou a Brendaly Januário, faço doutorado em antropologia social na UFG, e Atypical é uma das minhas séries favoritas.

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[Vinheta de abertura]

Gustavo: Bom pessoal, como vocês podem ver aqui na tela pelo meu brother Zahid, hoje nós vamos falar de Atypical, a série com um bromance mais interessante que eu vi nos últimos anos. Pra poder começar, eu quero falar de como foi ver Atypical e conhecer o Sam pra cada um de nós, porque depois dele a gente tem, sei lá, meia dúzia de séries com personagens autistas e alguma relevância passando na televisão e nos streamings, mas quando Atypical chegou meio que não tinha muita coisa, era o Sam e era isso.

E diferente daquele monte de personagem que tem traços e o pessoal fica especulando, e às vezes faz coisa de autista, às vezes fazem coisas nada a ver (eu tô falando de você Sheldon Cooper), o Sam realmente age como autista, você acredita que ele é um autista, e isso é muito legal. É muito bom poder se ver ali.

Any: Sim, acho que o Sam quebrou um pouco dos estereótipos “errados” que a gente vê, vou colocar “errado” com várias aspas, mas eu acho que quando você via personagens identificados como autistas, eram sempre estereotipados, ou é aquela pessoa “o super gênio que entrou na faculdade com 5 anos”, e ele não. A gente vê questões do cotidiano, de relações sociais que têm essa proximidade com uma pessoa comum, ordinária, que tem essas dificuldades. Então pra um autista assistir isso, teve uma catarse muito grande, teve uma aproximação muito forte com o personagem.

Ana Julia: Sim, é o que a Any falou é bem interessante, essa parte dos estereótipos, porque eu acho que o Sam é um personagem bem construído e que foge desse padrão do estereótipo, né? A gente vê, por exemplo, que ele vai entrar numa faculdade ligada a artes. E outros personagens autistas que a gente costuma ver em outras séries sempre estão ligados com questões de matemática, medicina, então isso já quebra esse estereótipo que eu acho sim, super interessante, ainda mais porque o ator que interpreta o Sam não é autista na vida real, então é bem interessante olhar esse lado também.

Brendaly: Eu acho que foi uma mudança muito significativa. Quando a gente fala de personagens autistas, ainda acho que tem um pouco de características estereotipadas assim. Acho que melhorou bastante, mas ainda falta um pouquinho. E provavelmente porque o ator não é autista, então assim, a gente percebe essa diferença quando a gente vai falar de Heartbreak High, acho que é assim que pronuncia.

Gustavo: Heartbreak High.

Brendaly: Isso, que é a Quinni, né. Lógico, não vou mudar o foco aqui, ela é autista, e aí sim! Apesar das pequenas críticas, eu acho que a série foi muito bem fundamentada, porque ali é uma família, não é somente o Sam. Então eu acho que é uma série muito boa.

Gustavo: Sim, e eu acho que as relações familiares verossímeis ajudam muito. Então ele tem uma irmã, e a irmã não fica: “ai tadinho, meu irmão é autista”. É: “babaca, sai do meu quarto”, igual qualquer pessoa faz com o próprio irmão. Eles têm essa implicância e esse amor um pelo outro que é muito bonito, é legítimo. Aí a gente tem a mãe superprotetora, que existe um monte de mãe superprotetora no mundo, e quando o filho é diagnosticado como autista na infância, ela fica maior ainda. E ainda por cima tem o pai que saiu pra comprar cigarros e voltou 2 anos depois, gente!

Brendaly: É verdade (risos).

Gustavo: É coisa… Assim, esse pelo menos voltou, tem uns que nem voltam, então assim, é tudo muito real ali.

Brendaly: Eu concordo assim, e isso que é interessante na série, porque retratam ali como que é a família, né? Então várias cenas ali e não fica só concentrado ali no Sam, a gente consegue andar ali no ciclo familiar e em personagens que também ganham uma certa relevância ali na série.

Any: Essa questão familiar dele, eu acho legal quando você percebe a questão familiar quanto à divisão dos mais velhos e os mais novos: o amigo, a irmã, a namorada, eles tratam o Sam como igual.

Gustavo: Igual, um pra um.

Any: É igual, tipo o ser autista vem em segundo plano. Agora quando a gente sobe, que é a mãe, o pai, aí eles já começam ter os…

Gustavo: Capacitismo.

Any: É, os problemas, a superproteção. Não sei, aí eu tô tirando da cabeça, mas pode ser aquela questão do quanto o transtorno foi sendo falado, foi sendo estudado e as pessoas começaram a conhecer. Então o pessoal mais velho talvez ainda tenha essa barreira de superproteção, de um cuidado exagerado, que os mais novos já tão mais acostumados com.

Ana Julia: É verdade, é, eu acho que a série ela trabalha muito essas questões do conhecimento do autismo em si, né? E o Sam, eu não sei gente como que se pronuncia, se é “[sæm]” ou se é “[sam]”, “[sãm]”.

Gustavo: Do jeito que você preferir.

Ana Julia: Mas assim, a série traz questões muito legais, porque o Sam é um personagem que, ele começa a namorar durante a série, já inicia a primeira temporada trabalhando, que é junto com o Zahid, né, então isso é super legal, porque mostra que nós autistas, a gente pode namorar, que a gente pode trabalhar, pode ir pra faculdade. Então trabalha muito bem essa questão do autismo, que, igual a Any falou, realmente, há alguns anos atrás, até hoje em dia, muita gente não sabe ainda o que é o autismo. Então acho que a série, ela trabalha e vai tentando trabalhar essas questões que eu acho que fica bem fácil de entender pra quem não tem muito conhecimento.

Gustavo: E só porque você falou de trabalho, eu queria falar rapidinho que o trabalho é a única coisa que não dá problema na vida dele. Ele sabe fazer o trabalho dele, ele é bom no trabalho dele, ele entende os eletrônicos, o que ele tem que fazer ali, ele consegue ajudar os clientes e fazer boas vendas. Ele tem problema com a família, ele tem problema com a escola, ele tem problema de ser apaixonado pela própria psicóloga, ele tem problema em tudo quanto é coisa, menos no trabalho. No trabalho tá tudo certo, o trabalho não dá trabalho.

Brendaly: E é engraçado que mostra, porque assim a nossa vida, às vezes acontece de a gente ter vários problemas ao mesmo tempo e na série retrata isso, aí quando ele entra no trabalho, ele vai lá, ele faz o trabalho e geralmente assim, o trabalho pra gente, pelo menos pra muitas pessoas autistas, também é uma questão, um desafio e ali pra ele não.

Gustavo: Gente só pra eu poder externalizar isso, tirar da minha cabeça e colocar na cabeça de vocês: Depois de alguns episódios, eu passei a achar o pai do Sam igualzinho ao Luciano Huck. Chegou a um ponto que toda vez que ele aparecia em cena, eu falava pra minha esposa, “no caldeirão”. Ele terminava uma frase, eu falava “no caldeirão”, eu nem vejo o programa dele, eu nem gosto, mas olha como são iguais!

Brendaly: Eu nunca tinha reparado nisso, cara, mas eu senti alguma coisa, na fisionomia, lembra alguém, né? (risos).

Gustavo: Agora você sabe quem, e toda vez que você for rever a série, você vai estar lascada com isso. Você pode ver ele até em Friends, que você vai falar “no caldeirão” pra ele.

Any: O pai saiu pra comprar cigarro e nunca mais voltou, voltou assim…

Gustavo: Dois, três anos depois.

Any: É, voltou querendo passar pano, voltou. Mas ele não estava lá no início, né? Na descoberta, no…

Gustavo: Não, eu acho que ele até tava na descoberta. Ele descobriu e falou: “não, obrigado”. Ele realmente abandonou mulher e filhos e tá nem aí.

Brendaly: Ah gente, nada de novo sob o sol, né? Pais (risos).

Gustavo: E eu não sei do que vocês estão falando, eu nem tenho isso.

Brendaly: (Risos) Nossa Senhora, que piada pesada (risos).

Any: Pesou o clima, né, Gustavo.

Gustavo: Alguém lembra o nome do pai, que eu só chamo ele de “pai do Sam”?

Brendaly: Eu não, não lembro, só “pai do Sam”. E isso é importante assim, ele é tão irrelevante, né? (risos).

Gustavo: O pai do Sam é tão apagado e segundo plano que eu só lembro dele como o “pai do Sam”, eu não lembro dele do nome. Ele é pai do Sam, barra ator que fez dois episódios de Friends, e é isso.

Any: Não, ele começa a ter um pouquinho mais de relevância no final, quando ele tá ajudando o namorado da…

Gustavo: Casey.

Any: Da Casey, ele entra um pouquinho ali, que ele começa a ter relevância, mas assim ele é muito apagado, ele é…

Brendaly: E fica parecendo, que tipo assim, ele tá tentando compensar, né? As merdas que ele fez (risos).

Gustavo: Com certeza.

Brendaly: É tipo isso, né, ah: “eu fui um pai irrelevante, eu só fiz merda e eu vou tentar compensar aqui”, e pior, que é (com) o namorado da Casey, não é nem com os filhos, né, vamos deixar esse ponto aqui (risos).

Gustavo: Não, eu acho que ele até tenta, só que a gente vai de um pai que fugiu por um tempo a um pai que tava lá, mas tava meio ausente, ficou aquela história… A mãe por ser superprotetora, “Ah, você tá cuidando bem, então eu tô tranquilo aqui na minha.” E não deu tanta atenção pra ela e aí conforme foi andando a série, as temporadas, ele percebeu que: “Caralho são meus filhos, e eu não convivo com eles” e passou a conviver levemente a mais.

Gustavo: Ele já tava interessado nos próprios filhos, quando a Casey tava namorando com Evan. Tanto é que se não fosse por isso, ele não tinha nem conversa com o Evan depois, e depois teve a interação deles no final, achei legal porque você pegou dois personagens assim, com muito pouca relevância e falou: “eu vou colocar os juntos, dá o mesmo tempo de tela, que eles aparecem um pouquinho”. Então, isso aí eu achei legal, mostrou uma profissão, um futuro, uma alternativa ali pro Evan, que, tadinho, né? Aquele cara que fez nada de errado na série inteira e só não deu certo pra ele, cara, vida que segue, vamos aí.

Any: Aí eu tenho assim o que eu acho, né, que ele some, e a mãe, como que a mãe ficou um tempo como mãe solo, a mãe, eu acho que criou ou aumentou essa proteção em cima dos filhos, porque sozinha e tudo… Ele retorna como nada tivesse acontecido, ninguém fala sobre o assunto e quando fala ele dá “piti”, então assim, não dá pra passar pano pra ele.

Brendaly: Ele é extremamente problemático (risos).

Gustavo: Como todo mundo na série, ainda bem.

Ana Julia: Eu acho que a série dá um pouco de “passada de pano” pra ele porque a mãe do Sam, que eu esqueci o nome dela (risos). Enfim, gente, eu não sou boa com nomes.

Gustavo: Adultos não têm nome nessa série.

Ana Julia: Não sou boa com nomes, mas enfim. Os filhos dela, enfim, o Sam e a Casey, eles ficam bem chateados com ela pelo relacionamento extraconjugal que ela teve, aí eles depois descobrem da situação que o pai abandonou eles quando eram crianças. E aí eu percebo que os dois, os filhos, vão ficar mais do lado do pai do que da mãe, mesmo que eles abandonaram, né? Sendo que a mãe do Sam a todo momento era a pessoa que estava com ele, ali, em grande parte, que ia com ele em tudo que era relacionado com a questão do autismo, sempre estava ajudando ele em tudo.

Gustavo: Apesar de ela ser neurotípica, tadinha, a gente respeita mesmo assim, ela bugou, derreteu, porque ela passou assim, vou jogar por baixo, 15 anos da vida dela dedicando aos outros e esquecendo que ela existe. Ela precisou tanto de uma fuga de qualquer coisa, que se ela tivesse achado um clube de leitura, se ela tivesse achado qualquer coisa pra poder fazer, ela tinha usado como fuga. Por um acaso ela achou esse cara aí, teve um caso com ele, ela nem tava querendo tanto um caso, ela só queria qualquer coisa que fosse dele e não da família.

Brendaly: Cara, mas eu também acho que a gente pode colocar um ponto, que assim, ela sempre foi ali, a base de tudo e sempre se esquecendo dela. E cara, eu fico pensando a questão de, de ser amada, de sabe assim, de alguém estar ali por ela, que foi que ela achou esse cara aí, então assim, ela sempre foi muito deixada de lado pelo pai e até mesmo pela configuração ali, que é a família.

Então eu acho que esse ponto também é importante porque é pela primeira vez, eu imagino assim, falo pela primeira vez, mas né, a gente não sabe como é que foi ali anteriormente, ela se sentiu desejada, ela se sentiu amada, então eu acho que é um ponto ali, talvez isso não foi tão abordado. Colocou ali a traição, mas, por que, assim? Eu acho que se tivesse uma fala bem potente ali dela, eu acho que seria interessante.

Any: Talvez se essa série não fosse Netflix, tão mainstream e tudo, talvez teria esse foco, porque sim, eu acho que ela deixa de ser, ela é dona de casa e mãe, e aí ela passa a ser mulher. Então, ela tem uma outra perspectiva, ela, sabe, ela volta, é a piada que eu fiz, ela queria um “ponte de Madison”, aí, um, “véi” que levasse ela embora. Foi um jovem, mas ela queria isso.

Gustavo: Uma fuga da rotina opressora, e assim, vocês já falaram, a série dá umas passadas de pano pro pai, então eu acho que deveria dar umas passadas de pano pra mãe também. É uma série com personagens humanos, onde todo mundo faz uma merda, tipo, alagar a loja onde trabalha, acontece, gente, quem nunca, então se todo mundo tem direito a uma merda na vida, essa foi a merda dela e vira.

Porque eu já tava achando a série e o pai sendo malvados, assim, na terceira temporada, tipo, ah: “um dia eu acho que eu vou te perdoar, mas eu não sei que dia que”, não, velho. Aceita se fez merda, você a ama, vocês vão continuar juntos e é isso, pra frente.

Any: Entendo a grande discussão.

Gustavo: Tem que ter a discussão mesmo.

Any: Uns dois episódios ali de cara virada.

Gustavo: Uma temporada inteira, se quiser.

Any: Pois é, mas assim, colocaram ela como bruxa, todo o tempo colocam ela, a superproteção com o Sam ela é uma bruxa, a relação com a filha é uma bruxa. Caramba, não! Ela é a matriarca, ela é a base da família, então sim, pegaram pesado com ela, é um ponto assim negativo, pra mim, da série.

Gustavo: Ou se vocês ainda têm alguma questão com ela, eu sugiro que vocês assistam a quinta temporada de Fargo, onde ela é a personagem mais motherfucker de todas.

Any: Aí ela é a bruxa.

Gustavo: Aí vocês vão ter respeito por ela, aí eu quero ver. Atuação completamente diferente, aí vocês vão ver a mãe de família.

Agora, ao invés de falar de relações amorosas que deram ruim, que foram problemas durante a série, vamos falar das relações amorosas que deram menos ruim? As que foram menos piores, se é que existe esse termo?

Temos aqui uma Casey que gostou do Evan por um tempo, aí gostou dos dois por um tempo, aí gostou da Izzy pra reta final e, se era pra ser série adolescente, nada mais adolescente do que isso.

Brendaly: Agora é meu momento de brilhar, né? Porque, enfim, eu sou a única LGBT aqui, aí gente, sempre que é pauta de sexualidade, vamos Brendaly, vamos falar sobre, mas é meu hiperfoco também, eu me coloco nessa situação (risos).

Gustavo: Você não quer que eu passe batom com glitter pra poder me adequar nessa pauta…

Brendaly: (Risos) Não é um triângulo amoroso, né, nos bastidores, a gente tava conversando sobre isso. Um triângulo teria que fechar ali, na minha concepção (risos).

Gustavo: Porque você está pensando sobre ponto de vista de relacionamentos humanos. Pra literatura é aceitável o termo triângulo amoroso, no ponto poliamoroso das relações humanas é uma relação em V, onde duas pessoas têm o ponto de contato na Casey.

Brendaly: Pra mim é uma relação em V. Não vamos discutir sobre isso que não é a pauta. O que acontece, há uma questão, porque deixa muito em aberto qual que seria a sexualidade da Casey? Se ela realmente é bissexual ou se ela é lésbica, vocês concordam com isso, né?

Gustavo: Eu acho que a série terminou sem a gente saber e sem ela saber também.

Any: Mas será que precisa rotular, ter um rótulo?

Gustavo: Queer, tá aí um ótimo rótulo, abrangente.

Brendaly: É, mas é porque assim, pra gente falar sobre isso, a relação com, eu esqueci desse carinha.

Gustavo: Evan.

Brendaly: Que ele é tão irrelevante, o Evan.

Gustavo: Ele é irrelevante sim, coitado.

Brendaly: Porque cara, ele é muito sem sal, ah, me desculpa, ele é muito sem sal. Aí eu já vi algumas críticas falando assim, “ai a relação deles era perfeita e não sei o quê”. Ele é sem sal, ele é sem graça, ele é um tédio, gente, pelo amor de Deus, ele é um tédio! (risos) E aí por exemplo ela…

Gustavo: Tô sentindo partidarismo, hein gente.

Brendaly: Ah tem partidarismo, eu não vou ficar “Ai criando relação entre homem e mulher”, né? Tem que ficar com a mulher mesmo (risos)! Desculpa.

Gustavo: Sou a favor de mulheres, gosto.

Brendaly: Então, pronto! (risos)

Gustavo: Casei com uma.

Brendaly: E aí a Izzy, ela é problemática ali, né? E aí eu já vi até algumas críticas falando assim ah, porque enfim, ela é problemática, é um relacionamento abusivo, ali. Eu acho que é um ponto que mostra também como que é a vida da Izzy, e eu acho bem interessante pra mostrar assim por que que ela é tão problemática assim, e porra assim, olha esse cara e olha, porra, puta que pariu, gente não dá, não dá (risos).

Gustavo: Você tá falando que ele é sem sal. Ela é apimentada demais.

Any: Não, mas a questão é ele, assim, ah ele tinha uma relação fofa com ela, cuidava bem dela. Mas ela é, as duas são muito mais parecidas, são muito mais próximas.

Brendaly: Nossa, eu, cê concorda que têm química?

Any: Sim, em questão de relação às duas assim, sabe… Ele não, ele é só o cara bom da rua.

Gustavo: Gente, a questão é que a gente tá tão acostumado a ver homens tão terríveis na ficção e na realidade, quando aparece um cara que é só ok, a gente fica com dó. Eu entendo, eu concordo que ela devia ter terminado com a Izzy, que elas deviam terminar correndo juntas na faculdade lá que elas foram. Ele foi só um cara legal que participou da série e da vida dela, legal, tá bom.

Any: Pois é, ele só foi assim, não sei se foi o primeiro, nem nada, mas foi o primeiro que a gente conheceu, era o cara legal, ali perto. Beleza, ele teve um momento, mas não tinha.

Brendaly: Não tinha química, gente, não tinha!

Gustavo: Gente, e no final, ele só precisava de um sogro pra poder dar um caminho na vida dele e foi isso.

Brendaly: É isso, por isso que ele entrou pra essa família foi pra isso, pra ser guiado ali e pronto, acabou.

Gustavo: Ser o próximo paramédico.

Ana Julia: Concordo que ele realmente era um personagem meio sem sal, não foi um personagem bem desenvolvido. Mas eu acho que a Casey, na série, ela passa por questões muito interessantes, que é essa questão da descoberta da sexualidade, principalmente na adolescência. Nós que, enfim, passamos aí pela adolescência a gente sabe que é um período de muitas fases, muitas descobertas. Então eu acho que a série, inclusive, traz uma questão muito importante, porque não foca só no autismo e só no Sam, foca em outras questões, também essa questão da sexualidade é muito interessante. Enfim, não tenho muito o que falar gente, mas eu gostei muito delas duas e eu achei assim, um casal muito fofo.

Brendaly: Muito, e assim e é engraçado, porque a descoberta da sexualidade das duas, né, não é só da Casey, mas da Izzy também, eu acho que foi bem trabalhado isso, a questão da confusão ali. Ela julgou tanto a mãe por ter traído o pai e aconteceu a mesma coisa com ela, é um ponto aqui, mas aí, e assim ele é tão bonzinho, ele é tão galera, ele é tão da paz… que ele… entendeu?

Any: É, ele é chato.

Brendaly: É essa pessoa, então, e no caso dela teve mais assim, né, na série foi trabalhado assim “ah, tudo tudo bem”, que não foi no caso da mãe, porque é o caso dela descoberta da sexualidade, enfim, a gente já falou isso anteriormente. Então eu achei muito interessante a forma que foi trabalhado a descoberta da sexualidade até mesmo o Sam, porque cara, ele foi whatever, tipo…

E eu achei massa esse ponto porque não teve tanto assim: “nossa, ai, você agora gosta de mulher” e nem teve assim, não teve esse foco do Sam. Ele só simplesmente: “ah, tá bom” e tá tudo bem assim, ele, com naturalidade, que eu acho que muitas das vezes em várias séries é assim como se fosse algo, né, e tal, principalmente ser o personagem autista, é aquele problema, aí coloca a rigidez cognitiva. É sempre assim, é muito caótico e no caso dele, não, assim, pra ele tava tudo bem, agiu com naturalidade, eu achei massa o jeito que eles retrataram.

Any: Essa questão da descoberta dela é um ponto que é muito bom de ser abordado, porque não foi só a descoberta dela. Sempre é aquela, a menina que tem, que você vai vendo o crescimento do romance por fora até se descobrir homossexual. Não, ela ficou em dúvida porque ela ah, “não, mas eu gostava de menino, agora eu gosto de uma menina”, e não deixaram, deixaram extremamente aberto e, o Gustavo sabe mais disso porque eu vivo contando pra ele, mas eu sou bibliotecária escolar, e hoje os meninos são tão abertos a isso que assim, eu fico, às vezes eu entro num choque. Eu falo na minha época, não tinha isso, né. Os meninos do fundamental, assim, ele já “ah, não, porque eu sou bi”, “porque eu sou lésbica”, “porque eu sou pan”, na sétima série e tá tudo bem, e eles se aceitam, e eles já não tem rótulos e trazer isso também que não deixar o nome, foi assim muito positivo.

Gustavo: O Sam tem três amores nessa vida. Ele tem a psicóloga dele que foi um amor passageiro, uma obsessão, meio, ele não entendia bem a questão de relacionamento, ele gostava da psicóloga, e por isso ele achou que ele era apaixonado por ela e que era uma relação mútua, tadinho. Ele teve a relação com a Paige, e ele tem o verdadeiro amor da vida dele, que são os pinguins. Mas a Paige, ela foi uma personagem muito legal, porque ela era agitada, neurotípica, que eu quero fazer tudo certo, que eu quero fazer, não sei o quê, e ainda assim, aceitou namorar o Sam, ela tava valendo mais do que ele na cotação da escola.

Brendaly: Mas aí que você trouxe uma palavra, que acho que seria interessante a gente trazer aqui. Ela é neurotípica. Será que é neurotípica? Porque (risos)…

Any: É uma dúvida, eu acho que ela fica…

Brendaly: Será que tem TDAH? Vou deixar aberto, o que vocês acham?

Gustavo: Eu acho que pilhada ainda não tem CID formal. Ela é pilhada. Tem assim 220 volts e oito pilhas enfiadas nas costas dela, na coluna, porque assim…

Any: Mas assim, sem um diagnóstico pra ela, esse 220 dela não é o que quebra ele, assim, o que leva ele pra fazer algumas coisas e…

Gustavo: Sim, porque ele é parado e ela empurra.

Any: Se não eles ficariam aquela pessoa quadrada, sempre no…

Gustavo: Não, acho ótimo, mas uma série tão preocupada com diagnósticos, eu não sei se se ela tivesse um diagnóstico isso não seria mencionado de alguma forma, em algum lugar.

Brendaly: Será? Ou será que a intenção não é deixar aberto igual a sexualidade da Casey? Entendeu?

Any: Era uma menina que destoava dos outros, se ela tem um diagnóstico, não interessa.

Brendaly: Exatamente. E eu acho que é bacana isso também assim, uma… Precisa, mesmo assim, colocar? Ah ela tem um diagnóstico de TDAH, não tem, ou deixar aberto? Porque às vezes nas nossas vidas é isso que acontece, né?

Brendaly: Tem pessoas que têm diagnóstico. Tem outras que não tem? E você fala poxa, essa pessoa é diferente, ela é pilhada, mas não tem diagnóstico. E é o que acontece, gente, na nossa vida. Nem sempre as pessoas têm diagnóstico.

Any: Sim, e nem pra tudo você vai se apresentar: “Ah, eu sou fulana, eu sou autista”. “Ah, eu sou fulano, eu sou déficit de atenção”.

Gustavo: É uma relação bonita. Ele tão parado, ela vai e empurra ele pra frente, ela faz com que a relação se movimente, e eles têm um desenvolvimento de casal muito legal de ah, primeiro beijo, a gente é namorado, a gente não é namorado, alguém fala, eu te amo, fala “ixe” não tava pronto pra eu te amo, e agora eu tô pronto, e ele vai e se declara pra ela e recupera o amor e eles tentam, e eles vão tendo as primeiras experiências mais físicas dele e achando o limite, o conforto. Até que na temporada final, eles vão até o final e conseguem, e é um treco bonito de se acompanhar. É totalmente caótico, bagunçado, não parece nem um pouco ficção, parece mais com a vida de qualquer pessoa que você já conversou, onde tudo aconteceu de forma esquisita.

Brendaly: Mas assim, é né, “ah, é bonito é fofinho”, mas também tem as partes né, a questão sexual (risos).

Gustavo: Não, mas eu acho bonito isso.

Brendaly: Porque do jeito que você tá falando assim, ah, é fofinho, não sei o quê. Nem sempre é fofinho, eu acho legal o jeito que eles retratam na série, porque, gente, nem tudo assim é uma relação, ah é sempre fofinho, não, tem a parte sexual ali, você descobrindo… Enfim, como…

Gustavo: Do que gosta, como gosta, onde gosta?

Brendaly: Do que gosta, como gosta, é a primeira vez dele tendo relação sexual, então não é sempre fofinho, tem uma parte ali que é bem… (risos).

Gustavo: Eu acho fofo isso também, é, eu entendo. É olha, eles tão tentando, casalzinho, todo mundo tímido, todo mundo sem saber exatamente o que tá fazendo. É bagunçado, e é legal, é como eu disse uma outra série adolescente muito pior, é membros pra todo lado.

Brendaly: (Risos) É que a parte da barraca, né? Gente, eles querem comentar um pouquinho? (risos).

Gustavo: Bloqueou totalmente sua cabeça?

Brendaly: Ah é a cena, que se eu não me engano, eles estão na escola.

Gustavo: Tá tendo um baile.

Brendaly: Tá tendo um baile, aí tem várias barracas, eles vão pra barraca, e ela basicamente ela masturba ele (risos) e ele sai, como é que ele fala? Qual que é a frase que é bem icônica?

Gustavo: “Eu acabei de ganhar uma punheta!”

Brendaly: Isso, exatamente! (risos)

Any: Mas essa questão é interessante, da descoberta sexual dele, porque falando agora, como, assim, falando como autista, eu crio scripts pra tudo. Então qualquer coisa eu tenho um roteiro. E se esse roteiro não é seguido, eu me quebro. Então até esse roteiro ser quebrado e eu poder ficar confortável de eu não ter um roteiro, é complicadíssimo.

Brendaly: Você fala de um roteiro sexual?

Any: Não, é um roteiro de tudo, pra tudo, então por exemplo, quando o Gustavo falou, meu primeiro eu te amo, eu não tava esperando e eu passei…

Gustavo: Cinco longos minutos me encarando.

Any: Pra reformular um novo script, porque isso não estava no meu script. É legal ver essa quebra do roteiro dele, do que ele espera, porque ela só vai e faz, ela é mais livre.

Brendaly: É, eles estão lá, né, nessa… Eu não sei se eu pode falar, uma barraquinha, aí ela simplesmente vai lá e faz (risos).

Gustavo: Dando o próximo passo. Gente, mas assim até a forma como eles terminaram eu achei bonita. Olha, a gente percebe que se gosta, tá claro, mas, tá todo mundo precisando de um outro foco, um outro rumo na vida, você tá precisando sair dessa cidade, eu tô precisando sair desse continente. E eles entendem, eles se gostam, falam muito bom esse tempo que a gente passou juntos e é hora de cada um seguir em frente pelo seu caminho, se a gente se esbarrar qualquer dia, ótimo, mas é a hora da gente seguir, é bonito.

Ana Julia: É, e nisso que você falou, eu pensei em uma questão que a Paige, ela foca muito no Sam, e ela esquece às vezes outras questões da vida dela, pelo menos eu percebo isso. Então ela vive tentando em função dele, ah, mas porque ele… Tem até uma parte que ela faz que ele fala muito da Antártida, do hiperfoco dele, e aí ela começa a dar uns cartõezinhos pra ele de “você falou, só pode falar isso três vezes”.

Gustavo: Por dia, sim.

Ana Julia: E eu acho que ela fica muito em função dele em muitas questões. E eu acho que a parte final da temporada é uma questão legal, porque cada um viveu a sua vida, seguiu a sua vida, a sua própria individualidade, eu acho isso interessante. Porque eu acho que a Paige precisava também cuidar um pouco dela. Eu acho a relação deles muito fofa, mas eu confesso que às vezes o Sam me deu um, eu fiquei meio desconfortável às vezes com algumas questões da forma como ele tratava a Paige, isso não foi muito falado.

Gustavo: Ele não tinha preparo pra poder saber como lidar apropriadamente com uma parceira amorosa.

Ana Julia: Exatamente, ele não tinha isso, mas eu acho que a Paige ela foi um alicerce muito grande pro Sam porque eu acho que ele se desenvolveu em muitas questões por conta da Paige, já que ela era mais assim, né? Liberal, não sei, hiperativa, ela já era mais, assim, do povo, então acho que ela ajudou muito ele nessas questões. E o melhor: ela respeitou as particularidades dele, né, essa questão dele não saber o “eu te amo”, a questão do ato sexual pra ele que era uma questão muito nova, ele não sabia como fazer, como chegar nela, então acho que foram questões muito interessantes também.

Gustavo: Bom gente, foi bem bacana acompanhar o Sam crescer ao longo de quatro temporadas. Eu confesso que eu fiquei até feliz quando a série acabou, porque ela não foi cancelada, ela foi encerrada, teve um fechamento planejado, ali. É muito bonito, ele tá abrindo a porta da casa dele, ser a Antártica, que é onde ele ia chegar com o pai dele, passar os 50 dias de férias lá, foi um desfecho, muito bonito já que o primeiro episódio da série se chama Antártica, então ficou todo, fizeram um fechamento apropriado, fizeram um treco bacana e a gente pôde acompanhar ele crescendo, os conflitos, e ele lidando com esses conflitos e melhorando a relação com a mãe, o pai, a irmã, o amigo, a namorada teve muita coisa de crescimento de ver, olha aí, ó, um autista, fez tudo isso e ainda tem uma vida pela frente. Foi legal.

Ana Julia: É gente, então, foi muito legal acompanhar essa vida, essas descobertas que o Sam passou durante essas quatro temporadas, então acho que a série em si é muito bem construída, né? Eu acho que é uma série que retrata muito bem o autismo, que eu acho que não tem essa tantas questões estereotipadas do personagem, isso é bom, enfim.

Brendaly: Eu concordo, eu acho que a série foi muito bem construída. Interessante como cada personagem possui um papel importante ali na série, como o arranjo familiar é desenvolvido ali, então eu acho que o final foi muito significativo, foi muito bem construído e eu gosto muito, muito da série.

Any: A série eu acho que é uma ótima porta de entrada pra família que tá ali com diagnóstico, que tá sem saber muito o que fazer, como tratar então, pra novos diagnósticos também, eu acho que ela tem os seus problemas, mas eu acho que ela é uma ótima porta de entrada. Mas assim, as mulheres não foram muito bem representadas, teve suas falhas, mas continua sendo uma série positiva.

Gustavo: Dava pra melhorar, dava.

Brendaly: Concordo.

Gustavo: Atypical foi uma série contando sobre a vida atípica do jovem Sam, que é considerada atípica, mas pra todos nós aqui foi tipicamente, é isso mesmo. Eu espero que vocês tenham gostado do episódio, espero encontrá-los na próxima vez, acompanhe nossas redes sociais, lembrando sempre que o Introvertendo é um podcast feito por autistas, com produção do NAIA Autismo gravado na Faculdade Realiza.

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Tiago Abreu | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: August Resende