Introvertendo 272 – Habilidades Sociais – parte 1

Saber o que é esperado de você em uma interação, a função de uma socialização, e extrair o melhor dela, é uma questão central do autismo. E desenvolver habilidades sociais é uma luta para toda uma vida. Neste episódio, dividido em duas partes, nossos podcasters abordam o que são habilidades sociais, como interagem entre autistas e neurotípicos, os diferentes contextos sociais e muito mais. Participam: Brendaly Januário, Bruno Frederico Müller, Izabella Pavetits e Marx Osório.

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Transcrição do episódio

Marx: E aí, meus queridos, você que está assistindo ao podcast Introvertendo, um podcast onde autistas conversam, eu sou o Marx Osório, farmacêutico, e habilidades sociais são importantíssimas, sim, são importantíssimas. 

Izabella: Oi, eu sou a Izabella e o déficit de comunicação e interação social é a minha maior dificuldade como autista.

Brendaly: Olá, eu sou a Brendaly Januário, faço doutorado em antropologia social na UFG e autista diagnosticada desde 2023. 

Bruno: Eu sou o Bruno Frederico Müller, professor e também tenho muitas dificuldades nessa área. 

Marx: Você que nos assiste pelo canal do NAIA Autismo no YouTube, nos escuta através do Spotify, nós estamos nas outras plataformas de redes sociais, no Instagram, Facebook, Twitter, @introvertendo. O Introvertendo é um podcast feito por autistas e com produção do NAIA Autismo. 

[Vinheta de abertura]

Marx: Quando a gente fala em habilidades sociais, existe um pensamento que eu observo que é muito comum entre a maioria das pessoas com que eu convivi ao longo da vida, que está relacionado somente com a comunicação falada ou com a capacidade de se comunicar verbalmente.

Mas durante todo esse processo de diagnóstico e toda a vivência que eu tô tendo agora, profissionalmente também, eu observo que vai muito além disso e que tem muito mais coisas que não envolvem a comunicação verbal ativa do que a gente imagina. É um aprendizado muito grande, para mim também tem sido, e hoje nós vamos bater um papo aqui a respeito desse assunto.

E nada melhor do que começar falando a respeito da vivência de cada um sobre o tema. Como vocês veem as habilidades sociais, como tem sido a experiência de perceber a falta delas, depois no diagnóstico, e até que ponto vocês sentem quando elas realmente faltam em alguns momentos do dia a dia de vocês?

Brendaly: Antes de ser diagnosticada, o exemplo prático assim que eu lembro, foi na época do mestrado que eu comecei a fazer campo. E eu pesquisava sobre cultura de baile, ballroom, e aí lá eu tinha que conversar com as pessoas. E antes de fazer campo eu lembro que eu fiquei apavorada, assim, muito apavorada porque eu tenho muita dificuldade, sabe, de chegar. Porque, enfim, eu estava num ambiente que não era o meu, eu não conhecia, conheci minimamente ali, e tinha que fazer esse jogo de cintura, né? De conversar com as pessoas, de fazer um contato ali, de pegar confiança. Eu me apavorei muito na época.

E aí o que eu fiz? Eu tinha uma pessoa de apoio, e eu sempre fiz isso (risos), ter uma pessoa de apoio. Eu fiz uma amizade muito grande na época, e quando ela ia, eu ia com ela. E eu ficava quase como uma sombra ali pra tentar, as pessoas conversavam comigo, eu conversava com elas, mas assim, era um nervosismo. Eu chegava em casa assim, muito esgotada, na época não tinha um diagnóstico, não sabia que era autista.

Então, pra mim, a minha maior dificuldade assim, quando fala em interação, são os primeiros contatos ali, de conversar e tal. E aí a interação social me pega muito, porque além da interação, tem todo aquele jogo de cintura da forma de falar, o corpo, como você tem que se comportar. As pessoas às vezes fazem piadas, e pra mim é péssimo, que eu tenho muita dificuldade de entender piada, ironia, sarcasmo, pra mim é horrível. Então, as pessoas falam e eu fico olhando, né? Pra ver se o pessoal tá rindo, se o pessoal tá rindo, se tá dando uma risadinha, é assim que eu funciono. 

Marx: Aquela coisa de sentir a naturalidade do teor da conversa dos neurotípicos, que é uma coisa que ou você entende, ou você não entende.

Izabella: Então, às vezes é melhor você fingir que tá entendendo, né? Dá menos trabalho do que você pedir pra explicar, porque às vezes tá todo mundo rindo, aí você fala “ué, não entendi”, aí todo mundo “ué, como assim não entendeu? É óbvio”, aí você fica, uai.

Marx: Eles percebem, né? Quando você não entende, eles percebem.

Brendaly: Eles percebem.

Marx: E eu aprendi isso da pior maneira possível.

Bruno: Percebo essa questão, por exemplo, quando eu me lembro das festas que eu costumava ir antes de receber o diagnóstico, para além da dificuldade de escutar, processar o som ambiente, tinha a dificuldade de interação com as pessoas. Eu nunca sabia como chegar, como me enturmar. Então, eu ficava muito feliz quando eu chegava na festa e tinha um cachorro, um gatinho, porque aí eu ia fazer amizade com cachorro, com gato, porque me enturmar com gente é muito difícil.

E outra dificuldade que eu tenho, que é um clássico do autismo, é saber distinguir os contextos em que determinado comportamento é aceitável. Então, por exemplo, se você está num círculo de amigos e aí eles fazem certas piadas e você aprende aquelas piadas, aquele comportamento, aí chegava a mãe de um deles e tal, e eu no caso, eu continuava me comportando daquela mesma maneira na frente da mãe dos meus colegas. Porque eu não entendia que existia um determinado comportamento que é só entre amigos e um comportamento que é quando tá na presença dos pais.

Izabella: Eu, como eu falei na introdução, sempre tive muita dificuldade com essa questão de interação social, então eu não consigo nem dizer, por exemplo, “a minha maior dificuldade é essa ou é aquela”. Eu tenho dificuldade em absolutamente todas as etapas. Eu já tô sofrendo com a interação social antes dela começar.

Eu já tô pensando, nossa, mas o que será que é adequado fazer? Como que eu devo me portar? Tanto tipo, o que eu falo, o que eu faço com meu rosto? Porque eu já ouvi de várias pessoas antes de me conhecerem, falam: “nossa, mas você tá com a cara tão brava o tempo inteiro, eu achei que você era super metida”. E eu não faço de propósito, eu acho que a minha cara, que eu acho que é natural, na verdade eu tô fazendo cara de brava. E  habilidade social também é sobre expressão facial, né, sobre, né, você saber o que falar também.

Eu, por exemplo, eu falo muito “né” no meio da frase, o que é terrível e é um vício de linguagem, porque eu, às vezes, eu tô desenvolvendo um raciocínio, aí eu travo no meio, aí eu fico tipo, aí agora como é que eu conecto o que eu tava falando com a próxima frase, aí eu vou lá e lanço um “né”. Aí, né, agora…

Marx: (Risos)

Izabella: …que eu tô participando do Introvertendo, eu escutei, né… Argh!

(Risos)

Izabella: Desgraça.

Marx: Será que o diretor vai cortar isso? Não sei…

Izabella: Esse episódio é para maiores de 18 apenas, porque vamos usar linguagens chulas.

Marx: Como diria o Gustavo, quadrados não entram aqui, né.

(Risos)

Marx: Mas é muito interessante que as vivências cada um de nós temos com essa parte, elas são muito distintas e muito parecidas ao mesmo tempo, porque eu vejo assim que o neurotípico, e eu tenho observado muito isso na convivência com o neurotípico no ambiente de trabalho agora, eles não ficam pensando sobre a interação. Eles simplesmente interagem de maneira natural. Existe um código implícito de como falar, de como agir, como ver as expressões faciais, interpretar as expressões faciais, saber a natureza de uma pessoa só pelo jeito que ela tá olhando pra você. E uma coisa que me ajudou bastante a saber identificar o padrão de cada tribo de pessoa que conversa, como cada tribo de pessoa conversa, de modo que eu conseguisse pelo menos não parecer que eu não estava entendendo, ou pelo menos entender o básico do que estava acontecendo, é começar a observar os padrões.

E perceber padrões é uma coisa que autista tem muita facilidade também. E isso começou a funcionar, porque eu vejo que existem os padrões de comportamento que, no geral, você vai esperar de certo tipo de pessoas, em certo tipo de contexto, em certo tipo de lugar. Eu vejo que quando as pessoas percebem que você entendeu o que elas estão falando e como elas estão falando, a chance de você conseguir acompanhar o fluxo e não ser a pessoa que quebra o andamento da socialização talvez aumente.

Então não é que eu não tenho dificuldade de socialização, eu tenho bastante ainda. Mas eu sinto que elas diminuíram bastante a partir do momento que eu comecei a fazer um esforço mental para entender e tentar acompanhar pelo menos um pouquinho o que os neurotípicos conversam e como conversam. E também, como eu gosto de falar, a questão das piadas. Piada movimenta o mundo, gente. Se você não entende piada e subjetividade, pelo menos o básico, a chance de você não conseguir se enturmar é maior.

O treinamento é importante, a terapia é importante, mas a experiência de viver e de socializar com eles também é importante. E quão à vontade vocês ficam num lugar onde só tem neurotípico, por exemplo? Se vocês sentem algum tipo de evolução antes do diagnóstico e agora? Se vocês sentem que vocês conseguem mais, se melhorou, se piorou?

Bruno: Pra ser sincero, eu me sinto com neurotípicos tão à vontade quanto eu me sinto com autistas. Ou seja, muito pouco à vontade. Eu acho que não tem diferença nesse aspecto. E a outra pergunta que você fez, eu acho que eu não, pra ser sincero também, eu não progredi muito do diagnóstico pra cá, não.

Eu comecei a ficar mais consciente das minhas dificuldades sociais. Mas isso não necessariamente significa que eu sei como resolver. Por exemplo, eu comecei a prestar atenção em por que as pessoas se incomodam tanto se você não olha nos olhos. E observando, raciocinando, eu cheguei à conclusão que é o quê? Quando você olha nos olhos, dá a impressão de que você está sendo sincero, que você sabe do que você está falando, que você está dando a devida atenção e o devido respeito ao seu interlocutor. Isso não significa que eu não sinta o mesmo desconforto quando eu tenho que olhar nos olhos, entendeu? Então eu me treino pra não ficar o tempo todo desviando o olhar. Mas eu não consigo ficar o tempo todo olhando nos olhos do meu interlocutor.

Brendaly: A minha experiência é diferente da do Bruno. Eu me sinto muito desconfortável com o neurotípico, muito mesmo. E eu me sinto mais confortável com pessoas autistas, bem mais confortável. Porque eu sinto que a troca é diferente, a conexão é diferente. E que as pessoas autistas compreendem algumas questões que os neurotípicos ficam tentando forçar a gente a cumprir aquele protocolo ali criado na cabeça deles.

E depois do diagnóstico, eu sinto que eu melhorei muito na questão da interação social. Por vários aspectos. O primeiro deles é porque eu parei de ficar mascarando tanto, então eu não me sentia tão cansada. E com os neurotípicos, eu tento de uma forma, em alguma hora da conversa, tacar que eu sou autista (risos).

Eu faço isso porque, mesmo que as pessoas que eu estou interagindo ali tenham o mínimo de conhecimento sobre autismo, às vezes dá pra entender um pouco mais, sabe? Então eles ficam tentando tanto. “Ah, você não está olhando no olho?”. “Ah, que não sei o quê.” Porque, cara, eu tenho dificuldade de olhar nos olhos, muita dificuldade, quando eu não me sinto à vontade com as pessoas. Então, às vezes eu tô explicando alguma coisa pra uma pessoa nova: “Ah, então me fala sobre sua pesquisa”. Aí eu vou falar, aí eu… E eu não olho, eu não faço questão mais, assim. Porque me cansava muito, me desgastava muito, então aí a pessoa sabendo que eu sou autista, ajuda.

E também, a gente pega as estratégias, né? Então, antes eu tinha uma pessoa de apoio, era inconsciente ali, e hoje eu já sei que eu preciso de uma pessoa de apoio. Foi até uma vez que a gente…  (risos)

Izabella: Eu ia chegar nesse ponto quando fosse a minha vez de responder. 

(Risos)

Brendaly: Então, assim, a gente tem uma pessoa ali, assim, “Nossa, eu preciso de uma pessoa de apoio porque eu sou autista”. Aí a pessoa, “Não, não, tá, tudo bem, posso ser a sua pessoa de apoio”. Então, ajuda bastante, assim, pelo menos pra mim, depois do diagnóstico, melhorou bastante.

Izabella: Então, sobre se sentir mais ou menos confortável, se você estiver acompanhada de neurotípicos, ou de outros autistas, ou até outros neurodivergentes, eu, sinceramente, me sinto desconfortável em qualquer contexto social. Aliás, qualquer não, em 98% dos contextos sociais. Mas, eu espero mais… Minha expectativa de ser compreendida, de receber um pouco de empatia, é bem maior quando o contexto social tem pessoas autistas e neurodivergentes também. Até o momento, eu tenho sido correspondida nessa minha expectativa, né? De receber essa compreensão, essa empatia.

Porque, por exemplo, eu tenho muita… Uma das minhas questões é responder a mensagem. Então, quando eu tô muito sobrecarregada, eu demoro muito. Aliás, eu demoro muito, ponto. Se eu estiver sobrecarregada, eu demoro triplo. Quando a pessoa é neurotípica, ela leva muito pro pessoal. Assim, não é todo neurotípico, mas sempre um neurotípico (risos). A maioria das pessoas, dos amigos, que eu tive problema com isso, que realmente ficou muito magoado e falou: “Nossa, mas por que você não me responde? Por que você tá fazendo isso comigo?” E tal. Que leva pro coração mesmo, sabe?

E eu falo: “Gente, mas não é pessoal, eu não dou conta”. E a pessoa não entende, não adianta. E assim, quando eu entrei pro Introvertendo, eu comecei a conversar com alguns de vocês e tal. Aí, logo no início, eu já falo assim: “Olha, eu às vezes sumo, tá? Aí, depois, eu respondo três dias depois, não é pessoal”. E todo mundo que eu falei, eles falaram: “Não, besteira, não dá nada não”. E eu fiquei tipo: “Ai, o que é isso? Um filme?”

(Risos)

Brendaly: Que coisa maravilhosa! (risos).

Izabella: Nossa, inédito. Mas, sobre a primeira parte da pergunta, é isso. E sobre estratégias, antes de eu ser diagnosticada, desde pequena, essa questão da interação social é uma dificuldade enorme pra mim. Só que como eu sou de uma idade muito próxima dos meus irmãos, o que eu fazia? Eu aprendi a andar sempre próximo a eles e a replicar o que eles estavam fazendo. Então, assim, além de acabar, isso acabar, né, afetando o meu comportamento repetitivo, que era assim, todos os meus irmãos faziam o que eu queria fazer, foi aí que eu aprendi a estratégia de usar a pessoa de apoio.

Ainda pequena, né, eu sabia que tipo: “Ah, mas vai na festinha do fulaninho, que vai ser não sei aonde”. Aí eu ficava assim: “Cara, eu não sei como é que eu vou agir, mas, sei lá, meu irmão vai estar também. Qualquer coisa, eu posso perguntar pra ele se isso é adequado”.

Então, assim, não necessariamente tipo: Ah, se o irmão tava lá jogando bola, você ia também? Não, mas tipo, se eu ficava com dúvida, sabe, se eu podia ou não fazer alguma coisa, eu tinha eles pra perguntar. Ou então, por exemplo, se fosse mais nova, tava na festinha também, por exemplo, eu preferia ficar na mesa dos adultos, ouvindo a conversa deles, do que sentado com as criancinhas. O que é prejudicial, né, que eu acho que é um…

Tem vários pontos horríveis, né, de você não ter habilidades sociais, mas um deles é que você… isso inevitavelmente gera o isolamento da pessoa, né? Então, assim, a criança fica isolada, eu… Beleza, às vezes eu queria ficar isolada? Sim. Mas muitas vezes também eu deixava de ir, porque eu não sabia como eu ia chegar lá, como que eu ia abordar. Porque quando eu era muito nova, tinha muito isso, tipo, ia pra um barzinho, meus pais com um casal de amigos, se eu quisesse ir, tipo: “Ah, os amigos têm criança da mesma idade, eu vou lá brincar com a Fulana, ela também tem 10 anos”. Eu ficava, “Gente, mas a única coisa que ela tem em comum comigo é a idade, e aí, da onde… Que conexão é essa? Como que eu vou falar com ela?” Então, né, na infância a minha estratégia era essa.

Aí mais ou menos, assim, na época infantil e juvenil, o que é que eu fiz? Eu baseei minha personalidade inteira no fato de eu ser uma boa aluna. Porque, tipo assim, minha vida era escola, eu estudava, eu tinha boas notas e isso atraía as pessoas, os colegas. Só que na minha cabeça isso atraía e eu estava fazendo vários amigos. Porque todo mundo queria falar comigo, porque eu era boa aluna, eu tinha paciência pra explicar o conteúdo, eu não sabia dizer não, porque eu achava que eles gostavam de mim, então eu dava tarefa pra copiarem.

Então, tipo assim, a minha estratégia era essa: “Não, se eu for uma boa aluna, as pessoas vão gostar de mim”. Então, eu achava que era todo mundo meu amigo, porque todo mundo falava comigo, e eu achava que eu estava arrasando. “Ah, finalmente achei, como que eu vou fazer as pessoas, como eu vou me inserir nesse contexto social”. Então, por exemplo, essas experiências de adolescência, como festas, sei lá, viagem com os amigos, não tenho, porque o meu contexto social era escola mesmo e essa era a minha estratégia. Nenhuma das estratégias que eu tive durante a vida foi realmente alguma coisa assim: “Ah, não, essa aqui é bacana, vamos manter”. Ao invés de estratégia de desenvolver habilidade, eu acho que são mais estratégias de sobrevivência, alguma coisa assim, pra não acabar isolada demais ou acabar surtando.

Com exceção dessa da pessoa de apoio, porque eu sempre tive, primeiro foram meus irmãos na infância e depois acontece um fenômeno muito engraçado, que eu sou… costumo ser “adotada” por uma pessoa extrovertida. Aí eu faço amizade por tabela com os amigos dessa pessoa extrovertida, porque aí como eu uso essa pessoa extrovertida como apoio, eu sigo ela como se eu fosse, o Pokémon dela, andando pra cima e pra baixo. Eu acabo fazendo amizade com alguns amigos dessa pessoa. Aí, outra coisa que eu faço também, que o Bruno comentou, nas poucas festas que eu fui obrigada a acompanhar, quando tem pet, nossa, é minha felicidade.

A primeira coisa que eu penso é: “Gente, que muito bom, eu vou poder ficar 100% investida nesse cachorrinho, eu não vou precisar conversar com ninguém, uma alegria”. Outra coisa que eu faço pra disfarçar quando eu tô desconfortável, assim, no contexto social, não sei como agir ou o que falar, eu arrumo alguma coisa pra fazer. Numa festa também eu  pergunto “Ah, não tá precisando de ninguém pra lavar a louça ou pra pegar…

Marx: (Risos)

Izabella: Juro. Pra não ficar lá, tipo, no meio do contexto, todo mundo conversando, todo mundo se divertindo, e eu lá, parada, assim, sem saber o que fazer, eu levanto, vou lá na cozinha, vou arrumar, vou…

Marx: Isso me lembra de um fato que aconteceu esse mês passado, teve um arraiá lá no meu outro serviço. Lá onde eu trabalho, a maioria das pessoas, elas têm os seus grupos de socialização fechados. Eu não vou dizer o nome popular disso, porque vai que alguém de lá resolve assistir o podcast. Eu já falei sobre o podcast com algumas pessoas. Mas digamos que tem umas pessoas pontuais lá que eu tenho mais proximidade.

Uma coisa que eu percebo, assim, é que também depende muito do contexto e do tipo de pessoa que você vai interagir. Porque tem eventos sociais, tem festas, que as pessoas, elas gostam de conversar despretensiosamente, elas são abertas, elas convidam você para se aproximar, elas puxam assunto, o assunto é legal, porque às vezes também o povo tá lá socializando sobre um assunto que não te interessa. E nem sempre é só porque não é o hiperfoco do autista, às vezes é porque o povo é chato mesmo. E aprender a identificar esse tipo de coisa também é uma habilidade social. Eu não estou dizendo que ninguém é chato, não estou citando ninguém aqui, pelo amor de Deus! (risos)

Eu só tô falando que tem lugares que, às vezes, você vai ter que exercitar a habilidade de reconhecer quem são as pessoas que dá pra você conversar, que é de boa, que tem assunto, que tem interesse em conversar com você. E tem gente que não vai ter interesse em conversar com você e tá tudo bem, e entender que tá tudo bem também, porque é uma coisa que pra alguns de nós sempre foi uma questão que às vezes a família não ensinou. Às vezes a falta de um processo terapêutico lá no começo da vida fez falta entender que não é todo mundo que vai querer socializar com a gente. E não tem nada de errado nisso. Existem quantos bilhões de pessoas no mundo, né?

Agora, cabe a nós, e isso é uma coisa que eu vejo que atualmente tem me feito estressar menos, gastar menos neurônios nos lugares que eu vou, é identificar as potenciais pessoas que dá pra socializar e também lembrar o porquê eu estou aqui. Se eu estou indo a uma festa, é porque eu fui convidado. Se eu tô indo a uma festa da firma, é porque eu trabalho lá. Eu sou obrigado a conviver com aquelas pessoas. Sejam essas pessoas boas de conviver ou não. Eu tenho que criar ferramental para não ficar levando pro pessoal ou me estressar com pessoas que não valem a pena.

Agora, se eu tô num contexto social que eu fui porque eu quis, ninguém daquele contexto eu tô conseguindo me aproximar por qualquer razão que seja. Das duas, ou aquele contexto realmente não é pra mim, eu tô querendo fazer o rolê, não tô identificando qual é o rolê que é bom pra mim, ou é porque eu preciso desenvolver esse senso de perceber quem é que dá pra chegar ou não. E eu me senti muito orgulhoso assim que eu cheguei lá e eu realmente consegui sentir aonde tinha que ir. Eu sentia onde tinha abertura para eu chegar e conversar e onde não tinha. Sem ninguém falar nada, sem ninguém ser mal educado, todo mundo me cumprimentou, todo mundo falou comigo, normal. Só que eu sentia onde eu era bem-vindo, onde eu não era bem-vindo. E tinha muitas pessoas lá que eu interagi e tal.

E assim, hoje eu não me sinto mais perdido, desorientado no meio do neurotípico, não. Eu sei como me virar de maneira muito decente, sabe? Mas de vez em quando as autistadas vêm, porque a gente nunca vai deixar de ser autista. Mas não é mais uma constante, é uma coisa pontual. E claro, se eu estiver desregulado, sai de perto (risos).

Izabella: Achei bacana isso que você falou, de conseguir perceber quando a pessoa vale a pena. Porque assim, nós como autistas, a gente sempre vai ter essa dificuldade com a socialização. Nós desenvolvemos habilidades, a gente cria repertório, estratégias, várias coisas, mas não existe cura para o autismo, não precisa dizer isso. Então assim, sempre vai ser uma questão para todo mundo.

Então é muito importante você e todos nós sabermos reconhecer quem vale a pena gastar nossa energia. Porque eu acho que sempre vai gastar energia, porque tem todo esse processo de: “ai, sei o que eu vou falar, quando eu vou falar, sobre qual assunto”. Eu, por exemplo, quando tenho uma roda de conversa, aí está num assunto que me interessa, eu nunca sei quando eu posso falar. Aí eu fico assim, fica aquela troca, como se a conversa fosse um pingue-pongue. A bolinha vai pra cá, pra lá, e eu fico: “ai, meu Deus, agora é minha vez”. 

Brendaly: Aí o assunto muda. Você não entende por que eles mudaram e eu falo. 

Izabella: Exatamente!

Marx: Eu comparo entrar numa conversa de neurotípico, quando você vai entrar na Marginal Botafogo, que tem aquela plaquinha do triângulo de cabeça pra baixo, assim, de dê preferência, você já tem que entrar acelerando e você não pode parar. Você tem que ver, achar o espaço certinho. Aí está passando um monte de carro lá, vai, vai, vai. Você tem que vir, vir, vir, quando você vê o espaço, entrou. Entrar numa conversa dessa é assim.

Izabella: Nossa, é muito difícil, porque você tem que ter, né?

Bruno: Tem que ter um timing, né?

Izabella: O timing da conversa também é uma habilidade social.

Bruno: Quando você pensa que você encontrou o timing, a conversa muda de assunto. 

Izabella: Sim, nossa, é isso que a Brendaly falou, de mudar o assunto. Eu fico muito frustrada, porque às vezes é um assunto que me interessa demais e eu estou super, assim, eu preciso muito comentar isso. Aí eles vão lá e mudam de assunto e eu não consigo. Eu fico, minha oportunidade já não…

Brendaly: Exatamente, e acho que vira um ciclo, né? Porque aí você está tentando falar. Nossa, é a minha oportunidade. Eles mudam. Aí você fica frustrada. Aí você fica aquele tempo inteiro pensando sobre isso que você perdeu o timing, não sei o que. E aí eles vão mudando. Aí assim, aí pronto, acabou. Aí é o caos, né? Porque eu, pelo menos, quando eu perco o timing e falo assim, nossa, eu quero falar sobre esse assunto, aí eu já vou pensando, né? O que eu vou falar, que não sei o que. Aí depois, se eu perder o timing, aí eu fico o tempo inteiro, assim, pensando e frustrada. Então, assim, é péssimo, é péssimo.

Marx: E é foda, né? Porque também existe, infelizmente, fica a impressão no meio deles de que você está querendo ser o protagonista da conversa dos outros. E isso é muito ruim. E quando eu comecei a perceber isso, teve um momento que foi até um choque de realidade. Você fala, tem conversa que é legal, que o assunto me interessa, mas que pela conversa que já está acontecendo em todas as pessoas, nem sempre eu vou conseguir entrar. E não é porque eu não consegui entrar que eu tenho que ficar indignado, que o mundo acabou, que eu perdi a chance de mostrar o meu brilho. As pessoas, elas só querem jogar conversa fora, entendeu? E às vezes, lidar com essa frustração de que eu não consegui falar quando eu queria falar e às vezes, ir para outro grupo… Ou às vezes, ficar do meu canto mesmo.

Você falou sobre a questão de arrumar estratégia quando você não consegue interagir com ninguém no ambiente. Eu tenho a minha estratégia mor de conseguir permanecer nos ambientes quando eu não estou conversando com ninguém, que é meu xadrezinho online, né? Que nunca falha.

Mas também dá uma observada, assim, se realmente aquele rolê está valendo a pena. Se também já não deu, você já saturou, você já está cansado, já está com a cabeça cansada, você não achou ninguém legal e fala assim: “Ah, eu vou me embora daqui”. 

Brendaly: Não, e um negócio que você falou que é interessante que eu pensei que agora, porque às vezes os neurotipicos acham que a gente quer ser o centro das atenções ali da conversa. E uma coisa que eu faço muito, por exemplo, a pessoa vem desabafar sobre algo. E como é que eu faço? Cara, como que eu faço? Eu falo, “Não, porque eu também”. E aí eu conto, porque tipo, cara, pra mim, você se conectar com a dor da pessoa é você mostrar que tem alguma coisa ali, algum ponto de intersecção ali. Aquela comparação. E eles ficam tipo, “Nossa, ela está querendo mudar o assunto pra ela e não é” (risos).

Izabella: Sim, nossa, acontece comigo também.Você tenta mostrar a história, tipo: “Olha, eu escutei o que você disse, e olha essa minha história, eu passei pela mesma coisa. Eu entendo o que você está passando”. O que a pessoa escuta: “eu quero transformar isso sobre mim”.

Bruno: Olha, uma habilidade social que eu desenvolvi ao longo dos anos, às vezes a pessoa só quer ser escutada. Quanto menos você falar, melhor. Isso realmente acontece. Principalmente num contexto assim de a pessoa está desabafando, um problema, você está lá pra ouvir. A sua tarefa é ouvir, não é compartilhar daquela dor. E sim, acolher.

Marx: Ou às vezes até tentar dar uma solução prática. Eu passava muito por isso antigamente. “Ah, mas você pode fazer isso, você pode fazer aquilo”. A pessoa não quer saber o que fazer, ela só quer falar! É lógico que tem gente que às vezes fala, desabafa de uma maneira saudável, e tem gente que acha que você é uma lixeira emocional, que ela tem que depositar o caminhão de entulho em cima de você. E às vezes o autista não tem a habilidade de perceber que pessoas assim, elas acabam com a sua saúde mental, e aí, aquela habilidade de sair de fininho, sabe? Isso é uma coisa importante.

Uma coisa que acontecia muito comigo, que eu já me dei muito mal ao longo da vida, é por não conseguir identificar pessoas cansativas. O que são pessoas cansativas? São pessoas que não conseguem interagir de maneira saudável. Que você que converse com elas, você se sente bem, porque você está trocando uma ideia, você está falando alguma coisa legal, você está falando mal dos outros, sei lá, você está fofocando. Mas não, a pessoa pesa o rolê, ela só vem falar de coisa ruim, ela só vem falar dos problemas dela, ela não dá espaço para ninguém falar sobre qualquer coisa que seja do cotidiano, e isso é um problema seríssimo, e não aflige só os autistas, não, aflige muita gente, independente de ser autista ou não. É uma questão de personalidade.

Quando eu comecei a perceber esse tipo de coisa, eu comecei a dar menos espaço para esse tipo de pessoa, e o “é complicado” sempre funciona, às vezes. “É complicado”, e a pessoa continua falando. “Pois é”, né? Pra ver se a pessoa percebe que você não está querendo continuar aquele assunto, e ela muda de assunto ou ela sai de perto de você.

Mas aí tem um segundo ponto, que eu acho que vale a pena a gente pensar um pouquinho aqui também, que é a questão do repertório. Porque nós autistas sofremos muito por não entender o repertório dos neurotípicos. Mas muitas vezes, a gente também não tem repertório para poder entrar numa conversa com o neurotípico, e para manter uma conversa com eles, ou em qualquer contexto que seja.

Porque isso me remete a uma certa experiência que eu tive com alguns colegas autistas, e eu não vou citar o nome deles, mas que você falava sobre personalidades da internet. “Personalidades” eu acho que é um termo muito forte, vou usar o termo “celebridades” da internet. Ou pessoas que já são famosas na internet há mais de 10 anos, a pessoa não sabe quem é.

E é gente assim, que todo mundo que é minimamente conectado com o mundo deveria saber. Por quê? Porque a pessoa está tão mergulhada no hiperfoco dela, o prejuízo social dela de não saber nem o que está acontecendo no mundo é tão grande, que quando ela vai para uma roda de pessoas que conversam sobre o que está acontecendo no planeta Terra, ela fica perdida. E você não consegue ter uma interação satisfatória, uma reciprocidade, se você não sabe do que você está falando.

E nesse sentido, como anda a busca de repertório? Porque sim, busca de repertório é importante. Ficar só no que a gente gosta mais, só no hiperfoco, só naquilo que nos estimula, é legal, é confortável, mas socialmente te atrapalha, nos atrapalha. E quando eu entendi isso, também me ajudou a ficar menos boiando em alguns contextos.

Bruno: Ah gente, eu não quero conhecer celebridades da internet não, desculpa.

(Risos)

Marx: O moleque não sabia quem era a Melody, véi.

Bruno: Não sabia quem era quem?

Marx: A Melody.

Bruno: Eu também não sei.

(Risos)

Izabella: Revelação agora de que o moleque que não sabia quem era a Melody era ninguém mais, ninguém menos que o Bruno (risos).

Marx: Não, eu não estava falando de você não.

Bruno: (Risos)

Marx: Foi só um exemplo esdrúxulo, pra gente pensar que às vezes é importante você saber que o Murilo Huff ganhou a guarda do filho dele, inclusive.

Brendaly: Então, assim…

Bruno: Eu não sei.

Brendaly: …é um problema (risos)… Você também não sabe?

Marx: Socorro!

(Risos)

Brendaly: Olha, assim, é algo que realmente eu não tenho tantos problemas, sabe, assim. Muito pelo contrário, eu uso isso muito ao meu favor. Porque eu gosto muito de ler, assim. Enfim, gente, não é querendo me achar e tal, só comentando. Eu gosto muito de ler e ficar por dentro de tudo, sabe, assim. Então, se a pessoa fala minimamente sobre um assunto…

Claro que não é todo assunto que a gente sabe, né. E tem alguns assuntos que a gente sabe mais, principalmente quando é hiperfoco e tudo. Então, eu consigo, assim, sabe, entrar na conversa e falar alguma coisa. Nem que seja: “Ah, isso aí eu vi, não sei o quê”. Qualquer coisa. Então, eu consigo lidar com questões de repertório sobre assuntos variados. Usei ao meu favor para flertar também, numa época… (risos).

Izabella: Opa, olha aí a dica!

Brendaly: Porque, tipo assim, eu que eu falava assim… Agora não mais, porque agora eu namoro. Mas eu não sei flertar. Então, na conversa eu dou conta, sabe, assim. Aí as pessoas falam assim: “Ah, eu não sei o quê”. Porque sempre tem aquele flertezinho, né. “Ah, você vai se apaixonar”. Eu falo assim: “Não, quem vai se apaixonar é você”. Porque quando eu vou conversar, eu… Não, gente, mas eu gosto, sabe (risos).

Marx: Jogador caro é outro nível!

Brendaly: Então, quando eu vou conversar, eu me sinto muito à vontade. Então, eu vou falando e tudo, aí a pessoa fala “Nossa, olha, você…” Isso aí, no resto, mas no resto também eu sou péssima. Então, é uma coisa que eu sou boa, e o resto…

Marx: Você falou uma coisa interessante que me lembrou de outra coisa. Que autistas que falam demais também têm dificuldade de interagir com os outros. Que é o outro lado da moeda, né.

Izabella: Pois é, porque a gente fala em autista, logo pensa na pessoa introvertida, né. Mas tem muito autista que é extrovertido e, né…

Brendaly: Não, mas aí depende. Eu sou extremamente introvertida. Mas dependendo, porque assim, eu sou introvertida. Eu tenho dificuldade de interação social, enfim, óbvio, né. Por questões óbvias. Mas pelo repertório eu consigo. Só que aí envolve, a comunicação envolve muitas coisas. Então, você tá numa rodinha. É quando falar, o que falar, então isso aí já me atrapalha. O ambiente, tudo. Agora, quando é duas pessoas, aí eu me saio melhor, assim. Duas pessoas conversando, geralmente eu consigo, sabe, ali minimamente conversar. Ter uma troca e a pessoa gostar de mim. Agora, quando envolve grupo, aí não, aí eu me sento e choro mesmo.

Bruno: Quanto mais gente, pior.

Brendaly: Sim.

Marx: A dificuldade, ela vai exponenciando, né. Mas eu falo falar demais, no sentido de falar demais e perder o timing do…

Izabella: É não deixar o outro participar da conversa, né.

Marx: É, tipo assim, é porque tem alguns autistas que realmente afunilam tanto no hiperfoco, quando vai falar sobre, principalmente quando vai falar sobre hiperfoco. Que ele não consegue mais prestar atenção se as outras pessoas ainda estão prestando atenção nele. Ou se o povo já encheu o saco, já também, entendeu. E a dificuldade de entender que aquele assunto pode não ser legal pros outros.

Brendaly: Mas aí envolve também a questão de você perceber as nuances, né. Tipo, da face. Que é uma dificuldade se a pessoa ver se ela está gostando ou se ela não está gostando. Eu também tenho esse tipo de dificuldade.

Marx: Eu confesso que em alguns momentos da vida eu fui essa pessoa, em alguns contextos. De assim, não conseguir perceber que já tava, já tava, já deu. Já tinha falado muito sobre aquilo e que eu tava na hora de mudar a fita, né. E ficar indignado se alguém mudasse de assunto e me deixasse falando sozinho. Nossa, eu ficava… pé da vida com isso. Porque levar pra aquele lado de “ah, a pessoa não tá querendo me ouvir mais”. Sim, a pessoa não tá querendo te ouvir mais porque você já falou demais, porque o assunto já deu. E que ninguém é obrigado a gostar tanto daquilo quanto eu.

Bom, esse episódio ficou um pouquinho longo, a discussão ela rendeu bastante. E a segunda parte deste episódio será apresentada na próxima semana. Conto com a audiência de vocês. Até lá!

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Tiago Abreu | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Izabella Pavetits | Técnico de som: Marx Osório | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian