Introvertendo 263 – Autismo no Censo

Em 2019, a formação anterior do Introvertendo estava na expectativa de finalmente termos uma pergunta sobre autismo no Censo 2020. 6 anos se passaram e 200 episódios, incluindo uma pandemia que fez a pesquisa ocorrer só em 2022. Este ano, o IBGE finalmente divulgou que 2,4 milhões de pessoas declararam ser autistas e, com base nesses dados, Gustavo Borges e João Victor Ramos recebem Alexandre Stacciarini e August Resende para falar sobre o que os dados do Censo revelam ou não sobre o autismo.

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Transcrição do episódio

Gustavo: Senhoras e cenouras, sejam todos muito bem-vindos ao Introvertendo, o podcast onde autistas conversam. Hoje estamos aqui para poder falar sobre os dados do autismo no Censo que finalmente saíram. E, de acordo com o Censo, no meu apartamento tem um homem autista, uma mulher autista, uma cachorra adulta e um porquinho da Índia adolescente.

João Victor: Olá a todos, sou João Victor Ramos e garanto que nessa conversa sobre o Censo de 2022 não seremos nem um pouco insensatos.

Alexandre: Bom dia, boa tarde, boa noite. Eu sou o Alexandre Stacciarini. Geralmente eu fico por trás das câmeras e eu não posso trabalhar no IBGE porque eu não tenho bom senso.

August: Eu sou o August Resende, sou convidado aqui hoje no Introvertendo para falar sobre esse assunto do Censo. É um assunto muito diferente, né? Não é tanto da minha área, por exemplo. Mas como eu tenho um hiperfoco basicamente diferente a cada semana, eu acabei vindo para aqui.

Gustavo: Que bom, precisava de alguém para fazer isso. E você pode acompanhar outras conversas sérias e descontraídas seguindo nossas redes sociais como @introvertendo no Twitter, Instagram, Facebook ou em nosso site introvertendo.com.br. Aproveite para poder dar o seu apoio em apoia.se, Catarse ou no Patreon. Toda ajuda é muito bem-vinda. O Introvertendo é um podcast feito inteiramente por autistas com produção do NAIA Autismo.

[Vinheta de abertura]

Gustavo: Há quase seis anos atrás, finalmente foi sancionado que autistas deveriam ser contabilizados como parte do Censo. Ainda nessa época, fizemos um episódio do Introvertendo de número 63, que você pode acompanhar pelo áudio, basta buscar o nosso arquivo. 

Falando sobre a expectativa que a gente achava que seria feita a partir daí, isso só se tornou realidade em 2022 por uma série de fatores. Incluindo a pandemia. Na prática, agora, maio, pouco mais de 30 dias atrás, a gente finalmente teve o resultado desses dados publicados pelo IBGE. Nós nos reunimos aqui hoje para poder falar sobre o que está escrito ali, o que não está escrito ali, o que deveria estar escrito ali. Além da análise dos dados.

Em dados estimativas internacionais ultrapassadas, houve tempo em que se achava que autista era algo tão raro quanto um em cem na população. Hoje, dados mais atualizados colocam autistas como 1 em 31. E os dados oficiais do Brasil, que a gente ainda vai caminhar para poder melhorar isso, colocam como 1 a cada 38 brasileiros está dentro do espectro autista. E apesar de todas as questões com sub-diagnósticos no passado, hoje temos um número cada vez maior de profissionais qualificados para poder fazer esse diagnóstico. Pode até ser que algum dia a gente chegue no número que realmente é necessário para poder manter dados reais e diagnosticar as pessoas corretamente.

E hoje nós vivemos uma realidade onde várias crianças são diagnosticadas ainda na primeira infância dentro da escola. Vocês querem comentar sobre as maravilhas que a gente está chegando nisso, das pessoas pelo menos terem o diagnóstico na idade correta para poderem ter acesso ao tratamento? 

August: Esse ponto referente aos diagnósticos estarem, conforme os dados que saíram do Censo, estarem maiores em crianças, é um avanço que a comunidade do autismo buscava há muito tempo, porque no Brasil, desde que se começou a falar de autismo, era um ponto que boa parte dos autistas acabavam sendo diagnosticados tardiamente. Não se tinha muito critério para poder se suspeitar ou se chegar a um diagnóstico, quando as intervenções que são feitas com profissionais de terapias e etc. São comprovadamente na ciência mais efetivas. Então a gente teve um avanço nesse ponto. 

Gustavo: A gente acredita que hoje sendo diagnosticado como criança já vai ter acesso a um tratamento, deveria pelo menos ter acesso a um tratamento mais apropriado para poder conseguir ter uma melhor convivência em sociedade. Isso é maravilhoso. 

August: Pelo que eu vi dos dados, é uma coisa que ao mesmo tempo que a quantidade de diagnósticos na infância e na adolescência aumentaram, existe um número maior de autistas nessa faixa etária, mas também não é um número exorbitantemente mais alto do que nas outras faixas.   Então é uma questão de que muito provavelmente indica-se que está tendo mais diagnóstico e não está tendo epidemia de autismo, igual tem alguns profissionais que falam por aí, ou coisas do tipo.

Então a gente deveria parar de olhar para o dado que está faltando, digamos, do que era esperado nas estimativas do CDC, e olhar onde que estão de fato os autistas idosos, porque eles apareceram no censo e numa porcentagem relativamente alta, não está tão desviado da média assim. Onde estão as autistas mulheres que muitas ainda não recebem diagnóstico, e que ainda assim no nosso dado do censo veio a informação de que tem muito mais autistas homens do que mulheres, sendo que nos estudos científicos mais recentes já se tem uma equiparação muito maior, né, quando é um estudo mais controlado, numa metodologia bem feita, amplamente no dado do dia a dia da população.

João Victor: Dentro dos números que me recordo são 2 milhões e 400 mil autistas aproximadamente em termos de Brasil,,num país com mais de 200 milhões de habitantes. Ou seja, epidemia de autismo, nada filho, não tem essa. E digo mais, se não me engano, a diferença entre autistas homens para autistas mulheres ainda em termos de Brasil, se encontra… 400 mil, não?

August: É, por volta disso.

Alexandre: Inclusive sobre essa questão da diferença entre números de diagnósticos e homens e mulheres, a gente tem inclusive aqui um gráfico do Censo que mostra, né, toda essa disparidade. Essa é uma questão que é um pouco mais complexa porque é provável que os números, na verdade, os números reais, sejam equiparados, né, que o número de mulheres autistas seja mais alto do que esses dados apontam, até porque para as mulheres a questão do diagnóstico é um pouco mais difícil pela questão social. E é até inclusive um ponto engraçado que era para ter duas mulheres participando aqui nesse episódio, mas infelizmente acabou não rolando.

João Victor: Não vou contar para ninguém que o Alexandre está tomando o lugar de uma delas.

Alexandre: Mas foi por motivos de força maior. Era para ela estar aqui. Ela infelizmente adoeceu, mas…

João Victor: Sim.

August: Sobre esse ponto, inclusive, na faixa etária ali acima dos 60 a mais ou menos 70 anos, começa a ter uma tendência de inversão, né, até próximo ali dos 70 anos, no qual tem uma pequena porcentagem de 0,1% em média, onde há mais mulheres diagnosticadas do que homens. Então é uma tendência interessante esse dado coletado do Censo.

Tem uma pequena coisa que me incomoda referente a esse dado também, que é a forma com que o IBGE ainda, em pleno 2022, ainda trouxe classificação apenas por sexo biológico. Porque hoje já entende-se que existem muitas variações de gênero que não estão ligadas, de fato, à classificação binária de homem e mulher, né.

Gustavo: Ô August, em pleno 2022, com aquele desgoverno que a gente estava, não tinha a menor chance de sair um dado acurado disso.

August: É, com certeza, tem esse ponto.

Gustavo: Quem sabe vai para os próximos, a gente fica torcendo.

August: Mas assim, até mesmo a inclusão do dado no Censo sobre autismo, quem acompanhou na época sabe que foi uma luta, tanto comunitária da comunidade do autismo, quanto política também. Porque não queriam colocar, não queriam que fosse descoberto essa informação que é crucial para desenvolvimento de políticas públicas, para se entender de fato o que está ocorrendo. Porque os dados falam muito e também eles não têm um viés, necessariamente, quando você analisa os dados brutos. Você consegue chegar a várias conclusões, digamos, a partir dos mesmos dados. Então os dados são importantes. Se você começa a fazer política pública, se você começa a falar sobre estimativas que estão usando dados de outros países, por exemplo, é importante, sim, mas é como se fosse se guiar sem ter a visão. É muito mais complexo você chegar em resultados que sejam positivos se você não tem os dados.

Gustavo: Sim, até mencionamos agora há pouco na abertura a questão de não ter profissionais suficientes para poder fazer o diagnóstico. E hoje, com certeza, tem muito mais do que tinha quando a gente era criança e não sei você, mas pelo menos nós aqui não fomos diagnosticados na primeira infância, como seria o ideal. Justamente, para você fazer uma política pública de quantas pessoas têm que passar por treinamento para poder identificar autismo na primeira infância dentro do SUS, dentro das faculdades de medicina do país, saber dados reais é muito relevante para isso.

August: E, assim, referente a esses dados, têm um ponto que chama a atenção ali que é referente às crianças de 5 a 9 anos, homens, no caso meninos, que tem o dado maior, assim, na… 

Gustavo: Maior discrepância.

August: A maior porcentagem, que é 3,8. E, assim, quando a gente analisa um dado bruto, assim, tem várias especulações que é possível de se fazer, mas, de fato, existem pessoas falando que existem maus diagnósticos em alguns momentos. Esse é um tema até um pouco espinhoso, mas quando você vai analisar os dados de forma absoluta, esse dado ali muito acima, muito fora da curva, em uma faixa etária específica, ele traz um alerta para que, de fato, o diagnóstico seja feito com mais cuidado. Então, esses dados são importantes.

João Victor: Aproveitando a fala do August, pessoal, precisamos considerar que os dados desse Censo de 2022 estão sendo lançados paulatinamente, certo? Portanto, temos que considerar também que esse é o primeiríssimo Censo que aborda estatísticas com um certo grau de precisão a respeito de nós autistas. Então, sem querer parecer chato, mas já sendo, sejamos pacientes, pelo menos um pouquinho, certo?

Pois haverão outros, de tempos em tempos, que conseguirão trazer com maior precisão esse número, esses números, na verdade. E, digo mais, a respeito de políticas públicas, novamente, tem muitos autistas, ainda não conseguimos estipular um número, mas não é novidade para ninguém aqui do Introvertendo, e nem para a comunidade no geral, que muitos de nós não conseguem sequer completar uma faculdade. Em casos de maior necessidade, se me permitem a palavra “vulnerabilidade”, nem o ensino médio, por falta de suporte. Eu sei que tem gente que não gosta de usar esse termo ainda, por mais que ele seja muito dotado, mas por falta de um acompanhamento, que é o que mais prezamos ao longo da vida toda, principalmente no comecinho, abordado pelo August.

Alexandre: Inclusive, sobre a questão que você pontuou, João Victor, de escolaridade, tem uma outra questão importante também, que é do mercado de trabalho. Esse já é um dado internacional, na verdade, é um dado dos Estados Unidos, não é do Brasil, né? Onde mais de 80% da população de autistas está desempregada, e isso é a população que tem ensino superior. Então, assim, mais de 80% das pessoas autistas com ensino superior estão fora do mercado de trabalho.

August: Pensando na questão dos números de pessoas com deficiência também, que o Censo e o IBGE têm trazido, é uma coisa até um pouco problemática, porque já se trouxeram estimativas de que até 20% dos brasileiros têm algum tipo de deficiência, só que quando você fala de pessoas com deficiência no total, é uma coisa relativamente complexa, porque onde que se define que começa a ser considerado legalmente com deficiência? Esse é um ponto. E nunca foi muito bem estabelecido, assim, né?

Mas, pelo menos, nas últimas estimativas da PNAD contínua, cerca de 18,6 milhões de brasileiros, no geral, são considerados pessoas com deficiência. No dado do Censo de 2022, foi de 14, alguma coisa, milhões. Inclusive, isso é uma coisa, muitas pessoas não entendem que o dado do Censo não é absoluto. Ele é feito o melhor trabalho para você mapear individualmente cada pessoa em cada domicílio na população inteira, se usa métodos estatísticos para poder corrigir os dados que estejam fora da linha, fora da margem, no melhor esforço que é possível de fazer.

Mas, inclusive, esse Censo, da forma que ele acabou saindo um pouco mais desorganizado do que o Censo de 2010, por exemplo, que teve uma quantidade muito mais alta de domicílios não respondentes, já saiu PNAD contínua. PNAD contínua, para quem não sabe, são atualizações estatísticas que são feitas com pesquisas que são embasadas nos dados originais do Censo. Então, é como se fosse um Censo atualizado, só que sem você ter que fazer o trabalho que é feito a cada 10 anos, deveria ser feito a cada 10 anos, de ir individualmente nos domicílios. Então, esses dados, quando eles são trazidos de forma mais atualizada… 

Gustavo: Não, realmente, porque a ideia do Censo, pelo menos a teoria dele, é conseguir 100% da população, é o total. A PNAD contínua é uma amostragem da população do qual se tem visitas contínuas e se faz perguntas diversas, de todo tipo de dado, por meses e anos a fio, sobre um percentual da população. 

August: Sim, inclusive, os dados do autismo, eles não foram coletados de 100% da população. Teve muita gente da comunidade que ficou chateada com isso. Chegou o recenseador na residência e não perguntou sobre autismo. Mas sim, não perguntou, porque ele entrou em uma porcentagem, se eu não me engano, em volta de 7% a 8% dos domicílios, que são selecionados com metodologia estatística, para que esses domicílios, respondendo, eles conseguem ampliar para poder chegar nos dados gerais. Então, não é um dado absoluto, é uma estimativa.

João Victor: E essa metodologia, se eu não estiver enganado, conta com duas amostras de questionamentos, ou melhor, de…

Gustavo: Questionários?

João Victor: Não entendi, desculpa.

Gustavo: De questionários. 

João Victor: Duas amostras de questionários, isso mesmo. E é a segunda somente que teste as perguntas a respeito de “você foi diagnosticado por um profissional qualificado ou alguém da sua família com transtorno do espectro autista? Sim ou não?” E previamente a isso, é feito um teste, através das perguntas feitas outrora a essa que eu acabo de citar, a respeito de memória, a respeito de atenção, a respeito de… Entendimento. Para que a pessoa que está realizando o censo tenha uma noção de entendimento de como o habitante, certo? Conseguiu absorver aquilo para que tudo saia da maneira mais coesa possível.

É um dado muito importante. E digo mais, quando falei agora há pouco sobre sermos pacientes, não é como se necessariamente tivéssemos que esperar de 10 em 10 anos para ter algum tipo de atualização numérica minimamente substancial sobre nós autistas no Brasil. Como o August falou com toda clareza do mundo, tem a…

August: PNAD Contínua.

João Victor: Certo. 

August: Que é só um dos estudos que é feito com base nos dados do Censo. Os dados do Censo são importantes para inúmeros estudos científicos.

João Victor: Sem sombra de dúvida. E digo mais, é através disso e desses outros estudos contínuos também, se me permite pegar essa palavra, que as políticas públicas podem seguir se atualizando, podem seguir se aprimorando a partir do momento em que elas forem elaboradas para nós. Então, gente, voltando a falar sobre escolaridade, educação, num panorama geral, Alexandre, por gentileza, traz outro gráfico para a gente.

(Alexandre troca o slide com habilidade e astúcia)

João Victor: Que bonito. Sendo um pouco abrangente, tá legal? Falamos agora há pouco, antes do gráfico ser apresentado, que os autistas têm muita dificuldade de conseguir se manterem numa universidade. Entretanto, segundo o próprio censo de 2022, a escolaridade dos autistas em termos de ensino fundamental, em termos percentuais, é mais elevada em relação à de não autistas, certo? Então, precisamos considerar o seguinte, por que mesmo com essa porcentagem, os autistas não conseguem, por exemplo, terem êxito numa universidade, seja ela pública, seja ela particular, tanto faz? Porque, eu prometo que vou deixar você falar, Alexandre. Ok, não, tudo bem.

Uma coisa é o autista conseguir concluir a escola, ensino fundamental, ensino médio, mas se baseando somente nos números em termos quantitativos, tipo, ah, o autista conseguiu concluir tal etapa, isso não garante que ele tenha conseguido ter um desempenho substancial a ponto de continuar desejando estar numa sala de aula, por exemplo. Temos que considerar o fator interação com os colegas, dificuldade na comunicação, que já foi explorado diversas vezes, que é algo inerente a nós, certo? Como os professores lidam com a questão, como os coordenadores, diretores, isso não garante também que essas escolas tenham o preparo devido. Isso sem contar a questão de diagnóstico tardio, que ainda pega demais, sabe?

Gustavo: Especialmente quando você pensa num ambiente universitário, porque você tem questionamentos de, ah, na escola todo mundo é aprovado, merecendo ou não, isso acontece em alguns lugares. A faculdade, a universidade como um todo é um ambiente muito solto, muito tá aí, vai você pra aula, vai você pro prédio, se você quiser sair da sala também você sai, se ninguém vai ficar te lembrando que dia que tem prova, o que tem que estudar, sai daquela coisa de, que tem um acompanhamento não só para a aula de matemática, para todo mundo, professor de ensino médio fica no pé dos alunos, ele faz pressão, ele vistoria e tenta se manter uma ordem, uma disciplina, uma hierarquia.

O ambiente universitário tem muito menos disso. Você faz a sua faculdade, você faz, você escolhe suas matérias, olha que coisa maluca e maravilhosa. Claro, existe o núcleo básico, a ser seguido, mas tem núcleo específico, núcleo livre para poder ser feito. Então, tudo isso acaba influenciando e não é toda pessoa do espectro autista que consegue se dar bem em um ambiente tão solto assim. São tantas opções que você se perde no meio delas e não consegue se formar ou não consegue tirar o devido proveito ali da universidade.

August: Sim, esse ponto que você colocou é muito importante, porque ali, quando você tem essa faixa etária ali, dos seis aos quatorze anos, que é a fase ali, desde a pré-escola até o fundamental um, fundamental dois, ainda vai o comecinho dele, no qual os autistas estão com mais escolaridade do que a média da população em geral, é uma fase do estudo de que você tem coisas que, de fato, não são tão complicadas para pessoas neurodivergentes no geral.

Porque você tem ali, no fundamental um, por exemplo, um professor só, todas as matérias que são dadas ali, elas são dadas em uma cadência adequada, é uma faixa etária em que, pelo menos na minha época, não existia tantas outras coisas externas àquele ambiente ali. O ambiente escolar era onde eu tinha acesso a informações, a coisas interessantes, coisas que me atraíam, por exemplo. Hoje em dia, com tanta internet, rede social, etc., isso meio que mudou um pouco, inclusive é um ponto que precisa ser discutido em outro episódio do Introvertendo, acredito que é, telas e autismo, né, acredito que possa ser um tema futuro aí.

Mas é um ambiente que é previsível, organizado, que tem muita cadência ali e que não existe uma dificuldade tão real. Agora, quando se chega ali, por volta dos 15 aos 17 anos, que é quando, de fato, os números são menores, desde os 15 aos 17, 18 aos 24 e 25 ou mais, no caso dos homens sim, e no caso das mulheres não, se tem uma escolaridade menor, que é quando começam os desafios de ser um indivíduo, né, quando se começam os desafios de ter que lidar com múltiplas professores, com múltiplas matérias, com demandas, nas quais aqueles professores ali não vão estar totalmente inteirados de quem é o aluno, aquele aluno específico, ele vai estar trabalhando com centenas de alunos, não tem como dar uma atenção individualizada para cada um deles.

Gustavo: Ou mesmo se ele tem métodos que sejam inclusivos para essas pessoas, mesmo sem ter a certeza, “ah, a pessoa que está na segunda carteira da fileira do meio está dentro do espectro”, ele não tem didática suficiente para poder ensinar os neurotípicos, que dirá os neurodivergentes.

August: Exato, e muitos lugares ainda, muitas escolas e muitas faculdades ainda não fazem o plano de ensino individualizado, que já é considerado algo crucial para poder ter um bom sucesso acadêmico para pessoas que estão no espectro. E eu vi isso muito acontecendo na minha trajetória. Eu, por exemplo, não concluí o ensino médio numa escola. Eu simplesmente terminei o ensino fundamental 2 e não consegui continuar na escola.

Eu abandonei a escola, de fato, depois fiz o EJA. Inclusive, quando eu abandonei no nono ano, eu já tinha nota suficiente. Na época era o ENEM que fazia a prova para você ter um certificado de ensino médio antes de… Sem precisar, de fato, cumprir o currículo, só que tinha a idade mínima de 18 anos. Ainda existe até hoje, só que é com o ENSEJA, um outro exame. Mas eu já tinha nota suficiente. Eu tinha feito como treineiro e tive nota suficiente.

E no nono ano eu já tinha os conhecimentos necessários para poder passar numa prova e ter um certificado de ensino médio. E na época eu não tinha diagnóstico. Eu só tinha a grande questão, que sempre esteve em todo o meu ambiente, toda a minha trajetória acadêmica, de que eu era especial. Eu era diferente.

Gustavo: Inteligente e problemático. 

August: Exatamente. 

Alexandre: E eu acho um ponto importante que a gente pode puxar aqui, vendo esses dados, é que existe uma luta muito forte pela inclusão das pessoas, principalmente crianças autistas, para que elas sejam colocadas na escola. Porque muitas vezes, antigamente essas crianças não estavam na escola. Hoje em dia muitas famílias lutam para incluir seus filhos. Inclusive é uma situação que gera muito conflito. Principalmente em escolas particulares, que têm o costume até de negar a matrícula de crianças autistas.

Gustavo:Mesmo sendo crime, né? 

Alexandre: Mesmo sendo crime, sim.

João Victor: Pois é, Alexandre. Precisamos considerar que muitas dessas crianças autistas

que tendem a estar no nível 2 ou 3 de suporte, por mais que também possa acontecer com crianças no nível 1, têm essas matrículas negadas, essas vagas negadas,mesmo havendo a disponibilidade, o que agrava o crime, já citado pelo August, e digo mais, ok, as crianças estão sendo diagnosticadas, mas não todas. O que me leva a falar com você agora a respeito do seguinte: quem foi diagnosticado tardiamente, tardiamente no caso, depois que isso aconteceu?

Alexandre: O meu caso, inclusive. Fui diagnosticado em 2023.

August: 2017. 

Gustavo: 2017 também. Formalmente só em 2021. 

Alexandre: Pois é. Então a gente tem a considerar casos não só como o meu, que foram diagnosticados depois que esse censo aconteceu, e todos esses casos de diagnóstico tardio, isso inclusive encaixa com o que a gente discutiu antes no episódio, sobre, muito provavelmente, esses números são maiores, e eu acredito, inclusive, que a tendência do número de diagnósticos é ir aumentando com o tempo, não somente porque as pessoas vão tendo mais acesso à informação e ao diagnóstico, mas também porque, hoje em dia,

tem uma flexibilização maior do que é o diagnóstico de autismo por conta do conceito de espectro.

August: Também, tem algumas outras informações sobre o censo, porque o censo não foi só sobre autismo, que são interessantes de você pontuar e fazer um paralelo com os dados do autismo, que é, por exemplo, esse número, 1,2%, o que ele significa? Em uma cidade como Goiânia, por exemplo, que é onde está sendo feito O Introvertendo nesse momento, que tem cerca de 1,5 milhão de habitantes, seriam em torno de 15 mil autistas, né? Mais ou menos próximo a isso, 17, 16, e alguns quebrados. 

Então, quando você vê, é um número grande, mas ele não é tão grande assim, porque, por exemplo, um dos dados interessantes que foi levantado do censo foi que houve um crescimento populacional geral no Brasil de 0,5%, o que seria metade dos autistas, se for simplificar. Mas, se você for ver os dados, por exemplo, do Centro-Oeste, que foi a região brasileira que mais cresceu, foi cerca de 1,25 a 3%. Cresceu em termos de população total absoluta? Isso, cresceu em termos de população.

Se você for comparar isso, digamos que temos mais população vivendo no Centro-Oeste brasileiro do que a quantidade percentual de autistas. Então, não tem como essas pessoas que saem falando por aí, “Ah, agora todo mundo é autista e não sei o quê”, terem qualquer razão lógica, qualquer embasamento factual pra poder falar em esse tipo de coisa, né?

Porque hoje você tem o fenômeno das redes que a pessoa interage com algum conteúdo sobre autismo e aí o algoritmo entende, “Ah, essa pessoa quer saber sobre autismo” e começa a jogar todos os autistas que produzem conteúdo na internet pra essa pessoa. E aí ela começa a ter a impressão que só existem autistas no feed dela. No caso, digamos, 60% do feed dela começa a ser de pessoas autistas. Mas isso é um viés, é totalmente um viés, não está embasado em fatos, em realidade.

Gustavo: Eu acho que é o pessoal que antigamente ninguém era autista, então de repente só tem as opções de ninguém em todo mundo. Só tá de surpresa, “Como assim essas pessoas existem?” Até porque a gente tá vindo de uma questão que tá saindo menos do imaginário, do cinema, pra realidade.

A gente não tem só autistas tipo o Rain Man do cinema. A gente tem autista que conversa, que interage, mesmo contra a vontade, geralmente, mas a gente interage, que paga as contas, trabalha, leva uma vida. Então o autista deixou de ser aquela pessoa que vivia totalmente apartada da sociedade no seu mundinho, precisando de apoio, pra ser uma pessoa que interage, que ela é parte consistente da sociedade.

João Victor: E a dissolução desse imaginário popular equivocado a respeito de nós autistas, ao meu ver, pelo menos, não sei se vocês concordam, vai demorar para ser completamente vaporizada. Ainda há muito o que se fazer.

Gustavo: Ah, qualquer 30 anos.

João Victor: Ou mais, não duvido.

Gustavo: Não, pra começar, você perguntou pra começar, você não falou pra resolver.

João Victor: Tá bom, desculpa, oxi. Indelicado, brincadeira.

August: E os autistas estão virando sujeitos de direito, de fato, até muito por conta, tanto das comunidades de autistas, quanto das comunidades de familiares, de pais, de mães, que representam suas crianças, né, nesse momento, estão virando sujeitos ativos, políticos, estão exigindo melhores condições do poder público, né.

Em certo ponto, isso pode incomodar, né, porque era um sujeito que estava muito à margem e agora ganha algum protagonismo, porque não tinha nenhum. Então, quando você sai do nada e ganha algum, aquilo ali já saiu do, digamos, como se fosse do 0 ao 100, né, na visão das pessoas.

Então, isso causa um choque, causa estranhamento. É muito parecido com processos que outras minorias passaram e têm passado conquistando espaço social, conquistando espaço de direitos aqui no Brasil, né.

Gustavo: Com certeza, mas é aquela questão, você não precisa ir de zero a cem, você pode ir de zero a quinze. Se ontem era 0, 15 já é um número muito alto.

August: Exatamente isso.

Alexandre: A gente tá na era da internet, tudo é de 0 a 100, gente.

Gustavo: Não, não, é tudo 0 e 1 binário.

August: Exatamente.

João Victor: Ele tem um argumento, Alexandre, lamento. Lamento.

August: Porque o ser humano não sabe muito bem lidar com dados, assim. A gente fala de censo, a gente fala dos percentuais, mas fora do ambiente acadêmico, analítico, a gente, ser humano, ele é muito mais emocional, né. A gente tem aquele sentimento.

Então, sim, de fato, tem pessoas que estão com esse sentimento. “Ah, agora tem autistas demais.Temos que investigar o que está acontecendo.” E utilizam disso para poder até destilar preconceito, muitas vezes. Então, a gente não pode ignorar que esse fato não existe, né. A gente tem que levar informação para essas pessoas. Eu sempre penso pelo lado construtivo da coisa.

Gustavo: Bom, gente, que bom que fomos incluídos no censo. Tá melhor do que estava antes. Espero que o próximo seja melhor ainda, que englobe mais pessoas, mais diversidade, mais dados que são necessários para as políticas públicas. Caso você queira se aprofundar um pouquinho mais, eu posso recomendar os links que estão aqui na descrição da revista Autismo, que, inclusive, o tema de capa é sobre esse censo, os resultados desse censo que foram divulgados agora. Tá muito legal. Eu não tô com a edição em mãos aqui, mas você pode conferir ela virtualmente. E olha ela passando aqui magicamente pela sua tela agora.

Bom, August, eu agradeço muito a sua participação aqui hoje. Você acrescentou bastante, você nos ajudou, você trouxe todos os dados que a gente erraria falando sozinho, mas alguns. Então, obrigado por ter vindo. Se você percebeu qualquer dado que deu errado, avise com gentileza, com gentileza, que houve um equívoco nos dados. Fale conosco, comunique-se, porque os autistas também são capazes disso.

Então é assim que eu me despeço, lembrando sempre que o Introvertendo é um podcast produzido pelo NAIA Autismo, gravado nos estúdios da Faculdade Realiza.

[Música de encerramento]

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Ana Julia Sena | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian