Introvertendo 24 – Depressão

Uma das formas mais intensas de se retratar o sofrimento humano, atualmente, é a depressão. Discutimos sobre esta doença, geralmente associada à outras condições, e como isso impacta a vida das pessoas com Síndrome de Asperger.

Destacamos, aliás, que se você estiver cogitando ter depressão, procure atendimento médico.

Participam desse episódio Marcos Carnielo Neto e Tiago Abreu.

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Transcrição do episódio

Tiago: Um olá para você que escuta o Introvertendo. Essa produção é feita por pessoas dentro do espectro autista. Meu nome é Tiago Abreu e eu sou o host desse podcast. Que hoje conta com a participação do Marcos Carneiro Neto. O Marcos não aparece aqui nas introduções pois tivemos um problema com a gravação E o único material que eu consegui recuperar foi do primeiro bloco para frente. Que é o que vocês irão ouvir após este bloco. E como nós não podemos gravar novamente, por uma série de questões indo de tempo a estrutura. E decidi fazer essa nova abertura, como justificativa. *parte do email*

Bloco geral de discussão

Tiago: E com vocês hoje o tema é depressão. Nós falaremos tanto da incidência em pessoas aspies, quanto das características da depressão, de histórias pessoais. E como lidar com isso. Mas, de antemão eu já digo. Se você apresentar sintomas de depressão ou tiver suspeitas. É fundamental procurar ajuda médica. Não se automedique ou se baseie nas coisas que você ouve na internet. Procure uma ajuda profissional. 

Marcos: O asperger é uma condição que vem associada a uma predisposição a depressão. Existem estudos nos Estados Unidos que mostram que mais de 60% dos aspies desenvolvem um transtorno depressivo ao longo da vida. Comparado com 10% para a população geral. Então a gente vê que a taxa de depressão em pessoas com asperger é muito mais alta. Então a gente já tem essa predisposição genética e cognitiva. Inclusive tem estudos que mostram que os genes de inteligência na asperger estão relacionados com a depressão. Tem essa teoria nova de que o aspie só ativou mais esses genes de inteligência, em detrimento dos genes da parte cognitiva relacionados a socialização.  Por isso a gente tem a predisposição a ser mais lógico e racional. Perceptivo a detalhes. Em detrimento da sociabilidade. Nós somos menos sociáveis, mas mais atentos a detalhes, mais lógicos mas menos emotivos. E eu vejo isto como um desenvolvimento assimétrico do cérebro. No aspie uma parte acaba desenvolvendo muito mais que a outra. 

Uma coisa que estudos demonstram a muito tempo é que com um QI mais alto. Se tem uma chance bem maior de desenvolver depressão. Não se sabe exatamente o porquê, apesar que provavelmente seja um fator genético. Já que estas pessoas tendem a pensar demais, levando a transtornos como depressão e ansiedade. Então o asperger já tem essa predisposição, de se isolar, sendo que humanos ainda são criaturas sociáveis. E isso leva a esses transtornos. Ainda mais que ao contrário do psicopata, a gente tem empatia, mesmo que se manifeste de forma diferente. A gente ainda tem esse interesse em se relacionar com pessoas.  

Tiago: E mesmo que alguns aspies percebam isso. Você ainda tem uma realidade social que vista disto as pessoas ainda vão e apontam o dedo mostrando o quão solitário você é. 

Marcos: A cobrança social é algo que a maioria de nós tem que lidar. Já que a gente vive em uma sociedade em que idolatra e preza extrovertidos. Pessoas sociáveis com grupos sociais grandes. Enquanto pessoas não tão sociáveis, como os aspies que são um extremo disso. Tendem a ser mal vistos pela sociedade. Principalmente aqui no Brasil em que isto é uma questão cultural. Creio que em países como Alemanha e Japão isso já não seria um problema tão grande. Para mim este é um dos fatores que contribui com o desenvolvimento da depressão.

Para falar sobre depressão. Primeiro devemos explicar o que é depressão, da diferença entre sentimentos de tristeza e melancolia com o transtorno depressivo. A depressão é um transtorno neurológico no qual a apatia da pessoa é tão grande que começa a afetar seu sistema neurológico, o cérebro fica mais lento, faltam neurotransmissores.  O que expressa em sintomas de letargia e sonolência. Então a depressão é uma doença de fato, que afeta fisicamente o corpo da pessoa. Existe tratamento e medicação é muito importante. Em especial nos casos mais severos. Nos casos mais leves talvez ainda seja possível iniciar o tratamento sem medicamentos. Eu, como uma pessoa que já teve episódios graves de depressão, posso dizer que você realmente sente seu cérebro mais lento, seu poder cognitivo decai. Você se sente mais sonolento, isso mexe com o metabolismo. E uma coisa que eu acho bem característica da depressão é um sentimento de frio no peito. Que eu vi em algum lugar que é porque a depressão afeta o sistema parassimpático-nervoso. Que é o que deixa a respiração mais lenta, que dá esse feedback negativo aos órgão internos. 

É importante separar a depressão como sentimento e como transtorno. Pois a depressão como sentimento é algo que todo mundo vai sentir em sua vida, um dia. Esse sentimento de tristeza profunda, letargia. Durante a perda de um ente querido, por exemplo. Porém, para se transformar em uma doença, este sentimento é exagerado, se torna permanente e é o que a pessoa mais sente durante seu dia. Uma coisa que geralmente vem ligada a depressão, ainda que não em todos os casos. É a tendência ao pensamento suicida. Que ocorre em uma parcela considerável das pessoas com transtorno depressivo. Depressão é um processo infernal mental que acaba se manifestando na vontade de morrer para escapar disto. 

Tiago: Inclusive eu cheguei a ler em algum lugar acerca da quantidade específica de aspergers que se suicidam. Não lembro ao certo qual país, provavelmente os Estados Unidos.

Marcos: Na população comum, por exemplo, cerca de 15% das pessoas com depressão chegam a tentar o suicídio. E cerca de 25% têm pensamentos suicidas. E essas pessoas são as que mais precisam de ajuda. No meu caso o que mais me ajudou foi a medicação, eu conseguia sentir minha mente clareando. Obviamente isso foi algo fisiológico, o pessoal fala que a depressão está na sua cabeça e você tem que lidar com isso. Mas a sua cabeça é uma entidade física! E às vezes ela pára de funcionar direito como qualquer outro órgão. Então é importante procurar ajuda. 

Tiago: Toda vez que alguém te falar para pensar positivo. Penso em sei lá, uma pessoa famosa, como o Luciano Huck de branco ao lado de um monte de mulheres de biquíni, celebrando e falando para você levar a vida numa boa. Eu acho algo tão forçado e falso em alguns momentos… É a mesma coisa de você estar com fome, pensar num bolo e ele aparecer na sua frente. Isso não vai acontecer. 

Marcos: Ou então alguém que quebrou a perna e falam ”não, pense positivo, você vai andar de novo!”. Ou então alguém na cadeira de rodas “se você pensar positivo você vai voltar a andar um dia!”. É a mesma coisa, quem tem depressão tem um problema no sistema nervoso que parou de funcionar direito. Não pense na mente como algo puramente abstrato. E infelizmente tem casos de pessoas que não conseguem se tratar. Eu tenho o caso de um amigo meu com diagnóstico de depressão crônica há cinco anos e ele consegue no máximo controlar os sintomas. Eu ainda consegui controlar os sintomas e minha função cognitiva também melhorou. Mas eu preciso tomar o medicamento todo dia para não haver risco de recaída. Dois dias sem medicamento e eu já corro risco de ter pensamentos suicidas novamente. 

Tiago: Como uma das pessoas do Introvertendo, eu tive contato com a depressão, em grandes momentos da minha vida. Inclusive desde a época da pré-adolescência, eu lembro que eu tive um período escolar muito ruim. Tudo que eu fazia depois da aula era ficar chorando o dia inteiro. Por todo o contexto, pelos episódios de bullying né. Que é um gatilho muito forte neste sentido. Mas eu só fui receber o diagnóstico de depressão muito depois, depois do diagnóstico de síndrome de asperger. Quando eu entrei no ensino superior e fui atendido pelo programa Saudavelmente que inclusive é onde nos conhecemos. E foi lá que eu fui diagnosticado com depressão. F32.0 se não me engano é o número da depressão leve. Sempre foi um tipo de depressão leve que nunca me impediu de fazer minhas atividades cotidianas. As pessoas sabem que eu sou do tipo que acumula milhares de coisas para fazer. Que chega a ser meio louco, a forma com que eu procuro atividades me garante coisas para fazer de manhã até a outra em que eu vou dormir. Outra pessoa que tem essa característica no nosso grupo é o Otávio, ele faz vários projetos ao mesmo tempo e vive sem tempo. 

Mas chegou um momento da minha vida, que foi neste ano, 2018, no primeiro semestre da faculdade. Que eu até contei no episódio de sofrência. Eu tive uma relação bastante importante para mim, embora curta. E neste período eu já estava percebendo uma queda na minha produtividade. Pois eu faço graduação, sou assalariado num regime de 6 horas por dia, cuido deste podcast, eu acumulo trocentas coisas para fazer. E eu estava chegando num momento em que eu não estava conseguindo fazer as coisas da graduação, estava prestes a reprovar em tudo. A minha própria relação com a pessoa, como eu disse naquele episódio, nós dois tínhamos problemas. E eu percebi que eu não estava conseguindo fazer nada, eu dirigia e quando chegava no destino, não conseguia fazer nada, estava morto. Não conseguia abstrair as aulas. Eu fazia natação, chegava em casa e ia dormir. E pensando em suicidio o tempo inteiro.

Aconteceu que eu comecei a tomar medicamentos, troquei de classes de remédios várias vezes. Até que tomei uns que funcionaram. Apesar que sempre com efeitos colaterais. Eu sou aquele tipo de pessoa que sempre cai nos 5%. Por exemplo, eu tomei um remédio que eu gostei muito, Metarzapina. E eu engordei 15 em alguns meses. Teve outro que nem tinha isto nos principais efeitos colaterais, mas tirou a libido. Então sempre acontecia um efeito colateral muito bizarro que ninguém sabia explicar. E chegou um momento em que eu parei de tomar todos esses remédios e comecei a tomar estabilizador de humor. Aí as coisas começaram a estabilizar. Mas eu percebo que ainda não é a mesma coisa de antes dos sintomas aparecerem e de começar o tratamento. Minha produtividade ainda tá uns 80, 75%. E é isso algo que eu acho que pessoas que não tiveram contato com depressão não vão entender, faz muita falta isso. 

Marcos: O cansaço mental da depressão é algo físico que você sente seu corpo inteiro lento. E seu poder cognitivo também cai bastante. Você não consegue pensar claramente, abstrair começa a ser mais difícil. E eu diria também que isso é porque boa parte de seu subconsciente começa a encher com pensamentos negativos. Isso ocupa tanto espaço que acaba tirando o espaço para pensar em outras coisas. 

Tiago: Inclusive uma coisa que valida isso que tu acabou de falar é a diferença entre eu dentro do processo, e agora fora dele. Pois quando eu estava dentro, não conseguia produzir. Eu tenho um projeto de pesquisa do meu TCC para fazer, gastaria umas 10 páginas mais ou menos, e eu escrevi uma porcaria. E quando eu entrei a professora não reconheceu o texto, achou que era algo de última hora. E agora, um mês depois eu não só escrevi 7 páginas em 24 horas, eu empolguei. E logo em seguida escrevi um artigo acadêmico de 8 páginas. Algo que quando eu estava dentro do processo, eu não daria conta de escrever uma página em uma semana. 

Marcos: Cada linha, uma lágrima diferente. A depressão é algo que afeta em muito os universitários. Pois a faculdade é um ambiente que exige bastante. Ela aumenta a chance de você desenvolver a depressão por causa da demanda que você tem. E quando a pessoa desenvolve o transtorno aqui dentro, é um problema. A produtividade cai para quase zero. E num ambiente como esse é horrível, acaba atrasando a pessoa num lugar em que ela precisa dar seu melhor. Então pessoas que acabaram de entrar na faculdade e começaram a perceber os sintomas. Eu recomendo procurar ajuda desde já para não se enrolarem. No meu caso eu acabei atrasando meu curso por 2 anos e só depois eu descobri que a falta de produtividade era por causa da depressão. Em especial quando a pessoa liga sua autoestima a seu desempenho. A depressão só vai piorar isso, criando uma bola de neve. 

Agora uma coisa que o Tiago também comentou. É a tendência do asperger a desenvolver depressão desde criança. Acho que estar em ambientes com muitas pessoas como na escola, trabalho e universidade acaba exigindo demais do asperger. Cria muita ansiedade em decorrência dos problemas sociais que ela já tem. Então é importante tentar reconhecer isso na criança com asperger e tentar ajudar o quanto antes. Eu mesmo já tinha pensamentos suicidas com 9 anos de idade, por causa de problemas sociais na escola. Já é difícil para as pessoas neurotípicas, mas para o asperger é um inferno três vezes pior do que para as pessoas neurotípicas. Então é importante já reconhecer sintomas e já começar a ajudar desde cedo. Acho que a infância e a adolescência é uma fase que molda a pessoa futuramente, então já é importante ajudar desde de cedo.

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Equipe Introvertendo Escrito por: