Introvertendo 238 – Elon Musk é autista. E daí?

Desde 2021, o autismo de Elon Musk virou um tema de intenso debate na comunidade do autismo. Algumas pessoas acham que ter um bilionário famoso como autista é uma excelente forma de representatividade, outros por sua vez detestam a sua figura. Neste episódio, apresentamos um histórico de Musk, a compra do Twitter, o impacto de suas atitudes para as pessoas com deficiência e o que são boas e más representatividades. Participam: Carol Cardoso, Luca Nolasco e Tiago Abreu. Arte: Vin Lima.

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Transcrição do episódio

Tiago: Olá pra você que ouve o podcast Introvertendo, que é o principal programa sobre autismo do Brasil. Meu nome é Tiago Abreu, sou jornalista, apresentador deste podcast e eu acho extremamente desconfortável falar sobre figuras extremamente desconfortáveis.

Carol: Eu sou a Carol Cardoso, tenho 25 anos, fui diagnosticada com autismo em 2018 e atualmente sou mestranda em arquitetura pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Luca: Oi, eu sou o Luca Nolasco, já peço algumas desculpas antecipadas porque eu não sou imparcial nesse tema, é algo que eu tenho opiniões muito fortes, inclusive.

Tiago: Então o assunto da vez é Elon Musk. Nós vamos falar um pouco sobre o histórico dele, sobre essa questão do autismo e quais são os possíveis impactos ou não do autismo do Elon Musk na nossa comunidade. Vale lembrar que o Introvertendo é um podcast feito por autistas com produção da Superplayer & Co.

Bloco geral de discussão

Tiago: Tudo começou em 2021, quando ele participou do programa Saturday Night Live. Na ocasião, Elon Musk disse que tinha síndrome de Asperger, que hoje entendemos como parte do Transtorno do Espectro do Autismo. Essa fala dele sobre o autismo chamou muita atenção, afinal, ele é uma das personalidades mais conhecidas do planeta na atualidade, e isso começou a suscitar várias discussões dentro da comunidade do autismo. Como Elon Musk é uma pessoa um pouco controversa, o Luca vai explicar um pouco do histórico dele antes dessa situação do autismo.

Luca: Resumidamente, antes de tudo, é preciso explicar a história da família de Elon Musk. Isso, inclusive, é objeto de debate muito intenso. A família dele foi dona de minas de exploração de esmeraldas na África do Sul durante o Apartheid. Por que eu digo que isso é objeto de debate? Porque existem falas dele dizendo que isso é invenção dos jornais da mídia de esquerda para tentar difamá-lo. Mas também existem arquivos de podcast dele falando que a família dele tem minas de esmeraldas. Bom, isso faz dele uma pessoa boa ou ruim, por ser herdeiro de uma mina de esmeralda? Não sei, isso é algo que cabe a quem lê interpretar. Eu tenho opiniões que prefiro não expressar aqui.

Com esse dinheiro, ele conseguiu fundar ainda muito jovem diversas empresas, uma delas foi o PayPal, onde ele ganhou muito mais dinheiro e conseguiu fundar muito mais empresas, como a SpaceX, e conseguiu ser acionista de uma empresa que surgiu chamada Tesla, uma empresa de carros elétricos que muita gente acha que ele criou, mas na verdade, ele era acionista e depois virou chefe. Isso foi em mais ou menos 2003, 2005. O que ele fez daí até comprar o Twitter em 2022? Ele ficou rico, virou a pessoa mais rica do mundo em 2022 com 300 bilhões de dólares, criou diversas empresas. E a imagem que as pessoas tinham dele era a de um magnata, bilionário, filantropo, e isso vamos discutir um pouco depois. Ah, eu também já ia esquecendo, muita gente não conhecia ele até o momento em que ele assumiu o namoro com a cantora de pop Grimes. Eventualmente, tiveram dois filhos e se separaram.

Tiago: Eu acho que a principal polêmica em torno do Elon Musk, depois que ele falou que ele era autista em 2021, foi exatamente a compra do Twitter, que o Luca mencionou aqui pra gente. O Elon Musk negociou a compra do Twitter, por um certo momento ele voltou atrás, mas ele foi obrigado a concluir essa compra de uma rede social que é muito utilizada no mundo. E o Twitter tem uma coisa muito, muito, muito particular em relação às outras redes sociais, que são seus recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência. Talvez não tanto aqui no Brasil, quando a gente pensa, por exemplo, na comunidade do autismo, que hoje tem uma presença muito forte no Instagram, até no Facebook ainda, no TikTok, mas principalmente em alguns outros países e mais no contexto de ativismo, o Twitter sempre foi a rede mais importante para a rede de pessoas com deficiência.

E uma das primeiras coisas que o Elon Musk fez quando assumiu o Twitter foi fazer um corte geral, entre elas, principalmente o pessoal que trabalhava com acessibilidade, e isso me parece muito simbólico porque a gente tá falando sobre um homem com deficiência, no caso um homem autista que promoveu uma ação que prejudicou outras pessoas com deficiência, né Carol?

Carol: Sim, eu acho que esse exemplo é muito representativo sobre porque que a gente tá problematizando a própria figura do Elon Musk, porque eu sinto que as pessoas tendem a ter um comportamento de acreditar que simplesmente por uma pessoa ser autista, ela representa a comunidade do autismo. Então, isso convida a gente a discutir um pouquinho sobre o que seria a representatividade, né? Se ela não está alinhada aos próprios interesses como comunidade, eu sinto que essa representatividade é meio frágil. Por exemplo, só porque ele nasceu na África do Sul, será que ele é uma boa representatividade sul-africana?

Eu entendo que a história dele nos ajuda a entender um pouco sobre o que é essa figura, mas também nos convida a indagar algumas narrativas. Uma das narrativas é como se ele fosse um exemplo de superação porque, ainda que ele seja autista, ele conseguiu ser um dos homens mais ricos do mundo. Outra narrativa é aquela que sustenta que autistas são gênios, são pessoas excepcionais e que, por isso, por ele ter uma mente neurodivergente e excepcional, ele chegou onde chegou.

Mas isso nos faz deixar de pensar sobre como ele definitivamente não representa a média da população mundial. Se ele representasse, ele não seria uma das pessoas que estão no meio das 10% mais ricas do mundo. Então, certamente, ele não representa a média do que seriam os autistas. A gente projeta uma figura totalmente distante da nossa realidade como se fosse o jeito certo de ser autista. Como se fosse desejável, como se o fato dele chegar onde chegou compensasse essa nossa deficiência. E a gente vê que ele é uma pessoa que vai totalmente contra os interesses das pessoas com deficiência em geral, de acordo com esse evento que o Tiago trouxe.

Então, é muito interessante o nome desse episódio, né? “Elon Musk é autista. E daí?” Eu acho que é exatamente essa a pergunta que a gente tem que se fazer: o que que isso muda na prática na comunidade do autismo?

Tiago: Eu quero tocar nesse ponto de representatividade um pouco depois porque o que você falou, Carol, me fez lembrar de uma outra coisa importante que eu queria tocar antes, que é essa declaração pública do Elon Musk enquanto autista (no caso, ele falou enquanto pessoa com Síndrome de Asperger) em relação a essa atitude dele contra um próprio grupo que, em tese, ele estaria fazendo parte, que são as pessoas com deficiência.

Porque a gente teve uma discussão anterior aqui que rendeu um episódio, que foi o 198, “O fim da Síndrome de Asperger e a supremacia aspie”. A gente falou desse fenômeno chamado supremacia aspie, que seria uma ideologia que estaria centralizada nessa visão do “autismo leve”, do autismo representado pela antiga síndrome de Asperger, como não só o bom autismo, mas como uma expressão do autismo que é superior a todas outras representações do autismo e representações neurotípicas. Então, reforçaria a ideia de autismo como última evolução. Isso, claro, está ligado a várias outras questões problemáticas como eugenia e como esses ideais estão disseminados na sociedade, na cultura, mesmo que na maioria das vezes a gente só pensa em exemplos dentro do autismo.

E eu queria saber de você, Luca, o que você pensa sobre isso? Você acha que isso tem de fato uma relação com a figura do Elon Musk? Ou você acha que estou fazendo inferências meio sem sentido aqui?

Luca: Antes de tudo, eu acho que é preciso a gente ter em mente as maneiras que a gente sabe que o Elon Musk se expressa, os tuítes. Pelos tuítes nós vemos que ele tem um conteúdo muito próximo daquele dos fóruns, tipo 4chan e tipo Reddit, por exemplo, e também nós sabemos e vemos nesses fóruns, óbvio, não é todo o conteúdo deles, mas vemos que é muito comum conteúdo nerd ser próximo de um conteúdo que vê no “autismo leve” uma característica quase de super-herói, de superpoder inteligentíssimo, capaz de tudo, e que as outras pessoas que não entendem isso e que não têm essa mesma perspectiva são piores. Isso eu vejo muito naquele personagem do Sheldon Cooper. Ele se vê como super-herói? Não. Mas ele trata todas as pessoas como muito inferiores a ele. E há quem veja esse seriado e não perceba que é uma certa sátira… muito mal feita, por sinal, mas não perceba e acabe se espelhando nisso.

O conteúdo do Elon Musk é isso. O conteúdo do Elon ele sempre trata como certo superpoder, como incapacidade dos outros, como eu tenho QI de 900 mil e eu sou inteligente, eu sou melhor, eu sou tudo. E olha, o maior poder que o Elon Musk tem é o dinheiro, não é a inteligência, a gente viu que isso não é exatamente um dos fortes dele, né? Mas é o dinheiro. E, com dinheiro suficiente, você consegue fazer propaganda de qualquer coisa no mundo, inclusive de valores que desrespeitam fundamentalmente outras deficiências.

Como nós chegamos a ver em uma semana do ano de 2023, um ex-funcionário do Elon com deficiências locomotoras perguntou porque que ele não estava conseguindo acessar o edifício se ele havia sido demitido, queria uma resposta. E a resposta do Elon foi zoar a deficiência do homem publicamente na rede social. Isso é a fala de uma pessoa com deficiência que reconhece as dificuldades dos outros? Não. Eu acho ele até um pouco desconectado da realidade.

Tiago: Mas, por outro lado, existe uma coisa meio controversa em relação à figura do Elon Musk e o Twitter, que é a inabilidade dele em comprar uma rede social e fazer isso do jeito certo. Então, ele é um cara com dinheiro, mas ao mesmo tempo ele é um cara que fracassou ou, pelo menos, está fracassando no gerenciamento dessa rede social. E apesar de ter muita gente que adora a imagem do Elon Musk e tudo que ele representa, tem muita gente na internet que fica fazendo uma piada de que todo esse movimento que ele fez foi porque ele não superou o final do relacionamento dele com a Grimes (risos).

Isso sempre me passa a imagem assim de que, apesar de tudo o que ele fez, apesar de todo poder que ele acumulou, para uma parte da sociedade, ele ainda vai ser visto como loser porque, no fundo, ele ainda é autista, mesmo que ele tenha que se afastar desses ideais e mesmo que, na prática, ele exerça um papel até capacitista em relação às próprias pessoas com deficiência. Não sei o que vocês pensam sobre isso.

Luca: Ah, é meio fácil você ser visto como perdedor ou sofrer cyberbullying quando você compra uma rede social e faz com que toda atenção seja voltada a ti. Até o momento, ele era visto como o cientista, o inteligente, o filantropo, e até apareceu em um filme da Marvel, no Homem de Ferro 2, quase um Tony Stark da vida real. Então, ele tem uma equipe que faz com que essa imagem seja montada sobre ele. Quando ele compra a rede social, todo mundo vai ver as opiniões dele de verdade sobre as coisas e vê que ele é meio burro.

O bullying que ele sofre, eu não vejo como fruto de uma baixa habilidade social. Vejo como resultado da desconexão que ele sofre com a realidade. A gente sabe que ele tem uma ótima habilidade social quando vemos como ele se relaciona com bilionários, com o Jeffrey Epstein, a Ghislaine Maxwell, com outros bilionários. Tem várias fotos deles, tem ótima relação, vai para iate, vai para não sei o que. Então, ele é uma pessoa muito bem articulada. Dentro do autismo leve ele tem uma capacidade de relação interpessoal muito avançada. Mas isso não se transcreve muito bem quando você está conversando com as massas, quando você está conversando com o povo pobre. Ele não sabe o que é isso. Ele não sabe o que as pessoas acham engraçado. Para ele, o que ele acha engraçado é o conteúdo nerd de 15 anos atrás, completamente desconectado da realidade.

Então, eu não acho exatamente muito justo falar que é fruto ou é derivação das dificuldades que ele sofre pelo espectro autista e por isso ele sofre cyberbullying, porque eu acho que é simplesmente fruto de ele ter tentado monopolizar o discurso de uma rede social inteira, não necessariamente do fato de ele ter baixas habilidades sociais.

Carol: Eu já acho assim uma coisa não anula a outra. Porque se a gente ir por esse ponto que ele tem boas relações com outros bilionários e que superficialmente ele consegue ter uma boa desenvoltura social, a gente corre o risco de usar o mesmo argumento que é usado para invalidar as nossas dificuldades do autismo quando a gente acaba “superando” elas. Então, eu sinto que fazer esse tipo de argumentação pode dar armas para as pessoas de fato deslegitimarem as nossas dificuldades.

Mas no contexto do Elon Musk, existe de fato essa desconexão profunda dele com a realidade, porque a realidade que ele vive é a de uma minoria da minoria da minoria da população mundial. E eu vejo que tem um discurso que fortalece a noção de que algumas características hoje associadas ao autismo são mais valorizadas, principalmente quando estão ligadas à tecnologia, essa figura do nerd. E essas características, ainda que elas sejam vistas de forma menos negativa como já foram vistas no passado, para a maior parte das pessoas que têm essas características e que são autistas, elas ainda têm o risco de não serem incluídas no mercado de trabalho, de sofrerem pressões, de não conseguirem se comunicar. E é uma realidade que está muito distante da realidade dele, porque ele já cresceu com todos os recursos possíveis para superar esse obstáculo.

Esse obstáculo muitas vezes é atribuído também ao capacitismo, mas a gente não pode esquecer que são outras questões, questões de raça, questão de geografia, de onde a pessoa está inserida, e que todos esses obstáculos foram transpropostos. O Elon Musk inclusive é alguém que produz essas desigualdades, por ele ser uma pessoa que concentra muito essa riqueza. Então, é uma disparidade muito grande a gente colocar uma figura como ele como alvo, quando a gente sabe que a qualquer movimento que ele fizer, a qualquer momento, por ele estar no topo do mundo, ele pode simplesmente desfazer a ordem de algumas coisas, entendeu? Ele tem tanto poder nas mãos dele que é muito difícil a gente colocar ele como uma figura de alvo de uma pressão social como se ele fosse uma vítima disso e é totalmente o contrário, é inverter totalmente a ótica.

Tiago: Concordo com vocês dois. Eu não queria dizer que ele é alvo de cyberbullying, mas o que eu queria dizer é que vejo no Elon Musk, e isso foi algo que percebi lendo um texto muito bom que inclusive está na lista de recomendações do episódio, é um comportamento meio revanchista que muitos autistas que sofreram coisas na vida têm quando podem, de alguma forma, responder a uma possível discriminação, exclusão que sofreram.

Esse comportamento é aquele do autista que tem dificuldade de interação social, teve dificuldades a vida inteira e, para se proteger, para se justificar, considera-se mais inteligente que todo mundo e o melhor. É uma forma de compensar. Vejo esse aspecto no contexto das redes sociais. E a forma como ele agiu para punir as pessoas que eram contra ele, perseguir as pessoas, é um comportamento que já vi em algumas pessoas autistas. A diferença é que elas não têm o poder que ele tem de silenciar alguém, de realmente tirar essa pessoa da vida pública, porque ele tem uma rede social nas mãos. Nesse sentido, concordo totalmente com vocês.

Todo o histórico que ele viveu e a biografia do Elon Musk tem algumas questões de que ele sofreu bullying quando era mais novo, alguma questão assim. Mas isso não justifica absolutamente nada do que ele faz hoje, né? Ao mesmo tempo, o que eu acho interessante é que ele faz pensar muito sobre alguns fenômenos que ocorrem no âmbito do autismo e que muitas vezes a gente não vê ocorrer na prática, justamente pela falta de poder que algumas pessoas em situações minorizadas como nós, por exemplo, não teriam, né? E ele tem.

Carol: Eu acho que é interessante a gente ressaltar também que o fato de a gente ter uma figura como ele e questionar sobre quão representativa ela é, não anula o fato de que sim, ele é autista. Então sim, ele tem essas características, sim, tem esse comportamento “autístico”. Ele pode ser comparado ao nosso comportamento como autistas porque nós partilhamos uma síndrome, mas há de se questionar sobre como a gente projeta sobre tais figuras a própria representação do autismo em si. Então, é uma análise de um comportamento da comunidade do autismo e da população em geral diante da noção de que certas pessoas famosas ou que vêm a público sobre serem autistas. Como que a gente reage a isso? Eu acho que o ponto da questão é esse: não invalidar Elon Musk como autista, mas, ao mesmo tempo, contextualizar o lugar de onde ele veio.

Tiago: Então, chegamos à pergunta que não quer calar: o autismo de Elon Musk importa? A representatividade dele importa ou é algo irrelevante?

Luca: Olha, a minha opinião talvez seja até um pouco polêmica. Eu acho que sim, mas por quê? A gente pode ver outras pessoas autistas famosas, como Anthony Hopkins, por exemplo, que é um ator brilhante. Eu o admiro demais e, até onde eu sei, ele também tem grandes problemas, mas é um ídolo para diversas pessoas. Quando vemos pessoas autistas, podemos ter Hopkins como um marco, assim, de “olha como ele consegue interpretar diferentes personagens de maneira perfeita”. Ele consegue trabalhar muito bem com outras pessoas e expressar suas emoções de forma extraordinariamente boa. OK, mas pessoas do espectro autista não são necessariamente só essas pessoas ideais. Essas pessoas têm falhas e muitas vezes as falhas são muito mais pronunciadas do que as coisas boas que a pessoa faz.

Então, agora é uma parte que eu quero expressar a minha opinião, a do Luca Nolasco: temos também pessoas como Paulo Kogos. Eu não concordo com as visões políticas do Paulo Kogos. Eu não concordo com as visões sociais do Paulo Kogos. Eu não acho que ele é uma pessoa legal e ele é uma pessoa autista. Eu acho que pessoas autistas, pessoas com deficiência, têm uma diversa gama de opiniões e eu não vou concordar com todas. Eu não vou ver todas as pessoas como admiráveis. Essa representatividade do Elon Musk ser autista é importante porque eu não gosto dele. Mas é importante ver que existem pessoas que a gente não gosta que estão próximas de nós. Se essas pessoas se aproximam de valores que beiram a supremacia (risos), já é outra questão.

Inclusive, vale anedota: de 2022 para cá, o Elon Musk se aproximou de discursos de extrema direita, como discursos nacionalistas dos Estados Unidos e discursos republicanos que defendem políticas quase de extermínio de pessoas com deficiência, políticas que silenciam, políticas que afastam não só pessoas com deficiência, mas também pessoas do espectro LGBTQIA+. O Elon Musk concorda com essas pessoas e endossa.

Eu acho que é importante termos a ideia de que até pessoas próximas de nós podem também defender o extermínio de outras pessoas com deficiência. Então, cabe a cada um defender com veemência que essas pessoas vivam, que essas pessoas continuem. Eu digo sobre pessoas com deficiência, não às pessoas que defendem o extermínio, por favor. Enfim, tudo que eu quero dizer é que acho importante a gente ver que tem gente trambiqueira também que está sentada do nosso lado e reconhecer isso. E se a gente discorda, temos que falar também.

Carol: Eu acho que sim, importa, para que a gente tenha uma representatividade negativa de um autista. Negativa no sentido de entender que autistas podem deliberadamente praticar atos horríveis contra outras pessoas. Podem usar mecanismos que têm a seu favor, sem considerar o bem-estar, a segurança e a responsabilidade social em relação às outras pessoas. Isso rompe totalmente com a noção de anjo azul que as pessoas tendem a ter. Então, as pessoas colocam a figura do anjo azul como ideal de representatividade autista como se essa pessoa fosse neutra, fosse despida de qualquer maldade e eu acho que é uma representação péssima do autismo. É muito interessante para nós rompermos com essa lógica.

Tiago: Bom, eu concordo com vocês dois. Eu acho que falar sobre o autismo do Elon Musk é importantíssimo. Essa representatividade é importante. Sempre me incomodei, na verdade, quando as pessoas falam sobre famosos que são autistas. E aí você pega só um conjunto de pessoas que você imagina que são irretocáveis para reforçar o quanto autistas são maravilhosos e tal. E eu entendo, faz sentido você se enxergar nas pessoas.

Mas eu acho que é importante a gente quebrar essa dicotomia, porque enquanto tem uma parte da comunidade do autismo que segue aquele discurso de autismo como lesão, doença, tipo “o autismo destruiu a minha vida” e “o autismo destruiu minha família”, há outra parte de autistas que tenta ressignificar essa noção de autismo como déficit que foi trazida na comunidade durante muitas décadas na história do autismo, e até hoje é muito forte. Eles trazem uma visão apenas positiva do autismo como algo bom e maravilhoso, mas acabam perdendo de vista a humanidade que o autismo tem.

O autismo está em pessoas, e essas pessoas têm suas personalidades e formas de interagir com o mundo, e suas decisões não necessariamente são positivas para todos. Portanto, acho que não é só Elon Musk, mas, por exemplo, o Craig Nicholls, vocalista do The Vines, que já foi preso por bater nos seus próprios pais, é uma representatividade autista negativa. E eu acho que essas figuras nos fazem pensar e, de certa forma, combater noções que não queremos reforçar, que são ideias de supremacia e que acabam, querendo ou não, colocando em risco o nosso futuro enquanto humanidade.

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