Introvertendo 145 – Raça: Autistas Negros

Vitor Rodrigues e Fernanda Coelho são autistas e carregam em comum a identidade negra. Na primeira parte da reportagem Raça, abordamos o desafio que é falar sobre a questão negra na comunidade do autismo e como pessoas negras podem viver desafios particulares com o diagnóstico. Locução: Tiago Abreu. Arte: Vin Lima.

Links e informações úteis

Para nos enviar sugestões de temas, críticas, mensagens em geral, utilize o email ouvinte@introvertendo.com.br, ou a seção de comentários deste post. Se você é de alguma organização, ou pesquisador, e deseja ter o Introvertendo ou nossos membros como tema de algum material, palestra ou na cobertura de eventos, utilize o email contato@introvertendo.com.br.

Apoie o Introvertendo no PicPay ou no Padrim: Agradecemos aos nossos patrões: Caio Sabadin, Francisco Paiva Junior, Gerson Souza, Luanda Queiroz, Marcelo Venturi, Priscila Preard Andrade Maciel e Vanessa Maciel Zeitouni.

Acompanhe-nos nas plataformas: O Introvertendo está nas seguintes plataformas: Spotify | Apple Podcasts | DeezerCastBox | Google Podcasts | Podcast Addict e outras. Siga o nosso perfil no Spotify e acompanhe as nossas playlists com episódios de podcasts.

Notícias, artigos e materiais citados e relacionados a este episódio:

*

Transcrição do episódio

Tiago: O ano é 2020. A comunidade do autismo no Brasil, segundo sua lógica do dia a dia, continua a debater a importância das intervenções, o desafio da inclusão e as novas perspectivas para a identificação do autismo. Tudo parece harmonioso, adequado e ideal, enquanto fora do reino encantado do espectro, as tensões da humanidade seguem.

Tiago: Ora, sabemos que não é exatamente assim. Mas para se discutir raça, tema tão fundamental para se pensar o Brasil, a comunidade do autismo precisa fazer um longo percurso de pensamento. Uma trajetória, inclusive, marcada pela invisibilidade. Se de acordo com os dados agregados do Centro de Controle de Doenças e Prevenção do governo dos EUA, o CDC, a grande defasagem de diagnóstico por lá centra-se na população latina, aqui no Brasil a população negra parece ser o epicentro de uma grande subnotificação.

Tiago: Mas autistas e famílias negras – ou pretas, como alguns preferem se intitular – existem, e esta reportagem produzida pelo Introvertendo, O Mundo Autista e a Revista Autismo tenta compreender quem são estas pessoas que desafiam as estatísticas e fincam sua existência numa comunidade que raramente as reconhece.

Tiago: Meu nome é Tiago Abreu e esta é a reportagem Raça.

(Abertura Introvertendo)

Tiago: Vitor Costa Rodrigues tem 23 anos. Jornalista, ele é um dos diretores da associação Núcleo de Apoio e Inclusão do Autista, o Naia, localizada em Goiânia. Diagnosticado com autismo, reside com a família no bairro Cândida de Morais, na mais periférica e estigmatizada região da cidade, a noroeste.

Tiago: Nem toda pessoa negra se reconhece como tal de imediato. Por isso, eu tinha curiosidade de saber se houve algum momento em que isso ficou explícito. E Vitor recorda-se bem quando percebeu que era uma pessoa negra.

Vitor: Olha Tiago, eu comecei a me identificar com as questões da causa negra há pelo menos uns cinco anos. Foi quando após um episódio desagradável que meus pais sofreram, tudo porque na época estávamos reformando a nossa casa e aí os meus pais estavam aqui na rua de casa colocando pra dentro do nosso quintal um carregamento de telhas. E de repente os dois foram abordados por um vizinho que perguntou para ambos quanto cada um estava recebendo pra colocar aquelas telhas dentro do quintal, sendo que, na verdade, os dois que eram os proprietários da casa. E por mais que, num primeiro momento, tenhamos lidado com essa situação no bom humor, por outro lado isto revela o quanto a sociedade brasileira ainda é bastante racista. E que embora hoje seja considerado crime, esse problema acontece bastante de forma bastante velada na nossa sociedade. E o start que me fez reforçar esta identificação com a causa da negritude foi sem dúvida quando tive a oportunidade de assistir no cinema o filme Pantera Negra, que como todos sabem, foi a primeira produção de Hollywood feita por somente atores negros, que até então, em todas as produções que já tive oportunidade de assistir, eram retratados apenas com papéis secundários, sem nenhum tipo de relevância.

Tiago: Aqui vale um parêntese. A região noroeste de Goiânia começou a se formar no final da década de 1970 a partir da ocupação de famílias no território de uma fazenda chamada Caveiras. As pessoas que residiam nesses bairros, em plena década de 1980, conviviam com a violência e o isolamento do resto da cidade. Alguns desses lugares só receberam asfalto nos anos 2000. Mas voltando ao Vitor, ele já passou por uns maus bocados nessa jornada até a descoberta de ser autista, como todo autista adulto. Então, pedi pra que ele contasse um pouco sobre isso e se ele enxergava alguma relação com o racismo.

Vitor: Já aconteceu, sim, várias vezes situações de desrespeito dos médicos que me atenderam, né? Principalmente durante o processo de descoberta do meu diagnóstico, onde no primeiro momento a minha psiquiatra que me atendeu no serviço público de saúde aqui em Goiânia havia me diagnosticado com esquizofrenia paranoide sem pedirem sequer nenhum tipo de exame que pudesse trazer alguma contraprova ou mais detalhes sobre este problema que ela tinha diagnosticado. E aí não foi só essa situação, minha mãe foi questioná-la sobre se era isso mesmo de fato o diagnóstico, ela simplesmente falou pra minha mãe que “quem fez a faculdade aqui sou eu”, e aí a minha mãe ficou triste, mas ao mesmo tempo espantada com uma resposta tão ríspida por parte de uma profissional da saúde pública que é paga com o nosso dinheiro. Mas situação relacionada ao racismo, graças a Deus, eu nunca passei por nenhum dissabor.

Fernanda: Eu cresci na periferia de Belo Horizonte. Eu estudei toda minha educação básica até no ensino médio em escola pública.

Tiago: Essa voz que você ouve é da Fernanda Coelho. Ela é procuradora, tem 37 anos, e diagnosticada autista há quatro. O filho e a mãe dela também foram diagnosticados, aos 8 e 54 anos. Fernanda percebe a mãe está em uma situação de vulnerabilidade em suas características dentro do espectro por manejo inadequado da condição e vários diagnósticos errados.

Fernanda: Em questão do atraso do diagnóstico que tem, inclusive, muita carga do fato de também ser mulher, acredito que a condição neurodivergente pode ter me ajudado a enfrentar a questão da etnia. Pode ter me ajudado a não identificar com tanta facilidade situações de racismo e preconceito. Quando eu já estava adulta, passei por todo o processo de tentativa de enquadramento: alisei cabelo, pintei, embranqueci. Inclusive, porque meu tom de pele facilitava esse processo. Então, já em uma posição social mais alta do que a maioria das pessoas negras e embranquecida, eu não estava mais tão exposta a preconceito. Embora, no fundo, sempre ficasse aquela sensação de negra demais para branca e branca demais para negra.

Tiago: Mas em um certo momento ela decidiu resgatar suas características.

Fernanda: Parei de alisar meu cabelo, parei de me esforçar pra parecer com os outros. A terapia ajudou muito nesse processo. Nesse momento em que eu transitava pra me assumir como era, o preconceito social apareceu com tudo. Eu ouvi frase do tipo: “cê tá parecendo babá do seu bebê, como você procuradora, vai trabalhar com esse cabelo?” Afinal, era o meu cabelo. Foi o autismo me ajudou nesse momento também, porque eu tinha um propósito definido e a opinião das pessoas e o racismo teve pouca influência sobre mim depois que eu adquiri consciência do que estava vivendo. Interessante que no início eu não percebi que era racismo. Eu não entendia porque as pessoas estavam dizendo essas frases pra mim. Até que me chamaram atenção e me explicaram.

Tiago: Era importante sabermos dos dois o que eles achavam da participação de autistas negros na comunidade.

Vitor: Eu sinto muita falta de mais autistas negros militando dentro da comunidade do espectro e talvez não tenhamos essa participação maciça por conta da falta de informação, devido a dificuldade de se fechar o diagnóstico, principalmente nos autistas leves adultos, que é o meu caso, mas também por um erro de estratégia dessas associações e das próprias figuras públicas que militam dentro do espectro que faz com que ainda não se tenha uma quantidade massiva de pessoas negras militando dentro do espectro do autismo.

Fernanda: Sim, eu sinto falta. Como na maioria dos eventos. A questão é que há um problema sério de ausência de diagnóstico em pessoas hoje de maior vulnerabilidade social que consequentemente são pessoas negras. No caso me preocupa o fato de que a maioria das pessoas autistas negras estão sem diagnóstico ou com diagnósticos equivocados. E muito provavelmente estão com sua saúde mental em declive. Sem acessibilidade, sem qualquer acesso aos seus direitos.

Vitor: Para os próximos anos, meus principais planos são de conseguir ingressar no mercado de trabalho, ser um profissional bem sucedido e ao mesmo tempo continuar investindo na área acadêmica, além de arrumar uma namorada e, principalmente, realizar viagens para outros destinos aqui do Brasil e também pela América Latina e assim sucessivamente.

Fernanda: Na verdade, eu queria deixar claro que eu não acredito em meritocracia. Como eu disse, foi uma boa dose de sorte, uma família inclusiva, que me respeitava mesmo, não sabendo que eu era autista. Muito estudo, o hiperfoco ajudou. E muito trabalho.

Tiago: Amanhã, vamos contar a história de duas mães que vivenciam histórias com o autismo e raça. Aguarde!

Site amigo do surdo - Acessível em Libras - Hand Talk
Equipe Introvertendo Escrito por: