Introvertendo 291 – Autismo e Comorbidades

Muitas pessoas autistas podem ter outros diagnósticos, sejam transtornos, distúrbios ou doenças. Alguns chamam isso de comorbidades, outros de condições coexistentes. Pensando nisso, Bruno Frederico Müller e Izabella Pavetits recebem a médica Júlia Vitória e a psicóloga Kaoma Aleixo, também autistas, para esclarecer todas as nossas dúvidas quando o tema é autismo e comorbidades.

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Transcrição do episódio

Izabella: Olá pessoal, meu nome é Izabella Pavetits, eu sou a nova apresentadora do Introvertendo e para começar com chave de ouro, meu primeiro episódio teve problemas técnicos, então a apresentação vai ser um pouquinho diferente. O tema de hoje é autismo e comorbidades. Eu e o Bruno recebemos as convidadas Júlia Vitória, que é médica, e Kaoma Aleixo, psicóloga, para conversar sobre o assunto.

[Vinheta de abertura]

Júlia: Comorbidade é quando a gente tem um transtorno ou uma doença que vem junto de uma outra, então é quando eu tenho duas ou mais condições que coexistem. No caso do autismo a gente tem com muita frequência, por exemplo, TDAH, transtornos de ansiedade, transtornos de humor. Então quando vem um ou mais, no caso dois ou mais, nós temos uma comorbidade.

A comorbidade é uma doença ou um transtorno que acompanha. A condição associada ela não é necessariamente uma outra doença, ela pode ser uma alteração morfológica, por exemplo, cerebral, como no caso da epilepsia, que vem muito nas síndromes, então quando a gente tem o autismo nível 3 de suporte principalmente, a gente tem muitas síndromes associadas e a alteração que essa síndrome traz na morfologia cerebral acaba trazendo mais essas condições associadas.

E outras questões que não são ligações diretas, mas são recorrentes, como por exemplo as comorbidades intestinais, então as intolerâncias alimentares, a síndrome do intestino irritável, todas essas condições elas são mais recorrentes, mas não necessariamente comorbidades, elas são um a mais, uma condição associada.

Normalmente quando nós temos, principalmente mulheres no espectro, a área que eu mais trabalho, os diagnósticos com muita frequência são tardios, porque as mulheres têm um melhor desempenho na camuflagem social, que é o mascaramento, e todo esse esforço para mascarar comorbidades, ele acaba levando a esse diagnóstico tardio, porém também leva ao adoecimento mental. Então, o transtorno de ansiedade, depressão, burnout são muito recorrentes, e uma das condições mais frequentemente associadas é o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade, que é o TDAH. As referências variam bastante, mas elas falam de 50 até 70% de comorbidade.

Quando a gente tem os maiores níveis de suporte, nível 2, nível 3, com muita frequência a gente tem não só as comorbidades, mas as condições associadas. Então, epilepsia, por exemplo, que é mais recorrente nessa população, e do nível 1 ao nível 3, os distúrbios de sono também são muito recorrentes.

Onde a gente percebe muito, que chega de diagnóstico prévio, são transtorno de personalidade borderline, por conta de toda a questão emocional também que envolve o autismo, a gente muitas vezes tem dificuldade de compreender, de explicar, de decifrar as emoções, a gente pode ter reações emocionais, às vezes mais expansivas, explosivas, por sobrecarga, por reações externas e esses quadros acabam sendo interpretados como esse tipo de transtorno. A ansiedade social também acho que é um diagnóstico diferencial bem recorrente, porque é um sintoma às vezes, então eu vejo o sintoma, mas não vejo o que estava causando este sintoma. Em menor grau, eu acho que mais quando tem o TDAH comórbido também, a bipolaridade, eu acho que é bem confundida. 

Izabella: Somos autistas premiados, porque a gente tem o autismo e uma comorbidade ou mais. Eu queria saber como é cada um de vocês, o que veio primeiro, qual diagnóstico veio primeiro, qual é a história de vocês?

Bruno: No meu caso, o diagnóstico que veio primeiro foi da comorbidade, que foi depressão com 12 anos. Antes disso, eu já frequentava psicólogos desde os 6 anos de idade, mas ninguém entendia o que se passava comigo. Mas eu sempre desconfiei que tinha alguma coisa que me causava depressão ou potencializava a depressão.

Aí eu mesmo, por conta própria, investiguei transtorno de personalidade, bipolaridade, e foi uma ex-namorada minha que sugeriu que eu pudesse ter autismo. Eu pesquisei na época e realmente achei que batia muita coisa. Só que o psiquiatra que eu consultei descartou o diagnóstico, isso eu devia ter 34 anos. E aí só com 39 que eu, depois de um meltdown, apareceu um profissional que me falou que eu tinha provavelmente autismo. E aí eu fui investigar e foi confirmado o diagnóstico.

Júlia: Bom, eu tive uma infância de muita questão de timidez, muita questão de retraimento, mas uma mãe que era artista, então que me colocou para fazer tudo desde muito pequenininha, aulas de balé, de teatro, uma escola que estimulava muito o lado artístico, então isso melhorou muito o meu mascaramento, a minha camuflagem.

Eu tive um pouco mais de dificuldade quando cheguei na faculdade, mas aí eu tive meu segundo terapeuta, que foi meu esposo, que me ensinou o olhar nos olhos, a falar o que eu precisava. Ele me sentava e falava “Você só sai daqui quando você falar”, e eu em barganhava, doía aqui.

Depois da minha formação, de especialização em autismo, é que eu tive o primeiro contato com uma adolescente no espectro e me vi nela. E falei: “poxa, eu sou assim também”. Foi quando eu fiz a minha avaliação, tive o diagnóstico de autismo, de TDAH, e um ano depois a avaliação neuropsicológica também confirmou as altas habilidades de superdotação comórbida, então foram os três diagnósticos.

Kaoma: Então acho que a gente é gêmea de comorbidade, eu também tenho as três, altas habilidades, autismo e TDAH, mas o meu processo foi bem atípico mesmo para um diagnóstico tardio, porque depois de adulta eu fui descobrir que o meu primeiro diagnóstico, que foi de altas habilidades, eu tinha sido diagnosticada com 12 anos e os meus pais não me contaram, então eu não sabia (risos).

Izabella: Um segredo assim, muito legal de ser mantido. 

Kaoma: Eles não acharam que era relevante para eu saber, mas foi um processo assim que depois, eu comentando sobre o diagnóstico, meus pais “ah, mas quando você era criança a gente te levou naquele, um programa da PUC, que chama Aprender a Pensar, que é voltado para crianças com superdotação, então você passou pela avaliação”, depois eles passaram comigo para o psicólogo para fazer a avaliação e aí não me contaram (risos). Então esse foi o meu primeiro diagnóstico surpresa.

Mas durante a faculdade, quando eu estava estudando sobre psicopatologias, eu olhei para os sintomas do autismo e falei: “hum, acho que sou eu”, e na época eu fazia terapia e eu levei para a minha psicóloga. E ela falou: “não, você tá na faculdade, você namora, como assim você é autista?”. Depois eu saí da psicóloga, obviamente (risos), mas nesse processo eu falei: “ah, não vou fazer uma autoavaliação”, e fiquei com isso.

Durante o processo de avaliar uma outra paciente, mulher também, normalmente quando a gente vai fazer alguns testes ou usar algumas escalas, eu costumo fazer elas também para eu ter uma noção de tempo, de gerenciamento, às vezes ali se tem uma pergunta que talvez eu precise adaptar, e quando eu fui fazer esse processo dessa escala em específico, eu fiquei: “nossa, a minha deu mais alto que a dela, que engraçado” (risos).

E aí, nesse processo de: “hum, acho que eu tenho que buscar de novo essa avaliação”, e aí eu fui na psiquiatra, a psiquiatra de novo: “ah, você é formada”, no momento, “você é formada, você namora, você trabalha, não tem como você ser autista, mas eu vou te passar essa indicação aqui de avaliação”. “Acho que você só tem fobia social mesmo”, que foi o que a gente falou.

Recebi o diagnóstico de autismo, foi um processo pelo plano de saúde, então não foi utilizado talvez os testes mais adequados, mas eu tive o diagnóstico de autismo e depois eu fui diagnosticada pela psiquiatra e pela minha psicóloga como TDAH. Então eu quero repetir a avaliação neuropsicológica, porque eu acho que é importante, assim, não pelo diagnóstico em si, mas pela validação, é mais difícil de invalidar os testes do que invalidar a opinião clínica, mas foi esse o processo.

Então, primeiro, surpresa, foi o de superdotação, e eu acho que dificultou um pouco no meu processo também, justamente porque, como a Júlia falou, eu era uma criança tímida, que não tinha problema na escola, que não tinha problemas de adaptação, que falava quando precisava, quando conseguia conversar, então foi passando até a idade adulta. 

Júlia: Ela só é muito inteligente, por isso que ela é quietinha.

Kaoma: Ela é só muito meiga.

Izabella: Meu caso é muito parecido com o da Júlia e da Kaoma, era menina que não dava muito trabalho, que ia bem na escola, era tímida, não sei o quê, então nunca chamou muita atenção, eu tenho dois irmãos, né, e eles chamavam atenção, porque era que eles meninos davam trabalho na escola, não faziam tarefa, não sei o quê, um deles tem TDAH, então era o TDAH, que era o estereótipo do menino encapetado, então acaba que fica “esquecida”, fiquei meio “esquecida” no canto, mas eu sempre tive essa ideia, né, essa consciência de que tinha alguma coisa diferente comigo, isso desde muito nova.

Aí eu entrei na parte da pré-adolescência, que as demandas sociais começam a ser mais sérias, sérias é uma palavra, não sei se é uma boa palavra, mas complexas. E aí eu comecei a ter mais forte essa percepção de que realmente tinha uma coisa diferente e foi começando a afetar de outras formas, né, foi criando esses sintomas depressivos, de ansiedade, aí desde muito cedo eu fui procurar terapia, fui em psiquiatra, aí eu passei por vários e recebi muitos diagnósticos, muita coisa errada, que eu não falei que eu fui diagnosticada com transtorno bipolar.

Eu passei muito tempo com a psiquiatra que eu tinha a impressão que cada vez que eu ia entrar na consulta ela girava uma roleta e falava “não, hoje o diagnóstico dela vai ser esse”. Então foi muito complicado, eu nunca tinha considerado o autismo, na verdade eu nem sabia o que era autismo. Mas eu fui colega de faculdade do Tiago Abreu e ele criou o Introvertendo, que é um podcast sobre autismo, aí eu comecei a escutar o Introvertendo por causa do Tiago, né, pra eu pensar “ah, meu amigo, vou dar um apoio”. Só que aí depois de escutar vários episódios do Introvertendo, eu terminava o episódio e eu ficava “rapaz, parece comigo”, né, e tipo eu escutava e ficava “parece que estão falando de mim, loucura né”, e seguia numa boa. Aí depois de uns vários anos, né, ouvindo, que aí eu fiquei tipo “será que eu não sou autista, não?”

Aí conversei com duas amigas, uma delas a Kaoma, inclusive, perguntei “o que vocês acham, hein?”. Aí elas me incentivaram “ah, vai ver a avaliação e tal”. Daí eu conversei com a psiquiatra que estava me acompanhando na época e ela falou “não, eu acho que faz sentido sim, vai lá”.

Daí eu fui fazer, fiz a avaliação com a neuropsicóloga e eu descobri, confirmei, que eu sou autista e tive a surpresa de que além de ser autista eu tenho TDAH e discalculia, o que foi muito bom, porque a discalculia, por exemplo, eu passei a vida achando que eu era burra. Então, eu descobri que não é questão de burrice, eu tenho dificuldade com raciocínio matemático, lógico e tal. Tem muito essa questão da autodescoberta quando a gente é diagnosticado, porque começamos a entender melhor as dificuldades que temos na vida e da onde elas estão vindo. E como que as comorbidades e o autismo, eles impactam na vida de vocês?

Bruno: É um inferno ter depressão e ter que tomar remédio pra depressão, e aí o remédio te enche de efeito colateral, te dá insônia à noite e cansaço durante o dia. É uma coisa, assim, bastante difícil, e eu não contei até o final da história, né, que eu recentemente fiz uma avaliação neuropsicológica que confirmou o autismo e falou também que eu tinha TDAH e altas habilidades. Mas aí o TDAH explica muita coisa também, né, porque os esquecimentos, no caso eu sou do tipo desatento, os esquecimentos e a dificuldade de concentração. Enfim, é uma vida bastante puxada.

Júlia: No meu caso, eu tive algumas questões associadas, que não é comorbidade, mas por exemplo, a compulsão alimentar. Desde que eu me entendo por gente, eu sempre fui muito magrinha, mas era conhecida como a boa de garfo da família (risos), e compensava a exaustão do trabalho nisso. Então, desde que eu me formei, eu vivia em burnout, porque por todos os lugares que eu passava eu não conseguia, eu falava: “bom, o problema sou eu que não consigo trabalhar, sou mais fraca que as outras pessoas”, porque eu fiz pronto-socorro, entrei em burnout, fui para um posto de saúde, entrei em burnout.

Quando eu vim para Goiânia, na época que eu vim para especializar, passei por vários locais. Eu ficava a questão de um, dois meses em cada lugar, eu não conseguia sustentar. Por fim, antes do meu diagnóstico, eu conseguia trabalhar três turnos de seis horas por semana e demorava mais de 24 horas para me recuperar depois de cada um deles, então isso eu acho que foi um dos maiores prejuízos.

Depois do diagnóstico eu tentei tratar o TDAH, mas aí eu tive a depressão também por conta do uso de psicoestimulante, que eu acho que mascarou muita coisa. Hoje eu estou sem tratamento nenhum, com muito suporte à terapia, conseguindo levar relativamente bem, desde que eu só precise cuidar do trabalho, qualquer outra coisa fica bem inviável. Mas eu tenho essa sorte de ter uma rede de apoio, de ter pessoas ao meu redor que facilitam esse processo para mim.

Kaoma: No meu caso, eu sinto que às vezes o meu TDAH acaba dificultando muito mais a minha vida do que às vezes as outras questões, porque eu nunca aprendi a estudar, porque eu lia rapidinho e eu aprendia, e eu ia para a prova e eu tirava tipo um 8, 9, então eu nunca aprendi a sentar e ter rotina para estudar.

E eu lembro muito bem que teve uma época da minha vida que eu escrevi no meu diário, “nossa, eu preciso muito de rotina para eu conseguir ser funcional”, não com essas palavras, mas… E ao mesmo tempo me deixa muito entediada (risos), eu fico muito insuportável, então eu sinto que não estou fazendo acompanhamento para o TDAH no momento, mas é um processo que me dificulta muito, porque às vezes eu fico, “ah, eu estou cometendo sincericídio ou eu só estou sendo muito impulsiva agora”, às vezes é os dois (risos), mas às vezes é muito difícil diferenciar o que é o que, é porque tem formas diferentes de lidar dependendo do que é, e aí fica muito difícil de identificar e lidar com isso de uma melhor forma.

Izabella: A rigidez cognitiva aparece muito no autismo e no TDAH, elas existem, mas elas são ligeiramente diferentes de como elas se apresentam. Tem algum traço, como a Kaoma falou, que vocês têm que, alguma hora vocês simplesmente não sabem, eu não sei se é o autismo que está me “atrapalhando”, se é o TDAH que está aqui agindo, ou quem é que está nesse momento aqui na situação específica?

Júlia: Eu acho que a pior parte é a disfunção executiva, porque ao mesmo tempo, antes de eu fazer minha avaliação neuropsicológica, eu sempre achei que meu TDAH era desatento, porque eu falei: “gente, é tudo muito devagar”, e eu descobri, na verdade, que é a apresentação combinada, e descobri pela minha psicóloga, que ela me chama, me apelidou de “fazedora”, que eu preciso estar fazendo muita coisa ao mesmo tempo, e o dia que eu não faço eu me sinto inválida.

Só que não fazer também é um processo que acontece, porque a gente trava. Porque você vê aquele tanto de demanda, e para onde eu começo? Como que eu me organizo? Um pouco do TDAH, mas um pouco do perfeccionismo do autismo, um pouco por conta da superdotação, que também tem essa necessidade de bater metas, de fazer tudo certo, de ser aprovada, receber uma estrelinha de bem feito, então eu acho que a disfunção executiva é a parte que mais pesa no dia a dia.

Bruno: Eu vejo o autismo como a condição mãe, digamos assim, não sei nem se é correto essa minha interpretação, porque a depressão, eu entendo que foi um resultado de anos de um autismo que não foi tratado, de uma inadequação social, dificuldade de lidar com o mundo neurotípico, então pra mim o autismo é a condição mãe. Eu vejo dessa forma. O TDAH, eu tive o diagnóstico muito recente, eu não acho que ele atrapalhe tanto a minha vida quanto a depressão, que é uma decorrência do autismo não tratado. 

Kaoma: É difícil de você saber, tipo, ah, isso aqui é autismo, isso aqui é depressão, isso aqui é o que, porque vira uma coisa só, então é difícil pensar, ah, eles se juntaram porque eles já estão juntos, pelo menos pra mim, então é complicado. Essa disfunção executiva, ela é a disfunção executiva dos três ao mesmo tempo, o tempo todo (risos). 

Júlia: Essa diferenciação de onde acaba um e onde começa o outro dá um nó no nosso cérebro, de tentar entender realmente porque, assim, principalmente nós com diagnósticos tardios, a gente passou por esses colapsos a vida toda sem saber de onde vinha, né, então agora a gente consegue dar nome, mas eu acho que cada dia, cada etapa é um processo de entender nosso próprio funcionamento. Então a gente vai aprendendo aos pouquinhos, onde começa, onde termina, porque que era uma coisa e não outra. 

Bruno: Quando eu comecei a faculdade, assim, a primeira faculdade em termos acadêmicos eu passei tranquilamente, né, então não imaginei que eu fosse ter dificuldades com a segunda faculdade. Mas quando eu comecei, nas primeiras semanas eu tive muitas crises de ansiedade, aí eu tinha que usar o abafador. Mesmo com o abafador eu saía da sala, no meio da aula para respirar, porque tinha muito barulho, um sentimento de adequação muito grande, uma sensação de que eu não devia estar ali, entendeu? Então assim, porque os meus colegas são muito mais jovens do que eu, todas essas sensações combinadas me fizeram passar por várias crises de ansiedade, assim, no primeiro, primeiro semestre da faculdade.

Kaoma: Mais cedo, quando eu estava falando sobre não saber se isso é o sincericídio do autismo ou se isso é impulsividade, é porque justamente tem alguns casos específicos que eu consigo diferenciar, tipo, não, isso não é do meu autismo, isso é do meu TDAH, então eu consigo identificar, não, eu não estou falando isso porque eu estou tendo dificuldade de ler as coisas socialmente, eu estou tendo dificuldade é de parar de falar.

Eu tenho que tomar uma atitude para eu, por que eu estou tão impulsiva nesse momento, eu estou com sono, eu estou com fome, o que que está acontecendo, o que está me fazendo propiciar, para aumentar essa minha impulsividade. E com o sincericídio é justamente porque eu não estou tendo uma leitura muito boa do ambiente, então nesses casos eu consigo diferenciar, mas de forma geral, assim, se a difusão executiva é do autismo ou é do TDAH, acho que não faz tanto sentido para mim, por isso que eu tenho muita dificuldade. Mas acho que no fundo é meio uma coisa mais teórica e de autoconhecimento, então é um pouco complicado para cada um.

Izabella: É, eu também tenho essa dificuldade de falar, ah não, isso aqui é do TDAH, isso aqui é o autismo, isso aqui é a discalculia, eu consigo perceber quando eles estão juntos para infernizar a minha vida, mas saber diferenciar o que cada um está, qual que é o golpe de cada um, aí já é mais desafiador, e eu reparo que no meu caso fica mais difícil quando eu estou sobrecarregada por algum tipo de demanda, quando eu estou com a disfunção

executiva pega, aí eu tenho dificuldade de me organizar, eu fico impulsiva, eu fico desatenta. Aí geralmente quando é muita demanda e ainda mexe com dinheiro, por exemplo, com questão que vai em número, que eu tenho que planejar orçamentos, essas coisas, aí acabou, é o combo para dar muito ruim.

E eu tendo a pensar que nem a Kaoma, não faz muito sentido você saber, assim, faz sentido sim, mas não é como se fosse exatamente importante falar assim “ah, agora é o TDAH, agora é o autismo”, mas eu tenho essa percepção. Quando é só uma coisa ou é só a outra que está agindo, porque por exemplo, às vezes eu estou numa situação social, aí por exemplo, vamos lá, um desafio que eu tenho às vezes do autismo, claramente eu estou numa situação social e não consigo falar simplesmente nenhuma palavra.

Aí às vezes eu estou numa situação social, mas isso acontece a cada 90 anos, eu não consigo calar a boca, eu falo mais que todo mundo, aí eu já sei que é o TDAH, então tem certas situações que dá para diferenciar, mas tem outras que eu sei que elas estão juntas, mas não sei dizer quem é quem. Vocês conseguiram desenvolver durante a vida algum tipo de estratégia, algum suporte que é especialmente útil no combo de autismo de cada um?

Júlia: Como estava impossível lidar com qualquer tipo de ambiente fora, foi converter meu trabalho. Então hoje eu trabalho exclusivamente online, telemedicina. Eu acordo e atravesso meu quarto, vou pro escritório, terminou é só atravessar de volta e tá tudo certo. Então isso me tornou muito mais funcional. Hoje eu consigo fazer tudo muito tranquilo porque eu só preciso fazer dentro do meu local de conforto e segurança, dentro da minha casa, então foi uma solução, mas sei que é uma solução que para muitas pessoas é complexa

e inviável, mas eu vejo que os meus pacientes que eles conseguem ter essas adaptações de trabalhar no domiciliar, é quase que tirar o mundo das costas, é quase que tirar realmente um peso muito grande. 

Kaoma: É engraçado, porque a minha solução foi essa também, eu não consegui pensar (risos), mas assim, quando eu trabalhava presencialmente, nossa, só de ter que pensar, não, eu vou ter que acordar tal horário para eu conseguir me organizar para tal horário eu sair, para dar tal tempo, mas talvez tenha imprevisto, e era muito cansativo. Então agora que eu trabalho praticamente só online, isso me ajuda bastante. Acho que trabalhar também com a clínica é uma coisa que me ajuda a lidar com a imprevisibilidade previsível. Então eu sei que provavelmente a minha semana eu vou programar meus pacientes de uma forma, e aí três horas da tarde um paciente vai me mandar mensagem de que quinta-feira ele precisa que suba e eu tenha que mudar. Então isso acaba ajudando muito para eu conseguir me organizar.

Mas acho que outra forma também é de ter apoio social, então de me cercar de pessoas que entendem meus sintomas, e que entendem quando eu preciso de um tempo, ou quando eu fico muito tempo sem responder, eu e a Bela a gente conversa assim, ela me manda uma mensagem, um mês depois eu vou responder, aí um mês depois eu respondo ela. E aí quando a gente se encontra, tá tudo bem, tá tudo ótimo, e às vezes pessoas neurotípicas tem uma dificuldade muito grande disso, ainda bem que eu tô cercada de autistas e TDAHs (risos), então ter pessoas que entendem e que me apoiam e que às vezes conseguem nomear tipo: “não faça isso, você está sendo um pouco impulsiva”, ou “não faça isso, o contexto social não é muito adequado”, acaba ajudando bastante também, é muito importante ter uma rede de apoio. 

Bruno: O trabalho remoto é uma boa solução, realmente faz muita falta ter uma rede de apoio social, no meu caso. Agora eu até tô desenvolvendo uma rede de apoio, enfim, o NAIA nesse sentido tem sido uma boa rede de apoio pra mim. 

Izabella: Também não precisa ser assim, mega inventivo, “nossa, vai ser uma grande coisa”, às vezes o suporte é uma pessoa pra sentar, pra te escutar e falar. No meu caso, que eu falei, às vezes tem muita demanda, eu tô sobrecarregada, às vezes é só uma pessoa pra você falar “ó, tá acontecendo x, y, z, minha vida tá um caos, eu quero me jogar do prédio”, aí a pessoa escuta e fala: “não, vamos organizar isso, vamos pensar tal coisa”.

Às vezes ela te dá uma sugestão, você pode ignorar a sugestão que ela te deu, mas só de uma pessoa te dar uma sugestão, você já fala: “beleza, legal”. Então, o suporte nem sempre precisa ser mirabolante, etc, às vezes coisas simples já fazem com que a gente se sinta melhor, consiga lidar melhor com os desafios do autismo e das comorbidades, também, que é o tema do episódio de hoje. 

Júlia: Meu esposo hoje, ele chega em casa e olha pra minha cara. Aí ele faz um rastreio rápido de análise: “vamos treinar em casa hoje, não vamos pra academia, acho que vai te sobrecarregar”, né (risos). Então assim, pela minha expressão, porque quando eu tô em sobrecarga eu tenho a queda do olho, a minha fala fica mais lenta, fica mais difícil articular palavras, então ele já reconhece assim, de fazer um rastreio. Isso ajuda muito a gente no dia a dia, porque às vezes a gente mesmo não tá percebendo, às vezes a gente ia se submeter a uma situação que ia gerar ainda mais sobrecarga por ter dificuldade de rastrear essas coisas, né, a gente só vê na hora da crise.

Izabella: Queria saber se vocês têm algum recado para as pessoas que são autistas, estão desconfiando que possam ter alguma comorbidade, o que é que elas devem fazer, se querem dar algum conselho?

Júlia: A maioria das pessoas que chega com uma forte suspeita, chega porque já pesquisou, já investigou, já fez tudo que tinha pra fazer e a proporção de pessoas que realmente acaba confirmando ou que tava no espectro ou que tinha uma outra condição, como as altas habilidades que faziam alguns sintomas parecidos, essa proporção de pessoas acaba sendo alta, tem uma contabilização de que aproximadamente 75% das pessoas que buscam o diagnóstico realmente estavam no espectro.

Então acho que se você tem essa forte suspeita, especialmente se isso está te causando sofrimento, se tá causando prejuízos no dia a dia, busque porque eu tenho muitas pessoas que perguntam “mas o que vai mudar agora se eu já tenho meus 30, 40, 50 anos?”, que seja. E eu tenho pacientes de 70 anos melhorando qualidade de vida, aprendendo a lidar melhor com a família, aprendendo a ser mais sociável.

Então eu acho que independente da idade, nunca é tarde pra gente ter qualidade de vida, pra gente buscar, correr atrás da nossa qualidade de vida, de conseguir algum suporte, alguma adaptação. Então acho que o recado que eu posso deixar é esse, você se entender, ressignificar a sua história e conseguir estabelecer metas, suporte pro seu futuro, melhora muito a sua qualidade de vida. Não precisa ser tão sofrido sempre, não que a gente pare de sofrer às vezes assim, a gente não vai ter seus sofrimentos ali, mas com suporte as coisas ficam um pouco mais fáceis.

Kaoma: Eu acho que eu sou uma testemunha muito forte de, às vezes, não tem profissionais capacitados que vão avaliar, então se você tem uma suspeita, como foi o meu caso, acho que vale a pena insistir.

Então, ah, você foi num psicólogo, ou foi num psiquiatra, ou fez uma avaliação neuropsicológica e você tá suspeitando, tenta de novo, continua nesta investigação. Porque eu acho que a gente, o autoconhecimento é uma ferramenta muito poderosa, então a gente se conhece, a gente conhece. Isso acontece às vezes com, não sei se é com todo mundo, mas comigo acontece com frequência. Você ir ao médico, ele te falar alguma coisa, você fica: “hum, não vou fazer nem os exames” e procurar outro.

Então, se isso acontecer com você, com psicólogos, com médicos, com profissionais de saúde, buscar realmente, colocar no papel, colocar isso de alguma forma, colocar os sintomas, porque você tá suspeitando e levar novamente.

Bruno: Muita gente tem o diagnóstico não confirmado na primeira tentativa. Procurar um profissional de confiança que realmente entenda do assunto. Se o resultado não foi aquele que você esperava, se ficou alguma dúvida, procure uma segunda opinião, porque o diagnóstico tardio é muito capcioso.

Kaoma: Uma dica importante também, se um psiquiatra te der um diagnóstico de bipolaridade na primeira sessão, por favor, saia e procure outro, porque o diagnóstico de bipolaridade era pra ser um dos mais difíceis e às vezes os psiquiatras, eles… nossa (risos). 

Júlia: Isso é o que eu fico assim, porque a maioria das pessoas que chega, fala assim “não, olhou pra minha cara em 15 minutos e falou que eu sou borderline”. Gente, eu acho TAB e border os diagnósticos mais difíceis de fazer, porque você precisa ter uma visão de longo prazo da pessoa, não dá pra olhar pra sua cara e afirmar aquele diagnóstico, sabe?

Eu acho realmente muito complexo.

Essa parte de buscar um profissional que entenda bem do espectro, que entenda o diagnóstico tardio é muito importante. Muitas pessoas receberam “não” porque, querendo ou não, a gente teve atualizações e a medicina está sempre atualizando, os critérios estão mudando e se a gente não atualizar e não pegar essa visão atualizada, a gente vai passar muita coisa despercebida.

Então é muito importante buscar uma segunda opinião, se informar direitinho. E eu acho que o mais importante é que uma vez que você pega o seu resultado, você se enxergar naquilo ali, você falar “não, realmente sou eu, a minha história está aqui”. Porque talvez tá, pode ser que não feche para autismo, mas eu entendi a minha história, ela tá descrita ali, faz sentido pra um outro caminho, então tudo bem também. Mas tem que fazer sentido, senão vale a pena sempre uma segunda opinião.

Izabella: Aí eu gostaria só de acrescentar que eu concordo, reforço o conselho de procurar uma segunda opinião, uma terceira se for necessário, mas eu queria também falar pra vocês buscarem uma opinião, porque às vezes você tá sentindo uma dificuldade, que não tem, você tá sentindo que tem uma coisa diferente, que não é só a questão do autismo, pra vocês irem atrás, não ficar “ah, não, mas pra que eu vou mexer com isso”, ficar sofrendo em silêncio.

Então a única coisa que eu queria falar, mesmo pra complementar, porque eles já falaram tudo que eu tinha pra falar, quase só isso, que se tiver sentindo que não tá bom, porque eu sempre volto a bater nessa tecla, porque são transtornos, né, se não tiver te causando sofrimento, prejuízo, não é transtorno. Então se é transtorno, você precisa de apoio, então minha sugestão seria essa, pra você procurar o apoio que você precisa. Queria agradecer a presença da Júlia, da Kaoma, nossas convidadas de hoje, agora eu vou deixar espaço pra vocês se despedirem dos nossos ouvintes.

Júlia: Vocês me encontram no Instagram, no TikTok, pelo @dra.juliavitoria, lá tem todas as informações também sobre atendimento, eu falo bastante sobre autismo tardio, sobre espectro feminino, né, que é a minha área principal de ênfase no meu público, e é isso. Eu sempre tento ouvir também o que vocês querem que eu traga por lá, pra trazer sempre informação atualizada, informação com evidência, com base científica, então será um prazer ter vocês lá comigo.
Kaoma: Vocês podem me encontrar no Instagram como @psi_kaoma_aleixo, mas eu não sou uma pessoa que publica muitas coisas em redes sociais, por uma coisa que me sobrecarrega muito (risos). Eu tive que colocar até um disclaimer no meu WhatsApp pessoal, tipo, eu demoro pra responder, mas eu respondo, porque muitas vezes eu demorava muito. Mas se vocês se sentirem confortáveis, por favor me sigam. Obrigada por estar aqui hoje!

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Tiago Abreu | Fotografia: Nicolas Melo | Capa: Nicolas Melo | Pauta: Tiago Abreu | Técnico de som: Marx Osório | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian