Introvertendo 273 – Habilidades Sociais – parte 2

Na segunda parte, abordamos as habilidades sociais no contexto dos relacionamentos amorosos e familiares, o uso da habilidade social em ambientes de trabalho, e teve espaço até mesmo para um pequeno bate-boca sobre direitos e privilégios. Participam: Brendaly Januário, Bruno Frederico Müller, Izabella Pavetits e Marx Osório.

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Transcrição do episódio

[Vinheta de abertura]

Marx: E pensando nas habilidades sociais agora voltadas para o relacional também, porque a gente falou muito sobre socialização em trabalho, em ambientes, contexto público, contextos externos, mas o prejuízo social nas relações também, esses dias eu estava até refletindo isso com a minha esposa lá em casa, sobre a socialização do dia a dia, a socialização dentro de casa e como as habilidades sociais sem desenvolvimento afetam também os relacionamentos íntimos, tanto família, pai, filho, esposa, marido e por aí vai. Como é que vocês têm sentido isso nas relações? O processo terapêutico tem ajudado nesse sentido?

Izabella: É engraçado que quando na relação com pessoas próximas eu tenho bem menos dificuldade porque elas já me conhecem e eu já conheço elas. Porque essa estratégia que você mencionou mais cedo sobre reparar no padrão de comportamento das pessoas e entender quando ela faz tal coisa ela quer dizer isso, quando ela age assim é o sinal daquilo, para a população em geral ou pessoas que eu não tenho proximidade, não necessariamente isso vai ser o caso, sabe? Eu acho que não, e está mais sujeito a erro. E como eu sou muito rígida também, quando eu estou esperando que a pessoa aja de tal forma, quer dizer isso, aí eu chego no contexto social, a pessoa age de tal forma e ela não quis dizer isso, eu fico muito frustrada e sofro muito.

Mas assim, quando eu estou no meu contexto familiar, que eu moro com os meus pais e são pessoas que eu conheço desde sempre, por motivos óbvios, então eu acho que eles já me conhecem muito, e eu conheço eles. Acho que são as únicas pessoas no mundo que eu consigo de fato identificar, tipo: “ah não, ela ficou chateada pelo jeito que ela curvou a boca depois que ela ouviu uma determinada frase”.

Então, é engraçado que no contexto quanto mais próximo de mim, eu acho que menor essa dificuldade, então, tanto nos meus pais, que são as pessoas que moram comigo, quanto com os amigos mais próximos, que eu conheço há mais de 10 anos e que me entendem melhor. Então eu acho que quando a pessoa é mais próxima eu tenho menos dificuldade e a pessoa é mais compreensiva comigo.

Bruno: Nós gravamos um episódio inteiro sobre isso, que foi o sincericídio, que é o meu maior problema em relacionamentos afetivos e também familiares. É algo que eu estou trabalhando, mas que causou muito, muito estrago. A gente falou na gravação até de uma forma um pouco cômica, mas o estrago que causou na minha vida realmente foi sério. A dificuldade de entender os limites, a dificuldade de você estabelecer limites, saber que nem tudo que passa pela sua cabeça você deve compartilhar com outras pessoas, é algo também que eu só fui entender depois do meu diagnóstico, que tinha alguma coisa errada aí.

Brendaly: Eu acho que eu tenho uma experiência parecida à da Izabella. Pessoas próximas em relação à interação não tenho tantas dificuldades. Minha família, minha mãe é autista, então… (risos). O problema, ah não, mas tem um problema que eu lembrei. Porque, por exemplo, eu tenho problemas de comunicação e a minha mãe tem problemas de comunicação. Então, aí às vezes a gente vai falar sobre algum determinado assunto, aí eu não entendo e ela não entende. Aí fica um pé de guerra, porque eu tento entender o que ela tá falando e ela… Às vezes a gente brigava muito. Depois do diagnóstico, aí a gente para e tudo assim: “Ah, você que é autista aqui, calma” (risos). Minha mãe fala muito isso. “Calma, autista aqui, vamos conversar”. E aí a gente consegue minimamente ali ter a troca e entender o que o outro tá falando. Mas é em relação a esses pequenos ruídos de comunicação que acontecem. 

Marx: A comunicação nos relacionamentos é uma questão que a gente só percebe o prejuízo quando você vai conviver com a pessoa. Eu falo porque quando eu fui morar com a minha companheira/esposa, os problemas de comunicação começaram a gerar prejuízo e questões e… Houveram muitas questões relacionadas com a minha comunicação ruim, com a minha comunicação não assertiva às vezes, e o processo terapêutico foi bem longo e que eu não imaginava que eram as razões de eu viver em pé de guerra com meus pais, por exemplo, no tempo que eu morava com eles.

E que eu consegui enxergar isso só depois do relacionamento amoroso adulto, porque… Porque eu entendi que aquela máxima de que muita gente naturaliza conflitos e comunicação ruim de família, pelo fato de ser família, por todo mundo ser parecido. E quando você vai pra fora, você vê que na verdade o problema está na falta de habilidades sociais e de compreensão sócio-afetiva.

Eu vejo que sem o diagnóstico, sem as terapias que eu tô fazendo, sem o acompanhamento que eu tenho feito, dificilmente o meu relacionamento teria ido pra frente ou eu estaria com alguém hoje, porque a convivência se tornaria impossível em algum momento. E eu acredito que a maioria dos autistas passa por isso em algum momento, ou não entender o que precisa mudar em algum momento, ou não receber o diagnóstico e a terapia mostrar o que que tá ruim.

E tava ruim, tava péssimo, eu era péssimo, enquanto o meu sócio-afetivo antigamente era muito ruim. E o prejuízo emocional que isso traz, como o Bruno comentou bem aí, ele é… como é que fala? As feridas emocionais são irreversíveis. Mas a gente consegue reconstruir, se fizer do jeito certo, sim, é possível. E normalmente eles são em lugares novos com pessoas novas. Para a maioria das vezes. Família a gente não escolhe, então… ou acaba tomando o caminho de reconciliar e procurar um novo jeito de conviver ou ficar longe mesmo, dependendo do contexto.

Izabella: Isso que você falou agora me lembrou uma coisa que eu comecei a perceber depois que eu fui diagnosticada e comecei a fazer terapia com uma psicóloga que entende de autismo, né, fiz várias outras terapias, mas era com psicólogas aleatórias, eu também não tinha diagnóstico, era outro contexto, né. Mas, por exemplo, a comunicação direta é importante pra mim.

E eu reparo muito que lá em… eu falei que lá em casa era muito bom, que todo mundo se entendia, mas, por exemplo, minha mãe tem o costume de ao invés de querer que você lave a louça, ela pega e fala assim, nossa, podia… eu tô lá na sala, ela fala assim: “ah, alguém podia lavar a louça, né”. E, tipo, ela não fala comigo. Ela solta, alguém podia lavar a louça, aí eu tô lá assistindo TV: “uai, podia mesmo, né”. 

(Risos)

Izabella: Ela não falou comigo. Sabe, tipo, qual é a dificuldade da pessoa? E, não sei, eu acho que talvez… não sei se isso aí, por exemplo, eu confesso que eu não sei se é uma questão do problema… Eu não vou chamar ela de neurotípica porque, apesar dela não ter nenhum diagnóstico, eu acho que ela não é neurotípica. Mas, assim, né, é uma questão de ruído, de comunicação, que não deixa de ser uma falta de habilidade social também.

Pensando no meu contexto de pessoas próximas, no caso dos meus pais, é essa coisa de não comunicar diretamente o que eles querem, não sei o quê, o que eles acharam, quando eles acharam algo ruim, ou ficar só dando sinais, né, e não explicar muito bem. Muitas vezes acontece alguma situação, aí na hora eu fico, uai, mas por que que meu pai e minha mãe estão agindo dessa forma? Aí depois eu vou questionar eles, “ai, mas eu deixei esse sinal aqui pra você entender no contexto o que era isso que eu queria”.  Eu fico, uai, mas eu não entendi, uai, como que eu ia… eu não leio da sua mente. E na cabeça deles tá claríssimo, muito bom.

E eu tenho um grupo de amigos que é mais próximo, e nesse grupo tem uma amiga minha que também acabou, que foi diagnosticada com autismo depois. E uma vez a gente teve uma briga muito séria. Eu não lembro exatamente qual era o assunto, mas foi justamente por uma questão dessa de comunicação, que na minha cabeça eu tava falando de uma forma muito clara, e ela interpretou a frase de forma completamente diferente. Isso deu uma briga tão séria que a gente quase rompeu a amizade.

Então, assim, é só pra trazer esse contraponto que eu também acho, né, eu também, como eu falei, eu espero mais compreensão, tenho mais expectativa em relacionamentos com pessoas autistas, mas não necessariamente isso vai se traduzir em uma amizade que todo mundo… né, você vai sempre se compreender, que não sei o quê. Então, assim, eu tenho essa amiga que a gente se conhece tem mais de 10 anos, e a gente quase rompeu por conta de um conflito, que eu juro que eu não lembro qual que era o contexto, mas foi uma frase que eu falei que eu achei que eu tava sendo claríssima, e ela entendeu o oposto e ficou muito ofendida.

Brendaly: Em relacionamento também, quando eu comecei com a Polyana, uma das coisas que eu tive muito problema em comunicação, eu falava assim, a gente se ligava, né, todo dia, conversava bastante, eu falava assim: “olha, eu tenho muitos problemas de comunicação”. Ela falava assim: “ah, não percebo”. Eu falei assim: “eu tô te avisando, né, que eu tenho muitos problemas de comunicação”. “Eu não percebo”. E toda conversa eu tacava essa. Ela: “nossa, parece que você tá tentando me afastar”, e: “não, eu tô te avisando, porque esse momento vai chegar, já passei por isso inúmeras vezes, com pessoas, com amigos”. Aí quando chegou o momento, ela disse: “nossa, você tem muitos problemas de comunicação” (risos). “Eu avisei, eu avisei”. 

Izabella: Você não pode dizer que você não foi avisada.

Marx: Bom, pelo menos você avisou, porque na maioria das vezes a pessoa não avisa, porque você não quer espantar, ainda mais na paixonite do começo do namoro. Mas ela vai descobrir mais cedo ou mais tarde, é inevitável. Bom, pessoal, então pra gente encerrar o nosso papo aqui hoje, eu só queria deixar uma reflexão sobre as habilidades sociais no contexto também do mercado de trabalho. Eu falei sobre o contexto profissional, num contexto onde eu já tô no ambiente profissional, porque eu sou concursado, e eu sei que no ambiente de trabalho que é CLT, ou que é empresa privada, existe uma pressão social e um risco de incerteza no trabalho por conta disso ser muito maior, e eu sei que muitos autistas enfrentam isso, tanto barreiras da comunicação para conseguir entrar nas empresas, experiência de quem já foi reprovado em entrevista de emprego e nem sabe porquê até hoje.

Acho que eu tô começando a descobrir o porquê agora. É porque as entrevistas de emprego servem para avaliar o seu perfil social, e quando você não responde socialmente ao que eles esperam, eles te descartam mesmo. E sobre as habilidades sociais para convivência no ambiente de trabalho, como eu já falei, são extremamente importantes, porque conflitos onde tem pessoas convivendo, eles são naturais, naturalizar que eles vão acontecer, por N razões, e que a gente tem que saber como lidar. E normalmente se o conflito envolve a gente, exige mais ainda.

E eu imagino que pra vocês situações como essa devem ter acontecido em algum momento, e no meu caso aconteceu. No primeiro momento eu meio que tive dificuldade, tive que pedir desculpa pra um monte de gente, mas no segundo momento eu já consegui lidar de uma outra forma e conduzir melhor, entendendo que aquilo ali faz parte do processo e não é uma coisa que não deveria acontecer e ficar naquele movimento e tentar fugir daquilo, ou tentar ficar se defendendo, ou levar pro coração. E não levar as coisas pro coração também é uma habilidade social. E aí pra gente encerrar eu queria que vocês falassem sobre as dificuldades que vocês ainda enfrentam em contextos profissionais/estudantis. 

Izabella: Eu sou concursada hoje, mas eu tenho questões antes disso e agora, né, depois que eu assumi meu cargo. Antes minha principal dificuldade era em entrevista de emprego, porque o que acontece? Em entrevista de emprego tem muita avaliação daquilo que o corporativismo chama de soft skills, que no bom português são basicamente habilidades sociais, né. Então, chegava na hora de avaliar esse tipo de coisa e eu sempre fui reprovada.

Então, nunca tinha conseguido, nunca fui aprovada em nenhuma entrevista e eu acho que se não fosse realmente o fato de eu ser concursada, isso continuaria sendo um problema. Mas aí, beleza. Você pensa: então você tá concursada, acabou o problema, não tem, tá tranquilo. Não, tanto é que o Marx também é concursado e tem problemas. 

(Risos)

Izabella: A minha maior dificuldade é porque, duas na verdade. Uma, porque eu trabalho num lugar que mexe com político. E então, tem muita coisa que fica escrita nas entrelinhas, porque é político, então você tem que ter essa malícia para entender. E como eu sou jornalista, então você tem que saber identificar quando ele tá falando, quando as coisas são de uma determinada forma, saber o que é mais importante colocar em um texto, o que pode ir pro site, o que não pode ir pro site.

Então, assim, quando eu entrei eu tinha muita dificuldade, porque eu não sabia, aí eu ia lá e perguntava pra chefe: “ó, isso aqui pode”, ou né, “como que eu ajo em tal situação?”. Ó lá: “nessa situação você vai agir assim”. Aí minha cabeça rígida: “ah, então tá bom, toda vez que isso acontecer eu vou agir desse jeito”, né. Aí beleza. Na segunda vez que aconteceu isso eu agi da mesma forma, ela: “Izabella, por que você fez isso?”. Aí eu já fiquei: “mas não era pra agir dessa forma?”. Aí ela: “não, eu falei naquela vez, você tem que avaliar constantemente”.

Aí eu tentei explicar pra ela, isso foi depois que eu fui diagnosticada, aí eu falei: “olha, eu sou autista, eu preciso dessa compreensão extra, eu preciso que você me ajude”, que… E eu pensei com ela sobre várias adaptações que eu precisava pra funcionar bem ali. Falei tudo pra ela, não sei o quê, e várias das solicitações, adaptações que eu sei que eu tenho direito por lei, ela falou: “ah, não, mas isso aí é questão de costume, isso aí é habilidade básica de jornalista”.

E assim, eu sei que foi uma decisão muito questionável da minha parte fazer jornalismo sendo autista, com muita dificuldade de relacionamento interpessoal, e até hoje eu questiono isso. Mas, por exemplo, me machucou muito, sabe, ela falar isso. Eu abri meu coração mesmo com ela, eu nem quis, eu podia muito bem chegar com um laudo assinado pela psiquiatra e falar: “ó, tá vendo isso aqui, você é obrigada por lei, e eu quero que você me ajude”. Não, eu sentei pra conversar com ela, falei das minhas dificuldades e ela, basicamente: “ah, não, isso aqui é costume”. E por que isso é relevante no episódio? Porque a grande parte delas estava relacionada justamente com essa questão de habilidades sociais e de interagir com as pessoas, com o ambiente, e não teve. Aí essa foi uma situação.

Outra situação foi que eu, na minha cabeça, tipo, eu gosto muito quando as pessoas me dão retorno dos trabalhos que eu faço. Não, ficou legal, não ficou legal. E ela, ninguém estava falando nada. Aí eu achei que estava tudo certo, porque, né, na minha cabeça, se tivesse alguma coisa errada, alguém ia falar alguma coisa.

Marx: Não, e não. Às vezes o povo não vai falar (risos).

Izabella: Pois é, eu fiquei pensando: “ah, se o serviço estiver com algum problema, eu estiver deixando a desejar de alguma forma, eu vou ser avisada”. Mas aí, recentemente, eu tive acesso a uma ficha de avaliação que a minha chefe fez de mim, ela me avaliou com critérios baixos, mas foi, tipo assim, regular, justamente na parte de relação interpessoal. E tudo foi, tipo, sei lá, assim: ah, necessita-se relacionar melhor com os colegas, integrar melhor com a equipe.

E aí eu fiquei assim: gente, mas, um, que eu já tinha explicado para ela que isso era uma questão que eu precisava de ajuda, era difícil para mim. E dois, que ela, né, simplesmente foi lá e colocou nota ruim, sabe? Além de não me ajudar, ela ainda me avaliou, tipo, com nota baixa. Ah, qual é o prejuízo prático da nota baixa? Nenhum. Mas eu levei para o coração, que é o que o Marx falou, tipo, ah, é uma habilidade, você não levar as coisas para o coração, mas é uma habilidade que eu não possuo. Então, assim, eu levei muito para o coração…

Marx: Eu só queria apontar uma coisa que eu, isso aí que você falou, eu acho que a gente não pode deixar passar, que lidar com o capacitismo e com a falta de noção mesmo de alguns chefes, de algumas pessoas que a gente vai se relacionar no trabalho, é uma habilidade também que tem que ser desenvolvida, sabe por quê? Porque, infelizmente, quando você está num ambiente que você está ganhando seu pão de cada dia, muitas vezes você não vai poder ficar tentando provar para as pessoas algumas coisas. É lógico que se algum dia você tiver uma crise por conta disso, se você tiver uma desregulação, se você pegar um atestado psiquiátrico, um burnout, qualquer coisa que seja relacionada a eles não respeitarem suas limitações, isso vai ficar feio para eles e eles vão ter que aceitar da pior maneira possível que você é autista.

Por isso que no serviço público é importante você apresentar o laudo, sim, apresentar a documentação para você se respaldar juridicamente caso isso aconteça, porque esse tipo de pessoa que subestima as dificuldades do autista de suporte menor como a gente, eles depois ficam se fazendo de desentendido quando a pessoa desregular: “como assim fulano de tal está desregulando dessa forma, por que isso aconteceu?”. Porque a sua dificuldade vai aparecer quando você desregular. E no seu caso, pior ainda, que a sua está aparecendo sem você desregular, está aparecendo no dia a dia e ela está ignorando. E infelizmente isso é uma realidade que a gente vai ter que enfrentar também.

E no meu caso, graças a Deus, se ele existir, eu não tive uma chefia com esse perfil aí, é um pessoal que respeita muito o meu espaço, e até hoje, lá o pessoal sabe que eu sou autista e tal, mas eu não vi ninguém questionando o meu laudo ou as minhas dificuldades por nenhuma razão. Mas claro, a sua profissão exige muito mais do soft skills do que a minha. Eu sou um técnico de farmácia, eu mexo muito mais com número do que com gente. Mas ainda assim, volta aquela história que eu falei, que o ambiente, o tipo de pessoa que você convive também influencia na forma como você vai desenvolver, e o seu ambiente de trabalho pode estar te forçando a desenvolver habilidades sociais, não só de se comunicar melhor, mas também de saber conviver com a ignorância de algumas pessoas, e que às vezes dói mesmo. Mas vai fazer o quê? Ela é sua chefe, né?

Se talvez você tentar fazer alguma coisa pra melhorar, nem que seja um pouquinho das coisas que ela acha que você precisa melhorar, talvez possa te ajudar a ter menos estresse. Mas você nunca vai conseguir chegar no nível que ela talvez espere que você chegue, que é de neurotipico. Agora, cuidado com a sobrecarga, porque a crise pode vir. E eu acredito que não vai precisar chegar nesse ponto. E você deve trabalhar isso na terapia também. E isso é uma realidade de muitos autistas, de muitas vezes esperar chegar na crise, no esgotamento, pra poder realmente peitar e falar: “eu sou autista, vocês vão ter que me respeitar, e eu tô sendo desrespeitado”. É complicado, mas acontece.

Izabella: A gente tem uma segurança diferente por ser concursado, porque se fosse no mercado de trabalho, eu tenho certeza que se por um acaso eu tivesse conseguido ser contratada e essa mesma situação tivesse acontecido com essa chefe, mas numa empresa privada, ela não ia. Na primeira vez que eu tentei conversar com ela e pedir compreensão, pedir adaptações, ela ia falar: “não, aqui não, tchau”. Então, a gente ainda tem essa segurança extra, mas de qualquer forma, sim, é complicado, e é mais um desafio.

Marx: E aí entra no ponto que eu penso, e é polêmico essa opinião, que a gente tem que chegar num equilíbrio. Que é você conseguir desenvolver essas coisas que estão ruins até o ponto que você conseguir, e eles também compreenderem que você só vai conseguir chegar até ali. E talvez você não vai conseguir melhorar mais que aquilo naquelas áreas. E isso não é demérito, porque você é muito boa em outras áreas, nas hard skills, profissionalmente. E se a chefia não consegue chegar num acordo, porque também não adianta você chegar lá e falar: “ah, eu quero que você me compreenda e eu não vou fazer nada a respeito das coisas que eu preciso melhorar também”. Não é por aí também. E tem… eu acho que eu já vou ser cancelado por um monte de gente por estar falando isso aqui, mas na vida real, no mundo dos adultos, a gente tem que estar negociando o tempo todo. E negociar é uma habilidade social também.

Brendaly: Eu faço doutorado em antropologia social na UFG. Então, eu tenho dedicação exclusiva, com bolsa, o que não deixa de ser um privilégio (risos).

Marx: Não é um privilégio.

Brendaly: É sempre importante pontuar.

Marx: É um direito, porque você dedica sua vida…

Brendaly: Não, é um direito, mas também é um privilégio.

Marx: Não é privilégio!

Brendaly: Não, é um privilégio. É um privilégio.

Marx: Mas segue o assunto.

Brendaly: Não, não, é lógico que é um privilégio, porque…

Izabella: Você conquistou, você merece.

Brendaly: Não, eu não sou a favor da meritocracia.

Marx: Siga o assunto!

Brendaly: Não, não, não, não. É um privilégio, porque existem muitas pessoas autistas que estão no doutorado, no mestrado, não tem bolsa, precisa ficar trabalhando até mais tarde, e vão pra faculdade, às vezes, de ônibus, de tudo. Então, assim, chegam na faculdade extremamente sobrecarregados, então, o mínimo que eu tenho, que é uma bolsa, eu acho sim, e é isso aí, eu vou defender que é um privilégio. Então, não é porque eu sou autista que eu não tenho privilégios, e eu vou defender isso, que eu tenho privilégios, sim. Então, voltando… (risos).

Marx: Meu Deus… Olha a dificuldade de comunicação aí.

Brendaly: Não, é um direito. É um direito, mas é um privilégio, Marx. Lógico que é um privilégio. Quantos autistas estão na pós-graduação…

Marx: Segue o baile! Vamos brigar lá fora, daqui a pouco.

Brendaly: Então, aí, o que acontece? No doutorado, eu… Eu pesquiso sobre autismo, e eu entrei no doutorado já como autista. No mestrado, eu fui diagnosticada na metade ali, né, quando eu tava fazendo, já perto da qualificação. Então, quando você entra na pós-graduação sendo autista, já, assim, sendo diagnosticada, é diferente. Então, a minha pesquisa de campo é sobre acessibilidade permanente de pessoas autistas dentro da UFG. E a gente tem um coletivo lá de mais ou menos 130 pessoas. E o tempo inteiro, a gente recebe demandas, pessoas falando sobre a questão da permanência dentro da universidade. Porque, né, pessoas autistas conseguem ingressar, né, como PCDs ali. Mas o problema é a permanência, né.

O problema é como esse autista vai permanecer dentro da universidade com as questões de acessibilidade. Porque quando fala acessibilidade, cara, a gente tem que tá falando o mínimo, assim, o mínimo. Então, questões de RU, por exemplo, que é barulhento, questões de previsibilidade, várias questões.

Marx: Habilidades sociais, foca.

Brendaly: Desculpa (risos). Então, a gente percebe isso também dentro da pós-graduação, que não deixa de ser um trabalho também, de problemas de habilidade social e que, enfim, muitos docentes não dão a mínima, assim. Infelizmente, isso acontece muito, então é um desabafo, quase. 

Bruno: É isso. Eu concordo com o Marx. A gente tem que desenvolver também, se preocupar em desenvolver nossas habilidades sociais e não ficar só esperando que os outros compreendam as nossas dificuldades e se adaptem a nós. É uma via de mão dupla. A gente tem que saber desenvolver as nossas habilidades sociais e não ficar se escondendo atrás de um laudo, de um diagnóstico, imaginando que o mundo vai se adaptar a nós. É isso. 

Izabella: É porque é muito perigoso também, depois do diagnóstico, a gente entrar nessa armadilha de achar: “não, eu tenho muita dificuldade social, então eu nunca vou conseguir desenvolver habilidade nenhuma, coitada de mim, eu vou entrar no quarto, fechar a porta e nunca mais eu falo com ninguém”. Então, é uma via de mão dupla. A gente tem que investir também em enriquecer nosso repertório social, desenvolver nossas habilidades para poder estar em contato com a sociedade, porque é muito importante. Eu sou introvertida, eu gosto de ficar sozinha, mas ficar isolado faz mal, eu acho, isso é uma opinião, que o ser humano é um ser social, então assim, você precisa dos outros, você precisa de afeto, você precisa de amigos, e para você conseguir isso, você precisa de habilidades sociais. Então, não é só apontar o dedo, eu acho que é trabalhar também para conseguir superar, né, lidar melhor com as dificuldades que a gente tem.

Marx: E pensar que o autista que não se desenvolve, ele é uma pessoa que vai ser um problema social também. A gente nunca pode esquecer disso, que nós, sem ter o desenvolvimento correto, sem ter o acompanhamento correto, a gente causa problemas para nós e para as pessoas. E isso é uma motivação também, para a gente tentar desenvolver, claro, respeitando os limites e também tendo a consciência de que existe um limite, para cada autista tem um limite, até onde a gente consegue ir. E aí o suporte, o nível de suporte existe por conta disso.

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Ficha técnica do episódio

Direção geral: Tiago Abreu | Direção de vídeo: Nicolas Melo | Assistente de vídeo: Alexandre Stacciarini | Fotografia: Beatriz Gontijo | Capa: Alexandre Stacciarini | Pauta: Izabella Pavetits | Técnico de som: Marx Osório | Edição de áudio e vídeo: Tiago Abreu | Transcrição: Michael Ulian